Porque Wilson Witzel deveria encontrar Sun Tzu

sun tzu

Sou um fã declarado do general chinês Sun Tzu que viveu há cerca de 2.500 anos e escreveu um dos mais importantes tratados sobre a guerra que responde pelo título de  “A arte da guerra”[1].  Muitas vezes lamento não ter relido várias vezes esse livro, pois algumas passagens me alertaram sobre várias facetas de como devo me portar nas diferentes tratativas que preciso realizar para mediar minha vida em coletividade. Outros já preferem lê-lo para adotar as melhores estratégias para fazer negócios.

Após ouvir as renovadas declarações do recém empossado governador do Rio de Janeiro, o ex-juiz Wilson Witzel, penso que ele também teria muito a ganhar se fizesse do livro de Sun Tzu uma espécie de guia para suas futuras ações na segurança pública.

Mas antes de explicar o porquê desta sugestão literária, preciso lembrar que o conceito que vem guiando as políticas de (in) segurança pública no Brasil desde a década de 1960 está fortemente ancorado na estratégia de “guerra de baixa intensidade” que levou os EUA a uma fragorosa derrota no Vietnã.  A partir da aplicação dessa estratégia é que os vietcongs foram capazes de derrotar o maior exército do planeta, colocando-os para correr do sudeste asiática como se fossem o “exército de Brancaleone”.

Assim, não chega a ser surpresa que no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro os resultados efetivos sejam tão parcos, e exponham largos contingentes da população pobre a um grau de violência muito semelhante ao que populações em guerra estão expostas.

Uma das principais facetas que explicam a ineficiência da “guerra de baixa intensidade” tem sido a falta de ações de inteligência. Este aspecto que foi fundamental para os vietcongs derrotaram as forças estadunidenses tem sido solenemente ignorado no Rio de Janeiro, principalmente nos últimos anos em que os governos do (P)MDB reduziram a capacidade operacional das polícias.

Mas voltando a Sun Tzu, ele indicava, entre outras muitas coisas, que a informação (dada pelas ações de inteligência) era crucial, e que ninguém deveria ir para a batalha sem conhecer o seu inimigo. Nesse sentido, Sun Tzu afirmava que “aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas“.

Na mesma linha, Sun Tzu afirmava que “se souberes infiltrar traidores nas cidades e nos vilarejos inimigos, em breve terás ali muitas pessoas inteiramente devotadas. Conhecerás, por seu intermédio, as disposições da maioria em relação a ti. Esses traidores sugerirão a maneira e os meios que deves empregar para conquistar seus mais temíveis compatriotas; e quando chegar o momento de efetuar o cerco, poderás vencer sem dar o assalto, sem desferir nenhum golpe, sem desembainhar a espada.

Nesse sentido, as declarações repetidas do governador Witzel no sentido de renovar a autorização para o abate de suspeitos que portem armas sem que haja o devido preparo para saber quem são os inimigos é um convite para o desastre.  É que após uns poucos casos de mortes de inocentes, a primeira coisa que se perderá é a possibilidade de que a população colabore com as ações de inteligência. E, pior, isto ainda reforçará a lealdade com quem é percebido como inimigo por aqueles que não vivem no interior das comunidades pobres.  Isso sem falar na possibilidade de ações irregulares que resultam em massacres como foi o caso de Vigário Geral (ver imagem abaixo).

vigário geral

Imagem do Massacre de Vigário Geral, ocorrido no dia 29 de agosto de 1993,  quando mais de 50 policiais integrantes de um grupo de extermínio conhecido como os Cavalos Corredores assassinaram 21 pessoas.

Outra faceta que Sun Tzu alertou é que as cidades não eram o ambiente propício para as atividades de uma guerra. Ele indicou isso afirmando que “há estradas que não devem ser seguidas, exércitos que não devem ser atacados, cidades que não devem ser sitiadas, posições que não devem ser contestadas e comandos do soberano que não devem ser obedecidos.

Na prática, o que Sun Tzu sabia é que  as ruas das cidades são ambientes onde as ações dos exércitos tendem a ser menos eficientes, especialmente quando confrontando forças que podem se diluir rapidamente entre a população.  Essa lição foi esquecida pelos franceses na guerra da Argélia e o que se viu é que independente da superioridade militar, os guerrilheiros argelinos sempre souberam que poderiam vencer.  E se na Argélia deu no que deu, por que seria diferente no Rio de Janeiro?

É por esses aspectos básicos que faço a sugestão de leitura que estou fazendo ao governador Witzel. É que Sun Tzu também  dizia que “se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada.

Por essas e outras é que o Rio de Janeiro certamente terá mais a ganhar com Sun Tzu do que com drones israelenses e uma Guantanamo tropical.