Ministério Público aciona Sigma Lithium e pede bloqueio de R$ 50 milhões da mineradora

Por Rafael Oliveira para “Agência Pública”

Os ventos do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, não estão favoráveis para a mineradora Sigma Lithium. Na terça-feira, 16, a empresa foi acionada pelo Ministério Público do estado (MPMG), com o intuito de que a companhia seja obrigada a reparar danos socioambientais. Na manhã desta sexta-feira, 19, também foi alvo de uma manifestação no município de Araçuaí, reação a comentários feitos pela CEO da Sigma, Ana Cabral, durante a Conferência do Clima da ONU (COP30), em Belém (PA).

A ação civil pública (ACP) foi apresentada pelo promotor Felipe Marques Salgado de Paiva na Vara Cível da Comarca de Araçuaí no mesmo dia em que a Agência Pública levou ao ar reportagem sobre os impactos da mineração de lítio conduzida pela Sigma no Jequitinhonha.

Casas rachadas por conta das detonações e o temor de que o teto desabe sobre suas cabeças dão a tônica do cenário encontrado pela equipe na região. A matéria também revela um cenário de dificuldades financeiras da Sigma, que registrou prejuízo líquido em todos os últimos anos e que está com as atividades paralisadas desde que a empreiteira terceirizada se retirou da operação por falta de pagamento.

A reportagem serviu como embasamento para que o MPMG demandasse antecipação de tutela (decisão imediata, antes do julgamento final de mérito), justamente no trecho em que trata dos percalços econômicos da mineradora.

Apontando o prejuízo milionário da empresa em 2025 informado pela Pública, o órgão afirma que “há fundado receio de que a condição financeira da empresa requerida se deteriore a ponto de não mais permitir que ela arque com as obrigações necessárias à reparação”, pedindo que haja a “fixação de medidas para bloquear valores em conta da mineradora para garantir a reparação ao final do processo”. Por conta disso, o MPMG pede que a empresa deposite em juízo R$ 50 milhões como garantia do cumprimento das obrigações impostas.

O órgão pede ainda que a Sigma seja obrigada, em caráter liminar (ou seja, com efeitos imediatos), a reassentar emergencialmente as famílias afetadas que manifestem interesse, crie uma nova estrada para famílias que se encontram isoladas pelo empreendimento, custeie auditoria técnica independente para monitoramento de ruído, poeira e vibrações, assim como assessoria jurídica para os atingidos.

Entre outras medidas em caráter liminar, demanda também o custeio de programas de saúde às comunidades afetadas e a suspensão de propagandas que coloquem a empresa como “sustentável” até que os danos às comunidades sejam mitigados.

“Esta prática de greenwashing (propaganda enganosa verde) constitui uma forma perversa de desinformação ambiental que facilita a captação de investimentos e o licenciamento ambiental às custas da externalização dos custos socioambientais para as comunidades locais”, afirma Salgado de Paiva na ação.

Em caráter definitivo (após o julgamento), o MPMG pede que a empresa seja condenada a indenizar as comunidades em R$ 50 milhões, repare todos os danos individuais causados pelo empreendimento, custeie a auditoria independente e a assessoria jurídica de maneira permanente e financie programa de desenvolvimento econômico das comunidades, entre outras medidas.

CEO da Sigma chamou população de “mulas d’água” e virou alvo de protesto

“Nós treinamos aquela geração perdida do Vale [do Jequitinhonha], que eram mulas d’água, crianças que não tinham escola”. A afirmação da CEO e fundadora da Sigma, Ana Cabral, em uma entrevista à rede de televisão CNBC em 14 de novembro, durante a COP30, gerou uma onda inédita de repúdio, como constatou a Pública no período em que esteve na região. A fala, apontada como “paternalista”, “irresponsável” e até “mentirosa”, fez com que a empresária se tornasse persona non grata entre moradores e alvo de notas críticas de políticos da região, incluindo os prefeitos de Araçuaí e Itinga, além de empresários e de lideranças locais.

A ausência de retratação por parte da mineradora – que, pelo contrário, reafirmou as declarações em publicação no Instagram, que alegou ser alvo de  “campanhas de marketing” que serviam para “espalhar fake news” –, fez com que movimentos sociais da região organizassem uma “Marcha pelo Respeito ao Vale do Jequitinhonha”.

Realizado na manhã desta sexta-feira, 19 de dezembro, em Araçuaí, o ato reuniu centenas de membros de comunidades tradicionais e de organizações da sociedade civil da região. Participaram o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), a Cáritas Diocesana de Araçuaí e a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), entre outras entidades, e foram apresentadas manifestações culturais típicas da região. O bispo da Diocese local, Dom Geraldo Maia, que revelou à Pública no mês passadoter rompido sua interlocução com a empresa enquanto não houvesse retratação, foi uma das lideranças a discursar no protesto.

Manifestação da população de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, contra a mineradora de lítio Sigma
Além das declarações de Ana Cabral, os impactos da mineração de lítio também foram alvo de cartazes e faixas estendidos pelos manifestantes, com frases como “Parem de destruir nossas casas”, “Não somos geração perdida” e “Não somos zona de sacrifício”.

A Pública questionou a Sigma Lithium sobre a ação civil pública movida pelo MPMG e sobre os protestos contra as declarações de Ana Cabral. A empresa não respondeu até a publicação deste texto. Caso haja manifestação, ele será atualizado.

Edição: Ludmila Pizarro


Fonte: Agência Pública

Exploração de lítio amplia contaminação do solo e da água em Minas Gerais

Pesquisadores alertam para o risco de consumo excessivo de alumínio entre os moradores do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Mina de extração de lítio operada pela Sigma Lithium, próxima à comunidade Piauí Poço Dantas, em Itinga (MG). Rebeca Binda 

Por Enrico Di Gregorio para “Revista Pesquisa Fapesp”

Os municípios de Araçuaí, com 35 mil habitantes, e Itinga, com 15 mil, ambos no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, vivem a perspectiva de aumento de empregos e de renda, mas também de contaminação do solo e da água. Tanto o desenvolvimento econômico quanto os problemas ambientais estão associados à exploração do lítio, elemento químico estratégico para a produção de baterias e para a transição energética (ver Pesquisa FAPESP nº 285).

Em 2023, o governo de Minas Gerais lançou o programa Vale do Lítio, para promover a exploração do mineral. Até aquele ano, uma empresa privada nacional, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), era a única a operar na região. Depois, a mineradora canadense Sigma Lithium iniciou a produção. A também canadense Lithium Ionic, a norte-americana Atlas Lithium, a australiana Latin Resources e a chinesa BYD adquiriram áreas para pesquisa mineral na região.

No Brasil, o lítio é extraído principalmente do espodumênio, mineral encontrado em rochas chamadas pegmatitos. O problema é que a exploração química e mecânica das rochas e minerais para a retirada do lítio libera nanopartículas minerais com alumínio, elemento químico potencialmente tóxico que compõe o espodumênio.

“Os resíduos descartados contendo alumínio ficam empilhados em montes de rejeitos a céu aberto e, quando chove, são levados pela água superficial e se infiltram no solo”, conta o engenheiro-agrônomo Alexandre Sylvio Costa, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Com seus colegas da universidade, ele percorreu a região e buscou formas de resolver o problema.

O grupo da UFVJM examinou as possibilidades de uso do silicato de alumínio, resíduo gerado após o espodumênio passar por um aquecimento a altas temperaturas, a chamada calcinação, e por uma solução com ácido sulfúrico, formando sulfato de lítio. Em parceria com a CBL, os pesquisadores desenvolveram um silicato de alumínio não reativo, que, por causa de suas propriedades iônicas, atrai partículas dispersas na água, em um processo chamado floculação, ajudando a purificá-la, como detalhado em um estudo publicado em outubro no International Journal of Geoscience, Engineering and Technology.

A mineração do lítio amplia a liberação de elementos químicos e, portanto, os riscos de contaminação ambiental”, reforça o geólogo Edson Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele e o geólogo Cássio Silva, da Companhia de Recursos em Pesquisas Minerais (CRPM), coletaram amostras de solo, vegetais e água nos arredores das cidades de Araçuaí e Itinga em 2008 e 2009 e, em todas, identificaram teores de alumínio acima do recomendado.

Os resultados das amostras próximas à mina apresentaram valores de alumínio similares aos regionais. Em pouco mais da metade (60%) das amostras coletadas, a concentração média era de 30,7 miligramas (mg) de alumínio por quilograma (kg) no solo, quase o dobro dos 17,7 mg por kg de áreas sem exploração de lítio. Na água, a média é de 0,405 mg por litro (L), bem acima dos limites de 0,05 mg/L a 0,2 mg/L de água potável recomendados pelo Ministério da Saúde, como detalhado em um artigo publicado em agosto de 2025 na Journal of Geological Survey.

Pegmatito, rocha da qual é extraído o mineral que contém lítioLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Silva estimou que cerca de 50 mil moradores da região estão expostos ao risco de contaminação por alumínio, cujo excesso prejudica o funcionamento dos ossos, músculos e do sistema nervoso central. Preocupado com a situação, ele enviou os resultados para as empresas e órgãos públicos de Minas Gerais. As prefeituras de Araçuaí e Itinga e a Sigma não responderam às reiteradas solicitações de entrevistas de Pesquisa FAPESP.

Outras áreas do Vale do Jequitinhonha também apresentam sinais de impacto social e ambiental. Em novembro de 2024, ao percorrer o Vale do Jequitinhonha, a socióloga brasileira Elaine Santos, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em Portugal, também deu razão aos protestos dos moradores, expressos em uma reportagem da Agência Brasil, de outubro de 2025. “Nas paredes das casas, vi rachaduras que os moradores diziam ser causadas pelas explosões das mineradoras”, afirma. “Eles relatavam que, o tempo todo, havia poeira e barulhos de máquinas.”

Na província de Yichun, na China, a maior produtora mundial de lítio, além da contaminação da água, a mineração aumentou a concentração de partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros na atmosfera para mais que o dobro dos níveis recomendados naquele país, concluíram pesquisadores do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). As análises foram detalhadas em um artigo publicado em abril de 2025 na revista EixosTech.

Problemas semelhantes inquietam os habitantes no noroeste da Argentina. Nessa região, o problema é a retirada de grandes quantidades de água, reduzindo o fluxo dos aquíferos subterrâneos que abastecem os moradores, alertaram pesquisadores das universidades nacionais de Salta (UNSa) e de La Plata (UNLP) em um artigo publicado em fevereiro de 2025 na revista Heliyon. De acordo com esse trabalho, uma das minas, na província de Jujuy, consome cerca de 51 metros cúbicos (m³) de água por tonelada de carbonato de lítio. Esse volume corresponde a 30% da água doce do complexo de salinas conhecido como Salar de Olaroz-Cauchari, de onde se extrai o lítio.

O que fazer?
“Simplesmente parar de usar lítio não é uma opção”, antecipa Santos. A partir de 2011, a extração do mineral ganhou importância em todo o mundo ao ser amplamente usado em baterias que duram mais tempo e em fontes renováveis de energia. Para ela, não se deveria criar grandes empreendimentos sem investir em serviços de saúde e agentes de fiscalização: “É preciso desenvolver uma infraestrutura que possa suportar as consequências da mineração”.

Mello, da UFRJ, ressalta a necessidade de mais transparência, audiências públicas, estudos de impacto ambiental e acompanhamento da mineração. “Precisamos mostrar claramente os riscos ao ambiente e aos moradores, que raramente são ouvidos”, diz. “Os estudos geológicos prévios também precisam ser debatidos com as comunidades para que possamos ter uma mineração com o mínimo possível de impactos ambientais.”

As resoluções nº 001/1986 e nº 237/1997 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definem a participação popular no licenciamento ambiental de atividades de mineração como princípio fundamental e instrumento jurídico obrigatório. O artigo da EixosTech, porém, observa que a escassez de fiscais e de recursos da Agência Nacional de Mineração (ANM) dificulta a implementação dessas leis.

Em setembro de 2025, o procurador Helder Magno da Silva, do Ministério Público Federal (MPF), recomendou formalmente à ANM a suspensão e revisão de todas as autorizações de pesquisa e extração de lítio no Vale do Jequitinhonha e solicitou “uma consulta prévia, livre, informada e de boa-fé” das populações locais antes de qualquer nova concessão para exploração de lítio.

Artigos científicos


ANDRADE, G. S. et alImpactos da mineração de lítio: Análise comparativa entre Vale do Jequitinhonha e YichunEixosTech. v. 12, n. 2. abr-jun. 2025.

HERON, T. et alValuation of lithium mining waste for water treatment: An experimental study and broader implications of residual aluminum silicate (Al2SiO5) as an artificial zeolite. International Journal of Geoscience, Engineering and Technology. v. 12, n. 1. 31 out. 2025.
PAZ, W. F. D. et alThe water footprint of lithium extraction technologies: Insights from environmental impact reports in Argentina’s salt flatsHeliyon. v. 11, n. 4. 28 fev. 2025.
SILVA, C. et al. Exposure of aluminum in the Araçuaí-Itinga Lithium Pegmatite District, Minas Gerais, Brazil: Contaminant and toxicological effects on populations established nearby mining activities. Journal of Geological Survey. v. 8, n. 2. 7 mar. 2025.


Fonte:  Revista Pesquisa Fapesp

Justiça barra licenciamento ambiental de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha

Licenciamento de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha, é barrado pela Justiça; entenda

Vista aérea do Vale do Jequitinhonha | Crédito: Pixabay 

Por Thyago Henrique para o “Diário do Comércio” 

O licenciamento ambiental concomitante (LCA) do projeto Anitta, da Atlas Lithium, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha – que envolve lavra a céu aberto, pilha de rejeito/estéril e estrada para transporte de minério – estava previsto para ser votado pela Câmara de Atividades Minerárias do Conselho Estadual de Política Ambiental (CMI/Copam) em reunião na sexta-feira (29), mas foi barrado pela Justiça Federal em Minas Gerais.  

Na véspera, o juiz Antônio Lúcio Túlio de Oliveira Barbosa, da Vara Federal com Juizado Especial Federal (JEF) Adjunto de Teófilo Otoni, determinou que o Estado de Minas Gerais suspendesse imediatamente a deliberação e votação do processo, bem como se abstenha de pautá-lo em reuniões futuras até que seja proferida uma nova decisão judicial.

O pedido de tutela de urgência foi proferido no âmbito de uma ação civil pública (ACP), movida pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) contra a Atlas, o Estado e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Os réus foram procurados, mas apenas a Advocacia-Geral do Estado de Minas Gerais (AGE) retornou, informando que “irá se manifestar nos autos do processo”.

Na ACP, a N’Golo alegou que a Atlas não realizou o Estudo do Componente Quilombola (ECQ) e a consulta prévia à Comunidade Quilombola de Giral, Malhada Preta, Água Branca e Santa Rita do Piauí, certificada pela Fundação Cultural Palmares, cujo território se encontra a cerca de 5,55 quilômetros (Km) da Área Diretamente Afetada (ADA). A federação ainda acusou a empresa de prestar informação falsa no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), ao afirmar que a comunidade estaria a mais de oito Km do projeto.

Ao acatar o pedido da N’Golo, o magistrado, na prática, proíbe o Estado de deliberar sobre o licenciamento ambiental do Anitta até que a mineradora elabore o ECQ e a consulta livre a comunidade quilombola. Cabe ressaltar que os réus podem contestar a deliberação.

O que disse o magistrado

O magistrado apontou na decisão que a consulta prévia dos povos e comunidades tradicionais é obrigatória e disse que, no próprio EIA, a Atlas traz um mapa indicando que a comunidade quilombola está a menos de oito Km do Anitta. O juiz também mencionou uma controvérsia da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

Segundo Barbosa, o parecer do órgão ambiental reconhece que a comunidade quilombola  está a 5,55 Km da ADA do projeto. Ele ainda afirmou que a justificativa do órgão para dispensar a consulta baseada na existência de uma “barreira natural, a Chapada do Lagoão”, “parece, à primeira vista, insuficiente para afastar uma presunção estabelecida em norma federal e o dever imposto por um tratado internacional de direitos humanos”.

Para a federação, a decisão representa uma importante vitória das comunidades

A N’Golo recebeu com satisfação a decisão da Justiça. Conforme nota assinada pelo advogado da federação, Matheus Mendonça Gonçalves Leite, “a decisão judicial representa uma importante vitória das comunidades quilombolas na resistência à expansão da mineração predatória no Vale do Jequitinhonha, vergonhosamente denominado pelo governador do Estado de Minas Gerais como Vale do Lítio”.

Leite destaca que o Jequitinhonha é o vale da riqueza, da solidariedade e do bem-viver dos povos e comunidades tradicionais. Para o advogado, o Estado de Minas Gerais, “subserviente aos interesses do capital minerário, está violando, de modo sistemático e generalizado, os direitos humanos e fundamentais das comunidades quilombolas nos licenciamentos ambientais de empreendimentos minerários”.


Fonte:  Diário do Comércio

Pesquisadores pedem paralisação da extração de lítio da Sigma no Vale do Jequitinhonha

Violações graves de direitos humanos, irregularidades no licenciamento ambiental, deficiências nos estudos de impacto ambiental e a utilização de tecnologias ultrapassadas que provocam um dano socioambiental 30 vezes maior do que outras tecnologias existentes. 

Foto de destaque: operação da Sigma no Jequitinhonha / Rebeca Binda

Por Lúcio Lambranho para o “Observatório da Mineração” 

Essa é a lista de problemas apontados por pesquisadores no projeto de extração de lítio da Sigma Lithium S.A no projeto da mineradora canadense na Grota do Cirilo, localizada nos municípios de Araçuaí e Itinga (MG). 

A nota técnica encaminhada aos órgãos ambientais mineiros recomenda a suspensão imediata das atividades da empresa. É assina por professores de quatro núcleos de pesquisa vinculados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e à London South Bank University, todos envolvidos no projeto de pesquisa internacional LIQUIT (Local, Indigenous, Quilombola and Traditional Communities and the construction of the ‘Lithium Valley’ in Minas Gerais, Brazil: Empowering silenced voices in the energy transition). 

O documento também pede a revogação de todas as licenças ambientais concedidas ao empreendimento; a revisão do licenciamento, incorporando saberes locais e a Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI); e a priorização de estudos para averiguar a viabilidade ambiental de tecnologias de baixo impacto, como a mineração subterrânea. 

Entre os pontos levantados pelos pesquisadores no documento sobre a questão ambiental que envolve a Sigma está a separação do licenciamento ambiental de um único empreendimento em vários projetos. 

Segundo o comunicado dos pesquisadores das universidades, a Sigma “fragmentou” o licenciamento ambiental “em múltiplos processos para evitar análise integrada dos impactos, simplificar e acelerar os procedimentos de regularização ambiental”.

O projeto, dizem os pesquisadores, é um único complexo industrial com até nove cavas planejadas, mas foi dividido em requerimentos de licenças separadas. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da empresa omitiu análise de impactos cumulativos com outras mineradoras na região e, por ser dividido em partes, também viola decreto do governo mineiro de 2018, afirmam.

“Isso não é licenciamento, é um greenwashing burocrático. As solicitações reiteradas de ampliações da infraestrutura para o empreendimento ferem o artigo 16 do Decreto nº 47.383/2018, que estabelece a obrigatoriedade de inclusão de todas as atividades, considerando áreas contíguas ou interdependentes, sob pena de aplicação de penalidade caso seja constatada fragmentação do processo de licenciamento”, aponta Marcos Zucarelli, pesquisador do GESTA/UFMG.

Os pesquisadores afirmam ainda que o controle sobre as águas da região não está sendo respeitado no pedido da Sigma. Segundo a nota técnica, as medidas mencionada no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) para monitoramento e controle dos valores-limite referentes à qualidade das águas superficiais e subterrâneas, de exposição à poeira, ruído e vibrações “não configuram medidas de prevenção, mitigação ou compensação de impactos, segundo as normas do governo estadual (art. 27 da DN COPAM 217/2017″. 

“Embora a possibilidade de mudanças na hidrogeologia devido às cavas seja mencionada superficialmente em alguns lugares, nenhum estudo sistemático aprofundado das mudanças nos aquíferos da foi apresentado. Isso seria particularmente importante em vista dos efeitos cumulativos associados às cavas adicionais que a Sigma Lithium planeja escavar no futuro e às atividades de outras empresas nas imediações das operações da Sigma”, diz a nota.

Sigma ocupou audiência pública que discutia ampliação do projeto com pessoas beneficiadas pela empresa, diz nota técnica

Entre os 11 itens da nota técnica constam problemas relacionados com as audiências públicas que foram solicitadas pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para avaliar a situação das comunidades Piauí Poço Dantas e Ponte de Piauí. Ambas são afetadas pela por danos às suas moradias, poluição sonora, poeira e poluição da água causados pelo projeto.

Ainda em julho de 2023,reportagem do Observatório da Mineração mostrou os problemas gerados pelo projeto da empresa nas comunidades indígenas e quilombolas da região. 

Os problemas já tinham sido relatados desde que o projeto entrou em operação em 2023, mas os temas deveriam ser abordados na avaliação dos estudos ambientais que instruem o pedido para a ampliação do mesmo projeto.  

Segundo os pesquisadores, nos encontros realizados nos dias 9 e 10 de abril deste ano em Itinga-MG e em Araçuaí-MG as respostas dos representantes da Sigma não mostraram disposição para resolver a situação. 

Além disso, o documento afirma que a empresa fez um “enorme esforço corporativo” para mobilizar as pessoas beneficiadas pelos programas sociais da empresa. 

“Percebe-se que o limite de 36 falas com duração de três minutos cada para manifestação da sociedade civil, conforme previsão da Deliberação Normativa nº 225/2018, foi dominado por intervenções dessa natureza. Como observou o promotor Rauali Kind Mascarenhas, tais contribuições desviaram-se do foco principal da Audiência Pública, que era discutir os impactos ambientais existentes e as possíveis soluções”, destaca a nota técnica.

O licenciamento também ignorou, segundo os pesquisadores, a consulta prévia às comunidades, conforme determina a Convenção 169 da OIT, e “utilizou majoritariamente dados socioeconômicos secundários e informações coletadas pela própria Sigma, ferindo a independência necessária para processos dessa natureza”.

“As populações que vivem no território foram estrategicamente silenciadas. A empresa apresentou 14 slides reciclados de outros EIAs com dados sobre o meio físico e biótico, enquanto o meio socioeconômico mereceu apenas um, sem qualquer menção a risco para habitações vizinhas ou potenciais ameaças a economias e culturas locais.” destacou Francisco Calafate-Faria, pesquisador da London South Bank University e coordenador do Projeto LIQUIT. 

Vanessa Juliana, pesquisadora e extensionista do Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro, afirmou que moradores denunciam as condições degradantes de vida nos seus territórios após o início das atividades da mineração e relacionadas ao barulho, à poeira, às rachaduras nas casas, à insegurança habitacional e patrimonial. 

“A empresa ignorou as queixas das comunidades afirmando que monitorava ruídos e vibrações e alegando legalidade dos procedimentos. Também não foi considerado que as cerca de 70 famílias diretamente atingidas por esse processo tiveram suas vidas completamente transtornadas, com os barulhos do desmonte das rochas e do trânsito de veículos de grande porte o tempo todo”, diz.  

Empresa usou solução “obsoleta” de extração e de maior impacto, afirmam pesquisadores 

A nota técnica afirma que a Sigma Lithium, apesar de se posicionar como pioneira na “mineração sustentável”, opera com o método de open pit mining (mina a céu aberto). 

“Tecnologia considerada obsoleta e responsável por gerar 94% de estéril (lixo mineral) e apenas 6% de minério de lítio. Enquanto isso, outra empresa, vizinha ao projeto da Sigma, utiliza há três décadas o método sublevel stoping (mineração subterrânea), que reduz em 30 vezes o consumo de terra e a geração de estéril”, avaliam os pesquisadores.

“A Sigma escolheu o caminho mais barato e destrutivo, transformando o Vale do Jequitinhonha em um território vítima do consumismo no exterior. Enquanto empresas locais operam com eficiência e menor impacto, ela está devastando áreas sensíveis, ignorando soluções técnicas viáveis”, afirma Klemens Laschefski, professor do Departamento de Geologia da UFMG e pesquisador do GESTA – UFMG. 

O projeto citado na comparação é o da empresa brasileira Companhia Brasileira de Lítio (CBL) que, segundo a análise, vem minerando lítio em uma formação geológica semelhante desde 1992, por meio de mineração subterrânea. 

“O erro fundamental das autoridades ambientais é que elas basicamente adotaram a avaliação econômica abstrata da empresa Sigma e categorizaram o projeto de acordo com o produto que se espera que gere o maior lucro: os depósitos de pegmatito/espodumênio. Ao fazer isso, eles cometeram exatamente o equívoco que os estudos ambientais deveriam evitar, já que a concessão das licenças permitiu que a empresa externalizasse os problemas sociais e ecológicos causados pelo uso extremo da terra”, afirma a nota técnica.

A reportagem não recebeu até o fechamento desta edição resposta ao pedido de posicionamento da Sigma sobre a nota técnica enviada em 29 de abril. O espaço continua aberto para receber as informações da Sigma.


Fonte: Observatório da Mineração

Nota de repúdio à Sigma Lithium por tentar censurar a imprensa e impedir a divulgação de resultados de pesquisa

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e as Sociedades Científicas abaixo assinadas, vem a público manifestar preocupação e repúdio quanto à tentativa da empresa Sigma Lithium S.A. de impedir a divulgação das análises realizadas por pesquisadores de núcleos de pesquisa consolidados, no Brasil e no exterior, sobre os impactos ecológicos e sociais de suas atividades. A tentativa de censura foi dirigida ao portal Observatório da Mineração por meio de notificação extrajudicial tendo como objeto a “Nota técnica sobre os estudos ambientais para a ampliação do projeto Grota do Cirilo – pegmatito Xuxa Sigma Lithium S. A.” que seria divulgada por aquele veículo da imprensa independente.

A Nota Técnica dos pesquisadores reunidos no projeto acadêmico internacional LIQUIT – Local, Indigenous, Quilombola and Traditional Communities and the construction of the Lithium Valley; in Minas Gerais, Brazil: Empowering silenced voices in the energy transition – foi apresentada à Diretoria de Gestão Regional (DGR) da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) em Minas Gerais, no âmbito do processo de licenciamento ambiental do projeto de mineração, conforme previsto em legislação (DN COPAM 225/2018). No LIQUIT participam cientistas e estudantes vinculados ao Grupo de Estudos em Temas Ambientais da UFMG (GESTA/UFMG), ao Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental da Universidade Estadual de Montes Claros-MG (NIISA/Unimontes), ao Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri – UFVJM e à London South Bank University (LSBU).

O projeto de pesquisa acadêmica visa à investigação dos impactos sociais e ambientais da exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, o que implica a produção de conhecimento e a sua ampla divulgação. Neste sentido, pesquisadores e pesquisadoras analisaram os estudos de impacto ambiental apresentados pela empresa Sigma Lithium, depoimentos obtidos em duas audiências públicas sobre o projeto de mineração, documentos apresentados pelo Ministério Público de Minas Gerais, além de realização de trabalho de campo e consultas a fontes diversas. Foram identificadas inúmeras inconsistências, contradições e incoerências nos estudos de impacto ambiental apresentados pela mineradora, inclusive em relação à legislação vigente, sinalizando a necessidade de esclarecimentos no âmbito dos procedimentos formais do processo de licenciamento ambiental.

A Nota Técnica foi divulgada também ao público por meio de informações à imprensa, nas quais os coordenadores dos grupos de pesquisa, bem como cientistas colaboradores, se manifestaram. Como é habitual, a mineradora poderia ter se pronunciado sobre os pontos abordados na Nota Técnica e, se necessário, com base em argumentos técnicos, apresentado seu contraponto, inclusive nos mesmos veículos de comunicação que publicaram a Nota do LIQUIT.

No entanto, a empresa não respondeu ao Observatório de Mineração, que pretendia divulgar o material elaborado pelos pesquisadores de forma equilibrada, dando voz a todas as partes envolvidas, optando por intimidá-lo por meio de notificação extrajudicial com a ameaça de medidas legais caso a nota técnica do LIQUIT fosse divulgada. Vale destacar que o Observatório da Mineração não mantém qualquer vínculo financeiro ou de outra natureza com os grupos de pesquisa mencionados.

Vemos essas tentativas de censura e intimidação com grande preocupação. Neste sentido, expressamos nossa indignação por tais práticas eticamente inaceitáveis, cujo objetivo é silenciar trabalhos acadêmicos críticos.

Brasília, 19 de maio de 2025.

Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

Assinam a Nota

Assoc. Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação (Compós)

Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP)

Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM)

Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBENBIO)

Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ)

Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC)

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)

Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar)

Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)

Associação Brasileira de Professores de Italiano (ABPI)

Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)

Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI)

Associação de Linguística Aplicada do Brasil (ALAB)

Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB)

Associação Nacional de História (ANPUH)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP)

Associação Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ANCIB)

Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião

(Anptecre)

Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom)

Fórum de Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Linguística, Letras e Artes

(FCHSSALLA)

Sociedade Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT)

Sigma Lithium tenta intimidar e censurar o Observatório da Mineração

Foto: operação da Sigma no Vale do Jequitinhonha / Rebeca Binda

Por Maurício Ângelo para o Observatório da Mineração 

A mineradora Sigma Lithium, empresa sediada no Canadá, enviou uma notificação extrajudicial ao Observatório da Mineração em 30 de abril após um pedido de posicionamento da nossa reportagem sobre uma nota técnica produzida por pesquisadores de universidades brasileiras e da Inglaterra.

Ao invés de responder aos argumentos dos pesquisadores, a Sigma optou, ao que parece, por manifestar conduta com fim de intimidar, ameaçar e tentar, inclusive, censurar previamente o Observatório da Mineração. A notificação enviada pelos advogados da mineradora pedia que a matéria publicada na quarta, 07 de maio, não fosse ao ar

“Caso a nota alegadamente técnica venha a ser tornada pública, a SIGMA adotará todas as medidas legais cabíveis com vistas à responsabilização dos envolvidos, incluindo-se a apuração de responsabilidade penal e o pagamento de indenização por danos morais e materiais eventualmente constatados”, afirma a notificação da mineradora.

A mineradora, por seus advogados, alega que o relatório dos pesquisadores, que pedem a suspensão das atividades da empresa no Jequitinhonha, seria “texto difamatório, que simula ser documento de natureza técnica, mas que é desprovido de subsídio científico e legal, e que visa unicamente a macular a imagem e a reputação da SIGMA”.

A referida nota técnica produzida por pesquisadores de renomadas instituições foi enviada para diversos veículos de mídia no Brasil e no exterior. Ao cumprir o dever de ouvir o outro lado, porém, o Observatório da Mineração acabou sendo alvo de intimidação e tentativa de censura por parte da Sigma.

Os advogados concluem reforçando que a mineradora “serve-se da presente para notificar V. Sas. para que se abstenham de divulgar o documento ou trechos de seu conteúdo, sob pena de serem adotadas as medidas legais cabíveis, incluindo-se o requerimento para apuração de responsabilidade penal e a condenação ao pagamento de indenização pelos danos causados”.

Chama a atenção que, até o momento, apenas o Observatório da Mineração foi alvo da mineradora, mesmo tratando-se de nota técnica destinada à divulgação pública e cuja autoria não contou com a participação da nossa equipe. O Brasil de Fato publicou na segunda, 05 de maio, uma matéria sobre a nota técnica e não foi alvo de intimidação por parte da Sigma, o que revela um direcionamento do ataque ao trabalho deste Observatório.

A notificação extrajudicial da Sigma ataca o direito à liberdade de expressão do Observatório da Mineração, que há 10 anos atua de forma independente e se tornou referência internacional na cobertura investigativa do setor mineral. 

A Sigma ataca ainda todos os veículos que produzem jornalismo sério, independente, crítico e rigoroso. 

A postura da mineradora também ataca a ciência brasileira e internacional, tentando desqualificar o trabalho de pesquisadores respeitados em suas áreas. 

Em resposta, o Observatório da Mineração enviou uma contranotificação para a Sigma preparada por nossa assessoria jurídica, publicou a matéria alvo de censura prévia, comunica à sociedade a intimidação feita pela Sigma e está acionando as entidades representativas de classe do jornalismo sobre o ocorrido.

Desde 2023 a atuação da Sigma no Vale do Jequitinhonha tem sido objeto de interesse pela mídia brasileira e internacional, incluindo o Observatório da Mineração, que foi um dos primeiros a reportar os impactos socioambientais causados pela atuação da empresa, ainda em julho de 2023.

Outras matérias se seguiram, incluindo a revelação, em outubro de 2024, de que a verba limite do Fundo Clima foi alterada para permitir um empréstimo de quase R$ 500 milhões do BNDES para a Sigma. 

Em todas as oportunidades, mesmo procurada por email, ligações, mensagens e até pessoalmente por nossa reportagem, os representantes da Sigma nunca responderam aos pedidos de comentário feitos pelo Observatório da Mineração.

Ao tentar agora, ao que parece, causar intimidação, e inclusive indicar forma que emula censura à atuação do Observatório da Mineração, a Sigma revela que opta pelo caminho evasivo e não por se posicionar diante dos legítimos questionamentos feitos por pesquisadores, por indígenas, quilombolas, a população das cidades afetadas em Minas Gerais e mesmo pelo Ministério Público.

O Observatório da Mineração está tomando e tomará todas as providências que se mostrem necessárias para assegurar o seu direito a um jornalismo investigativo independente que sempre visou e sempre visará o interesse público.


Fonte: Observatório da Mineração

Grande sertão, sem veredas: ‘aço verde’ que brilha na Europa seca o Jequitinhonha

Por Daniel Camargos e Simone Fant, de Turmalina (MG), e Emmanuelle Picaud, de Paris | Imagens Tamás Bodolay  para a Repórter Brasil

Aos 85 anos, João Gomes de Azevedo lembra do tempo em que as águas corriam fartas pelo Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Havia peixes no rio, o gado pastava livre pelas veredas e a terra dava mandioca, milho e feijão em abundância.

Hoje, ele olha para o chão seco ao redor de sua casa, na comunidade de Poço d’Água, em Turmalina (MG), e vê apenas poeira. “A água foi embora. E a gente foi ficando para trás”, lamenta. Diante da secura, o nome do povoado, distante 500 quilômetros de Belo Horizonte, tornou-se uma ironia.

Enquanto Seu João luta para encontrar água, na fazenda vizinha crescem florestas de eucalipto a perder de vista. A dona das terras é a Aperam, a maior produtora de aço inox da América Latina. A empresa ostenta certificados de boas práticas ambientais, ao produzir aço com carvão vegetal de “florestas renováveis”, como ela nomeia o cultivo. 

Quem discorda chama de “deserto verde”, pois as fazendas de eucalipto estão secando o solo, conforme relatam moradores de comunidades tradicionais e quilombolas. As denúncias são respaldadas por pesquisas científicas e levaram a uma revisão do selo de sustentabilidade da Aperam – o que pode virar um problema para os negócios da gigante europeia.

“Os eucaliptos secaram as nascentes. O que antes dava para plantar, agora virou terra morta”, conta João Batista, agricultor de Veredinha, município vizinho a Turmalina. Ao redor da casa dele, estendem-se plantações com árvores de 20 metros de altura.

João Batista da Silva, 65 anos e Maria Mercedes Cordeiro da Silva, 63 anos.

O casal João Batista e Maria Mercedes recorda da abundância de peixe nos rios. “Pegava lambari com a peneira”, lembra João. “Depois do eucalipto foi só ‘destruimento’. Ficamos sem água, sem terra e sem peixes” (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

A Aperam tem 124 mil hectares no Vale do Jequitinhonha, sendo 76 mil de eucalipto, uma área plantada equivalente à soma dos territórios de Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte (MG). A maior parte dessas terras foi repassada na década de 1970 durante a ditadura militar para uma estatal, a Acesita. Nos anos 1990, a companhia foi  privatizada e comprada pelo grupo ArcelorMittal, maior acionista da Aperam.

Os militares consideravam as terras devolutas (sem uso) e desejavam desenvolver a região. Com isso, as chapadas que antes eram de uso comum, onde as comunidades criavam o gado solto, foram destinadas à monocultura de eucalipto.

A madeira obtida é queimada para produção de carvão vegetal, que abastece os altos-fornos da siderúrgica em Timóteo (MG), no Vale do Aço. A operação também possibilita a venda de créditos de carbono na Nasdaq (EUA), o segundo maior mercado de ações do mundo, a partir da produção do biochar – um subproduto do eucalipto capaz de sequestrar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

A Aperam nega ser responsável pela escassez hídrica e diz que os eucaliptos consomem a mesma quantidade de água das árvores nativas. Porém, estudos demonstraram os impactos da floresta comercial. 

Um grupo de pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e do IFNMG (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais) estimou o balanço hídrico da chamada “Chapada das Veredas”, localizada no Alto Jequitinhonha. 

A substituição da vegetação nativa pelo eucalipto reduziu a recarga dos lençóis freáticos em 31 milhões de metros cúbicos de água por ano, segundo o estudo. Notou-se ainda que o nível da água subterrânea baixou cerca de 4,5 metros em 45 anos, segundo o pesquisador Vico Mendez Pereira Lima, do IFNMG. “O problema não é a falta de chuva. O volume de precipitação na região praticamente não mudou nos últimos 70 anos. O que mudou foi o uso da terra”, explica. 

Chapada das Veredas fica na bacia do rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)
 
Chapada das Veredas fica na bacia do rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Originário da Austrália, o eucalipto cresce rapidamente e, além de ser usado na produção de carvão vegetal e biochar, é matéria-prima para a indústria de papel e celulose. “As plantações podem parecer belas florestas verdes, mas, ecologicamente, são como desertos”, afirma Daniel Montesinos, pesquisador da Universidade James Cook, na Austrália. Ele classifica a espécie como “altamente prejudicial” à biodiversidade, pois grandes áreas plantadas criam um ambiente hostil para a fauna e a flora locais.

Na Chapada das Veredas, os pesquisadores estimam que mais de 60% da área estejam cobertas por eucalipto. Eles destacam também grande impacto nas veredas – áreas úmidas das chapadas que recarregam os lençóis freáticos e estabilizam o fluxo dos rios. Com os ciclos naturais de água interrompidos, no entanto, várias nascentes da região secaram. 

Os moradores defendem a retirada das plantações de eucalipto das encostas das veredas, onde as nascentes se formavam. “Se plantarmos árvores nativas lá, a água pode voltar. Esse é o único recurso que temos”, afirma Salete Cordeiro, presidente da Associação de Mulheres Agricultoras do Córrego da Lagoa e Beira do Fanado, comunidades reconhecidas como quilombolas.

Enquanto isso não acontece, Salete usa água de um poço artesiano que vem da casa da irmã. Muitas outras famílias, porém, tiveram de abandonar a agricultura e migraram para a cidade. As que permaneceram passaram a depender de cisternas comunitárias e caminhões-pipa.

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Córrego seco na Chapada das Veredas, onde plantações de eucalipto são responsáveis pela escassez hídrica, segundo moradores e pesquisadores (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Certificação ambiental sob questionamento

Os impactos socioambientais colocaram a certificação da Aperam sob escrutínio. O selo FSC (Forest Stewardship Council), que atesta boas práticas florestais, está em revisão por uma auditoria internacional após denúncia do CAV (Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica), ONG que reúne agricultores da região desde 1994. 

A partir do questionamento, a ASI (Assurance Services International) – responsável pela fiscalização do selo – identificou falhas no processo. Um relatório da entidade afirma que a Aperam não comprovou que suas plantações não afetam a disponibilidade de água. O documento também sustenta que comunidades quilombolas da região não foram consultadas.

Depois da publicação do relatório, a certificadora inicial da operação foi afastada e o Imaflora assumiu a reavaliação. O novo certificador deve apresentar um plano de ação corretivo, além de evidências de sua implementação antes do fim do segundo trimestre de 2025, explica a ASI.

Se a Aperam não comprovar a sustentabilidade, a companhia pode perder o selo FSC. Isso pode dificultar suas exportações de aço para a Europa, onde as exigências ambientais são cada vez mais rigorosas.

Unidade de Produção de Carvao PALMARES

Imagem aérea mostra plantações de eucalipto da Aperam, em Turmalina. Ao fundo, a Unidade de Produção Palmeiras, que transforma a madeira em carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Fornos artesanais para queima de carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Fornos artesanais para queima de carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Em nota enviada à Repórter Brasil, a Aperam diz que a ligação entre escassez hídrica e plantações de eucalipto foi descartada por diferentes pesquisas, como estudos da Embrapa e de uma revista jurídica da UFMG. “O eucalipto, quando gerenciado de forma responsável, não esgota os recursos hídricos. Pelo contrário, ele pode contribuir para a manutenção do equilíbrio hidrológico e para a proteção do solo contra a erosão”, diz a nota.

Na resposta de 12 páginas, a Aperam enfatiza que tem compromisso com a sustentabilidade na produção de aço, destacando a utilização de energia renovável e a preservação de 50 mil hectares de vegetação nativa. A empresa ressalta seu engajamento com as comunidades por meio de diversos programas e alega adotar medidas de mitigação de impactos, como reservatórios de coleta de chuva, e priorizar o plantio em períodos chuvosos. Leia a íntegra da resposta da Aperam.

“Enquanto viola um direito humano fundamental, que é o acesso à água, a empresa continua se promovendo como modelo sustentável. Isso é um selo de fachada”, critica o coordenador do CAV, Valmir Soares de Macedo. Na avaliação dele, a movimentação da Aperam é um exemplo de greenwashing (ou “lavagem verde”, expressão usada para denunciar operações falsamente sustentáveis).

Macedo, contudo, tem pouca esperança de uma mudança significativa: “Mal fomos envolvidos nas discussões. Esses relacionamentos são, antes de tudo, comerciais.

Monocultura de eucaliptos em Turmalina, no Alto Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay)

Monocultura de eucaliptos em Turmalina, no Alto Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay)

Fazendas de eucaliptos cobrem 60% da Chapada das Veredas (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

‘Ouro negro’ vai para Canadá, Suíça e Suécia

A revisão do selo de sustentabilidade tem grande potencial de impactos nos negócios da companhia. Isso porque, além de buscar o selo para tornar seu aço “verde” e palatável ao mercado europeu, a filial da Aperam no Brasil vendeu créditos de carbono associados ao biochar. 

De aparência semelhante à terra preta, esse subproduto do eucalipto sequestra dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e melhora a qualidade do solo, segundo a Aperam. Chamado internamente de “ouro negro”, o biochar rendeu R$ 40 milhões à companhia em um ano.

A primeira venda de créditos de carbono foi para a canadense Invert Inc., seguida pela Nasdaq, que adquiriu mais de 7 mil toneladas em 2024 para compensar suas próprias emissões. Outras empresas também adquiriram esses créditos, como o grupo financeiro sueco Skandinaviska Enskilda Banken AB, a consultoria Bain & Company, e o banco suíço Banque Pictet também compraram os créditos. As negociações ocorreram no marketplace Puro.earth, controlado pela Nasdaq.

Em seu relatório de sustentabilidade, a Nasdaq destaca que o biochar ajuda a melhorar as propriedades do solo e a retenção de água, e que o projeto da Aperam apoia programas de desenvolvimento social para agricultores locais.

O selo de sustentabilidade é importante também para a Aperam se adequar à Regulação Europeia de Remoções de Carbono. Aprovada em fevereiro de 2024, ela exige que créditos de carbono sejam concedidos apenas a empresas que comprovem não prejudicar a biodiversidade nem os recursos hídricos.

A eventual perda de certificação pode afetar outros interesses na Europa. A Aperam solicitou isenção de um imposto que taxa produtos com base nas emissões de CO2. Se aceita, a isenção concedida pelo Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira reduziria as tarifas ambientais sobre seu aço na Europa, tornando-o mais competitivo.

Nas comunidades cercadas pelas plantações de eucalipto é comum ver casas fechadas, algumas abandonadas. São de famílias que não resistiram à falta de água e mudaram para as cidades (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nas comunidades cercadas pelas plantações de eucalipto é comum ver casas fechadas, algumas abandonadas. São de famílias que não resistiram à falta de água e mudaram para as cidades (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Histórico de conflitos fundiários

A história da Aperam no Vale do Jequitinhonha remonta aos anos 1970, quando a siderúrgica Acesita, então estatal, recebeu terras da União e do governo mineiro para desenvolver a produção de aço com carvão vegetal. Com o tempo, a vegetação nativa do Cerrado, essencial para a regulação hídrica da região, foi gradativamente substituída por monoculturas de eucalipto.

Em 1992, a Acesita foi privatizada e, em 2002, comprada pela ArcelorMittal, a segunda maior produtora mundial de aço. Em 2011, a multinacional desmembrou sua divisão de aço inoxidável e criou a Aperam, hoje uma das maiores siderúrgicas da Europa, com cinco fábricas no continente e uma no Brasil, em Timóteo (MG).

Antes da chegada da empresa, as terras eram utilizadas comunitariamente por pequenos agricultores. “Originalmente, essa terra era para as pessoas, para alimentá-las, para permitir que vivessem com suas famílias. A natureza não é apenas um campo de produção”, recorda Valmir Macedo, diretor do CAV.

A empresa enfrenta há anos na Justiça diversos questionamentos sobre a posse das terras. Moradores afirmam que nunca assinaram documentos cedendo os territórios.

João Gomes de Azevedo, 85 anos e Santa Gomes de Azevedo, 70 anos.“A água foi embora e a gente foi ficando para trás”, diz João Gomes de Azevedo, que fez uma música narrando a mudança da paisagem e do modo de vida (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

A Aperam nega as alegações de expropriação de terras, afirmando que a aquisição pela Acesita na década de 1970 foi legal e autorizada pelas leis da época. A empresa sustenta que as terras eram originalmente do estado de Minas Gerais e estavam ocupadas ilegalmente. A empresa contesta a existência de expropriações generalizadas, mencionando apenas disputas isoladas.

“Era tudo do povo. Dependíamos da chapada para criar gado, colher frutos como pequi e jaca, e buscar ervas medicinais”, recorda João Batista da Silva. “Hoje, tudo isso acabou”, lamenta. 

Mais velho, João Gomes de Azevedo corrobora: “A água corria por valetas que fazíamos no chão, e assim chegava até as casas. Com o tempo, isso foi mudando. Quando a empresa chegou, a água ainda resistiu por um tempo, mas foi diminuindo até secar.” 

A história inspirou João a compor uma música, espécie de trova, em que narra a saga de quem resistiu na região e convive com a natureza se esvaindo e a água rareando nas chapadas e veredas.


Fonte: Repórter Brasil

Sigma Lithium, uma empresa canadense com presença ostensiva de brasileiros no seu “Board of Directors”, pode mudar de mãos em breve

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Desde ontem, o “Blog do Pedlowski” está tendo um acesso massivo e recebendo dezenas de comentários sobre uma postagem feita acerca de um comentário produzido por um TV alemã sobre a extração de lítio no Vale do Jequitinhonha. Eu vinha tratando a Sigma Lithium, empresa que realiza a exploração de lítio nos municípios de Itinga e Arucuaí como alemã, mas um comentarista fez a devida correção e informou que a mesma está sediada no Canadá.

Como o leitor deste blog é quem geralmente envia informações que viram pistas para apurações interessantes, resolvi acessar o site corporativo da Sigma Lithium e pude verificar que não apenas a empresa está realmente sediada no Canadá, mas como também boa parte dos membros do seu “Board of Directors” são brasileiros com larga experiência na área financeira e da mineração.

Quem acessar as diferentes abas da página da Sigma Lithium notará que ali está o que há de melhor em termos de vender uma boa imagem de governança sócio-corporativa, misturando responsabilidade social com preocupações ambientais. Assim, se não fosse pela exposição que está ocorrendo pelo documentário do canal SWR, tudo continuaria muito tranquilo para as operações da Sigma Lithium que poderia continuar aplicando seus métodos “arrasa quarteirão” enquanto vende uma imagem de responsabilidade e sustentabilidade.

O interessante é que checando a internet por informações publicadas pela mídia corporativa, o que se sobressai é essa imagem bem moldada de responsabilidade socioambiental na produção de uma elusivo “lítio verde”.  Além disso, como o governo de Romeu Zema vem primando por um amplo desmanche do sistema de regulação ambiental, não fica difícil entender como os métodos da Sigma Lithium estão ocorrendo sem que haja grandes repercussões em tornos dos seus impactos ambientais e sociais. E tudo isso, é claro, em nome de uma indústria automobilística que produzem veículos “sustentáveis”.

O mais peculiar é que em setembro de 2023, o jornal “Estado de Minas” publicou uma matéria indicando a possível venda da Sigma Lithium, tendo o dono da Tesla, Elon Musk como um dos possíveis interessados na compra. Ainda  em dezembro de 2023, apesar das negativas iniciais, o “Board of Diretors” da empresa indicou que efetivamente estavam em curso negociações para a sua venda. Esse tipo de transação não é de forma alguma surpreendente, pois estamos em uma fase de grande adensamento das operações em torno da produção de carros elétricos e smartphones.

Mas é aí que mora o perigo de todas essas empresas que exploram recursos minerais estratégicos em países do Sul Global. É que o compromisso delas não é com o desenvolvimento sustentável que apregoam em suas páginas  para vender seus “green bonds” (que de verde só têm a tinta onde são impressos) ou, tampouco, com as populações que têm o azar de entrar no caminho dos seus projetos minerários. Para essas populações, o que sobra é deslocamento e ambientes totalmente inviabilizados para seus modos de vida tradicionais. 

A mineração de lítio coloca o Vale do Jequitinhonha à beira do abismo, mostra documentário

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Há uma corrida em curso pela exploração do lítio na América Latina, e o estado de Minas Gerais está no centro das disputas que ocorrem entre corporações nacionais e multinacionais e as populações que historicamente vivem nos territórios selecionados para exploração.

Recebi o vídeo abaixo do meu colega Klemens Laschefski,  o geógrafo e professor do Departamento de Geologia da UFMG.  O documentário produzido pelo canal alemão SWR mostra o avanço de uma nova forma colonialismo nos municípios de Araçuaí e Itinga onde está concentrada sob um disfarce esperto a mineração do lítio.

O documentário mostra que sob a escusa de uma mineração sustentável e responsável se esconde a mais aguda negação da sociobiodiversidade do Médio Jequitinhonha que ameaça destruir uma rica biodiversidade e expulsar comunidades que ali vivem há centenas de anos.