À beira de uma hecatombe socioambiental: Michel Temer autoizou a pulverização aérea de agrotóxicos nas cidades brasileiras

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Venho estudando os impactos do uso intensivo de agrotóxicos no Brasil por mais de uma década, tendo inclusive participado de projetos de pesquisa e realizado publicações científicas sobre o tema.  Em função disso tenho uma ampla gama de reservas sobre o uso dessa substâncias na agricultura, pois do uso das mesmas decorrem uma série de impactos sociais, econômicos e ambientais. O fato do Brasil ser desde 2008 o maior consumidor mundial de agrotóxicos é um motivo de forte preocupação para mim, pois considero que estamos em meio a uma hecatombe socioambiental que decorre diretamente do uso dessas substâncias.

Mas como o que é ruim sempre pode piorar, no último 27 de junho o presidente interino Michel Temer sancionou o Decreto Lei No. 13.301/ 2016 (Aqui!) que autoriza a pulvarerização aérea de agrotóxicos em cidades brasileiras sob a desculpa (esfarrapada, grifo meu) de ampliar o combate ao mosquito Aedes aegypti que é transmissor do vírus da dengue, do vírus chikungunya e do vírus da zika.

Além da reconhecida baixíssima eficácia da aspesão aérea de agrotóxicos, a sua realização implicará numa contaminação desenfreada da atmosfera, corpos aquáticos, e servirá para eliminar uma série de espécies vivas que não as populações do mosquito Aedes aegypti.  Com essa medida deverão ser eliminados, por exemplo, os morcegos que são aliados fundamentais na diminuição de populações de mosquitos nas cidades. Além disso, poderão ser varridas populações de pássaros, bem como teremos um processo de contaminação de seres humanos, especialmente os mais pobres que viviam nas áreas que deverão concentrar o uso de aviões para aspersão de agrotóxicos.

Não adiantaram os avisos de sociedades científicas, de institutos de pesquisa e até de técnicos do próprio Ministério da Saúde. Aparentemente falou mais alto a necessidade de garantir a recuperação na venda de agrotóxicos que estão com vendas mais baixas por causa da crise econômica. 

Agora, convenhamos, o que mais me espanta não é nem essa decisão estapafúrdia, mas o silêncio geral da mídia corporativa que deveria estar tratando a promulgação deste decreto da mesma forma escandalosa com que tratou as prisões promovidas pela Operação Lava Jato. A verdade nua e crua é que estamos diante da possibilidade da repetição de situações como as vivivas pelo povo vietnamita que até hoje sofre com as graves consequências da aspersão aérea do agente Laranja pela força aérea estadunidense durante a Guerra do Vietnã.  E para quem não sabe, o Agente Laranja era o resultado da combinação dos agrotóxicos 2,4-D e 2,4,5 – T, sendo que o primeiro é amplamente vendido no Brasil até hoje.

Finalmente, o mais duro é saber que o controle da população de mosquitos pode ser feito de forma completamente segura e sem necessidade do uso de venenos. Bastaria investir em saneamento básico que teríamos uma boa parte do problema resolvida. 

3 pensamentos sobre “À beira de uma hecatombe socioambiental: Michel Temer autoizou a pulverização aérea de agrotóxicos nas cidades brasileiras

  1. […] À beira de uma hecatombe socioambiental: Michel Temer autorizou a pulverização aérea de agrotóx… (domingo, 3/7) Marcos Pedlowski […]

  2. Douglas Costa disse:

    A confiança no Brasil parece ter melhorado com a saída provisória da Dilma.

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