Ururau: acampamento de Sem Terra é desmontado pela justiça com apoio da PM

Justiça e Polícia Militar cumprem reintegração de posse na Sapucaia

Polícia Militar e Corpo de Bombeiros foram acionados para darem apoio à ação

Carlos Grevi, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros foram acionados para darem apoio à ação

A justiça cumpre desde as primeiras horas da manhã desta quinta-feira (24/07) uma ordem de reintegração de posse no acampamento Eraldo Lírio, no km 130 da BR-356 e no acampamento Manoel Barbosa, no km 134 da mesma rodovia. Os dois acampamentos estão situados em terras da Usina Sapucaia, que teriam sido arrendadas pela Cooperativa Agroindustrial do Rio de Janeiro (Coagro). A ordem foi expedida pela juíza da 3ª Vara Cível de Campos, Flávia Justus.

De acordo com o oficial de Justiça, César Manhães, os dois acampamentos são originários do Tabatinga, que fica próximo à sede da Usina. Mais tarde parte dos acampados se deslocaram e formaram o Eraldo Lírio que era muito extenso e ficava muito à margem da BR, por isso o acampamento foi dividido e cerca de 54 famílias formaram o acampamento Manoel Barbosa, no km 130, no Parque Aldeia.

Ainda segundo o oficial de justiça a área a ser integrada se estende por cerca de 800m².

A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros Militar foram acionados para apoio à ação de reintegração.

FONTE: http://ururau.com.br/cidades47234_Justi%C3%A7a-e-Pol%C3%ADcia-Militar-cumprem-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse-na-Sapucaia

As entrelinhas das guerras por alimentos

Vandana Shiva(*)

La Jornada

monsanto-hero

A Monsanto e seus amigos na indústria biotecnológica, seus lobistas e seus representantes pagos nos meios de comunicação continuam incentivando o controle monopólico dos alimentos no mundo mediante sua oferta de sementes.

Esse império é construído sobre argumentos falsos: que a Monsanto é a criadora/inventora da vida, e portanto pode ser a proprietária das sementes através de patentes, e que a vida pode ser produzida com engenharia e máquinas, como um iPhone.

Pela ecologia e pela nova biologia sabemos  que a vida é uma complexidade organizada por si mesma: ela se constrói sozinha, e não é possível manufatura-la. Isso se aplica também à produção de alimentos mediante a nova ciência da agroecologia, a qual nos brinda com um conhecimento científico mais profundo sobre os processos ecológicos a nível do solo, as sementes vivas. As promessas da indústria biotecnológica – maiores rendimentos, redução do uso de agrotóxicos e controle de ervas daninhas e pragas – não se cumpriram.  No mês passado, um fundo de investimentos processou a DuPont em um bilhão de dólares por promover cultivos resistentes a herbicidas sabendo que não poderiam controlar as ervas daninhas, que por sua vez  contribuíram para o surgimento de “super-ervas-daninhas”.

Ao criar a propriedade das sementes  mediante patentes e direitos de propriedade intelectual, e impô-la ao planeta através da Organização Mundial do Comércio, a indústria biotecnológica estabeleceu um império monopólico sobre as sementes e os alimentos. Além de reclamar a propriedade das sementes que vende e cobrar royalities, em matérias de controles e equilíbrios sobre a segurança a indústria biotecnológica destrói sistematicamente leis nacionais e internacionais relativas à biosegurança, afirmando que “seus produtos são como a natureza os criou”. É esquizofrenia ontológica!

A biosegurança é a avaliação multidisciplinar do impacto da engenharia genética sobre o ambiente, a saúde pública e as condições sócioeconômicas. No âmbito internacional, a biosegurança é direito internacional consagrado pelo Protocolo de Cartagena sobre Biosegurança. Eu fui designada por um grupo de especialistas para elaborar a base do programa ambiental das Nações Unidas, com a finalidade de por em vigor o artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB).

A Monsanto e seus amigos têm tentado negar aos cidadãos o direito à alimentação saudável opondo-se ao artigo 19.3 desde a Cume da Terra no Riod e Janeiro, em 1992. Nestes dias, eles tentam desmantelar as leis nacionais sobre biosegurança na Índia, Paquistão, União Européia e em toda a África e América Latina.  Nos Estados Unidos, distorcem a Constituição ao entrar com demandas contra governos estaduais  que tem promulgado leis para etiquetar os alimentos geneticamente modificados, alegando que o direito dos cidadãos de saber o que consomem está abaixo do direito da indústria biotecnológica de impor alimentos perigosos para os consumidores desinformados, o que manejam como liberdade de expressão da empresa, como se esta fosse pessoa física.  Deslocam sua maquinaria de propaganda para atacar com argumentos não científicos os pesquisadores que trabalham com biosegurança, como Árpad Pusztai, Ignácio Chapela, Irina Ermakova, Eric Séralini e eu.

Muitos jornalistas sem conhecimentos científicos se alinharam como soldados nesse assalto propagandístico. Homens brancos privilegiados, como Mark Lynas, Jon Entine e Michael Specter, sem experiência prática em agricultura, munidos somente com graus de bacharelado e vinculados a meios controlados pelos consórcios são usados para solapar as verdadeiras descobertas científicas sobre os impactos dos OGM em nossa saúde e ecossistemas.

A indústria biotecnológica usa seus títeres propagandistas para sustentar a falácia de que os OGM são a solução para a fome no mundo. Essa negativa a um autêntico debate científico sobre como os sistemas vivos evoluem é respaldada por um assalto intensivo e maciço de propaganda, que incluem a utilização de agências de inteligência como a Blackwater.

Em 2010, a Forbes  citou-me como uma das sete mulheres mais poderosas do planeta, “por colocar as mulheres à frente e no centro da solução do assunto da segurança alimentar no mundo em desenvolvimento”. Em 2014, o jornalista Jon Entine escreveu um artigo de opinião, no qual sustentava que eu não tinha estudado física. Além de ter feito um pós-graduação em física e realizado meu doutorado sobre os fundamentos da teoria quântica, passei 40 anos estudando ecologia em granjas e florestas da Índia, onde a natureza e os sábios camponeses foram meus mestres.  Essa é a base da minha experiência e agroecologia e segurança alimentar.

A boa ciência e as tecnologias aprovadas não necessitam propaganda, agências de inteligência e governos corruptos para demonstrar fatos. Se os ataques infundados de um não cientista a uma cientista de um país em desenvolvimento são um de seus instrumentos de dar forma ao futuro, erraram completamente.  Eles não se dão conta da crescente indignação cidadã contra o monopólio da Monsanto.

Em nações soberanas, onde o poder da Monsanto e de seus amigos é limitado, o povo e os governos rechaçam seu monopólio e sua tecnologia fracassada, mas a máquina de propaganda suprime essa notícia.

A Rússia proibiu completamente os OGM; o primeiro ministro Dmitry Medvedev  advertiu: “se os norte-americanos gostam dos produtos OGM, que os comam. Nós não precisamos deles; temos espaço e oportunidades suficientes para produzir comida orgânica”. A China proibiu os OGM em produtos alimentícios militares. A Itália acaba de promulgar uma lei, a Campo Livre, que castiga com prisão de um a três anos e multa de 10 mil a 30 mil euros a semeadura de cultivos OGM. A ministra italiana da Agricultura, Nunzia de Girolamo,  assinalou em um comunicado: “Nossa agricultura se baseia na biodiversidade e na qualidade, e devemos continuar a elas sem aventuras que, sob o ponto de vista econômico, não nos tornariam mais competitivos”. 

As peças de propaganda na Forbes e no New Yorker não podem deter o despertar de milhões de agricultores e consumidores sobre os verdadeiros perigos dos organismos geneticamente modificados em nossa comida, e as desvantagens e defeitos do sistema de alimentos industriais que destrói o planeta e nossa saúde.

 (*)  Diretora executiva do Fundo Navdanya

 Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=187575

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Damasceno: O fim da clandestinidade

Por João Batista Damasceno*

A concessão de liminar em habeas corpus pôs fim à clandestinidade imposta aos advogados, jornalistas e militantes que tiveram prisão temporária (decretada previamente à prática de fato criminoso, mas visando não se manifestassem durante da Copa das Tropas da FIFA), e que fora convertida em prisão preventiva, sendo necessário que os acusados – acompanhados de advogados qualificados – se apresentem em juízo, a fim de que não se aleguem no futuro necessidade de nova decretação de prisão para garantia da execução da lei penal.

Com os mesmos fundamentos usados pelo Ministério Público para pedir a prisão preventiva ela não poderá ser novamente decretada, sob pena de descumprimento de decisão do tribunal que a revogou. Os juízes têm o dever legal de executar as decisões dos tribunais (não recebem ordens dos tribunais), sob pena de crime de responsabilidade. Não é crime de desobediência, pois juízes – independentes – não devem obediência ao tribunal. Mas, revogada a prisão preventiva pela concessão da liminar no habeas corpus, a ausência para responder ao processo não mais é clandestinidade, mas fuga e permite decretação de prisão em razão disto.

Os acusados devem fornecer endereço no qual possam ser encontrados e comparecer toda vez que forem intimados. Devem atender sempre que o juízo lhes remeter intimação. Se houver mudança de endereço, e isto pode ocorrer quantas vezes a liberdade de locomoção permitir, basta comunicar o novo endereço ao juízo.

Há ilhas de garantismo no judiciário, em prol do Estado Democrático e de Direito!

Ainda há juízes no Brasil!

João Batista Damasceno ocupa o cargo de juiz de direito no tribunal de justiça do Estado do Rio de Janeiro, é doutor em Ciência Política.

FONTE: http://resistencialirica.blogspot.com.br/2014/07/o-fim-da-clandestinidade.html

iddh informa: Siro Darlan manda libertar ativistas presos e suspende ordens de prisão preventiva dos foragidos

Desembargador concede habeas corpus a manifestantes no RJ

As informações são do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos.

Confira a íntegra da decisão.

1) Trata-se de Habeas Corpus impetrado em favor de CAMILA APARECIDA RODRIGUES JOURDAN, IGOR PEREIRA D’ICARAHY, ELISA DE QUADROS PINTO SANZI, LUIZ CARLOS RENDEIRO JUNIOR, GABRIEL DA SILVA MARINHO, KARLAYNE MORAES DA SILVA PINHEIRO, ELOISA SAMY SANTIAGO, IGOR MENDES DA SILVA, DREAN MORAES DE MOURA CORRÊA, SHIRLENE FEITOZA DA FONSECA, LEONARDO FORTINI BARONI PEREIRA, EMERSON RAPHAEL OLIVEIRA DA FONSECA, RAFAEL RÊGO BARROS CARUSO, FILIPE PROENÇA DE CARVALHO MORAES, PEDRO GUILHERME MASCARENHAS FREIRE, FELIPE FRIEB DE CARVALHO, PEDRO BRANDÃO MAIA, BRUNO DE SOUSA VIEIRA MACHADO, ANDRÉ DE CASTRO SANCHEZ BASSERES, JOSEANE MARIA ARAUJO DE FREITAS, REBECA MARTINS DE SOUZA, FABIO RAPOSO BARBOSA, CAIO SILVA DE SOUZA e EDIGREISSON FERREIRA DE OLIVEIRA, aduzindo na peça de interposição respectiva em síntese, estar configurado o constrangimento ilegal do direito de ir e vir dos pacientes, diante da ilegalidade da prisão preventiva decretada pela autoridade apontada como coatora, sob a alegação de estarem presentes um dos requisitos autorizadores da custódia cautelar – preservação da ordem pública -, nos termos do artigo 312, do Código de Processo Penal, pela suposta prática delitiva tipificada no artigo 288, parágrafo único, do CP.

2) Alegam os Impetrantes que a decisão que decretou a prisão preventiva está carente de fundamentação idônea a ensejar a segregação provisória dos pacientes, vez que a soltura dos mesmos não causa qualquer risco ou perigo à sociedade, afirmando também que não há qualquer individualização das condutas dos réus na peça exordial acusatória, impossibilitando a defesa de exercitar o contraditório e a ampla defesa. Requerem o deferimento da liminar para revogar a prisão preventiva, expedindo os alvarás de solturas e salvos condutos para aqueles que estiverem soltos.

3) Sabe-se que o acolhimento de liminar em sede de

Habeas Corpus reserva-se aos casos excepcionais de flagrante ofensa ao direito de ir e vir do paciente e desde que preenchidos os pressupostos legais, consistentes no “fumus boni juris” e no “periculum in mora”.

4) Por seu turno, cabe considerar que a prisão cautelar é medida excepcional e deve ser decretada apenas quando devidamente amparada pelos requisitos legais, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência consagrado no art. 5º, LVII da CF, além do que exige concreta fundamentação, nos termos do disposto no art. 312 do CPP, devendo sua necessidade e adequação ao caso concreto ser suficientemente demonstrado, o que em relação aos pacientes, até o momento, não vislumbro plenamente demonstrados no presente.

5) Gize-se por oportuno que em relação aos pacientes CAMILA APARECIDA JOURDAN e IGOR PEREIRA D`ICARAHY nos autos de nº 0228193-48.2014.8.19.0001, em tramite na 38ª Vara Criminal

Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro 7ª Camara Criminal Habeas Corpus nº 0035621-68.2014.8.19.0000

01 02 Secretaria da Sétima Câmara Criminal Beco da Música, 175, 1º andar – Sala 107 – Lâmina IV Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20020-903 Tel.: + 55 21 3133-5007 – E-mail: 07ccri@tjrj.jus.br

da Capital, para o qual foi distribuído comunicação de flagrante pela suposta pratica do delito previsto no art. 16, III da Lei nº 10.826/03 o MM Juízo a quo, apreciando pedido defensivo, e acolhendo promoção ministerial favorável, entendeu inexistir qualquer indicativo de que os referidos indiciados representavam perigo para a ordem pública ou que a segregação cautelar fosse necessária à instrução criminal, concedendo aos mesmos liberdade provisória com a imposição das medidas cautelares previstas no art. 319, I e IV do CPP, através de decisão lavrada em 21/07/2014.

6) In casu, da analise cuidadosa dos autos, vislumbra-se que, ao menos em analise perfunctória, que a decisão que decretou a custódia preventiva dos pacientes deixou de contextualizar, em dados concretos, individuais e identificáveis nos autos do processo, a necessidade da segregação dos acusados, tendo em vista a existência de outras restrições menos onerosas.

7) Com efeito, o decreto da custodia cautelar não analisou a inadequação das medidas cautelares alternativas diversas da prisão, nos termos do art. 282, § 6º do CPP, sendo certo que o Magistrado somente poderá decretar a medida extrema da prisão preventiva, quando não existirem outras medidas menos gravosas ao direito de liberdade do acusado por meio das quais seja possível alcançar, com igual eficácia, os mesmos fins colimados pela prisão cautelar, e via de consequência, permitir a tutela do meio social naquelas hipóteses em que haja risco de reiteração.

8) Assim, tendo em vista a urgência no caso concreto, inaudita altera pars, DEFIRO LIMINAR para conceder aos pacientes: ELISA DE QUADROS PINTO SANZI, LUIZ CARLOS RENDEIRO JUNIOR, GABRIEL DA SILVA MARINHO, KARLAYNE MORAES DA SILVA PINHEIRO, ELOISA SAMY SANTIAGO, IGOR MENDES DA SILVA, CAMILA APARECIDA RODRIGUES JOURDAN, IGOR PEREIRA D’ICARAHY, DREAN MORAES DE MOURA CORRÊA, SHIRLENE FEITOZA DA FONSECA, LEONARDO FORTINI BARONI PEREIRA, EMERSON RAPHAEL OLIVEIRA DA FONSECA, RAFAEL RÊGO BARROS CARUSO, FILIPE PROENÇA DE CARVALHO MORAES, PEDRO GUILHERME MASCARENHAS FREIRE, FELIPE FRIEB DE CARVALHO, PEDRO BRANDÃO MAIA, BRUNO DE SOUSA VIEIRA MACHADO, ANDRÉ DE CASTRO SANCHEZ BASSERES, JOSEANE MARIA ARAUJO DE FREITAS, REBECA MARTINS DE SOUZA, FABIO RAPOSO BARBOSA e CAIO SILVA RANGEL o direito de aguardarem em liberdade o julgamento de mérito do presente writ, aplicando, entretanto, aos mesmos, as medidas cautelares previstas no art. 319 incisos I e IV e no art. 320, ambos do CPP de: 01) obrigação de comparecer mensalmente ao juízo processante, nas condições fixadas pelo mesmo, para informar e justificar atividades; 02) proibição de ausentar-se da Comarca ou do País, sem previa autorização judicial: 03) entrega do passaporte no prazo de 24 horas; e 04) assinar termo de comparecimento a todos os atos do processo, cientificados de que o descumprimento de qualquer das medidas, acarretará imediata revogação e decretação da prisão preventiva, nos termos do art. 282, § 4º do CPP, devendo o MM Juízo a quo providenciar a intimação dos pacientes para assinar termo de compromisso referente às condições das medidas ora impostas, assim como para a entrega do passaporte, e demais providencias previstas no art. 320 do CPP.

9) Determino a Secretaria que providencie a imediata expedição e cumprimento dos competentes alvarás de soltura daqueles pacientes que se encontrarem segregados cautelarmente, se por outro motivo não estiverem presos, e atribuindo ao MM Juízo a quo o recolhimento dos mandados de prisão daqueles pacientes que se encontrarem soltos, caso ainda não tenham sido cumpridos.

Comunique-se imediatamente ao MM Juízo de origem.

10) Intimem-se os impetrantes para esclarecem a impetração quanto ao paciente

EDIGREISSON FERREIRA DE OLIVEIRA, tendo em vista não constar o nome do mesmo no decreto prisional, no prazo assinalado de 24 (vinte e quatro) horas.

11) A Secretaria deverá providenciar a juntada de cópia da presente decisão assim como das informações prestadas pela autoridade coatora nestes autos, nos seguintes Habeas Corpus: 0035381-79.2014.8.19.0000, 0035817-38.2014.8.19.0000, 0035819-08.2014.8.19.0000, 0035891-92.2014.8.19.0000, 0035989-77.2014.8.19.0000, 0036142-13.2014.8.19.0000, 0036175-03.2014.8.19.0000 e 0036245-20.2014.8.19.0000.

12) Após, ultimadas todas as providências acima determinadas, encaminhe-se o feito à d. Procuradoria de Justiça.

Rio de Janeiro, 22 de julho de 2014.

Desembargador SIRO DARLAN DE OLIVEIRA

Relator

O teatro midiático e político na perseguição a ativistas  

Por RAPHAEL TSAVKKO   

Os veículos de comunicação do Grupo Globo têm dado não apenas repetidas amostras de jornalismo rasteiro ou mesmo de anti-jornalismo, mas ainda não conseguiram explicar as informações privilegiadas a que têm acesso, num processo que sequer os advogados de defesa dos acusados o conseguem.

O caso dos 23 perseguidos políticos, que tem em Elisa Quadros, a Sininho, o principal alvo da mídia global, demonstra quão perigosa para a democracia pode ser a relação entre um grupo de comunicação e governos, a polícia e setores do judiciário. Sininho tem sido alvo de acusações que parecem roteiro de novela de péssima qualidade, algo que a Globo tem experiência em produzir.

Roteiro macarrônico de novela de quinta em que uma única pessoa parece ter tomado a frente em uma campanha para queimar edifícios públicos, tocar o terror e tudo isso sem que o real propósito sequer fosse mencionado.

O que moveria Sininho? Qual sua motivação e objetivos? Isto os veículos do Grupo Globo não conseguiram ainda bolar. Os personagens e a trama estão dispostos em um cenário quase apocalíptico, mas ainda não conseguiram encaixar detalhes fundamentais à trama.

Tampouco conseguiram explicar como pessoas que nunca se viram na vida estão relacionadas e como elementos anarquistas teriam função de direção em organizações hierárquicas. O enredo da novela global simplesmente não bate com a realidade, ainda que esta nunca tenha sido a preocupação.

 O mais grave, para além da tentativa de criminalização de movimentos sociais – algo corriqueiro na história deste grupo de comunicação que, como outros, apoiou de maneira entusiasmada o golpe militar, os anos de chumbo, as torturas e desaparecimentos políticos, e que com a redemocratização adotou automaticamente a posição de defender a repressão e o aparato policial –, está no acesso privilegiado deste grupo de comunicação ao processo contra os acusados.

 Mesmo o desembargador Siro Darlan, responsável pelo habeas corpus de parte dos ativistas ha alguns dias, reclamou da falta de colaboração do delegado responsável pelo caso e que até ele não teve acesso aos documentos. Circulam pelas redes (também redes de amigos e de apoio aos presos políticos e refugiados, como estão sendo considerados) comentários inúmeros de que os advogados de defesa encontram dificuldade para ter acesso ao processo e que a Globo, simplesmente, conhece mais detalhes da acusação do que eles, que têm o dever de defender seus clientes e são impedidos de fazê-lo.

 Estivesse o grupo Globo interessado em praticar algo semelhante ao jornalismo, buscaria saber por que do interesse em ligar ativistas dispersos, e muitos sem qualquer conexão entre si, a crimes próximos ao terrorismo, exatamente durante a Copa do Mundo (vale lembrar que as primeiras prisões deste grupo se deram um dia antes da final da Copa), um dos eventos mais importantes para o governo Dilma e considerado essencial enquanto propaganda, em meio a uma grave crise de confiança e governabilidade.

Sininho, esta que sem dúvida é vítima de perseguição midiática que vai além da do grupo Globo, mas conta com a participação da Veja – o protótipo do panfleto de extrema-direita sem qualquer comprometimento com a verdade factual – e de outros meios, foi presa em Porto Alegre. Ela sequer participaria dos protestos durante a final, no Rio de Janeiro, e sua prisão em outro estado denuncia a participação de agentes ou forças muito além que simplesmente as do Rio de Janeiro. Além do mais, os interesses em jogo vão além da Copa, ou mesmo dos interesses imediatos do Rio de Janeiro.

 Os protestos que tomaram o país desde junho de 2013 são o alvo. O direito ao protesto em si, à indignação e à insatisfação. O interesse é maior que do Rio ou de São Paulo, é um interesse das elites políticas nacionais e, em especial, da federal, que foi inegavelmente o principal alvo dos protestos que continuaram a varrer o país depois de junho (este que tinha foco muito mais local, ainda que tenha se espalhado, nos preços das passagens do transporte público).

 Ações nas mídias sociais como o #NãoVaiTerCopa e o #CopaPraQuem causaram reação raivosa de parte da militância ligada ao governo federal e do próprio governo, que logo criaram “respostas” de gosto e efeito duvidoso, como o #VaiTerCopa ou o mais agressivo, #VaiTerCopaSim, que abriu espaço para mensagens com tom até mesmo ameaçador.

 Se por um lado quem estava nas ruas buscava também um diálogo, por outro este espaço nunca existiu. A grande mídia, capitaneada neste caso por Folha de S. Paulo e pela Globo, correu para criminalizar os protestos, mesmo com seus jornalistas sendo alvos preferenciais da barbárie policial. Barbárie esta que chegou a forçar uma mudança de tom da mídia. Porém, não durou muito.

 Começado o novo ano, os protestos passaram a atingir algo mais do que os brios ditatoriais de amplos setores midiáticos, mas passaram a atingir o bolso. A Globo (mas não só) investiu pesado na Copa do Mundo e não podia ver seus interesses serem prejudicados por alguns jovens revoltados (sic) que estavam nas ruas. Era o momento de agir.

 Não surpreende que hoje o grupo midiático busque chamar os protestos de 2013 de “junho negro”, numa tentativa de deslegitimar a origem mais imediata da insatisfação que explodiu.

Enquanto policiais gravados em vídeo forjando provas e flagrantes ou até participando ativamente de atos de brutalidade contra manifestantes (ou mesmo transeuntes) não causam furor junto à mídia, mas são denunciados e divulgados quase que exclusivamente pelas mídias sociais e veículos alternativos, ativistas são criminalizados.

 E a criminalização não vem apenas da mídia, como não vem apenas das autoridades cariocas e fluminenses. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já deixou claro seu apoio à repressão, alegando que não há qualquer ilegalidade, pelo contrário. Mesmo a presidente Dilma Rousseff já se manifestou. Seja de forma indireta, usando seu espaço na internet para louvar a “integração” das forças de segurança (sic) em uma imagem do mapa do Brasil coalhado por policiais e militares (uma imagem de causar calafrios) e o resultado desta nas ruas, seja declarando com todas as letras que seus esforços junto aos de governos estaduais contribuíram para “garantir um padrão de segurança”. Sem dúvida, o padrão do Estado de Exceção.

Como se vê, há um circo montado que vai além das fronteiras do Rio de Janeiro, mas que interessa a diferentes esperas de poder e governo. E interessa à mídia que, neste momento, se alia ao governo federal (e ao PT) na criminalização dos protestos. Os movimentos que estão hoje nas ruas são, em geral, aqueles que o PT não conseguiu cooptar após 12 anos de poder, oferecendo favores e verbas ou à moda antiga, tomando para si ou para aliados direções em sindicatos e movimentos.

 Chegamos a ver militantes destacados do Partido dos Trabalhadores criminalizando a greve dos metroviários em São Paulo – uma greve, em tese, contra o PSDB, partido, em tese, inimigo – apenas porque se dava próxima à abertura da Copa do Mundo! Os interesses internos e de manutenção do próprio poder são mais importantes que os interesses de classe e de trabalhadores que historicamente eram apoiados pelo partido.

 A mídia em geral possui interesses opostos aos de tais grupos, assim como, neste momento, o PT e o governo federal, que não aceitam verem movimentos além de seu controle, muito menos causando problemas e prejuízos à imagem de Dilma e demais aliados. Neste ponto, há convergência mesmo com o PSDB, historicamente avesso a qualquer tipo de atividade nas ruas que não sejam carros passando – ou parados em engarrafamentos.

 O momento é ainda mais dramático porque não apenas verificamos essa confluência de interesses de diversas partes, de diversas esferas e mesmo entre os maiores partidos políticos do país, como também vemos poucas saídas.

 Eloisa Samy, David Paixão e Camila Nascimento, três dos 23 perseguidos políticos neste momento, buscaram asilo para fugir da criminalização que enfrentam. O asilo foi negado pelo Uruguai, país com fortes laços com o Brasil, sob argumentos pífios, como chegou a explicar em seu Facebook a professora Daisy Ventura. Os argumentos foram do risível (de que um consulado não seria local para pedido de asilo) ao inacreditável (de que dar o asilo seria reconhecer que o Brasil não seria um país democrático). Oras, o Equador garantiu asilo a Julian Assange, do Wikileaks, em sua embaixada em Londres e em momento algum se aventou a possibilidade de o Equador estar anunciando que a Inglaterra não seria uma democracia. O mesmo vale para a Rússia, que garantiu asilo/refúgio a Edward Snowden.

 No fim, os conchavos políticos parecem ter saído mesmo da esfera nacional. Para deleite da mídia, Globo em particular, que pôde narrar toda a saga de Eloisa e demais refugiados para uma audiência ávida e não necessariamente crítica.

 A situação dos direitos humanos no Brasil vai de mal a pior (em diversas áreas, desde a questão indígena, passando pelos direitos das mulheres e LGBTs, até culminar na total criminalização do direito ao protesto) e, infelizmente, amplos setores da grande mídia demonstram, entusiasmados, que concordam com tudo. Não aprenderam nada do período em que apoiaram a ditadura. Lembrando que a Rede Globo sequer se desculpou pelo apoio dado – e recebido.

 Cabe aos democratas, aos defensores dos direitos humanos e a todos aqueles que ainda acreditam nestes valores, e também na possibilidade de se fazer um jornalismo comprometido com causas sociais e com os interesses da população, lutar contra essa nuvem negra que estacionou sob nossas cabeças. Antes que seja tarde.

RAPHAEL TSAVKKO   é jornalista

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9851:submanchete230714&catid=72:imagens-rolantes
 

Nota sobre a participação de Pesquisadores do NUPEM/UFRJ na Audiência Pública realizada em 16 de julho de 2014

Sobre a Audiência Pública para a apresentação do Relatório de Impacto Ambiental do processo de Requerimento de Licença Prévia para Implantação do Terminal Portuário de Macaé – TEPOR, realizada no dia 16 de julho de 2014 no Centro de Convenções Jornalista Roberto Marinho, em Macaé, o Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Socioambiental de Macaé, Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ), esclarece que:

– O NUPEM/UFRJ defende o debate aberto e a liberdade de opiniões, e entende que todos os pareceres técnicos serão apreciados adequadamente no julgamento da viabilidade do empreendimento a ser realizado pelo INEA.

– Cumprindo seu papel social e civil, alguns pesquisadores do NUPEM/UFRJ, e outros que não puderam estar presentes na Audiência, entregaram ao representante do INEA documentos contendo análises técnicas do Estudo de Impacto Ambiental da Implantação do Terminal Portuário. As análises e questionamentos apresentados pelos pesquisadores na Audiência Pública abrangem única e exclusivamente as áreas nas quais desenvolvem pesquisas, cujos resultados têm sido publicados nos mais importantes periódicos nacionais e internacionais, e que tem recebido amplo reconhecimento da comunidade acadêmica.

– Dos pesquisadores do NUPEM/UFRJ presentes na Audiência, apenas dois se manifestaram oralmente, efetuando questionamentos dentro de suas áreas de especialidade e de acordo com o conteúdo dos documentos técnicos entregues ao INEA. Nenhuma outra pessoa que expressou opinião a favor ou contrária à implantação do Porto durante a audiência faz parte do NUPEM/UFRJ.

– O NUPEM/UFRJ e seus pesquisadores não estão ligados a nenhum movimento social, seja ele a favor ou contra a instalação do Porto, também não estando ligados a nenhum setor político da região ou entidade ambientalista (desta maneira, pesquisadores do NUPEM/UFRJ não são ambientalistas).

– O NUPEM/UFRJ, como instituição pública federal, e seus pesquisadores, reiteram seu compromisso com a sociedade macaense, em defesa de uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável por meio da difusão dos conhecimentos científicos, fornecendo recursos para um debate aberto entre os diferentes setores que possuem opiniões conflitantes em relação à instalação do Terminal Portuário.

– O NUPEM/UFRJ atua em Macaé há 20 anos e sempre teve como objetivo maior o desenvolvimento socioambiental e a melhoria da qualidade de vida da população macaense e da região.

– Reforçamos que a população macaense, em especial os habitantes dos bairros mais diretamente afetados pelo TEPOR, tem o direito de compreender todos os detalhes técnicos do Relatório de Impacto Ambiental apresentado na Audiência. É nesse espírito que o NUPEM/UFRJ e seus pesquisadores participam do processo. Conhecendo a fundo esse relatório, os cidadãos macaenses poderão ser mais bem amparados pelas leis que regem o processo de Licitação do empreendimento, tendo, ao fim do processo, a garantia de que o melhor resultado em favor da população foi atingido, dentro dos limites da Lei.

– O NUPEM/UFRJ e seus pesquisadores apoiam veementemente a criação de postos de trabalho e o desenvolvimento sustentável de Macaé, atuando na formação profissional de milhares de cidadãos e colaborando, através de seu corpo técnico, nas várias instâncias que lidam com questões ambientais na região. A produção e divulgação de conhecimento científico e a formação de novos profissionais vêm sendo realizadas por meio de diversos Projetos de Pesquisa, Cursos de Extensão, e dos Cursos de Graduação em Ciências Biológicas e Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação, cujas implantações em Macaé são reconhecidas como marcos no desenvolvimento da educação e qualificação profissional na região.

– Diversos projetos desenvolvidos no NUPEM/UFRJ promovem efetivamente a melhoria das condições sociais da população local. Como exemplo, mais de 2000 crianças de escolas da região visitam anualmente as instalações do NUPEM/UFRJ, recebendo informações importantes sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O NUPEM/UFRJ também possui diversas parcerias com representantes da sociedade local, que utilizam as instalações da Instituição para os mais diversos fins educativos, culturais, científicos e sociais.

– O NUPEM/UFRJ é uma casa aberta a todos os setores da sociedade, não se eximindo, em nenhuma circunstância, de cumprir seu papel informativo em prol da defesa do desenvolvimento sustentável da sociedade da região.

– Por fim, o NUPEM/UFRJ defende a liberdade de expressão de opiniões, e espera que o debate seja aberto e mantido em níveis que permitam que todos os elementos técnicos possam ser apreciados adequadamente pela população. Os pesquisadores do NUPEM/UFRJ estão participando da discussão sobre a instalação do Terminal Portuário, sem assumir, de antemão, nenhuma posição “pró” ou “contra” a instalação desse empreendimento. Ressaltamos também que a decisão técnica de autorizar a Instalação do empreendimento cabe à Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA), através do INEA.

FONTE: http://www.macae.ufrj.br/nupem/index.php?option=com_content&view=article&id=277%3Anota-sobre-a-participacao-do-nupem-ufrj-na-audiencia-publica-realizada-em-16-de-julho-de-2014&catid=20%3Anovidades&Itemid=136

Banda inglesa se pronuncia publicamente sobre massacre em Gaza. Enquanto isso no Brasil…

A Massive Attack banda inglesa de trip hop aproveitou a edição de 2014 do Longitude Festival que ocorreu na capital da Irlanda, Dublin, para expressar publicamente sua posição sobre o massacre em curso na Faixa de Gaza.

Me parece interessante que até agora não tenhamos tido nenhum artista ou banda no Brasil fazendo o mesmo. Aliás, o silêncio da classe artística brasileira sobre esse e outros eventos (a perseguição aos ativistas políticos no Rio de Janeiro e São Paulo) é uma mostra da qualidade que temos neste momento.

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CNN, Gaza e Malaysian Airlines

Dois pesos, duas medidas, o mesmo alinhamento

Por Carlos Fino

Desde quinta-feira(17/7), quando foi derrubado o avião da Malaysian Airlines sobre a Ucrânia e o exército israelita voltou a invadir Gaza, assistimos nos grandes media ocidentais de impacto global a uma intensa cobertura dos trágicos acontecimentos sob prismas bem diferenciados.

Enquanto no caso do avião a nota dominante é a acusação praticamente aberta de que a responsabilidade – direta ou indireta – é da Rússia, no caso do conflito do Oriente Médio a posição é bem mais cautelosa, colocando-se em pé de igualdade Israel e Palestina – como se as duas realidades se equivalessem e não houvesse de fato entre elas uma total assimetria.

Dois pesos e duas medidas, portanto, em atitudes praticamente opostas, mas ambas alinhadas com as respetivas políticas oficiais – de grande agressividade em relação à Rússia e de grande compreensão em relação a Israel.

No estilo sóbrio que lhe é próprio, a BBC, sem deixar de seguir de uma forma geral essas orientações, tem sido mais discreta; mas a CNN assume-se abertamente como a defensora dos interesses americanos, transformando os seus blocos noticiosos numa quase incessante reunião de estado-maior, em que se analisam as medidas que o país deve tomar.

Medidas bem determinadas, incluindo militares, no caso de resposta à Rússia e conciliatórias no que respeita a Israel, cuja ofensiva bélica, por mais brutal que seja, é sempre vista com alguma leniência, enquadrada no inquestionável direito do Estado judaico se defender.

Sem distanciamento

A estação de Atlanta tem dedicado horas seguidas em dias consecutivos a explorar o tema do avião abatido na Ucrânia, sem nunca lembrar que quer os EUA, quer a própria Ucrânia, já foram no passado responsáveis por acidentes trágicos como aquele que agora ocorreu com o avião malaio: em 1988, a marinha norte-americana abateu no estreito de Ormuz um avião iraniano com 290 pessoas a bordo e, em 2001, o exército ucraniano derrubou um avião russo com 64 passageiros e 12 tripulantes.

Os painéis de comentadores que têm sido convocados para debater o tema não têm tido verdadeiro contraditório e tendem a conferir toda a credibilidade às informações dos serviços de segurança e inteligência ucranianos, hoje estreitamente ligados com os seus homólogos norte-americanos.

Nota dominante – a avalanche de analistas que consideram já os russos culpados e a necessidade de tomar rapidamente medidas fortes contra Moscou – desde sanções económicas “para doer” até apoio militar ao governo de Kiev. Outra ideia veiculada nesses debates – a de que este é o momento para a Europa se juntar à cruzada contra o Kremlin, como querem Washington e os seus mais próximos aliados. O primeiro ministro britânico deu aliás o tom: “É hora da Europa mostrar os dentes à Rússia”.

A julgar por estas intervenções, em Washington existe ou está em vias de se formar um consenso bipartidário no sentido de aproveitar a tragédia do avião abatido para intensificar a política de isolamento de Vladimir Putin, tentando aproveitar a comoção gerada pelo acontecimento para levar atrás de si os até agora relutantes países europeus.

Que o governo norte-americano o faça, até se compreende. Está no seu papel. O que espanta, em termos jornalísticos, é que uma cadeia com a importância e a responsabilidade da CNN se preste a atiçar o fogo sem aquele mínimo de distanciamento que as regras básicas da profissão exigem e o trágico exemplo do Iraque aconselharia.

Debate plural

Em termos substanciais, infelizmente, é pouco provável que a comoção gerada pelo incidente do avião e pela invasão de Gaza venha a curto prazo alterar as situações no terreno como alguns, mais otimistas, parecem esperar.

Se bem conheço a Rússia, o Kremlin não aceitará uma derrota completa das forças pró-russas na Ucrânia e no caso do avião tenderá a seguir aquela que é a tradição histórica da burocracia política do país – negar e silenciar. E no Oriente Médio o impasse prosseguirá, por mais mortos que as cíclicas ofensivas de Israel provoquem. Enquanto permanecerem as condições opressivas em que vivem os palestinos, sempre surgirão forças que se irão rebelar.

Quer num caso como noutro, os grandes media internacionais desempenhariam entretanto melhor a sua função se em vez de alinharem com as versões oficiais assumissem posições mais distanciadas, contribuindo para um debate sério e plural sobre os diferentes conflitos, na busca de soluções negociadas capazes de garantir a paz e não provocar a guerra.

***

Carlos Fino é jornalista português, autor de A guerra ao Vivo (Verbo Brasil), ex-correspondente internacional da RTP em Moscou, Bruxelas e Washington. Cobriu a queda da União Soviética, o lançamento do euro e alguns dos conflitos armados mais importantes de final do século 20 e início do século 21: guerra civil da Geórgia, primeira guerra da Chechênia, conflito do Nagorno-Karabakh, Trans-Dniéstria, Afeganistão, Albânia, Palestina e Iraque. Primeiro jornalista do mundo a transmitir imagens ao vivo sobre o início do bombardeio americano a Bagdá. Foi conselheiro de imprensa da embaixada de Portugal em Brasília (2004-2012), cidade onde atualmente reside.

FONTE: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/dois_pesos_duas_medidas_o_mesmo_alinhamento

Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0

Pelas abelhas

Campanha internacional criada por brasileiros chama atenção para o desaparecimento de colmeias e seu impacto sobre o ambiente e a segurança alimentar dos humanos.

Pelas abelhas

A maior parte dos cultivos agrícolas depende da polinização feita por abelhas. (foto: Bob Peterson/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

A notícia de que a população mundial de abelhas tem se reduzido pode até ser novidade para alguns, mas não aqui na CH On-line. Esses insetos vêm desaparecendo nos últimos 60 anos e 13 espécies foram extintas do planeta – das cerca de 20 mil existentes. O que parece uma boa notícia para os alérgicos é, no entanto, preocupante para o futuro da humanidade. Por isso, pesquisadores brasileiros lançaram uma campanha global para divulgar o sumiço de abelhas batizada de Bee or not to be? – um trocadilho em inglês com o verbo ‘ser’ (to be) e a palavra ‘abelha’ (bee) baseado na famosa frase de William Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão.”

Ao tentar polinizar vegetais tratados com certos tipos de pesticidas, as abelhas desenvolvem um problema no sistema nervoso que faz com que ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento

Os pesquisadores chamam a atenção para um fenômeno mundial denominado ‘síndrome do desaparecimento das abelhas’, decorrente de um problema no sistema nervoso desses insetos que faz com que eles ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento. Essa alteração está relacionada principalmente ao uso na agricultura de uma classe de pesticidas à base de nicotina, os neonicotinoides. Ao tentar polinizar os vegetais tratados com esses pesticidas, as abelhas se contaminam e desenvolvem o problema.

Em sua página, o projeto pretende alertar a população sobre esse fenômeno e reunir assinaturas em todo o mundo para pressionar autoridades a regulamentar o uso dos pesticidas nocivos para as abelhas. “O uso de pesticidas no Brasil hoje é pouco regulamentado e produz muitos efeitos adversos ao ambiente e às espécies”, aponta o idealizador da campanha, o geneticista Lionel Segui Gonçalves, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) em Mossoró (RN) e diretor do Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte (Cetapis).

Mapeamento colaborativo

Embora as abelhas ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ler mapas e encontrar o caminho de volta para suas colmeias, é exatamente nos mapas que o siteaposta para preservar esses insetos. Na página, é possível baixar o aplicativo Bee Alert, disponível para computadores, tablets e smartphones. O programa, voltado para apicultores, meliponicultores, agricultores e pesquisadores da área, permite aos usuários registrar on-line em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas e assim contribuir para o monitoramento da população desses insetos.

Mapa de ocorrência de abelhas
A página do projeto disponibiliza um aplicativo em que os usuários podem registrar em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas para ajudar no seu monitoramento. (imagem: reprodução)

“O usuário precisa indicar, por exemplo, o nome do apicultor responsável pela colmeia e do proprietário do apiário, além de informações sobre o local, a quantidade de colmeias e a causa das mortes das abelhas”, diz Gonçalves. “Também pedimos, quando possível, dados sobre a perda financeira associada ao desaparecimento, para estimar o impacto econômico da síndrome.”

Segundo o pesquisador, nos Estados Unidos a população de abelhas passou de 5 milhões há sete anos para 2,5 milhões atualmente – uma queda que levou à falência inúmeros apicultores.

O aplicativo já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas

E não são só os apicultores que sofrem com o sumiço das abelhas. Mais de 70% das culturas agrícolas dependem da polinização feita por elas. “Sempre lembro a previsão feita por Albert Einstein quando afirmou que, caso as abelhas viessem a desaparecer, a humanidade desapareceria logo em seguida”, comenta Gonçalves.

O aplicativo, lançado em abril deste ano, já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas – fato bastante preocupante, segundo os coordenadores da campanha. “Desejamos entregar, além das assinaturas por uma regulamentação, dados documentados do impacto dos pesticidas nas colônias das abelhas”, diz o pesquisador. “Assim, o material servirá de apoio para a fiscalização dos pesticidas nas áreas apontadas.”

Além dos dados e assinaturas que estão sendo recolhidos, a página do projeto conta com dicas de medidas que podem ser tomadas pela população para reverter essa situação, como o consumo de alimentos orgânicos (sem pesticidas) e o cultivo de espécies de abelhas sem ferrão em casa.

Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/07/pelas-abelhas