Vergonha internacional para Jair Bolsonaro e para o Brasil

“Brasil acima de tudo”? Dezoito meses após a posse do presidente Bolsonaro, seu lema é o oposto. Uma vez que a imagem positiva é destruída, muitos amantes do país ficam perturbados.

Brasil Jair Bolsonaro comendo cachorro-quente (Reuters / A. Machado)Bom apetite: Jair Bolsonaro puxa sua máscara para comer um cachorro-quente

Quando ela se encontra com seus amigos alemães, ela agora abaixa a cabeça. “Em certos círculos, sinto vergonha quando digo que sou do Brasil”, diz Bianca Donatangelo. “Nunca foi assim antes.”

Alemanha Brasil Bianca DonatangeloBianca Donatangelo: “Uma tristeza indescritível”

A brasileira é editora-chefe da “Tópicos”, revista  da Sociedade Alemã-Brasileira (DBG). Como muitos outros compatriotas, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a leva ao desespero.

“Está destruindo nosso país, é incrivelmente triste”, diz ela em entrevista à Deutsche Welle. E ela tem certeza: “O Brasil não se livrará dessa má reputação tão cedo, mesmo que um novo governo chegue”.

De anfitrião da Copa do Mundo a forasteiro

O acidente no Brasil é de tirar o fôlego. Há dez anos, o país estava prestes a ultrapassar a França como a quinta maior economia do mundo. Agora caiu para o décimo segundo lugar. Atualmente, a renda per capita no Brasil é um terço menor que a dos chineses.

“O Brasil estragou tudo?” (O Brasil estragou tudo?). Já em setembro de 2013, o “economista” britânico abordou a crise no maior país da América Latina. Nesse ponto, a queda do país ainda não era previsível em sua verdadeira extensão.

Pelo contrário: o Brasil se apresentou como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. E também estava se tornando cada vez mais autoconfiante.

Por causa dos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e sua sucessora Dilma Rousseff (2011-2016), o Brasil ganhou reputação internacional. 

capa

Profético: A capa da revista “Economist” de 28 de setembro de 2013. “O gigante verde está despertando”

 

O país participou de missões internacionais da ONU no Haiti, no Congo e nas Colinas de Golã. E foi o líder diplomático no grupo de economias emergentes, os chamados países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Internacionalmente, foi dada muita atenção ao êxito da luta contra a pobreza com vários programas sociais, que ajudaram cerca de 30 milhões de brasileiros a avançar para a classe média. O correspondente do Brasil, Alexander Busch, resumiu o humor eufórico no título de seu livro, publicado em 2009: “Economic Power Brazil. The Giant Green Awakens”.

O lado sombrio  do Brasil

A euforia agora evaporou. “A imagem positiva se foi”, diz Friedrich Prot von Kunow, presidente da Sociedade Alemã-Brasileira, que foi embaixador no Brasil entre 2004 e 2009.

O diplomata atualmente não vê “nenhum progresso social, mas um desastre econômico”. Sua conclusão: “Do ponto de vista alemão, uma personalidade como Bolsonaro é inconcebível. Também é muito difícil para mim pessoalmente”.

Para a brasileira Bianca Donatangelo, o lado sombrio de sua terra natal é revelado pelo governo Bolsonaro. “No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias, e a discriminação contra negros e indígenas está profundamente enraizada na sociedade”, explica ela. “Mas esses tópicos geralmente são suprimidos”.

gripezinhaApenas uma “gripezinha” para o Presidente do Brasil: valas comuns estão sendo escavadas para os mortos do COVID-19 em São Paulo

Isolamento internacional

Bolsonaro continua a impulsionar o isolamento internacional do Brasil. Como seu modelo político, o presidente dos EUA, Trump, ele ameaça deixar o acordo climático de Paris, deixar a Organização Mundial da Saúde e transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

“Bolsonaro é ainda mais radical que Trump na crise do coronavírus”, disse o especialista brasileiro Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Universidade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. “A assinatura do acordo de livre comércio entre o mercado sul-americano Mercosul e a UE está se tornando cada vez mais improvável”, twittou recentemente.

trump bozo

Trump e Bolsonaro parecem ter mais em comum do que apenas um sorriso envolvente

A Alemanha e a Noruega também estão se mantendo à distância . Devido ao aumento dramático do desmatamento na Amazônia brasileira, eles congelaram temporariamente o dinheiro para a proteção florestal em agosto de 2019. O Ministério do Desenvolvimento Alemão (BMZ) está procurando novos parceiros de cooperação no país e está ficando sem projetos existentes.

“Não mostre o ombro frio”

A indústria alemã no Brasil, que Bolsonaro apoiou por sua agenda econômica liberal, agora está sofrendo com a perda de imagem do país. “Não há dúvida de que o Brasil e a América Latina se tornaram significativamente menos atraentes”, disse Philipp Schiemer, chefe da Mercedes-Benz do Brasil, em entrevista ao jornal de negócios alemão “Handelsblatt”.

No entanto, Schiemer não vê tudo de maneira negativa: “O governo tornou as leis trabalhistas mais flexíveis para que demissões em massa ainda não ocorram como nos Estados Unidos”, diz ele. “E ela rápida e eficientemente organizou ajuda financeira de emergência para os pobres”.

Mesmo que a brasileira Bianca Donatangelo não encontre nada de positivo no governo de Bolsonaro: ela está convencida de que seria errado mostrar ao Brasil o ombro frio no momento. “Por causa da crise, você não pode simplesmente jogar toda a história e cultura do país no lixo”, diz ela. “Bolsonaro não é o Brasil.”

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Deutsche Welle [Aqui!].

Dilma estaria envergonhada com o colapso de Eike: mas há razões para isso?

Queda do império de Eike afeta tanto assim a imagem do Brasil? (Reuters)

Economista acredita que problemas internos são muito mais determinantes, enquanto analista vê possíveis dificuldades em algumas captações futuras

SÃO PAULO – Nas últimas semanas, os holofotes se voltaram ainda mais para Eike Batista, em meio à recuperação da joia da coroa do seu grupo de empresas, a OGX Petróleo (OGXP3). E o desenrolar dos acontecimentos também chamou a atenção da imprensa internacional, que destacou a “decepção e vergonha” que a presidente Dilma Rousseff deve estar enfrentando, como o Financial Times, enquanto a imprensa espanhola ressaltou a trajetória de Eike “como a maior catástrofe financeira do Brasil” e que o empresário lançou sombras sobre a economia do País.

No final de setembro, antes mesmo da recuperação judicial e às vésperas do não pagamento de US$ 44,5 milhões de juros em títulos, o ministro Guido Mantega destacou que a crise das empresas do ex-magnata brasileiro afeta a imagem do Brasil, durante seminário em São Paulo. “Acho que a situação da OGX já provocou um problema para a imagem do País e para a bolsa de valores, que teve uma deterioração”, afirmou Mantega. Porém, quem está apostando que o aumento da aversão ao risco ao mercado brasileiro está associada à queda do ex-megaempresário pode estar cometendo um grande erro, avalia Alex Agostini, da Austin Ratings. “Sinceramente, eu acho pouco provável que um único grande empresário gerasse todo esse impacto negativo para a imagem do Brasil”, ressaltando que as atividades de Eike não têm tanta importância no mercado como o empresário bilionário Carlos Slim tem para a economia mexicana e até mesmo para a brasileira.

Com isso, Agostini avalia que “não dá para colocar na conta do Eike os problemas de um País que não fez a sua lição de casa”. Os investidores estrangeiros, ressalta, olham para fatores como austeridade fiscal, distribuição de renda, reforma política, entre outros, para fazerem as suas apostas para um País.

Assim, os problemas que Eike vêm enfrentando podem afetar marginalmente alguns setores no Brasil, como no caso de petróleo, mas está longe de ser um fator importante para o cenário brasileiro. No caso da exploração de petróleo e gás, os investidores podem se afastar também levando em conta a Petrobras (PETR3; PETR4), que recentemente passou pelo leilão de Libra, que foi bastante criticado também pela imprensa internacional devido à falta de concorrentes e pela maior intervenção do governo.

 Caso isolado?

O analista-chefe da Geral Investimentos, Carlos Müller, também avalia que não é a queda do empresário que afetará a imagem do Brasil no exterior. Alguns efeitos, porém, podem ser sentidos lá na frente. O analista ressalta que algumas companhias, também de característica pré-operacional, como eram as empresas de Eike, talvez possam sofrer problemas para captar a um custo mais alto, levando assim a uma certa “penalização”. Por outro lado, grandes corporações, que já possuem títulos de dívida no exterior, não correm grandes riscos de fazer novas captações,aponta o analista.

 “Não há um problema de ingerência e gestão das empresas no Brasil assim, não estamos vendo todo esse caos que afeta as empresas do grupo de Eike Batista”, ressalta o economista da Austin Ratings. Desta forma, a fala de Mantega citada anteriormente, em que o ministro atribuiu parte da imagem negativa do Brasil ao empresário, parece ser um modo de desviar a atenção para os reais problemas que vivem o Brasil.

 E a falta de reformas durante a gestão do atual ministro da fazenda está tendo efeitos cada vez maiores sobre a economia, tendo destaque para o cenário de deterioração fiscal no País. “O governo fala que vai cumprir a meta do superávit primário, mas o governo deve reconhecer o problema e buscar um plano que os investidores acreditem”, aponta Agostini.

CVM , ANP, BMF Bovespa: elas tiveram culpa no cartório?

Agostini e Müller destacam ainda que a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), tão contestada por minoritários, não teria como evitar o caso Eike Batista na bolsa. “Para contestar e verificar a autenticidade das informações de cada um dos relatórios emitidos pelas companhias, eles teriam que ter órgãos especializados, o que seria inviável para a autarquia”, destaca o analista da Geral Investimentos. Neste cenário, órgãos mais especializados, como a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Combustíveis) teriam mais subsídios para verificar se as informações passadas ao mercado tinham fundamento.

 Já Agostini ressalta que casos similares ao da OGX não são exclusivos do Brasil. Um dos exemplos citados é a SEC (Securities and Exchange Comission), que também é alvo de contestações nos EUA, onde atua com papel similar ao da CVM. O economista da Austin Ratings destaca, contudo, que o País vem experimentando um avanço nas regulamentações de mercado, o que é positivo para que os investidores.

 Além disso, Müller ressalta que a CVM pode agir de forma efetiva na penalização das empresas de Eike, caso se comprove que os comunicados enviados ao mercado foram feitos de má-fé – nesta semana, a Folha de S. Paulo noticiou que a OGX sabia em 2012 que as reservas seriam 80% menores e que o campo de Vesúvio não poderia produzir. E, havendo uma punição para o caso das empresas do grupo EBX, seria aberto um precedente para que outras companhias evitassem o mesmo tipo de comportamento.

 Desta forma, as regras do jogo estão colocadas e, pelo menos no caso Eike, elas não levam a uma percepção mais negativa para o Brasil. Porém, ressalta Agostini, a intervenção do governo em certos setores, a restrição de rentabilidade no caso de concessões, são fatores para que haja maiores temores com relação ao investimento no Brasil, mas estão bem distantes do caso do ex-megaempresário. “Eike foi um símbolo da deterioração existente no Brasil. Contudo, tratá-lo como o causador do problema é distorcer a visão do que realmenteestá acontecendo”, conclui o economista

FONTE: http://www.infomoney.com.br/ogxpetroleo/noticia/3042965/dilma-estaria-envergonhada-com-colapso-eike-mas-razoes-para-isso