Super El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que durará até 2028, afirmam especialistas

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços das commodities alimentares em até 9%, com a soja entre as mais afetadas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images  

Por Richard Partington, correspondente sênior de economia, para “The Guardian”

Economistas alertam que um ciclo climático “super” El Niño este ano pode causar um choque severo nos preços globais dos alimentos, com efeitos que podem se estender até 2028.

Com a guerra no Irã elevando os preços mundiais dos alimentos ao nível mais alto em três anos, economistas afirmaram que as cadeias de suprimentos enfrentam “dois choques simultâneos”, provocados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global.

Cientistas afirmaram que o El Niño de 2026-27 – que se forma quando mudanças nos padrões de vento permitem que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico equatorial central e oriental – tem uma chance historicamente sem precedentes de se tornar um evento “muito forte”, provocando ondas de calor, inundações e tempestades.

Informalmente descrito como um El Niño “super” ou “Godzilla”, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou no mês passado que as condições de aquecimento estavam se instalando no Pacífico e que havia 63% de chance de as temperaturas da superfície do mar ultrapassarem 2°C acima do normal ainda este ano.

Num momento em que as famílias em todo o mundo já sentem o impacto do aumento vertiginoso do custo de vida, especialistas afirmam que um El Niño extremo poderia agravar ainda mais a situação. A perspectiva de um novo choque inflacionário também preocupa os bancos centrais, aumentando o receio de que as taxas de juro possam ser mantidas em níveis elevados.

Algumas regiões da Índia receberam apenas metade da precipitação normal, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar. Fotografia: Charlie Riedel/AP

“O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda”, escreveram analistas do banco italiano UniCredit em uma nota de pesquisa. “As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda este ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global.”

O fenômeno natural tem um histórico de impacto nas colheitas e na rede de abastecimento alimentar. Há mais de um século, um El Niño, provavelmente o mais severo já registrado, provocou secas catastróficas na China, no sul da África, no Brasil, no Egito e na Índia. Causando condições de fome em uma situação agravada pelo domínio colonial, milhões morreram, incluindo mais de 6 milhões de pessoas na Índia entre 1876 e 1878.

Os eventos El Niño de 1981-82, 1996-97, 2015-16 e 2023-24 foram alguns dos mais intensos já registrados. No entanto, as projeções da NOAA indicam que o ciclo de 2026-27 poderá ser ainda mais severo, aumentando o risco de secas e inundações que afetarão as colheitas e o abastecimento de alimentos em todo o mundo.

 

Segundo analistas do Goldman Sachs, a intensidade deste El Niño poderá causar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. Isso teria um efeito cascata em todo o mundo, inclusive para os consumidores na Europa, onde a previsão é de um aumento de 1,3% nos preços dos alimentos em toda a zona do euro.

No entanto, o impacto total levará tempo para ser sentido, devido à forma como o custo das mudanças climáticas se propaga pela cadeia alimentar global. Consequentemente, o Goldman Sachs afirmou que as consequências podem levar até o segundo semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”.

A maior parte do atraso se deve ao momento em que eventos climáticos extremos afetam a produção de alimentos, considerando os diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita para os diversos tipos de culturas. Desafios logísticos – incluindo os níveis de água em canais e rios utilizados para importantes remessas – também terão impacto.

“O El Niño não afeta a agricultura de forma uniforme. Ele remodela os padrões globais de chuva e temperatura, criando regiões vencedoras e perdedoras”, afirmaram analistas do UBS. Algumas regiões podem se beneficiar de condições climáticas mais quentes. 

Um trabalhador segura uma amostra de grãos de soja. Fotografia: Fred Scheiber/AFP/Getty

Analistas afirmam que o El Niño agravaria os problemas causados ​​pela guerra com o Irã, adicionando dificuldades na cadeia de suprimentos de alimentos aos preços já elevados e à escassez de fertilizantes e energia. “Mesmo pequenas interrupções no fornecimento poderiam desencadear oscilações de preços muito maiores do que as previstas pelos padrões históricos”, disseram os analistas do UBS.

Normalmente, o El Niño acarreta riscos elevados de seca no sul da África e no norte da América do Sul, mas também de inundações no sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Analistas afirmam que os países de baixa renda – já os mais afetados pelo conflito com o Irã – provavelmente sofrerão mais.

“O El Niño já começou a afetar as colheitas, provocando uma estação das monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

O impacto provavelmente será sentido em todo o mundo.

Analistas afirmam que a seca no sudeste asiático pode afetar o fornecimento de óleo de palma – um ingrediente importante em alimentos processados ​​– enquanto as colheitas de café e cacau também podem ser prejudicadas. Condições climáticas mais quentes e úmidas podem agravar a disseminação de doenças, afetando a produtividade agrícola nos próximos anos.

Na América do Norte, o impacto do El Niño é mais forte no inverno, e embora as condições na Europa possam ser influenciadas pelo fenômeno climático, analistas afirmam que outros fatores – como o efeito sobre os preços globais dos alimentos – serão onde ele será sentido.

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%, com a soja, o milho e o arroz apresentando os maiores aumentos.

Pêssegos à venda em um mercado ao ar livre em Chauvigny, França.

O impacto mais profundo do El Niño na Europa provavelmente virá do aumento dos preços, e não de eventos climáticos extremos. Fotografia: lucentius/Getty Images/iStockphoto

A forma como os preços se refletem nas prateleiras depende das estratégias de mitigação e das políticas nacionais. Fatores como a demanda do consumidor e os preços no varejo também desempenham um papel importante.

Segundo o UniCredit, a possibilidade de um cenário extremo de El Niño permanece alta. Isso poderia levar a uma queda de 14,3% na produção agrícola global – o equivalente a US$ 342 bilhões (R$ 254 bilhões) em perdas de produção, afirmou a instituição.

“Os choques de preços podem atingir de 10% a 50% nas principais commodities, enquanto as culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café – podem subir de 50% a 100% ou mais”, afirmou o banco. “O sistema alimentar entra no segundo semestre de 2026 com reservas, mas com pouca margem para erros.”


Fonte: The Guardian

MPF abre inquérito para investigar contaminação por agrotóxicos em terra indígena no MT

Investigação apura possível contaminação na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal, após estudo identificar resíduos de agrotóxicos em plantas medicinais consumidas por indígenas

Por Redação da Única News

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar uma possível contaminação por agrotóxicos na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (473 km de Cuiabá). A medida foi publicada nesta sexta-feira (10) e tem como objetivo aprofundar as investigações sobre os impactos à saúde da comunidade indígena Nambikwara e ao meio ambiente.

Segundo a portaria, a investigação começou após uma reportagem denunciar o uso de agrotóxicos proibidos internacionalmente nas proximidades da terra indígena.

O documento cita um estudo do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que encontrou resíduos de agrotóxicos em 88% das amostras de plantas medicinais cultivadas pelos indígenas, como breozinho, pata-de-vaca e raiz-doce. Entre as substâncias identificadas estão carbofurano, atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido. Segundo o MPF, algumas delas são proibidas na União Europeia e, no caso do carbofurano, também no Brasil.

A portaria também menciona relatos de lideranças indígenas sobre o aumento de problemas de saúde na comunidade, incluindo doenças respiratórias, fortes dores de cabeça e casos de aborto espontâneo. Conforme o MPF, há suspeitas de que esses problemas estejam relacionados à pulverização aérea de agrotóxicos e à contaminação de corpos d’água próximos ao território indígena.

Outro ponto destacado é que Sapezal figura como o segundo maior consumidor de agrotóxicos de Mato Grosso, o que, segundo o Ministério Público Federal, pode ampliar a exposição da população indígena às substâncias utilizadas nas lavouras de soja e algodão que cercam a terra indígena.

Com a conversão da notícia de fato em inquérito civil, o MPF pretende monitorar a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos consumidos pela comunidade, mapear possíveis pulverizações irregulares no entorno da Terra Indígena Tirecatinga e adotar medidas para reduzir os impactos à saúde e à subsistência dos indígenas Nambikwara.

Entre as primeiras providências determinadas estão a solicitação de informações técnicas ao Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), ao Ministério da Saúde, ao Ibama e ao Ministério do Meio Ambiente, além do compartilhamento dos autos com o Ofício de Populações Indígenas do MPF em Mato Grosso para atuação conjunta.


Fonte: Única News

El Niño muito forte à vista: o problema não é apenas prever o desastre, mas continuar produzindo suas causas

Com 81% de chance de um evento extremo, novo alerta mostra que a crise climática já não pode ser tratada como uma sucessão de anomalias naturais

Uma reportagem da jornalista Jéssica Maes, publicada pela Folha de S.Paulo, traz um alerta que deveria ser tratado com muito mais seriedade do que normalmente recebem as previsões climáticas: segundo a agência meteorológica dos Estados Unidos (NOAA), a chance de formação de um El Niño muito forte chegou a 81%. Além disso, há 69% de probabilidade de o fenômeno se estender até abril do próximo ano.

A informação é particularmente preocupante porque um El Niño muito forte não representa apenas uma variação passageira do clima. Como mostra a reportagem, episódios dessa magnitude tendem a intensificar secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras, além de elevar as temperaturas globais. No Brasil, os efeitos conhecidos incluem secas mais intensas na Amazônia e no Nordeste e aumento das chuvas no Sul e em partes do Sudeste.

A imagem que acompanha a reportagem é, nesse sentido, quase uma antecipação do que pode estar por vir. Uma embarcação encalhada no porto de Maués, no Amazonas, em razão do baixo nível do rio Maués-Açu, sintetiza os efeitos concretos de um clima cada vez mais extremo. A crise climática não se manifesta apenas nos gráficos dos centros de pesquisa. Ela aparece nos rios que desaparecem, nas plantações perdidas, nas cidades inundadas e na vida das populações que dependem diretamente dos ciclos da natureza.

Mas há um problema adicional. O El Niño continua sendo frequentemente apresentado como se fosse o único responsável pelas catástrofes que acompanham sua passagem. O fenômeno é natural, mas agora atua sobre um planeta já aquecido pela emissão massiva de gases de efeito estufa. O resultado é uma combinação particularmente perigosa: a variabilidade natural do clima encontra oceanos mais quentes, atmosferas mais carregadas de energia e territórios profundamente vulneráveis.

É por isso que não basta anunciar que o próximo El Niño poderá ser muito forte. Governos precisam preparar sistemas de saúde, abastecimento de água, defesa civil, produção de alimentos e infraestrutura urbana. No entanto, também é necessário enfrentar a questão que quase sempre fica em segundo plano: continuamos ampliando o desmatamento, a dependência dos combustíveis fósseis e modelos econômicos baseados na exploração intensiva da natureza, enquanto tratamos cada novo desastre como uma surpresa.

A reportagem de Jéssica Maes cumpre um papel importante ao mostrar a gravidade do cenário que se aproxima. O que falta, como de costume, é transformar alertas científicos em decisões políticas. Afinal, quando uma probabilidade de 81% de um El Niño muito forte encontra um país marcado por desigualdades sociais, cidades despreparadas e ecossistemas sob pressão, o desastre deixa de ser apenas climático. Ele passa a ser, sobretudo, político.

Agronegócio quer socializar os prejuízos climáticos, mas não a responsabilidade pela crise

Bancada ruralista pede renegociação geral de dívidas e juros menores por perdas provocadas por secas e enchentes, enquanto o modelo agropecuário permanece no centro da crise climática brasileira

Uma reportagem da jornalista Fernanda Brigatti, publicada pela Folha de S.Paulo, informa que a bancada do agronegócio no Congresso Nacional apresentou ao Ministério da Fazenda uma contraproposta para uma ampla renegociação das dívidas rurais. Entre as reivindicações estão prazos de até dez anos para pagamento, dois anos de carência sem juros e taxas menores para produtores que sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.  A cobrança revela uma das contradições mais evidentes do agronegócio brasileiro. O setor exige que o Estado e, portanto, toda a sociedade absorvam parte crescente dos prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos, mas evita reconhecer sua própria responsabilidade na produção das condições que tornam esses eventos mais frequentes e destrutivos.

Na narrativa construída pelas entidades do setor, a seca aparece apenas como seca, a enchente como enchente e a quebra de safra como uma fatalidade natural. Desaparece da equação o fato de que o modelo de expansão agropecuária brasileiro está profundamente associado ao desmatamento, à conversão de ecossistemas, à expansão de pastagens e monoculturas e à degradação dos sistemas naturais que regulam o clima e o ciclo hidrológico.

É preciso, evidentemente, diferenciar pequenos e médios produtores de grandes proprietários e corporações agropecuárias. Produtores efetivamente atingidos por eventos climáticos extremos não podem ser abandonados. Mas é exatamente por isso que causa estranheza a tentativa da bancada ruralista de ampliar a renegociação para além daqueles que comprovadamente sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.

O que se pretende, assim, é transformar uma política de socorro a vítimas de eventos climáticos extremos em uma renegociação geral das dívidas do setor. E o cardápio de reivindicações inclui até a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Em outras palavras, quando os lucros são elevados, eles permanecem privados; quando chegam as secas, enchentes, quebras de safra e crises de endividamento, os prejuízos devem ser repartidos com toda a sociedade.

Há ainda uma contradição política que não pode ser ignorada. A mesma bancada ruralista que agora invoca as “perdas climáticas” para exigir condições financeiras excepcionais tem atuado sistematicamente pela flexibilização da legislação ambiental, pelo enfraquecimento do licenciamento e pela expansão da fronteira agropecuária. O setor quer proteção pública contra os efeitos da crise climática, mas resiste às medidas destinadas a enfrentar suas causas.

A agricultura é, sem dúvida, uma das principais vítimas do aquecimento global. Mas, no Brasil, o agronegócio é também um dos seus principais motores. Essa dupla condição não pode continuar sendo ocultada por um discurso que apresenta o setor apenas como vítima de fenômenos naturais imprevisíveis. Secas e enchentes cada vez mais intensas fazem parte de uma crise climática cuja produção tem responsáveis econômicos e políticos.

Uma renegociação voltada aos produtores efetivamente atingidos pode ser necessária e socialmente justificável. Mas ela deveria exigir comprovação das perdas, diferenciação por porte econômico, cumprimento da legislação ambiental e compromissos concretos de adaptação e redução de emissões. Sem isso, o socorro climático corre o risco de se transformar em mais um subsídio público a um modelo que contribui para aprofundar a própria crise da qual agora pede proteção.

No fundo, a fórmula é conhecida: o agronegócio quer privatizar os lucros, socializar os prejuízos e deixar de fora da conta a sua responsabilidade pela crise climática. E talvez seja justamente essa a dívida que a bancada ruralista menos queira renegociar.

Em Campos dos Goytacazes, a distância também é uma forma de desigualdade

Estudo mostra que moradores das periferias e dos distritos pagam com mais tempo e dificuldades pelo acesso à cidade

Há trabalhos acadêmicos que cumprem corretamente as exigências formais de um curso universitário. E há aqueles que, além disso, ajudam a enxergar com maior clareza problemas que estão diante de nós, mas que frequentemente são tratados de forma fragmentada. É nesse segundo grupo que situo o trabalho de conclusão de curso de Gustavo Araujo Bezerra, intitulado A mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes (RJ): mecanismo de perpetuação da segregação socioespacial ou ferramenta de garantia do direito à cidade?.

O trabalho foi apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e aprovado em 2 de julho de 2026. Tive a satisfação de orientar Gustavo Araújo nessa pesquisa, que combinou a aplicação de 151 questionários com usuários do transporte coletivo, entrevistas com representantes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) e observações de campo. O estudo retira a mobilidade urbana do terreno estreito da engenharia de tráfego e a coloca onde ela efetivamente deve estar: no centro da discussão sobre desigualdade, segregação socioespacial e direito à cidade.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que, em Campos dos Goytacazes, a experiência de circular pela cidade é profundamente condicionada pelo lugar onde se mora. Os moradores dos bairros periféricos e dos distritos mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento, maior dependência do transporte coletivo e mais dificuldades para acessar trabalho, educação, saúde e lazer. A distância em relação ao centro não é apenas uma medida em quilômetros: ela se transforma em tempo perdido e em redução concreta das possibilidades de participação na vida urbana.

A pesquisa mostra ainda que os moradores das áreas mais distantes avaliam o sistema de forma mais negativa, especialmente quanto ao tempo de deslocamento, à disponibilidade do serviço e ao acesso aos equipamentos urbanos. Parte da população recorre a modalidades alternativas ou informais para contornar as limitações do sistema formal. O que poderia parecer uma simples escolha de transporte revela-se, assim, uma estratégia diante de um sistema incapaz de garantir condições equivalentes de circulação aos diferentes territórios do município.

É justamente nesse ponto que a mobilidade deixa de ser apenas uma questão de ônibus, linhas e horários. O morador periférico não está somente mais distante dos serviços e oportunidades: ele paga por essa distância com horas adicionais de deslocamento, menor previsibilidade e maior dependência de um sistema precário. A segregação socioespacial se expressa, portanto, não apenas no lugar onde cada grupo social consegue morar, mas também nas condições concretas que possui para acessar o restante da cidade.

Gustavo Araújo também identifica uma distância significativa entre o planejamento formal e a realidade vivida pelos usuários. Embora o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável contenha diretrizes voltadas à acessibilidade, à integração dos transportes e à mobilidade sustentável, sua implementação permanece limitada. Persistem problemas de cobertura, frequência e integração do transporte coletivo, além da ausência de uma rede cicloviária efetivamente conectada.

Mas talvez a conclusão politicamente mais incômoda do trabalho seja outra. Entre 1999 e 2024, Campos dos Goytacazes recebeu mais de R$ 37 bilhões em royalties e participações especiais do petróleo. Ainda assim, chegou a 2026 com um sistema de mobilidade incapaz de assegurar condições minimamente equitativas de acesso ao seu território. A disponibilidade excepcional de recursos não produziu uma estrutura capaz de reduzir desigualdades territoriais historicamente acumuladas.

Isso significa que o problema de Campos não pode ser atribuído simplesmente à falta de dinheiro. A questão está também nas escolhas políticas feitas ao longo de décadas sobre onde investir, que territórios conectar e quais grupos sociais priorizar. A precariedade da mobilidade não é apenas uma deficiência administrativa ou operacional; ela é também resultado de uma determinada forma de produzir e governar o espaço urbano.

Como orientador deste trabalho, considero especialmente relevante que uma pesquisa produzida por um novo cientista social formado pelo curso de Ciências Sociais da UENF ofereça uma contribuição tão concreta ao debate sobre Campos dos Goytacazes. A universidade pública cumpre uma de suas funções mais importantes quando forma estudantes capazes de olhar criticamente para o território em que vivem e produzir conhecimento sobre suas contradições.

O estudo de Gustavo Araújo mostra, afinal, que a mobilidade pode funcionar tanto como instrumento de integração quanto como mecanismo de segregação. Em Campos dos Goytacazes, as evidências reunidas sugerem que, para uma parcela significativa da população, ela ainda opera muito mais como barreira do que como garantia de direitos. Enquanto o acesso à cidade continuar dependendo do lugar onde se mora, o direito à cidade continuará sendo distribuído de forma profundamente desigual.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a monografia de graduação de Gustavo Araújo, basta clicar [Aqui!].

A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

Por trás do discurso de “gestão hídrica” e conservação ambiental, seguem sem resposta as contradições envolvendo o Aquífero Emborê, a exclusão territorial e a violência lenta em São João da Barra

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

O greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.

O El Niño está voltando. Porto Alegre está preparada para a próxima grande enchente?

Dois anos depois da catástrofe de 2024, obras avançaram, mas vulnerabilidades persistem justamente quando o risco climático volta a aumentar

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (8) pelo Matinal traz uma pergunta que deveria preocupar não apenas os moradores de Porto Alegre, mas todas as cidades brasileiras expostas a eventos climáticos extremos: depois da catástrofe de 2024, quanto foi realmente feito para impedir que um desastre daquela dimensão volte a ocorrer?

Assinada pelo jornalista João Neto, a reportagem parte de uma circunstância particularmente preocupante. Pouco mais de dois anos depois das enchentes que atingiram 96% dos municípios do Rio Grande do Sul e provocaram 185 mortes, o El Niño volta ao horizonte. Em 2024, o fenômeno climático, intensificado pelos efeitos das mudanças climáticas, foi um dos fatores que contribuíram para a sequência excepcional de chuvas e enchentes que devastou o estado. Agora, quando um novo episódio se aproxima, o levantamento da Matinal mostra que Porto Alegre ainda convive com importantes fragilidades em seu sistema de proteção, especialmente nas ilhas e na zona sul.

O problema central é que a tragédia de 2024 não resultou apenas de uma chuva extraordinária. O desastre climático encontrou um sistema urbano enfraquecido por falhas de manutenção, deficiências de gestão e intervenções que comprometeram estruturas originalmente projetadas para proteger a cidade. No Centro, falhas nas casas de bombas permitiram que a água emergisse pelo sistema subterrâneo. No bairro Sarandi e em áreas de Canoas, trechos de diques teriam sido construídos 1,5 metro abaixo das cotas previstas nos projetos originais. Houve ainda o enfraquecimento de estruturas na zona norte, o rompimento de uma comporta próxima ao Aeroporto Salgado Filho e problemas de refluxo em estações de bombeamento.

Esses fatos ajudam a desmontar uma interpretação bastante conveniente segundo a qual a catástrofe de 2024 teria sido simplesmente um evento natural de magnitude imprevisível. Chuvas extremas ocorreram, sem dúvida, mas seus efeitos foram amplificados pela forma como o território urbano foi administrado. A diferença entre um evento climático extremo e uma catástrofe social costuma estar justamente aí: na qualidade da infraestrutura, na manutenção dos sistemas de proteção, no planejamento territorial e na capacidade das instituições públicas de agir antes que a água chegue.

É preciso reconhecer que obras foram iniciadas depois de 2024. A prefeitura afirma que há intervenções em diques, comportas, casas de bombas e redes de drenagem. Entretanto, o próprio balanço oficial mostra que algumas obras importantes continuam em andamento. A substituição das comportas 11 e 12, por exemplo, ainda tinha conclusão prevista para julho de 2026. Reportagens anteriores também já haviam mostrado que, em abril deste ano, reformas em casas de bombas, comportas e diques permaneciam inconclusas e que as melhorias realizadas seriam capazes de conter apenas parcialmente os efeitos de uma cheia semelhante à de maio de 2024.

A questão, portanto, não é negar o que foi feito, mas perguntar se o ritmo e a escala das intervenções correspondem ao tamanho do risco. Há uma diferença fundamental entre afirmar que uma cidade está mais protegida do que estava em maio de 2024 e demonstrar que ela está efetivamente preparada para enfrentar outro evento daquela magnitude. Quando o sistema ainda possui obras incompletas e áreas vulneráveis, a primeira afirmação pode ser verdadeira sem que a segunda também seja.

Esse é um ponto decisivo porque a emergência climática alterou os parâmetros sobre os quais as cidades brasileiras foram planejadas. Sistemas de drenagem, diques, comportas e estações de bombeamento concebidos com base nas estatísticas do século XX precisam agora operar em um clima diferente. O passado já não oferece necessariamente uma medida segura para o futuro, pois eventos antes classificados como excepcionais tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade.

Porto Alegre oferece, nesse sentido, uma advertência para o restante do Brasil. O país continua tratando a adaptação climática como se ela pudesse avançar no ritmo normal da burocracia administrativa, enquanto o clima muda em outra velocidade. Depois de cada desastre, multiplicam-se anúncios, projetos, licitações e promessas de reconstrução. Mas a verdadeira medida da capacidade de adaptação não está no volume de anúncios feitos depois que a água baixa. Está na quantidade de obras concluídas, sistemas testados, equipes treinadas e populações protegidas antes que a próxima chuva extrema comece.

Também é necessário perguntar quem permanece mais exposto quando a proteção é incompleta. Como quase sempre ocorre nos desastres ambientais, a vulnerabilidade não se distribui igualmente pelo território. Os moradores das áreas mais baixas, das ilhas, das periferias e das zonas onde a infraestrutura urbana é mais precária são aqueles que carregam o maior risco. Quando o poder público demora a concluir sistemas de proteção, essa demora também possui uma geografia social.

A reportagem da Matinal é importante justamente porque desloca a discussão do passado para o futuro próximo. A pergunta já não é apenas por que Porto Alegre inundou em 2024, mas o que acontecerá se uma nova combinação de chuvas extremas, rios elevados e falhas de infraestrutura voltar a ocorrer. Essa pergunta se torna ainda mais urgente diante da possibilidade de um novo El Niño.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma ruptura definitiva com a lógica de negligência que marcou a gestão da infraestrutura de proteção contra enchentes. Dois anos depois, contudo, a existência de obras ainda inconclusas e de territórios persistentemente vulneráveis mostra que a distância entre aprender com um desastre e simplesmente reconstruir depois dele continua sendo grande.

O El Niño pode voltar. As chuvas extremas certamente voltarão, seja durante este episódio ou em algum momento posterior. A única variável sobre a qual a sociedade possui algum controle é o grau de preparação existente quando isso acontecer. E é justamente por isso que a pergunta formulada pela reportagem da Matinal precisa continuar sendo feita: Porto Alegre está realmente protegida ou apenas menos desprotegida do que estava em maio de 2024?

Este comentário foi elaborado a partir da reportagem “El Niño à vista: como está a proteção antienchente em Porto Alegre”, de João Neto, publicada pela Matinal em 8 de julho de 2026

Microplásticos também estão na comida dos animais

Estudo encontrou contaminação em 76% dos alimentos comerciais analisados e revela uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas

A contaminação planetária por plásticos parece determinada a destruir, uma após outra, todas as fronteiras que imaginávamos capazes de nos separar dos resíduos produzidos pela sociedade capitalista. Depois de estudos científicos encontrarem microplásticos nos oceanos, rios, solos, atmosfera, alimentos e até em diferentes órgãos do corpo humano, um novo estudo mostra que eles também estão presentes na comida oferecida diariamente aos animais domésticos.

O estudo Microplastic prevalence in commercially available petfoods, publicado em maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, foi realizado por Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, pesquisadores das universidades britânicas de Sussex e Exeter e dos Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace. O trabalho analisou 38 produtos comercializados no Reino Unido para cães, gatos e ouriços, abrangendo 19 marcas, diferentes faixas de preço e alimentos secos e úmidos. Para reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados por episódios isolados de contaminação, os pesquisadores analisaram seis unidades de lotes diferentes de cada produto, totalizando 228 amostras.

Os resultados são muito preocupantes. Das 228 amostras analisadas, 27,6% continham microplásticos confirmados. Quando a análise passa para os produtos comerciais, o quadro se torna ainda mais expressivo: 76,3% dos 38 produtos apresentaram pelo menos uma amostra contaminada e quase metade teve duas ou mais amostras positivas. Entre as 19 marcas analisadas, apenas três não apresentaram microplásticos.

E mesmo esses números podem representar uma subestimativa. Os pesquisadores analisaram apenas um grama de alimento por embalagem, e a metodologia empregada não era capaz de detectar as partículas de dimensões muito pequenas. Uma investigação de volumes maiores e com técnicas mais sensíveis poderia, portanto, revelar uma contaminação ainda mais ampla. 

Por outro lado, os pesquisadores  também encontraram 95 partículas confirmadas de microplásticos, com dimensões entre 0,09 e 3,8 milímetros. As fibras representaram 60% das partículas, enquanto os fragmentos corresponderam aos 40% restantes. Entre os polímeros mais frequentes estavam o poliéster, a poliacrilamida, o polipropileno e o polietileno, materiais associados à produção têxtil, aos processos industriais e às embalagens.

Essa diversidade  de microplásticos sugere que não existe uma única fonte de contaminação. Os microplásticos podem estar entrando nos alimentos por meio dos ingredientes utilizados na fabricação das rações, do desgaste de máquinas, dos ambientes industriais e das próprias embalagens. O poliéster, o polímero mais frequente, pode chegar à cadeia alimentar inclusive por meio da aplicação de lodo de esgoto contaminado em solos agrícolas. Já o polietileno e o polipropileno podem ser liberados durante o processamento, o transporte, o manuseio e a abertura dos pacotes.

Um dos resultados mais inquietantes se refere à composição dos alimentos. Dos 21 produtos que continham os chamados “derivados de carne e de origem animal”, 90,4% apresentaram pelo menos uma amostra positiva para microplásticos. Os três produtos com pior desempenho — aqueles nos quais cinco das seis amostras estavam contaminadas — continham esses derivados.

Os autores também encontraram maior frequência de contaminação nos produtos mais baratos. Isso não significa, entretanto, que comprar rações mais caras resolva o problema, pois os microplásticos apareceram em todas as faixas de preço e em diferentes tipos de alimento. O preço parece influenciar a probabilidade de contaminação, mas não oferece qualquer garantia de proteção.

À primeira vista, os alimentos secos pareceriam representar o maior risco, pois apresentaram mais partículas por grama. Entretanto, quando os pesquisadores calcularam a exposição diária efetiva, o quadro se inverteu. Como os alimentos úmidos possuem menor densidade energética, os animais precisam consumir uma quantidade maior para obter a mesma quantidade de energia e, com isso, acabam ingerindo mais microplásticos.

O problema não termina no organismo dos animais. Parte dos microplásticos ingeridos é eliminada pelas fezes, que podem permanecer diretamente no ambiente ou ser destinadas à compostagem. Com isso, a ração contaminada se transforma em uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas.

Essa circulação torna-se ainda mais complexa porque alimentos destinados a cães e gatos também são consumidos por animais silvestres. Raposas, texugos e ouriços visitam jardins urbanos e comem alimentos deixados por seres humanos, enquanto centros de reabilitação da fauna utilizam grandes quantidades de rações comerciais. O que parecia ser apenas uma questão de segurança alimentar dos animais domésticos passa, portanto, a constituir também um problema ecológico.

O fato é que o estudo de Thrift e seus colegas mostra que a poluição por plásticos alcançou um estágio no qual aquilo que descartamos retorna continuamente para dentro dos sistemas vivos. O plástico presente nos ingredientes, máquinas, tecidos ou embalagens entra no alimento, é consumido pelos animais, circula pelos organismos e retorna ao ambiente por meio das fezes. A conclusão talvez seja a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais incômoda: não existe um “fora” para onde possamos mandar o plástico. Ele volta. E agora sabemos que também volta na tigela de comida dos animais que vivem conosco.

O artigo “Microplastic prevalence in commercially available petfoods”, de Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, foi publicado em 21 de maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, pode ser baixado [Aqui!].

Quando o licenciamento ambiental vira um balcão de negócios, quem paga a conta é a sociedade

A operação deflagrada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro contra suspeitas de corrupção e irregularidades na concessão de licenças ambientais no Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e na Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca) deveria provocar muito mais do que a curiosidade habitual despertada por mandados de busca e apreensão, dinheiro em espécie e relógios encontrados nas residências dos investigados. O que está em jogo é algo muito mais grave: a possibilidade de que o principal instrumento de prevenção de danos socioambientais do estado do Rio de Janeiro tenha sido deliberadamente manipulado para favorecer interesses empresariais. Batizada de Operação Hidra de Lerna, a investigação alcançou servidores e ex-dirigentes do Inea e levou ao afastamento cautelar do presidente da Ceca, Maurício Couto Cesar Junior. Entre os alvos das buscas aparecem também o ex-presidente do Inea, Renato Jordão Bussiere, e o ex-vice-presidente José Dias da Silva. Segundo as informações divulgadas, os investigados são suspeitos da prática de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e crimes ambientais. É importante registrar, naturalmente, que se trata de uma investigação em curso e que as responsabilidades individuais ainda deverão ser estabelecidas pelas instâncias competentes.

Mas os fatos já tornados públicos são suficientemente graves para exigir uma discussão que vá muito além da dimensão policial do caso. Segundo o Ministério Público, decisões tomadas entre 2024 e 2025 teriam favorecido empreendimentos de alto impacto ambiental por meio da concessão de licenças de instalação e operação e, ainda mais grave, da dispensa de Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental, os conhecidos EIA/Rima. Tudo isso teria ocorrido apesar de questionamentos apresentados pelas próprias áreas técnicas do Inea e até por órgãos federais como o Ibama. Se essas suspeitas forem confirmadas, não estaremos diante de simples irregularidades burocráticas, pois o licenciamento ambiental existe justamente para impedir que os custos ambientais e sociais de grandes empreendimentos sejam transferidos silenciosamente para a população. Um EIA/Rima não constitui uma peça ornamental, muito menos um obstáculo administrativo inventado para atrasar investimentos. Ele deve identificar impactos sobre a água, o solo, o ar, a biodiversidade, as comunidades tradicionais, os trabalhadores, a saúde pública, a infraestrutura urbana e os modos de vida existentes nos territórios onde grandes projetos pretendem se instalar.

Quando um empreendimento de alto impacto consegue escapar dessas exigências, alguém necessariamente fica exposto aos riscos que deveriam ter sido identificados, avaliados, mitigados ou até considerados inaceitáveis, e esse alguém quase nunca é a empresa beneficiada. A experiência fluminense mostra que os grandes custos da implantação de portos, termelétricas, minerodutos, gasodutos, complexos petroquímicos, aterros, grandes empreendimentos imobiliários e outras atividades potencialmente degradadoras recaem desproporcionalmente sobre populações que dispõem de menor capacidade política e econômica para se defender. São pescadores artesanais que perdem acesso às áreas de pesca, agricultores que veem suas terras desvalorizadas ou expropriadas, comunidades expostas à poluição atmosférica e hídrica, bairros que recebem fluxos adicionais de caminhões e riscos industriais, além de ecossistemas cuja destruição raramente aparece na contabilidade econômica dos empreendimentos.

É por isso que uma eventual fraude no licenciamento ambiental representa uma forma particularmente grave de corrupção. Na corrupção convencional, recursos públicos são desviados e patrimônios privados aumentam; na corrupção ambiental, além disso, os danos podem permanecer durante décadas. Um ecossistema destruído não retorna quando alguém é condenado, um aquífero contaminado não se recupera com a devolução do dinheiro desviado, uma comunidade deslocada não recompõe automaticamente seu território e uma população submetida durante anos à poluição não recupera a saúde porque uma operação policial finalmente identificou os responsáveis. A dimensão socioambiental do problema, portanto, não pode aparecer como simples consequência lateral de um eventual esquema de corrupção, pois ela constitui o próprio núcleo material dos danos que podem ter sido produzidos.

Há ainda outro aspecto que considero particularmente inquietante e que, neste momento, desperta a minha principal curiosidade. As reportagens informam que os favorecimentos teriam alcançado “empreendimentos de alto impacto ambiental”, mas, até agora, não dizem claramente quais são esses empreendimentos, quais empresas foram beneficiadas e em quais municípios eles estão localizados. Quero saber quais grandes empresas se beneficiaram das decisões que agora estão sob investigação, quais licenças foram concedidas, modificadas ou aceleradas, quais empreendimentos conseguiram dispensar a elaboração de EIA/Rima, quais pareceres técnicos foram contrariados e quais advertências feitas pelos servidores do próprio Inea ou pelo Ibama acabaram ignoradas. Quero saber, sobretudo, em quais municípios do interior fluminense esses empreendimentos estão localizados.

Essa questão está longe de ser secundária, pois o interior do estado do Rio de Janeiro tornou-se, nas últimas décadas, território preferencial para a instalação de grandes complexos portuários, petrolíferos, gasíferos, industriais, logísticos e imobiliários. Em muitos desses municípios, as grandes empresas adquiriram uma capacidade econômica e política desproporcional em relação às instituições locais e às comunidades diretamente afetadas por seus projetos. Por isso, a revelação dos nomes dos empreendimentos e de sua localização geográfica permitirá compreender se estamos diante de episódios isolados ou de algo muito mais profundo: a possível captura institucional do licenciamento ambiental por interesses empresariais que aprenderam a transformar órgãos públicos responsáveis pela fiscalização em facilitadores privados de seus projetos.

O próprio nome escolhido pelo Ministério Público para a operação é sugestivo. Na mitologia grega, a Hidra de Lerna possuía várias cabeças e, quando uma delas era cortada, outras surgiam em seu lugar. A metáfora utilizada pelo MPRJ parece indicar que os investigadores suspeitam de uma estrutura ramificada, e não simplesmente da conduta isolada de um ou outro servidor. Se essa hipótese se confirmar, será necessário investigar não apenas quem supostamente recebeu vantagens, mas também quem as ofereceu e, principalmente, quem se beneficiou concretamente das decisões administrativas adotadas. Não basta conhecer os nomes dos agentes públicos investigados, pois é indispensável conhecer o outro lado da relação: empresas não são personagens passivos em esquemas de favorecimento. Se houve licenças concedidas contra pareceres técnicos, se exigências legais foram contornadas e se empreendimentos de alto impacto foram dispensados de estudos ambientais obrigatórios, é preciso identificar quem ganhou economicamente com essas decisões.

A sociedade fluminense tem o direito de conhecer a geografia completa desse possível esquema. Onde estão os empreendimentos, quais ecossistemas foram colocados em risco, quais comunidades vivem em seu entorno, quais audiências públicas deixaram de ocorrer, quais impactos deixaram de ser estudados e quais condicionantes foram reduzidas ou simplesmente eliminadas? Essas perguntas são particularmente importantes para quem acompanha há anos os conflitos socioambientais existentes no interior fluminense. Em diferentes regiões do estado, grandes empreendimentos avançaram sobre territórios ocupados por pescadores, agricultores familiares e comunidades tradicionais sob a promessa recorrente de desenvolvimento, empregos e modernização. Muitas vezes, os benefícios foram privatizados, enquanto os custos ambientais e sociais permaneceram nos territórios.

A Operação Hidra de Lerna poderá, portanto, revelar algo que ultrapassa em muito a conduta dos servidores investigados, mostrando como funciona, por dentro, a relação entre poder econômico e regulação ambiental no estado do Rio de Janeiro. Mas, para que isso aconteça, será necessário seguir o dinheiro, os processos administrativos, as licenças e, sobretudo, os mapas, pois, quando finalmente soubermos quais empresas foram beneficiadas e em quais municípios os empreendimentos estão instalados, talvez possamos compreender a verdadeira dimensão socioambiental daquilo que agora começa a aparecer. Desconfio que a geografia desse possível esquema poderá ser muito mais reveladora do que a lista dos nomes que hoje aparecem nas manchetes.

Uma ameaça invisível: agrotóxicos estão afetando a saúde e o desenvolvimento infantil

Por Pan UK

Um novo relatório publicado pelo UNICEF no início desta semana revela que a rápida expansão global do uso de agrotóxicos — que mais que dobrou entre 1990 e 2022 — superou em muito a proteção das crianças.

As crianças são expostas a agrotóxicos por meio de alimentos e água, uso em residências, jardins, escolas e espaços públicos. Elas também enfrentam exposição por meio da contaminação ambiental causada pela deriva da pulverização, manejo inadequado de agrotóxicos e  seus resíduos nas roupas. O uso contínuo de agrotóxicos altamente perigosos (HHPs), que apresentam riscos agudos ou crônicos particularmente graves, intensifica esses riscos.

A exposição durante a gravidez e na infância pode levar a problemas de saúde para toda a vida. Os agrotóxicos prejudicam o sistema imunológico, comprometem a função pulmonar e agravam a asma. A exposição também pode afetar a saúde reprodutiva e causar danos aos órgãos e cânceres infantis, incluindo leucemia.

Um número crescente de estudos demonstra os efeitos dos agrotóxicos nos resultados do nascimento e um risco aumentado de anomalias congênitas. A exposição pré-natal a agrotóxicos  está associada a fendas orais, anomalias cardiovasculares e defeitos do tubo neural. Alguns estudos mostraram que a exposição a pesticidas está associada ao risco de baixo peso ao nascer.

Uma área de grande preocupação clínica é a relação entre a exposição crônica a baixos níveis de agrotóxicos e o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Genotoxicidade refere-se à capacidade de uma substância danificar o material genético, o que pode levar a defeitos hereditários. Evidências crescentes mostram que crianças e adolescentes que vivem em áreas agrícolas ou trabalham na agricultura correm o risco de sofrer danos genotóxicos.

Existem mais de 1.000 substâncias químicas sintéticas, incluindo certos agrotóxicos, que são conhecidas ou potencialmente disruptoras endócrinas (EDCs); este é um número enorme e pode ser uma subestimação. Estudos epidemiológicos em humanos sugerem que as EDCs em crianças afetam o crescimento pré-natal, a função tireoidiana, o metabolismo da glicose, a obesidade, a puberdade e a fertilidade.

O relatório destaca que a verdadeira dimensão dos danos continua subestimada para as crianças em todo o mundo, com intoxicações e mortes por agrotóxicos significativamente subnotificadas nos sistemas globais de dados e riscos amplificados para os 83,4 milhões de crianças envolvidas no trabalho agrícola.

Exige uma ação urgente e coordenada nos âmbitos regulamentar, agrícola, do sistema de saúde e social, incluindo:

  1. Reforçar os padrões e a avaliação de riscos  para levar em conta as vulnerabilidades específicas das crianças.
  2. Eliminar gradualmente os agrotóxicos altamente perigosos , reduzir a toxicidade ambiental relacionada ao uso de agrotóxicos e incentivar o alinhamento com instrumentos internacionais, como a Convenção-Quadro Global sobre Produtos Químicos de 2023.
  3. Eliminar o trabalho infantil na agricultura  e proteger todas as crianças dos riscos dos agrotóxicos.
  4. Reduzir o risco associado aos agrotóxicos através da promoção de práticas agroecológicas, implementação do manejo integrado de pragas e vetores, limitação de aplicações não essenciais e desenvolvimento de alternativas sustentáveis.
  5. Reduzir os impactos  através do monitoramento, do estabelecimento de zonas de amortecimento em torno de onde as crianças vivem, aprendem e brincam, da melhoria do controle da deriva, da segurança alimentar e das medidas de proteção ocupacional.
  6. Ampliar a educação  sobre os riscos dos agrotóxicos, incluindo armazenamento e manuseio, prevenção em casa e exposição alimentar.
  7. Fortalecer os sistemas de saúde  através da criação de centros de informação toxicológica, treinamento de profissionais de saúde e vigilância epidemiológica.

Leia o relatório completo ” Subestimados e Ignorados: O impacto silencioso dos agrotóxicos nas crianças ” aqui 


Fonte: PAN UK