Pesquisadores atualizam diagnóstico da pobreza no Brasil profundo

Autores de Vozes do Bolsa Família examinam o sofrimento social e a exclusão estrutural no país

Doze anos após a publicação de Vozes do Bolsa Família, os pesquisadores Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego voltam seu olhar para o Brasil esquecido pelas políticas públicas, onde o sofrimento social se naturaliza e a pobreza extrema se perpetua. Em Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza, lançamento da Editora Unesp, os autores atualizam seu diagnóstico sobre as mazelas enfrentadas pelos mais vulneráveis do país, reunindo análises e entrevistas com moradores de regiões historicamente marginalizadas.

“Assim como procedemos em nosso livro Vozes do Bolsa Família, quisemos dar voz aos sem-vozes, às pessoas emudecidas ou não ouvidas pelos políticos, pela opinião pública e até mesmo por uma parcela relevante de cientistas sociais”, anotam os autores na introdução. “Ouvimos os marginalizados, ‘os vencidos’, que sempre ficaram às margens da história brasileira, do progresso econômico, civil e jurídico, que, conquanto de forma precária e com graves retrocessos, tentou se instalar no país desde a sua independência.”

A primeira parte da obra traça um panorama das mudanças e retrocessos no cenário político-social da última década, com ênfase na fragilização dos programas de assistência e na negligência estrutural do Estado. Os autores iluminam as macroestruturas que sustentam a exclusão secular de amplas parcelas da população, revelando como a ausência de políticas públicas eficazes e a gestão desastrosa da pandemia agravaram ainda mais as condições de vida nos chamados “rincões do Brasil”.

Na segunda parte do livro, ganham voz os próprios sujeitos dessa realidade – mulheres e homens cuja existência costuma ser reduzida a estatísticas. Suas falas revelam não apenas a luta cotidiana por sobrevivência, mas também o modo como interiorizam a culpa por sua própria condição, em um processo que os autores denominam “sofrimento de segunda ordem”.

Com forte posicionamento ético, Vidas roubadas questiona a hierarquia de credibilidade que silencia os mais pobres e propõe uma escuta atenta às vozes historicamente desautorizadas, configurando-se como um apelo urgente à reflexão e à transformação social. “O fato de uma parcela majoritária da população brasileira ter ficado quase completamente excluída das vantagens de tal progresso ou de tê-las recebido apenas parcial e descontinuamente dá mostras do caráter social do sofrimento que tentaremos descrever neste livro”, registram. “Fomos movidos pela raiva suscitada por uma sociedade que condena as pessoas que entrevistamos a uma vida de sofrimento socialmente evitável.”
 

Sobre os autores  Alessandro Pinzani (UFSC) é especialista em filosofia política e coautor de Vozes do Bolsa Família. Walquiria Leão Rego (Unicamp) pesquisa teoria social e também assina a obra anterior com Pinzani.

Título: Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza 
Autores: Alessandro Pinzani, Walquiria Domingues Leão Rego
Número de páginas: 272
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 69
ISBN: 978-65-5711-292-2

Mortes por diabetes são mais prováveis em municípios com maior concentração de renda e vulnerabilidade social

diabeteMortalidade por diabetes está fortemente associada à desigualdade social

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A mortalidade por diabetes está fortemente associada à desigualdade social, com o impacto de fatores como concentração de renda e baixa escolaridade no número de mortes pela doença. De 2010 a 2020 a taxa de mortalidade por diabetes de brasileiros com até três anos de estudo foi duas vezes maior do que a taxa de mortalidade geral, com 59,53 mortes a cada 100 mil habitantes. A constatação é de é de pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (Uece) publicado na sexta (11) na “Revista Latino-Americana de Enfermagem”.

Segundo os autores, este é o primeiro estudo a associar diretamente taxas e indicadores de desigualdade social à mortalidade pela doença no país considerando todos os seus municípios. Foram analisados dados de 601 mil óbitos relacionados com diabetes mellitus, doença crônica que afeta a forma como o corpo processa o açúcar do sangue – de 2010 a 2020, conforme registros do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

“É um olhar diferenciado para o quanto a desigualdade social tem afetado o brasileiro em todos os aspectos, até mesmo em relação à mortalidade por doenças crônicas”, analisa o pesquisador Thiago Santos Garces, autor do estudo.

O Diabetes Mellitus (DM) e suas complicações estão entre os problemas de saúde pública mundial, representando uma das principais causas de óbitos precoces em pessoas com idade superior a 60 anos. Dados da Federação Internacional de Diabetes exibem um contingente equivalente a 6,7 milhões de mortes causadas pela doença no ano de 2021, atingindo a marca de uma morte a cada cinco segundos. O Brasil é o país que abriga o maior número de pessoas com a doença na América Latina e o quinto no mundo.

O estudo mostra que pessoas pardas também estão entre as mais afetadas, com 36,16 mortes a cada 100 mil habitantes. Entre as regiões com as maiores taxas de mortalidade, se destacam o Nordeste (34,4/100.000 hab.) e o Sul (31,4/100.000 hab.), com índices crescentes em todas as regiões e grande subnotificação estimada na região Norte (23/100.000 hab.).

Foram registradas mais mortes em mulheres do que em homens – 32 contra 27 mortes por 100 mil habitantes. Além disso, locais com cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) apresentaram taxas de mortalidade mais altas.

Para Garces, o cenário é resultado de uma sequência de fatos ligados à vulnerabilidade social. “É difícil que a pessoa procure o médico se não teve acesso a uma educação para compreender que precisa buscar atendimento, ou para seguir dieta específica para sua doença”. O estudo, segundo o pesquisador, evidencia a necessidade de ampliação de políticas de distribuição de renda e de educação e saúde: “Para diminuir a vulnerabilidade social e a desigualdade, é necessário dar mais acesso a saúde e educação às populações mais vulneráveis”, declara.

Os próximos passos da pesquisa envolvem investigar mais a fundo a relação dos indicadores sociodemográficos com a mortalidade por diabetes, considerando também os dados do censo demográfico mais recente: “Queremos um novo olhar sobre os indicadores que vierem em relação a diabetes mellitus e a outras doenças crônicas”, conclui Garces.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].