A agonia das UPPs: entre o esperado e o previsível

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Faz alguns anos, quando as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), tive uma conversa com um amigo que mora na cidade do Rio de Janeiro acerca do significado da forma “inovadora” de policiamento que o (des) governador Sérgio Cabral havia inaugurado sob o som da fanfarra da mídia empresarial. Esse amigo me disse que, apesar de todos os problemas conceituais, a população das comunidades onde as UPPs haviam sido instaladas o processo.

Eu, sempre cético do olhar de quem não sente na carne a presença repressiva do Estado, respondi que minha percepção era de que esse apoio não era só superdimensionado pela mídia que apoiava tudo o que Cabral fazia, mas que teria vida curta, já que se estava colocando um “band aid” para cobrir uma pele tomada por tumores cancerígenos. Passaram-se os anos e as UPPs resistiram bravamente, com um “Amarildo” aqui e outra “Regina” ali, mas sem nada que indicasse que o modelo iria entrar em colapso.

Pois bem, do final de 2014 para cá, os sinais evidentes são de que o modelo entrou em colapso e que estamos diante de uma nova explosão de violência, onde as comunidades majoritariamente formada por pessoas negras e pobres estão na linha de fogo entre um aparato policial-militar despreparado e o narcotráfico.

Celebrar esse colapso seria celebrar a morte de crianças e mulheres como ocorreu nos últimos dias no Complexo do Alemão, onde um menino de apenas 10 anos foi morto pela Polícia Militar. Mas cabe perguntar aos “experts” da segurança pública o porquê desse colapso que deverá trazer ainda mais violência, numa espiral em que a atual crise econômica não nos permite antever uma saída que seja realmente duradoura, e ancorada numa convivência democrática que englobe todos os moradores (e não apenas os abastados) de nossas metrópoles. 

Confrontado com a falência das UPPs, Pezão que manter o exército nas ruas do Rio de Janeiro

A matéria abaixo, publicada pelo Valor Econômico, é curta mas muito reveladora. É que a mesma contem uma declaração de reconhecimento explícito de que o (des) governo do Rio de Janeiro não tem como controlar a segurança pública nas comunidades que formam o Complexo da Maré sem a ocupação contínua por tropas militares.

Tivesse essa declaração sido dada durante o processo eleitoral, talvez o (des) governador Luiz Fernando Pezão não teria sequer passado para o segundo turno. É que muito do pouco crédito que ele pode clamar dos anos em que está à frente do executivo fluminense depende muito da manutenção da falsa política de pacificação social representada pelas chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Agora que o exército brasileiro teve sua primeira baixa no processo de ocupação militar daquela área sensível da cidade do Rio de Janeiro, Pezão está quase implorando para que as tropas continuem por lá de forma aparentemente indefinida. Como essa receita é, quando muito, de validade de curto prazo, além de ser extremamente onerosa para o governo federal, é possível que em 2015 a coisa se complique ainda mais.

De toda forma, o que se vê é que a política de militarização da segurança pública, ainda que coberta por um espesso véu publicitário, não se sustenta mais. E o pior é que a única receita que Pezão parece ter é a manutenção inconstitucional das forças armadas no patrulhamento da segunda cidade brasileira. E para para definir essa situação esdrúxula há uma boa palavra: lamentável!

Governador do Rio pede extensão de permanência do Exército na Maré

RIO  –  O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, disse neste sábado (29) que pedirá a prorrogação da permanência do Exército no Complexo da Maré, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A informação é da assessoria de imprensa do governo do estado. Por enquanto, o governo federal autorizou até dezembro a permanência das tropas militares, que ocupam o conjunto de favelas desde abril deste ano.

José Lucena/Futura Press/ Folhapress

Ontem (28), o cabo do Exército Michel Mikami, de 21 anos, foi morto durante confronto com criminosos no Complexo da Maré. Os militares abriram inquérito para apurar a morte de Michel. Baleado na cabeça, ele chegou a ser levado para uma unidade de pronto atendimento (UPA).

Por meio de nota, o governo do estado informou que Pezão pretende conversar com a presidenta Dilma Rousseff para pedir a prorrogação do prazo. A ideia é manter as tropas na comunidade até que novos policiais militares sejam formados e, assim, implantar uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na região.

Segundo a nota, o governador considera difícil o estado conseguir ocupar a Maré sem ajuda das tropas federais.

(Agência Brasil)

FONTE: http://www.valor.com.br/brasil/3798176/governador-do-rio-pede-extensao-de-permanencia-do-exercito-na-mare#ixzz3KUAM5Xgm

Mapeamento de Violações de Direitos em Territórios de UPPs

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Este mapeamento é uma Iniciativa de um morador de Manguinhos,que participa de espaços e de movimentos sociais/comunitários quem tem dentro de seu campo de atuação/incidência o campo dos Direitos Humanos.

Esta ferramenta visa construir um compartilhamento das violações de direitos realizados pelo ESTADO,nos territórios de UPPS,em especial com as juventudes negras.

A idéia de construção deste mapeamento também surgiu com a finalidade de gerar informações com o olhar de quem sofre as violações e também contrapor as informações da grande mídia.

O mapeamento é uma ferramenta de comunicação comunitária.

Ver todos os objetos no mapa  http://maps.mootiro.org/project/360/map

FONTE: http://maps.mootiro.org/project/360

Douglas seria Amarildo

Por João Batista Damasceno

“Participando do projeto ‘Diálogos sobre direitos humanos’, organizado pela OAB-RJ, estive ano passado no Caranguejo, favela acima do Pavão-Pavãozinho. Acima também da Favela Vietnã. É o topo do morro e o ápice da pobreza. Ouvi o relato de uma mãe sobre a morte de seu filho adolescente, após tortura e sobre a versão oficial de que “caíra do muro”. Não me surpreendeu a nota da Polícia Civil de que as escoriações no corpo de DG eram compatíveis com queda de muro. A versão era requentada. Já vi versões mais fantasiosas. No Caso Juan, a perícia — desmentida por exame de DNA — apontara que o corpo era de uma menina, e não do menino assassinado e jogado numa lixeira longe de sua casa. Mas a mãe de DG não se intimidou e declarou que seu filho tinha marcas de chutes nas costas e costelas, que não morrera pulando muro, mas pelas mãos do Estado, e que seria um novo Amarildo não fosse a comunidade, protetora e protestadora”.

A morte do dançarino Douglas Rafael, o DG, é mais uma decorrente da política de ‘pacificação’ de quem pensa ser possível construir a paz com a guerra. São raras as mortes por overdose. Mas, a pretexto de cuidar da saúde pública combatendo o comércio e uso de drogas, o Estado humilha e mata os pobres. A política de segurança de confronto aos direitos humanos é um incentivo à atuação ilegal e formação de grupos paramilitares que põe em xeque o Estado de Direito. 

Denúncias de torturas, mortes e desaparecimentos se acentuaram desde o início das ‘pacificações’. O Rio de Janeiro é inovador em matéria de segurança pública desastrosa. Em 1958, o general Riograndino Kruel criou o primeiro esquadrão da morte; no início dos anos 60, Carlos Lacerda condecorou os ‘homens de ouro’ da polícia, e em 1994 o então secretário de Segurança, general Nilton Cerqueira, acusado de matar Carlos Lamarca, instituiu a ‘gratificação faroeste’, prêmio em dinheiro por ‘atos de bravura’: disparos, ferimentos ou mortes. 

Participando do projeto ‘Diálogos sobre direitos humanos’, organizado pela OAB-RJ, estive ano passado no Caranguejo, favela acima do Pavão-Pavãozinho. Acima também da Favela Vietnã. É o topo do morro e o ápice da pobreza. Ouvi o relato de uma mãe sobre a morte de seu filho adolescente, após tortura e sobre a versão oficial de que “caíra do muro”. Não me surpreendeu a nota da Polícia Civil de que as escoriações no corpo de DG eram compatíveis com queda de muro. A versão era requentada. Já vi versões mais fantasiosas. No Caso Juan, a perícia — desmentida por exame de DNA — apontara que o corpo era de uma menina, e não do menino assassinado e jogado numa lixeira longe de sua casa. Mas a mãe de DG não se intimidou e declarou que seu filho tinha marcas de chutes nas costas e costelas, que não morrera pulando muro, mas pelas mãos do Estado, e que seria um novo Amarildo não fosse a comunidade, protetora e protestadora. 

A ditadura empresarial-militar se esmerou em falsificar versões e laudos. O assassinato de Vladimir Herzog, o desaparecimento de Rubens Paiva e a bomba no Riocentro são exemplos do que é capaz o Estado Policial. O Caso Amarildo demonstra como se fabricam versões e se produzem provas para justificá-las. Quem parece tudo saber sobre segurança pública não pode alegar desconhecer estes fatos. 

Não apenas os facínoras que violam os direitos do povo hão de ser responsabilizados, mas também os que autorizam. O Ministério Público e o Judiciário podem se contrapor à violação aos direitos humanos, pois seus papéis estão relacionados à garantia dos direitos; não são partícipes da formulação de políticas públicas. Menos ainda quando atentam contra a dignidade da pessoa humana, fundamento da República. 

João Batista Damasceno é juiz de Direito e doutor em Ciência Política

FONTE: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-04-26/joao-batista-damasceno-douglas-seria-amarildo.html

Crônica de uma pacificação falida

A violência sacode a favela carioca de Pavão-Pavãozinho onde esta semana foi assassinado um jovem bailarino

Por FRANCHO BARÓN

Enterro de Douglas Rafael da Silva Pereira no Rio, no último dia 24/FELIPE DANA (AP)

A sequência começa um dia qualquer na praia de Copacabana. O bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, 26 anos, conhecido como DG, joga futebol tranquilamente com um grupo de amigos. Quando acaba a partida, começa o caminho a favela de Pavão-Pavãozinho, encravada em uma colina do bairro mais turístico do Rio de Janeiro. O jovem, mulato e forte, caminha pelos becos íngremes do subúrbio cumprimentando os vizinhos. Nota-se sua popularidade na comunidade. Recebe fruta de um vendedor ambulante e ajuda uma senhora a carregar suas sacolas de compra. Um pastor evangélico lhe dá sua benção sob um sol atroz. E lá vai Douglas, bamboleando feliz pelas ruas, brincando e batendo nas mãos de conhecidos quando, de repente, escutam-se os tiros e em um beco deserto aparecem três policiais militares fora de si. O acurralam, o socam e chutam. Douglas, com voz entrecortada e olhos de pânico, pede misericórdia e tenta esclarecer sem êxito que é “um trabalhador”. Então é quando o agarram pelos cabelos e, sem lhe dar a mínima oportunidade de se defender, lhe descarregam um tiro na cabeça. Pelas costas. Douglas estira-se agora no solo, sem vida, enquanto os agentes entram em estado de histeria frente a evidência de que este “auto de resistência” (licença da polícia para matar em defesa própria” será muito difícil de justificar.

Todo o anterior não é mais que uma breve narração do curta-metragem que DG protagonizou um ano antes de morrer na mesma favela. Tirando alguns detalhes, como o lugar exato da execução, o número de policiais ou a velocidade do ocorrido, os primeiros indícios mostram que Douglas, como em seu próprio filme, morreu depois de receber um tiro da Polícia Militar. Ainda é cedo para concluir se tratou-se de uma execução, ainda que vários elementos apontem a tese que DG foi vítima de uma violência policial fora do controle. Várias testemunhas presentes em um raio próximo ao local dos acontecimentos asseguram que aquela noite fatídica não houve nenhum confronto armado entre os traficantes e policiais, como sustenta a Polícia Militar para manter a tese da morte por “bala perdida”. Os mesmos vizinhos de Pavão-Pavãozinho, que exigem anonimato, dizem que escutaram alguns disparos concentrados em um período muito curto de tempo, ao redor da uma hora da madrugada de terça-feira 22 de abril. Passaram nove ou dez horas até que corresse a voz que o cadáver de DG estava no interior de uma creche. Ainda que esta noite não tenha chovido, estava molhado. Seus documentos haviam sido retirados pela polícia e na área não havia cartuchos de bala.

Alertado por um movimento não usual de policiais, um grupo de vizinhos montou guarda na porta do local. Alguns tiraram fotos e gravaram vídeos. Segundo a mãe de Douglas, Maria de Fátima Silva, a intervenção do bairro foi crucial para evitar que os agentes se desfizessem do cadáver de DG. A onda de protestos que protagonizaram desembocaram nos graves distúrbios da última terça em Copacabana. Os investigadores da Polícia Militar já interrogaram várias testemunhas e os nove agentes que participaram da operação, mas a instituição ainda não chegou a nenhuma conclusão.

A primeira informação perita realizada in loco negou que o cadáver apresentasse marcas de disparo. Uma segunda análise do corpo, realizada pelo Instituto Médico Legal (IML) frente a pressão da imprensa confirmou “uma hemorragia interna desencadeada por laceração pulmonar gerada por objeto transfixante”. Sem rodeios: os peritos certificaram que um disparo penetrou a zona lombar esquerda e saiu pelo ombro direito do jovem. Maria de Fátima sustenta desde então que os policiais o mataram e que o plano inicial incluía fazer desaparecer o cadáver.

Em conversa telefônica com o EL PAÍS, a mãe de Douglas repete até a saciedade “Meu filho foi assassinado”. Também assegura que irá até onde for necessário para que “se saiba a verdade”, custe o que custar. Seus planos incluem a cooperação da Amnistia Internacional e de doisexperts norte-americanos independentes, que também trabalharão nas investigações. E se for necessário, pedirá que o cadáver seja exumado. Enquanto fala, nervosa, a TV Globo emite em seu principal jornal uma reportagem sobre a morte de seu filho. Quando o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, aparece muito sério na tela assegurando que encontrará os responsáveis, a mulher grita: “É tudo mentira”. Horas antes, Maria de Fátima deixou Pezão plantado, que pretendia recebe-la em frente as câmeras de televisão do palácio do Governo. “Não vou permitir que a morte do meu filho se transforme em uma plataforma política”, justificou.

A favela de Pavão-Pavãozinho vive estes dias sob a comoção gerada pela morte de Douglas e os distúrbios de terça-feira, que incluíram barricadas incendiadas, artefatos explosivos, intensos tiroteios e um morto. Vários vizinhos consultados por este jornal concordam que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) instaurada na favela em 2009 tem a rejeição total do bairro. Também asseguram que são frequentes as agressões e os insultos por parte dos agentes pacificadores. Paulo Henrique dos Santos, 37 anos e bombeiro de profissão, conta que 48 horas antes da morte de Douglas foi intimidado por um agente que o ameaçou. “É um vagabundo e vive rodeado de delinquentes”. No momento do incidente Douglas estava do lado de Paulo Henrique. “Agora tenho claro que existe uma conexão direta entre esta ameaça velada e o assassinato de Douglas”, afirma.

“Se a pacificação estivesse sendo um êxito, isso não estaria acontecendo”, reflete Alzira Amaral, presidenta da Associação de Vizinhos do Pavão-Pavãozinho, que admite não haver presenciado nos últimos 40 anos protestos como os de esta semana. “As pessoas estão saindo do armário porque não se sentem escutadas. Esta pacificação consiste em colocar a polícia na comunidade, mas o resto segue praticamente igualmente ruim”, denuncia.

A sensação de que esta favela estava saindo pouco a pouco do poço da violência e o crime se evaporava de repente. À presença de pequenas células da rede criminosa Comando Vermelho (CV), que atualmente controlam a venda de drogas na dimensão mais alta de Pavão-Pavãozinho, há que somar a proliferação repentina nas ruas de pitadas da principal milícia do Rio, denominada Batman. Segundo várias fontes locais, os paramilitares, que tem como objetivo expulsar os traficantes dos territórios onde desembarcam e controlam sua economia local, já estariam infiltrados nas formações da UPP local e aqui estaria o verdadeiro germe da deterioração da convivência entre a tropa e a população. Pavão-Pavãozinho onde vivem umas 18.000 pessoas é um caso sintomático do câncer que corre o processo de pacificação das favelas cariocas.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/26/politica/1398535146_877900.html

O fracasso das UPPs

Por Flavio Serafini

DG

“Alguém precisa parar esse projeto falso de pacificação”. Esta foi a frase dita por Maria de Fátima, mãe de do dançarino e ator Douglas Rafael da Silva Pereira, conhecido como DG, de 26 anos. Desmentindo as informações iniciais dadas pela Policia Militar, o laudo do IML constatou que a morte de DG foi causada por um tiro de arma de fogo. No dia seguinte, mais um jovem foi morto, Edilson da Silva dos Santos, de 27 anos , que recebeu um tiro na cabeça no ato em que se protestava devido a morte de DG. Há menos de uma semana, Niterói também teve mais dois jovens mortos: Anderson Santos Silva, de 21 anos, morreu ao ser baleado quando ia para uma vigília de Páscoa com a família no Caramujo, no dia 18 de abril. Um dia depois, Emanoel Gomes, de 16 anos, foi morto ao se chocar no veículo conhecido como “Caveirão”, o qual , segundo testemunhas, “fechou” a moto em que o jovem estava, e deu “ré” para tentar atingir outro grupo. A vida desses jovens não irá voltar. Mas para que mais vidas não sejam ceifadas, precisamos, urgentemente, mudar esta lógica de segurança pública baseada na guerra e na violência sem limites, e reordená-la em direção a uma política que tenha como princípios fundamentais a defesa da vida, dos direitos e o respeito à dignidade humana. Não podemos aceitar que o poder público e seus agentes, em grande parte das vezes, realizem crimes tão bárbaros quanto os próprios criminosos que dizem combater. Não podemos defender e acreditar que um Estado e uma sociedade cada vez mais violenta, que defenda e realize práticas criminosas como tortura, linchamento, execução sumária, dentre outros, possa ser uma resposta viável de combate ao próprio crime e à violência. Ser a favor do combate à violência e ter uma prática de ódio e desrespeito aos direitos humanos não é apenas uma incoerência, é uma ação que legitima e sustenta o crescimento da aceitação da violência no cotidiano.

O que a morte destes quatro jovens tem em comum é a explicitação de que hoje vivemos uma crise na nossa política de segurança pública. Na região metropolitana e no interior do estado vemos um aumento de praticamente todas as taxas de criminalidade, e na capital, vemos a deterioração da legitimidade das UPPs, que fracassa justamente por não ter rompido com a lógica da guerra, que trata os pobres, negros e favelados como potenciais criminosos. A política de segurança que levou à morte de Amarildo, Cláudia, DG e muitos outros é a mesma incapaz de frear o aumento dos índices de criminalidade. É a mesma que ao deparar-se com manifestações populares por transporte público, saúde e educação padrão FIFA, tenta criminalizar os movimentos e aqueles que os apoiam.

O local de escolha das UPPs não tem qualquer relação com índices de criminalidade: formou-se um grande corredor na Zona Sul, na Região Portuária, no entorno do Maracanã e nos caminhos do Aeroporto. A prioridade tem sido as áreas centrais para a realização da Copa e para a recepção de turistas. Não foram os indicadores de criminalidade e violência que orientaram a escolha das localidades prioritárias para a implantação das UPPs e sim o interesse econômico. Antes de ser um projeto para a segurança pública a UPP é um projeto de cidade, da cidade mercadoria, que separa territórios para entregar aos interesses do capital independente da vida e da segurança das pessoas.

Desde 2007 os índices de homicídio são mais altos no restante da região metropolitana que na Capital, e mesmo assim não houve uma política global para lidar com o problema nestas cidades. Mesmo na cidade do Rio de Janeiro em nenhum momento o critério de definição para a escolha dos locais que receberiam UPP foram os índices de criminalidade violenta: algumas UPPs estão em áreas com baixíssimo índices de criminalidade violenta ao mesmo tempo que áreas historicamente conflagradas estão descobertas. Adicionalmente, a manutenção da mesma lógica de atuação de uma polícia formada para o confronto bélico, e não para a prevenção de situações de violência, acaba por criar um “efeito em cascata”, demonstrado pelo aumento de diversos tipos de crimes, e manutenção do número de homicídios em patamares apenas comparáveis à áreas que estão em guerra civil. O veículo chamado de “caveirão” hoje atua constantemente em Niterói, São Gonçalo, Baixada Fluminense, etc. intensificando ainda mais a participação do Estado na espiral de violência que vivemos.

Quando Sérgio Cabral assumiu o governo existia um projeto de policiamento comunitário anterior à UPP, o GPAE, em funcionamento. Em Niterói havia uma unidade no Cavalão (que ficou 10 anos sem registrar um homicídio) e outra no Morro do Estado. Foram simplesmente sucateadas e abandonadas, até que recentemente, com a crise da segurança em Niterói anunciou-se que serão transformadas em destacamentos avançados. Não há avaliação sobre este projeto, satisfação do que vai mudar, nada, só anúncios de novas promessas para tentar conter a insatisfação. Por outro lado, o número de homicídios desvendados pela polícia ainda é baixíssimo, as condições de perícia criminal são precários e os mecanismos de controle externo sobre a polícia praticamente inexistem. Política e Polícia nunca tiveram significados tão próximos e tão negativos.

A promessa de que a pacificação seria o primeiro passo para a garantia de direitos sociais para as favelas nunca se consolidou, reforçando um entendimento sobre segurança pública restrito à ampliação das forças repressoras, sem compreender que a reprodução da violência está diretamente relacionado à uma série de condicionantes sociais que devem ser modificados. A ausência de mecanismos formais de participação popular na discussão, no planejamento e no controle das ações da polícia pacificadora transformaram a sua prática em uma ação de vigilância e controle sobre os mais pobres, o que em uma polícia militarizada e fortemente marcada pela história de violência significa a consolidação de uma polícia autoritária e arbitrária que não respeita os cidadãos, ou seja, exatamente o contrário do que deveria ser a segurança pública.

As diversas Prefeituras do Estado do Rio de Janeiro, como a de Niterói, podem (e devem) construir políticas públicas de segurança para além do “choque de ordem”, que nada mais é que a repressão desenfreada aos trabalhadores do comércio informal. Ao invés de armar a guarda municipal com armas menos letais, como o taser, considerado pela Anistia Internacional aparelho de tortura, a Prefeitura poderia enfrentar os condicionantes sociais da violência e implementar, respeitando seu papel Constitucional, um plano emergencial para a Segurança Pública, no qual se incluiria: 1) Criação de programas de proteção e apoio dos denominados grupos vulneráveis à situações de violência (mulheres, negros, LGBTs, idosos, crianças e adolescentes, população em situação de rua, pessoas com deficiência física, dentre outros); 2) garantia e assistência e acesso à justiça para mulheres que sofram violência doméstica (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral); 3) Implementação de Programa Municipal de Valorização da Vida e Redução da Violência, que tenha como objetivo: a) Atuar, em conjunto com o Governo Estadual, na reformulação das políticas governamentais de segurança pública para uma estratégia pautada na inteligência policial e no policiamento sócio comunitário; b) Fomentar investigação contra grupos de extermínio e de ação criminosa de agentes do poder público; 4) Promover, em parceria com a Universidade Federal Fluminense, a elaboração de mapas de violência urbana, identificando as regiões que apresentem maior incidência de violência e criminalidade e incorporando dados e indicadores de desenvolvimento, qualidade de vida e risco de violência contra grupos vulneráveis; 5) Propor ao Governo do Estado a criação de programas de atendimento psicossocial para o policial e sua família, a obrigatoriedade de avaliações periódicas da saúde física e mental dos profissionais, de aquisição da casa própria e de estímulo à educação formal e à profissionalização; 6) Apoiar a implementação da PEC 300/2008, que prevê um piso salarial nacional para profissionais da segurança pública dos estados e da aprovação da PEC 51/2013, que propõe a desmilitarização das polícias; 7) Estimular o uso dos espaços públicos e convívio social mediante uma política de iluminação e aprimoramento de praças a partir de consultas à população, quanto às suas prioridades, iniciando-se pelos bairros da periferia e favelas, que historicamente tiveram menos acesso a tais serviços públicos; 8) Atuar com políticas públicas transversais com as Secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social, especialmente na prevenção do uso abusivo de álcool e outras drogas e suas consequências; 9) Elaborar com organizações da sociedade civil um manual de abordagem policial indicando os limites legais para o procedimento, em conjunto com uma Ouvidoria Pública Municipal sobre as práticas de agentes de segurança na cidade; 10) Reformulação do Conselho Municipal de Segurança Pública, com composição paritária entre Estado e sociedade civil, possibilitando a ampla participação popular na formulação, implementação e fiscalização de políticas públicas de segurança no município.

A atual política de segurança pública defendida por Cabral, Pezão, Rodrigo Neves e Eduardo Paes, faliu. E com sua falência, sofremos todas e todos, especialmente os mais pobres. Está mais do que na hora de realizarmos uma verdadeira mudança no âmbito estadual e municipal, superando a velha política e conclamando uma sociedade que tenha como tripé a promoção de direitos e o avanço da democracia e o respeito à vida.

Flavio Serafini é Presidente do PSOL Niterói e Professor da ESPJV-Fiocruz .

Vendo a falência das UPPs, Sérgio Cabral quer que as forças armadas façam o serviço

A matéria abaixo, produzida pelo jornal “ESTADO DE SÃO PAULO”  e repercutido pelo site UOL desnuda de forma indireta uma verdade que teima em aparecer, qual seja, a falência do arremedo de política de segurança (ou seria insegurança?) pública que ficou conhecida como Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). É que vendo o esfarelamento da farsa da pacificação, o (des) governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, agora quer que as forças armadas façam o trabalho que a PM do RJ claramente não está conseguindo fazer.

Agora, que ninguém se engane, Sèrgio Cabral não está preocupado com a situação da segurança dentro e fora das áreas pobres do Rio de Janeiro, A sua verdadeira preocupação reside no fato de que o seu já cambaleante candidato nas eleições de outubro de 2014, o vice (des) governador Luiz Fernando Pezão veja suas chances (minguadas a este ponto) de se tornar (des) governador definitivamente para a lata do lixo da história.

O mais perigoso nisso tudo é que a presença das forças armadas em atividades de manutenção da ordem já se provou um convite à tomada do controle do Estado. Pelo jeito, tem muita gente no governo de Dilma Rousseff que não sabe nada de história.

 

Cabral quer Forças Armadas no Rio até o fim do ano

Estadão Conteúdo

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), chegou à reunião com a presidente Dilma Rousseff, na sexta-feira (21), no Palácio do Planalto, com um pedido, no mínimo, inusitado, que deixou as Forças Armadas numa verdadeira “saia-justa”: que as tropas federais entrem, imediatamente, no patrulhamento das áreas mais sensíveis da capital fluminense e só saiam de lá apenas no fim de 2014, depois não só da realização da Copa do Mundo, como também do primeiro e segundo turno das eleições.

O fator facilitador é que, como o comando integrado de controle e apoio para a Copa já está em funcionamento no Rio, com generais participando diretamente de tudo, isto facilitará a entrada em operação dos militares. A operação dependerá ainda de um pedido do governo do Estado a Dilma para que ela assine um decreto autorizando a entrada das tropas, por tanto tempo, em tal lugar, com tal objetivo. Tudo ainda é negociado.

Todo o trabalho das Forças Armadas será feito com base na legislação para Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que prevê regras de engajamento específicas. Essa operação será semelhante à ocorrida em anos anteriores, nos morros do Alemão e da Penha. Embora não tenha havido definição ainda de número de militares a serem empregados neste tipo de operação, a expectativa é de que seja da ordem de 2400 homens.

Uma das queixas dos militares em missões como esta, quando uma operação das Forças Armadas acontece em conjunto com a Polícia Militar dos estados, é em relação à carga horária de trabalho. Nas PMs, em muitos casos, o regime de trabalho é de 24 horas de trabalho, por 36 ou até 48 horas de folga, dificultando a mobilização de pessoal, o que não acontece nas Forças Armadas.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/03/23/cabral-quer-forcas-armadas-no-rio-ate-o-fim-do-ano.htm

Mais de um terço dos jovens das áreas com UPPs são ociosos

Paulo Virgilio,Repórter da Agência Brasil

UPPS

Rio de Janeiro – Cerca de 34% dos jovens de 18 a 29 anos de idade que moram em comunidades pacificadas do Rio de Janeiro, não trabalham nem estudam. O dado consta do estudo Somos os Jovens das UPPs, feito pelo Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e divulgado hoje (27). Na faixa de 15 a 18 anos, o percentual dos jovens que não estudam e nem trabalham cai para 12%.

O levantamento foi feito com 1.652 jovens de 15 a 29 anos de sete comunidades com unidades de polícia pacificadora (UPPs) – Jacarezinho, Manguinhos, Mangueira, Prazeres/Escondidinho, São Carlos, Vidigal e Coroa/Fallet/Fogueteiro. São áreas nas quais a Firjan desenvolve o Programa Sesi Cidadania.

De acordo com a Firjan, os números apontados no estudo mostram a necessidade de investimento em educação nessas comunidades. Um dos dados revela que 46% dos jovens entre 15 e 17 anos ainda não chegaram ao ensino médio, e dos que têm 18 anos ou mais, 57% não conseguem completar o ensino regular escolar.

Outros dados apontados no estudo mostram a precocidade com que os jovens das comunidades pesquisadas assumem responsabilidades de adultos: 17% dos que têm entre 15 e 29 anos tiveram filhos entre os 12 e os 17 anos, e 13% dos que estão na faixa de 15 a 17 anos já ajudam financeiramente suas famílias.

Segundo a Firjan, um fator positivo apontado no diagnóstico é o grande avanço dos jovens de hoje em relação à geração anterior. Enquanto 48% dos maiores de 21 anos pesquisados no estudo têm pelo menos o ensino médio completo, entre seus pais e mães essa escolaridade é bem menor, de 14% e 16%, respectivamente. Com relação ao ensino superior, apenas 3% dos pais chegaram à universidade, contra 12% de seus filhos maiores de 21 anos.

O estudo aponta ainda a importância dada à educação pelos jovens de hoje das comunidades contempladas com UPPs, mesmo entre aqueles que não conseguiram chegar ao ensino médio. Valorizado por 94% dos jovens, o fato de ter um diploma é considerado por 20% deles o aspecto mais importante para o mercado de trabalho.

FONTE: http://www.brasil247.com/pt/247/rio247/125232/Mais-de-um-ter%C3%A7o-dos-jovens-das-%C3%A1reas-com-UPPs-s%C3%A3o-ociosos.htm