Brumadinho retorna ao centro da crise mineira: Operação Rejeito ameaça atingir Zema e empresários da mineração

Investigações sobre irregularidades ambientais envolvendo mina ligada a Daniel Vorcaro expõem a persistência da captura do Estado pelos interesses minerários e podem produzir efeitos diretos sobre o projeto presidencial de Romeu Zema

A nova etapa da chamada Operação Rejeito coloca novamente Minas Gerais diante de um problema estrutural que atravessa décadas: a profunda promiscuidade entre grandes grupos mineradores, flexibilização ambiental e poder político. A reportagem publicada pelo jornal O Tempo mostra que documentos apresentados em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais levantam suspeitas sobre o processo que permitiu a retomada das operações da Mina da Jangada, em Brumadinho, posteriormente vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

O aspecto mais grave talvez não seja apenas a existência de possíveis irregularidades administrativas, mas o fato de que elas surgem exatamente no território marcado pela maior tragédia socioambiental da mineração brasileira recente: o rompimento da barragem de Brumadinho, que matou 272 pessoas e devastou a bacia do rio Paraopeba. A simples possibilidade de que estruturas associadas ao mesmo complexo minerário tenham sido reativadas sob suspeitas de fraudes em licenciamento ambiental revela o quanto o modelo mineral mineiro continua baseado numa lógica de captura do Estado pelos interesses privados da mineração.

As denúncias mencionadas na audiência da ALMG apontam para alterações documentais, ausência de páginas, inconsistências nos estudos ambientais e aceleração de procedimentos administrativos. Segundo a própria matéria de O Tempo, moradores e entidades ambientais relacionam o caso aos fatos investigados pela Polícia Federal na Operação Rejeito, que atingiu integrantes do sistema ambiental mineiro e órgãos federais ligados ao licenciamento. O quadro sugere não episódios isolados, mas a existência de uma engrenagem institucional voltada para garantir rapidez e fluidez aos interesses minerários mesmo após Mariana e Brumadinho.

A entrada de Daniel Vorcaro na Itaminas, justamente no período em que a Operação Rejeito ganhava dimensão pública, adiciona um elemento explosivo ao cenário político mineiro. Vorcaro já se tornou uma figura nacionalmente tóxica em razão das investigações envolvendo o Banco Master, suspeitas de fraudes financeiras bilionárias e conexões políticas variadas. O problema para Romeu Zema é que, embora tente atualmente se apresentar como crítico de Vorcaro, a relação entre ambos tende a ser cada vez mais escrutinada.

A situação se torna ainda mais delicada porque Zema busca consolidar-se como candidato presidencial da direita liberal para 2026. Nesse contexto, qualquer associação com esquemas de favorecimento empresarial, irregularidades ambientais ou proximidade com personagens investigados pode corroer precisamente a imagem que ele tenta vender nacionalmente: a de gestor eficiente, austero e moralizador. A revelação de que Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, realizou doação milionária para a campanha de Zema em 2022 amplia o desgaste político potencial.

Há ainda uma dimensão simbólica devastadora para o governador mineiro. Zema governou Minas Gerais durante um período em que o discurso pró-mineração e pró-desburocratização ambiental ganhou enorme força dentro do aparato estadual. A Operação Rejeito ameaça transformar esse discurso em evidência concreta de um modelo de governança ambiental permeável aos interesses das grandes mineradoras e agentes financeiros associados ao setor extrativo.

A situação torna-se ainda mais contraditória para Romeu Zema porque o governador mineiro foi um dos primeiros atores da direita brasileira a constranger publicamente Flávio Bolsonaro após a revelação de que o senador teria buscado apoio financeiro de Daniel Vorcaro para custear um documentário sobre Jair Bolsonaro. Ao tentar se diferenciar do bolsonarismo mais diretamente associado ao banqueiro do Banco Master, Zema agora vê emergirem questionamentos sobre suas próprias conexões políticas e financeiras com o entorno de Vorcaro. A contradição expõe um velho traço da política brasileira: o “roto falando do esfarrapado”. Afinal, ao mesmo tempo em que buscava capitalizar politicamente o desgaste de Flávio Bolsonaro, Zema passa a enfrentar suspeitas que podem associar seu governo ao mesmo ambiente de relações promíscuas entre poder econômico, mineração, financiamento político e flexibilização institucional que hoje se encontra sob investigação.

Mais do que um escândalo circunstancial, o caso evidencia a permanência de um padrão histórico em Minas Gerais: a mineração funcionando não apenas como atividade econômica, mas como força organizadora do próprio Estado. O resultado recorrente é a fragilização dos órgãos de fiscalização, a compressão dos mecanismos de controle social e a transformação do licenciamento ambiental em simples rito burocrático para viabilizar grandes negócios.

A ironia trágica é que tudo isso reaparece justamente em Brumadinho, território que deveria simbolizar o fracasso definitivo do modelo mineral baseado em autorregulação empresarial, complacência institucional e flexibilização ambiental. Em vez disso, o que emerge é a suspeita de que as lições da lama jamais foram plenamente aprendidas.

Segredos financeiros da destruição florestal: como o capital opaco alimenta o desmatamento no Brasil

Relatório internacional revela conexão direta entre fluxos financeiros ilícitos, paraísos fiscais e devastação ambiental na Amazônia

Um novo relatório divulgado pela organização internacional Financial Transparency Coalition (FTC), intitulado Financial Secrets of the Forests: How secrecy fuels deforestation in Brazil and Cameroon, lança luz sobre um dos aspectos menos debatidos — mas centrais — da crise ambiental contemporânea: a relação entre o desmatamento ilegal e os mecanismos globais de ocultação financeira. O estudo mostra que a destruição das florestas tropicais não ocorre apenas por motosserras, correntões e queimadas, mas também por meio de complexas estruturas empresariais opacas, evasão fiscal, lavagem de dinheiro e uso de paraísos fiscais.

O relatório analisa particularmente os casos do Brasil e dos Camarões, demonstrando que a devastação florestal está profundamente integrada aos circuitos internacionais de acumulação de capital. Segundo os autores, Alfonso Daniels, Matti Kohonen e Brián Covaro, a falta de transparência financeira permite que empresas e indivíduos envolvidos em crimes ambientais ocultem os verdadeiros beneficiários de suas operações, movimentem recursos ilegalmente e escapem da responsabilização jurídica.

No caso brasileiro, o estudo destaca que o desmatamento ilegal na Amazônia não é um fenômeno isolado ou espontâneo, mas parte de um sistema econômico estruturado em torno da especulação fundiária, da expansão agropecuária, da mineração e da extração ilegal de madeira. Esse sistema depende fortemente da circulação de fluxos financeiros ilícitos e de mecanismos de ocultação patrimonial para operar em larga escala.

Entre as principais descobertas do relatório está a estimativa de que bilhões de dólares associados à destruição florestal deixam os países produtores por meio de práticas financeiras ilícitas, incluindo manipulação de preços comerciais, evasão tributária e lavagem de dinheiro. O documento afirma que o Brasil perde cerca de US$ 1,28 bilhão em receitas públicas relacionadas ao desmatamento ilícito, enquanto os Camarões perderiam aproximadamente US$ 289 milhões. Esses recursos poderiam ser utilizados em políticas públicas de proteção ambiental, saúde, educação e adaptação climática.

Os autores também enfatizam que a ausência de transparência sobre os chamados “beneficiários finais” — isto é, as pessoas físicas que efetivamente controlam empresas e ativos — cria um ambiente favorável à impunidade. Empresas registradas em paraísos fiscais ou estruturadas por meio de cadeias societárias complexas conseguem esconder os responsáveis diretos por crimes ambientais, dificultando investigações e punições.

Outro aspecto central do relatório é a crítica ao papel desempenhado pelo sistema financeiro internacional. Bancos, fundos de investimento e grandes corporações aparecem como agentes que, direta ou indiretamente, financiam atividades associadas à destruição florestal. Em vez de constituir apenas um problema ambiental localizado, o desmatamento amazônico é apresentado como parte de uma engrenagem global de acumulação financeira.

A pesquisa também alerta para os limites das atuais políticas voluntárias de sustentabilidade corporativa. Segundo o documento, compromissos empresariais de “desmatamento zero” frequentemente convivem com estruturas financeiras que continuam facilitando a expansão de atividades predatórias. Em outras palavras, existe um profundo descompasso entre os discursos verdes corporativos e os mecanismos concretos de financiamento que sustentam o avanço da destruição ambiental.

Entre as recomendações apresentadas pelo relatório estão:

  • criação de registros públicos e transparentes de beneficiários finais de empresas;
  • fortalecimento das políticas de combate à lavagem de dinheiro vinculada a crimes ambientais;
  • integração entre autoridades ambientais, fiscais e financeiras;
  • ampliação da cooperação internacional para rastrear fluxos financeiros ilícitos;
  • responsabilização de instituições financeiras que financiem atividades associadas ao desmatamento.

O relatório também sugere que o combate ao desmatamento exige ir além da fiscalização ambiental tradicional. Sem enfrentar a arquitetura financeira que sustenta a devastação, medidas de comando e controle tendem a ter efeitos limitados. A floresta, nesse sentido, tornou-se não apenas uma fronteira ecológica em disputa, mas também uma peça estratégica da financeirização global.

A principal contribuição do estudo talvez seja justamente explicitar que a crise ambiental amazônica não pode ser compreendida apenas como resultado de “falhas de governança” locais ou de ações individuais de grileiros e madeireiros ilegais. O que está em jogo é um modelo internacional de acumulação que converte florestas, territórios e recursos naturais em ativos financeiros, frequentemente protegidos por estruturas de sigilo corporativo e complacência regulatória.

Em um momento em que governos e grandes empresas multiplicam promessas climáticas e discursos sobre economia verde, o relatório da FTC funciona como um alerta contundente: enquanto os mecanismos financeiros que lucram com a destruição permanecerem intocados, a devastação das florestas tropicais continuará sendo altamente rentável.

Oceanos em colapso e a urgência de uma ciência voltada para a ação

Nova revista científica internacional lança chamado global por soluções concretas para enfrentar a poluição marinha e a crise dos oceanos

A publicação do editorial “Welcome to Clean Oceans: a platform for solutions to ocean pollution and sustainability challenges”, assinado pela pesquisadora Sylvia G. Sander, marca o lançamento da revista científica Clean Oceans e traz uma mensagem clara: os oceanos estão submetidos a pressões sem precedentes e o tempo das respostas lentas e fragmentadas já não é mais compatível com a gravidade da crise ambiental planetária.  

O editorial de lançamento da Clean Oceans destaca que a combinação entre poluição química, despejo de plásticos, contaminação por metais pesados, acidificação dos mares e mudanças climáticas vem alterando profundamente os ecossistemas marinhos. Em outras palavras, os oceanos  que são responsáveis pela regulação climática, produção de oxigênio e sustentação de cadeias alimentares globais estão sendo transformados em depósitos de resíduos do modelo econômico dominante.  

Mais do que anunciar uma nova revista científica, o editorial representa um chamado político e intelectual por uma ciência orientada para soluções práticas e socialmente relevantes. A editora chefe da Clean Oceans enfatiza que enfrentar a degradação marinha exigirá abordagens interdisciplinares que conectem ciências naturais, engenharia, políticas públicas e ciências sociais. Essa é uma admissão importante: a crise dos oceanos não é apenas um problema técnico, mas também resultado de escolhas econômicas e políticas que priorizam crescimento ilimitado, extração intensiva de recursos e expansão de cadeias globais de produção altamente poluentes. 

O lançamento da revista ocorre em um contexto particularmente preocupante. O aquecimento global acelera processos de desoxigenação dos oceanos, altera correntes marítimas, intensifica eventos climáticos extremos e modifica a dinâmica química das águas costeiras. Ao mesmo tempo, a produção global de plásticos segue aumentando, enquanto sistemas regulatórios nacionais e internacionais permanecem incapazes de conter o avanço da contaminação marinha.

Nesse cenário, o Sul Global ocupa posição contraditória: ao mesmo tempo em que concentra ecossistemas marinhos extremamente vulneráveis, também sofre pressões crescentes para expandir atividades minerárias, petrolíferas, portuárias e do agronegócio exportador. Países como o Brasil convivem com a combinação explosiva entre desregulação ambiental, precarização da fiscalização e fortalecimento de grandes corporações interessadas na exploração intensiva de zonas costeiras e oceânicas.

O editorial da Clean Oceans também chama atenção para a necessidade de democratizar o acesso ao conhecimento científico, defendendo um modelo de publicação em acesso aberto. Essa dimensão é crucial. Em um mundo marcado pela desigualdade científica e tecnológica, tornar pesquisas acessíveis amplia a possibilidade de participação de comunidades costeiras, movimentos sociais, pesquisadores periféricos e formuladores de políticas públicas comprometidos com justiça ambiental.

Outro aspecto importante para a ciência brasileira é a participação do professor Carlos Eduardo Rezende, do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), no corpo editorial da Clean Oceans, na condição de editor associado.  A presença do professor Rezende reforça a relevância internacional da produção científica desenvolvida no Brasil na área de ciências ambientais e oceanográficas, além de ampliar a inserção de pesquisadores do Sul Global em espaços estratégicos de formulação científica internacional.

A mensagem central do texto é inequívoca: não haverá futuro sustentável sem oceanos saudáveis. E proteger os oceanos exige enfrentar diretamente os padrões de produção e consumo responsáveis pela atual escalada de poluição e degradação climática. Em última instância, trata-se de reconhecer que a crise marinha é também uma crise do próprio modelo civilizatório contemporâneo. 

UENF: a resistência do saber no Norte Fluminense

Por Emanuel Alencar para “Diário do Rio”

Tenazes, corpulentos, os indígenas goytacazes impuseram enormes dificuldades aos invasores. Por fim, abatidos — estima-se que cerca de 12 mil indígenas goytacazes foram exterminados até o final do século XVIII pelos invasores portugueses — deixaram enorme legado na culinária e na cultura do Norte Fluminense. Como a história não se apaga, quem olha a cidade de Campos dos Goytacazes do alto pode observar uma arquitetura em forma de cocar, às margens do Rio Paraíba do Sul. É a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, cuja resistência pode ser comparada à dos povos originários que marcaram a região.

Sem atualização do plano de cargos e salários há 20 anos, os docentes da instituição criada por Leonel Brizola e idealizada por Darcy Ribeiro acabam de enviar ao governador em exercício, Ricardo Couto, um ofício pedindo atenção ao tema. O documento destaca que a universidade, aos 33 anos de vida, tornou-se referência nacional em pesquisa e pós-graduação, mas hoje enfrenta uma grave crise salarial e institucional.

“Os salários dos servidores técnicos e administrativos estão defasados em 60%, pelo menos, de 2014 para cá”, critica o geógrafo e professor da UENF Marcos Pedlowski.

O documento lembra que os professores estão em estado de greve desde novembro de 2025 e critica a ausência de diálogo da gestão do ex-governador Cláudio Castro com a comunidade universitária. Diante disso, a associação dos docentes solicita audiência com o governador em exercício para discutir quatro pontos centrais: implantação de um novo plano de cargos, aumento do auxílio-alimentação, retomada dos triênios e pagamento integral da recomposição salarial aprovada pela Alerj.

Mais do que uma disputa administrativa, a crise da UENF revela o abandono de um projeto estratégico para o desenvolvimento do interior do Rio de Janeiro. Em um estado marcado por desigualdades históricas, enfraquecer a universidade pública significa limitar a produção científica, afastar pesquisadores e reduzir oportunidades para milhares de jovens. Assim como os goytacazes resistiram para preservar sua terra e sua existência, a comunidade universitária luta hoje para manter viva uma instituição que nasceu para pensar o futuro do Brasil a partir do Norte Fluminense.


Fonte: Diário do Rio

Professores da UENF vão paralisar suas atividades no dia 02/6

A assembleia da Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF) aprovou paralisação das atividades docentes no dia 02/06 como parte do processo de mobilização da categoria e construção da luta rumo à greve.

A mobilização é fundamental para pressionar o Governo do Estado e avançar nas nossas reivindicações:

✔️ Implantação do novo PCV
✔️ Atualização do auxílio-alimentação
✔️ Cumprimento integral da recomposição salarial
✔️ Revogação da extinção dos triênios

A assembleia também deliberou pela realização de nova assembleia para discussão de indicativo de greve.

📌 Em breve divulgaremos horário, local e programação da atividade sindical.

Nossa força coletiva, chega de perder, é hora de ganhar!

Glifosato no Brasil: saúde pública sob ataque químico

A ofensiva do Ministério Público para banir o herbicida expõe os riscos sanitários do modelo agroexportador brasileiro e o enorme poder político da indústria química e do agronegócio sobre as estruturas regulatórias do Estado

A iniciativa do Ministério Público do Trabalho de buscar a proibição do glifosato no Brasil recoloca no centro do debate um dos maiores problemas sanitários e ambientais do modelo agroexportador brasileiro: a dependência extrema de um herbicida amplamente associado a riscos graves à saúde humana. Segundo a reportagem do Valor International, procuradores sustentam que o produto representa ameaça significativa aos trabalhadores rurais e à população exposta.

O glifosato tornou-se praticamente onipresente na agricultura brasileira, especialmente após a expansão das sementes transgênicas resistentes ao herbicida. O problema é que o acúmulo de evidências científicas ao longo das últimas décadas vem associando sua exposição a uma série de doenças, incluindo distúrbios endócrinos, danos neurológicos, problemas reprodutivos e, sobretudo, o Linfoma Não-Hodgkin. A classificação feita pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, como “provavelmente carcinogênico para humanos” continua sendo um marco incontornável nesse debate.

Além disso, há uma dimensão frequentemente invisibilizada: no Brasil, o uso do glifosato ocorre em um contexto de pulverização massiva e combinação com dezenas de outros agrotóxicos. Ou seja, a população não é exposta a uma substância isolada em condições laboratoriais controladas, mas a verdadeiros coquetéis químicos cujos efeitos sinérgicos permanecem insuficientemente estudados. O resultado é um enorme experimento toxicológico em escala nacional conduzido sobre trabalhadores rurais, comunidades camponesas e consumidores urbanos.

Apesar da gravidade das evidências, as chances de êxito do pleito do Ministério Público são limitadas. Isso ocorre porque o glifosato ocupa posição estrutural no atual modelo agrícola brasileiro. Sua proibição afetaria diretamente o agronegócio exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de pacotes químicos. Trata-se de um setor que possui enorme influência política sobre o Congresso Nacional, governos estaduais, Ministério da Agricultura e parte relevante das agências regulatórias.

Há ainda um poderoso aparato discursivo construído pelas corporações do agronegócio e pela indústria química para apresentar o glifosato como “seguro quando usado corretamente”, apesar das crescentes controvérsias científicas e das sucessivas ações judiciais internacionais envolvendo a fabricante Bayer, que herdou os passivos da Monsanto. Nos Estados Unidos, milhares de processos já resultaram em indenizações bilionárias relacionadas ao desenvolvimento de câncer após exposição ao herbicida.

No caso brasileiro, o cenário se torna ainda mais difícil porque o Estado adotou, nos últimos anos, uma trajetória contínua de flexibilização regulatória e expansão acelerada dos registros de agrotóxicos. O país tornou-se um dos maiores mercados mundiais para substâncias que muitas vezes já foram restringidas ou banidas em outras regiões do planeta.

Por fim, é importante reconhecer que dificilmente haverá qualquer avanço substantivo na restrição ou eventual banimento do glifosato sem uma ampla mobilização social capaz de confrontar o enorme poder político e econômico exercido pelo agronegócio e pela indústria química no Brasil. A iniciativa do Ministério Público tende a enfrentar não apenas resistência jurídica, mas também uma intensa pressão de setores empresariais que tratam qualquer tentativa de controle sanitário e ambiental como ameaça direta ao modelo exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de insumos químicos.

Nesse sentido, torna-se fundamental ampliar mecanismos de controle social sobre os processos de aprovação, monitoramento e reavaliação toxicológica dos agrotóxicos. Hoje, as grandes corporações químicas operam com ampla margem de influência sobre as estruturas regulatórias do Estado, enquanto populações expostas — trabalhadores rurais, comunidades camponesas, povos indígenas e consumidores urbanos — possuem participação extremamente limitada nas decisões que afetam diretamente sua saúde e seus territórios. O resultado é que o Brasil segue sendo transformado em um dos maiores mercados globais para substâncias altamente tóxicas, muitas vezes já proibidas em outros países, tudo em nome da manutenção de elevados níveis de produção de commodities agrícolas para exportação.

A discussão sobre o glifosato, portanto, ultrapassa o debate técnico sobre um único herbicida. Ela coloca em questão quem define os limites do risco aceitável em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade ambiental e pela captura corporativa das políticas públicas.

Assim, ainda que a ação do Ministério Público tenha enorme relevância política e sanitária, ela enfrenta uma correlação de forças extremamente desfavorável. O debate sobre o glifosato, no fundo, não é apenas técnico ou científico: ele expõe o conflito entre saúde pública e um modelo econômico profundamente dependente da intensificação química da agricultura brasileira.

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp

Entre a “austeridade” dos salários e a farra financeira do Rioprevidência: o duplo padrão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro

Enquanto servidores estaduais acumulam perdas salariais e incertezas sobre aposentadorias e pensões, o governo Cláudio Castro mergulha em investigações sobre aplicações bilionárias e saques sucessivos no Rioprevidência, aprofundando a percepção de que a corrida ao Senado pode servir mais como escudo político do que como compromisso com o futuro do Rio de Janeiro

Uma nova operação da Polícia Federal envolvendo aportes da Rioprevidência no Banco Master recoloca o governador Cláudio Castro no centro de um escândalo que mistura risco financeiro extremo, gestão temerária de recursos previdenciários e interesses políticos. Segundo reportagem do jornalista Fábio Serapião publicada no UOL Notícias, a PF investiga operações que expuseram quase R$ 1 bilhão do fundo previdenciário dos servidores estaduais a aplicações consideradas incompatíveis com a natureza conservadora que deveria orientar recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.

Ainda que Cláudio Castro não apareça formalmente como alvo direto das primeiras fases da operação, é impossível dissociar o funcionamento da Rioprevidência das decisões políticas tomadas por seu governo. Afinal, a autarquia é subordinada ao Executivo estadual, e os dirigentes investigados foram nomeados dentro da estrutura política do Palácio Guanabara. O próprio ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acabou preso preventivamente pela PF sob suspeitas de ocultação de provas e obstrução das investigações.

O caso é ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado por  Cláudio Castro aos servidores públicos estaduais. Enquanto bilhões eram movimentados em operações financeiras de altíssimo risco, o seu  governo  se recusava a garantir integralmente a recomposição das perdas inflacionárias do funcionalismo, mesmo após aprovação legislativa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, o discurso de austeridade aplicado aos salários coexistia com uma política de extrema permissividade na gestão dos recursos previdenciários.

A contradição é brutal. Para professores, enfermeiros, policiais, técnicos administrativos e demais categorias do funcionalismo, prevaleceu a lógica do “não há recursos”. Já para operações financeiras envolvendo o Banco Master, marcado por suspeitas crescentes no mercado, houve espaço para aplicações bilionárias que hoje estão sob investigação criminal.

Há ainda um elemento particularmente explosivo nessa trajetória: o uso sistemático dos recursos da Rioprevidência para amortizar parcelas da dívida do estado do Rio de Janeiro com o governo federal. Sob autorização da Alerj, a gestão Castro promoveu retiradas bilionárias do fundo previdenciário, comprometendo a sustentabilidade futura do sistema. Na prática, utilizou-se dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões para aliviar pressões fiscais imediatas do governo estadual.

O resultado dessa política pode ser devastador no médio prazo. O Rioprevidência já carrega histórico de fragilidade estrutural, agravado por décadas de antecipação de receitas petrolíferas e sucessivas manobras financeiras. Ao combinar saques bilionários para pagamento da dívida estadual com investimentos arriscados em instituições hoje investigadas, o governo Castro aprofundou a insegurança de centenas de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.

O episódio também lança sombras pesadas sobre o futuro político do governador. A expectativa de aliados de que uma candidatura ao Senado funcionasse como rota de blindagem institucional tende agora a encontrar maiores obstáculos. Afinal, a sucessão de investigações envolvendo o Rioprevidência, o Banco Master e operadores ligados ao governo estadual reforça a percepção pública de que a disputa eleitoral pode estar menos relacionada a um projeto para o Rio de Janeiro e mais à busca de proteção política diante do avanço das investigações.

Num estado marcado por sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, afastados ou investigados, o aprofundamento das suspeitas contra a gestão de Cláudio Castro amplia o desgaste de uma elite política que parece tratar a máquina pública — e até mesmo os recursos previdenciários dos servidores — como instrumentos de sobrevivência política e financeira. O problema é que, enquanto os responsáveis disputam narrativas e espaços de poder, quem permanece exposto ao risco concreto são justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano do estado: os servidores públicos fluminenses e suas famílias.

Luciano Huck, o Bolsa Família e o preconceito de classe travestido de preocupação fiscal

Enquanto criminaliza um programa social que reduz a fome e consome parcela modesta do orçamento público, o apresentador silencia sobre os privilégios do sistema financeiro, os gastos bilionários com a dívida pública e as conexões com o universo bancário de Daniel Vorcaro e do Banco Master

O recente episódio envolvendo o apresentador Luciano Huck e suas declarações sobre o Bolsa Família revela mais do que uma simples opinião mal formulada sobre políticas sociais. Expõe, na verdade, um preconceito estrutural profundamente arraigado entre parcelas das elites econômicas e midiáticas brasileiras: a ideia de que os pobres seriam naturalmente inclinados à acomodação, à dependência e à fraude, enquanto os privilégios dos muito ricos seriam vistos como expressão legítima de mérito e empreendedorismo.

Durante participação em um fórum empresarial promovido pela Esfera Brasil, Huck afirmou que o Bolsa Família criaria “atalhos” para que famílias permanecessem “ad aeternum” no programa, desestimulando a busca por emprego. A reação negativa foi imediata porque os dados oficiais e os estudos acadêmicos disponíveis contradizem frontalmente essa narrativa.

Segundo levantamento citado pelo próprio UOL, estudos do FMI, Banco Mundial, FGV e Ipea mostram que mais da metade dos beneficiários deixou o Bolsa Família na última década. Além disso, análises reiteradas demonstram que a maioria esmagadora dos beneficiários trabalha — geralmente em empregos precários, mal remunerados e informais — utilizando o programa apenas como complemento mínimo de renda para sobreviver em um país marcado por desigualdades brutais.

O preconceito implícito na fala de Luciano Huck não é novo. Ele ecoa uma longa tradição brasileira de criminalização da pobreza. O pobre que recebe algumas centenas de reais do Estado é imediatamente suspeito de parasitismo social. Já os mecanismos permanentes de transferência de riqueza pública para o sistema financeiro raramente provocam indignação semelhante entre celebridades empresariais e apresentadores de televisão.

E aqui reside uma contradição central que deveria ser debatida publicamente: por que Luciano Huck demonstra tanta preocupação com o Bolsa Família — um programa que representa parcela relativamente pequena do orçamento federal e possui efeitos concretos na redução da fome e da extrema pobreza — enquanto permanece silencioso sobre o gigantesco volume de recursos drenados anualmente pelo pagamento de juros e amortizações da dívida pública?

O debate sobre gastos públicos no Brasil costuma ser profundamente seletivo. O problema nunca parece ser o custo do rentismo financeiro, dos privilégios tributários dos super-ricos, das desonerações empresariais ou dos mecanismos de remuneração da especulação financeira. O alvo preferencial é quase sempre o gasto social destinado aos mais pobres. Trata-se de uma pedagogia ideológica extremamente funcional às elites: convencer a população de que o problema fiscal do país está nos miseráveis, e não nos mecanismos estruturais de concentração de renda.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a relação de Huck com o universo financeiro que hoje se encontra no centro de outra grande controvérsia nacional: o colapso do Banco Master e as conexões empresariais de seu controlador, Daniel Vorcaro. Diferentes reportagens apontam que Huck foi garoto-propaganda do Will Bank, instituição ligada ao grupo Master, além de ter mantido relações próximas com Vorcaro. Há ainda relatos de que o apresentador participou de negociações envolvendo possível aquisição do banco digital antes do aprofundamento da crise financeira da instituição.

Nesse contexto, a pergunta inevitável é: qual a opinião de Luciano Huck sobre os custos já produzidos ao Tesouro Nacional e ao sistema financeiro pela crise envolvendo o Banco Master? Afinal, enquanto o Bolsa Família transfere renda para milhões de famílias pobres, os episódios recorrentes de socialização de prejuízos bancários historicamente transferem bilhões de reais para salvar instituições privadas e preservar interesses do mercado financeiro.

A seletividade moral é gritante. Quando o dinheiro público vai para pobres comprarem comida, fala-se em “dependência”. Quando vai para estabilizar bancos, remunerar rentistas ou salvar instituições financeiras problemáticas, fala-se em “responsabilidade fiscal” ou “estabilidade do sistema”.

No fundo, a polêmica em torno de Luciano Huck ajuda a revelar uma disputa muito maior sobre o próprio significado do Estado brasileiro. Um Estado que segue sendo extremamente generoso com o capital financeiro, mas cuja elite econômica reage com indignação sempre que parcelas mínimas da riqueza nacional são direcionadas para garantir dignidade aos mais pobres.

Talvez o maior mérito involuntário da fala de Huck tenha sido justamente escancarar esse duplo padrão moral. Porque o verdadeiro debate nunca foi sobre “dependência” dos pobres. O Brasil convive há décadas, isto sim, com a dependência estrutural de suas elites em relação ao fundo público.