A extradição de Julian Assange foi negada, por enquanto

Justiça inglesa profere um veredito surpreendente para o caso do fundador do Wikileaks

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Foto: dpa / Dominic Lipinski

Por Daniel Lücking para o Neues Deutschland

“Extradição negada”, tweetou o jornalista James Doleman da sala de imprensa do Woolwich Crown Court em Londres pouco antes do meio-dia. A extradição de Julian Assange para os EUA não ocorrerá por enquanto. A juíza Vanessa Baraitser levou em consideração a situação de saúde de Julian Assange no veredicto. O lado americano agora tem 15 dias para apelar da decisão. O advogado de Julian Assange anunciou que agora solicitará fiança.

A sua estrutura de personalidade autista, que intensifica sua depressão clínica, da qual Assange sofre após anos de isolamento na embaixada do Equador, e na prisão de segurança máxima em Belmarsh, torna provável que Assange possa cometer suicídio na prisão, explicou Baraitser .

O veredito é surpreendente, porque a juíza inicialmente estava claramente aberta ao lado americano. “Este tribunal confia que um tribunal dos EUA examinará adequadamente o direito do Sr. Assange à liberdade de expressão”. Segundo a juíza, Assange continuou a fazer mais do que apenas jornalismo.

Os observadores políticos não foram autorizados a assistir à decisão de Raraitser na segunda-feira. O parlamentar de esquerda Sevim Dagdelen tweetou que ela foi impedida de entrar no Reino Unido no último minuto por “razões frágeis”. Dagdelen foi registrado para participar e deveria ocupar um dos assentos que a família de Julian Assange não poderia usar. Não foi possível para todos os membros da família viajar da Austrália para ouvir pessoalmente o veredito.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

O que diria George Orwell ? Wikileaks libera informações sobre ações de contra-inteligência digital da CIA

A grande notícia do dia de hoje é a liberação de um mega pacote de dados pelo site Wikileaks (Aqui!) sobre as ações de contra-inteligência da Agência Central de Inteligência (CIA) que incluem o hackeamento de telefones, computadores e até televisores.(Aqui!Aqui!Aqui!Aqui! e Aqui!).

Pelo menos uma fonte crível na questão das formas de ação da contra-inteligência estadunidense, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, já utilizou a sua conta pessoal no Twitter para indicar que o pacote de dados liberado pelo Wikileaks parece ser genuíno (Aqui!).

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A novidade deste vazamento não é tanto por se confirmar algo que se desconfiava estar ocorrendo, visto a fragilidade dos sistemas de segurança da maioria dos equipamentos que usam os sistemas operacionais da Apple e da Google.   Na verdade, a novidade mesmo é o fato de que a própria CIA foi hackeada e teve seus “modus operandi” dissecado por sabe-se-lá-quem, e que depois repassou para o Wikileaks vazar.

De toda forma, esse vazamento deverá ter alguns efeitos imediatos. O primeiro será um baque nas vendas dos televisores inteligentes da multinacional sul coreana SAMSUNG que aparentemente é a única marca que já foi transformada em zumbi pelos hackers da CIA. O segundo efeito deverá ser um aumento considerável nas medidas de segurança dos usuários dos sistemas não apenas da Apple e da Google, mas também do Linux que até agora era citado como quase impossível de ser hackeado.

Há ainda que se reconhecer o fato de que o Wikileaks que já era dado como morto e inútil por muitos, conseguiu aparentemente está mais vivo do que nunca. 

Por último, outro efeito inevitável desse vazamento será um aumento da demanda pelo livro “1984” do escritor inglês George Orwell que antecipou esse tempo onde a ingerência do Estado na área privada dos indivíduos, visando obviamente o controle social das massas, seria total (Aqui!). E 68 anos depois da primeira edição de “1984”  eis estamos aqui todos nós sob o olhar atento do “Grande Irmão” que no final não era comunista, mas sim o suposto campeão dos valores democráticos. George Orwell certamente iria apreciar essa ironia.

Um aniversário sombrio: Julian Assange completa 4 anos dentro da embaixada do Equador em Londres

A data de hoje ia me passando em branco até que eu acessei a minha conta no Twitter e vi a imagem abaixo que me relembrou de que exatamente há quatro anos, Julian Assange entrou pela porta de frente da Embaixada do Equador em Londres para escapar de um peculiar mandado de apreensão emitido pelo governo da Suécia supostamente para ouvi-lo sobre duas acusações de estupro.

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Após incríveis quatro anos, Assange ainda não foi ouvido pelo governo sueco e, apesar de ter recebido asilo do Equador, continua poder sem sair da embaixada que serve como abrigo sob pena de ser imediatamente preso pela polícia inglesa.

E não esqueçamos o do porquê da recusa do editor-chefe do Wikileaks de sair da embaixada para ser ouvido pelos suecos. É que ele tem certeza que se fizer isso vai acabar apodrecendo em alguma das prisões secretas que o governo dos EUA possui no mundo.

Imaginem o que estaria dizendo a mídia corporativa se o caso de Assange estivesse ocorrendo em países como Rússia, Venezuela, China ou Cuba! No mínimo que ele seria um prisioneiro político. Bom, pelo menos nisso estariam certos, pois é exatamente nisto que Julian Assange foi transformado. Seu crime? Vazar documentos secretos que deveriam ser públicos para começo de conversa.

Julian Assange põe o dedo nas relações entre Google e o governo dos EUA. E de quebra, com Hillary Clinton

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Falando via video conferência a uma conferência sobre o futuro do jornalismo, a “New Era of Journalism: Farewell to Mainstream” (já que está efetivamente preso no interior da Embaixada do Equador em Londres), o líder do Wikileaks, Julian Assange, pôs o seu dedo em algo que a maioria dos internautas continua preferindo ignorar em nome do acesso aos bons serviços prometidos pela Google Inc., qual seja, a relação que a corporação possui com o governo dos EUA, e com a candidata presidencial democrata, Hillary Clinton (Aqui!).

Como usuário das diversas ferramentas disponibilizadas pela Google Inc. não estou surpreso com as declarações de Assange, e acredito que ele não apenas está correto em sua análise, mas como também expõe um dos problemas básicos que precisamos ter em conta quando usamos a internet. Falo aqui do fato de que a facilidade de comunicação e acesso à informação que a internet permitiu veio acompanhada de um alto custo para as liberdades individuais. É que somente ingênuos não percebem a estrutura gigantesca de monitoramento social que se estabeleceu a partir da conexão global de computadores e outros artefatos digitais.

Ignorar a capacidade de monitoramento que se deu aos governos nacionais e às agências internacionais é uma ingenuidade que chega a ser perigosa. Mas o fato é que a maioria das pessoas que acessam não apenas as ferramentas da Google, mas de outras corporações que oferecem serviços supostamente gratuitos,  também entrega uma porção significativa da sua privacidade, aumentando assim a possibilidade de invasão de sua intimidade.

Com isto não estou falando que devamos abandonar as formas modernas de comunicação e difusão de informação, já que a tendência nesse sentido parece mais do que inexorável.  O que estou dizendo é que precisamos ser mais preparados para entender as intrincadas relações econômicas e políticas que estão estabelecidas em torno do controle e do uso das ferramentas digitais, especialmente aquelas relacionadas à manutenção do status quo. Em outras palavras, quem quiser brincar com o diabo terá que se saber que nada é de graça no inferno, a começar pela captura de preferências e orientações pessoais. É que numa época tão marcada pelo afã do consumo, essas preferências valem mais do que petróleo.

WikiLeaks expõe Michel Temer como informante do governo dos EUA

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A estas alturas não é mais segredo que o WikiLeaks de Julian Assange liberou documentos demonstrando que o presidente interino era informante da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) e que passou aos diplomatas estadunidenses uma série de informações que os próprios consideraram coisa de amigo da onça.

Mas resolvi ir até o Twitter oficial do WikiLeaks para ver o que foi dito ao longo desta sexta-feira (13/05). E o pessoal do WikiLeaks realmente resolveu expor as relações de Temer com a embaixada estadunidense de forma escancarada (ver imagens abaixo).

É bem provável que Michel Temer não fique muito amuado com a revelação do WikiLeaks, pois já tem sido chamado de coisa bem pior do que “X9” aqui mesmo no Brasil. A questão não é como Temer reage ao ser desnudado frente aos outros governantes que fazem negócios com o Brasil mas que, não necessariamente, são amigos dos EUA. E a lista é grande, envolvendo parceiros comerciais estratégicos como China e Rússia.

Para quem quiser ter acesso aos documentos disponibilizados pelo WikiLeaks sobre as informações passadas pelo “X9” que agora é presidente interino do Brasil, basta clicar (Aqui!)

Tratado entre 50 países ultrapassa tudo o que já se viu em favor das trasnacionais

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O TISA é negociado secretamente e permite lucros irrestritos às grandes corporações, escreve Silvia Ribeiro em artigo.

Por Silvia Ribeiro, Do La Jornada* 

O Tratado sobre o Comércio de Serviços (TISA), negociado secretamente por governos de 50 países, inclusive o México, ultrapassa tudo o que já se viu até agora em matéria de tratados internacionais a favor dos lucros irrestritos das empresas transnacionais, contra os interesses e o bem público.

O termo “serviços” neste contexto abarca desde a água e a alimentação, a saúde, educação, pesquisa, comunicações, correios, transportes, telecomunicações, comércio eletrônico, vendas no varejo e no atacado, serviços financeiros e muito mais. Inclui também os chamados inadequadamente de “serviços ambientais” relacionados a florestas, sistemas hidrológicos e outras funções dos ecossistemas. Até os migrantes são incluídos no tratado como supostos “fornecedores de serviços”! O setor de serviços é, além disso, o maior empregador dos países de renda alta e média, e são enormes os impactos contra direitos trabalhistas e sindicais.

As negociações e os textos que são discutidos são secretos, mas o Wikileaks, por meio de meios de comunicação como o jornal mexicano La Jornada, vazou-os desde 2014. A versão mais recente é de julho de 2015 (http://wikileaks.jornada.com.mx/). Caso contrário, não conheceríamos o que está sendo discutido desde 2012, em que pese sua aprovação, terá consequências de grande amplitude na vida de todos os países participantes e além, já que o bloco negociador pretende impor este mesmo marco aos demais países.

O TISA integra um pacote de vários tratados comerciais em negociação nos quais um grupo de países, Estados Unidos à frente, busca consolidar o mercado de suas empresas e sua esfera de poder comercial, financeiro e político. Os mais significativos são o Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento (TTIP) e o Acordo Estratégico Trans-Pacífico de Associação Econômica (TPP). O primeiro é entre os Estados Unidos e a Europa (chamado informalmente de OTAN econômica) e o segundo é entre os Estados Unidos e vários países do Pacífico.

O mais amplo temática e numericamente é o TISA, do qual participam atualmente 50 países, entre eles os Estados Unidos, Canadá, Europa, Austrália, Japão, entre outros países asiáticos, e vários latino-americanos: Colômbia, Costa Rica, México, Panamá, Peru, Paraguai e Uruguai. Juntos representam 68% do comércio de serviços em nível global.

É notória a exclusão de países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), embora a China tenha pedido, sem sucesso, incorporar-se ao TISA. É clara a intenção de afirmar a competição econômica com esse bloco e outros do Pacífico liderados pela China.

Os Estados Unidos e os mentores do TISA – que respondem à demanda de poderosíssimos grupos transnacionais financeiros e cadeias de supermercados, entre outros –, autodenominaram-se de “autênticos bons amigos dos serviços”, uma referência irônica ao grupo de negociação sobre a liberalização de serviços na Organização Mundial do Comércio (OMC), que consideram estar parado, embora também implique em severos impactos negativos para a maioria das pessoas. A OMC não é mais transparente ou democrática. Também ali os acordos são negociados em segredo, entre grupos de países auto-eleitos, que finalmente vão a um plenário de membros que pouco podem fazer para mudar aquilo que já foi negociado anteriormente entre poucos.

A diferença com o TISA, além dos conteúdos, é que nem sequer formalmente se propõem a passar por outra instância fora do clube dos escolhidos, antes de finalizar o acordo. O texto será confidencial por um período de cinco anos após ser acordado e os Congressos dos países – onde isso for exigido – só poderão aceitar ou negar o pacote inteiro, como uma caixa preta. Paradoxalmente, o TISA exigirá total transparência por parte dos Estados sobre suas compras públicas, serviços e legislações e antes de concretizá-las, estarão obrigados a consultar primeiramente as empresas.

Obviamente, o TISA facilitará maior privatização de serviços públicos, o que por si é devastador, porque setores como saúde, educação, água, saneamento, eletricidade e muitos outros, não são “mercados”, mas necessidades básicas da sociedade que devem ser cobertas socialmente, para além da situação geográfica ou econômica daqueles que delas necessitam. Isto já sofreu uma brutal erosão em muitos países e o TISA propõe-se a aprofundá-la.

Mas, além disso, está projetando uma completa desregulação dos serviços privados. Por exemplo, o Walmart, a maior empresa do mundo e o maior empregador privado da América do Norte (com efeito devastador sobre salários e direitos trabalhistas), participa ativamente das negociações do TISA através da Coalizão de Indústrias de Serviços, e espera que este acordo o “libere das normativas governamentais em zonificação e tamanho das lojas” assim como de regulações sobre a venda de álcool, cigarros, etc. (E. Goul, ISP, 2014).

Outros elementos novos e centrais do TISA são a chamada manutenção do status quo e a “cláusula de traquete”. De acordo com esta cláusula, os países membros do TISA não poderão, no futuro, fazer nenhuma lei ou normativa, ou mudar qualquer política, que contrarie o que foi acordado.

Como se fosse pouco, tudo o que for definido como serviço, ficará automaticamente incluído – mesmos aqueles que agora nem sequer existem, por exemplo, novas coberturas de saúde, etc. –, porque só haverá listas de exclusão que os países devem apresentar durante a negociação e serão aprovadas.

São tantas as perversões deste tratado que é imperioso e urgente conhecê-lo e lutar contra ele, a partir de onde estivermos, como já fazem organizações sindicais, ambientais e sociais. Uma boa notícia foi a greve geral convocada pela central de trabalhadores PIT-CNT do Uruguai no dia 06 de agosto, que incluiu em suas demandas a “rejeição total e absoluta do TISA”.

* A tradução é de André Langer.

FONTE: http://www.mst.org.br/2015/08/17/tratado-entre-50-paises-ultrapassa-tudo-o-que-ja-se-viu-em-favor-das-trasnacionais.html

WikiLeaks mostra que NSA continua espionando Dilma Rousseff e outras autoridades federais brasileiras

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Em sua recente visita aos Estados Unidos da América, a presidente Dilma Rousseff recebeu afagos do presidente estadunidense Barack Obama, que incluiu até a promessa de que não seria mais objeto de espionagem pela National Security Agency (NSA), aquela mesma que foi exposta por Edward Snowden.

Bom, mas como quem ouve declaração não vê a ação real, hoje (04/07) o site Wikileaks emitiu um comunicado de imprensa acompanhado de uma lista de telefones de altas autoridades brasileiras que tiveram (ou tem) seus telefones grampeados pela NSA (Aqui!).

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Além disso, o comunicado de imprensa está acompanhado da lista de autoridades que estão com seus telefones grampeados pela NSA como mostram as imagens abaixo. E ai, além da presidente Dilma Rousseff, podemos ver que estão tendo suas conversas devidamente escutadas pelos espiões estadunidenses o ministro da Fazenda, os embaixadores brasileiros em Berlim e Paris, Antonio Pallocci, e os ministério das Forças Armadas. Isto sem falar nos telefones do avião presidencial!

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A pergunta que fica agora: o que fará Dilma Rousseff para defender o Brasil da espionagem realizada pela NSA?

TiSA, o acordo global de comércio contra os BRICS

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Wikileaks revela: EUA, União Europeia e bancos querem tratado que impediria sociedades de tomar decisões contrárias às grandes empresas. Colômbia e México estão envolvidos

Por Carlos Henrique Bayo*, no Publico

O Wikileaks vazou o conteúdo das negociações clandestinas de meia centena de governos que buscam estabelecer um acordo mundial secreto de comércio internacional de serviços, que passará por cima de todas as regulações e normativas estatais e parlamentares, em benefício de grandes empresas.

O sigiloso tratado de Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP), entre os Estados Unidos e a União Europeia parecia imbatível, uma espécie de Cavalo de Troia das multinacionais, mas a verdade é que serve apenas de cortina de fumaça para ocultar a verdadeira aliança neoliberal planetária: o Acordo de Comércio em Servios — Trade in Services Agreement (TiSA) –,  compromisso ainda mais antidemocrático de intercâmbio de serviços entre cinquenta países, que não só está sendo negociado sob o mais absoluto segredo mas, além disso,  deverá continuar escondido da opinião pública durante mais cinco anos, quando já tiver entrado em vigor e condicionará 68,2% do comércio mundial de serviços

O nível de confidencialidade com que se escrevem os artigos e anexos do TiSA – que cobrem todos os campos, desde telecomunicações e comércio eletrônico até serviços financeiros, seguros e transportes – é muito superior, também ao do Acordo de Parceria Transpacífica (Trans-Pacific Partnership Agreement, TPP) entre Washington e seus sócios asiáticos, que prevê quatro anos de vigência na clandestinidade. Entretanto, a reportagem de Público.es teve acesso – graças a sua colaboração com Wikileaks – aos documentos originais reservados da negociação em curso. Eles deixam claro que se está construindo um complexo emaranhado de normas e regras desenhadas para driblar as regulações estatais e burlar os controles parlamentários sobre o mercado global

Os sócios jornalísticos do Wikileaks, que participam junto com Público.es nesta exclusiva mundial, são: The Age (Austrália), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), Kathimerini (Grécia), Kjarninn (Islândia), L’Espresso (Itália), La Jornada (México), Punto24 (Turquia), OWINFS (Estados Unidos) e Brecha (Uruguai)

Além disso, o TiSA é impulsado pelos mesmos governos (EUA e os da UE) que impuseram o fracassado modelo financeiro desregulado da Organização Mundial de Comércio (OMC), e que provocaram a crise financeira global de 2007-2008 (o crash do cassino especulativo mundial simbolizado pela quebra do banco Lehman Brothers), que arrastrou as economias ocidentais e pela qual ainda estamos pagando após quase uma década inteira de austeridade empobrecedora, cortes de gastos sociais e resgates bancários. E o que este pacto neoliberal mundial tenta impor precisamente é a continuidade e intensificação desse sistema, em benefício das grandes companhias privadas transnacionais e atando as mãos dos governos e instituições públicas

Por enquanto, os governos implicados na negociação secreta do TiSA são: Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Estados Unidos, Hong Kong, Islândia, Israel, Japão, Liechtenstein, México, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru, Suíça, Taiwan, Turquia e a Comissão Europeia, representando os 28 países-membros da UE, apesar de ser um organismo não eleito por sufrágio universal. Entre esses sócios há três paraísos fiscais declarados, que participam ativamente da elaboração dos artigos, especialmente a Suíça.Esses objetivos são evidentes na intenção de manter o tratado secreto durante anos, visto que, assim, impede-se que os governos que o executam tenham que prestar contas a seus parlamentos e cidadãos. Também é clara a intenção fraudulenta dessa negociação clandestina por sua descarada violação da Convenção de Viena sobre a Lei de Tratados, que requer trabalhos preparatórios e debates prévios entre especialista e acadêmicos, agências não governamentais, partidos políticos e outros atores… uma série de obrigações impossíveis de serem cumpridas quando a elaboração de um acordo se efetua sob segredo total e escondido da opinião pública

Os textos da negociação secreta do TiSA, agora revelados pelo Wikileaks, mostram que a ideia é eliminar todos os controles e obstáculos para a liberalização global dos serviços financeiros, suprimindo todos os limites a suas instituições e qualquer restrição aos seus produtos “inovadores”, apesar de que foram precisamente esses inventos financeiros, como os CDS (credit default swaps) – autênticas apostas sobre possíveis quebras –, os que geraram a bolha especulativa mundial que quando estourou, em 2007-2008, destruiu os fundamentos econômicos das potências ocidentais e obrigou os governos a resgatar essas entidades, usando centenas de bilhões em recursos públicos

Há um ano atrás, Wikileaks já havia vazado uma pequena parte da negociação do TiSA (o anexo em referência a Serviços Financeiros, com data de 19 de junho de 2014), mas até hoje nenhum meio teve acesso às atas das reuniões onde ocorreram as negociações secretas, menos ainda sobre o conteúdo dos encontros, incluindo todos os aspectos que o futuro acordo cobrirá: finanças (cujo acordo se deu no dia 23 de fevereiro de 2015), telecomunicações, comércio eletrônico, transporte éreo e marítimo, distribuição e encomendas, serviços profissionais, transparência, movimentos de pessoas físicas, regulações nacionais internas, serviços postais universais

O site Público.es teve acesso também às notas internas sobre as negociações com Israel e Turquia, para que os países aderissem ao tratado secreto, algo que, por outro lado, foi negado a China e Uruguai quando ambos o solicitaram, provavelmente temendo que vazariam os conteúdos do pacto quando compreendessem o alcance do que se pretende

A lista de nações latino-americanas que participam do TiSA é reveladora. Todas elas fiéis aliadas dos Estados Unidos, como Colômbia, México e Panamá (paraíso fiscal bastante ativo na negociação), assim como a exclusão não só dos países bolivarianos mas também do Brasil e outras potências regionais que Washington não confia. Na realidade, todas as potências emergentes do chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ficaram de fora do tratado secreto, precisamente porque serão as que mais perderiam ao se aplicar as condições pactadas

Não há porque duvidar da intenção de impedir o debate sobre a crise financeira iniciada em 2008 e ainda não encerrada, as razões que a provocaram e as soluções para que não volte a acontecer, que muitos países solicitaram desde o estouro da bolha, principalmente o Equador. Estados Unidos, Canadá, Austrália, Suíça e a União Europeia opuseram-se frontalmente até mesmo às conclusões da Comissão Stiglitz da ONU, em 2009, negando-se a aceitar a evidente relação entre a desregulação bancária/especulativa e a crise. Em 2013, bloquearam todas as tentativas de discutir essas mesmas conclusões na OMC.

A parte mais risível do conteúdo do TiSA, que foi publicado agora, é exigência de submissão total das autoridades nacionais ao mundo corporativo. Todas as regulações e normas que possam limitar a atividade empresarial deverão ser anunciadas de antemão, o que assegurará às grandes empresas e aos lobbies comerciais internacionais tempo e recursos para contra-atacar, modificar ou inclusive impedir essas decisões soberanas em função dos seus interesses.

Em contrapartida, o TiSA – negociado à margem do Acordo Geral de Comércio de Serviços (GATS) e da Organização Mundial do Coméricio (OMC) – aceita todas as exigências de Wall Street e da City londrina, assim como os interesses das grandes corporações multinacionais. Para elas, além de não ser secreto, o acordo é quase íntimo, sua própria criação. Como há meses alertou Jane Kelsey, catedrática de direito da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia: “o maior perigo é que o TiSA impeça os governos de fortalecer as regras do setor financeiro”

Desenhado em cumplicidade com o setor financeiro mundial, o TiSA obrigará os governos que o assinem a promover e ampliar a desregulação e liberalização especulativa, fatores que causaram a crise de 2007-2008. O tratado tirará dos países-membros o direito de manter e controlar os dados financeiros dentro de seus territórios, vai forçá-los derivados financeiros tóxicos e os deixará de mãos e pés amarrados caso pensem em adotar medidas para impedir ou responder a outra recessão induzida pelo neoliberalismo. E tudo isso será imposto através de acordos secretos, sem que a opinião pública possa conhecer os verdadeiros motivos que empurrarão sua sociedade em direção à ruína.

A menos que os órgãos da soberania popular impeçam esse golpe de Estado econômico mundial.
____________

*Carlos Henrique Bayo, diretor de Público.es, foi redator-chefe da editoria Internacional da versão impressa deste diário. Foi correspondente em Moscou (1987-1992) e em Washington (1992-1996), alé de subdiretor de La Voz de Asturias, diretor de publicações do Grupo Joly, subdiretor e criador do Diário de Sevilla, redator-chefe do Diário 16 e El Periódico de Catalunya, e diretor adjunto da Rádio ADN.

FONTE: http://outraspalavras.net/destaques/tisa-o-acordo-global-de-comercio-contra-os-brics/

Dá para confiar no Google? Entrega de dados do Wikileaks ao FBI mostra que não!

O jornal britânico “The Guardian” colocou no ar neste domingo uma matéria assinada pelos jornalistas Ed Pilkington and Dominic Rushe mostrando que a Google demorou “quase” três anos para informar ao Wikileaks que havia passado informações concernentes a membros do grupo ao governo estadunidense, mais precisamente para o FBI (Aqui!).

Apesar de já fazer algum tempo que o Wikileaks vinha denunciando o Google por colaborar o governo dos EUA no esforço massivo de violar a privacidade de usuários da internet, esta confirmação certamente contribuirá para um acirramento nas relações entre as duas partes.

O mais grave é que se suspeita que os dados passados pela Google para o FBI se referem a um processo criminal que corre em segredo de justiça, tendo como motivo o massivo vazamento de documentos secretos por parte do Wikileaks, e que levaram ao encarceramento de Bradley Manning e ao exílio de Julian Assange dentro da embaixada do Equador em Londrres..

Agora fica mais claro que podemos até usar as ferramentas associadas ao Google, mas que com o devido grau de desconfiança em relação à prometida confidencialidade de contas de correio eletrônico. É que para quem entregou dados de pessoas ligadas ao Wikileaks, entregar os de pessoas comuns é nada.

Assange: ‘O serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder’

Em entrevista à Carta Maior, Julian Assange falou sobre vigilância massiva e as relações dos serviços secretos internacionais com os atentados de Paris.

Marcelo Justo – exclusivo para Carta Maior

Ars Electronica / Flickr

Londres – A interpretação do massacre da Charlie Hebdo se transformou em um território em disputa. A liberdade de expressão e a relação com a minoria muçulmana, a dicotomia entre multiculturalismo à britânica ou integração secular à francesa, a luta antiterrorista e privacidade são alguns dos eixos do debate.

No Reino Unido, o diretor do MI5 Andrew Parker propôs uma nova lei antiterrorista que concede mais poderes de vigilância eletrônica aos serviços secretos. Um importante editor e historiador conservador, Mark Hastings, não hesitou em acusar como corresponsáveis do que aconteceu o fundador do Wikileaks Julian Assange e o ex-agente da CIA Edward Snowden. Da Embaixada do Equador em Londres, onde está há dois anos e meio esperando uma autorização para deixar o país, Julian Assange falou à Carta Maior.


Qual é sua interpretação do massacre da Charlie Hebdo?

Como editor, foi um fato extremamente triste que aconteceu com uma publicação que representa a grande tradição francesa da caricatura. Mas agora temos que olhar adiante e pensar o que ocorreu e qual deve ser a reação. É preciso entender que a cada dia acontece um massacre dessa magnitude no Iraque e em outros países do mundo árabe. E isto aconteceu graças aos esforços desestabilizadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A França participou do fornecimento de armas para a Síria, Líbia e da recolonização do Estado africano de Mali. Isto estimulou o ataque neste caso, usando um alvo fácil como a Charlie Hebdo. Mas a realidade é que o serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder sobre o acontecido.


Acredita que houve um fracasso dos serviços secretos franceses?

É o que estão tentando esconder. Os serviços de segurança da França sabiam das atividades dos responsáveis pelo massacre e, no entanto, deixaram de vigiá-los. Por que os irmãos Kouachi, conhecidos por seus laços com extremistas, não estavam sob vigilância? Cherif Kouachi havia sido condenado por crimes terroristas. Longe de estar enviando mensagens criptografadas, eles se comunicaram centenas de vezes antes e durante os ataques com celulares comuns. Há muitas perguntas. Por exemplo, por que os escritórios da Charlie Hebdo não estavam mais protegidos dadas as duras críticas da revista ao Islã? Como os conhecidos jihadistas conseguiram armas semiautomáticas na França? Apresentaram os assassinos como supervilões para ocultar a própria incompetência dos serviços. A verdade é que os terroristas eram amadores bastante incompetentes que bateram o carro, deixaram suas cédulas de identidade à vista e coordenaram seus movimentos por telefone. Não era preciso uma vigilância massiva da internet para evitar este fato: era necessária uma vigilância específica.


Uma percepção bastante ampla é que você e o Wikileaks se opõem à vigilância eletrônica. Na verdade, você faz uma clara distinção entre vigilância massiva e vigilância com objetivos definidos.

A vigilância massiva é uma ameaça à democracia e à segurança da população, pois outorga um poder excessivo aos serviços secretos. O argumento para defendê-la é que assim se pode encontrar gente que não se conhecia de antemão. O que vemos, no caso de Paris, é que os protagonistas foram identificados. Deveria haver uma investigação profunda de como foram cometidos esses erros, apesar de minha experiência ser que isto não vá acontecer porque estes serviços são corruptos e são assim por serem secretos. A vigilância massiva não é gratuita e, neste sentido, é uma das causas do que aconteceu, porque restaram recursos e pessoal para o que teria de ter sido a vigilância específica contra uma ameaça terrorista.


Uma das reações mais virulentas na imprensa britânica foi a do historiador e jornalista Max Hastings que acusou você e Edward Snowden de responsabilidade nestes fatos. Hastings não está sozinho. Há muitas vozes que pedem que fechem ainda mais o certo sobre o Wikileaks. Percebe que o Wikileaks está ameaçado pela atual situação?

Há um ano que os setores vinculados a este modo de ver as coisas propõem um aumento da vigilância massiva e um corte das liberdades. Estão em retrocesso por todas as denúncias que houve sobre os excessos de espionagem cometidos pelos governos, inclusive com seus próprios aliados. O que estão tentando fazer é aproveitar esta situação para recuperar o território perdido. O Wikileaks publicou as caricaturas da Charlie Hebdo utilizadas como pretexto para o atentado, algo que não fizeram vários jornais como o Guardian ou o Times porque têm muito medo. Mas uma das coisas positivas que surgiram nos últimos dias é a defesa da liberdade de expressão. Digo isto apesar de, na manifestação de domingo, estarem presentes figuras que são os piores inimigos da liberdade de expressão, como Arábia Saudita e Turquia. Mas, por mais que estejam tentando aproveitar a situação, o Wikileaks funciona há bastante tempo e desenvolvemos técnicas para lidar com este tipo de ameaças. Não vão nos intimidar. Esperemos que outras mídias em nível mundial também não se deixem intimidar.

FONTE: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2F-O-servico-secreto-frances-tem-muitas-perguntas-para-responder-%2F6%2F32630