A visão do “The Guardian” sobre o desmatamento da Amazônia: a Europa deve agir para prevenir o desastre
Precisamos de florestas tropicais para limitar as mudanças climáticas, assim como proteger a biodiversidade, e devemos fazer tudo o que pudermos para apoiar a conservação brasileira.
Uma área desmatada na porção brasileira da bacia Amazônica. Foto: Felipe Werneck/AP.
Se houver um vislumbre de luz em meio à escuridão dos relatórios recentes da Amazônia brasileira, onde o desmatamento está se acelerando junto com as ameaças aos povos indígenas que vivem lá, ele poderia estar no poder crescente da diplomacia climática, combinado com uma maior compreensão do papel crucial desempenhado pelas árvores no sistema climático do nosso planeta. O acordo firmado há um mês entre a UE e o bloco do Mercosul no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai (a Venezuela está suspensa) aumenta a alavancagem européia com seus parceiros comerciais sul-americanos. O prêmio de acesso aos mercados da UE já é creditado por ter convencido o Brasil a não seguir a liderança de Donald Trump, retirando-se do acordo climático de Paris. Agora, a UE deve reforçar seus compromissos ambientais, como exigiu uma carta de 600 cientistas antes do acordo ser firmado.
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não fez segredo de seus planos para promover o desenvolvimento e obteve apoio poderoso dos interesses de agronegócios e mineração do Brasil antes da eleição do ano passado. Ele despreza a conservação e os direitos indígenas, alegando recentemente que seus oponentes estrangeiros querem que as tribos da Amazônia vivam “como homens das cavernas”. Os dados dos satélites mostram que a mensagem está chegando, com as liberações aumentando acentuadamente e este mês definido como o primeiro em cinco anos em que o Brasil perdeu uma área de floresta maior do que a da Grande Londres. A mineração de ouro ilegal também está se espalhando. Na semana passada, um dos líderes do povo Waiãpi, Emyra Waiãpi, foi encontrado esfaqueado até a morte em uma reserva remota no estado do Amapá, depois que homens armados invadiram sua aldeia.
A situação é de importância crítica, e ainda mais preocupante dadas as recentes projeções climáticas. Proteger a maior floresta tropical do mundo, supostamente com 30% de todas as espécies, tem sido justamente um foco importante para as políticas ambientais brasileiras e globais há duas décadas. Mas menos de um ano após a eleição de Bolsonaro, a agência ambiental nacional parece significativamente enfraquecida, com ações de fiscalização no primeiro semestre de 2019 caindo 20% em relação ao mesmo período de 2018. Promotores e ativistas foram intimidados, enquanto a opinião pública está mais engajada noutras partes (por exemplo, nas reformas das pensões).
O argumento de Bolsonaro para o público interno e estrangeiro é o mesmo: a Amazônia brasileira não é da conta de ninguém, mas do Brasil. Com isso em mente, os defensores internacionais da floresta devem agir com cautela. As denúncias das políticas pró-empresariais do novo governo em nome da biodiversidade podem ser contraproducentes. Em vez disso, ambientalistas, incluindo políticos verdes, deveriam trabalhar através de instituições políticas europeias, sabendo que a UE é o segundo maior mercado para as exportações brasileiras. A pressão firme deve ser exercida sob a forma de fortes regulamentações ambientais e uma recusa em comprometer a transparência. A carne de vaca ou soja cultivada em terras ilegalmente desmatadas não deve ser importada para a Europa.
Ao mesmo tempo, as organizações da sociedade civil brasileira precisam de apoio para desafiar e resistir a incursões ilegais e para defender os compromissos existentes em seu país – incluindo o reflorestamento de áreas desmatadas. A educação climática deve ser promovida globalmente, para que as pessoas possam entender melhor o que está acontecendo (o assassinato de um jornalista ligado à exploração de florestas tropicais já é tema de um drama na TV brasileira). As liberações florestais podem produzir ganhos de curto prazo, mas no longo prazo elas só podem trazer desastre. O Brasil está em uma posição forte, na próxima rodada de negociações climáticas da ONU (transferida para o Chile depois que Bolsonaro retirou uma oferta para sediar), para exigir o aumento da ajuda internacional para a vasta região amazônica. Se nós reivindicarmos esta selva tropical como um pulmão verde para o mundo, não podemos esperar que o Brasil a conserve sozinha.
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Este editorial foi publicada originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].