A cobiça pelo petróleo venezuelano como fachada para os objetivos de retomada de hegemonia

Donald Trump está em busca da hegemonia perdida

Agora que ficou abertamente explícito que a retirada de Nicolás Maduro tem tudo a ver com o acesso às riqueza petrolífera venezuelana e nada com o que estabelecimento de uma dessas democracias de fachada que abundam no mundo, há quem corretamente esteja se preocupando com o que aconteceria com a crise climática se todo potencial de emissões de CO2 associado à exploração das vastas reservas ali existentes. 

Em sua página do Facebook, o professor do Departamento de Geografia da UFRJ Cláudio Egler apontou que “a queima integral das reservas provadas de petróleo da Venezuela — da ordem de 130 a 150 GtCO₂e — teria um impacto extremamente significativo no clima global, pois corresponderia sozinha a quase quatro anos das atuais emissões globais de CO₂ ou a uma fração substancial do orçamento de carbono restante compatível com as metas de 1,5°C ou mesmo 2°C estabelecidas pela IPCC“.  Egler acrescentou que “em termos físicos, a liberação dessa magnitude adicional de gases de efeito estufa intensificaria o forçamento radiativo global, acelerando o aquecimento médio do planeta, ampliando a frequência e a intensidade de eventos extremos (ondas de calor, secas e chuvas intensas) e agravando processos de longo prazo como a elevação do nível do mar e a acidificação dos oceanos“.

Embora legítimas e cientificamente ancoradas, eu diria que um dos problemas que Donald Trump, um negacionista climático convicto, teria se refere ao algo muito básico no capitalismo: a relação entre oferta e demanda.  A questão é que embora o consumo de combustíveis fósseis seja ainda o principal componente da matriz energética global, há uma tendência crescente de substituição por outras fontes, o que no tempo serviria para diminuir a pressão por demanda, inclusive naquelas áreas em que a exploração está se dando dentro de seus maiores potenciais.

Além disso, há que se levar em conta os interesses de outros países produtores de petróleo, visto que uma ampliação rápida da exploração do petróleo venezuelano colaboraria para uma queda no preço do barril, o que geraria uma espécie de efeito dominó nas economias que dependem dessa fonte de renda. Associado a isso ainda há a questão de que as próprias petroleiras estadunidenses tem seus interesses econômicos espalhados por todos os países produtores, e uma ênfase na exploração na Venezuela geraria desequilíbrios econômicos e principalmente políticos que iriam se chocar contra os interesses das petroleiras.  Talvez por isso a reação inicial ao anúncio de Donald Trump no sentido de que as petroleiras estadunidenses vão se ocupar diretamente do processo de saque das reservas venezuelanas tenha sido tão silenciosa.

Outro aspecto relacionado à oferta se refere ao lado da demanda. O principal comprador de petróleo atualmente é a China que mantém laços econômicos diretos com a Venezuela. Se de fato o cenário desenhado por Donald Trump viesse a se confirmar seria muito mais fácil e prático para a China investir na melhoria da capacidade de produção da Rússia e de países asiáticos.

Mas ainda há que se levar em conta a especificidade das reservas petrolíferas venezuelanas. O fato é que o petróleo venezuelano é majoritariamente pesado a extrapesado e frequentemente ácido, com alto teor de enxofre, características que o diferenciam do petróleo leve e doce produzido em países como os Estados Unidos. Concentrado sobretudo na Faixa Petrolífera do Orinoco, esse tipo de óleo apresenta alta densidade e viscosidade, o que dificulta sua extração, transporte e refino, exigindo processos mais caros e refinarias com tecnologia especializada. Além disso, seu refino gera maior proporção de derivados de menor valor agregado, como asfalto, e menor volume de combustíveis mais lucrativos, como gasolina e diesel. A necessidade de infraestrutura específica também limita o número de compradores, fazendo com que, historicamente, o petróleo venezuelano seja negociado a preços mais baixos no mercado internacional em comparação aos petróleos leves.

Em síntese, embora a disputa em torno da Venezuela seja apresentada sob o discurso da democracia, ela está profundamente ligada ao controle de suas vastas reservas de petróleo, cujo aproveitamento integral teria impactos climáticos severos e incompatíveis com as metas globais de redução de emissões. Ainda assim, fatores econômicos e geopolíticos relativizam a viabilidade de uma exploração acelerada: a tendência de redução da demanda por combustíveis fósseis, os interesses de outros países produtores preocupados com a queda do preço do barril, a atuação global das grandes petroleiras e o papel central da China como principal compradora limitam esse movimento. Soma-se a isso a própria especificidade do petróleo venezuelano — pesado, ácido e de difícil refino — que encarece sua exploração e reduz sua atratividade comercial, ajudando a explicar tanto o silêncio inicial do mercado quanto os obstáculos práticos a uma corrida imediata por essas reservas.

Moral da história: o lobo mau que já sabe que seus pulmões enfraqueceram e as garras já não são mais lá essas coisas (isto é, os EUA) pode estar soprando a casa dos três porquinhos (no caso a Venezuela) apenas para causar susto, pois sabe que não vai derrubar nada, e o negócio está mais para conseguir submissão sem muito esforço do que qualquer outra coisa.

O ataque dos EUA à Venezuela e suas repercussões

Sequestro de Maduro foi na mesma data de captura de Noriega e assassinato  de Soleimani - Opera Mundi

Tenho lido várias declarações de pessoas ainda impactadas pelo ataque estadunidense à Venezuela. Além das análises já publicadas aqui no Blog do Pedlowski por distintos comentadores que destrincharam as razões das ações do governo Trump na Venezuela, quero me deter em um aspecto menos óbvio que é a razão pela qual muitos se surpreenderam com mais uma expressão de uso de força direta dos EUA.

Como já assinalei brevemente em postagem anterior, o ataque à Venezuela é a primeira vez em que os EUA usam força militar direta e sem rodeios contra um país da América do Sul.  Antes o que havia basicamente era o uso de forças para ações combinadas com governos locais contra grupos específicos ou ainda o emprego de táticas para minar e derrubar governos. O exemplo de Cuba é o mais longevo no sentido do emprego de medidas de bloqueio econômico em combinação com tentativas de desestabilização política.

Assim, as pessoas estão se chocando porque viram mais perto o emprego de força militar que países como Vietnã, Iraque, Irã, Líbia e Síria (apenas para começar) já sentiram, com o saldo de milhões de mortos.  Em outras palavras, as pessoas se chocam porque finalmente viram a coisa acontecer mais de perto, e não apenas por meio da cobertura superficial da mídia corporativa brasileira que, aliás, repetiu o papelão no dia de ontem.

Mas as pessoas estão certas quando dizem que o ataque e o sequestro do casal Maduro representam uma espécie de virada de maré. É que se fizeram isso na Venezuela, o que vai deter os estadunidenses de repetirem o ato em outros países sul americanos? Aparentemente nada, a não ser suas próprias divisões internas.

Um detalhe que é precisa que se ressalte é que, ao contrário do que fizeram em outros países, os estadunidenses se acomodaram inicialmente com uma sucessão chavista na presidência da Venezuela, além do fato de Donald Trump ter desacreditado a líder da extrema-direita venezuelana, Maria Corina Machado, como alguém apto a assumir o poder.  Esses movimentos indicam que o governo Trump sabe perfeitamente dos riscos envolvidos nessa ação em uma região em que a desigualdade social profunda entre ricos e pobres é mantida por meio de processos que nada tem de democrático. Assim, ao se acomodar, ao menos momentaneamente com segmentos ideologicamente duros do chavismo, o que Donald Trump parece estar tentando fazer é não produzir um processo de desestabilização regional. O problema é saber se as ações de ontem já não serviram como um estopim de desestabilização.

Por outro lado, a situação criada pelo ataque à Venezuela, me fez lembrar a frase “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” foi dita por Karl Marx em sua obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. Marx usou originalmente essa ideia para analisar o golpe de Estado de Napoleão III, comparando-o com a revolução de seu tio, Napoleão Bonaparte, mostrando como os eventos históricos podem se repetir, mas de forma menos grandiosa e mais cômica ou ridícula na segunda vez.  Por que lembrei dessa frase? É que por mais que o presidente Donald Trump e seus ministros queiram, a ideia de que se pode reestabelecer uma hegemonia que se constituiu em um momento histórico que já se esgotou, principalmente em função das opções feitas pelo burguesia dos EUA de ampliar sua extração de mais valia em países como a China via investimentos que alteraram o balanço geopolítico em prol dos chineses de forma extrema e irreversível. Ou seja, esse ataque está mais para farsa do que para tragédia.

Finalmente, me parece importante notar que no caso brasileiro não apenas a corrida eleitoral de 2026 foi colocada em outro patamar pela invasão estadunidense, mas também o debate que ocorrerá dentro da esquerda brasileiro sobre o receituário que teremos de adotar para enfrentar a conjuntura histórica que ele criou.

Julius Trump Caesar: o Império atravessou o Rubicão, enquanto Lula tremeu

Donald Trump, em seu momento Julius Cesar

Por Douglas Barreto da Mata 

O que se pode depreender da nota divulgada pelo governo do Brasil sobre o ataque dos EUA à Venezuela? Cautela ou medo?  Medo. Na minha opinião, medo.  Vamos contornar as imbecilidades da mídia oficial, redes sociais e da direita brasileira.

Ditadores do mundo? Os EUA os colecionam e cevam a todos, desde muito tempo. Será que a Rede Globo pediria a invasão do nosso país pelos EUA de Jimmy Carter, eis que tínhamos um governo ilegítimo (termo usado para adjetivar maduro)? Acho pouco provável.  E uma invasão da Arábia Saudita dos maiores financiadores dos terroristas sunitas wahabistas, a monarquia teocrática e violenta? 

Pois é.  Narcotráfico?  Uai, então Donald Trump teria que fechar a CIA, a maior criadora de redes de narcotráfico do mundo, todas destinadas ao financiamento das máquinas de sabotagem geopolítica dos EUA. 

Então, vamos parar com essa baboseira e vamos ao que interessa. Petróleo.  Donald Trump quer petróleo.  A movimentação da China, e da sua afiliada Rússia, mostra que o insumo vai encarecer para os EUA.  A Venezuela é uma das últimas fronteiras nesse quesito. Talvez sejamos a próxima.

Por isso, Lula tremeu de medo. Não temos Forças Armadas, nem artefatos nucleares para dissuasão ou contenção.  Não adianta tentar “trocar” de dono e pedir pela ajuda chinesa, não vai adiantar, ao menos, por enquanto.  Por isso Lula se enche de medo.

A questão não é só de superioridade militar, óbvio, e a ação em solo venezuelano mostra isso.  Donald Trump não banca uma ocupação, não como primeira opção, porque a parcela de população hostil é muito grande, e isso refresca a memória estadunidense com os fracassos vietnamita, afegão e iraquiano.

Por isso Lula treme de medo. Com um governo bem mais próximo da direita, com um cacoete permanente para a submissão aos EUA (e qualquer outro com poder parecido), Lula imagina que não será sequestrado como Maduro, mas entregue pelo próprio povo brasileiro. 

Não é um delírio.  Assim, Lula mandou digitar sua manifestação oficial com muito cuidado, quase que pedindo desculpas por falar. De nada adiantará. 

O Império saiu às compras, e quem pagará a conta somos nós.

Venezuela sob ataque militar e casal Maduro sequestrado: ecos de uma invasão imperialista

Após bombardeio ordenado por Trump no Caribe, Maduro convoca forças  militares, aviões e tanques e inicia exercícios de defesa em Caracas para  proteger a Venezuela de novo ataque dos EUA - RSM -

Por Monica Piccinini*

Esta manhã, o mundo acordou com uma escalada chocante: os Estados Unidos lançaram uma grande operação militar dentro da Venezuela, com relatos de explosões em Caracas e em vários estados. Ataques aéreos, aeronaves voando baixo, cortes de energia. Medo e confusão no terreno.

O presidente Donald Trump afirmou nas redes sociais que o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa foram “capturados” (sequestrados) e retirados do país após o que ele chamou de “ataque em larga escala”.

Caracas declarou imediatamente estado de emergência nacional, denunciando o ataque como agressão militar estrangeira e convocando os cidadãos a se mobilizarem contra o que descreve como um ataque imperial.

O governo da Venezuela rejeitou veementemente a versão de Washington, exigindo provas de que seu presidente está vivo e condenando a operação como uma clara violação de soberania.

Líderes regionais, incluindo o presidente da Colômbia, pediram uma intervenção internacional urgente. Cuba e Irã foram além, classificando o ataque como terrorismo de Estado. Mesmo nos EUA, legisladores já questionam se Trump tem autoridade legal para lançar uma operação dessa magnitude sem o Congresso.

Sejamos honestos sobre o que isso significa. Não há autorização da ONU. Nenhum convite de Caracas. Nenhum mandato internacional. Segundo qualquer interpretação séria do direito internacional, trata-se de um ataque militar contra uma nação soberana. Bombardear uma capital e prender à força o chefe de Estado de outro país não é “aplicação da lei”, é um ato de guerra.

De acordo com a Carta da ONU, é exatamente o tipo de ação que deve ser evitada devido ao caos e à instabilidade que desencadeia muito além das fronteiras nacionais.

A linguagem do “narcoterrorismo” e das ameaças à segurança tem servido como justificativa pública há muito tempo. Mas por trás disso, esconde-se um padrão familiar. Sanções. Pressão naval. Operações de inteligência. Drones. E agora, o uso da força.

A Venezuela possui vastas reservas de petróleo e minerais essenciais e insiste em sua independência política em uma região há muito moldada pelo poder dos EUA. A história mostra com que frequência as narrativas de segurança são distorcidas ou fabricadas para abrir caminho para o controle geopolítico e de recursos.

Deixando de lado os slogans, o que vemos é o que realmente é: uma incursão militar imperial, justificada por uma mistura de ameaças reais e exageradas, com a dominância estratégica e o acesso a recursos no centro das atenções.

Independentemente das suas convicções políticas, este momento é crucial. O precedente que estabelece terá repercussões muito além da Venezuela!


*Monica Piccinini é jornalista freelancer 

Guerra chega na América do Sul e escancara o enfraquecimento da hegemonia estadunidense

Trump confirma primeiro ataque terrestre dos EUA na Venezuela

Ainda existem muitas incertezas em relação ao ataque promovido pelo governo Trump contra a Venezuela, mas há pelo menos uma: esse ataque militar escancara o colapso da ordem criada em Bretton Woods pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. É que dentro da ordem que organizou as relações políticas, econômicas e militares desde então, a coisa no que os EUA considerava seu “quintal” se resolvia mais na pressão indireta e uso de forças interna amigas do que no uso de força militar direta.

Esse ataque também revela que há uma fragilidade extrema na capacidade dos EUA de interferir politicamente, o que forçou o uso de suas forças regulares claramente superiores.  Mas o ataque estadunidense é mais um sintoma de enfraquecimento de hegemonia do que o contrário.  Que havia uma perda de hegemonia por parte dos EUA, isso já se sabia. O que se ataque revela é que ela parece estar a caminho de um enfraquecimento ainda maior e mais veloz. Aliás, a reversão do padrão não intervencionista defendido até as eleições por Donald Trump é uma clara demonstração de que ele mesmo percebeu sua posição de fragilidade, seja no plano internacional como no interno.

A invasão da Venezuela também coloca a América Latina em um momento singular, pois forçará posicionamentos claros não da direita e da extrema-direita que são claramente orientados pelo alinhamento com os EUA e deverão apoiar incondicionalmente as ações de Donald Trump.  A verdade é que esse ataque deverá aprofundar ainda mais diferenças dentro dos agrupamentos e forças partidárias que se dizem de esquerda, principalmente naqueles setores que procuram viver em um processo de negação que vivemos em um sistema econômico em que a predação dos recursos naturais e a exploração da classe trabalhadora. Com isso, toda a elaboração que circunavegar essa obviedade das relações capitalistas poderá ficar exposta como mero charlatanismo intelectual.  Por isso, esse é uma espécie de momento da verdade para quem se diz de esquerda, pois qualquer posição que não seja a denúncia explícita deverá ser lida como adesão às posições imperialistas do governo Trump, e, convenhamos, será. 

Como ainda vivemos as primeiras horas do ataque e não se sabe como ele foi eficiente em desagregar as cadeias de comando das forças militares e das forças políticas que sustentam o governo de Nicolás Maduro, teremos que esperar pelos desdobramentos da primeira onda de ataques.  Se as forças que sustentam o governo chavista não foram drasticamente abaladas,  a chance é que haverá um aumento da instabilidade política não apenas na Venezuela, mas em toda a América do Sul.

É que não podemos esquecer que as reais razões do ataque: a tentativa de controlar as grandes reservas petrolíferas venezuelanas.  E como as demandas por recursos por parte dos EUA se estendem a outras áreas, não pode haver dúvida que outros países poderão ser atacados pelas mesmas razões que estão sendo usadas para justificar o ataque à Venezuela.

Eu havia antecipado que 2026 seria um ano desafiador, mas os fatos já estão demonstrando que subestimei o tamanho do desafio.

EUA detêm imigrantes da Venezuela na base militar de Guantánamo

Os presos seriam integrantes da organização criminosa “Tren de Aragua”, mas nenhuma evidência apresentada. As famílias são privadas de informação e contacto

Entrada para o Camp Delta, Baía de Guantánamo, Fonte:Kathleen T. Rhem, 
Por Philipp Zimmermann para o Amerika21

Washington, D.C. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, aparentemente deteve pelo menos 100 migrantes venezuelanos no campo de detenção da Baía de Guantánamo. Os homens foram transferidos de uma prisão no estado do Texas para a notória base militar dos EUA em Cuba, relata o New York Times . Em uma reportagem recente, o portal Infobae fala até de 175 venezuelanos que foram levados para Guantánamo.

As pessoas em questão foram classificadas pelas autoridades como “imigrantes ilegais de alto risco”. A secretária de Segurança Interna de Trump, Kristi Noem, descreveu os prisioneiros levados para Guantánamo como “os piores dos piores”.

Sobre os próximos passos, Noem disse à imprensa que os presos receberão o “devido processo”.

No entanto, sua declaração de que “as instalações na Baía de Guantánamo serão uma vantagem para nós e nos permitirão continuar fazendo o que sempre fizemos lá” causou irritação. O campo de prisioneiros dos EUA na baía ocupada de Guantánamo, em Cuba, ganhou notoriedade no início dos anos 2000, quando centenas de prisioneiros muçulmanos foram mantidos e torturados ali durante anos em condições desumanas .

De acordo com relatos recentes, muitos dos prisioneiros atualmente detidos em Guantánamo estão sendo vigiados por militares em vez de autoridades de segurança civis. Isso apesar das garantias do governo Trump de que os detidos permaneceriam sob a jurisdição das autoridades civis de imigração. Alguns venezuelanos também estão alojados na mesma ala da prisão onde, até recentemente, eram mantidos prisioneiros suspeitos de pertencerem à Al-Qaeda.

Em alguns casos, as famílias dos detidos moveram ações judiciais contra sua transferência para Guantánamo . Juntamente com organizações de direitos humanos, eles denunciaram o fato de que os familiares não receberam nenhuma informação sobre as condições da prisão e não foram autorizados a ter contato com os prisioneiros. Como resultado, um tribunal no estado do Novo México bloqueou a transferência de mais três prisioneiros. Eles foram então levados para a Venezuela em voos diretos.

Também surgiu uma polêmica devido às acusações das autoridades norte-americanas de que os venezuelanos detidos supostamente pertencem à organização criminosa “Tren de Aragua”. Esta organização foi fundada há cerca de 15 anos em uma prisão no estado venezuelano de Aragua e expandiu suas atividades internacionalmente nos últimos anos. O grupo está envolvido em tráfico de drogas, extorsão e sequestro.

Enquanto isso, Jessica Myers Vosburgh, representante da organização de direitos humanos dos EUA Center for Constitutional Rights, alertou contra a atribuição precipitada de culpa. Em alguns casos, a acusação de que os migrantes pertenciam ao “Trem de Aragua” era infundada. A classificação geral como membros de gangues pelas autoridades norte-americanas representaria um risco para esses indivíduos, pois eles teriam que temer retaliações da organização criminosa.

A transferência de prisioneiros venezuelanos para a base naval ocupada pelos EUA em Cuba parece ser apenas o começo.

O presidente dos EUA, Trump, ordenou recentemente ao Departamento de Segurança Interna que preparasse a base militar para acomodar 30.000 detidos estrangeiros.

No final de janeiro, o Secretário de Defesa Pete Hegseth reiterou a crescente militarização da política migratória dos EUA: “Quando identificamos criminosos ilegais em nosso país, os militares vão em frente para ajudar a trazê-los para seus países de origem ou, enquanto isso, para outros países”, disse Hegseth. “Se eles não podem ir a lugar nenhum agora, podem ir para a Baía de Guantánamo”, ele ameaçou.

O governo cubano criticou duramente a detenção de migrantes na base dos EUA . “Muitas das pessoas que os Estados Unidos estão expulsando ou pretendem expulsar são vítimas das políticas de pilhagem do governo e atendem a necessidades de mão de obra que sempre existiram na agricultura, construção, indústria, serviços e vários setores da economia dos EUA”, disse o Departamento de Estado em um comunicado publicado em seu site.

Outros são resultado de uma entrada mais fácil nos Estados Unidos, “de regulamentações seletivas motivadas politicamente que os acolhem como refugiados”. A emigração deles “é também uma consequência dos danos socioeconômicos causados ​​por medidas coercitivas unilaterais”.

A instalação militar é conhecida internacionalmente, entre outras coisas, por “hospedar um centro de tortura e detenção indefinida que fica fora da jurisdição dos Estados Unidos e onde pessoas que nunca foram acusadas ou condenadas por um crime são mantidas por até 20 anos”.


Fonte: Amerika21

Venezuela e a volta dos intelectuais consentidos

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Um dos aspectos que de tempos em tempos noto neste blog é a existência de um tipo de personagens que possuem treinamento acadêmico e são tolerados pela mídia corporativa nacional e local por expressarem o mesmo tipo de conservadorismo emperdenido que caracteriza também os donos dos veículos que lhes dão voz. São o que eu caracterizo de “intelectuais consentidos’.

Alguns dos personagens aceitos nacionalmente incluem o ex-esquerdista Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé, mas também existem aqueles que circulam na mídia local, até porque seus currículos acadêmicos magérrimos só os habilita para o consumo digno das províncias.

O último episódio que está assanhando os intelectuais consentidos são os resultados das eleições presidenciais na Venezuela. Esses intelectuais consentidos estão não apenas reproduzindo a retórica vinda dos centros de poder ocidental, mas se omitindo em fazer qualquer análise sobre as condições em que esse processo se deu, visto que a Venezuela se encontra sob pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA e seguidas por um grande número de países europeus.

Particularmente não nutro simpatia por Nicolas Maduro, mas não há como ignorar qual é o tipo de oposição com que ele se debate. Se olharmos o passado imediato da situação venezuelana, veremos que o mesmo tipo de cantilena sendo para tentar emplacar  Edmundo González como presidente já foi usada para fazer o mesmo com o agora irrelevante Juan Guaidó.

O interessante é que quando os intelectuais consentidos falam sobre a Venezuela temos sempre chamados em prol de um tipo democracia que é hoje apenas uma miragem.  Esse clamor democrático não se vê, por exemplo, em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy que adiou eleições e se manteve no poder sem que se veja a mesma rotulação de ditador que se aplica a Maduro.  A grande diferença aparente é que Zelenskyy, que baniu a maioria dos partidos que lhe faziam oposição, é chancelado pelos mesmos países que querem impor González  na Venezuela.

Por essas e outras é que temos que sempre desconfiar do fervor democrático seletivo dos intelectuais consentidos. É que esse fervor seletivo serve apenas para esconder uma adesão às ideias que percolam dos centros decisórios que manipulam a democracia sempre que necessário para impor interesses estratégicos das grandes empresas monopolistas.

Uma pergunta muito simples pode ajudar a compreender certas análises consentidas: qual é o programa de governo que Edmundo González propõe para a Venezuela? E sobre as famigeradas guarimbas, alguma coisa a dizer? Nesse caso, só se ouve o mais profundo silêncio.

Marina Silva lembra da Venezuela, mas esquece do seu próprio ministério

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Marina da Silva: com força para criticar eleições alheias e fraca demais para mudar o rumo do descalabro ambiental na Amazônia

A ministra do Meio Ambiente Marina Silva foi mais uma das vozes a se somar ao coro dos descontentes com o nível democrático das eleições da Venezuela. O curioso é que Marina Silva não tenha o mesmo nível de desenvoltura para cuidar das condições de trabalho dos agentes do IBAMA e do ICMBio que continuam atuando em condições péssimas, com salários defesados e planos de cargos ultrapassados.

A verdade é que Marina Silva se omite diariamente na luta pelas condições laborais daqueles que estão na linha de frente do combate contra o desmatamento e o garimpo ilegais na Amazônia, sem que esboce um mínimo de crítica ao tratamento que é dispensados aos servidores que estão na prática sob sua responsabilidade.

Sumida”, Marina Silva vira motivo de chacota na web

Aliás, não é preciso dizer que neste exato momento o Brasil passa por uma crise ambiental sem precedentes em função da ocorrência de milhares de focos de incêndio que castigam principalmente o Pantanal e a Amazônia, sem que se ouça qualquer manifestação que se aproxime ao nível de preocupação demonstrado com as eleições venezuelanas.

O fato inescapável é que a Marina Silva de hoje é uma sombra pálida daquela que entrou e saiu intacta durante o segundo governo Lula.  É que a Marina de ontem já teria saído do atual governo, mas a atual não só fica, como tem tempo para dar opinião sobre situações cuja clareza é igual a dos rios tomados pelos garimpos ilegais na Amazônia.

A pergunta que ninguém fez: afinal, o que fazia Jair Bolsonaro em São Sebastião?

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Jair Bolsonaro em sua peculiar visita ao interior de uma residência na comunidade de São Sebastião na periferia de Brasília

Desde que eclodiu a crise envolvendo a declaração questionável (para dizer o mínimo) do presidente Jair Bolsonaro sobre o encontro com duas adolescentes venezuelanas na comunidade periférica de São Sebastião, a mídia corporativa vem fazendo um tipo de cobertura que não vai a nenhum lugar. 

Como geógrafo, me pus a pensar sobre algumas questões nunca perguntadas (e por isso não respondidas) envolvendo essa peculiar visita de um presidente em exercício a uma comunidade que fica a 30 Km (ou cerca de 24 minutos de carro) do Palácio do Planalto (ver figura abaixo).

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A coisa começa esquisita por um fato básico: São Sebastião é uma comunidade cuja feição mais notória é a vizinhança com o Presídio da Papuda, além de ser fruto de um processo de expansão que fugiu do padrão idealizado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa no momento da criação do Distrito Federal.

Segundo um colega que trabalha na Universidade de Brasília (UnB), São Sebastião é mais um daqueles locais em que as camadas mais pobres vão ocupar quando outras áreas se tornam valorizadas demais, e empurram para regiões distantes os que não podem pagar nelas. Isso explica a distância entre São Sebastião e o chamado Plano Piloto, como é mostrado na figura acima.

Pois bem, o que teria levado a que o presidente da república decidisse “dar um passeio” matinal em uma área periférica de Brasília? Afora as excentricidades que são atribuídas a Jair Bolsonaro, não me parece acidental que ele tenha encontrado acidentalmente justamente crianças venezuelanas em São Sebastião. Toda essa situação aparenta ter algum nível de intencionalidade, sem que fica claro qual.

O que não me parece factível é que Jair Bolsonaro tenha acordado em um sábado de manhã, e incontinente, tenha convocado parte de sua segurança palaciana para dar um rolé despretensioso em comunidade periférica que fica a pelo menos 30 km das comodidades oferecidas pela residência oficial da presidência da república, onde então acabaria encontrando as adolescentes venezuelanas.

A mídia está agora noticiando que a ex-ministra e senadora eleita Damares Alves e a esposa de Jair Bolsonaro, Michelle, tiveram um encontro com as duas adolescentes com o qual o presidente da república disse “ter pintado um clima”.  Neste caso, a intenção parece óbvia, qual seja, livrar a cara de Jair Bolsonaro que está perdendo votos por causa de uma declaração que até os mais aguerridos dos bolsonaristas sabe que foi muito estranha.

Mas será que, finalmente, algum jornalista vai se ocupar de fazer a pergunta que realmente importa, qual seja, o que foi Jair Bolsonaro fazer em São Sebastião em um sábado de manhã?

A enrascada de Jair Bolsonaro: pedófilo ou mentiroso?

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Há um velho ditado/conselho ´popular que diz que “o peixe morre pela boca” e que repetidamente é desconsiderado pelo atual ocupante da cadeira de presidente do Brasil, o senhor Jair Bolsonaro. Provavelmente movido pela certeza de que pode sempre falar o que bem entende, Bolsonaro soltou uma daquelas declarações de efeito em um podcast realizado na última 6a. feira na qual ele narrou uma estranha história envolvendo o encontro com meninas de 14 ou 15 anos, supostamente venezuelanas, em uma comunidade pobre de Brasília, reconhecendo ainda que teria “pintado um clima” forte o suficiente para levá-lo para o interior da residência das meninas (ver vídeo abaixo).

O que o presidente do Brasil não contava é que suas palavras (emitidas de livre e espontânea vontade) seriam tomadas ao pé da letra, levando a uma onda de condenações pelo evidente tom descabido que a narrativa dele ensejou. Na prática, Bolsonaro armou uma tsunami midiática contra ele mesmo, e que veio em uma péssima hora para quem corre atrás do prejuízo.

Em um reconhecimento óbvio de que propiciou armamento contra si mesmo, Jair Bolsonaro realizou uma “live” na madrugada deste domingo para atacar o Partido dos Trabalhadores (PT) por supostamente usar contra ele, algo que lembremos foi dito por ele mesmo de forma pública.  A coisa tomou um tom bizarro, na medida em que um dos que saiu para prestar solidariedade a Bolsonaro foi o ex-vereador da cidade do Rio de Janeiro que teve seu mandato cassado por filmar e distribuir cenas de sexo, pasmem, com uma menor de idade (ver imagem abaixo).

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A essas alturas do campeonato em que mais de 30 milhões de brasileiros passam fome é realmente difícil entender o que realmente Jair Bolsonaro pretendia com essa confissão bizarra. Acontece que a narrativa dele já se provou mentirosa em várias outras vezes, mas neste caso ganha ares grotescos. É que o site UOL publica uma reportagem neste domingo indicando que, na verdade, no local citado como possível prostíbulo de menores venezuelanas ocorria uma ação social promovida por uma estudante brasileira de estética que fora ali simplesmente para treinar suas habilidades com voluntárias. 

Disto resulta que o presidente Jair Bolsonaro se utilizou de uma situação para mais uma vez atacar o governo de Nicolas Maduro (as meninas segundo ele seriam todas venezuelanas, lembram?), mas acabou enveredando por um caminho muito estranho em que a ele pode ser sim atribuída a pecha de pedófilo ou de mentiroso (aliás, escolher um caminho que mistura as duas coisas não é impossível).

Como não tenho a expectativa de que Jair Bolsonaro vá reverter suas práticas, o mais provável é que venha emitir outras “pérolas” até o dia do segundo turno. A ver!