Em meio ao silêncio sepulcral da comunidade científica, trash science chega ao nirvana

Imagem relacionada

Depois de terem se livrado da incômoda lista produzida por  Jeffrey Beall, usando para isto sabe-se lá quais mecanismos de convencimento, os editores de  revistas de “trash science” devem estar mais felizes do que nunca. 

É que venho constatando cada vez mais a inclusão de artigos publicados por tradicionais editoras de trash science em minha própria contagem de citações na tradicional  base de dados de citação conhecida como “Web of Science”, e que foi criado pelo Institute for Scientific Information (ISI), que foi propriedade da Thomson Reuters, e que hoje está sob o controle da empresa Clarivate Analytics [1].

O primeiro efeito dessa entrada das revistas de “trash science” no Web of Science é, mais do que certamente, o encarecimento das publicações do chamado “open access” que ganharam uma importante chancela de legitimidade ao serem incluídas em uma plataforma que antes estava reservada a revistas que, em tese, publicavam ciência que tivesse passado pelo crivo do sistema de “peer review” (ou revisão por pares em português) . Nesse caso, os proprietários das editores de “trash science” são os claramente vencedores, visto que seus lucros deverão aumentar de forma estratosférica.

O segundo efeito é o que considero mais nefasto para a ciência enquanto um campo intelectual em que os elementos de rigor deveriam guiar aquilo que é publicado. É que a validação dada a revistas de “trash science” implica também na validação daquilo que elas publicam. Tal fato tornará basicamente o artigo científico em algo não apenas ultrapassado em termos de divulgação científica, mas principalmente em um veículo de de divulgação não de resultados científicos que tenham passado pelas provas de acurácia e precisão, mas daquilo que muitas vezes falhou nestas duas dimensões essenciais para que algo seja considerado uma verdade científica.

Um terceiro efeito é que, especialmente em países onde esses índices são usados para decidir a alocação de recursos públicos em fomento à ciência, teremos cada vez mais a premiação de pesquisadores que se sirvam das editoras predatórias para turbinar seus currículos para aumentar indevidamente as suas chances de obterem suporte para seus projetos de pesquisa. Tal efeito será desastroso não apenas para o avanço da ciência pura, mas também da aplicada, representando um vexaminoso exemplo de desperdício de recursos públicos.

O assombroso, ao menos para mim, é o completo silêncio que está cercando a chegada das editoras “trash science” ao nirvana dos indexadores de citação como é o caso do Web of Science.  Este silêncio é mais do que uma simples omissão, mas representa uma opção de cumplicidade em relação ao processo de validação do que pode ser considerado ou não como sendo ciência de qualidade.

E viva o trash science!


[1] https://clarivate.com/

Ciência como “commodity” atinge novo patamar na Coréia do Sul com pesquisadores colocando filhos como co-autores

A respeitada revista “Nature” publicou no dia 02 de fevereiro de 2018 um artigo assinado pelo jornalista científico Mark Zastrow sobre um escândalo que emergiu nas principais universidades da Coréia do Sul em função de pesquisadores estarem colocando seus filhos como co-autores em artigos publicados em revistas científicas [1].

Resultado de imagem para kids co authors south korea

A razão para esta prática seria a intenção dos pesquisadores melhorarem as chances de seus filhos para ingressar nas melhores universidades da Coréia do Sul, no que parece ser uma forma bem sofisticada de nepotismo.

O fato da prática estar disseminada nas melhores universidades sul coreanas levou ao governo da Coréia do Sul a iniciar uma investigação nas publicações indexadas em base de dados como Web of Science, Scopus e o Science Citation Index (SCI) para verificar o possível cruzamento de nomes dos 76.000 docentes de tempo integral existentes no país com seus filhos.

Segundo o que publicou Mark Zastrow, resultados iniciais da investigação cobrindo apenas a última década, e que foram publicados em janeiro de 2018, apontaram que a prática estava presente em 29 universidades sul coreanas, sendo detectadas 82 publicações, sendo que dentre estas em apenas 39 casos a participação de filhos como co-autores foi considerada legítima [2].

Como a investigação do Ministério da Educação foi encerrada apenas na semana passada é provável que os resultados finais desta investigação ainda demorem a ser conhecidos. Entretanto, o que já fica claro que o processo de comodificação da ciência que já havia resultado em graves distorções em prol da quantidade em detrimento da qualidade, agora atingiu um novo patamar de deterioração da integridade.

Resta saber se essa prática está presente em outros países e em qual intensidade.  É que se isto for um caso que vai além das universidades sul coreanas, os princípios meritocráticos que supostamente guiam a progressão profissional na carreira científica serão fortemente questionados, como já estão sendo na Coréia do Sul.


[1] https://www.nature.com/articles/d41586-018-01512-5

[2] http://www.koreatimes.co.kr/www/nation/2018/01/119_243144.html

.