Entre pílulas azuis e vermelhas, o que nos resta são os supositórios de pobreza distribuídos pelas fibras óticas

redblue

Por Douglas Barreto da Mata

Economistas do campo progressista, como Belluzzo (Luiz Gonzaga) e jornalistas especializados no ramo, como Nassif (Luís), se dedicam atualmente à crença de que é possível uma nova etapa de desenvolvimentismo.  Eu chamo esse novo credo de “producionismo”, cujos dogmas integram as chamadas transições energéticas ou economia “verde” (ai, meu Zeus) e outras inovações, que permitiriam ao Brasil e ao Sul Global a inserção no fim de festa capitalista. 

Eu desejo, do fundo do meu cinquentenário coração, ter a mesma “fé” deles.  Gostaria de crer na nossa salvação pelo tal “producionismo”, que uns chamam de substituição de importações, outros de desenvolvimentismo periférico.  Porém, nem a Teoria da Dependência (plagiada, e mal plagiada pelo “príncipe da sociologia”, FFHHCC), nem Maria da Conceição Tavares (que destroçou teoricamente as teses de Celso Furtado), e nem Robert Kürz, com sua Teoria da Crítica do Valor (publicada na década de 1970) em seu hebdomadário, Krisis, me deixam “acreditar”.

Tudo isso acima é crucial para o debate, mas eu resumiria tudo a uma decisão do Presidente Lula, recente: a criação da categoria nem, nem, tão bem denominada por você:  Nem trabalhador, nem autônomo.  Uma espécie de híbrido, cabeça de algoritmo e corpo de operário.

Não, não há salvação no producionismo, não há, e nem nunca houve.  O capitalismo é um modelo econômico que é hegemônico porque procura acumulação infinita, e acumula infinitamente porque é hegemônico.  Dilema Tostines? Pois é, eu acho que não.  Não é dilema, porque é falso e a dialética materialista resolve  isso. 

Essa dialética que escapou a Harvey (David) nas suas leituras de Marx (a principal em Enigmas do Capitalismo).  Como a maioria dos marxistas, ele enveredou pelo economicismo, e foi justamente estes marxistas que deram a base teórica inversa, para que o liberalismo ganhasse fôlego, determinando, ideologicamente, que a economia era tudo.

Fixado esse sofisma, para esquerdistas e direitistas, o mundo se muda a partir dela (economia), e não como deve ser, por intervenção politizada da classe antagônica (trabalhadores) aos que geram desigualdade: os capitalistas.

A alteração (fim) dos modelos (econômicos) de acumulação é fundamental  para que a produção possa “salvar” o trabalhador, ao mesmo tempo que não é pela economia que se farão tais mudanças, é na ação política organizada.  Nada virá dos vôos de galinha da periferia do capital, porque as injunções e contingentes históricos já selaram o destino, como disse Conceição Tavares:

Quem é rico vai ficar mais rico, quem é pobre, mais pobre ficará E dentro desse esqueminha, a desigualdade, maior ou menor, de acordo com maturidade e qualidade dos fatores de desenvolvimento capitalista. Séculos de acumulação geopolítica periferia-centro, e internamente, trabalhadores-capitalistas, trouxeram tudo onde estamos.

Não vamos esquecer possíveis exceções, que só confirmam, no entanto, a regra:  Coréia, Japão, Alemanha e Europa pós guerra, e outros enclaves onde o modo capitalista estadunidense de produção aplicou fielmente a via da destruição para reconstrução (destruição criativa), associada aos interesses geopolíticos de contenção para evitar novos arroubos competitivos.

Esqueça a falácia do combate aos ditadores ou aos regimes racistas.  Era só falácia mesmo, já que os EUA, por exemplo, trataram seus negros até 1970 de forma parecida com os judeus.

Mas note Nassif, que tanto Europa, como Japão desenvolveram nas suas escaladas bélico-industriais formidáveis aparatos produtivos, reaproveitado com maciços investimentos. Nesse processo de reaproveitamento, até esqueceram que empresas alemãs deitaram e rolaram na mão de obra escrava judia dos campos, exemplos: Tyssel- Krüpp, Daimler-Benz, etc.

A Coréia foi, talvez, o único país realmente periférico alçado à condição central, com montanhas de recursos externos a fundo perdido, para barrar a China.

Uma pequena historinha sobre a Teoria (marxiana) da Crítica do Valor, de Kürz, para suavizar temas tão áridos, eu não me canso de repetir, e já o fiz aqui também: ele dizia, lá em 1970 e tantos, que o capitalismo rumava para um enclave, era como uma fazenda de leite, que produzia 100 litros de leite, e 10 kg de manteiga, entre outros derivados.

O fim da regulamentação dos sistemas bancários e financeiros, a partir dos atos emanados nos EUA, os pioneiros da indústria dos fundos (ver o filme A Grande Aposta, ou The Big Short, de Adam Mckay, com Brad Pitt, Ryan Goslin, Christian Bale, etc) alterou essa relação de causa e efeito leite e manteiga (e derivados).

Com a permissão de alavancagem infinita (CDO, CDS, etc, etc, etc), a fazenda continuava a produzir os mesmos 100 litros de leite, mas, surpreendentemente, a produção de manteiga pulou para 100 kg, depois, 1 tonelada, 100 toneladas, 1 milhão de toneladas, com o derivados se “reproduzindo”, sem que houvesse mais nenhuma relação de causa e efeito, a não ser o fato de que a manteiga ainda fosse leite processado.

Estamos atolados em manteiga, meu caro e ela não “lubrifica” a produção de leite, com o valor agregado (mais valia), mas só facilita (hoje em escala algorítmica) a geração de mais e mais manteiga, sendo desprezível a saúde das vacas, ou do fazendeiro e seus funcionários.

Esta historinha associada à la Teoria da Dependência nos dá o mapa.  Não há como rodar a roda da História ao contrário, meus caros.  Os dados acumulados desde 1980, no mundo todo, nos dão conta do declínio da participação dos setores produtivos na renda mundial, e quando muito, de forma otimista, enxergamos alguns períodos de estagnação.

Capitalismo não sobrevive sem renda para consumo do que produz.  Sem renda, sem produção.  Mesmo assim, os valores pornográficos dos fundos algoritmos somam 10, 20, 30 vezes o chamado PIB produtivo, outros chamam de economia real. 

Sem renda, sem produção.

Mesmo assim, os valores pornográficos dos fundos algoritmos somam 10, 20, 30 vezes o chamado PIB produtivo, outros chamam de economia real.

Essa quantia de capitais fictícios (anti valor) não permite que as instâncias conhecidas de mediação e arbitragem do chamado mercado coloquem essas quantias obscenas em arranjos produtivos redistributivos, ainda que precários.

Esse montante de dinheiro hermafrodita, autoimune e replicante (aqui uma outra referência dos cinemas, em Ridley Scott e seu Blade Runner) não se alimenta mais de produção e exploração de mão-de-obra, agora ele se alimenta de nós.

Outro filme que nos ilustra é Matrix, um amontoado de pseudo budismo, cristianismo, e péssima leitura de Kant e Nietzsche, mas que, no entanto, tem algumas cenas geniais, é verdade…

Eu gosto de duas:

A que Morpheus (Lawrence Fishburne) mostra duas pílulas ao herói messias, uma azul e outra vermelha..

E a dos humanos criados em fazendas, mantidos em hibernação plasmática, para alimentar as máquinas…que acordam e “se libertam” quando tomam a pílula da verdade (a vermelha)…

Estas cenas são geniais não pelo que mostram, mas pelo que não dizem…

No mundo atual, não há escolha, como dizia Zizeck (Vivendo No Fim Dos Tempos), toda escolha é uma fraude, e só temos saída se acabarmos com quem alega que elas existem…

Não há salvação, nem na pílula vermelha, nem na azul.  Ou se desconstrói o mundo de falsas escolhas, ou o resultado dessas escolhas sempre será conhecido por quem nos propõe.No Cristianismo chama de onisciência divina…portanto, é preciso “matar” deus.

A outra, que apresenta uma (semi) verdade, sim, pois somos meros objetos de consumo para os sistemas financeiros digitais, mas a narrativa do filme esconde algo crucial, será por que?

Porque não há a impessoalidade automatizada das máquinas a nos submeter a um sonho letárgico em um mundo de “escolhas”.

Aqueles os quais nos consomem têm endereço, nome, e podem ser vencidos, não porque são “máquinas” (mercado), mas porque são homens sugando a seiva de outros homens.

Para acabar com o domínio digital, basta uma ação simples: Puxe o fio da tomada.

Forças da natureza de graça: o caminho contrário à destruição criada pelo Capitalismo

Em seu novo livro, Wolfdietrich Schmied-Kowarzik discorre sobre a catástrofe climática e o capital com Karl Marx

protesto

Ação de protesto pela organização de proteção ambiental Mountain Wilderness Germany: destruição da natureza por ganância e por lucro. Foto: imagem aliança / dpa | Deserto da montanha
Por Gerhard Schweppenhauser para o “Neues Deutschland”

Há 165 anos, era publicado o primeiro volume da principal obra científica de Karl Marx. Seu subtítulo, “O Processo de Produção do Capital”, tem um duplo significado. O filósofo Wolfdietrich Schmied-Kowarzik aponta isso em seu livro recém-publicado Solidarity Practice in Alliance with Nature: Não se trata apenas da produção capitalista industrial de mercadorias, mas também da auto-reprodução permanente das condições de produção, e a sua formação é contraditória em si, mas resistente à mudança. Não há como escapar dela. “Os ‘indivíduos que atuam na sociedade’ são determinados em sua atividade produtiva pelo valor acumulado do trabalho objetivado, que está à disposição dos indivíduos individuais”, escreve Schmied-Kowarzik, “porque isso é o que é o capital.

Há 40 anos, o centenário da morte de Marx foi comemorado, também na Alemanha, nos meios acadêmicos e nos folhetins. O ano era 1983. A ameaça de uma guerra nuclear e a destruição da natureza eram temas de debate público. No contexto político, um jovem partido tomou conta deles. Os Verdes ainda não eram verde-oliva; No entanto, eles também tiveram suas raízes em ambientes marrom-esverdeados. Lá, pensava-se que as florestas alemãs e o solo alemão corriam o risco de “capturar capital”. E o fato de que em uma emergência o soberano alemão não deveria apertar o botão vermelho para lançar o míssil nuclear, mas apenas “o Ami” feriu o amor próprio.

Mas também havia – difícil de acreditar – esquerdistas radicais e marxistas nos Verdes. No geral, porém, o movimento alternativo cultivava “seu medo de contato com qualquer análise filosófica”; como observou Wolfdietrich Schmied-Kowarzik em 1983, ela “colocou um tabu renovado na teoria de Marx”. Marx não havia removido o homem do contexto natural porque queria completar a revolução industrial com um movimento revolucionário de trabalhadores industriais? Dominação socialista da natureza como produção industrial movida a energia nuclear em propriedade pública: Muitos falharam em ver que essa ideologia política de dominação não tem nada em comum com a crítica de Marx à economia política – na Alemanha Ocidental não é diferente da RDA.

Entretanto, aqueles esquerdistas radicais sabiam – antes de Chernobyl e antes do colapso do bloco oriental, que não era mais capaz de acompanhar o capitalismo ocidental na corrida microeletrônica e militar: dentro das relações de produção capitalistas, a exploração dos recursos naturais, ou seja, nossos meios de subsistência, pode ser interrompido tão pouco quanto a exploração do trabalho humano. Pelo contrário: ambos os métodos de expropriação devem ser constantemente intensificados para que a utilização do valor e a acumulação de capital, o chamado crescimento econômico, não pare. Um capitalismo verde ecologicamente responsável é uma quimera autocontraditória, não pode ser um objetivo razoável da prática política.

Quando “trabalho e natureza” são submetidos à “lógica de valor do capital”, diferentes padrões se aplicam, enfatiza Schmied-Kowarzik em um ensaio de 2018. Na Crítica da economia política, Marx elabora – o que […] apenas alguns teóricos marxistas reconheceram – que o capital, segundo a lógica de sua lei do valor, se comporta de maneira diferente do trabalho e da natureza.. Porque enquanto o capital extrai todo valor da força de trabalho e assim se torna a negação dos trabalhadores, ele trata a natureza como “sem valor” de três maneiras: Para a lei do valor, os bens naturais como meios de produção estão simplesmente disponíveis a custo zero, as forças naturais (energia hídrica, eólica e solar) não adicionam nenhum ›Gran Wert‹ ao processo de reciclagem capitalista e o que resta deles como lixo é devolvido descuidadamente à natureza. Na lógica de acumulação de valor do capital, a natureza não pode aparecer como uma processualidade ecológica – isso leva à negação da natureza,

Hoje, a vida social – nas condições do mercado mundial e da geopolítica – depende da auto-reprodução permanente das relações capitalistas de produção. Enquanto a lei do valor estiver em vigor em todo o mundo, não há como escapar da natureza humana e não humana das restrições específicas da lógica da exploração. A base de seu negócio é evitar crises de exploração por meio de regimes de acumulação novos e estendidos. Se algo novo nem sempre pode ser introduzido no processo de exploração, há uma ameaça de paralisação, declínio e colapso do sistema econômico. Portanto, seria hora de o movimento de protesto climático levar a sério o que o serviço de inteligência doméstico alemão está apenas reivindicando: que ele se abre amplamente para ideias políticas radicais de esquerda.

Schmied-Kowarzik não segue as leituras da teoria do valor de Marx, nas quais a estrutura crítica das relações de produção capitalistas é apresentada como uma conexão hermética e um fim só parece concebível como um colapso completo. Ele sente falta da perspectiva de ação aqui. Uma leitura puramente teórica de valor de Marx “tentaria interpretar Marx apenas com base em sua obra tardia, a Crítica da Economia Política, e […] consideraria supérfluo referir-se aos primeiros escritos filosóficos de Marx”. Ao fazê-lo, porém, “perde-se o verdadeiro ponto da crítica de Marx à economia política, a saber, mostrar, na busca da lógica do valor do capital, que esta persegue estruturalmente a negação dos trabalhadores e da natureza, embora não possa existir sem ambos. Essa argumentação ex negativa só é possível como crítica porque – como Marx trabalhou em seus primeiros escritos filosóficos […] pessoas Vendo através da negatividade da lógica econômica do valor do capital e, portanto, sendo capazes de romper juntos.« Isso faz sentido – mas seria importante para mim lembrar que sem as obras da escola de crítica de valor (Hans- Georg Backhaus, Michael Heinrich) dificilmente conseguiríamos encontrar alguém que hoje tenha um conceito adequado de crise.

Para sua perspectiva filosófica prática, Schmied-Kowarzik baseia-se em Ernst Bloch, Herbert Marcuse e Henri Lefebvre. Bloch é importante para ele, principalmente por causa da representação pouco ortodoxa de Friedrich Schelling. Desde o início dos anos 1980, Schmied-Kowarzik tem mostrado repetidamente que sua filosofia natural é erroneamente considerada como um documento do irracionalismo anticientífico do romantismo (como afirmou Georg Lukács). Sem Schelling não seria possível compreender que a atividade produtiva, a prática social, não é apenas a negação ativa da natureza, mas também permanece parte da produtividade da própria natureza, que a história como conformação do mundo pelos seres humanos ao mesmo tempo, sempre parte da história natural abrangente, que chega a uma relação consciente e produtiva consigo mesma no e através do homem como um ser genérico”. Podemos aprender coisas fundamentais sobre a natureza com Schelling: Natureza não é apenas aquilo que precede e se opõe a toda atividade humana, mas também aquilo que continua a ter um efeito vivo nela e através dela. Assim, a consciência das pessoas de que são elas que fazem a história por meio da prática social não deve ser dissociada da percepção de que elas só podem fazê-lo em harmonia com a produtividade da natureza que nelas se efetiva.«

Quem ler os ensaios deste volume terá uma ideia de como o autor vem argumentando como professor universitário em palestras e seminários e incansavelmente em congressos especializados há 50 anos. Schmied-Kowarzik mostra de forma conceitualmente clara e forte teses, com calma e despretensão, como a crítica radical às condições sociais existentes e formas de prática podem ser apresentadas e justificadas a partir da tradição filosófica. Sua obra é a prova viva do que ele enfatizou depois de Lefebvre: “O sistema capitalista pode se tornar cada vez mais estreito, mais sólido e mais opressivo, mas nunca pode absorver completamente os verdadeiros centros vivos da prática humana sem tomar o seu próprio, destruindo a base da existência.

Wolfdietrich Schmied-Kowarzik: Prática solidária em aliança com a natureza. Filosofia dialética da prática de Marx para o século XXI.
Barco a vapor da Vestfália, 205 p., nascido, € 25.


compass black

Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].