Estudos ajudam a entender os desafios da conservação dos ecossistemas marinhos e lançam luz sobre um dos maiores desafios: a falta de conhecimento

  • Estudos ajudam a entender os desafios da conservação dos ecossistemas marinhos e lançam luz sobre um dos maiores desafios: a falta de conhecimento
  • Levantamento da Fundação Grupo Boticário, Unesco e Unifesp mostra que 40% da população ainda não associam como suas atitudes podem impactar o oceano; 24% consideram que suas ações geram impactos apenas indiretos
  • Estudo do Pacto Global da ONU no Brasil estima que cada brasileiro pode ser responsável por poluir os mares com 16 quilos de plásticos por ano

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Dois estudos inéditos apresentados nesta semana na Conferência dos Oceanos da ONU (Organização das Nações Unidas), em Lisboa, Portugal, lançam luz sobre a relação dos brasileiros com o mar. As pesquisas vão ao encontro de um dos maiores desafios para reverter o quadro de degradação dos mares e ecossistemas marinhos: a falta de conhecimento. “Ainda não falamos de forma suficiente sobre o oceano. Mesmo a população que vive próxima à costa tem um conhecimento raso sobre a importância do mar para a nossa vida. Na verdade, nem mesmo a ciência ainda sabe o suficiente, pois conhecemos apenas 20% do fundo marinho. Conhecemos mais a lua que o próprio oceano”, afirma Janaína Bumbeer, especialista em Conservação da Biodiversidade na Fundação Grupo Boticário, doutora em Ecologia e Conservação com foco em ambientes marinhos.

Nesta quinta-feira, 30, a Fundação apresentou a pesquisa inédita “Oceano sem Mistérios: A relação dos brasileiros com o mar”, realizada em parceria com a UNESCO e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo revela que a maioria dos brasileiros se mostra disposta a mudar hábitos pelo bem do oceano, mas ainda pratica ações que podem impactar negativamente os ecossistemas marinhos, muitas vezes por falta de conhecimento. Apenas 34% das pessoas compreendem que suas ações influenciam diretamente no oceano, 24% consideram que impactam de forma indireta e 40% acreditam que suas atitudes não impactam em nada os mares.

Hábitos e comportamentos

Ao detalhar hábitos e comportamentos praticados pelo brasileiro no dia a dia, a pesquisa mostrou a população dividida em relação a algumas práticas sustentáveis. O percentual de pessoas que priorizam com frequência compras com menor impacto na natureza e no oceano, como produtos com menos embalagens e sem poluentes, foi de 48%. Para 22% dos entrevistados, a prática ocorre somente às vezes, e 11% raramente. O porcentual de pessoas que nunca se preocupam com essa questão foi de 18%.

Outro aspecto investigado foi o uso de plásticos de única utilização. Apenas 35% dos brasileiros afirmam sempre evitar o uso de canudinhos e copos plásticos descartáveis, enquanto 12% evitam a maioria das vezes e 20% somente às vezes. O consumo nunca é evitado por 19% dos entrevistados e raramente por 13% dos entrevistados.

“Cerca de 80% da poluição encontrada no mar vêm do continente. Se fizermos projeções a partir dos dados encontrados, chegamos a resultados preocupantes”, salienta Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário. Considerando que cerca de 68 milhões de brasileiros (32%) não evitam o uso de copos plásticos e cada uma dessas pessoas faça uso de três unidades de 200 mililitros por semana, chega-se a mais de 10,6 bilhões de unidades por ano. Cada copo pesa em média 1,8 gramas, o que significa 19,1 mil toneladas de copos plásticos que o brasileiro usa anualmente. “Só de copo plástico. Quanto disso é reciclado? Quanto de fato chega ao oceano? Muito desse lixo produzimos quando estamos fora de casa. Levar junto um copo reutilizável já é um avanço”, exemplifica Malu.

“O oceano começa na nossa casa, mesmo que estejamos a muitos quilômetros de distância do mar. Como boa parte das pessoas tem pouco contato direto com os ambientes marinhos, esta percepção precisa ser estimulada. Os mares geram alimentos, energia, minerais, fármacos e milhões de empregos ao redor do mundo em diferentes atividades econômicas. São imprescindíveis para o transporte e o comércio internacional, além de importantes para o nosso lazer e bem-estar. Cuidar do oceano é cuidar da nossa saúde”, salienta Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), copresidente do Grupo Assessor de Comunicação para a Década do Oceano da Unesco e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Caminho do lixo até o mar 

Outro estudo inédito apresentado na Conferência dos Oceanos, encomendado pelo Blue Keepers, projeto ligado à Plataforma de Ação pela Água e Oceano do Pacto Global da ONU no Brasil, aponta que cada brasileiro pode ser responsável por poluir os mares com 16 quilos de plásticos por ano. São 3,44 milhões de toneladas desse material propensas ao escape para o ambiente no país, ou um terço do plástico produzido em todo o Brasil corre o risco de chegar ao oceano todos os anos. A pesquisa faz parte dos dois primeiros relatórios produzidos pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.

“O estudo traz estimativas sobre a realidade brasileira em relação ao caminho que os resíduos percorrem até chegar ao mar, sinalizando estratégias que podem ser analisadas com os municípios com maior urgência e eficácia”, afirma o professor da USP, Alexander Turra, responsável pela Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e membro da RECN.

O levantamento observou que existe alto risco desse estoque plástico chegar até o oceano por meio de rios. O nível de risco varia ao longo do território brasileiro, mas áreas como a Baía de Guanabara (RJ), rios Amazonas (Amazonas e Pará), São Francisco (entre Sergipe e Alagoas), foz do Tocantins (Pará) e na Lagoa dos Patos (Porto Alegre) são especialmente preocupantes. Além disso, diversos municípios, mesmo no interior, têm alto risco de contribuir para o lixo plástico encontrado no oceano e, por isso, é necessário agir localmente nessa questão.

A metodologia desenvolvida é inédita e traz avanços sobre modelos globais usados em estudos anteriores. Os realizadores utilizaram parâmetros socioeconômicos e geográficos que não haviam sido representados anteriormente, como a reciclagem informal e a presença de barragens no país. Portanto, a própria metodologia em si é um resultado para que outros países busquem diagnosticar suas poluições por plástico.

(Com informações do Pacto Global – Rede Brasil)

Queimadas na Amazônia registram pior mês de junho desde 2007

2.562 focos de calor foram registrados no bioma em junho de 2022, reforçando o impacto das escolhas antiambientais no avanço da destruição

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Manaus, 1º de julho de 2022 – Dados divulgados na noite desta quinta-feira (30), pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), apontam que o mês de junho teve o maior número de focos de calor na Amazônia desde 2007. Os dados revelam que foram registrados 2.562 focos de calor. Mato Grosso e Pará lideram, concentrando 64,5% e 21,7% dos focos, respectivamente. Desde 23 de junho, o uso do fogo em território nacional foi proibido por 120 dias, de acordo com decreto presidencial (nº 11.100/22). Ainda assim, 1.113 focos foram registrados na Amazônia desde então.

“A estação seca mal começou e a Amazônia já está batendo novos recordes na destruição ambiental. O ocorrido não surpreende visto que a região está sob intensa ameaça, com altos níveis de ilegalidade que continuam devastando grandes áreas e vidas. Esse cenário se fortaleceu nos últimos três anos na Amazônia como resultado direto de uma política aplicada com êxito que facilita e estimula o crime ambiental”, comenta Cristiane Mazzetti, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, “É tempo de pensarmos sobre a Amazônia que precisamos para o nosso futuro”, completa Mazzetti.

As ações do governo federal nos últimos anos, que, dentre outras ações, desmantelou órgãos de fiscalização ambiental, resultaram na elevação drástica do patamar da destruição ambiental. Além da Amazônia, no Cerrado, o número de focos de calor segue alto, com 4.239 focos. Já no Pantanal, houve um aumento de 17% em relação a junho de 2021, com 115 focos registrados. Mais áreas devem queimar nos próximos meses, período em que a floresta está mais seca, e quando o fogo é utilizado para realizar o desmatamento ou queimar os restos da floresta derrubada depois de secar ao sol. Dados de desmatamento (Inpe) apontam para uma área total de 2.867 km² derrubada entre janeiro e maio. Ou seja, a previsão é que o cenário se agrave com o início do verão amazônico. Outro fator crítico é o fato deste ser um ano eleitoral, quando a devastação ambiental historicamente se acentua.

“A tendência desse contexto é catastrófica, não somente pela perda da biodiversidade nesses biomas, mas também para as populações que vivem na Amazônia e adoecem com a fumaça, em especial os povos indígenas e comunidades tradicionais que além de sofrer com a fumaça, têm seus territórios invadidos e desmatados. Esses números reforçam o desafio de superarmos essa economia que se alimenta de floresta e que não desenvolve a região. É um ano decisivo para o Brasil. É preciso que o povo brasileiro reflita profundamente sobre o futuro que precisamos para o nosso país”, complementa Mazzetti.

Enquanto a Amazônia queima e representa uma dinâmica que precisamos eliminar, no último mês o Greenpeace realizou em Manicoré (AM) uma expedição para mostrar a Amazônia que precisamos para o futuro, junto de pesquisadores estudando a biodiversidade e de comunidades tradicionais que lutam pela proteção de seu território já ameaçado pelo avanço do desmatamento, da grilagem e da exploração madeireira na região.

Saiba mais sobre a expedição aqui.

Desmatamento e sistema de saúde precário aumentam o risco de surto de zoonoses no Brasil

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Estudo publicado ontem (29) na revista Science Advances mostra que dois terços dos estados brasileiros têm risco de médio a alto para ser o próximo palco de surto de zoonoses. Esta relação se dá, sobretudo, em populações humanas vulneráveis que ocupam áreas mais remotas e próximas à vida selvagem. O estudo, liderado por pesquisadores do Projeto RedesDTN, do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose/CNpq), sediado na Fiocruz do Rio de Janeiro, chama atenção para o fato de que o aumento recente na vulnerabilidade ambiental e social do país pode acelerar a emergência do próximo surto.

O risco de surtos decorrentes de zoonoses é um tema que ganhou visibilidade com a ascensão em escala global da SARS-CoV-2. A ideia de olhar para animais, sobretudo os selvagens, como reservatórios
zoonóticos trouxe uma nova camada para a discussão sobre a conservação da biodiversidade: a abordagem da saúde global.

A pesquisa analisou dados de incidência de casos e mortes decorrentes de zoonoses, ocorrência de mamíferos e seus patógenos e parasitas, caça, perda de vegetação natural e cobertura verde urbana. Segundo os autores, nos países em desenvolvimento, a ocupação de áreas ambientalmente degradadas, associada à vulnerabilidade social da população, favorecem a rápida disseminação geográfica das infecções. Além disso, à medida que a ocupação humana vai avançando para as áreas naturais adentro, o contato com animais selvagens se intensifica. Isto cria condições para a emergência de doenças zoonóticas. Um exemplo é a incidência de malária e leishmaniose que está diretamente relacionada ao desmatamento.

De acordo com os autores, o aumento das vulnerabilidades ambientais e sociais no país, somados a crises econômicas e políticas, são potenciais gatilhos para surtos. Dados do Observatório do Clima mostram que, em 2020, o desmatamento elevou em 20% a emissão de gases na Amazônia Legal na comparação com o ano anterior.

Vulnerabilidade e capacidade de resposta

Para entender quais as áreas no país estariam mais sujeitas à emergência de surtos zoonóticos, os pesquisadores fizeram um esforço inicial de compilar dados de diferentes fontes e formatos no intervalo de 2001 a 2019. Em seguida, adaptaram o protocolo europeu INFORM que considera o risco à exposição, às vulnerabilidades, as estruturas de enfrentamento a situações de risco. Em seguida, analisaram as relações de dependências entre as variáveis.

A pesquisa constatou que há uma forte correlação entre perda de vegetação, riqueza de mamíferos, isolamento do município, pouca vegetação urbana e baixa cobertura vegetal. “O curioso é que a maioria das cidades que estão cercadas de mata nativa, têm pouca ou quase nenhuma vegetação urbana”, explica Gisele Winck, autora do estudo e pesquisadora de pós-doutorado do SinBiose. A aplicação do modelo mostrou que apenas 30% dos estados brasileiros, ou seja, oito estados, têm baixo risco de surtos de zoonoses.

Por exemplo, o Maranhão, que tem 34% do seu território coberto por floresta, é considerado de alto risco. Entretanto, o estado vizinho, Ceará, cujo bioma de prevalência é a Caatinga, tem baixo risco. Os outros sete estados de baixo risco são Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul.

Uma característica compartilhada entre estes estados é a alta conectividade entre as cidades, o que favorece a capilarização do acesso ao sistema de saúde e, portanto, o tratamento de acometidos por zoonoses. “Se a pessoa não consegue tratamento em um município, ela consegue acessar outro município rapidamente. Isto tem a ver com a capacidade de resposta à crises”, explica Winck.

Os estados amazônicos são todos considerados de médio a alto grau de risco de surto zoonótico. Isto não é uma surpresa para os cientistas, pois a grande diversidade de espécies da Amazônia naturalmente abarca também riqueza de patógenos. “A questão é que atualmente há uma sobreposição das nossas áreas com maior cobertura vegetal e biodiversidade com as áreas de maior desmatamento. Isto as torna potencialmente um risco para a emergência de surtos de zoonoses”, avalia a pesquisadora.

Outro aspecto discutido no artigo é a caça. A caça é considerada atividade ilegal no país, exceto como atividade de subsistência para comunidades tradicionais e indígenas. Ainda assim, não é incomum encontrar a comercialização de carne de caça em todas as regiões do país. Esta manipulação de carne de caça preocupa os pesquisadores, não apenas em termos de manejo das espécies, mas também de saúde coletiva.

O consumo desta carne pode representar uma porta de entrada para patógenos e parasitas desconhecidos. “É preciso discutir este tema ao invés de ignorá-lo. Talvez a regulamentação incluindo monitoramento sejam saídas para a redução dos riscos eminentes”, considera a autora. Estimativas recentes apontam que o mercado de carne de caça na Amazônia Central seja de aproximadamente 35 milhões de dólares por ano e a carne de mamíferos é a mais consumida, seguida pela de répteis e aves.

Para finalizar, os autores apontam no artigo que não há uma única saída. “O desafio atual é a colaboração intersetorial para uma gestão eficaz focada no conceito de Saúde Única (One Health), sobretudo em países mega diversos com alta vulnerabilidade social e crescente degradação ambiental, como o Brasil”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Estudo realizado no oeste do Paraná confirma relação direta entre incidência de câncer e consumo de água contaminada por agrotóxicos

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Em um artigo que acaba de ser publicado pela revista científica “Environment International“, um grupo binacional de pesquisadores estabeleceu uma relação direta entre o alto nível de uso de agrotóxicos, a contaminação de água usada para consumo humano com a incidência de câncer em municípios produtores de grãos na região Oeste do Paraná (ver imagem abaixo).

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Embora já exista uma ampla literatura disponível sobre o impacto do consumo crônico de resíduos de agrotóxicos, o estudo que teve como autora principal a professora Carolina Panis, do Faculdade de Medicina da Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste), traz cálculos importantes que mostram a relação entre o nível de uso de agrotóxicos nas monoculturas, a consequente contaminação dos mananciais hídricos e seu consequente impacto para o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.

Os pesquisadores foram ainda capazes de identificar que dois agrotóxicos Mancozebe e Diurom teriam sido responsáveis pela ocorrência de 80% dos casos de câncer que foram identificados. Além disso, a pesquisa identificou que dos 27 agrotóxicos identificados na água consumida pela população dos municípios estudados, 11 deles são potenciais causadores de câncer.

A principal questão é que na mesma forma que a região foco do estudo existem hoje no Brasil diversas partes do Brasil que estão submetidos ao mesmo nível de emprego de agrotóxicos em função da predominância de grandes áreas de monoculturas (especialmente as de soja), o que pode implicar no fato de que a epidemia de câncer desvelada por esta pesquisa esteja mais disseminada do que havia sido determinado até agora.

Agrotóxicos são a segunda principal causa de contaminação das águas  brasileiras - FNU

E é por isso que eu me somo a quem diz que o “Agro não é pop”, o “Agro é tóxico”.

Quem desejar baixar o artigo publicado por Carolina Panis e colaboradores, basta clicar [Aqui!].

A violação do direito à alimentação e nutrição no Brasil

A existência de mais de 33 milhões de brasileiros passando fome é a negação do respeito ao Dhana (direito humano à alimentação e nutrição adequada), associado a privação de outros direitos humanos

Comida servida em restaurante em Brasília.

Comida servida em restaurante em Brasília

Por Sandra Maria Chaves dos Santos

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Podemos afirmar que a Declaração dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas, no pós-guerra, em 1948, em face da destruição e da destituição de vidas e dignidade, geradas pelas guerras, foi um avanço nos marcos civilizatórios das sociedades democráticas modernas. Desde então afirmava-se: “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis.”

Inicialmente tratava-se de um princípio ético-político, o qual alcançou dimensão jurídica por meio do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais – PIDESC, visando tornar obrigatório os compromissos estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Se o artigo 1 do referido Pacto reconhece para todos o direito a um nível adequado de vida, destacando especificamente o Direito Humano à Alimentação Adequada – DHAA, o artigo 11 vai além ao destacar o dever dos Estados em adotar medidas apropriadas para garantir o direito fundamental de toda a pessoa estar livre da fome. No Brasil, apenas em 2010, o direito humano à alimentação, a partir de uma emenda popular que deu origem à emenda Constitucional n. 64, foi incorporado ao Artigo 6º da Constituição. Portanto, prover, promover, respeitar, garantir esse direito é lei.

Assim, os resultados do 2º Inquérito nacional de insegurança alimentar e covid-19 no Brasil – II Vigisan, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Penssan, divulgados em 08 de junho deste ano, revelam um desrespeito à lei maior do país. Foi evidenciado que 15,5% dos domicílios brasileiros, ou mais de 33 milhões de pessoas, se encontravam entre o final de 2021 e início de 2022 em insegurança alimentar grave – IAG, compatível com fome, por expressar redução quantitativa de alimentos, para além das mudanças de qualidade, atingindo todos os moradores dos domicílios, incluindo crianças. No conjunto os dados denunciam que 58,7% dos brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar – IA, isto é, em cada 10 domicílios brasileiros, aproximadamente 6 se encontravam em dificuldades para garantir a alimentação de seus membros.

Infelizmente este resultado não foi uma surpresa. O I Vigisan, conduzido no final de 2020 pela Rede Penssan identificou que 55,2% dos domicílios brasileiros viviam em algum grau de IA e 9,0%, cerca de 19 milhões de pessoas, em IAG.  Em uma primeira leitura poderia ser atribuída à pandemia tal situação, considerando os efetivos impactos sanitários, sociais e econômicos. Os resultados da Pesquisa sobre IA realizada junto a POF – IBGE  2017-18, no entanto, desautorizam essa avaliação unívoca. Àquela época foi identificado que 36,6% dos domicílios estavam convivendo com algum grau de IA, contra 22,9% encontrados na pesquisa junto a PNAD – IBGE, em 2013. Se consideramos a série histórica, portanto, é possível reconhecer que a violação do direito humano à alimentação vinha ganhando contornos dramáticos desde a pesquisa de 2017, agravando-se desde então.

Os resultados da pesquisa Vigisan 2021-22 sobre consumo alimentar evidenciam também que em todo o país mais de 40% das famílias reduziram a aquisição de feijão, arroz, carne, vegetais e frutas no período de referência do estudo. São estes os alimentos que caracterizam a nossa melhor alimentação. Portanto, trata-se de uma violação da dimensão nutricional do direito à alimentação.

A violação do Dhana não atinge igualmente todos os brasileiros, e nem caracteriza um problema isolado. A fome está presente nos lares brasileiros, em todas as regiões do país, mas a situação é mais grave no norte e nordeste, com prevalência de domicílios em IA cerca de 2 vezes maior do que o encontrado na região sudeste e sul. A IA é maior em domicílios rurais, com baixa renda, com pelo menos um desempregado na família, com pessoa de referência do sexo feminino, de raça/cor preta ou parda e baixa escolaridade. Mais um direito violado, a insegurança hídrica, falta de acesso à água para todos os usos, esteve presente em 42,0% dos domicílios em IAG.

Na medida em que os direitos humanos são para todos, toda e qualquer desigualdade é em si uma quebra do pacto democrático. E a existência da fome nos lares brasileiros, com tendência de agravamento do quadro, descumpre o contrato social ético-moral, e como visto, a lei. Cabe à sociedade cobrar e ao Estado responder com políticas públicas emergenciais e estruturantes.

Sobre a autora

Sandra Maria Chaves dos Santos é nutricionista, doutora em administração pública e professora da Escola de Nutrição da UFBA. Vice-coordenadora da Rede Penssan. Atua em ensino de graduação e pós-graduação, pesquisa e extensão na área da saúde coletiva e da segurança alimentar e nutricional e avaliação de políticas públicas de saúde, alimentação e nutrição e SAN


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Grandes marcas de moda pausam o uso de índice de sustentabilidade por acusações de “Greenwashing”

H&M suspendeu o uso da ferramenta de rotulagem de produtos, The Higg Materials Sustainability Index

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Clientes podiam acessar o site da H&M para verificar o impacto ambiental de 655 de suas roupas, conforme avaliado pelo Higg Materials Sustainability Index, antes de ser interrompido esta semana. Fotografia: Islandstock/Alamy

Por Fleur Britten para o “The Guardian”

Uma aliança de grandes marcas de moda anunciou que está pausando o uso de uma ferramenta para medir a sustentabilidade das roupas depois que os críticos a descreveram como greenwashing .

Até esta semana, os compradores podiam acessar o site da H&M e verificar o impacto ambiental de 655 de suas roupas, conforme avaliado pelo Higg Materials Sustainability Index (MSI), um conjunto de ferramentas lançado no ano passado por uma aliança global sem fins lucrativos, a Coalizão de Vestuário Sustentável (SAC).

Por exemplo, um par de shorts de algodão foi descrito como usando “88% menos [água] do que os materiais convencionais”; seu impacto no aquecimento global foi “14% menor que os materiais convencionais”.

No entanto, o SAC anunciou que está “pausando” sua ferramenta de rotulagem de produtos depois que a Autoridade Norueguesa do Consumidor (NCA) alertou o H&M Group há duas semanas contra o uso do índice Higg para apoiar suas alegações ambientais. Acrescentou que, se ainda estivesse usando esse marketing até 1º de setembro, correria o risco de sanções econômicas.

Embora o órgão de vigilância do consumidor da Noruega não tenha investigado as alegações da H&M, o fez com as de uma marca norueguesa de outdoors, a Norrøna (que também usou o índice Higg em seu site), e concluiu que os dados eram enganosos para os consumidores e que as alegações eram infundadas .

Embora H&M e Norrøna tenham sido as primeiras marcas a incorporar o sistema de classificação em suas páginas de produtos, a SAC também conta com Nike, Primark, Walmart, Boohoo, Amazon e Tommy Hilfiger entre seus 250 membros.

Os ativistas de sustentabilidade da moda estão se regozijando com o anúncio da SAC, reclamando desde a primavera passada sobre sua metodologia – que avalia o ciclo de vida de um produto –, descrevendo-a como greenwashing.

“Se você pensar em uma avaliação do ciclo de vida como um relógio, o Higg MSI está olhando apenas do meio-dia às 15h – apenas uma parte muito seletiva do impacto”, disse Philippa Grogan, da consultoria de sustentabilidade de moda Eco-Age. “Para representar o quão sustentável é um produto, precisamos que a avaliação vá da meia-noite à meia-noite – não apenas do berço à loja, mas do berço ao túmulo.”

Por exemplo, não há informações sobre se uma roupa liberará microplásticos ou se é biodegradável. “O Higg SMI não permite que os consumidores tomem decisões informadas”, acrescentou Grogan. “Está atrapalhando todos os esforços de todos os envolvidos.”

Os críticos também lamentam o uso de pesquisas desatualizadas ou não representativas: “As marcas podem simplesmente enviar seus próprios dados”, disse Grogan. “Eles podem adicionar dados de uma pequena fazenda de algodão que usa as melhores práticas, e não os dados de uma grande fazenda.”

No início deste mês, o New York Times deu voz a mais críticos que alegaram que o SAC estava usando pesquisas financiadas pela indústria de sintéticos, permitindo assim que as marcas afirmassem que as fibras feitas pelo homem são mais sustentáveis ​​do que as naturais.

Falando ao Guardian, a CEO do SAC, Amina Razvi, disse: “Nós nos envolvemos constantemente com críticos e partes interessadas sobre os problemas que eles têm com as ferramentas. É por isso que nossas ferramentas evoluem constantemente, com base no feedback e na melhor ciência disponível.” Ela alegou que todos os dados de avaliação do ciclo de vida são “examinados, verificados e validados”, mas admitiu que “dados desatualizados” eram um problema do setor e precisavam de melhorias.

Durante seu hiato, Razvi disse que o SAC se reuniria com a NCA para “esclarecer os mal-entendidos ou equívocos sobre a metodologia e entender como nossas empresas podem fazer reivindicações credíveis e voltadas para o consumidor”. Ela também disse que o SAC faria uma revisão independente dos dados e da metodologia por terceiros.

“Ele precisa tornar tudo open source e parar de operar a portas fechadas”, disse Grogan, sobre como o índice Higg deve funcionar.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Pesquisa: faltam dados nos países pobres, e impactos das mudanças climáticas estão subestimados

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A ciência da atribuição está ampliando o conhecimento sobre os impactos das mudanças climáticas induzidas pelo homem, mas ainda há grandes lacunas sobre a extensão dos danos causados. É o que adverte um novo estudo, divulgado nesta terça-feira (18) na estreia de um novo periódico científico: Environmental Research: Climate, editado pela IOP Publishing.

Pesquisadores da Universidade de Oxford, Imperial College London e Victoria University of Wellington revisaram os impactos de cinco tipos diferentes de eventos climáticos extremos e em que grau esses eventos prejudiciais poderiam ser atribuídos à mudança climática induzida pelo homem.

Para isso, eles combinaram informações dos últimos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) e os resultados de um conjunto de estudos de atribuição recentes nos quais observações meteorológicas e modelos climáticos são usados para determinar o papel que a mudança climática desempenhou em eventos meteorológicos específicos.

Eles descobriram que para alguns eventos climáticos extremos, tais como ondas de calor, a ligação com a mudança climática é clara e inequívoca em todo o mundo, e que a extensão dos impactos provavelmente está sendo subestimada por seguradoras, economistas e governos. Para outros, como os ciclones tropicais, existem diferenças importantes entre as regiões e o papel que a mudança climática desempenha em cada evento é mais variável do que para as ondas de calor.

“A compreensão do papel que a mudança climática desempenha nesses eventos pode nos ajudar a nos preparar melhor para eles. Isso também nos permite determinar o custo real que as emissões de carbono têm em nossas vidas”, diz Ben Clarke, da Universidade de Oxford, autor principal do estudo.

Os autores observam que há uma necessidade urgente de mais dados de países de renda baixa e média, onde os impactos da mudança climática são mais fortemente sentidos e os esforços de adaptação estão gravemente atrasados.

Uma das principais dificuldades nesses países é a ausência de dados meteorológicos nacionais disponíveis publicamente. Os exemplos incluem a África do Sul, onde a corrupção desvia os fundos para instalações de equipamentos meteorológicos, levando a enormes lacunas de dados em uma rede que, de outra forma, seria boa; a Somália, que é propensa à seca e onde mudanças desordenadas na política perturbaram as medições; e a Polônia, onde os dados meteorológicos só estão disponíveis mediante o pagamento de taxas elevadas, desestimulando pesquisas financiadas com recursos públicos.

“Nós realmente não temos uma visão abrangente ou um inventário detalhado do impacto que as mudanças climáticas estão tendo hoje”, diz o Friederike Otto, do Instituto Grantham – Mudanças Climáticas e o Meio Ambiente do Imperial College London, co-autor do estudo.

“Agora que temos as ferramentas e o conhecimento avançado para criar tal inventário, precisamos que eles cheguem a todo o’mundo de maneira mais uniforme para melhorar nosso entendimento em áreas onde faltam evidências”, defende Otto. “Caso contrário, estamos negando aos países o conhecimento para fazer o melhor uso de fundos esparsos e melhorar as chances das pessoas viverem com segurança e se adaptarem às mudanças climáticas.”

UFRJ: pesquisa aponta como a crise ambiental é percebida nas classes B e C da população

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O Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, por meio do Laboratório Conexões do Clima, realizou em março de 2022 a pesquisa “Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Econômico: percepções da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”. O levando, realizado em maio, fez um diagnóstico sobre como as classes B e C percebem os efeitos do aquecimento global em seu dia a dia. Um dos temas que mais geram preocupação é o de chuvas intensas, inundações, deslizamentos e segurança hídrica. Queimadas na Amazônia e no Pantanal também foram lembradas, mas como problemas mais distantes.

As cenas dos recentes desabamentos de encostas em Petrópolis, na Região Serrana, ou a vivência de dramas pessoais, com o enfrentamento de alagamentos de ruas e casas em períodos de chuvas, tanto na baixada fluminense como em diferentes regiões do estado, ajudam a acentuar a ideia de que existe um risco cada vez maior para todos.

– Há uma visão de que algo grave está acontecendo, com mais desastres, chuvas mais fortes e mais frequentes, e estações do ano mais indefinidas. Apesar de não haver dentro desse grupo pesquisado uma formulação mais precisa sobre o tema, há uma percepção instintiva de que vivemos uma crise ambiental grave e que as consequências podem ser devastadoras — explica a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Tatiana Roque.

A pesquisa, realizada de forma qualitativa, reuniu oito grupos focais, cada um com 8 a 10 pessoas. A partir daí, foram estabelecidas dinâmicas com debates de até duas horas de duração com cada grupo.

– Ouvimos pessoas com idades entre 18 e 50 anos das classes B e C. A pesquisa joga luz sobre um tema que muitas vezes parece não estar associado à realidade e às preocupações desse grupo. Mas concluímos que as pessoas se preocupam sim, só não sabem como resolver– salienta Tatiana Roque.

Um ponto de destaque do levantamento é a de que há hoje uma grande preocupação com a infraestrutura habitacional e com a melhoria da rede de saneamento. Lixo e esgoto são problemas levantados com frequência e espontaneamente. Os seguidos casos de geosmina na água também foram lembrados. Muitos lembram da Baía de Guanabara como um caso que evidencia a má educação do povo que joga lixo e polui, por um lado; e a ineficiência das políticas públicas, por outro — “Despoluição da baía de Guanabara há mais de 20 anos…é um case de fracasso”; “Baía de Guanabara é um lixo, quando eu era criança eu entrava. Hoje, sai com um braço a mais”.

Falta transparência e eficiência em programas de despoluição da Baía de  Guanabara - Rede Brasil Atual

– Há um entendimento de que esses problemas são reflexos da falta de cuidado com a limpeza urbana e de uma política voltada a cuidar dos resíduos em geral, que são vistos como os principais motivos para a ocorrência de deslizamentos e alagamentos. Mas há pouca esperança de que o poder público resolva o problema e as soluções elencadas são individuais na maioria das vezes- destaca Tatiana.

A baixa fiscalização do Estado foi apontada, bem como a ausência de política habitacional. O consumo individual é superdimensionado como capaz de ajudar a resolver questões ambientais. A dimensão da desigualdade socioeconômica é forte: ainda que haja percepção de que a chuva atinge a todos, as condições para cada família proteger a si e a seus bens é desigual. Além disso, há entendimento de que famílias ricas podem restituir-se de seus bens, enquanto os pobres ficarão desprovidos de tudo.

De modo geral, o debate climático encontra ambiente bastante receptivo entre o público pesquisado: não foram mobilizados argumentos negacionistas na amostra pesquisada. Isso está em sintonia com pesquisas quantitativas já realizadas sobre o tema. O objetivo desta pesquisa qualitativa foi relacionar esse tema com questões econômicas. Notamos um descompasso entre a percepção da complexidade e da abrangência dos problemas e a aposta em soluções micro-individualizadas. Notamos uma responsabilização mediana do Estado e das empresas, mas baixa expectativa de que esses atores solucionem o problema. As principais “saídas” apontadas são individuais, sem pensar em mudanças estruturais do modelo de desenvolvimento econômico: manejo de resíduos, consumo consciente e empresas sustentáveis; mas também infraestrutura habitacional e infraestrutura de saneamento.

– Concluímos que é preciso territorializar o debate climático e ambiental, aterrissar as questões, torná-las mais palpáveis e relacionadas com os problemas quotidianos e com o modelo econômico, que não é visto como relacionado às questões ambientais e climática. Essas ainda têm algo de etéreo e abstrato diante de urgências cotidianas, diz Tatiana.

Segurança alimentar em risco: governo Bolsonaro quer dar ao agronegócio o direito de se autofiscalizar

comida adulterada

Tramita no Congresso Nacional, em ritmo super acelerado, o Projeto de Lei No. 1293/2021 que instala o processo de autofiscalização na produção de alimentos no Brasil, colocando nas mãos dos agentes do agronegócio a capacidade de definir quais produtos de origem vegetal e animal podem chegar à mesa dos brasileiros.  Esta proposta traz uma “pegadinha” que é o fato dessa autofiscalização ser apenas válida para os alimentos que chegarão na mesa dos brasileiros, pois o que for exportado continuará sendo fiscalizado por técnicos governamentais.

Não sei quantos leitores deste blog se lembram do escândalo ocorrido entre 2012 e 2013 quando diversas empresas produtoras de leite foram pegas em um esquema de adulteração de seus produtos em diferentes regiões brasileiras. Apesar de todos os riscos criados por aquele esquema, não se tem de notícia de alguém que esteja cumprindo pena neste momento por causa dos crimes cometidos contra a saúde pública. 

crise leite

Agora, pensem no que significará dar aos operadores do agronegócio o controle, por exemplo, da fiscalização sobre a saúde dos animais que serão abatidos para serem consumidos no Brasil. Além de animais doentes, o que poderemos começar a ter na mesa é carne com diferentes tipos de aditivos em concentrações acima do que seria seguro para consumo humano, incluindo antibióticos e hormônios (que passariam a ter registro automático!).

Mas o problema da adulteração de alimentos não se restringe à produtos de origem animal, pois o Brasil é um país onde se adultera todo tipo de alimento, inclusive muitos que são amplamente consumidos, incluindo o café.

O incrível é que até aqui o Projeto de Lei No. 1293/2021 estava tramitando sem ser incomodado, e sob o controle total dos membros da bancada ruralista. Felizmente, ainda que tardiamente, um grupo de senadores resolveu interferir na tramitação da proposta para que a mesma tenha que ser, pelo menos, debatida em plenário. 

O fato inescapável é que sempre foi sonho do latifúndio agro-exportador poder deixar no Brasil aquilo que não se pode exportar por não atender os critérios internacionais de sanidade. Agora, com a possibilidade da provação dessa lei, leite adulterado será a menor preocupação dos que ainda conseguem comprar comida no Brasil.

 

Caminho sem volta: após 2°C de aquecimento global, perda de biodiversidade da Amazônia e do Pantanal pode ser irreversível

deforestation amazon

A ação climática está ficando para trás na escala de tempo necessária para atingir as metas do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C ou pelo menos impedir que ultrapasse 2°C neste século. Muitos cenários apontam agora para uma ultrapassagem dessas temperaturas por várias décadas, enquanto formuladores de políticas públicas e privadas defendem o uso de tecnologias ainda não validadas de remoção de dióxido de carbono (CDR) para trazer as temperaturas para baixo no futuro.

Uma pesquisa divulgada hoje (27) mostra como essa extrapolação de temperatura pode causar danos importantes e potencialmente irreversíveis à biodiversidade e aos ecossistemas em todo o mundo. Ao modelar o comportamento de mais de 30 mil espécies em diferentes ecossistemas, a análise descobriu que para quase 25% dos locais estudados, as chances de volta ao “normal” são incertas ou inexistentes, e isto inclui a Amazônia e o Pantanal. Para 8% dos locais observados, é correto dizer que nunca retornariam a esses níveis, diz a pesquisa.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo (UCT) e do University College London (UCL) e publicado no periódico Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences. Nele, os cientistas exploram um cenário de excesso de emissões de CO2 que continua crescendo até 2040, depois inverte seu curso e cai para menos de 2°C após 2070 por meio de cortes profundos de carbono e à implantação maciça do CDR.

Segundo o estudo, para a maioria das regiões, os efeitos da exposição a temperaturas acima de 2°C chegará repentinamente, com muitas espécies sendo simultaneamente empurradas para além de seus limites de nicho térmico. Já o retorno dessas espécies às condições confortáveis será gradual e ficará atrás do declínio da temperatura global hipoteticamente alcançado no futuro.

As regiões tropicais serão mais afetadas por estes riscos, com mais de 90% das espécies no Indo-Pacífico, Oceano Índico Central, Norte da África Subsaariana e Norte da Austrália sendo levadas para fora de seus nichos térmicos. E na Amazônia, uma das regiões mais ricas em espécies do mundo, mais da metade delas estará exposta a condições climáticas potencialmente perigosas. O mesmo cenário é apontado para o Pantanal, o bioma de planície alagada mais biodiverso do mundo.

“Na Amazônia, isto poderia significar a substituição de florestas por pastagens e, como consequência, a perda de um importante sumidouro global de carbono, o que teria efeitos colaterais em múltiplos sistemas ecológicos e climáticos, assim como nossa capacidade de reduzir o aquecimento global”, explica Andreas Meyer, um dos autores da pesquisa e membro da Iniciativa Africana para o Clima e Desenvolvimento (ACDI) da UCT.

“Um estudo como este, que modela explicitamente os riscos para a biodiversidade do excesso de temperatura seguido de um retorno para baixo de 2°C, era há muito tempo uma peça faltante na pesquisa sobre a mudança climática”, declarou em nota a equipe que conduziu a análise.

Atualmente, a biodiversidade do planeta já está afetada pelas mudanças climáticas em curso. O aquecimento global — que hoje é de 1,2°C acima dos níveis pré-industriais — está causando mortandades precoces em espécies florestais e em massa nos recifes de coral, além de alterar a distribuição das espécies e eventos reprodutivos.

Tempo importa

O estudo ressalta a importância de uma perspectiva temporal nas discussões sobre cenários de ultrapassagem da temperatura de 2°C. Muitas projeções sobre o aquecimento global descartam as consequências potencialmente irreversíveis desta extrapolação desde que ao final a temperatura volte a estar abaixo deste limite perigosamente alto. Isso tem contribuído para subestimar a necessidade, apontada pelo IPCC, de reduções rápidas e profundas nas emissões e para promover tecnologias de remoção de carbono que supostamente estariam maduras no futuro.

Além disso, os autores observam que as CDR também podem ter impactos negativos sobre os ecossistemas: por exemplo, o plantio florestal em larga escala ou a produção de biocombustíveis requerem muita terra e água, gerando impactos socioambientais negativos e efeitos secundários sobre o sistema climático.

“É importante perceber que não existe uma solução ‘bala de prata’ para mitigar os impactos da mudança climática. Muitas tecnologias de remoção de dióxido de carbono e soluções baseadas na natureza, como o florestamento, vêm com potenciais impactos negativos”, afirma Joanne Bentley, uma das autoras do trabalho e membro da ACDI.

“Temos que reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa. Nosso estudo mostra que, se ultrapassarmos a meta de 2°C de aquecimento global, poderemos pagar caro em termos de perda de biodiversidade, comprometendo a prestação dos serviços ecossistêmicos com os quais todos nós contamos para nossa sobrevivência. Evitar um excesso de temperatura deve ser uma prioridade, seguido pela limitação da duração e da magnitude de qualquer excesso”.