Calote do agronegócio e grandes empresas com União penaliza servidores públicos e toda a sociedade

sijaFoto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As mil maiores dívidas empresariais ativas com a União somam R$ 754,7 bilhões, valor suficiente para pagar 14 meses de auxílio emergencial. O montante é similar ao que o governo Bolsonaro alega ter “economizado” com a “reforma da previdência” aprovada pelo Congresso em 2019, que coloca em risco a aposentadoria de milhões de trabalhadores e pode inviabilizar até a existência de uma previdência pública.

E essa dívida é quase seis vezes superior ao que o governo federal pretende “economizar” – R$ 130 bilhões – ao proibir reajustes dos salários dos servidores públicos, medida aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente, apesar do seu caráter flagrantemente inconstitucional.

Quem trouxe esses números da dívida ativa foi o portal Brasil de Fato, em reportagem que mostra também o domínio do agronegócio e da mineração na lista dos dez maiores devedores. A mineradora Vale, com R$ 39,8 bilhões em dívidas, só fica atrás da Petrobras, cujo débito com a União alcança R$ 40,5 bilhões.

Responsável pelo desastre de Mariana, em novembro de 2015, no qual morreram 19 pessoas, a Samarco figura em 10º lugar na lista, devendo R$ 5,37 bilhões.

Agronegócio

O grupo Parmalat, pertencente à francesa Lactalis desde 2011, tem duas empresas entre as dez maiores devedoras: a Carital Brasil Ltda, em terceiro, com dívidas acumuladas de R$ 29 bilhões, e a PPL Participações Ltda, em sexto, que deve R$ 8,8 bilhões aos cofres públicos.

O Brasil de Fato mostrou ainda que outras três empresas do conglomerado estão entre as mil maiores dívidas: a Zirconia Participações Ltda (34ª), que deve R$ 2,6 bilhões; a Padma Indústria de Alimentos S/A (154ª), com débito de R$ 932 milhões; e a Isii Empreendimentos e Participações Ltda (173ª), que tem R$ 852 milhões em dívidas. Ao todo, o grupo soma R$ 42,3 bilhões de passivo com a União.

Na oitava posição entre as maiores devedoras está a Duagro SA Administração e Participações, com dívida de R$ 7,6 bilhões. A empresa pertence à Indústria JB Duarte S.A., que também é devedora de tributos e mantém uma dívida de R$ 288 milhões com a União, o que a coloca na posição de 706ª maior devedora do país.

Violência no campo e devastação ambiental

Como se fosse pouco o prejuízo econômico destes setores, o Brasil ainda sofre com a violência no campo, o trabalho escravo contemporâneo e a devastação ambiental de todos os seus grandes biomas, especialmente a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Pantanal.

São atores que fazem parte das cadeias econômicas do agronegócio e da mineração, que muitas vezes convergem e atuam juntas na exploração dos mesmos territórios, os responsáveis diretos por dezenas de assassinatos – que acontecem a cada ano – de ativistas, líderes sindicais, ambientalistas, camponeses e outras referências de populações exploradas no campo.

Apenas em 2019 foram 32 assassinatos desse tipo, aponta o relatório “Conflitos no campo”, material produzido anualmente, desde 1985, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em junho, reportagem da Folha de São Paulo, com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que o desmatamento na Amazônia completa 13 meses seguidos de crescimento, um fenômeno que, além dos danos socioambientais gravíssimos, pode causar muitos prejuízos ao Brasil no seu comércio exterior.

Apesar de tudo isso, nenhuma medida que reforce a cobrança dos devedores ou que imponha uma taxação maior do “andar de cima” da sociedade consegue avançar no Congresso e muito menos no governo. A conta sempre pesa sobre trabalhadores e trabalhadoras.

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Este texto foi inicialmente publicado no site da Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário nos Estados (Fenajud) [Aqui!].

As desigualdades persistentes

DESIGUALDADESTudo indica que estamos observando os efeitos de uma proteção desigual duradoura, disposta no tempo, continuada e capaz de marcar drasticamente a história social dos corpos de negros e pobres

Os primeiros dados sobre os impactos da desigualdade social e racial na pandemia vieram do exterior. O Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA divulgou, em abril de 2020, que 33% das pessoas hospitalizadas com COVID-19 eram afro-americanos, enquanto apenas 13% da população dos EUA o são[i]. Na França, nos meses de auge da epidemia, as mortes de imigrantes se elevaram numa proporção duas vezes maior do que a dos não-imigrantes em comparação com os mesmos meses do ano anterior[ii]. Negros e minorias étnicas, na Inglaterra, perfizeram, segundo relatório do mês de maio de 2020, um número de mortes hospitalares per capita quase três vezes maior que o da maioria branca[iii].

No Brasil, os dados sobre a cor dos atingidos pelo COVID custaram a ser registrados. A Coalizão Negra por Direitos, associações científicas e defensorias públicas insistiram, junto ao Estado, para que tais registros fossem feitos. No mês de junho, os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde passaram a divulgar dados sobre a cor de mortos e doentes com COVID-19 como já o faziam algumas unidades da federação. As hipóteses começaram a se confirmar. Em meados de junho, o IBGE anunciou que a taxa de letalidade se mostrava maior entre os negros atingidos por covid-19 do que entre os brancos; que desigualdades de renda e cor fazem com que pessoas negras e grupos de baixa renda sejam atingidos pela epidemia em percentuais maiores do que sua participação no conjunto da população[iv].

Entre os fatores de risco, assinalam-se as condições de moradia densas e insalubres, localizadas em áreas com má qualidade do ar, com baixo acesso a serviços de saúde adequados e desprovidas de saneamento básico; a menor possibilidade de autoproteção pelo isolamento, a dificuldade de acesso ao auxílio emergencial e a testes. Some-se a isto o peso da subnotificação dos casos e da própria informação sobre cor e renda, assim como a ação do racismo estrutural que faz com pessoas negras sejam estigmatizadas ao usar máscaras[v]. Por este conjunto de fatores, os grupos atingidos mais que proporcionalmente pelo vírus são ditos mais vulneráveis ao dano epidêmico. No entanto, sob a designação de vulnerável há que se reconhecer realidades múltiplas que mereceriam ser melhor discutidas. Tentaremos a seguir fazer deste termo um exame mais detalhado.

Enquanto a noção de risco designa a probabilidade de ocorrência de um dano, a noção de vulnerabilidade designa a suscetibilidade de certos grupos serem afetados por esse dano, considerando-se um conjunto de condições intercorrentes – faixa etária, cor, gênero, nível de renda etc.[vi] A caracterização de um grupo como vulnerável decorre do cruzamento dos dados sobre a distribuição social do dano com as ditas condições intercorrentes, fazendo com que se possa perceber a existência de grupos afetados mais que proporcionalmente, ou seja, em proporção maior do que o de sua participação no conjunto da população.

O Estado, em sua configuração corrente de máquina pública, costuma se interessar por identificar, medir e localizar os sujeitos ditos “vulneráveis”. É o caso dos mapeamentos de certas situações sociais configuradas em um ponto do tempo – pessoas abaixo da linha de pobreza e número de crianças em situação de rua, por exemplo. Em geral, trata-se de pesquisas que estimam o estoque de indivíduos em situação de carência. As autoridades, quando dispostas a adotar políticas sociais destinadas a estes grupos, se propõem a suprir tais carências, provendo um suplemento daquilo que faltaria para levar o “vulnerável” a uma condição tida por aceitável de existência. É como se a condição de vulnerabilidade fosse circunstancial, pois ao se produzir o retrato de uma situação, deixa-se de atentar para os processos de vulnerabilização que lançam estes grupos na condição de vulnerabilidade. Consegue-se assim apenas minorar certas situações de precariedade, sem que as estruturas que as produzem sejam tocadas. É sabido, porém, que a situação de vulnerabilidade decorre de mecanismos que retiram – ou deixam de fornecer – as condições que permitiriam a certos grupos se defenderem apropriadamente dos riscos. Exemplo disto é o veto do atual governo brasileiro ao artigo da Lei 14.021/20 (DOU, 8/7/2020) sobre medidas de proteção e prevenção de contágio por covid-19 nos territórios indígenas que obrigava o governo a fornecer acesso a água potável, materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e cestas básicas para as aldeias. Levando-se em consideração mecanismos deste tipo, consegue-se apontar para o que é devido aos sujeitos como um direito e para o conjunto de decisões políticas de natureza distributiva que se fazem necessárias[vii].

A suscetibilidade a ser atingido por danos de ordem ambiental, por exemplo, tais como inundações, escorregamentos, vendavais ou rompimento de barragens, tem a ver com a posição relativa dos grupos sociais no espaço, a saber, com a localização preponderante da moradia dos grupos vulnerabilizados em terrenos precarizados, desvalorizados e situados nas proximidades de fontes de risco. Os que vivem em tais situações o fazem, por certo, porque não lhes foram destinados ou lhes foram retirados os meios que lhes permitiriam habitar localidades afastadas de fontes de risco, dotadas de infraestrutura e de serviços de saúde. Ao se identificar os processos de vulnerabilização, se poderia explicitar, por certo, os mecanismos que geram as condições de vulnerabilidade. Assim fazendo, seria possível vislumbrar, por via de políticas públicas, a interrupção da ação destes mecanismos, evitando que grupos mais despossuídos sejam lançados na condição de vulnerabilidade. Tais riscos poderiam ser enfrentados por políticas habitacionais, urbanísticas, ambientais, sanitárias e de renda que combatessem a segregação socioespacial e permitissem a todos manter uma distância protetora com relação às fontes de risco. Seria assim evitada a criação de situações ditas de desigualdade ambiental, maciçamente constatável em nosso país – situações em que há proximidade ou co-localização de fontes de risco e espaços de moradia de população negra e de menor renda. No caso da presente pandemia, por exemplo, a moradia em áreas precarizadas e a falta de acesso de tais grupos aos serviços de saúde contrasta radicalmente com a mobilidade das famílias de alta renda que puderam se utilizar de UTIs aéreas para se afastar de locais com rede hospitalar insuficiente em direção a São Paulo e Brasília para obter tratamento adequado[viii].

Há processos de vulnerabilização, por sua vez, que, por sua longa duração, lançam as pessoas em situações socioespaciais de existência que terminam por inscrever a vulnerabilidade em seus próprios corpos. No caso da presente pandemia, além da vulnerabilidade decorrente da condição socioespacial de vida dos grupos expostos de forma mais que proporcional à ação do vírus, há indícios de que a própria imunidade destes grupos estaria se mostrando minorada. Eles estariam não só mais expostos ao risco de contágio, como mais suscetíveis de serem contaminados de forma mais grave e letal. No caso de agravos de ordem viral como o da presente pandemia, as trajetórias duradouras de vida em espaços sem saneamento, atendimento de saúde, moradia segura etc. teriam tornado os corpos da população negra e de baixa renda mais suscetíveis à contaminação e à letalidade.

Não importa, portanto, apenas o instante em que alguém se encontra em situação de vulnerabilidade. A variável tempo pesa. E ela conta não só por haver um processo de vulnerabilização, como também pela duração da posição dos sujeitos em situações de precariedade e, consequentemente, do stress que tendem a sofrer em suas capacidades de defesa, inclusive, como parece indicar o caso presente, imunitárias. Pesquisadores do campo da genômica social e da psiconeuroimunologia têm trabalhado sobre o modo como o stress social, o racismo, discriminações e condições precárias de vida podem levar pessoas ao estado de crescente risco de doenças. [ix].

Se assim for, a maior suscetibilidade da população negra à pandemia estaria projetando no tempo aquilo que já se verificara empiricamente no âmbito espacial. Até aqui, havia-se comprovado o papel da variável “proximidade” entre os sujeitos tornados vulneráveis e as fontes de risco. Estes sujeitos tendem, de fato, a se mover num circuito espacial de precariedade – terrenos contaminados, proximidades de um oleoduto, linha de transmissão ou valão. Robert Bullard, um dos pioneiros dos estudos sobre as desigualdades ambientais, lembra-nos que a ausência de garantia dos direitos leva a um impacto cumulativo de carências e co-morbidades sobre a população negra e de baixa renda[x]. Mas no caso da presente pandemia, parece valer, em acréscimo, o peso do tempo, ou seja, da duração da experiência em uma condição social de vulnerabilidade como fator de stress das capacidades imunitárias frente aos agravos de ordem sanitária. Tudo indica que estamos observando os efeitos de uma proteção desigual duradoura, disposta no tempo, continuada e capaz de marcar drasticamente a história social dos corpos de negros e pobres. A segregação socioespacial que afeta esses grupos resulta, portanto, também em tempo de vida social que lhes é subtraído.

*Henri Acselrad é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR-UFRJ).

Notas

[i] “CDC Data Finds African Americans — 13% Of U.S. Population — Account For 33% of COVID-19 Hospitalizations”, Allison Aubrey e Joe Neel, 8/4/2020, https://laist.com/2020/04/08/cdc-african-americans-covid-19-hospital-data.php

[ii] “Covid: une hausse des décès deux fois plus forte chez les personnes nées à l’étranger”, Héléna Berkaoui, 7/7/2020, https://www.mediapart.fr/journal/france/070720/covid-une-hausse-des-deces-deux-fois-plus-forte-chez-les-personnes-nees-l-etranger?onglet=full

[iii] Lucinda Platt e Ross Warwic, Are some ethnic groups more vulnerable to COVID-19 than others?, The Institute for Fiscal Studies, Nuffield Foundation Londres, May 2020. https://www.ifs.org.uk/inequality/wp-content/uploads/2020/04/Are-some-ethnic-groups-more-vulnerable-to-COVID-19-than-others-IFS-Briefing-Note.pdf, acesso em 27/7/2020.

[iv] A Pnad Covid-19 do IBGE mostrou que os brasileiros mais afetados pela doença são os pretos, pardos, pobres e sem estudo. Entre os 4,2 milhões de brasileiros que apresentaram sintomas da doença em maio de 2020, 70% deles eram de cor preta ou parda, enquanto esses grupos representam 54,8 % da população. https://covid19.ibge.gov.br/pnad-covid/  Em julho de 2020, o demógrafo Eustáquio Diniz estimou que os indígenas tinham 98% mais chance de vir a óbito do que as pessoas da cor branca, enquanto as pessoas pardas, 72% de maior chance e as negras, 46%. “Diário da Covid-19: cem dias de dor e sofrimento por trás dos números”, https://projetocolabora.com.br/ods3/cem-dias-de-dor-e-sofrimento-por-tras-dos-numeros/. Estimativas semelhantes foram publicadas na revista Lancet: “Ethnic and regional variations in hospital mortality from COVID-19 in Brazil: a cross-sectional observational study” (Baqui P., Bica I., Marra V., Ercole A, van der Schaar M.) Lancet Glob Health. 2020; (publicado online em 2 de julho de 2020) https://doi.org/10.1016/S2214-109X(20)30285-0

[v] “Homens negros relatam casos de racismo ao utilizar máscaras na rua”, Fabiana Batista,  https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/05/08/homens-negros-relatam-casos-de-racismo-por-utilizar-mascaras-na-rua.htm, acesso em 27/07/2020 

[vi] Ayres, J.R.C.M. et al. Aids, vulnerabilidade e prevenção. Rio de Janeiro, ABIA/IMS-UERJ, II Seminário Saúde Reprodutiva em Tempos de Aids,1997.

[vii] A vulnerabilidade é uma dinâmica social e não uma condição passiva ou inevitável aguardando um impacto. As pessoas mais vulneráveis são aquelas cujas capacidades e liberdades de ação são limitadas ou suprimidas por múltiplos formas: os cronicamente desempregados, os desfavorecidos e os excluídos das decisões ou benefícios em razão de preconceitos de classe, raça, gênero ou religião. cf. Kenneth Hewitt, Preventable disasters: Addressing social vulnerability, institutional risk, and civil ethics, Geographische Rundschau International Edition Vol. 3, No. 1/2007, p. 49.

[viii] “Com estado em colapso, milionários de MT com covid-19 recorrem a jatinhos para buscar tratamento em SP”, Vinicius Lemos, BBC News Brasil, São Paulo, in https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/07/17; “Com rede privada sem vagas em Belém e Manaus, mais ricos fogem de UTI aérea”, Aiuri Rebello, UOL, São Paulo, 06/05/2020, https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/06/coronavirus-rede-privada-sem-vaga-manaus-belem-mais-ricos-fuga-uti-aerea-sp.htm

[ix] April Thames, “The Chronic Stress of Being Black in the U.S. Makes People More Vulnerable to COVID-19 and Other Diseases”, The Conversation, 9/6/2020.

[x]  “The ´Father of Environmental Justice` on Why He Isn’t Surprised by COVID-19 Health Disparities, an interview with Robert Bullard”, Texas Montlhy.174/2020, https://www.texasmonthly.com/news/father-environmental-justice-coronavirus/ 

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Este texto foi inicialmente publicado pelo blog “A Terra é redonda” [Aqui!].

Donald Trump, o presidente da desordem

Com a retirada das tropas federais, a demonstração de força do presidente dos EUA na tentativa de conter os protestos em Portland chegou ao fim. E são semelhantes a uma admissão de fraqueza

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Editorial do jornal Le Monde

A temporada de campanha está madura para queixas. Às vésperas das eleições de meio de mandato dos EUA em novembro de 2018, Donald Trump já considerava imperativo mobilizar mais de 5.000 soldados na fronteira com o México. Os Estados Unidos, ele garantiu, estavam sob a ameaça de ”  caravanas” de migrantes. O tom alarmista adotado pelo presidente não impediu a derrota do campo republicano na Câmara dos Deputados, e Donald Trump não havia mais mencionado esse perigo apresentado como iminente.

Dois anos depois, o presidente tentou usar a agitação que acompanha os protestos contra a violência policial em Portland, Oregon, para mostrar mais uma vez uma postura marcial. Sob a autoridade de seu Ministro da Justiça e do Secretário de Segurança Interna, um posto criado após os ataques de 11 de setembro, as forças federais foram despachadas oficialmente para proteger prédios federais.

O resultado foi espetacular. Em vez de restaurar a calma, essas forças de segurança, pouco experientes nas técnicas de manutenção da ordem, despertaram paixões. A tal ponto que sua retirada agora parece ser um gesto essencial de apaziguamento.

Após a morte em Minneapolis (Minnesota), George Floyd, um afro-americano sufocado pelo joelho de um policial branco, saques e vandalismo que acompanharam marchas pacíficas levaram Donald Trump a aparecer em 1º de  junho como o “presidente da lei e da ordem”, adotando o slogan de Richard Nixon, que o levara à Casa Branca em 1968, após os distúrbios causados ​​pelo assassinato de Martin Luther King.

Tentativa de desvio

O Presidente dos Estados Unidos, no entanto, imediatamente alimentou perguntas sobre sua sinceridade ao evacuar, manu militari, os manifestantes não-violentos que se reuniram perto da Casa Branca para posar, uma Bíblia na mão, em frente a uma igreja que sofreu pequenos danos na noite anterior.

A implantação de Portland também apareceu como uma tentativa de desvio bastante grosseira do principal assunto de preocupação para seus concidadãos: a epidemia de Covid-19, que continua a causar estragos nos Estados Unidos, com mais de 150.000 mortes. A equipe de campanha do presidente cessante também multiplicou anúncios políticos que provocam ansiedade, retratando os Estados Unidos no caos que certamente se materializará se o oponente democrata do presidente, ex-vice-presidente Joe Biden , venceu a eleição de novembro.

Essas operações de comunicação não deram em nada. Pesquisas convergentes indicam que, apesar das mensagens promissoras, em maiúsculas, “LEI E ORDEM”, multiplicadas na conta presidencial do Twitter, Joe Biden é considerado por uma clara maioria dos entrevistados como o candidato mais capaz de garantir a segurança dos americanos.

Sem dúvida, as exortações de Donald Trump tornam possível manter mobilizada uma base eleitoral determinada a apoiá-lo, quaisquer que sejam os resultados de uma primavera e depois de um verão de crises, saúde, economia e sociedade, que no momento é muito longe de estar a seu favor. Finalmente, essas demonstrações de força são semelhantes a uma admissão de fraqueza diante de uma situação que é difícil de controlar. Ao aparecer como presidente da bagunça, Donald Trump se aproxima das eleições de 3 de novembro na defensiva.

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Este editorial foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

 

Comitê de Ética da Unicamp suspende pesquisa que seria usada por lobby Pró-Paraquate

Unicamp suspende pesquisa que poderia liberar agrotóxico letal

Unicamp suspende pesquisa que poderia liberar agrotóxico letal

Após denúncia da Repórter Brasil e Agência Pública, Comitê de Ética da universidade suspendeu pesquisa financiada por produtores de soja que visava reverter a proibição do paraquate

Por Ana Aranha – Repórter Brasil/Agência Pública 

Após revelações em matéria da Repórter Brasil e da Agência Pública, o comitê de Ética da Unicamp suspendeu pesquisa conduzida em laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas que estava sendo usada para liberar o uso de agrotóxico letal. A reportagem denunciou que, antes mesmo de ser concluída, a pesquisa era peça central do lobby para reverter a proibição do paraquate, classificado como “extremamente tóxico” e um dos agrotóxicos mais usados no Brasil. O produto está com data marcada para ser banido em setembro deste ano, segundo decisão tomada pela Anvisa em 2017 com base em evidências de que ele pode gerar mutações genéticas e a doença de Parkinson nos trabalhadores rurais. 

A poucos meses da proibição, porém, o lobby pressionava a Anvisa pela reversão do veto usando como argumento um controverso estudo financiado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) – que representa o setor que mais usa o paraquate. A pesquisa determinaria se o produto pode ser encontrado na urina dos trabalhadores que o aplicam dentro de tratores de cabine fechada no Mato Grosso. Entre as muitas falhas apontadas na metodologia, ela não incluiu outras pessoas que também são expostas ao produto, como os trabalhadores que fazem o transporte e o tratamento dos grãos, as comunidades do entorno e os trabalhadores de fazendas onde não há tratores com cabine fechada.

Revelando seu entusiasmo pela segurança do uso do agrotóxico, as declarações dadas pelo médico e professor aposentado da Unicamp Ângelo Trapé para a reportagem geraram questionamentos entre pesquisadores da instituição. “O contato do trabalhador que faz a pulverização é nulo. É tudo mecanizado, trator fechado, vedado”, afirmou Trapé, que questionou a proibição do produto antes mesmo de concluir a sua pesquisa.

Dois dias após a publicação da reportagem, o departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, onde Trapé foi professor, publicou uma nota de repúdio afirmando que já foi “bem estabelecida a associação do agrotóxico com diversas doenças relacionadas ao trabalho como fibrose pulmonar, insuficiência renal, Doença de Parkinson e danos genéticos”. A nota manifesta ainda “indignação” pelo uso da pesquisa para reverter a proibição do paraquate e afirma que a citação de Trapé como professor aposentado da universidade caracteriza “abuso do uso de imagem da Unicamp, em busca de algum grau de legitimidade para estudos que claramente colidem com os interesses da saúde coletiva”.

A nota foi posteriormente endossada pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas, onde fica o laboratório em que a pesquisa estava sendo conduzida. O texto reforça a preocupação da instituição com o fato de que o “paraquate, comprovadamente, causa graves intoxicações ocupacionais e acidentais aos trabalhadores rurais”.

Por fim, o Comitê de Ética da universidade colocou o assunto em pauta e decidiu, nesta quarta dia 29, pela “suspensão da autorização da pesquisa em questão “por haver indícios de omissão de informações por parte dos envolvidos”. O órgão não detalhou quais são essas informações (leia nota completa).  

De acordo com resolução da Anvisa, publicada em 2017, o paraquate será banido em setembro deste ano no Brasil (Foto: Alam Ramírez Zelaya)

A reportagem apurou que uma pesquisa parecida com a de Trapé fora reprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa  (Conep) no fim de 2019, meses antes da submissão da pesquisa à Unicamp. A versão rejeitada pela Conep continha informações que foram cortadas da versão apresentada à universidade paulista.

A rejeição da pesquisa pela Conep foi pauta de reunião que ocorreu na Anvisa em 23 de outubro, quando o coordenador geral da comissão Jorge Venâncio foi chamado pelo diretor Renato Porto para esclarecer o motivo da reprovação. A intenção do encontro era entender quais as falhas da pesquisa para que um outro projeto pudesse ser apresentado.

No dia 5 de novembro, o mesmo diretor da agência reguladora recebeu outro membro do Conep para discutir a pesquisa. Desta vez, também participaram do encontro representantes da Frente Parlamentar Agropecuária, a bancada ruralista.

Pouco mais de um mês depois, em 11 de dezembro, a pesquisa de Angelo Trapé era aprovada pelo Comitê de Ética da Unicamp. “Imagino que eles não conseguiram resolver os problemas apontados,  então fizeram um projeto mais simples da mesma pesquisa para passar na Unicamp”, afirma uma fonte que teve acesso às informações sobre todo o processo de reprovação na Conep.

Trapé confirmou que sua pesquisa é uma versão de um projeto anteriormente rejeitado pela Conep. Ainda durante a apuração da matéria sobre o lobby, ele explicou à reportagem que a Aprosoja lhe procurou no fim do ano passado, depois que a pesquisa fora rejeitada pela Conep. A intenção era de que ele tentasse aprovar o projeto pela Unicamp, o que de fato ele conseguiu.

Após a publicação da matéria, o Comitê de Ética da Unicamp entrou em contato com a Conep e obteve os motivos pelos quais a pesquisa fora reprovada. Essas informações não foram reveladas nem pela Conep ou pela Unicamp. Pesquisadores que tiveram acesso à pesquisa e que não podem se identificar afirmam que são muitas as falhas, elas vão desde a metodologia até os procedimentos de segurança com as amostras colhidas.

Procurados pela reportagem, Ângelo Trapé não respondeu ao novo contato. A Aprosoja manteve a mesma posição manifestada anteriormente e afirmou que não vai se pronunciar sobre a suspensão da pesquisa que financiou.

Anvisa segue tentando votar o adiamento da proibição

As reuniões na Anvisa para tratar sobre a pesquisa são um breve episódio de uma longa sequência de encontros promovidos pelo lobby pró paraquate desde que sua proibição foi publicada. Desde 2017, foram mais de vinte reuniões na agência reguladora com as maiores multinacionais do setor, como a Syngenta, e representantes dos maiores exportadores do Brasil, como a Aprosoja. A agenda foi compilada pela Repórter Brasil e Agência Pública.

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Veja a íntegra do levantamento sobre a agenda da Anvisa.

Um dos períodos de maior intensidade nas reuniões foi justamente durante os meses em que a pesquisa foi submetida e reprovada pelo Conep. Foram seis reuniões na agenda oficial dos diretores da agência com o tema do paraquate em outubro e novembro de 2019.

Os encontros sobre o produto voltaram a acontecer neste ano, com a Syngenta e a bancada ruralista em fevereiro e março. Em 31 de março, uma possível revisão do prazo de proibição devido à pesquisa entrou oficialmente na pauta da agência, soando o alerta do Ministério Público Federal.

O procurador federal Marco Antônio Delfino de Almeida, que atua no Mato Grosso do Sul, teve acesso às informações preliminares sobre a pesquisa e conseguiu uma liminar na justiça proibindo a Anvisa de fazer mudanças na data de proibição antes que os resultados da pesquisa fossem entregues.

Mas a Anvisa continua recorrendo da decisão e conseguiu, no dia 17 de julho, derrubar a liminar do MPF. Ou seja, a agência reguladora disputa na justiça o direito de adiar a proibição do paraquate mesmo antes que novas conclusões sejam apresentadas.

Além da pesquisa de Angelo Trapé, o lobby financia outro estudo sobre o Paraquate na Inglaterra. As produtoras de agrotóxicos se juntaram no que chamam oficialmente de Força-Tarefa Paraquate, grupo que reúne 12 fabricantes do produto. A Força-Tarefa financia pesquisa que vai testar a capacidade do produto provocar mutação nos genes de ratos. O estudo está sendo conduzido em um laboratório privado inglês, o Covance Laboratory.

Assim como a pesquisa de Trapé, os resultados só devem ficar prontos depois de setembro, data da proibição no Brasil. O atraso é o argumento central do lobby para adiar a proibição e a Anvisa está, atualmente, desimpedida pela justiça de tomar essa decisão.

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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Governo Bolsonaro faz a festa dos fabricantes de venenos agrícolas, mostra publicação chinesa

agrotoxicos lucrosGoverno Bolsonaro está “passando a boiada” e fazendo a festa das grandes fabricantes de venenos agrícolas

O site especializado “AgroPages“, editado na China, publicou ontem informações sobre o momento altamente lucrativo por que passam os fabricantes de agroquímicos (um eufemismo usado para não explicitar a presença de venenos agrícolas na agricultura das Revolução Verde) no Brasil.  Segundo informou a publicação chinesa,  a venda de agroquímicos (agrotóxicos, quer dizer)  no Brasil resultou em uma receita de US$ 13,7 bilhões em 2019, o que foi 5,8% superior ao ano de 2018, representando um recorde no setor.

Por outro lado, a Agropages notou que o mercado de agrotóxicos do Brasil é altamente concentrado. Em função disso, a receita total das dez principais empresas líderes (incluindo multinacionais) atingiu US$ 11,392 bilhões, representando 83,2% de todas as vendas do mercado brasileiro de agrotóxicos em 2019.  

De acordo com uma pesquisa realizada pela AgroPages, as 10 principais empresas agroquímicas locais geraram US $ 1,069 bilhão em vendas em 2019, representando 7,8% de todo o mercado. A Nortox, a única empresa local a aparecer na lista geral do ranking (que inclui multinacionais), ficou em primeiro lugar na lista das 10 principais empresas agroquímicas brasileiras. A receita da Nortox aumentou 18%, para US $ 342 milhões em 2019. O crescimento foi impulsionado pelo lançamento pela Nortox de seu fungicida Mancozeb, além de outros seis lançamentos de pesticidas em 2019.

A aceleração do registro e liberação comercial de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro foi apontado como positiva para o setor,  já que segundo a “Agropages” isto incentiva as empresas locais a registrar e lançar mais produtos. Isso explica, por exemplo, porque as vendas da Nortox S/A tiveram um aumento expressivo nos dois últimos anos. A Agropages informa ainda que outras duas empresas que registraram crescimento de dois dígitos são a ALTA e a CropChem LTDA (a figura abaixo mostra o ranking das 10 maiores fabricantes de agrotóxicos no Brasil em 2019).

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No caso da CropChem, isto ocorreu após a empresa obter 19 registros em três anos, o mesmo tendo acontecido com a   Ourofino Agrociência que associou o crescimento dos lucros  da empresa à aprovação de novos agrotóxicos após a colheita de 2018/2019 e começaram a gerar receita no ano passado.

Algo que está mais evidente no relatório anual da Agropages sobre o mercado de agrotóxicos na América Latina [Aqui!] é que muitas dessas empresas que hoje concentram as vendas em nosso continente nada de têm de local, sendo braços de grandes fabricantes mundiais de agrotóxicos ou ainda que sejam “locais” têm parte do seu controlado por corporações multinacionais. A publicação chega a classificar este tipo de empresa como sendo “campeões ocultos”, citando o caso de corporações japonesas como a Sumitomo, a Nippon Nohyaku e a Mitsui (que detém parte do capital da Ourofino Agrociência, 3a. maior vendedora de venenos agrícolas no Brasil em 2019).

Mas nem tudo é alegria para os fabricantes de agrotóxicos. É que em uma postagem de hoje surge a informação de que a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), informo que as importações brasileiras de agrotóxicos totalizaram 270.101 toneladas no primeiro semestre de 2020,  representando uma queda de 6,3% em volume em comparação com os primeiros seis meses do ano passado.  O Brasil teria comprado 130.558 toneladas de ingredientes ativos, queda de 7% e 139.542 toneladas de produtos formulados, queda de 5,6%, entre janeiro e junho de 2020.  Mesmo, considerados os valores envolvidos, o Brasil comprou US$ 2,118 bilhões no primeiro semestre de 2020, um aumento de 2,1% sobre US$ 2,075 bilhões no mesmo período de 2019. Os ingredientes ativos somaram US$ 735,264 milhões, uma queda de 4%, enquanto formulados os produtos cresceram 5,6% no valor de US $ 1.383 milhões em compras brasileiras do exterior. 

Todas essas informações apontam para a crescente dependência da agricultura de exportação do uso de venenos agrícolas, muito deles proibidos em outras partes do mundo, e com preços cada vez mais altos. Essa situação coloca em xeque o discurso da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) no sentido de que a enxurrada de aprovação de novos agrotóxicos visa eliminar produtos altamente tóxicos e ultrapassados e diminuir o custo financeiro arcado pelos agricultores brasileiros. 

A única coisa que parece estar ocorrendo mesmo é o aumento do lucro fabuloso das fabricantes de veneno. Simples assim!

Estudo aponta que grandes propriedades apresentam maiores áreas de déficit ambiental em municípios da Mata Atlântica

Gestores de 117 municípios podem utilizar dados para a tomada de decisão quanto ao uso e conservação do bioma

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Mata Atlântica. Ao fundo, cidade do Rio de Janeiro. Foto: Dmitry V. Petrenko/ Shutterstock.com

A Fundação SOS Mata Atlântica e o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) lançam o sumário executivo “Resumo Fundiário, Uso do Solo e de Remanescentes Florestais de 117 Municípios da Mata Atlântica“, como parte de um relatório mais abrangente que reúne uma série de estudos sobre conservação, uso e ocupação do solo no bioma. O objetivo da iniciativa é oferecer conhecimento sobre a situação atual dos municípios para auxiliar gestores públicos na tomada de decisão de políticas públicas ambientais. Além de estatísticas, o relatório traz mapas de todos os municípios analisados. A apresentação do relatório aconteceu durante webinar nesta quinta (30), às 15h.  

Acesse o sumário executivo

Para solicitar o relatório completo entre em contato com info@sosma.org.br

Segundo o estudo, nos municípios analisados, as grandes propriedades – que correspondem a 3% do total, apresentam as maiores áreas de déficit de Área de Preservação Permanente (APP), com 46,6%, e de Reserva Legal, com 69,6%. Enquanto o ativo de vegetação natural em pequenas e médias soma 55,6%. Ao relacionar por tamanho das propriedades rurais (pequenas, médias e grandes), as grandes propriedades representam 48%, totalizando 5.659.506 hectares da área. Além disso, foi possível identificar uma predominância de vegetação natural nos municípios, com 6.326.971 de hectares, ou 37.7% do total, seguido da classe de agricultura com 5.167.435 de hectares, ou 30.8% do total.

“A Mata Atlântica foi o bioma mais impactado pelas anistias do novo Código Florestal, com um uma redução de 27%, uma área maior que a do estado do Sergipe. A falta de planejamento territorial contribui para uma gestão ineficiente dos recursos, causando, por exemplo, supressão de vegetação nativa, escassez hídrica e degradação do solo. E isso ocasiona a perda de serviços ecossistêmicos fundamentais e contribui para as mudanças climáticas, já cada vez mais acentuadas. Por isso, queremos colaborar com conhecimento para o melhor gerenciamento por partes dos gestores públicos locais”, afirma Rafael Bitante Fernandes, gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica.

O impacto ao meio ambiente também é visto como prejudicial à economia e à imagem do Brasil. Recentemente, um grupo de investidores que detém uma carteira de US﹩ 4,1 trilhões direcionou suas preocupações ambientais às embaixadas brasileiras em oito países. Empresários brasileiros também se uniram para pedir o combate ao desmatamento em todos os biomas do país.

Transparência, rastreabilidade, compromissos e ações em sinergia com meio ambiente são pilares cada vez mais estratégicos no mundo dos negócios, o que para o poder público e iniciativa privada podem ser uma grande oportunidade. Uma política pública ainda pouco utilizada e que vai ao encontro a isso são os Planos Municipais da Mata Atlântica (PMMAs), e esse relatório traz subsídios concretos para colocar isso em prática.

“Com os Planos Municipais de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA), por exemplo, os gestores podem usar estes dados para apontar o que fazer, como e onde priorizar ações de uso e conservação”, reforça Rafael Bitante Fernandes.

A realização deste estudo se baseou em quatro critérios: remanescente de vegetação nativa; desmatamento; adequação do Código Florestal e uso do solo. Para a definição dos municípios analisados, foi feita uma análise multicritério em que foram escolhidas variáveis como desmatamento após 2008, déficit total, área de vegetação nativa, área de agronegócio, entre outras.

“O contexto atual reforça aquilo que já vínhamos demonstrando há décadas: não há dicotomia entre produção e conservação, pelo contrário. Não só é possível como, cada vez mais, urgente e obrigatório levar em conta os dados científicos disponíveis para a tomada de decisões de políticas públicas”, acredita Luis Fernando Guedes Pinto, Gerente de Políticas Públicas, engenheiro agrônomo e pesquisador do Imaflora. “Quem se propuser a utilizar tais dados para construir políticas de regeneração estará dando um sinal positivo para investidores, eleitores e a sociedade em geral.”

Para obter tais dados, os pesquisadores analisaram diversas pesquisas e metodologias, como o estudo “Números detalhados do novo Código Florestal e suas implicações para os PRAs”, do Imaflora; bases de dados governamentais públicas; o Atlas da Agropecuária brasileira; a base vetorial de hidrografia da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS); o MapBiomas e o Atlas da Mata Atlântica.

Em vista das eleições municipais no segundo semestre deste ano, o estudo traz importantes contribuições para que os atuais e futuros gestores destas cidades possam incluir a agenda ambiental como tema estratégico em seus planos.

“Assim como os órgãos estaduais de meio ambiente, a esfera municipal é crucial neste momento de pandemia e diante das fragilidades de políticas federais. Os órgãos municipais podem exercer cada vez mais um papel preponderante e protagonista na construção de uma agenda positiva e estratégica no campo da conservação e recuperação da Mata Atlântica. Principalmente para que sejam ativo essencial para o enfrentamento dos impactos do clima, na gestão da água, nas áreas protegidas, na sustentabilidade das atividades econômicas, na qualidade de vida e bem-estar da população”, conclui Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma ONG ambiental brasileira criada em 1986 para inspirar a sociedade na defesa da floresta mais ameaçada do Brasil. Atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade em prol da restauração da floresta, valorização dos parques e reservas, água limpa e proteção do mar. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.

Sobre o Imaflora

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil brasileira sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora busca influenciar as cadeias dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país. Mais informações: http://www.imaflora.org

Informações à imprensa

Fundação SOS Mata Atlântica

Luiz Soares,  Tel.: (11) 96199-1050, Email.: luiz@sosma.org.br

Imaflora

Israel Lippe,  Tel.: (11) 95041-3625,  Email.: israel.lippe@profilepr.com.br

 

 

Metade das mulheres passou a cuidar de alguém na pandemia, revela pesquisa

mulheres pandemia

Por  bori

As condições de trabalho se transformaram radicalmente durante a pandemia de Covid-19, sobrecarregando, principalmente, as mulheres. Metade das brasileiras passou a cuidar de alguém durante esse período, e 41% das mulheres com emprego afirmam estar trabalhando mais do que antes. Os dados são de pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista. O estudo indica que a realidade não é a mesma para todas. Nos ambientes rurais, 62% das respondentes afirmaram que passaram a exercer tarefas de cuidado.

Para identificar os efeitos da pandemia sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa, os pesquisadores aplicaram um questionário online com mais de 2.600 mulheres brasileiras entre abril e maio. A perspectiva era de que as tarefas de cuidado e trabalho passaram a se sobrepor de forma mais intensa durante os meses de isolamento social. A análise das respostas levou em conta variáveis como raça e área de residência das respondentes, se moram em zonas rurais ou urbanas. A amostra é representativa da população brasileira.

Os dados mostram que as mulheres residentes em áreas rurais e negras assumiram mais responsabilidades com relação ao cuidado do outro. Além disso, as mulheres negras parecem ter menos suporte nestas tarefas.

A maior parcela das mulheres que seguiu trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários é de mulheres brancas. Elas relataram estar trabalhando mais no período da quarentena, evidenciando que a ausência de funcionárias no domicílio ou de espaços como a creche/escola pesou mais para esse grupo. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%.

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena. Para Tica Moreno, socióloga da SOF Sempreviva Organização Feminista envolvida no estudo, os dados mostram que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que o trabalho e a economia pararam durante o período de isolamento social. “Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar”, comenta.

Para os pesquisadores, entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe. Os resultados do estudo, segundo Guilliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, dão visibilidade para a crise do cuidado. “O cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global”.

Divulgando o livro “Brasil : Estado social contra a barbarie”

A obra “Brasil : Estado social contra a barbarie” acaba de ser lançado pela Fundação Perseu Abramo e merecido ser lido por todos os que estão procurando reflexões críticas que lancem caminhos para sairmos da barafunda política, social, econômica e sanitária em que o Brasil está afundando neste momento.

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Organizado por Jorge Abrahão de Castro e Marcio Pochmann, este livro reúne artigos de um conjunto de professores, pesquisadores e técnicos das diversas áreas de conhecimento e com abordagens multidisciplinares, muitos dos quais participaram da formulação, implementação e gestão de políticas públicas. Formam um conjunto valoroso, uma contribuição crítica, norteada pela identificação dos limites, possibilidades e desafios de um Estado social no Brasil no século XXI.

Entre os autores podem ser citados os nomes de Ermínia Maricato, Rolf Hackbart, Denise Lobato Gentil e Marilena Chaui, mas todos os que participaram da construção do livro oferecem reflexões interessantes sobre o estado de coisas que vigem no Brasil neste momento.

Quem desejar baixar uma cópia pdf deste livro, basta clicar   [Aqui!]

Livro relata bastidores da pandemia e aponta mudanças nos hábitos alimentares

Produzido em tempo recorde, nova obra do nutrólogo Daniel Magnoni, intitulado “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era”, revela o impacto causado pelo novo Coronavírus na alimentação, verdades e mitos que podem fazer a diferença na nutrição e a visão de CEOs sobre a transformação no mercado de saúde

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Nos últimos meses a alimentação correta foi uma das constantes em lives, stories, mensagens e feeds nas redes sociais, inúmeras verdades, mas também muitas informações desconexas e sem qualquer valor científico. Diante deste contexto, o nutrólogo Daniel Magnoni, presidente do Instituto de Metabolismo e Nutrição e coordenador da área de Nutrologia e Nutrição Clínica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, decidiu produzir uma obra, em tempo recorde, que traz referências baseadas na ciência sobre um novo viés da nutrição no mundo pós-pandemia. Trata-se do livro “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era”.

“O livro apresenta em quatro segmentos as mais certificadas verdades sobre nutrição na imunidade, alimentação na atividade física, dicas de nutrição e conceitos de gastronomia e culinária. Todo o conteúdo foi elaborado sob a ótica do vivenciamento de líderes da saúde durante a Pandemia, relatados de forma objetiva e clara”, afirma Dr Magnoni.
O livro reúne mais de 60 entrevistas sobre o “viver” durante a pandemia entre os profissionais de saúde, CEOs de grandes instituições de saúde, da indústria farmacêutica e de alimentos.

Discussões sobre vitamina D, zinco, proteínas, minerais e fatores de risco que podem piorar e agravar a evolução dos pacientes acometidos pelo novo Coronavírus podem ser lidas sob a ótica da ciência e do que de mais atual circula nos meios da saúde baseada em evidências.

Segundo Dr. Daniel Magnoni “agora, muito mais do que antes, os pacientes e a população em geral precisam de informações corretas e isentas”. Nesse livro, resultado de questionamentos quase que diários de pacientes e amigos, o autor discute o que deve ser feito para melhorar a imunidade e tornar as pessoas mais saudáveis.

O autor ressalta: “Não existe segredo nem verdades escondidas, o que existe é uma grande necessidade de separar o joio do trigo, apresentar as verdades e discutir as necessidades caso a caso”. O livro, deve ser visto como uma obra atual e complementar a todas as discussões, pode fazer parte do arsenal de pesquisa e resposta às grandes dúvidas do momento, um trabalho editorial consistente com quase 80 autores identificados nominalmente, seja no desenvolvimento dos textos ou nas respostas às entrevistas.

Serviço

Livro – “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era” (380 pgs – Editora Tag & Line)

Onde comprar – Amazon / Mercado Livre

Contato para a imprensa: (011) 99982 3353 Email – contato@oraculum.com.br

Em meio ao desmanche ambiental, Campanha “Boicote Bolsonaro” ultrapassa 400 mil aderentes na Europa

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Ao contrário do que diz o personagem da charge, o Brasil precisa de toda a ajuda que conseguir e ela está vindo na forma de boicote aos produtos brasileiros

Um dia após o fundo soberano da Noruega cessar suas relações financeiras com a JBS por causa do uso de gado criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, a campanha de boicote aos produtos brasileiros atingiu a expressiva marca de 400 mil aderentes. Considerando-se o tamanho do público alvo e os impactos sociais da pandemia da COVID-19 na Europa, esse número de aderentes a uma campanha de boicote aos produtos brasileiros é uma sinalização de que, apesar das reticências do governo da Alemanha, vão existir crescentes dificuldades para não só ocorrer a ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, mas para a continuação das trocas comerciais já existentes.

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Essa situação tenderá a piorar após o início das grandes queimadas que vão ocorrer na Amazônia em 2020 em poucas semanas. Além disso, o aumento do conhecimento sobre a “passada de boiada” que está sendo feita pelo improbo Ricardo Salles e que está avançando rapidamente no processo de destruição da regulação ambiental construída a duras penas no Brasil, como noticiado hoje pelo jornal Folha de São Paulo.

passa boiada

A pressa para desregulamentar é tanta que o artigo da Folha de São Paulo que apenas “entre março e maio  de 2020, o governo Bolsonaro publicou 195 atos no Diário Oficial —entre eles, portarias, instruções normativas, decretos e outras normas — relacionados ao tema ambiental“, sendo que “nos mesmos meses de 2019, foram apenas 16 atos publicados“.

Depois que a casa cair, que ninguém venha alegar inocência. Afinal de contas, já está mais do que claro tanto governos estrangeiros como as grandes corporações financeiros que controlam boa parte dos fluxos de capital não estão apreciando o desmanche ambiental que está ocorrendo no Brasil.