Títulos minerários em áreas protegidas são risco potencial, diz estudo do WWF-Brasil

Num momento em que aumentam as pressões para impedir a criação e reduzir o tamanho e o status de proteção de Unidades de Conservação no país, a existência de pedidos de pesquisa e autorizações de lavra em UCs e Terras Indígenas, ainda que suspensas, são risco potencial.

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Estudo do WWF-Brasil divulgado hoje identificou nas Terras Indígenas e Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral na Amazônia 5.675 processos de exploração mineral ativos, que vão de pedidos de pesquisa a autorizações de lavra. A sobreposição de um volume grande de títulos minerários em áreas protegidas dá a dimensão da pressão por redução de tamanho ou de status de proteção que essas áreas enfrentam, além da pressão por liberar a atividade, restrita hoje ao garimpo ilegal. O estudo cruzou dados dos títulos minerários ativos da Agência Nacional de Mineração (ANM) com as poligonais das Terras Indígenas e das Unidades de Conservação na Amazônia Legal. O trabalho levou em conta informações constantes nas bases da ANM, da Fundação Nacional do Índio e do Ministério do Meio Ambiente.

Apenas uma parcela dos títulos minerários encontra-se bloqueada pela ANM, responsável por autorizar a atividade mineral em todo o país. A legislação atual proíbe a exploração mineral em Terras Indígenas sem expressa autorização do Congresso e em Unidades de Conservação de proteção integral, Reservas Extrativistas ou Reservas Privadas do Patrimônio Natural. Nas demais UCs de uso sustentável do país, a exploração de minérios depende de previsão nos planos de manejo.

A agência informou que o bloqueio de pedidos de pesquisa ou mesmo autorizações de lavra já concedidas em Terras Indígenas e UCs de proteção integral é automático em seu banco de dados. Mas o estudo identificou que o bloqueio alcança 24% dos títulos nas UCs de proteção integral federais, 46%, nas UCs estaduais e 76% dos títulos nas Terras Indígenas. Há muitos requerimentos de pesquisa e lavra ativos e áreas consideradas de futura disponibilidade para mineração.

Análise complementar nas áreas protegidas vedadas à mineração onde o estudo detectou autorizações de lavra ativas revelou que os títulos não correspondiam à exploração legal de recursos minerais. É o caso, por exemplo, do Parque Nacional Mapinguari, criado em 2008 numa área de quase 18 mil quilômetros quadrados na divisa do Amazonas com Rondônia, numa área de pressão por desmatamento. O estudo identificou autorizações para a exploração de minério de ouro e cassiterita concedidas a três empresas. O gestor do parque informou que os títulos caducaram, mas revelou a pressão sofrida pela exploração mineral na borda da UC.

A Funai reconhece que há várias autorizações de concessão de pesquisa mineral e autorizações de lavra dentro de terras indígenas. Mas alega que a efetiva exploração ou mesmo a pesquisa dependem da regulamentação do artigo 231 da Constituição. Esse artigo diz que a pesquisa e a lavra de minérios em terras indígenas só podem ser feitas mediante autorização do Congresso Nacional e ouvidas as comunidades na forma como a lei definir.

A área mais extensa sob ameaça em Unidades de Conservação é o Parque Nacional do Monte Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. A área impactada por títulos minerários em diferentes estágios é de 477 quilômetros quadrados, equivalente a 40% da área total da UC de proteção integral. No ranking, é seguido pelos parques nacionais doJamanxim e Serra do Pardo, no Pará, onde foram registrados requerimentos e processos de pesquisa autorizada para a exploração de ouro, minério de ouro e cobre e minério de platina.

A área indígena mais ameaçada em extensão é a Terra Indígena Yanomami, na fronteira com a Venezuela. Quase cem pedidos alcançam uma área de 11 mil quilômetros quadrados, pouco mais de 10% do território homologado em 1992 e onde já foi detectada a presença de garimpo ilegal. A lista de minérios cobiçados nessa área é grande. A Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, aparece na sequência no ranking das mais ameaçadas.

“Num momento em que aumentam as pressões para impedir a criação e reduzir o tamanho e o status de proteção de Unidades de Conservação no país, a existência de pedidos de pesquisa e autorizações de lavra, ainda que suspensas, representam um risco potencial”, destaca o diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic.

A abertura de Terras Indígenas à exploração mineral também é uma ameaça latente, objeto de projeto de lei que tramita no Congresso Nacional desde 1996, de autoria do senador Romero Jucá (MDB-RO). “Se aprovado, o projeto colocará em risco a floresta e os modos tradicionais de vida dos povos indígenas”, prevê Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil, coordenador do estudo.

Garimpo

Completa o quadro de ameaça apontado pelo WWF-Brasil, um estudo recente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), segundo o qual o garimpo ilegal se transformou num dos principais vetores de desmatamento nas Unidades de Conservação, inclusive no Parque Nacional Mapinguari.

Ainda que não seja objeto desse estudo, o garimpo ilegal já é oficialmente reconhecido como um importante vetor de desmatamento das áreas protegidas na Amazônia. A indicação da presença de minérios em seus territórios pode estimular a expansão do garimpo ilegal, que cada vez mais exige esforços na área de fiscalização e controle. “Por esse motivo, recomendamos o rápido indeferimento e caducidade dos requerimentos e títulos no âmbito das áreas protegidas, visando minimizar a corrida por minérios e expansão da atividade ilegal nessas áreas”, sugere Jaime Gesisky.

Além dos danos ambientais e do risco de contaminação, o garimpo ilegal financia a grilagem de terra e episódios de violência, como os registrados em 2017 em Humaitá (AM), após a fiscalização ambiental coibir o garimpo no rio Madeira.

Sobre o WWF

O WWF-Brasil é uma organização não governamental brasileira dedicada à conservação da natureza, com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. Criado em 1996, o WWF-Brasil desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede mundial independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários.

FONTE: JB Press House

O Rio de Janeiro poderá viver um banho de sangue inédito sob Witzel e Bolsonaro

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Eu, assim como praticamente a totalidade da população do Rio de Janeiro, nunca tinha ouvido falar do tal Witzel antes dessas eleições, candidato com mais de 40% dos votos para governador do estado. Então, fui pesquisar seu programa de governo, disponibilizado pelo site do TSE, e compartilho aqui alguns dos pontos mais absurdos que integram suas propostas, dentre eles:

segurança pública tem que ser caso de polícia e não de política

plano habitacional que garanta o fácil acesso da polícia nas favelas

autorização para abate de criminosos

privatização de presídios

programa de demissão voluntária de servidores públicos

apoio financeiro à rede privada de saúde

militarização da educação

criação da disciplina obrigatória de “Constituição e Cidadania” (alô ditadura!, alô “Moral e Cívica”!)

chamar a iniciativa privada para a UERJ

-destinar as bolsas de pesquisa da FAPERJ para “projetos de interesse do Estado”

Quem ainda tiver dúvida sobre o caráter dessas propostas, sugiro assistir ao vídeo abaixo.

É importante frisar que esse pacote  mistura um receituário ultraneoliberal e uma ação ainda mais truculentas das forças policiais tem o potencial de criar um banho de sangue inédito no Rio de Janeiro se houver a vitória combinada de Witzel  e Jair Bolsonaro, especialmente em face da presença expressiva de membros do PSL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Assim, impedir a vitória dessa dupla passa a ser uma obrigação democrática, independente das críticas que se possa ter a Fernando Haddad e Eduardo Paes. É que o povo pobre do Rio de Janeiro não merece passar por essa agenda combinada de extermínio dos pobres.

Fala-se muito em escola sem partido, mas e as igrejas podem ter partido?

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Por vários anos temos visto a ação agressiva de grupos políticos que desejam impor uma agenda conservadora para a educação brasileira, a maioria abrigada e dinamizada sob a alcunha de “Escola Sem Partido”.  A ação desses grupos logrou aprovar várias leis inconstitucionais em estados e municípios que foram posteriormente declaradas ilegais e não lograram, felizmente, entrar em vigor.

Mas este fenômeno deverá se agravar agora que a extrema direita elegeu bancadas fortes em vários estados e também na Câmara Federal. Não deverão demorar para tentar impor planos pedagógicos que impeçam o ensino da Teoria da Evolução de Charles Darwin e também do conhecimento já existente sobre as mudanças climáticas em curso na Terra e que deverão trazer efeitos devastadores para diversas regiões brasileiras.

Pois bem, mas a questão que eu quero abordar é outra. É que enquanto se fala muito na “Escola Sem Partido”, o atual ciclo eleitoral está mostrando a clara atuação das principais lideranças religiosas do protestantismo, principalmente aqueles ligadas ao que se convenciona denominar de Neopentecostalismo, em favor de uma dada candidatura, numa clara desobediência do que estabelece a Constituição Federal Brasileira.

Não bastasse o apoio dado em púlpitos e corredores, cenas como as mostradas abaixo mostram como a disseminação da cultura do ódio está solapando até as bases fundamentais do que se convenciona chamar de religião cristã que se baseia na solidariedade, no perdão e no amor ao próximo.

Diante do que estamos presenciando é que, independente do resultado das eleições, há que se debater também a essência dessa politização da religião, e de como isso não deve ser tolerado até para aqueles que são religiosos sejam protegidos de líderes inescrupulosos que os usam para atingir objetivos bastante terrenos.

Cristofascismo à brasileira na eleição de 2018

cristofasci

O fascismo é uma fase histórica do capitalismo (…)
Uma forma mais nua,
sem vergonha,
mais opressiva
e mais traiçoeira do capitalismo
” 

(Brecht)

Por Fábio Py

Às vésperas do pleito eleitoral acaloram-se os debates, obrigando os candidatos a explicitar mais claramente seus posicionamentos. Alguns candidatos, alinhados ao conservadorismo, vêm demonstrando de forma mais aberta as posturas fascistas1. Mais especificamente, percebo em tais posturas uma modulação de um cristofascismo à brasileira, praticado entre políticos cristãos quando carregam o vocabulário de táticas de combate aos inimigos da fé e da nação, atentando contra a “família” e “paz da nação” em nome de Cristo. Prova dessa relação cristofascista são algumas das mais recentes expressões do projeto eleitoral justificado em nome da família “tradicional” percebida na atuação de dois candidatos nas campanhas eleitorais atuais: o deputado Marco Feliciano pelo Podemos de São Paulo, e o presidenciável Jair Bolsonaro, do PSC no Rio de Janeiro.   

O que denomino como cristofascismo brasileiro é um reflexo do cristofascismo na Europa, um termo cunhado pela teóloga Dorothee Sölle, em 19702. Para sua autora, o cristofascismo seria uma “traição aos pobres, uma arma milagrosa a serviço dos poderosos (…) a serviço das famílias tradicionais do centro-europa preocupadas com a paz sem a paz incomoda Cristo”. Ela fundamenta o conceito ao abordar as relações de membros do partido nazi com as igrejas cristãs no processo de desenvolvimento do estado de exceção alemão. Para Sölle, as lideranças da igreja alemã ajudaram na construção do governo nazista, da mesma forma que, aqui, seguem favorecendo posturas preconceituosas na política contemporânea. 

Evidentemente, creio que a relação entre cristianismo, conservadorismo e religião esteja sendo amplificada no pleito eleitoral de 2018, o qual vem sendo palco explícito de táticas virulentas contra minorias, contra diferentes expressões de gênero, contra os negros e índios amplamente apoiados pelo cristianismo hegemônico. 

Cristofascismo em Marcos Feliciano: o “deputado da família”

marco feliciano
Interessante que nas suas chamadas da candidatura, Marcos Feliciano já se designa “pastor” antes de se dizer candidato a deputado federal, deixando explícito a relação de religião-política na sua candidatura. Natural de Orlândia, interior de São Paulo, atualmente é pastor da Catedral do Avivamento (ligada à Assembleia de Deus). Já é deputado federal e foi filiado ao Partido Social Cristão (PSC). Agora está ligado ao partido “Podemos”. Foi líder da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados do Brasil, em 2013, no mandato de Dilma Rousseff, e, nessa condição, fez declarações sobre a homossexualidade, chegando a indicar que duas mulheres que se beijavam em público deveriam sair algemadas/presas do lugar.

Outra expressão ligada ao seu cristofascismo ocorreu quando justificou teologicamente o “atraso” do continente africano. Argumentou tendo em vista a teoria da “Maldição de Cam”, que tem seus esboços nos séculos XVIII e XIX. A teoria justifica a escravidão imposta pelos protestantes no Sul dos EUA, afirmando que os africanos são amaldiçoados por serem descendentes de Cam, um dos filhos preteridos de Abraão. Se não bastassem esses elementos, em outro momento, ele crítica à luta histórica das mulheres por trabalho quando diz que “sua parcela como mãe começa a ficar anulada (…) Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família”.

A linha central de seu racismo e preconceito religioso se molda em prol da defesa da família tradicional como se vê no slogan de sua campanha eleitoral atual: “A nossa família merece respeito”. A justificativa de Feliciano para sua intolerância se baseia na ideia da família tradicional idealizada de pais heterossexuais e filhos, buscando ao máximo ser identificado com ela. Para isso, diz ser o “pastor que defende da família brasileira”. Novamente, liga explicitamente a função religiosa de pastor com a arena eleitoreira. Em outro jingle, diz em tom bélico que “minha família merece respeito; é por isso que meu voto é para quem sabe guerrear”. Ou seja, sua proposição da família está absolutamente implicada com o tom de guerra para afirmação dela mesma contra seus verdadeiros “inimigos”, que seriam aqueles que defendem o “aborto e a legalização da maconha”.

Agora, voltando ao ponto importante. O candidato Marcos Feliciano a todo momento se designa “pastor” na campanha. Age de forma tendenciosa, pois em sua página no facebook dedicada à campanha eleitoral indica agendas de suas pregações confundindo diretamente a atuação no púlpito e os compromissos da campanha. Ou seja, mistura de forma explícita seu cristianismo fascista de ódio à pluralidade e às minorias com a agenda partidária. Promove essa grave mistura em prol da conservação da família tradicional se autodesignando: “deputado da família”. 

Cristofascismo de Bolsonaro: defesa da família em prol da nação 

Não se pode comparar o cristofascismo de Feliciano com de Jair Bolsonaro. Melhor, não se pode falar de cristofascismo à brasileira de 2010 para cá sem tocar no nome de Jair Bolsonaro, mesmo que ele não seja evangélico (maioria da bancada BBB), mas sim, católico. Contudo, o candidato busca reiteradamente a aproximação com a tradição evangélica. Afinal, em termos eleitorais, os segmentos evangélicos formam hoje parcela significativa da população brasileira. Também, não se pode esquecer que Bolsonaro é signatário da tradição intolerante formado nas fileiras da Ditadura Civil-Militar. 

Um dos episódios de sua tentativa de aproximação se viu no debate na Rede TV, em 17 de agosto deste ano. O episódio, implicitamente, colocou em questão a disputa pelo voto evangélico e a concepção de laicidade do Estado brasileiro. No debate, Bolsonaro selecionou Marina Silva para perguntar sobre o desarmamento. Diante da resposta negativa da Marina sobre o armamento, ele então a julgou: “Temos aqui uma evangélica que defende o plebiscito para o aborto e para maconha”. Agiu de forma agressiva para com a candidata usando a pertença religiosa contra ela, isso porque os dois temas (o aborto e a liberalização da maconha) não são apoiados pelo público evangélico. 

Na réplica, Marina o desafia por sua truculência. Diz: “(Bolsonaro) Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Mas, somos mães. Nós educamos nossos filhos”. Na resposta, Marina faz referência aos gestos públicos do Bolsonaro “você fica ensinando para os nossos jovens que tem de resolver as coisas na base do grito (…) um dia desses pegou a mãozinha de uma criança e ensinou como é que faz para atirar”. Bolsonaro, sentindo-se diminuído com a resposta da Marina afirmou: “Leia o livro de Paulo!”. Para os não-cristãos a interjeição pode parecer casual. Para os cristãos, a fala de Bolsonaro revelou um ponto crucial de todo seu preconceito. Ao falar sobre o livro de Paulo, estava se remetendo às passagens relacionadas explicitamente sobre silêncio das mulheres ou sobre a importância das mulheres ficarem caladas. Ou seja, usando a linguagem religiosa (logo, cristofacista) diante de um debate público, Bolsonaro manda Marina Silva se calar, utilizando um símbolo religioso da tradição da tradição evangélica isto é, os textos do apóstolo Paulo. Claro, ele erra a dizer “o livro de Paulo”, porque não existe um livro de Paulo. Na verdade, são vários. E, uma parte trazem, de fato, indicações sobre o silenciamento feminino (como: 1Timoteo, 1 Coríntios, Efésios, 1Tessalonicenses). Contudo, mesmo que, em uma prova de sua tentativa de aproximação com o setor evangélico seja artificial, está dizendo que as mulheres não devem discutir publicamente perto de um homem.                

Por fim, quero destacar outra aproximação que buscou fazer com o público evangélico. Essa, julgo ser mais grave. Ocorreu no domingo dia 19 de agosto de 2018, quando foi chamado a ir à frente do púlpito frente da Igreja Batista Atitude pelo pastor presidente da igreja, Josué Valandro. Na ocasião, o pastor refere-se ao candidato como “meu deputado”, indicando explicitamente sua opção de voto por ele no púlpito da igreja. Na oração, o pr. Josué Valandro diz que Bolsonaro tem “valores cristãos” e que, embora não seja protestante, “é amigo da igreja evangélica”. Mostra com isso que existe também uma vontade de lideranças das grandes corporações evangélicas com o projeto truculento fascista do candidato – tal como ocorreu no continente europeu no passado. 

O mais sério ainda foi quando o sacerdote concedeu a palavra a Bolsonaro por trinta segundos. Naquele momento, o candidato se disse emocionado e que jamais tinha pensando em estar nessa posição em que se encontrava. Afirmou: “Eu tenho a paz dentro de mim, e graças a Deus, eu tenho uma família maravilhosa na figura da minha esposa (…) nós temos que unir esse país, nos temos que valorizar a família, fazer com que as crianças sejam respeitadas na aula, devemos varrer o comunismo do Brasil”. Encerrou sua fala com a emblemática frase: “o Estado pode ser laico, mas eu sou cristão”. Novamente, o pequeno dito do candidato tem vários elementos em que busca se vincular ao público evangélico. Junto à valorização da família, busca unir o país, supostamente sob o pretexto de cuidar das crianças contra a ideologia de gênero e o comunismo. Nessas poucas palavras, Bolsonaro se aproxima do raciocínio das mentalidades dos tempos da Ditadura Militar. O candidato repete a velha fórmula ao utilizar o medo e a paranoia injustificada, localizando uma absurda ameaça comunista no Brasil. Na linha de pensamento de Bolsonaro, tudo deforma a “família” tão cara para a nação brasileira. Em defesa da família e da nação deve-se varrer o comunismo do Brasil. Um discurso de ódio que era muito bem cabível aos tempos da Ditadura civil-Militar. 

A partir da fala de Bolsonaro, percebe-se que na eleição vem brotando uma nova modalidade no vocabulário tático do cristofascismo à brasileira. Ele, que é tão central, virou slogan da campanha do Bolsonaro: “O Estado pode ser laico, mas eu sou cristão”. Recita o slogan estrategicamente, diante do público da igreja afirmando o benefício cristão na sua candidatura a presidência da república.  Aciona, assim, todos os benefícios dados aos cristãos desde a formação brasileira como a religião majoritária do país assumindo-se como candidato à presidência se diz cristão, e, em vários momentos assumindo que as demais minorias devem se curvar ao desejo da maioria cristã. Isso, porque, assume que as “famílias cristãs estão sendo prejudicadas” e um dos fatores disso é por “conta do estado laico tem de aceitar as ideias das minorias”. 

Por fim, táticas no período eleitoral…

slogan da campanha do Bolsonaro dito na Igreja Batista Atitude é uma composição de algo que ele já vinha esboçando há tempos. Em uma das suas polêmicas declarações antes das campanhas disse que com ele não “tem essa historinha de estado laico não”. Assume uma lógica nociva e perigosa: se o estado, ou a “maioria dele é formado por famílias cristãs”, que as outras ou se curvem ou se mudem do país. Afinal, diz ele, que “as famílias brasileiras estão sendo prejudicadas diante da ideologia de gênero”, escolas com ensino ‘esquerdista’, fora a “questão da morte das criancinhas com a questão do aborto”. Portanto, o dispositivo do cristofascismo no Brasil nesse período pré-eleições de 2018 vem sendo constantemente ativado mediante a uma defesa bélica e tática das famílias tradicionais. Se Marcos Feliciano diz ser o “deputado da família”, Bolsonaro usa seu slogan “Deus acima de todos”, para defender sua idealização das famílias. 

Ambos, pragmaticamente espalhando seu racismo, preconceitos e violências contra todos que se dizem diferentes. Esse nosso cristofascismo é quase um reflexo perfeito das demais campanhas que os signatários dos fascismos produziram na história da humanidade agindo violentamente contra as minorias, porque seriam um afronte as suas famílias idealizadas, perfeitas que buscam a paz classemediana. Particularmente, faço votos, nas minhas orações, que Deus nos livre de uma presidência de qualquer super-homem cristão, branco, hétero que defenda as famílias e a pátria. Afinal, não precisamos de qualquer Messias, mas antes, de sociedades engajadas verdadeiramente no devir democrático.                

Fontes da internet:

https://www.youtube.com/watch?v=WrsDn13QlCY&t=4s.; https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Felicianohttps://www.facebook.com/PastorMarcoFeliciano/

https://www.youtube.com/watch?v=NChrkvaw6dUhttps://www.youtube.com/watch?v=WrsDn13QlCY&t=4s

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/04/1257600-feliciano-volta-a-afirmar-que-africanos-sao-amaldicoados.shtml

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1 Tomo a noção de fascismo de Walter Benjamin quando admite que o continente europeu experimentou práticas regulares de tortura e barbárie realizadas na relação com as colônias, que serviram para o desenvolvimento do estado fascista, vide, “O capitalismo como religião”, São Paulo: Boitempo, 2013, p.171. Ao mesmo tempo, entende que a barbárie fascista não é meramente um estágio de regressão civilizacional, mas está contida nas próprias condições de reprodução da civilização burguesa, sendo que “se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, da moral, da família considerado como uma norma histórica”, transformando todo nacional em um “estado de exceção efetivo” (“Teses sobre o conceito de historia” de 1940).
2 Dorothee Sölle , Beyond Mere Obedience: Reflections on a Christian Ethic for the FutureMinneapolis: Augsburg Publishing House, 1970, p.81-83. 

FONTE: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Eleicoes/Cristofascismo-a-brasileira-na-eleicao-de-2018/60/41803

Marco Feliciano, a síntese de uma eleição em que o Brasil corteja o fascismo

Ainda estou refletindo sobre o conjunto do resultado das eleições de ontem, pois o que é emerge é a radiografia de um país que flerta abertamente com o fascismo em meio a uma profunda crise econômica e social. Guardando as devidas proporções, esse cenário permitiu a que o Partido Nacional Socialista alemão assumisse o poder na Alemanha, abrindo o caminho para horrores que até hoje envergonham a maioria dos alemães.

Mas deixemos as reflexões mais aprofundadas para depois, pois quero me deter neste momento numa das cenas mais grotescas que ocorreram no dia de ontem, e olha que não foram poucas. Falo aqui da imagem disseminada pelo dublê de deputado federal reeleito pelo PODEMOS e pastor da Catedral do Avivamento, uma igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus (ver imagem abaixo).

marco feliciano

Eu não sou cristão e minhas leituras da bíblia cristã são limitadas e ocorrem apenas quando preciso verificar a exatidão do que me é apresentado como extraído dali, como ocorreu recentemente numa tese de doutorado que examinei na Universidade de Brasília.

A minha leitura limitada da bíblia me induz a pensar que Marco Feliciano não retirou dali nenhum ensinamento teológico para produzir a mensagem abaixo. Sendo assim, o gesto da arma na mão à frente da imagem de Jair Bolsonaro resulta de outras interpretações que não as que deveriam ser seguidos por alguém que supostamente representa as ideias de solidariedade e reconexão a partir do perdão que foram deixadas por Jesus de Nazaré.

Por outro lado, essa imagem nos obriga a refletir sobre a necessidade de abandonar a postura de dizer que figuras como Marco Feliciano não podem ser questionadas em nome de um suposto direito à liberdade de religião. É que ao posicionar de forma tão frontalmente contraditórias ao que se espera da sua raiz religiosa, Marco Feliciano (e tantos outros líderes religiões) se tornam um foco legítimo de ação política para que se liberte milhões de brasileiros e brasileiras do voto de cabestro via o uso do cajado.

Afinal de contas, o que Marco Feliciano nos mostra é que ele está mais para fascista do que para um seguidor dos preceitos religiosos que deveria seguir.

O neoliberalismo e suas patologias

neoliberal

Independente dos resultados que emergirão das urnas no final deste domingo, em minha opinião estamos presenciando um momento de profunda anomia na sociedade brasileira, o qual está sendo causado principalmente pela falta de um horizonte positivo para muitos que hoje embarcam na tentação de resolver suas questões pessoais e nossos problemas pessoais via o uso da violência contra os que são vistos como elementos antagônicos aos seus ideais de vida.

E quais são estes ideais? Essencialmente eles são determinados por décadas de hegemonia neoliberal em uma sociedade que já era uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esses ideais se ancoram na concorrência extrema entre os indivíduos, a erradicação de quaisquer laços de solidariedade e o estabelecimento de uma concepção de que os prejudicados pelo sistema ou escolheram ser assim ou não se esforçaram o bastante para acumular algum tipo de capital.

Após semanas debatendo em grupos de Facebook, alguns deles compostos majoritariamente por servidores públicos que deverão perder o pouco que ainda detém em termos de direitos, pude presenciar como as pessoas que ousam questionar esses princípios são tratadas. A coisa começa com a acusação de que alguém está doutrinado, mas passa pelas acusações de quem alerta para os riscos postos está com medo da derrota ou simplesmente desesperado. Este tipo de ladainha combina ainda citações a um suposto plano bolivariano de dominar e transformar o Brasil numa sucursal da Venezuela.

Ao serem lembrados que a Argertina que recebeu o receituário que  vai ser aplicado aqui se um determinado candidato vencer, a coisa descamba para as ofensas pessoais e a chacota.  Tampouco falam eles sobre o caso do Chile que foi o primeiro país da América do Sul a privatizar a previdência social e hoje possui um dos maiores índices de suicídio entre idosos no mundo.

Além disso, nesses grupos em que debati com os defensores dessa agenda neoliberal foi comum a demanda para que eu fosse excluído sumariamente por “não pertencer” ao grupo, como esse tipo de fórum tivesse algum tipo de DNA do pertencimento.  Como não caí na tentação de me retirar espontaneamente, as demandas cessaram na mesma medida em que aumentaram os ataques ao meu nível de inteligência. Obviamente para eles uma pessoa que se coloque contra o discurso rasteiro que eles oferecem para oferecer respostas para o Brasil (as quais raramente dizem quais são) necessita ser desqualificada, de modo a esconder a inexistência de propostas que não sejam de retirar direitos e impor uma sociedade guiada por rígidos mecanismos de moral social sobre os mais pobres.

Em suma, o que está aparecendo nestas eleições é muito mais do que milhões de pessoas votando em um candidato que já lhes avisou que irá trabalhar para piorar suas vidas. O que temos se manifestando abertamente são os ovos da serpente neoliberal que chocou uma sociedade com segmentos inteiros que perderam os níveis de solidariedade social e hoje apostam em mecanismos de higienismo social com paralelos históricos conhecidos na Alemanha nazista.  

Por causa disso é que muitos que até agora olharam para essa situação e fingiram que nada estava acontecendo precisam sair do seu comodismo e trabalhar para alcançar os milhões de pobres que estão sendo ludibriados e se colocando no papel de agentes de seus próprios algozes. A hora é de retomar o protagonismo político e mostrar que é possível construir uma sociedade mais solidária que não discrimine seus cidadãos com base na cor da sua pele ou da sua orientação sexual.  Mas aviso logo, o trabalho será duro porque os ovos da serpente neoliberal estão bem espalhados e desabrochando em grande profusão.

Portugal como exemplo a ser seguido no atual ambiente de avanço do fascismo no Brasil

Estou hoje na cidade histórica de Évora aproveitando para conhecer mais do interior de Portugal.  Eis que na capital do Alentejo que ostenta pouco menos de 50 mil habitantes é possível encontrar propagandas do Partido Comunista de Portugal (PCP) por suas vielas que começaram a ser construídas pelos visogodos e depois pelos romanos, ainda antes do nascimento de Jesus Cristo (ver exemplo abaixo).

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Apesar de concordar com a plataforma geral do PCP, não posso deixar de admirar a forma pela qual eles se fazem presentes nas ruas, apontando suas propostas e indicando caminhos concretos para que os trabalhadores possam organizar suas lutas.

Essa postura é que assegurou a sobrevivência política dos comunistas portugueses após décadas de repressão sob a ditadura de Antonio Salazar, permitindo inclusive que o PCP participe da coalizão que governa atualmente Portugal.

O caminho mostrado pelo PCP é o do combate diário e nas ruas pelos corações e mentes dos trabalhadores e da juventude de Portugal.  Eu me arrisco a dizer que se os partidos que se dizem de esquerda no Brasil viessem fazendo isso com mais determinação e firmeza,  o mais provável é que não estaríamos mirando o precipício neste momento.