COVID-19: se as universidades estão fechadas, por que as escolas estão abertas?

pergunta

O jornal “Terceira Via” decidiu fazer uma matéria muito curiosa a partir de uma premissa ainda mais curiosa envolvendo a decisão das instituições de ensino superior da cidade de Campos dos Goytacazes de não retomar as aulas presenciais. É que segundo os redatores do “Terceira Via”, se crianças estão tendo aulas em meio a uma pandemia letal, por que jovens adultos não podem também (ver imagem abaixo)?

escolas abertas

Eu que convivo há um ano e meio com aulas virtuais e noto a angústia que se apossou dos meus estudantes em não poderem estar frequentando o campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), já que a maioria deles reconhece que isso seria um convite à contaminação em um país em que menos de 45% da população completou a rotina vacinal.

Assim, a pergunta que o “Terceira Via” deveria estar se fazendo é sobre como as aulas estão sendo ministradas em escolas municipais, na medida em que quem escreveu a referida matéria não se deu ao trabalho de fazer um levantamento mínimo sobre casos de infecção pelo coronavírus na rede municipal de ensino, tanto entre profissionais de educação quanto entre os estudantes cujos pais optaram por enviar os seus filhos às aulas presenciais.

O curioso é que no dia de hoje o mesmo “Terceira Via” noticiou o falecimento de mais um empresário campista em função da COVID-19. Aliás, eu já perdi a conta de quantos proprietários de estabelecimentos comerciais de Campos dos Goytacazes já morreram em função das complicações causadas pela infecção causada pelo SARS-Cov-2.  Sobre isso, não me lembro de ter lido matéria do Terceira Via.

Se estivessem dispostos a contribuir para a educação da população sobre os riscos de menosprezar as regras de isolamento social e do uso de equipamentos de proteção individual, os editores da Terceira Via iriam gastar o tempo dos seus repórteres com informação e não com tentativas mal enjambradas de pautar os dirigentes de instituições de ensino superior para atender os interesses de sabe-se lá quem.

Eu aproveito para devolver a questão proposta pelos redatores do Terceira Via: se as universidades não estão abertas para diminuir a possibilidade de mais casos de COVID-19, por que raios as nossas crianças estão sendo encurraladas em aulas presenciais?

Relatório expõe falsos planos de compromissos climáticos de grandes corporações

Promessa “net zero” da JBS prevê apoio ao desmatamento por mais 14 anos

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Após um ano repleto de anúncios recordes de promessas de emissões zero líquidas (net-zero) de corporações e governos, um novo relatório revela que os planos climáticos de algumas das principais indústrias poluidoras são baseados em medidas falsas, inalcançáveis ou insuficientes. O documento destaca a atuação de grandes poluidores para influenciar a metodologia de pesquisas sobre “net zero” em universidades de prestígio, incluindo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Universidade de Princeton, Universidade de Stanford e Imperial College London.

O documento intitulado “The Big Con: How Big Polluters are advance a “net zeroclimate agenda to delay, deceive and deny” também afirma que as grandes corporações estão agindo para que suas interpretações de “net zero” se tornem o principal dogma da resposta global à crise climática. 

A publicação foi escrita por Corporate Accountability, The Global Forest Coalition e Friends of the Earth International, e endossada por mais de sessenta organizações, incluindo ActionAid Internacional, OilWatch, Third World Network e o Institute for Policy Studies.

“É difícil não ver o fervor recente sobre o termo ‘net zero’ como qualquer coisa além de um esquema apoiado por Grandes Poluidores que é muito pouco, muito tarde”, afirma Rachel Rose Jackson Diretora de Política e Pesquisa Climática da Corporate Accountability e uma das autoras do estudo. “Estes jogadores empilharam o baralho para garantir que o mundo se concentrasse em planos que nada mais são do que lavagem verde.”

Táticas

Um exemplo de como os maiores poluidores têm moldado e influenciado pesquisas acadêmicas sobre “net zero” vem da Exxon Mobil, que reteve o direito de revisar formalmente o Projeto Global de Clima e Energia de Stanford antes que ele seja concluído. Como financiadora, a empresa também pode colocar seu próprio pessoal nas equipes de desenvolvimento do projeto.

Todas as universidades citadas têm projetos climáticos financiados por grandes produtores de petróleo, com destaque para a cooperação de longa data entre Shell e o Imperial College London. A publicação mostra ainda que as instituições acadêmicas abrigam pesquisadores de clima que são ou já foram funcionários dessas empresas, além de promover eventos sobre clima patrocinados por petroleiras ou com funcionários destas entre os palestrantes.

Além de cooptar setores acadêmicos, os maiores poluidores têm influenciado legislações com objetivos climáticos para que sejam ineficazes ou que acabem por beneficiá-las. Nos EUA, indústrias de aviação e de combustíveis fósseis pressionaram massivamente para ajudar a assegurar um crédito fiscal, chamado 45Q, que subsidia a captura e o armazenamento de carbono. Segundo o documento, é provável que essas empresas tenham lucrado milhões com a manobra, apesar de não terem uma atuação que as qualifiquem para obter o crédito.

O estudo também destaca o papel da Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA). Fundada e controlada por grandes produtores de petróleo, a organização tem trabalhado para fortalecer suas concepções de “net-zero”, influenciar o mercado de créditos de carbono e enfraquecer medidas para redução de emissões nas negociações internacionais pelo clima.

“Estamos profundamente preocupados com a captura corporativa das políticas climáticas e o crescente nexo entre governos e corporações para promover falsas soluções usando o “Net Zero” e outros conceitos ambíguos como o de Soluções Baseadas na Natureza”, diz Coraina De la Plaza, Campaigner de Clima para a Global Forest Coalition. “Eles continuam a perseguir esquemas ‘verdes’ de compensação neocolonial para colher mais lucros e poluir. Este circo de Net Zero tem que parar, o planeta e as pessoas precisam de cortes reais de emissões e metas-zero reais.”

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Planos de faz de conta

De acordo com o estudo, o compromisso da JBS, feito em março deste ano, de eliminar o desmatamento em sua cadeia de suprimentos até 2035 significa, na prática, que a empresa continuará contribuindo para o desmatamento pelos próximos 14 anos. Erradicar imediatamente o desmatamento associado à sua cadeia de suprimentos seria a maneira mais eficaz e rápida para a JBS diminuir suas emissões, afirma o texto.

Já a Shell planeja comprar mais créditos de carbono para compensar suas emissões até 2030 do que estavam disponíveis em todo o mercado global de compensação voluntária no ano de 2019. Em seu plano, a empresa também promete reflorestar 700 milhões de hectares, uma área quase do tamanho do Brasil. O plano fantasioso da companhia rendeu uma condenação em maio em um tribunal da Holanda.

O plano climático do Walmart negligencia totalmente suas emissões da cadeia de valor, o que, estima-se, responde por 95% da pegada de carbono da corporação. Enquanto isso, a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, se comprometeu em 2020 a vender a maior parte de suas emissões fósseis no ‘futuro próximo’, mas ainda possui US﹩85 bilhões em ativos de carvão, devido a uma ‘lacuna’ em sua política.

“Este relatório mostra que planos ‘net zero’ de grandes poluidores nada mais são do que um grande golpe”, afirma Sara Shaw, coordenadora do programa Justiça Climática e Energia da Friends of the Earth International. Para ela, empresas como a Shell não têm interesse em agir genuinamente para resolver a crise climática. “Em vez disso, elas planejam continuar os negócios como de costume, ao mesmo tempo em que falam de plantio de árvores em esquemas de compensação que nunca poderão anular a escavação e a queima de combustíveis fósseis. Devemos acordar rapidamente para o fato de que estamos caindo em um truque. O “net zero” corre o risco de ocultar a falta de ação até que seja tarde demais.”

Quem desejar baixar o relatório completo, basta clicar [Aqui!]

Ecofalante lança plataforma de streaming exclusiva para programa educacional

Mais de 130 filmes de temática socioambiental ficarão disponíveis gratuitamente para uso estritamente educacional.  Ecofalante Play já nasce com centenas de professores e instituições de ensino parceiras.  Programa Ecofalante Universidades atende instituições públicas e privadas de ensino médio, técnico e superior de todo o país 

Amazonia Sociedade 

Ecofalante, organização da sociedade civil que atua nas áreas de cultura, educação e sustentabilidade, acaba de lançar sua nova plataforma de streaming, a Ecofalante Play

Totalmente gratuita, a plataforma será exclusiva para professores, educadores e instituições de ensino que desejam utilizar o cinema como ferramenta para discutir questões socioambientais contemporâneas em sala de aula.

O acervo da Ecofalante Play conta com mais de 130 filmes brasileiros e internacionais que abordam temas como emergência climática, consumo, cidades, energia, conservação, economia, trabalho e saúde, entre outros. As obras são selecionadas a partir da curadoria da Mostra Ecofalante de Cinema, evento que acontece anualmente desde 2012 e é hoje o maior festival de cinema com temática socioambiental realizado na América do Sul, tendo atingido um público de mais de 500 mil pessoas desde sua primeira edição.

Além de organizar a Mostra, a Ecofalante desenvolve projetos de cunho educacional ao longo do ano, exibindo filmes e organizando debates e formações de professores em escolas,  universidades e equipamentos culturais. A plataforma Ecofalante Play vem para adaptar essas atividades à nova realidade de distanciamento social e para ampliar e democratizar o acesso aos conteúdos oferecidos pela organização.

Ecofalante Play

A nova plataforma surge no contexto da pandemia, onde as atividades a distância são priorizadas.

Em 2020, a Mostra Ecofalante de Cinema foi pela primeira vez realizada por streaming e a demanda foi enorme, com a participação de mais de 200 mil pessoas que assistiram aos filmes e debates em quase 1.800 municípios do Brasil. Durante o evento, ocorreu uma importante participação das universidades – os professores programaram dezenas de debates a partir dos filmes que eram exibidos na Mostra Ecofalante de Cinema. Essa participação estimulou a criação da plataforma para atender diretamente o setor educacional de todo o país, democratizando ainda mais o acesso aos filmes e ao debate socioambiental. 

Para utilizar a Ecofalante Play, os professores precisarão realizar, na própria plataformaum cadastro vinculado à sua instituição de ensino, podendo assim ter acesso ao catálogo de filmes e agendar uma sessão.

Destaques

Entre os filmes que estarão disponíveis na nova plataforma, destacam-se produções premiadas em diversos festivais ao redor do mundo e que foram sucesso na edição mais recente da Mostra Ecofalante de Cinema.

No eixo Emergência Climática, a produção francesa que rodou inúmeros festivais internacionais “Breakpoint: Uma Outra História do Progresso“, dirigida por Jean-Robert Viallet, analisa 200 anos de desenvolvimento para fornecer uma visão alternativa de nossa história do progresso. “A Era das Consequências” (EUA) investiga, pelas lentes da Segurança Nacional norte-americana, os impactos das mudanças climáticas em conflitos ao redor do mundo, revelando como a escassez de água e alimentos, a seca, as condições climáticas extremas e a elevação do nível do mar funcionam como “catalisadores de conflitos”. O filme é assinado por Jared P. Scott, mesmo diretor de “A Grande Muralha Verde”, documentário produzido por Fernando Meirelles. Já “Obrigado, Chuva” (Noruega/Reino Unido) é assinado por Julia Dahr, eleita pela Forbes como uma das 30 personalidades jovens que estão definindo a mídia mundial. A cineasta acompanha um pequeno agricultor queniano para registrar os impactos das mudanças climáticas e a obra foi selecionada para os festivais IDFA – Amsterdã, CPH:DOX e Hot Docs.

O tema Consumo conta com “Ladrões do Tempo”, uma coprodução Espanha/França dirigida por Cosima Dannoritzer que investiga como o tempo se tornou uma nova fonte cobiçada. Premiada no United Nations Association Film Festival, a obra ouve especialistas para revelar o quanto a monetização do tempo, por um sistema econômico agora predominante, afeta a vida cotidiana. Temos ainda o canadense “Beleza Tóxica“, de Phyllis Ellis, exibido no festival HotDocs – um documentário contundente sobre a falta de regulação da indústria cosmética e sobre o verdadeiro custo da beleza; e “O Custo do Transporte Global“, coprodução entre a Espanha e a França dirigida pelo vencedor de mais de 30 prêmios internacionais Denis Delestrac, que faz uma audaciosa investigação sobre o funcionamento e a regulamentação da indústria de transporte oceânico – que movimenta 90% dos bens que consumimos -, assim como os impactos socioambientais ocultos.

Na temática Campo, o filme “Os Despossuídos” (Canadá/Suíça), dirigido por Mathieu Roy como um misto de cinéma vérité e ensaio audiovisual, promove uma jornada impressionista que nos revela, em uma era de agricultura industrializada, a luta diária da classe camponesa faminta. “Dolores” (EUA), de Peter Bratt, ganhou repercussão no Festival de Sundance e premiações em São Francisco e Seattle ao focalizar Dolores Huerta, líder trabalhista e uma das mais importantes ativistas dos direitos civis da história dos Estados Unidos. O austríaco “Espólio da Terra“, de Kurt Langbein, retrata investidores globais tanto em seu discurso sobre economia sustentável e prosperidade quanto em suas contradições: despejos, trabalho escravo e fim dos pequenos proprietários.

Já na categoria Povos Tradicionais destaca-se produção brasileira “Amazônia Sociedade Anônima”, na qual o diretor Estêvão Ciavatta focaliza índios e ribeirinhos que, em uma união inédita liderada pelo Cacique Juarez Saw Munduruku, enfrentam máfias de roubo de terras e desmatamento ilegal para salvar a floresta Amazônica. O documentário “Resplendor“, de Claudia Nunes e Erico Rassi, ganhou o Prêmio do Público de Melhor Curta na 9ª Mostra Ecofalante ao retratar um capítulo ainda muito obscuro da nossa história: a existência de um centro de detenção indígena, na cidade de Resplendor (MG), chamado Reformatório Krenak. “Martírio“, dirigido por Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, busca as origens do genocídio praticado contra os índios Guarani Kaiowá. A produção foi premiada no Festival de Brasília, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Mar del Plata.

 Programa Ecofalante Universidades

A plataforma Ecofalante Play faz parte do Programa Ecofalante Universidades, criado em 2017 com o objetivo de levar para o ambiente educacional uma seleção de filmes que incitam a reflexão e o debate sobre questões atuais da realidade brasileira e mundial. O programa atende instituições públicas e privadas de ensino médio, técnico e superior de todo o país.  A partir dele, a Ecofalante proporciona às instituições parceiras acesso aos conteúdos audiovisuais, técnicos e educacionais que são utilizados em atividades dos três pilares: ensino, pesquisa e extensão. Criado para atender inicialmente o estado de São Paulo, a partir de 2021 o programa passa a ter abrangência nacional.

“Já no segundo ano da Mostra Ecofalante de Cinema o setor educacional nos procurou para firmar parcerias”, informa Chico Guariba, diretor da Mostra Ecofalante de Cinema e coordenador do Programa. Segundo ele, “no começo foram os colégios privados da cidade de São Paulo, que nos procuravam para levar filmes da nossa curadoria para exibição nas escolas e incluí-los em seus currículos. Simultaneamente, professores e alunos de Etecs (Escola Técnica Estadual de São Paulo) começaram a frequentar as itinerâncias da Mostra Ecofalante de Cinema no interior do estado. Procuramos o Centro Paula Souza e firmamos um Termo de Cooperação Técnica-Educacional, o que permitiu levar os conteúdos audiovisuais da Mostra para as salas de aula e auditórios das Etecs e das Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatecs).”

Com a ampliação crescente da Mostra Ecofalante de Cinema – que passou de um público de quatro mil pessoas em 2012 para mais de 200 mil em 2020 -, o interesse do setor educacional também se expandiu. O número de exibições seguidas de debates com a participação de especialistas e docentes tornou a Mostra cada vez mais conhecida no setor educacional.

Guariba acrescenta que “a partir de 2016, grupos de professores quiseram levar recortes da curadoria da Ecofalante para organizar programações nas universidades. A relação evoluiu rapidamente e começaram a ser criadas disciplinas estruturadas com conteúdos audiovisuais da Mostra Ecofalante de Cinema.” A primeira foi a disciplina “Economia, Sociedade e Meio Ambiente na Produção Audiovisual Contemporânea”, organizada pela professora Mariana Fix, do Instituto de Economia da Unicamp. “A disciplina foi um sucesso e percebemos que havia uma mudança de qualidade na relação da Ecofalante com as universidades. Estávamos começando a fornecer conteúdos para para os três pilares das universidades: ensino, pesquisa e extensão. Assim, surgiu o Programa Ecofalante Universidades“.

Hoje, a Ecofalante possui Termos de Cooperação Técnica-Educacional com todas as universidades públicas no estado de São Paulo – USP, Unicamp, Unesp, UFABC, Unifesp e UFSCar –  e realiza anualmente centenas de sessões de filmes seguidas de debates em parcerias com dezenas de instituições de ensino no país.

Programa Ecofalante Universidades vem fomentando a realização de Mostras promovidas pelas instituições, exibições de filmes em aulas e encontros técnicos, a criação de disciplinas, cursos, mini cursos e projetos de extensão. “Não existe uma única fórmula, as relações são construídas de forma customizada com cada professor e instituição, de acordo com os diferentes projetos educacionais e respeitando as realidades regionais. Acho que é por isso que o programa está crescendo e dando certo”, esclarece Guariba.

Programa Ecofalante Universidades é viabilizado através da Lei de Incentivo à Cultura e tem patrocínio do Valgroup e da Colgate. É uma produção da Doc & Outras Coisas e realização da Ecofalante, do Ministério do Turismo, Secretaria Especial da Cultura e do Governo Federal.

No ensino superior, a grande disparidade dos cursos à distância durante a pandemia

  Para alguns alunos, as aulas online assumem a forma de arquivos PDF ou apresentações de slides, enquanto outros professores têm a opção de criar formatos interativos ou gravar suas aulas com equipamentos de qualidade

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Por Alice Raybaud para o Le Monde

Cinco objetos não identificados acabaram de aparecer na Terra. Eles são enviados por vida extraterrestre? Qual propósito ? Nesse dia, é esse o cenário em que se imergem 25 alunos do segundo ano da licença de física da Universidade de Paris-Saclay. Cabe a eles entrar em contato com cada habitante do globo que encontrou um desses objetos imaginários e ajudá-los a decifrar a mensagem que ele carrega. Para isso, devem ser ensinados, remotamente, a construir um microscópio com um smartphone ou a medir a ressonância acústica com papel higiênico.

Devido à pandemia (esta muito real), o curso ocorre online e os “habitantes” e especialistas, encarnados pelos seus dois professores, são contactados por vídeo. A ficção então passa a criar “um alento em sua vida de aluno remoto” , explica o professor Julien Bobroff. “Um trabalho de grupo participativo algo excêntrico, que os tira da solidão, mas mantém as mesmas questões educacionais e científicas” , acrescenta o físico, que já experimentava, antes da crise, esse tipo de formato presencial.

Grande heterogeneidade

Interatividade, lúdico, criatividade … Todos os alunos estão longe de ter acesso a esse tipo de curso, desde a mudança para a educação a distância. Passado o espanto inicial do primeiro confinamento, a organização dos cursos online permaneceu muito díspare segundo as instituições, setores e professores – uma grande heterogeneidade que, graças à crise, evidencia as desigualdades estruturais da região.

Além disso, se alguns jovens que entrevistamos se congratulam por terem um bom suporte por meio de seus cursos online, outros dizem que estão se afogando em horas de monólogos frios afixados em apresentações de slides. Alguns alunos chegam a dizer que são “abandonados” pelos professores.

“Alguns professores nem dão aulas de vídeo e apenas nos enviam PDFs. Posso ter a mesma coisa pesquisando na Wikipedia ”, aponta um estudante de história de 20 anos em Lyon-III, que observa que a “ exclusão digital ” “ também ” afeta os professores.  Natcha, no terceiro ano de licenciatura em Ciências Políticas em Lyon-III só recebe áudios gravados em algumas disciplinas, e em outras apenas PDFs.

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Este é um estrato de um artigo escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal “Le Monde” [Aqui! ].

A pandemia e a ignorância tecnologizada assediam as universidades

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Por Isaac Enriquez Pérez*

Formada na Europa ao longo do Século X como uma organização – embora sob o controle da Igreja Católica – orientada para a sistematização do conhecimento, e consolidada durante os séculos 18 e 19 como um bastião da reflexão e pensamento crítico e anticlerical , a universidade contemporânea – pelo menos desde os anos de 1970 – está sob o olhar atento do burocratismo, da corrupção, dos interesses adquiridos, do estabelecimento de pensamento hegemônico neoconservador e pós-moderno, negação e a ultra especialização de suas disciplinas e conhecimentos compartimentados.

A essas ameaças são adicionadas várias crises; a saber: a) cortes no orçamento, que se traduzem em privatizações de fato da universidade pública e uma reconversão silenciosa do direito do cidadão à educação em um serviço voltado para usuários ou consumidores. b) O fundamentalismo de mercado não se expressa apenas na disciplina fiscal e no “austericídio” da universidade pública, mas na irradiação sutil de uma racionalidade tecnocrática que favorece o individualismo e a gestão empresarial (a suposta meritocracia que prevalece nas avaliações e acreditações do trabalho acadêmico). c) A mercantilização da ciência e do conhecimento e sua desapropriação como bens públicos globais, com vistas a formar um paradigma tecnocientífico sujeito à rentabilidade das grandes corporações. d) a precariedade de suas relações de trabalho nas universidades; especialmente aqueles acadêmicos que trabalham por horas e sob contratos temporários. E e) a crise epistemológica, que paira sobre as formas convencionais de construção e transmissão do conhecimento e se origina na fragmentação e dispersão do conhecimento, assim como o fim das certezas e cegueira do conhecimento..

As nuvens cinzentas que posicionam a tecnificação do conhecimento e a trivialização de valores como a verdade não são suficientes, nos cenários abertos pela crise epidemiológica contemporânea, destaca a difusão e imposição do treinamento telemático universitário como mecanismo para evitar contágios após a radiação do Coronavírus SARS-CoV-2. Países europeus como Itália e Espanha anunciam a extensão da atividade de ensino on-line para o próximo ano acadêmico. Até universidades americanas e estrangeiras anunciam o retorno às salas de aula presenciais até 2022, mesmo sem riscos epidemiológicos.

Deve-se destacar a noção de universidade ou educação a distância: embora as tecnologias da informação e comunicação contribuam para a massificação do conhecimento e aproximem o processo de ensino / aprendizagem de amplas camadas da população que sofre exclusão social Nos sistemas educacionais tradicionais, a educação a distância é um complemento para a universidade presencial e não seu substituto. Com a universidade on-line, é possível atingir populações defasadas que, na época, não gozavam do direito à educação, seja por falta de renda, tempo, motivação ou disposição. Mulheres que interromperam o treinamento escolar devido à maternidade prematura; jovens que foram forçados a entrar no campo do trabalho e que cancelaram ou adiaram suas expectativas educacionais; adultos que abandonaram, desde a juventude, a possibilidade de treinamento; e outros candidatos rejeitados nos processos de admissão de universidades públicas, têm a oportunidade de retomar seus estudos com as vantagens oferecidas pela educação on-line em termos de horários e formas de aprendizado flexíveis e adaptáveis.

Além disso, essas tecnologias contribuem para a disseminação massiva de conhecimento. Através do chamado acesso livre, é possível fazer coleções científicas, humanísticas e artísticas inestimáveis que ofereçam respostas aos grandes problemas mundiais à disposição da humanidade.

No entanto, com a pandemia de COVID-19 é alimentada a obsessão de prefigurar uma cidade virtual que apela não apenas ao distanciamento físico, mas também ao distanciamento em formas de socialização. Entronizando assim a atomização da sociedade e o individualismo hedonista .

O conhecimento é, por sua própria essência, uma construção social; um processo coletivo de criação que merece interação e proximidade com os outros. Não é uma tarefa estereotipada de indivíduos isolados em laboratório e fora do mundo externo, nem visa seguir determinados protocolos. Existe uma interação estreita de gnosia / práxis, que adquire o caráter de totalidade articulada, logo que diálogos multidirecionais são construídos e a noção de comunidade acadêmica é moldada com o objetivo de criar significados que configuram o sentido da realidade através de uma linguagem dotada de conceitos e conceitos. categorias. Essa linguagem só pode ser criada em interação com “a outra” e no âmbito de um processo de conscientização e empatia que mereça proximidade física e que, além disso, no caso das universidades,

A interação física é essencial na relação professor / aluno e aluno / aluno, pois reproduz padrões simbólicos e de convivência que excedem em muito a escola. Os debates coletivos em sala de aula, nos corredores, nos espaços comuns das universidades, são cruciais para a construção do conhecimento e a formação da cidadania.

O estabelecimento massivo da universidade a distância significa isolar o aluno em uma sala, acompanhado por uma tela que, embora crie ação social desacoplada da presença física em um determinado espaço, não transcende uma lógica de comunicação multidirecional e práticas coletivas que permitem deliberação fundamentada além do efêmero e das ansiedades que ele gera. Nesse sentido, a universidade a distância faz parte do chamado Screen New Deal e da reprodução de relações assimétricas de poder, associadas ao novo padrão de acumulação bio / tecno / científica.

Historicamente, a universidade era a trincheira da luta – através de idéias – contra dogmatismos teológicos, totalitarismos, racismo, desigualdade de gênero e o caráter exclusivo do capitalismo. Contudo, diante da biossegurança, da higiene e do estado higienizante que lhe é inerente, o pensamento crítico que emana das universidades é praticamente entorpecido, domado e prostrado; esvaziamento do conteúdo antes do bombardeio do apocalipse da mídia (Aqui!), o desendêmico e o ataque ao conhecimento racional (Aqui!) que superdimensionam as características e os impactos da pandemia. Isso significa que, em meio a uma nova crise civilizadora, a universidade está ausente dos contrapesos que devem ser colocados diante do dogmatismo contemporâneo, da indústria da mentira e da construção de infraestrutura para a biovigilância através de alta tecnologia ( inteligência artificial, nuvem virtual, Internet 5G e robotização).

O aprendizado remoto é uma das tendências que se aceleraram com o advento da pandemia de COVID-19. A infraestrutura digital para conectividade é parte integrante dela. No entanto, como a tecnologia não é neutra, está ancorada na estrutura contraditória e desigual de poder e riqueza.

O problema da universidade antes da grande reclusão reside na incapacidade dos primeiros de organizar, de maneira sistemática, a reflexão em torno dos problemas públicos contemporâneos. Ao contrário de sua história milenar e de suas críticas aos poderes, a universidade contemporânea sucumbe a si mesma e direciona suas energias, confrontos e interesses faccionais para erradicar o pensamento crítico e a construção de alternativas e alternativas teóricas, artísticas, humanísticas e de vanguarda. ideológico / político. Subjugada pelas tecnocracias universitárias e pelos labirintos e chicotes do mercado, a universidade rompe com sua essência e funções históricas, estabelecendo e institucionalizando a ignorância tecnológica em seu cerne.

Estufas de teorias críticas e tradições de pensamento; templo da dúvida e questionamento sobre o status quo ; educador de elites políticas, artísticas e intelectuais; habitat natural do corpo discente como um modo de vida; e no cenário da inovação científica e tecnológica, a universidade está ameaçada pela digitalização maciça do processo de ensino / aprendizagem e, ao mesmo tempo, enfrenta os riscos e ansiedades que o cyberleviathan , o panopticon digital e o regime de bio/techno geram e implantam. Totalitário, comprometido em colocar emoções antes da razão e controlar corpos, mente e consciência no contexto da era pós-factual .

Embora as tecnologias contribuam para a solução de problemas públicos, deve-se enfatizar que elas não são uma panacéia, nem todas as soluções passam pela peneira tecnológica. Pelo contrário, seu uso indiscriminado pode abrir outros problemas públicos que ampliam abismos sociais e exacerbam desigualdades. A universidade a distância não sairá dessas tendências e de processos mais amplos, como a (re) concentração de conhecimento e o poder derivado de sua posse e uso.

Em seu trabalho A Metafísica da Juventude , o filósofo alemão Walter Benjamin falou da unidade da consciência e a vontade responderia que elas se formaram na era estudantil. Ele consegue observar que nas universidades de Berlim do início do século XX prevalece a dissociação do aparato profissional do conhecimento e que a vida estudantil é diminuída pela miséria espiritual. Hoje não estamos separados desses espreitadelas.

O caráter distante e efêmero que a educação a distância gera em seus ambientes pode exacerbar essas misérias e acentuar a ignorância dos alunos e a petrificação dos professores. Este não é apenas um risco para a formação escolar e a prática profissional, mas para a própria construção da cultura cidadã e a resolução de problemas públicos. Reivindicar criticamente e não obstante interesses adquiridos, a noção de universidade e suas funções clássicas, não implica apenas colocar a digitalização – como complemento – em sua dimensão adequada, mas erradicar o mantra de mercado como o único caminho. Caso contrário, a humanidade não terá os instrumentos mínimos para enfrentar problemas globais, como epidemias – cada vez mais recorrentes e desconhecidas Aqui!).

fecho

*Isaac Enriquez Pérez é Acadêmico na Universidade Nacional Autônoma do México. Twitter: @isaacepunam

Este texto foi publicado originalmente em espanhol pela Agencia Latinoamericana de Información -ALAI- [Aqui ].

As universidades nunca mais serão as mesmas após a crise do coronavírus

Como salas de aula virtuais e péssimas condições financeiras poderiam alterar a academia: o primeiro capítulo de uma série de uma semana sobre ciência após a pandemia.

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Por Alexandra Witze para a Nature

O aviso foi publicado no dia 6 de março, sexta-feira à tarde. Todas as aulas da Universidade de Washington em Seattle – a cidade na época o epicentro dos EUA do surto de COVID-19 – mudariam para on-line na segunda-feira seguinte. Os instrutores se esforçaram para configurar opções de aprendizado remoto para mais de 40.000 estudantes. “Tornou-se evidente muito rapidamente que isso não iria desaparecer em breve”, diz Mary Lidstrom, vice-reitora da universidade para pesquisas.

Cenas semelhantes aconteceram em outras universidades ao redor do mundo. As salas de aula permanecem silenciosas, os laboratórios ficam ociosos ou operam com uma equipe mínima e os administradores discutem como retomar com segurança as aulas presenciais.

A crise do coronavírus está forçando as universidades a enfrentar desafios de longa data no ensino superior, como custos altíssimos nas mensalidades e percepções do elitismo – e algumas das mudanças resultantes podem ser permanentes. A longo prazo, as universidades podem mudar muitas classes on-line (uma tendência já em andamento), ter menos estudantes internacionais e até se remodelar para serem mais relevantes para as comunidades locais e nacionais – tanto para resolver problemas prementes quanto para provar seu valor de cada vez. quando especialistas e instituições públicas estão sendo cada vez mais criticados. “A pandemia está acelerando as mudanças de maneira tremenda”, diz Bert van der Zwaan, ex-reitor da Universidade de Utrecht, na Holanda, e autor do livro “Ensino Superior em 2040: Uma abordagem global” que foi publicado em 2017.

À medida que as universidades enfrentam grandes mudanças, suas perspectivas financeiras estão se tornando terríveis. As receitas estão despencando à medida que os estudantes (principalmente os internacionais) permanecem em casa ou repensam os planos futuros, e os fundos de doações implodem à medida que as bolsas caem.

nature 1Como a maioria das instituições, a Universidade de Oxford tem estado estranhamente silenciosa desde que a pandemia se espalhou pelo mundo.Crédito: Christopher Furlong / Getty

As universidades que provavelmente se sairão melhor são as que são ricas e poderosas. Mas mesmo aqueles enfrentam desafios. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, oferece cursos on-line gratuitamente desde 2002, mas a maioria dos acadêmicos que lecionavam no semestre atual ainda precisava se esforçar para descobrir como mover seus materiais on-line quando a pandemia, diz Sanjay Sarma, vice-presidente de aprendizagem aberta da universidade.

De maneira mais ampla, muitas instituições estão aprendendo da maneira mais difícil que simplesmente entregar materiais de cursos através de plataformas digitais não é a melhor maneira de ensinar aos alunos. “A universidade Zoom não é um aprendizado on-line adequado”, diz ele. Sarma espera que, quando as universidades retomarem as aulas presenciais, a experiência seja radicalmente diferente – com os instrutores distribuindo as vídeo-aulas mais cedo e concentrando-se pessoalmente na interação com os alunos, para garantir que eles entendam os conceitos ensinados. “Não queremos desperdiçar nossa proximidade com coisas de mão única”, diz ele. “Tem que ser de mão dupla.”

Alguns educadores esperam que a pandemia leve a mais e melhor ensino on-line do que antes- tanto nos países ricos quanto nos de menor renda. Quando as universidades no Paquistão fecharam em março, muitos instrutores não tinham as ferramentas para ensinar on-line e muitos estudantes não tinham acesso confiável à internet em casa, diz Tariq Banuri, presidente da Comissão de Ensino Superior do Paquistão em Islamabad. Mas a comissão vem trabalhando para padronizar o ensino on-line e fazer com que as empresas de telecomunicações ofereçam aos estudantes pacotes mais baratos de banda larga móvel.

“Estamos fazendo isso no contexto do vírus, mas achamos que essas ações terão benefícios a longo prazo”, como produzir estudantes mais bem treinados para trabalhos tecnológicos, diz Banuri. Em países de baixa ou média renda, como o Paquistão, a pandemia de coronavírus pode forçar as universidades a acelerar os planos de longo prazo para melhorar a qualidade e a relevância de seu ensino.

Todas as instituições estão enfrentando grandes problemas financeiros, no entanto. Universidades privadas americanas ricas, como a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, esperam perder centenas de milhões de dólares no próximo ano fiscal. As universidades britânicas enfrentam coletivamente um déficit de pelo menos 2,5 bilhões de libras esterlinas (US $ 3 bilhões) no próximo ano por causa das quedas projetadas nas matrículas de estudantes, segundo a consultoria britânica London Economics. E as universidades australianas podem perder até 21.000 empregos em período integral este ano, incluindo 7.000 em pesquisas, informou um relatório do governo em maio.

nature 2A Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, cancelou as aulas presenciais, e os alunos agora estão aprendendo remotamente.Crédito: Andreas Gebert / Getty

Um dos maiores problemas será a queda na receita obtidas com estudantes internacionais. As universidades australianas, que dependem fortemente das taxas pagas por estudantes da China, esperam perder de US $ 3 bilhões a US $ 5 bilhões do dólares australianos (US $ 2 bilhões a US $ 3 bilhões), principalmente em taxas de estudantes internacionais, diz Andrew Norton, que estuda política de ensino superior. na Universidade Nacional Australiana em Canberra. As perdas serão concentradas em universidades de pesquisa intensiva, como a Universidade de Sydney, diz ele, porque a renda de estudantes internacionais geralmente subsidia a pesquisa.

O déficit financeiro enfrentado pelas universidades em todo o mundo pode significar que algumas, especialmente as menores, fecharão permanentemente, diz Jenny J. Lee, pesquisadora do ensino superior da Universidade do Arizona em Tucson. Outras podem se fundir. E alguns poderiam desenvolver abordagens inovadoras, como a rede de microcampus do Arizona. O programa, que foi desenvolvido e ampliado nos últimos anos, associa a universidade a uma instituição no exterior, para que os alunos possam ter aulas on-line no Arizona e ter um mentor do corpo docente local para se encontrar pessoalmente. “Com o COVID-19, de repente estamos percebendo o que acontece quando somos fisicamente afastados de outros países”, diz Lee.

Mesmo após o término da crise financeira imediata, as perspectivas econômicas podem permanecer sombrias. Alguns pesquisadores dizem que isso pode levar às universidades e agências de financiamento a se concentrarem em projetos de pesquisa e infraestrutura mais relevantes para os interesses nacionais em um mundo pós-pandemia. Por exemplo, o governo do Reino Unido está montando uma força-tarefa de sustentabilidade em pesquisa que visa avaliar projetos de pesquisa em universidades, com vistas a planejar o futuro a longo prazo do país.

E a pandemia pode ajudar as universidades a reagir contra a noção de que são elitistas e irrelevantes para a sociedade, uma visão de que os partidos populistas avançaram na Holanda, Itália, Espanha e outros lugares. As universidades de muitos países, por exemplo, lideraram a busca por maneiras de tratar ou prevenir o COVID-19.

“Se uma vacina emergisse do Reino Unido, emergiria de uma universidade do Reino Unido”, diz Nick Hillman, diretor do Instituto de Política de Ensino Superior em Oxford, Reino Unido. Ainda assim, Hillman teme que a pandemia possa aumentar as disparidades entre as universidades se os governos direcionarem recursos para potências de pesquisa, como a Universidade de Oxford.

Apesar das mudanças em andamento, van der Zwaan duvida que a pandemia signifique o fim para a maioria das universidades. Ele estuda o que aconteceu após a Peste Negra, a epidemia de peste bubônica do século XIV que destruiu muitos aspectos da sociedade. Das cerca de 30 universidades que existiam na Europa na época, 5 foram exterminadas. Mas “depois do choque, certas universidades voltaram e prosperaram”, diz ele. “Esta é realmente uma boa lição do passado.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui!].

Socialismo que nada, o verdadeiro alvo do governo Bolsonaro é o Iluminismo

Por isso, os ataques ao direito à educação pública e ao ingresso em universidades

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A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, onde um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Em uma entrevista que concedi ao jornal português Diário de Notícias no dia 11 de janeiro de 2019, expressei minha preocupação com que eu considero um ataque ideológico contra a ciência no Brasil por parte do governo Bolsonaro.

Pois bem, um amontoado de declarações vindo de diversos dos ministros instalados em cargos chaves para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Brasil me fazem agora pensar que o ataque a que me referi vai além da ciência.  É que estão sob ataque também as escolas e universidades, bem como os mecanismos que foram criados para a defesa do meio ambiente.

Um exemplo disso é a proposta da ministra Damares Alves que propõe a adoção de um modelo ainda pouco claro do chamado “home schooling” (ou seja, educação dentro de casa).  Essa proposta atenta contra quase um século (se levarmos o “Movimento da Escola Nova” que foi liderado por Anísio Teixeira na década de 1930) de luta para que seja garantido o direito de que cada brasileiro ter acesso a uma educação pública, laica e a co-educação (i.e., a mesma educação para ambos os sexos). Como um liberal da época, em um pais marcado por profundas desigualdades educacionais, Anísio Teixeira, inspirado no modelo norte-americano, acreditava que todo brasileiro e brasileira deveria ter acesso à escola, pois esta instituição seria capaz de desenvolver as habilidades individuais.

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Ministra Damares Alves, vestindo rosa, com o presidente Jair Bolsonaro.

Com sua proposta de “home schooling”, o que Damares Alves parece avançar é a sua visão de que “meninos vestem e meninas vestem rosa” e de que “as mulheres nasceram para serem mães e que o modelo ideal de sociedade as deixaria apenas em casa, sustentadas pelos homens.”.  Portanto, do alto da sua posição de ministra, Damares Alves avança sua visão de sociedade patriarcal onde cabe à mulher apenas os papéis de reprodutora e cuidadora da prole. Além disso, a proposta desconsidera os múltiplos papéis que a escola desempenha em um país como o Brasil, de possibilitar que os trabalhadores e seus filhos possam se apropriar do conhecimento produzido pela Humanidade e, também, de ser um local de extrema importância no qual muitas mulheres (dados de 2015 apontam que 28,5 milhões de famílias brasileiras eram monoparentais e comandas por mulheres) possam trabalhar e deixar seus filhos em casa.

Não bastasse as ideias retrogradas de Damares Alves, temos ainda as manifestações do ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, de que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]. Apesar de tentar de desvencilhar do real significado desta posição ao dizer que elite intelectual não é sinônimo de elite econômica, a pergunta que Vélez-Rodriguez é de como ele consegue separar uma coisa da outra em um país onde prevalece uma das concentrações mais abjetas de riqueza no planeta (estando no grupo de 10 países com extrema concentração de riqueza no mundo). Uma única certeza desse projeto de “universidade para as elites” é que se essa ideia vencer, teremos um “branqueamento” das salas de aula a partir do impedimento de que jovens negros e pobres possam almejar educação universitária no Brasil.  Isto se trata de impor um profundo retrocesso, e vai na contramão das políticas educacionais que vem sendo executadas a partir da década de 1990, no qual uma parcela expressiva das classes subalternas teve a oportunidade de ter acesso ao ensino superior.

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Ministro Ricardo Vélez-Rodriguez, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, defende que universidades sejam para a “elite intelectual”.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, sou testemunha viva do esforço realizado por centenas de jovens que chegaram ao nível universitário com graves deficiências de formação, as quais foram superadas com grande esforço pessoal e dedicação. E muitos desses jovens são hoje exemplos concretos de alta capacidade intelectual, condição que só puderam alcançar por causa da existência de uma universidade criada por demanda popular no interior do estado do Rio de Janeiro. Essa universidade, a Uenf, é, inclusive, um dos últimos tributos de outro grande líder na luta pela educação pública no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro, e um dos testemunhos materiais da importância da escola pública no processo de desenvolvimento econômico nacional.

Mas o que a junção das ideias de Damares Alves e Ricardo Vélez-Rodriguez evidencia é que o alvo real dos planos de desmanche do governo Bolsonaro não é uma suposta, mas inexistente, herança socialista deixada pelos parcos anos em que o PT comandou o governo federal. O alvo real são as ideias do Iluminismo do Século do Século XVIII acerca do papel da ciência e da educação no desenvolvimento de uma sociedade que pudesse almejar condições mais dignas de existência de Humanidade.

É essa aversão ao pensamento iluminista que está explicita nas manifestações e projetos que estão sendo gestados pelo governo Bolsonaro. Entender isso e a gravidade do retrocesso que está se montando em diversas áreas essenciais é fundamental para que possamos sair da posição expectante para outra de natureza pró-ativa em defesa da ciência e da educação pública.

Finalmente, imaginemos quão trágico é, em pleno Século XXI, estarmos em uma batalha de vida ou morte para a nação brasileira por ideias que já deveriam ter sido abraçadas desde o Século XVIII. Mas é por é isso mesmo que não há espaço para a dúvida, hesitação ou, menos ainda, resignação. 

O que o editorial de “O Globo” esqueceu de mencionar: as universidades chilenas serão completamente gratuitas até 2020!

Comentei ontem o grotesco editorial do jornal O Globo que defendeu o inicio da cobrança nas universidades públicas brasileiras (Aqui!). A reação da maioria dos leitores foi de repudiar o editorial, mas houve gente que se alinhou à proposta sob o argumento de que isto encerraria uma espécie de “socialismo para os ricos”, já que a maioria que frequenta as universidades públicas seriam capazes de pagar por isso.

Afora o fato de que o editorial citou como exemplo de base empírica para o argumento a Universidade de São Paulo (USP), o que limita o alcance da efetividade do argumento, lembrei que países como a Alemanha possuem universidades públicas totalmente gratuitas, e não são nem de perto socialistas.

Mas eu não precisaria sair da América do Sul para ver um exemplo totalmente oposto ao que propõe a família Marinho para a educação superior brasileira. É que no final de 2015 o Chile, usina principal do Neoliberalismo no nosso continente, iniciou um processo de implantar a gratuidade total nas universidades públicas, o que deverá ser completado até 2020 (ver abaixo reprodução de matéria publicada pela Revista Exame em Dezembro de 2015) (Aqui!).

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Obviamente essa postura do Chile não ocorrreu no vácuo, já que nas últimas décadas a juventude chilena foi constantemente às ruas para exigir a gratuidade do ensino superior. Mas a adoção da gratuidade reflete uma mudança substancial da postura que imperou após a chegada da ditadura militar liderada por Augusto Pinochet e que prevaleu durante vários governos civis, inclusive sob Michelle Bachelet.

Assim, ao contrário do que propõe as Organizações Globo, a injustiça social no ensino público gratuito não será corrigida com o seu fim, mas com a sua ampliação. E a ampliação das vagas gratuitas no ensino superior são a principal garantia de que não permaneceremos eternamente presos a uma dependência científica e tecnológica que apenas eterniza nossa dependência econômica.  Simples assim!

Enquanto sobram as benesses dadas pela farra das isenções, universidades estaduais continuam sua agonia

No Rio de Janeiro sobram isenções fiscais controversas para todo tipo de empresa graças a uma verdadeira panaceia em prol de um suposto desenvolvimento econômico. Enquanto isso as três universidades estaduais (Uenf, Uerj e Uezo) continuam sendo empurradas para um processo de asfixia financeira sem precedentes.

Como mostrei em minha postagem anterior, o mecenato do (des) governo do Rio de Janeiro liberou mais R$ 8 milhões em isenções fiscais para projetos supostamente da área cultural, como o Rock in Rio 2015 e o Rio Open 2016 (mais de R$ 1.5 milhão apenas nesses dois casos). Entretanto, quase ao final do mês de maio, as universidades estaduais ainda não viram a cor do dinheiro para pagar as contas acumuladas de serviços essenciais como água e eletricidade.

Uma alma ingênua poderia perguntar como é que as universidades ainda não fecharam completamente. A resposta é simples: o funcionamento está sendo garantido de forma muito precária, muitas vezes com o sacrifício pessoal de professores, servidores e estudantes.  

Mas por quanto tempo será possível manter as universidades numa espécie de condição comatosa, sem que grandes danos sejam causados ao funcionamento de estruturas essenciais? Eu me arrisco a dizer que já estamos alcançando o limiar do colapso. Apenas na Uenf, várias pesquisas estão sob grave ameaça de serem descontinuadas, com prejuízos incalculáveis do ponto científico, mas também econômico. É que muitas dessas pesquisas possuem aplicação na melhoria de sistemas produtivos e sua interrupção comprometerá de forma inevitável a contribuição que as mesmas poderiam ter na economia.

Mas qual seria a lógica deste tipo de massacre financeiro que o (des) governo do Rio de Janeiro está impondo às nossas universidades? A explicação mais básica é que estamos na antevéspera de um processo de privatização cuja desculpa será que o estado perdeu sua capacidade de financiar as universidades. Esta mensagem tem sido ecoada por diferentes secretários do (des) governo comandado por Pezão e Dornelles.

Entretanto, basta examinar as isenções fiscais bilionárias que estão sendo concedidas por diversas secretarias que veremos que esse argumento é falacioso. O que está em jogo mesmo é a completa privatização do estado no Rio de Janeiro. E por ocuparem um papel tão relevante no imaginário social, as universidades, escolas e hospitais públicos são o meio pela qual a privatização do estado está sendo materializada. 

Marketing acadêmico: texto aborda os problemas vividos dentro da universidade brasileira sob o império do produtivismo

produtivismo

Recebi de uma colega professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e sugiro a leitura do texto “Dos Valores de Medida aos Valores como Medida: Uma avaliação axiológica da avaliação acadêmica” do professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), André Luís de Oliveira Mendonça, publicado na Revista “Ensaios Filosóficos”, e que pode ser acessado (Aqui!). Em um texto que mostra com perfeição os problemas enfrentados dentro das universidades brasileiras por professores e estudantes no tocante aos  efeitos do produtivismo acadêmico, os quais estão atualmente umbilicalmente ligados ao processo de avaliação de programas de pós-graduação, o prof. Mendonça não se limita a falar da “doença”, mas aponta para os remédios que permitiriam buscar a cura do mal que nos aflige.

O interessante é que dependendo da forma com que este texto for lido e devidamente apreciado, o leitor poderá se enquadrar nas diversas categorias que foram estabelecidas para diagnosticar a situação em que nos encontramos atualmente, onde a pressão produtivista compromete o estabelecimento de reflexões críticas da realidade e fere mortalmente o poder criativo dos cientistas brasileiros.

Entretanto, ainda que eu discorde em relação à efetiva eficácia da “medicação” sugerida pelo Prof. Mendonça, a simples menção de que estamos imersos num sistema enfermo já me anima a recomendar a leitura deste interessante texto. É que no meio do deserto das produções comuns e corriqueiras, é sempre salutar ver que existem esforços reflexivos acerca dos problemas e saídas a serem adotadas para superá-los. Pode não parecer, mas isso já é muita coisa. Afinal de contas, sem reflexão crítica não há ciência verdadeira, apenas arremedo.