Socialismo que nada, o verdadeiro alvo do governo Bolsonaro é o Iluminismo

Por isso, os ataques ao direito à educação pública e ao ingresso em universidades

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A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, onde um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Em uma entrevista que concedi ao jornal português Diário de Notícias no dia 11 de janeiro de 2019, expressei minha preocupação com que eu considero um ataque ideológico contra a ciência no Brasil por parte do governo Bolsonaro.

Pois bem, um amontoado de declarações vindo de diversos dos ministros instalados em cargos chaves para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Brasil me fazem agora pensar que o ataque a que me referi vai além da ciência.  É que estão sob ataque também as escolas e universidades, bem como os mecanismos que foram criados para a defesa do meio ambiente.

Um exemplo disso é a proposta da ministra Damares Alves que propõe a adoção de um modelo ainda pouco claro do chamado “home schooling” (ou seja, educação dentro de casa).  Essa proposta atenta contra quase um século (se levarmos o “Movimento da Escola Nova” que foi liderado por Anísio Teixeira na década de 1930) de luta para que seja garantido o direito de que cada brasileiro ter acesso a uma educação pública, laica e a co-educação (i.e., a mesma educação para ambos os sexos). Como um liberal da época, em um pais marcado por profundas desigualdades educacionais, Anísio Teixeira, inspirado no modelo norte-americano, acreditava que todo brasileiro e brasileira deveria ter acesso à escola, pois esta instituição seria capaz de desenvolver as habilidades individuais.

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Ministra Damares Alves, vestindo rosa, com o presidente Jair Bolsonaro.

Com sua proposta de “home schooling”, o que Damares Alves parece avançar é a sua visão de que “meninos vestem e meninas vestem rosa” e de que “as mulheres nasceram para serem mães e que o modelo ideal de sociedade as deixaria apenas em casa, sustentadas pelos homens.”.  Portanto, do alto da sua posição de ministra, Damares Alves avança sua visão de sociedade patriarcal onde cabe à mulher apenas os papéis de reprodutora e cuidadora da prole. Além disso, a proposta desconsidera os múltiplos papéis que a escola desempenha em um país como o Brasil, de possibilitar que os trabalhadores e seus filhos possam se apropriar do conhecimento produzido pela Humanidade e, também, de ser um local de extrema importância no qual muitas mulheres (dados de 2015 apontam que 28,5 milhões de famílias brasileiras eram monoparentais e comandas por mulheres) possam trabalhar e deixar seus filhos em casa.

Não bastasse as ideias retrogradas de Damares Alves, temos ainda as manifestações do ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, de que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]. Apesar de tentar de desvencilhar do real significado desta posição ao dizer que elite intelectual não é sinônimo de elite econômica, a pergunta que Vélez-Rodriguez é de como ele consegue separar uma coisa da outra em um país onde prevalece uma das concentrações mais abjetas de riqueza no planeta (estando no grupo de 10 países com extrema concentração de riqueza no mundo). Uma única certeza desse projeto de “universidade para as elites” é que se essa ideia vencer, teremos um “branqueamento” das salas de aula a partir do impedimento de que jovens negros e pobres possam almejar educação universitária no Brasil.  Isto se trata de impor um profundo retrocesso, e vai na contramão das políticas educacionais que vem sendo executadas a partir da década de 1990, no qual uma parcela expressiva das classes subalternas teve a oportunidade de ter acesso ao ensino superior.

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Ministro Ricardo Vélez-Rodriguez, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, defende que universidades sejam para a “elite intelectual”.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, sou testemunha viva do esforço realizado por centenas de jovens que chegaram ao nível universitário com graves deficiências de formação, as quais foram superadas com grande esforço pessoal e dedicação. E muitos desses jovens são hoje exemplos concretos de alta capacidade intelectual, condição que só puderam alcançar por causa da existência de uma universidade criada por demanda popular no interior do estado do Rio de Janeiro. Essa universidade, a Uenf, é, inclusive, um dos últimos tributos de outro grande líder na luta pela educação pública no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro, e um dos testemunhos materiais da importância da escola pública no processo de desenvolvimento econômico nacional.

Mas o que a junção das ideias de Damares Alves e Ricardo Vélez-Rodriguez evidencia é que o alvo real dos planos de desmanche do governo Bolsonaro não é uma suposta, mas inexistente, herança socialista deixada pelos parcos anos em que o PT comandou o governo federal. O alvo real são as ideias do Iluminismo do Século do Século XVIII acerca do papel da ciência e da educação no desenvolvimento de uma sociedade que pudesse almejar condições mais dignas de existência de Humanidade.

É essa aversão ao pensamento iluminista que está explicita nas manifestações e projetos que estão sendo gestados pelo governo Bolsonaro. Entender isso e a gravidade do retrocesso que está se montando em diversas áreas essenciais é fundamental para que possamos sair da posição expectante para outra de natureza pró-ativa em defesa da ciência e da educação pública.

Finalmente, imaginemos quão trágico é, em pleno Século XXI, estarmos em uma batalha de vida ou morte para a nação brasileira por ideias que já deveriam ter sido abraçadas desde o Século XVIII. Mas é por é isso mesmo que não há espaço para a dúvida, hesitação ou, menos ainda, resignação. 

O que o editorial de “O Globo” esqueceu de mencionar: as universidades chilenas serão completamente gratuitas até 2020!

Comentei ontem o grotesco editorial do jornal O Globo que defendeu o inicio da cobrança nas universidades públicas brasileiras (Aqui!). A reação da maioria dos leitores foi de repudiar o editorial, mas houve gente que se alinhou à proposta sob o argumento de que isto encerraria uma espécie de “socialismo para os ricos”, já que a maioria que frequenta as universidades públicas seriam capazes de pagar por isso.

Afora o fato de que o editorial citou como exemplo de base empírica para o argumento a Universidade de São Paulo (USP), o que limita o alcance da efetividade do argumento, lembrei que países como a Alemanha possuem universidades públicas totalmente gratuitas, e não são nem de perto socialistas.

Mas eu não precisaria sair da América do Sul para ver um exemplo totalmente oposto ao que propõe a família Marinho para a educação superior brasileira. É que no final de 2015 o Chile, usina principal do Neoliberalismo no nosso continente, iniciou um processo de implantar a gratuidade total nas universidades públicas, o que deverá ser completado até 2020 (ver abaixo reprodução de matéria publicada pela Revista Exame em Dezembro de 2015) (Aqui!).

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Obviamente essa postura do Chile não ocorrreu no vácuo, já que nas últimas décadas a juventude chilena foi constantemente às ruas para exigir a gratuidade do ensino superior. Mas a adoção da gratuidade reflete uma mudança substancial da postura que imperou após a chegada da ditadura militar liderada por Augusto Pinochet e que prevaleu durante vários governos civis, inclusive sob Michelle Bachelet.

Assim, ao contrário do que propõe as Organizações Globo, a injustiça social no ensino público gratuito não será corrigida com o seu fim, mas com a sua ampliação. E a ampliação das vagas gratuitas no ensino superior são a principal garantia de que não permaneceremos eternamente presos a uma dependência científica e tecnológica que apenas eterniza nossa dependência econômica.  Simples assim!

Enquanto sobram as benesses dadas pela farra das isenções, universidades estaduais continuam sua agonia

No Rio de Janeiro sobram isenções fiscais controversas para todo tipo de empresa graças a uma verdadeira panaceia em prol de um suposto desenvolvimento econômico. Enquanto isso as três universidades estaduais (Uenf, Uerj e Uezo) continuam sendo empurradas para um processo de asfixia financeira sem precedentes.

Como mostrei em minha postagem anterior, o mecenato do (des) governo do Rio de Janeiro liberou mais R$ 8 milhões em isenções fiscais para projetos supostamente da área cultural, como o Rock in Rio 2015 e o Rio Open 2016 (mais de R$ 1.5 milhão apenas nesses dois casos). Entretanto, quase ao final do mês de maio, as universidades estaduais ainda não viram a cor do dinheiro para pagar as contas acumuladas de serviços essenciais como água e eletricidade.

Uma alma ingênua poderia perguntar como é que as universidades ainda não fecharam completamente. A resposta é simples: o funcionamento está sendo garantido de forma muito precária, muitas vezes com o sacrifício pessoal de professores, servidores e estudantes.  

Mas por quanto tempo será possível manter as universidades numa espécie de condição comatosa, sem que grandes danos sejam causados ao funcionamento de estruturas essenciais? Eu me arrisco a dizer que já estamos alcançando o limiar do colapso. Apenas na Uenf, várias pesquisas estão sob grave ameaça de serem descontinuadas, com prejuízos incalculáveis do ponto científico, mas também econômico. É que muitas dessas pesquisas possuem aplicação na melhoria de sistemas produtivos e sua interrupção comprometerá de forma inevitável a contribuição que as mesmas poderiam ter na economia.

Mas qual seria a lógica deste tipo de massacre financeiro que o (des) governo do Rio de Janeiro está impondo às nossas universidades? A explicação mais básica é que estamos na antevéspera de um processo de privatização cuja desculpa será que o estado perdeu sua capacidade de financiar as universidades. Esta mensagem tem sido ecoada por diferentes secretários do (des) governo comandado por Pezão e Dornelles.

Entretanto, basta examinar as isenções fiscais bilionárias que estão sendo concedidas por diversas secretarias que veremos que esse argumento é falacioso. O que está em jogo mesmo é a completa privatização do estado no Rio de Janeiro. E por ocuparem um papel tão relevante no imaginário social, as universidades, escolas e hospitais públicos são o meio pela qual a privatização do estado está sendo materializada. 

Marketing acadêmico: texto aborda os problemas vividos dentro da universidade brasileira sob o império do produtivismo

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Recebi de uma colega professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e sugiro a leitura do texto “Dos Valores de Medida aos Valores como Medida: Uma avaliação axiológica da avaliação acadêmica” do professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), André Luís de Oliveira Mendonça, publicado na Revista “Ensaios Filosóficos”, e que pode ser acessado (Aqui!). Em um texto que mostra com perfeição os problemas enfrentados dentro das universidades brasileiras por professores e estudantes no tocante aos  efeitos do produtivismo acadêmico, os quais estão atualmente umbilicalmente ligados ao processo de avaliação de programas de pós-graduação, o prof. Mendonça não se limita a falar da “doença”, mas aponta para os remédios que permitiriam buscar a cura do mal que nos aflige.

O interessante é que dependendo da forma com que este texto for lido e devidamente apreciado, o leitor poderá se enquadrar nas diversas categorias que foram estabelecidas para diagnosticar a situação em que nos encontramos atualmente, onde a pressão produtivista compromete o estabelecimento de reflexões críticas da realidade e fere mortalmente o poder criativo dos cientistas brasileiros.

Entretanto, ainda que eu discorde em relação à efetiva eficácia da “medicação” sugerida pelo Prof. Mendonça, a simples menção de que estamos imersos num sistema enfermo já me anima a recomendar a leitura deste interessante texto. É que no meio do deserto das produções comuns e corriqueiras, é sempre salutar ver que existem esforços reflexivos acerca dos problemas e saídas a serem adotadas para superá-los. Pode não parecer, mas isso já é muita coisa. Afinal de contas, sem reflexão crítica não há ciência verdadeira, apenas arremedo.

Universidades, cérebros e a “Pátria Educadora”

Por Jean-Paul Veiga da Rocha

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Com a posse do novo Ministro da Educação, a universidade voltou ao centro do debate nacional. Em seu discurso, Renato Janine Ribeiro afirmou que “as elevadas capacidades” dessa instituição precisam estar a serviço também do ensino fundamental. Tamanha responsabilidade leva-nos a perguntar: mas como está, então, a nossa universidade? A resposta pode não ser muito animadora.
Houve um tempo em que a principal preocupação da ciência brasileira era a evasão de cérebros. Entretanto, a julgar pelo contundente artigo do físico Rogério Cezar Cerqueira Leite (Produção científica e lixo acadêmico no Brasil’, 6/1/15 ), é outro agora o problema a ser enfrentado: segundo o professor emérito da Unicamp, os concursos de seleção de docentes nas nossas universidades são “frequentemente falsificados”. Sob o manto sagrado do concurso público, a marmelada tem triunfado sobre a meritocracia.
As soluções estruturais para esse problema são complexas, mas algo poderia ser imediatamente feito para deixar a luz do sol desinfetar o ambiente, intimidando a política pequena das seitas acadêmicas.
São medidas simples: transmitir ao vivo e filmar os concursos; jamais realizá-los durante as férias (quando a comunidade acadêmica está desmobilizada); mudar a forma de escolha dos membros da banca (para garantir sua independência); exigir que os examinadores fundamentem seus votos publicamente (em vez de darem, em sessões secretas, simples notas genéricas, que disfarçam o arbítrio e o conluio).
Em síntese, a contratação de cada novo professor, que ocupará uma preciosa vaga por décadas, tem que se explicar claramente: por que se escolheu aquele candidato, e não o outro? A decisão deve valorizar a trajetória intelectual dos talentosos, desmascarando o aventureiro que não é do ramo e busca apenas o prestígio que a instituição agregaria a seu currículo.
Deve distinguir quantidade de qualidade: por exemplo, na área jurídica –em que, via de regra, é elevado o grau de promiscuidade entre interesses privados, arrivismo e academia–, trabalhos mais sofisticados e inseridos numa rede acadêmica internacional de alto nível deveriam valer mais que dezenas de livros provincianos sem a menor criatividade (manuais que, de tão carentes de rigor metodológico, mais parecem, às vezes, ter sido elaborados por estagiários).
Infelizmente, é chocante constatar o baixo nível intelectual de alguns processos seletivos: em recente concurso para professor titular (topo da carreira) na Faculdade de Direito da USP, um membro da banca examinadora ocupou boa parte de seu tempo, que deveria ser dedicado à rigorosa sabatina de um candidato, contando causos que variavam desde o passeio com seu neto na Disneylândia até –pasme, leitor– uma analogia escatológica entre um laxante e o conceito jurídico de eficácia.
A universidade não pode sobreviver, muito menos servir à causa mais ampla da educação, sem que o princípio meritocrático seja blindado contra pressões menos nobres. Entretanto, toda e qualquer mudança nas práticas das universidades brasileiras só acontecerá se for rompido um antigo pacto de silêncio. Como tudo na vida, essa ruptura não virá de graça. Em alguns ambientes mais autoritários, ela exigirá luta e coragem.
Se o oportunismo, o medo de retaliações ou o corporativismo sufocarem as vozes dos professores, alunos e funcionários, estaremos diante de mais uma calamidade: a aliança entre a conveniência e a mediocridade, condenando-nos ao eterno atraso científico, cultural e tecnológico. Será esse o destino da “Pátria Educadora”?
JEAN-PAUL VEIGA DA ROCHA, 42, é professor doutor da Faculdade de Direito da USP
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/06/1641538-jean-paul-veiga-da-rocha–universidades-cerebros-e-a-patria-educadora.shtml#_=_

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

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O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
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A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

Crise das universidades paulistas: ADUSP diz que governo Alckmin não repassou R$ 2 bilhões em 6 anos

Ao contrário do que diz o Reitor Zago, as causas da Crise Financeira da USP são muitas. Nenhuma delas, responsabilidade dos que estudam e trabalham para garantir as atividades vitais de produção de conhecimento na USP.

Como denunciou a ADUSP (Associação dos Docentes da USP), as Universidades Estaduais Paulistas tiveram quase 2 BILHÕES DE REAIS sonegados pelo governo do estado de São Paulo nos últimos 6 anos. Trata-se de uma verba destinada às universidades por uma Lei Estadual.

Nos indigna o fato do Reitor Zago, mesmo tendo mandado uma carta à toda Universidade de São Paulo, culpabilizando os salários dos funcionários e professores, mesmo recebendo um supersalário ilegal, de valor superior ao do Governador do Estado, ter omitido essas informações. Onde está a transparência, Zago?

Fonte: http://www.adusp.org.br/index.php/campanha-salarial-2014cs/1921-mais-um-capitulo-na-sonegacao