Título de pós-graduação dos EUA: um desejo explícito de quem está no poder, mas rejeita fortalecer a universidade pública

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Eu e o meu diploma de doutorado da Virginia Polytechnic Institute and State University, o qual posso garantir a legitimidade.

Há algo essencialmente esquisito quando autoridades investidas em altas responsabilidades na república são flagradas ostentando títulos acadêmicos que simplesmente não possuem. Ainda que esse não seja um fenômeno exclusivo do Brasil, já que casos de pessoas poderosas pegas com títulos obtidos de forma fraudulenta foram descobertos em anos recentes na Alemanha e na Espanha, o problema aqui parece tomar contas contornos mais graves.

É que depois de se descobrir que o antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não possuía o título de mestre da Yale University que lhe era atribuído e nunca negado, agora se descobriu que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, fez constar em seu currículo um título de doutor pela Harvard University igualmente inexistente.

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Esses dois casos parecem demonstrar uma enorme contradição entre desejos e práticas: é que enquanto se deseja ter um título de uma universidade estadunidense, as ações por aqui vão no sentido de inviabilizar o nosso emergente sistema nacional de pós-graduação, seja negando a importância ou tesourando recursos fundamentais para que nossas universidades funcionem de forma adequada.

Eu que possuo um título de doutor pela Virginia Polytechnic Institute and State University pelo qual efetivamente derramei muito suor, posso compartilhar que as universidades estadunidenses são o que são porque receberam sempre, e continuam recebendo, vultosos investimentos públicos. Essa é a lição que deveria ser aprendida por aqueles que tanto cobiçam títulos de universidades estadunidenses, mas que aqui em terras brasileiras fazem o que podem para inviabilizar as nossas. Será que Freud explica?

The Intercept revela que título de mestre de Ricardo Salles na Universidade de Yale é “fake news”

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Os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) vestidos de índio durante uma visita a um cultivo ilegal de soja em uma terra índigena no Mato Grosso.

Demorou 7 anos mas alguém foi atrás do suposto título de mestre que o ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo de Aquino Salles, teria obtido na prestigiosoa Universidade de Yale. Esse alguém foi o jornalista Leandro Demori do “The Intercept Brasil” que publicou hoje uma matéria demonstrando que se alguém detém um título de mestre em Direito Público concedido pela Universidade de Yale, esta pessoa não é Ricardo Salles; o mesmo que foi condenado por ter sido flagrado cometendo atos de improbidade para beneficiar mineradoras enquanto era o secretário estadual de Meio Ambiente de Saulo.

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Como o próprio Leandro Demori adianta na matéria, Ricardo Salles não é o único ministro do governo Bolsonaro a ser pego com, digamos, “embelezamentos” no seu currículo acadêmico. Caso pior ainda é o da ministra Damares Alves que dizia ser mestre em Educação e em Direito Constitucional e Direito da Família para depois se descobrir que ela sequer possui um diploma de graduação.

Aliás, o governo Bolsonaro nem pioneiro no abrigo a personalidades que foram pegos com problemas na suas titulações. Em 2013, a ministra da Educação da Alemanha, Annete Schavan, teve que renunciar ao cargo porque ficou comprovado que ela havia plagiado outros documentos acadêmicos na confecção de sua tese de doutorado na Universidade de Dusseldorf.  Já em 2018, a vez de renunciar por irregularidades cometidas durante a obtenção de seu título de mestre foi a ministra da Saúde da Espanha, Carmen Montón  que também foi acusada de possível plágio em trabalho final na Universidade Rei Juan Carlos de Madri.

A diferença entre os casos aludidos acima é que depois de serem flagradas em situação embaraçosa, as ministras da Alemanha e da Espanha saírem rapidamente de seus cargos. Enquanto isso, aqui no Brasil sob o governo Bolsonaro, a ministra Damares Alves desconversou ao dizer que sua titulação era de natureza religiosa, e Ricardo Salles está até agora brincando de estátua para não ter que responder aos questionamentos sobre seu, agora sabemos todos, inexistente título de mestre pela Universidade de Yale.

O interessante é que eu conheço bem o campus da Universidade de Yale, onde frequentei um colóquio semanal que debatia assuntos ligados aos estudos agrários.  E tendo frequentado aquele ambiente austero que é frequentado pela elite estadunidense, realmente não consigo imaginar Ricardo Salles gastando sola de sapato pelas ruas de New Haven. Mas mesmo assim, e independente dos casos fora do Brasil, não deixa de beirar o vexame termos ministros, no caso um estratégico como o do Meio Ambiente, cujos acadêmicos não resistem a uma simples verificação. 

E, mais, o caso de Ricardo Salles deveria servir de alerta para a mídia corporativa checar melhor a capacitação acadêmica de seus colaboradores.  Mas pelo jeito não há muito interesse nisso, desde que o colaborador escreva aquilo que o proprietário do veículo deseja ver escrito. Essa é a mais trágica verdade.

Finalmente, quem desejar ler o artigo de Leandro Demori na íntegra, basta clicar [Aqui!]