Pensamento em 2026, Lula não tem nada de aprendiz de feiticeiro, e está mais para Santo Antonio

Por Douglas Barreto da Mata

Na última segunda-feira o Presidente Lula esteve na cidade de Campos dos Goytacazes, para inauguração do prédio do campus da UFF local. Vejam bem, a obra é importante, houve um longo tempo de espera, um esforço parlamentar supra partidário para consecução das emendas, enfim, era algo importante.

Mas uma visita presidencial de Lula não é algo comum, mesmo com todo o peso da Educação universitária no governo Lula, ainda mais em Campos dos Goytacazes, reduto ultra conservador, e local onde as hostilidades seriam de se esperar, e isso se comprovou no aparato de segurança bem mais restritivo que os de outrora. O PT local é de uma fraqueza de dar dó, e não motivaria nem a visita de um secretário adjunto federal de uma pasta menor, de baixo orçamento, como direitos humanos ou outra coisa do tipo.

Então, o que trouxe Lula aqui? Olha, muita gente ficou surpresa, ou fingiu estar surpresa, com os salamaleques presidenciais ao Prefeito Wladimir Garotinho, e tentou até dar uma carona ao deputado Caio Vianna, como se fosse o sussurro dele no cangote presidencial que aumentasse as chances de Lula propor o nome do prefeito local para compor a chapa de Paes, na corrida de 2026, ao palácio Guanabara.

Isso é tolice, ou um desrespeito ao Presidente. Um político como Lula, o único brasileiro a se eleger por três mandatos a presidente, rumo a um quarto, não se emprenha pelos ouvidos, pelo menos, não tão rápido. Com todo respeito ao deputado Caio e seus eleitores, Lula já veio com “a missa pronta”. O Presidente sabia que a audiência poderia hostilizar o Prefeito, e reagiu como de costume, chamando os imbecis da militância às falas, assim como sabe da relação de profundo apreço do prefeito com seus pais, apesar dos ruídos. Assim, o gesto do pedido do número do telefone não foi um improviso, é coisa pensada, calculada e combinada com Paes, que sugeriu ao Presidente a tarefa de seduzir Wladimir.

Lula pode até nem fazer um bom governo, na minha opinião, faz um péssimo governo, mas uma coisa que Lula sabe fazer é montar palanque nacional e regionais. Todos os especialistas e pitaqueiros sabem que sem essa “ciência”, nada feito. Ganhar um estado ali, embolar uma disputa acolá, morder um naco de votos do adversário aqui, e assim se monta uma campanha vitoriosa. Ainda mais quando a vitória se decide em pouquíssimos pontos percentuais de diferença.

Lula sabe da dificuldade que Paes pode enfrentar por estar ligado a ele em um estado que faz o Alabama, ou o Mississipi dos EUA parecerem Nova York. Melhor dizendo, o Rio de Janeiro parece muito com a Louisiana, um estado que esconde seu racismo violento, seu conservadorismo bélico sulista na festa do Mardi Gras, em New Orleans. O antídoto de Lula para colocar una estaca no peito do bolsonarismo fluminense? Um vice para Paes do interior, com família tradicional na política, e mais, saído do ninho bolsonarista, mas que se consolidou na política como um homem de diálogo, de centro.

Agora resta saber se não vão fazer uma proposta melhor para Wladimir do outro lado. Uma coisa é certa, imaginar que ele seria vice de Rodrigo Bacelar não é só burrice estratégica, porque os dois disputam a mesma faixa eleitoral, o interior, mas uma loucura, pois Wladimir sabe que caminhar com Rodrigo é abraçar-se com ele no afogamento. O único risco que Lula e Paes correm com Wladimir, e eles sabem disso, daí o cortejo recente tão explícito, é Wladimir resolver testar seu nome para governador.

As pesquisas internas apontam duas coisas: Uma boa base de intenções para lançamento, algo entre 8 e 10%, para quem nunca se manifestou como pretendente, e o recall do nome da família, que ele soube isolar da rejeição ao seu pai, com seu temperamento e modo de agir diferentes. Em resumo, reuniu o bônus e descartou o ônus. Preocupados com isso, é bem possível que o telefonema do Presidente já tenha acontecido.

Dúvida familiar

Ontem me chegou a notícia de que há uma nova divisão dentro da família de Anthony Garotinho, que já possui tantas fissuras cuja mais famosa é do irmão Nelson Nahim. Agora, o problema parece estar localizado mais perto, colocando de um lado o filho Wladimir e, de outro, a filha Clarissa na disputa pela sucessão familiar que um dia virá.

Se fosse para arriscar em quem Garotinho deveria apostar o futuro de seu clã político, em quem o leitor deste blog votaria?

Eu pessoalmente não hesitaria em apontar Clarissa como a mais capaz e preparada para levar o nome Garotinho muito mais longe, desafiando inclusive os limites paroquiais em que tradicionalmente Garotinho vem operando. Não é por nada contra Wladimir, pois nem o conheço e nunca trocamos uma palavra sequer. Mas já estive com Clarissa várias vezes e dela recebi apoio crucial numa hora tenebrosa para os interesses dos docentes da UENF, mesmo eu tendo relembrado a ela as diferenças políticas enormes que mantenho com seus pais.Também notei nos poucos encontros que mantivemos na ALERJ e na UENF que ela tem a velocidade de raciocínio do pai, mas com uma distinta capacidade de ser efetivamente mais simpática até aos adversários. Juntadas estas capacidades, está ai a razão da minha aposta na filha, e não no filho.

Em tempo: considero que qualquer anúncio celebrando o enterro político de Anthony Garotinho é mais do que precoce, e baseado apenas no desejo subliminar de que o maior inimigo simplesmente saia de cena sem lutar. E isto vale para fora, mas também e especialmente para dentro de seu grupo político. Gostem ou não dele, Garotinho ainda estará num lugar de destaque na vida política municipal por muito tempo. E quem não gostar disso que trabalhe mais e resmungue menos.