Mário Magalhães: Escolha e emprego do verbo mudam a história: ‘morreu’ difere de ‘foi morto’

Por Mário Magalhães

 

Muitas vezes, trata-se de ignorância ou desleixo, noutras é caso pensado.

Quando se diz que determinado número de crianças “morreram” em Gaza, omite-se ou relativiza-se que elas “foram mortas”.

Os verbos matar e morrer têm, é óbvio, significados diferentes.

A forma do particípio passado (nesse exemplo, do verbo matar), ao contrário do tempo verbal passado perfeito (verbo morrer), carrega consigo a pergunta: mortas por quem?

Talvez pareça frescura gramatical ou capricho histórico, mas a escolha do verbo e o seu emprego podem mudar ou influenciar o que se conta.

Até a notícia mais recente, 251 crianças palestinas haviam sido mortas na ofensiva militar israelense em curso.

Vai ver eram todas terroristas, e os bebês se distinguiam como os mais cruéis.

FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2014/07/31/escolha-e-emprego-do-verbo-mudam-a-historia-morreu-difere-de-foi-morto/

Exposição “ARQUIVOS DA DITADURA”

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e a UFRJ convidam para a Exposição “ARQUIVOS DA DITADURA”, que será realizada no Centro Cultural Justiça Federal, Av. Rio Branco, 241, Rio de Janeiro, de 5 de agosto a 21 de setembro, das 12 às 19 horas.

A exposição composta por instalações sonoras e fotografias de identificação policial de presos políticos, criada a partir do filme “Retratos de identificação” (Anita Leandro, 2014) é fruto de parceira entre a UFRJ e a Comissão de Anistia, por meio do projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia, que tem por objeto o apoio às iniciativas de memorialização produzidas pela sociedade civil e que tem como objetivo agregar à política estatal de reparação um processo de reflexão e aprendizado coletivo, fomentando ações locais, regionais e nacionais que permitam a emergência de olhares plurais sobre o passado, conectando-os às nossas responsabilidades com as mazelas do presente e com as tarefas democráticas e de democratização ainda em curso.

Há fotos de militantes da VAR-Palmares: Chael Charles Schreier, morto sob tortura nas dependências da Vila Militar/R.Janeiro, de Maria Auxiliadora Lara Barcelos (banida do país e refugiada na Alemanha, onde suicidou-se), e de Antônio Roberto Espinosa,;e depoimento de Reinaldo Guarany. Nas instalações sonoras Espinosa e Maria Auxiliadora contam como foi a tortura e morte de Chael.

arquivos ditadura

 

FONTE: http://vladimirherzog.org/exposicao-arquivos-da-ditadura/

Transparência e Participação: Queremos a CPI do Bethlem!

No ar há 19 horas em Transparência e Participação

Queremos a CPI do Bethlem!

A situação do ex-secretário de Ordem Pública e Assistência Social, Rodrigo Bethlem, é cada vez mais delicada. Em gravações obtidas pela revista ÉPOCA, o ex-“xerife do Rio”, braço direito do prefeito Eduardo Paes, admite receber um mensalão da ONG Casa Espírita Tesloo, que tinha convênios com a Prefeitura no valor de aproximadamente R$ 80 milhões.

Nas conversas gravadas por sua ex-mulher, Bethlem também fala sobre a abertura de uma conta na Suíça e de relações suspeitas com o rei dos ônibus, Jacob Barata, outro velho conhecido de escândalos desse tipo. E, ao que tudo indica, o buraco de corrupção do ex-“xerife do Rio” é ainda mais embaixo.

Um grupo de vereadores está se movimentando para protocolar, na próxima terça (5/8), um pedido de CPI para investigar as graves denúncias envolvendo o ex-secretário. Para que a investigação seja aberta, é necessário que 17 parlamentares apoiem o pedido mas, até o momento, apenas 8 dos 51 se mostraram favoráveis. Os vereadores têm a obrigação de fiscalizar o Executivo; eles não podem se omitir!

Envie agora um e-mail exigindo que assinem o pedido de CPI do Bethlem.

Fontes:

Época: nova gravação sugere caixa 2 bancado por Jacob Barata

VEJA: Homem forte de Paes opera esquema de corrupção na Prefeitura

O Globo: contratos com ONG Tesloo avançaram na gestão Bethlem

FONTE: http://paneladepressao.minhascidades.org.br/campaigns/491

Depois de Bakunin, pesquisa de mestrado é “arrolada” pela Polícia Civil no inquérito dos ativistas

Depois de incluir Mikhail Bakunin, um ativista político morto em 1876, no inquérito acatado pela justiça para prender 23 ativistas, agora se sabe que a Polícia Civil também incluiu uma pesquisa de mestrado na lista de “grupos perigosos” que estariam atuando nas manifestações que ocorrem no Rio de Janeiro desde junho de 1993.

Não fosse apenas um possível caso de falta do que fazer, essa postura revela uma perigosa tendência ao cerceamento e, pior, utilização de forma pouco ética do que é produzido por pesquisas acadêmicas.

Mas, vamos lá, quem ainda se surpreende com um inquérito que beira o universo social que aparece no livro ” O Processo” de Franz Kafka?

Aliás, antes que alguém queira também indiciar Kafka é preciso que se saiba que ele morreu em 1924! Bom, pensando bem, Bakunin morreu em 1876 e mesmo assim foi indiciado…

Pesquisa de mestrado no inquérito da Polícia

Foi com grande surpresa que vi o nome da minha pesquisa de mestrado na lista de “grupos organizados” no inquérito da Operação Firewall, que investiga os protestos desde junho de 2013. Desenvolvido na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), sob orientação da professora doutora Alita Sá Rego, o Rebaixada pesquisa a atuação da mídia alternativa nos megaeventos do Rio de Janeiro (Copa do Mundo, JMJ, Olimpíadas…).

O mestrado é do programaEducação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas e tem sua sede no campus da UERJ na Baixada Fluminense. Como todos os projetos de minha orientadora, desenvolvi uma parte prática do trabalho: o portal Rebaixada. Sua construção se deu em oficinas realizadas com estudantes e moradores vizinhos da Universidade, processo todo documentado no site.

O portal Rebaixada é um laboratório que experimenta tecnologias usadas pelos midiativistas durantes as recentes manifestações: mapas, wikis, games, agregadores, streaming, tradução, entre outras. Foi desenvolvido em software livre com código aberto. Sua principal funcionalidade é o Web Scraping, ou seja armazenar todas as informações produzidas pelas mídias alternativas para avaliação. Isso porque o Facebook é umwalled garden“, um sistema fechado, o que acaba dificultando a pesquisa acadêmica. Tal experimento também é realizado por iniciativas como o BRnasRuas e o AGREGA.LA.

Algumas experiências do Rebaixada ganharam destaque internacional de instituições como a UNESCO.

inquerito policia civil operacao firewall

Um pouco do que já saiu sobre o projeto Rebaixada em todo o mundo:

FONTE: http://rebaixada.com.br/pesquisa-de-mestrado-no-inquerito-da-policia/

Deputado cobra da Presidência retorno de opositores da Petrobras

Baseado em reportagens do Congresso em Foco, Chico Alencar questiona a Secretaria de Direitos Humanos por que pescadores que resistiram a megaprojeto na Baía de Guanabara ainda não voltaram para local de militância

POR CONGRESSO EM FOCO 

Paulo Negreiros

Governo diz que faz “articulações institucionais” para volta de ativistas, como Alexandre Anderson

O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) decidiu cobrar da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República informações sobre a situação de pescadores do Rio de Janeiro que promoviam protestos contra obras da Petrobras e foram removidos do local pelo governo federal. Eles saíram de Magé (RJ) após ameaças de morte e atentados. Foram incluídos no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), mas acabaram isolados de sua região de militância, sem perspectiva de retorno. Após reportagens publicadas pelo site e pela Revista Congresso em Foco, Chico Alencar apresentou um requerimento, em tramitação na Câmara desde 16 de julho. O assunto agora está nas mãos do vice-presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), relator do caso e aliado do Palácio do Planalto.

Como mostrou o Congresso em Foco, Alexandre Anderson de Souza, Daize Menezes de Souza e Maicon Alexandre Rodrigues lideram mais de quatro mil famílias de pescadores que bloqueiam obras da Petrobras na região de Magé. Para eles, a instalação de dutos impede a reprodução dos peixes na Baía de Guanabara e impede a sobrevivência das comunidades tradicionais.

Leia: Pescadores que desafiaram a Petrobras se dizem exilados

Há quase dois anos, eles receberam ordens da Secretaria de Direitos Humanos para se retirarem de Magé, onde viviam e resistiam aos projetos do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), o maior investimento da história da Petrobras. Antes das ordens, os três pescadores já tinham sofrido outras ameaças e atentados de grupos armados da região.

Dirigentes da Associação dos Homens do Mar (Ahomar), Alexandre, Daize e Maicon abandonaram a cidade com a promessa – ainda não concretizada – de que voltariam dois meses depois com segurança. Mas, desde então, eles dizem viver como clandestinos, trocando de residência de tempos em tempos.

Os pescadores acusam a SDH de atuar em parceria com a Petrobras para mantê-los distantes da região onde a estatal toca o maior investimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avaliado em US$ 13,5 bilhões. A estatal e a Secretaria da Presidência da República já negaram essa denúncia. O governo afirmou ao Congresso em Foco que ainda faz “articulações institucionais” para o retorno dos ativistas anti-Petrobras.

Motivos

Chico Alencar se baseia no material do Congresso em Foco para questionar quais os motivos pelos quais os três pescadores ainda não voltaram para Magé. Ele quer saber quais as medidas tomadas pela pasta para assegurar o retorno, a militância e a segurança do trio. Ele cobra ainda o resultado de estudo, também prometido pela Secretaria, sobre os riscos à segurança no retorno dos pescadores.

Os pescadores se mobilizaram diversas vezes contra impactos decorrentes das obras do Comperj, denunciando consequências ambientais e sociais em relação à Baía de Guanabara e à pesca artesanal. Nesse contexto, de 2009 pra cá, quatro dirigentes da Ahomar foram assassinados.

A coordenação-geral do programa de proteção da Secretaria de Direitos Humanos informou aosite ontem (22) que não foi notificada do pedido do deputado. “A coordenação do programa vai dar o mesmo tratamento dispensado às outras solicitações, que é responder os questionamentos no que couber, respeitando os limites para que o andamento dos casos não seja prejudicado”, disse o órgão, em nota enviada pela assessoria de imprensa da SDH.

A coordenação do programa acrescentou que o grupo “está realizando articulações institucionais para que o retorno de Alexandre, Maicon e Daize e de seus respectivos núcleos familiares se dê em condições de segurança”. O site tentou contato com Alexandre ontem, mas não o localizou.

Uma história que inclui quatro assassinatos impunes

Mais sobre Petrobras

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Segue link:
 
FONTE: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/deputado-cobra-sdh-sobre-situacao-de-pescadores-isolados/

Salinização no Porto do Açu: o que era para ser pontual, parece ser permanente. Cadê a força tarefa do INEA?

Em 2013, no auge do problema causado pela salinização causada pelo extravasamento de água do mar que saia do aterro hidráulico construído pela OS(X), a então presidente do INEA visitou a UENF e determinou a criação de uma força tarefa que ficaria responsável por monitorar os desdobramentos do problema (Aqui!). Pois bem, desde então se estabeleceu o mais profundo silêncio em torno do problema, e esporadicamente se ouve falar que existe um monitoramento em curso, mas dados públicos que seria bom, nada!

Pois bem, acabo de receber o resultado da análise da condutividade da água que continua fluindo no entorno do aterro hidráulico, e o resultado deveria preocupar os membros da força tarefa do INEA, pois o valor medido foi de 31.000 µs/cm,sendo que o valor da condutividade da água do mar gira em torno de 56.000  µs/cm. Em suma, a água que continua fluindo do aterro hidráulico está mais para sal do que para doce! Essa medida desmente a versão amplamente divulgada de que o impacto do derrame de água salgada seria apenas pontual no tempo e no espaço, e seus efeitos não seriam permanentes.  E a questão fica mais gritante ainda, quando se lembra que o evento que era para ser pontual completará dois anos em novembro de 2014 (ou seja em cerca de 4 meses)!

Mas mais do que no caso de um plano de gerenciamento costeiro que foi previsto para a Praia do Açu, o problema da salinização resultou numa multa ( que aliás nem foi paga) e na criação da tal força tarefa. Isto sem falar no processo que, ao que se sabe, continua correndo dentro do Ministério Público Federal.

Abaixo algumas cenas da situação da área de entorno de uma das faces do aterro hidráulico do Porto do Açu, onde fica aparente que os canais que impediriam o extravasamento para áreas vizinhas precisam ser efetivamente avaliados, bem como ter os resultados destas avaliações disponibilizados aos principais interessados que são os agricultores que, porventura, tenham sido atingidos pelo processo de salinização.

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Porto do Açu: cadê a praia que estava aqui? O mar comeu!

Puxando um pouco pela memória e para evitar erros nas postagens deste blog, lembrei que em janeiro de 2012 estive na Praia do Açu participando de uma atividade política em defesa de agricultores e pescadores do V Distrito.  Em função disso, acabei fotografando a mesma área da Praia do Açu que fotografei ontem, e isto permitiu que se faça a comparação visual que vai logo abaixo. 

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Praia do Açu, com pier do Porto do Açu no dia 21/01/2012

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Praia do Açu com pier e quebra-mar do Porto do Açu no dia 29/07/2014

Agora que o problema da erosão na Praia do Açu me parece estar visualmente constatado, fico no aguardo de notícias de algum órgão ambiental, INEA ou IBAMA, bem como da atual proprietária do empreendimento, a Prumo Logística, sobre o programa de monitoramento que estava previsto no EIA/RIMA da UCN da OS(X). É que nas palavras de um morador da Barra do Açu, a população quer logo saber quem vai se responsabilizar para resolver ou, pelo menos, mitigar essa situação.

Não em meu nome

Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O exército israelense não me representa, o governo ultranacionalista não me representa. Os assentados ilegalmente são meus inimigos. Eu, judeu brasileiro, digo: ACABEM COM A OCUPAÇÃO!!!

Por Marcelo Gruman

Na minha adolescência, tive a oportunidade de visitar Israel por duas vezes, ambas na primeira metade da década de 1990. Era estudante de uma escola judaica da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. As viagens foram organizadas por instituições sionistas, e tinham por intuito apresentar à juventude diaspórica a realidade daquele Estado formado após o holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial, e para o qual todo e qualquer judeu tem o direito de “retornar” caso assim o deseje. Voltar à terra ancestral. Para as organizações sionistas, ainda que não disposto a deixar a diáspora, todo e qualquer judeu ao redor do mundo deve conhecer a “terra prometida”, prestar-lhe solidariedade material ou simbólica, assim como todo muçulmano deve fazer, pelo menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca. Para muitos jovens judeus, a visita a Israel é um rito de passagem, assim como para outros o destino é a Disneylândia.

A equivalência de Israel e Disneylândia tem um motivo. A grande maioria dos jovens não religiosos e sem interesse por questões políticas realizam a viagem apenas para se divertir. O roteiro é basicamente o mesmo: visita ao Muro das Lamentações, com direito a fotos em posição hipócrita de reza (já viram ateu rezando?), ao Museu da Diáspora, ao Museu do Holocausto, às Colinas do Golan, ao Deserto do Neguev e a experiência de tomar um chá com os beduínos, ir ao Mar Morto e boiar na água sem fazer esforço por conta da altíssima concentração de sal, a “vivência” de alguns dias num dos kibutzim ainda existentes em Israel e uma semana num acampamento militar, onde se tem a oportunidade de atirar com uma arma de verdade. Além, é claro, da interação com jovens de outros países hospedados no mesmo local. Para variar, brasileiros e argentinos, esquecendo sua identidade étnica comum, atualizavam a rivalidade futebolística e travavam uma guerra particular pelas meninas. Neste quesito, os argentinos davam de goleada, e os brasileiros ficavam a ver navios.

Minha memória afetiva das duas viagens não é das mais significativas. Aparte terconhecido parentes por parte de mãe, a “terra prometida” me frustrou quando o assunto é a construção de minha identidade judaica. Achei os israelenses meio grosseiros (dizem que o “sabra”, o israelense “da gema”, é duro por natureza), a comida é medíocre (o melhor falafel que comi até hoje foi em Paris…), é tudo muito árido, a sociedade é militarizada, o serviço militar é compulsório, não existe “excesso de contingente”. A memória construída apenas sobre o sofrimento começava a me incomodar.

Nossos guias, jovens talvez dez anos mais velhos do que nós, andavam armados, o motorista do ônibus andava armado. Um dos nossos passeios foi em Hebron, cidade da Cisjordânia, em que a estrada era rodeada por telas para contenção das pedras atiradas pelos palestinos. Em momento algum os guias se referiram àquele território como “ocupado”, e hoje me envergonho de ter feito parte, ainda que por poucas horas, deste “finca pé” em território ilegalmente ocupado. Para piorar, na segunda viagem quebrei a perna jogando basquete e tive de engessá-la, o que, por outro lado, me liberou da experiência desagradável de ter de apertar o gatilho de uma arma, exatamente naquela semana íamos acampar com o exército israelense.

Sei lá, não me senti tocado por esta realidade, minha fantasia era outra. Não encontrei minhas raízes no solo desértico do Negev, tampouco na neve das colinas do Golan. Apesar disso, trouxe na bagagem uma bandeira de Israel, que coloquei no meu quarto. Muitas vezes meu pai, judeu ateu, não sionista, me perguntou o porquê daquela bandeira estar ali, e eu não sabia responder. Hoje eu sei por que ela NÃO DEVERIA estar ali, porque minha identidade judaica passa pela Europa, pelos vilarejos judaicos descritos nos contos de Scholem Aleichem, pelo humor judaico característico daquela parte do mundo, pela comida judaica daquela parte do mundo, pela música klezmer que os judeus criaram naquela parte do mundo, pelas estórias que meus avós judeus da Polônia contavam ao redor da mesa da sala nos incontáveis lanches nas tardes de domingo.

Sou um judeu da diáspora, com muito orgulho. Na verdade, questiono mesmo este conceito de “diáspora”. Como bem coloca o antropólogo norte-americano James Clifford, as culturas diaspóricas não necessitam de uma representação exclusiva e permanente de um “lar original”. Privilegia-se a multilocalidade dos laços sociais. Diz ele:

As conexões transnacionais que ligam as diásporas não precisam estar articuladas primariamente através de um lar ancestral real ou simbólico (…). Descentradas, as conexões laterais [transnacionais] podem ser tão importantes quanto aquelas formadas ao redor de uma teleologia da origem/retorno. E a história compartilhada de um deslocamento contínuo, do sofrimento, adaptação e resistência pode ser tão importante quanto a projeção de uma origem específica.

Há muita confusão quando se trata de definir o que é judaísmo, ou melhor, o que é a identidade judaica. A partir da criação do Estado de Israel, a identidade judaica em qualquer parte do mundo passou a associar-se, geográfica e simbolicamente, àquele território. A diversidade cultural interna ao judaísmo foi reduzida a um espaço físico que é possível percorrer em algumas horas. A submissão a um lugar físico é a subestimação da capacidade humana de produzir cultura; o mesmo ocorre, analogamente, aos que defendem a relação inexorável de negros fora do continente africano com este continente, como se a cultura passasse literalmente pelo sangue. O que, diga-se de passagem, só serve aos racialistas e, por tabela, racistas de plantão. Prefiro a lateralidade de que nos fala Clifford.

Ser judeu não é o mesmo que ser israelense, e nem todo israelense é judeu, a despeito da cidadania de segunda classe exercida por árabes-israelenses ou por judeus de pele negra discriminados por seus pares originários da Europa Central, de pele e olhos claros. Daí que o exercício da identidade judaica não implica, necessariamente, o exercício de defesa de toda e qualquer posição do Estado de Israel, seja em que campo for.

Muito desta falsa equivalência é culpa dos próprios judeus da “diáspora”, que se alinham imediatamente aos ditames das políticas interna e externa israelense, acríticos, crentes de que tudo que parta do Knesset (o parlamento israelense) é “bom para os judeus”, amém. Muitos judeus diaspóricos se interessam mais pelo que acontece no Oriente Médio do que no seu cotidiano. Veja-se, por exemplo, o número ínfimo de cartas de leitores judeus em jornais de grande circulação, como O Globo, quando o assunto tratado é a corrupção ou violência endêmica em nosso país, em comparação às indefectíveis cartas de leitores judeus em defesa das ações militaristas israelenses nos territórios ocupados. Seria o complexo de gueto falando mais alto? 

Não preciso de Israel para ser judeu e não acredito que a existência no presente e no futuro de nós, judeus, dependa da existência de um Estado judeu, argumento utilizado por muitos que defendem a defesa militar israelense por quaisquer meios, que justificam o fim. Não aceito a justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial é o exemplo claro de que apenas um lar nacional única e exclusivamente judaico seja capaz de proteger a etnia da extinção.

A dor vivida pelos judeus, na visão etnocêntrica, reproduzida nas gerações futuras através de narrativas e monumentos, é incomensurável e acima de qualquer dor que outro grupo étnico possa ter sofrido, e justifica qualquer ação que sirva para protegê-los de uma nova tragédia. Certa vez, ouvi de um sobrevivente de campo de concentração que não há comparação entre o genocídio judaico e os genocídios praticados atualmente nos países africanos, por exemplo, em Ruanda, onde tutsis e hutus se digladiaram sob as vistas grossas das ex-potências coloniais. Como este senhor ousa qualificar o sofrimento alheio? Será pelo número mágico? Seis milhões? O genial Woody Allen coloca bem a questão, num diálogo de Desconstruindo Harry (tradução livre):

– Você se importa com o Holocausto ou acha que ele não existiu?

– Não, só eu sei que perdemos seis milhões, mas o mais apavorante é saber que recordes são feitos para serem quebrados.

O holocausto judaico não é inexplicável, e não é explicável pela maldade latente dos alemães. Sem dúvida, o componente antissemita estava presente, mas, conforme demonstrado por diversos pensadores contemporâneos, dentre os quais insuspeitos judeus (seriam judeus antissemitas Hannah Arendt, Raul Hilberg e Zygmunt Bauman?), uma série de características do massacre está relacionada à Modernidade, à burocratização do Estado e à “industrialização da morte”, sofrida também por dirigentes políticos, doentes mentais, ciganos, eslavos, “subversivos” de um modo geral. Práticas sociais genocidas, conforme descritas pelo sociólogo argentino Daniel Feierstein (outro judeu antissemita?), estão presentes tanto na Segunda Guerra Mundial quanto durante o Processo de Reorganização Nacional imposto pela ditadura argentina a partir de 1976. Genocídio é genocídio, e ponto final.

A sacralização do genocídio judaico permite ações que vemos atualmente na televisão, o esmagamento da população palestina em Gaza, transformada em campo de concentração, isolada do resto do mundo. Destruição da infraestrutura, de milhares de casas, a morte de centenas de civis, famílias destroçadas, crianças torturadas em interrogatórios ilegais conforme descrito por advogados israelenses. Não, não são a exceção, não são o efeito colateral de uma guerra suja. São vítimas, sim, de práticas sociais genocidas, que visam, no final do processo, ao aniquilamento físico do grupo.

Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O exército israelense não me representa, o governo ultranacionalista não me representa. Os assentados ilegalmente são meus inimigos.

        Eu, judeu brasileiro, digo: ACABEM COM A OCUPAÇÃO!!!

(1) Marcelo Gruman é antropólogo.

Referências bibliográficas:

CLIFFORD, James. (1997). Diasporas, in Montserrat Guibernau and John Rex (Eds.) The Ethnicity Reader: Nationalism, Multiculturalism and Migration, Polity Press, Oxford.

Vídeo:

Tortura de crianças palestinas: https://www.youtube.com/watch?v=z5AkFlAeCHE

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/29359