Expansão portuária reduz território da pesca artesanal; estudo propõe incluir pescadores em decisões sobre novos projetos

Artigo propõe governança participativa do território como caminho para reduzir conflitos entre atividade portuária e pesca artesanalSegundo o estudo, a dinâmica de ocupação e uso do território marítimo ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Foto: Mayra Jankowsky / Acervo Pesquisadores.

A expansão da área Portuária de Santos impacta diretamente a rotina de pescadores artesanais no litoral paulista. Uma das principais transformações é a redução dos territórios utilizados pela pesca, causando perda de lucratividade e ameaçando o sustento das comunidades. Há também aumento na poluição ambiental na região, com riscos associados a desastres, como colisões entre navios, vazamentos de carga e incêndios. Para minimizar conflitos entre a operação portuária e os modos de vida tradicionais, um novo estudo publicado na revista internacional Anthropocene Coasts na terça (28) propõe um Plano de Ação baseado no reconhecimento das comunidades pesqueiras locais e sua participação permanente na discussão e no licenciamento ambiental de novos projetos.

Para elaborar uma proposta de governança no território que contemplasse os interesses de diversos setores, as pesquisadoras Ingrid Cabral Machado, do Instituto de Pesca de São Paulo, e Mayra Jankowsky, da Universidade NOVA de Lisboa, realizaram diferentes etapas de coletas de dados. Primeiramente, organizaram grupos focais com 40 pescadores para entender a experiência desses trabalhadores com as atividades portuárias em Santos e a linha do tempo de impactos identificados. Eles destacaram que a autoridade portuária hoje cuida somente da parte operacional do Porto, sem atribuição de administrar o território como um todo. Os participantes também relataram ter participação limitada em espaços de decisão.

Em seguida, as pesquisadoras entrevistaram atores estratégicos — como a autoridade portuária, o gestor de uma área protegida adjacente, promotores estaduais e federais e representantes dos órgãos de licenciamento estaduais e federais. O próximo passo foi reunir esses atores institucionais e os pescadores em um workshop para discutir os cenários futuros e definir estratégias e prioridades para conciliar a gestão portuária com a produtividade, segurança e sustentabilidade da pesca artesanal.

O processo participativo resultou então na proposta de ações concretas em quatro eixos: a criação de um fórum permanente para o diálogo contínuo entre os atores; a revisão do processo de licenciamento ambiental considerando as áreas ocupadas, dinâmicas e saberes próprios das 24 comunidades pesqueiras da região; a participação dos pescadores em todas as etapas de instalação de novos projetos, com formação de comitê permanente; e a regulação das atividades portuárias, planejando atividades como dragagens em períodos que causem menor impacto à pesca.

A equipe de pesquisa tinha a expectativa de que os desastres fossem a categoria de impactos mais crítica para os pescadores. “Fomos surpreendidas pela grande preocupação dos pescadores com a instalação de infraestrutura portuária que provocam perdas territoriais permanentes e cumulativas, incluindo berçários, áreas de pesca e rotas de navegação”, observa Ingrid Machado. Ela também cita impactos invisibilizados, como a violência e a marginalização das comunidades, associadas às perdas econômicas e ao adoecimento mental e físico.

A autora explica que a dinâmica de ocupação e uso do território ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Isso parte de uma percepção predominante de que a região é prioritariamente portuária, enquanto o território pesqueiro, apesar da função histórica, é visto como menos importante. “Como os impactos do Porto não são novidade, é mais conveniente, frente ao grande desafio da gestão, considerar o território em sobreposição como zona de sacrifício, sob a alegação de que outras áreas seriam poupadas e que caberia aos pescadores e pescadoras se adaptarem por conta própria”, pontua.

Para Machado, a governança participativa é o principal caminho para transformar esse cenário e evitar que a expansão portuária inviabilize a pesca artesanal. O Plano de Ação elaborado pela pesquisa representa o início desse processo, mas depende do engajamento dos atores institucionais, do fortalecimento da participação das 24 comunidades pesqueiras reconhecidas pelo estudo e do suporte à continuidade das pesquisas na região.


Fonte: Agência Bori

Águas subterrâneas do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital está mostrando sinais de sobrecarga
Projeções visuais impactantes na Madison Avenue, em Nova York, EUA, convocam os bancos de Wall Street a tomarem medidas urgentes para proteger a floresta amazônica. Abril de 2026. Imagem: Michael Nigro / The Illuminator Project / Creative Commons 4.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Um novo estudo alerta que os níveis de água subterrânea em algumas regiões do Brasil estão diminuindo a taxas comparáveis ​​às observadas em alguns dos sistemas aquíferos mais explorados do mundo  .

A água sempre foi fundamental para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. 

Dos rios da Amazônia às cheias sazonais que transformam o Pantanal em uma das maiores áreas úmidas do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Observado

Durante gerações, essa abundância criou a crença de que o Brasil jamais enfrentaria uma grave escassez de água. 

No entanto, as evidências que emergem do subsolo sugerem que algumas reservas de água subterrânea estão se tornando cada vez mais vulneráveis ​​às pressões ambientais e humanas.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas da dinâmica das águas subterrâneas no Brasil, utilizando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um panorama misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam declínios persistentes ligados à expansão agrícola, à atividade de mineração, à variabilidade climática e à crescente demanda por água.

De acordo com os pesquisadores, o declínio das águas subterrâneas observado em alguns aquíferos brasileiros assemelha-se a padrões documentados em sistemas de águas subterrâneas altamente sobrecarregados em Bangladesh, Índia, Irã e Estados Unidos.

Pressupostos

O estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis. 

As águas subterrâneas suprem aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e abastecem mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, elas representam uma importante reserva durante períodos de seca e ajudam a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais estão em níveis baixos.  

Apesar de sua importância, o monitoramento de águas subterrâneas permanece limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

“Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança”, disse Getirana em resposta à pergunta sobre se a abundância histórica de água no Brasil pode ter fomentado a complacência.

“O que mudou é que as premissas que funcionavam no passado podem não ser suficientes para o futuro.” 

Agrícola

“Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma série de grandes crises hídricas, incluindo a crise de racionamento de energia elétrica de 2001, as severas secas de 2014-2015 e a escassez de água que afetou diversas regiões em 2021. 

As hipóteses que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro. 

“Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água. As águas subterrâneas têm se tornado cada vez mais parte da solução.” 

Ele acrescentou: “O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água se expandiu o suficiente para deixar uma marca detectável no armazenamento de água subterrânea.” 

“O Brasil não enfrenta hoje uma insegurança hídrica em âmbito nacional, mas esses resultados sugerem que a confiança tradicional do país na abundância de recursos hídricos pode precisar ser repensada em um contexto de mudanças climáticas e demanda crescente.”

Alguns dos sinais mais fortes de declínio das águas subterrâneas estão ocorrendo no centro do Brasil, particularmente em partes do Cerrado e nas bacias dos rios São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por uma extensa expansão agrícola. 

Enfraquecer

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado pelos hidrólogos como uma das paisagens mais importantes da América do Sul em termos de produção de água. Grandes sistemas fluviais nascem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias do Amazonas, Paraná e São Francisco. 

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada. 

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos sofreram anos com pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea. Nesses anos, a precipitação não conseguiu repor as reservas subterrâneas nas taxas históricas. Os pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea intensamente utilizados. 

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a diminuir, a extração de água subterrânea poderá se tornar cada vez mais difícil de manter durante períodos prolongados de seca. 

Variável

A bacia do São Francisco emergiu como uma das regiões que sofrem as perdas mais severas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo da água, seca, mudanças na cobertura do solo e alterações nos padrões de chuva. 

Conforme observado por Getirana, as águas subterrâneas podem mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões. “Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são normalmente as primeiras fontes de água a diminuir”, disse ele.

“As florestas ajudam a manter os recursos hídricos, promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciarem a circulação atmosférica regional e os padrões de precipitação. Os aquíferos, por sua vez, frequentemente funcionam como reserva de longo prazo, a poupança do sistema hidrológico.”

“Nossos resultados sugerem que os sistemas de águas subterrâneas estão se tornando menos confiáveis ​​em regiões onde a demanda por água é maior. Os maiores declínios nos estoques ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes de segurança naturais estão sob crescente pressão.”

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis , as mudanças não são uniformes em toda a bacia. 

Saturado

Getirana e seus colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis ​​de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até apresentaram aumento no armazenamento de água subterrânea. Essas descobertas sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes em condições ambientais favoráveis.

Próximo a Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais. 

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em diversas áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis ​​para declínios mais persistentes.

As secas recentes levaram os rios da Amazônia a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu graves inundações. Os pesquisadores observam que as condições das águas subterrâneas podem influenciar o risco de inundações, pois os sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuvas adicionais, aumentando o escoamento superficial.

Fogo

Em conjunto, esses resultados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Getirana afirmou: “Acho que uma das lições mais importantes é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do planeta, mas nossos resultados mostram que os sistemas de águas subterrâneas ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, as mudanças no uso da terra e a crescente demanda por água atuam em conjunto.

“Historicamente, muitas sociedades trataram os recursos naturais como praticamente inesgotáveis, por parecerem abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e os registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.”

“As águas subterrâneas são particularmente importantes porque são em grande parte invisíveis. Ao contrário dos rios ou reservatórios, as mudanças subterrâneas podem passar despercebidas durante anos ou mesmo décadas. Estudos como este ajudam a tornar visíveis essas mudanças ocultas antes que se tornem problemas maiores.”

O Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, também está sofrendo pressão crescente. Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso da terra e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Água doce

Os incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo a vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos de seca.

A atividade de mineração também contribui para o aumento da pressão em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para abastecer as operações de mineração. Isso pode reduzir os níveis dos lençóis freáticos, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em larga escala altera os sistemas hídricos. 

Ao redor do Mar Morto , décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração de águas subterrâneas contribuíram para uma queda drástica nos níveis de água, acelerando o recuo da linha costeira e a formação de milhares de dolinas. 

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil gerou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nas águas subterrâneas, áreas úmidas e sistemas hídricos interligados. 

Escassez

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como o aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao rio Madeira, uma das vias navegáveis ​​mais importantes da bacia amazônica. 

Embora as consequências a longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar os sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

O Brasil não está ficando sem água, mas a abundância de recursos não elimina a vulnerabilidade.

O estudo constatou que apenas uma fração da precipitação atinge e reabastece os aquíferos. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar diminuindo. 

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos foram frequentemente vistos principalmente como consequência da escassez de chuvas. 

Secas

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas se aceleram e a pressão sobre os recursos hídricos e terrestres aumenta, as águas subterrâneas provavelmente se tornarão um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil. 

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto à crescente conscientização pública sobre as questões de segurança hídrica.

Ele disse: “Estudos sobre disponibilidade de água, seca, águas subterrâneas e impactos climáticos estão cada vez mais presentes na mídia convencional e no debate público. O conhecimento científico por si só não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.”

“O fato de as águas subterrâneas e a segurança hídrica estarem se tornando temas de debate nacional no Brasil é encorajador. Quando a ciência chega ao público e influencia a tomada de decisões, cria oportunidades para aprimorar o monitoramento, o planejamento e a gestão hídrica a longo prazo.”

Ele acrescentou: “Na última década, um número crescente de estudos documentou o declínio das águas subterrâneas e do armazenamento de água em partes do Brasil, particularmente durante grandes secas.

Salvaguarda

“O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essa informação faça parte do processo de tomada de decisão.” 

“Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta surgiram da combinação de observações por satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.”

Durante décadas, o Brasil confiou na premissa de que os abundantes recursos hídricos compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. 

As evidências apresentadas neste estudo sugerem que a proteção das águas subterrâneas poderá se tornar tão importante quanto a proteção de rios, florestas e zonas úmidas nas próximas décadas.

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

Enquanto a ciência climática toca a sirene, os governos apertam o botão da soneca

O alerta de Eliot Jacobson converge com o diagnóstico do IPCC e com os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre sobre a gravidade da crise climática

O professor Eliot Jacobson escolheu um título deliberadamente brutal para seu artigo mais recente, publicado no boletim The Climate Casino: “More Fucked Today than Yesterday”, algo como “estamos mais ferrados hoje do que ontem”. A linguagem rompe com a cautela habitual dos relatórios científicos, mas o diagnóstico central encontra respaldo nas principais instituições que monitoram o clima da Terra. O sistema climático global continua se deteriorando, enquanto governos, empresas e sociedades agem como se ainda dispusessem de tempo abundante para enfrentar a crise.

Jacobson examina indicadores como a temperatura média global, o aquecimento dos oceanos, o desequilíbrio energético da Terra, a redução do albedo e a perda de gelo polar. Esses dados não pertencem a um campo marginal da ciência. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NASA, o programa europeu Copernicus, a Organização Meteorológica Mundial e o IPCC trabalham com as mesmas variáveis para avaliar o estado do sistema climático.

A principal diferença entre Jacobson e os grandes organismos científicos não está nos dados, mas na linguagem e no ritmo da análise. O IPCC reúne milhares de estudos, constrói consensos e organiza suas conclusões por níveis de confiança e probabilidade. Esse processo assegura enorme robustez científica, mas também produz documentos que muitas vezes chegam ao público depois que novos recordes já alteraram o quadro observado. Jacobson acompanha séries atualizadas e procura transmitir a velocidade com que os limites anteriores vêm sendo superados.

Por isso, seu discurso pode parecer mais alarmante do que os relatórios do IPCC. No entanto, ambos apontam para a mesma direção. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC afirma de forma inequívoca que as atividades humanas provocaram o aquecimento global e já produziram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera. Essas transformações aumentam a frequência e a intensidade de eventos extremos e atingem com maior severidade as populações que menos contribuíram para a crise climática.

Jacobson dedica atenção especial ao aquecimento dos oceanos. As águas absorvem a maior parte do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa. Esse acúmulo favorece ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, deslocamento de populações de peixes, proliferação de algas tóxicas e alterações nas cadeias alimentares. O calor oceânico também pode fornecer mais energia para tempestades tropicais e ampliar o potencial destrutivo de eventos extremos.

O desequilíbrio energético da Terra constitui outro eixo de sua análise. O planeta absorve atualmente mais energia do que devolve ao espaço. Os gases de efeito estufa dificultam a saída da radiação infravermelha, enquanto mudanças nas nuvens, nos aerossóis, no gelo e na neve alteram a quantidade de energia solar refletida. Enquanto esse desequilíbrio persistir, o sistema climático continuará acumulando calor.

A redução do albedo amplia ainda mais o problema. Superfícies claras, como gelo e neve, refletem grande parte da radiação solar, enquanto oceanos e solos escuros absorvem mais energia. Quando o gelo derrete, superfícies mais escuras ficam expostas, acumulam calor adicional e aceleram o próprio derretimento. Jacobson chama esse processo de “grande escurecimento” do planeta, expressão que sintetiza a perda progressiva da capacidade terrestre de refletir a energia solar.

A ciência ainda investiga o peso relativo de cada um desses mecanismos, e algumas projeções apresentadas por Jacobson carregam incertezas importantes. A comunidade científica ainda precisa determinar se os recordes registrados desde 2023 indicam uma aceleração estrutural do aquecimento ou se resultam de uma combinação entre mudança climática, El Niño, redução de aerossóis e outras formas de variabilidade natural.

Essa incerteza, porém, não justifica complacência. Em situações que envolvem consequências potencialmente catastróficas, a incerteza deveria reforçar o princípio da precaução. O IPCC afirma que cada fração adicional de grau amplia riscos, perdas e danos. A diferença entre 1,5 °C, 2 °C ou mais de aquecimento não constitui uma abstração estatística, pois representa maior pressão sobre ecossistemas, sistemas agrícolas, infraestrutura, saúde pública e disponibilidade de água.

O IPCC também adverte que existe uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente para garantir um futuro habitável. Reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões ainda poderiam desacelerar perceptivelmente o aquecimento nas próximas décadas. Portanto, o clima futuro não está completamente determinado. A humanidade ainda pode limitar parte dos danos, mas cada ano de atraso reduz o orçamento de carbono restante e exige transformações futuras ainda mais abruptas.

O principal obstáculo já não é a falta de conhecimento. A ciência demonstrou a origem humana do aquecimento, identificou seus mecanismos e descreveu grande parte de suas consequências. A dificuldade encontra-se nas instituições políticas e econômicas que continuam protegendo a expansão do petróleo, do carvão, do gás natural, do desmatamento e de padrões de consumo incompatíveis com a estabilidade climática.

O próprio IPCC reconhece a distância entre as metas anunciadas e as políticas efetivamente adotadas. Os compromissos nacionais continuam insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C, enquanto os investimentos em mitigação e adaptação permanecem muito abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, governos seguem aprovando infraestruturas fósseis que permanecerão em operação durante décadas.

Jacobson torna essa contradição impossível de ignorar. Os organismos científicos descrevem uma emergência, mas os governos tratam a crise climática como apenas mais uma agenda administrativa. As conferências internacionais se repetem, as metas se acumulam e as emissões globais continuam incompatíveis com os objetivos oficialmente anunciados.

Essa dissociação entre ciência e decisão política aparece com clareza no Brasil. O país procura se apresentar como liderança ambiental, mas amplia a produção de petróleo, defende novas fronteiras de exploração, incentiva grandes projetos de mineração e autoriza empreendimentos com elevado consumo de energia, água e infraestrutura. A expansão dos datacenters, por exemplo, avança sem que o debate público examine adequadamente seus impactos cumulativos sobre os territórios, os recursos hídricos e os sistemas elétricos.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma das comunidades científicas mais qualificadas do mundo para analisar a crise climática. Os trabalhos do físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e participante das avaliações do IPCC, demonstram as relações entre a floresta amazônica, os aerossóis, a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o clima regional e global. Artaxo alerta há anos que o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global enfraquecem os mecanismos ecológicos que permitem à Amazônia regular o clima e transportar umidade para outras regiões da América do Sul.

As pesquisas coordenadas por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acrescentaram evidências decisivas a esse diagnóstico. A partir de medições atmosféricas realizadas com aeronaves, Gatti e seus colaboradores demonstraram que áreas do leste e do sudeste da Amazônia perderam parte de sua capacidade de absorver carbono. Nessas regiões, as emissões associadas às queimadas, ao desmatamento e à degradação florestal já podem superar a absorção realizada pela vegetação.

Esses resultados mostram que a crise amazônica não pertence apenas ao futuro. As áreas mais desmatadas registram temperaturas mais elevadas, estações secas mais longas e maior vulnerabilidade ao fogo. O desmatamento reduz a evapotranspiração, diminui a formação de chuvas e cria condições que favorecem novas perdas florestais. A degradação passa, assim, a alimentar sua própria continuidade.

As evidências produzidas por Artaxo e Gatti convergem com os reiterados alertas públicos do climatologista Carlos Nobre. Há décadas, Nobre chama atenção para o risco de a Amazônia alcançar um ponto de inflexão, a partir do qual a perda florestal e o aquecimento poderiam desencadear uma transformação extensa e potencialmente irreversível do ecossistema. O prolongamento das estações secas, o aumento das temperaturas, os incêndios recorrentes e a redução da capacidade de reciclar umidade constituem sinais coerentes com esse risco.

Carlos Nobre também destaca que a preservação da Amazônia interessa a todo o continente. A floresta influencia a distribuição das chuvas, sustenta grande parte da biodiversidade planetária e armazena enormes quantidades de carbono. Sua degradação ameaça a produção agrícola, a geração hidrelétrica, o abastecimento urbano e a estabilidade climática muito além das fronteiras do bioma.

Os três cientistas brasileiros analisam dimensões complementares do mesmo processo. Paulo Artaxo investiga as relações entre floresta, partículas atmosféricas, nuvens e clima. Luciana Gatti mede diretamente as mudanças no balanço de carbono. Carlos Nobre integra essas evidências em um diagnóstico sistêmico sobre o risco de ruptura do equilíbrio ecológico e climático da Amazônia.

Esses trabalhos demonstram que o Brasil não pode alegar desconhecimento. O país possui dados, instituições e capacidade técnica para compreender os riscos que enfrenta. Apesar disso, as decisões estratégicas do Estado frequentemente subordinam o conhecimento científico aos interesses imediatos das cadeias petrolíferas, minerais, agropecuárias e financeiras.

A contradição se torna ainda mais grave porque o Brasil combina enorme vulnerabilidade climática com elevado potencial de mitigação. O controle do desmatamento poderia produzir resultados rápidos, enquanto a restauração florestal, a transformação dos sistemas alimentares, o fortalecimento do transporte coletivo e a expansão planejada das energias renováveis poderiam reduzir emissões e desigualdades ao mesmo tempo.

No entanto, o Brasil continua tratando a proteção ambiental como obstáculo ao crescimento e o licenciamento como uma formalidade a ser flexibilizada. A mesma lógica aparece na adaptação. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, incêndios e erosão costeira já afetam milhões de brasileiros, mas os governos continuam investindo menos na prevenção do que nas respostas emergenciais posteriores aos desastres.

O mérito do texto de Eliot Jacobson reside em recusar a transformação dos recordes climáticos em uma nova normalidade. Uma temperatura oceânica sem precedentes não representa apenas mais um ponto em um gráfico. Uma temporada excepcional de incêndios não constitui apenas uma anomalia anual. A repetição desses eventos altera as condições de existência das sociedades e dos ecossistemas.

Jacobson também identifica um fracasso da comunicação. A imprensa noticia recordes durante alguns dias e depois retorna à rotina como se o problema tivesse desaparecido. Governos anunciam metas para 2030 ou 2050, mas aprovam hoje projetos que ampliarão as emissões durante décadas. Empresas divulgam compromissos de neutralidade climática enquanto expandem a exploração de combustíveis fósseis.

A linguagem contundente de The Climate Casino procura romper essa normalização. Ela não substitui o rigor científico do IPCC nem dispensa a necessidade de distinguir observações, projeções e hipóteses. No entanto, expõe uma questão que os documentos institucionais nem sempre conseguem comunicar: a distância entre a gravidade das evidências e a lentidão da resposta política tornou-se uma fonte adicional de risco.

Jacobson não anuncia simplesmente um apocalipse inevitável. Ele mostra que cada novo recorde reduz o tempo e as condições disponíveis para agir. O IPCC chega à mesma conclusão ao afirmar que a janela de oportunidade para garantir um futuro habitável se fecha rapidamente.

A leitura conjunta dessas duas formas de comunicação produz uma conclusão incômoda. A humanidade não enfrenta a crise climática por falta de informação. Ela enfrenta a crise porque os interesses que lucram com a destruição ambiental ainda controlam grande parte das decisões econômicas e políticas.

Os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre reforçam esse diagnóstico no contexto brasileiro. A Amazônia já emite sinais claros de alteração funcional, partes da floresta perderam capacidade de absorver carbono e o risco de cruzar limiares críticos cresce com a continuidade do desmatamento e do aquecimento global. O Estado brasileiro não pode celebrar sua ciência no exterior enquanto ignora suas conclusões dentro do país.

Estamos em uma situação pior do que ontem não porque o colapso total aconteça de um dia para o outro, mas porque cada dia de emissões adicionais acumula energia no sistema climático, amplia os riscos e reduz as possibilidades de evitar mudanças irreversíveis. Amanhã poderá ser ainda pior caso a sociedade continue confundindo prudência científica com autorização para a inércia.

A crise climática exige redução imediata das emissões, interrupção do desmatamento, proteção e restauração dos ecossistemas, abandono da expansão das fronteiras fósseis e investimentos públicos maciços em adaptação. A ciência internacional e brasileira já cumpriu sua tarefa de formular o alerta. Resta saber se as sociedades conseguirão construir força política suficiente para transformar esse conhecimento em ação antes que as advertências atuais se convertam em descrições tardias de oportunidades definitivamente perdidas.

Ecological Economics investiga aparente discrepância de dados em estudo climático

Por Retraction Watch

Uma importante revista de economia ambiental está investigando alegações de que um estudo de 2025, que relaciona inovação nacional à redução das emissões de carbono, contém dados que não correspondem à sua fonte, após um especialista na área ter solicitado a retratação do artigo. 

O artigo foi publicado na revista Ecological Economics , da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, pela editora Elsevier. Os autores, três pesquisadores da ESSCA School of Management em Lyon, afirmaram ter utilizado dados de 229 países entre 2013 e 2020 e relataram uma relação negativa entre o nível de inovação de um país e suas emissões de dióxido de carbono per capita. O artigo foi citado cinco vezes, segundo o Web of Science da Clarivate. 

Mas três meses após a publicação, em outubro de 2025, a revista começou a investigar anomalias no conjunto de dados, embora os autores afirmem que nada foi fabricado. Em uma carta aos editores da revista solicitando uma retratação em outubro passado, vista pelo Retraction Watch, um acadêmico com experiência na área que revisou o conjunto de dados disse que o artigo apresentava “sérias preocupações com a integridade dos dados” e descreveu um “claro caso de má conduta na pesquisa”. 

Essas alegações derivam dos dados do estudo, que utiliza o Índice Global de Inovação (GII, na sigla em inglês), um ranking anual do desempenho em inovação de países ao redor do mundo. Os autores afirmaram que sua análise incluiu 229 países. No entanto, nos anos utilizados na análise do estudo, de 2013 a 2020, os relatórios do GII disponíveis online mostram o desempenho de apenas 126 a 143 economias globais. 

Cerca de 80 registros adicionais não correspondem aos dados subjacentes do GII, apesar de não haver divulgação do uso desses dados adicionais — acréscimos que inflacionam a amostra em cerca de 60% e distorcem os resultados estatísticos do estudo, segundo a denúncia. 

Muitas dessas inscrições usaram pontuações de inovação idênticas dentro de um mesmo ano. “A uniformidade desses valores demonstra manipulação intencional, e não erro”, segundo o e-mail. 

Os autores negaram a alegação em um e-mail enviado ao Retraction Watch. “Nenhum dado foi fabricado, conforme demonstrado pela documentação fornecida ao editor”, escreveu Naciba Chassagnon, economista da ESSCA School of Management, em nome dos três autores. Ela afirmou que a equipe respondeu prontamente às perguntas da revista e não “desejava antecipar a análise do editor sobre o assunto”. Chassagnon se recusou a explicar por que o conjunto de dados diferia do material original. 

Stefan Baumgärtner, coeditor-chefe da revista e economista da Universidade de Freiburg, afirmou que a revista abriu uma “investigação minuciosa e detalhada” e que tomará medidas dependendo do resultado, em resposta à denúncia inicial. Ele disse que os autores enviaram uma “resposta detalhada” que está sendo analisada pelos editores. 

“Preferimos não comentar mais sobre a questão do conjunto de dados nesta fase, por respeito ao processo editorial em andamento”, disse-nos por e-mail Christoph Weber, economista da ESSCA School of Management e autor responsável pela curadoria dos dados, de acordo com a declaração da CRediT sobre o artigo. “Nenhum dado foi fabricado.” 

Apesar de inicialmente concordarem em explicar a discrepância, os autores recusaram-se a fornecer mais informações depois de descobrirem que a revista estava investigando o caso. 

“Quando respondi à sua mensagem inicial, fiz isso de boa fé e com a disposição de estar disponível para esclarecimentos”, escreveu Chassagnon. “No entanto, desde então, fui informado de que a revista está atualmente revisando o assunto e que a avaliação editorial está em andamento.”

Ele disse que iriam “reconsiderar se uma conversa seria apropriada”, assim que as decisões editoriais estivessem mais claras. 


Fonte: Retraction Watch

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

A corrida global por minerais críticos alimenta a militarização, a inteligência artificial e um novo ciclo de extrativismo

Novo relatório do Oakland Institute revela que inteligência artificial, indústria militar e grandes corporações impulsionam a nova onda extrativista mundial

Um novo relatório do Oakland Institute desmonta uma das narrativas mais repetidas nos últimos anos: a de que a expansão acelerada da mineração de minerais críticos ocorre principalmente para viabilizar a transição energética. O estudo “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet” argumenta que essa explicação se tornou insuficiente e, em muitos casos, serve para ocultar os verdadeiros motores da atual corrida global por cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras. Segundo os autores, a expansão da inteligência artificial, dos data centers, da indústria militar e das disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China passou a exercer um papel decisivo na demanda por esses recursos.

O tema foi analisado em um artigo publicado por Chris Lang na newsletter REDD-Monitor (Substack), que apresenta uma excelente síntese das principais conclusões do relatório e as insere no contexto mais amplo da economia política contemporânea da mineração. Lang chama atenção para um dado particularmente revelador: mais de 70% da demanda atual por minerais críticos não está vinculada diretamente à transição energética, mas sim a setores como indústria automotiva convencional, comunicações, aeroespacial, tecnologia digital, inteligência artificial e complexo militar-industrial.

Essa constatação possui enorme relevância política. Durante anos, governos, organismos multilaterais e empresas mineradoras justificaram a abertura de centenas de novas minas com o argumento de que o combate às mudanças climáticas exigiria uma expansão sem precedentes da oferta de minerais. O relatório do Oakland Institute mostra que essa narrativa omite deliberadamente a explosão da demanda proveniente da militarização crescente das relações internacionais e da corrida tecnológica associada à inteligência artificial.

O documento identifica um processo de convergência entre gigantes da tecnologia, empresas de defesa, fundos de investimento e governos nacionais interessados em assegurar cadeias de suprimento consideradas estratégicas. Empresas como KoBold Metals, financiada por Bill Gates e outros investidores do setor tecnológico, aparecem como exemplos dessa nova geração de companhias que utilizam inteligência artificial para localizar jazidas minerais ao mesmo tempo em que buscam atender às necessidades futuras dos próprios data centers, da computação em larga escala e da indústria bélica.

Esse aspecto merece atenção especial no Brasil. Nos últimos meses, tenho chamado atenção para a rápida expansão dos projetos de data centers no país e para a ausência de um debate público consistente sobre seus impactos territoriais. A instalação dessas infraestruturas costuma ser apresentada como símbolo da economia digital, da inovação tecnológica e da modernização produtiva. No entanto, raramente se discute que toda essa infraestrutura depende de uma cadeia global extremamente intensiva em mineração, consumo de energia, uso de água e produção de resíduos eletrônicos.

A relação entre data centers e mineração crítica torna-se ainda mais evidente quando observamos o crescimento explosivo da inteligência artificial generativa. Cada nova geração de chips, servidores e equipamentos exige volumes crescentes de cobre, lítio, cobalto, níquel e terras raras. Dessa forma, a expansão da infraestrutura digital produz uma pressão indireta, mas extremamente poderosa, sobre territórios minerários localizados principalmente na América Latina, na África e em partes da Ásia.

Outro mérito importante do relatório consiste em recolocar a questão geopolítica no centro da discussão. A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos passou a influenciar acordos internacionais, políticas de financiamento, estratégias militares e iniciativas diplomáticas. Em vez de representar apenas uma questão ambiental ou econômica, os minerais críticos tornaram-se elementos centrais da segurança nacional das grandes potências.

Enquanto isso, os custos sociais continuam recaindo sobre populações indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e trabalhadores da mineração. O relatório alerta que a abertura acelerada de centenas de novas minas tende a ampliar conflitos fundiários, deslocamentos compulsórios, contaminação por rejeitos tóxicos, perda de biodiversidade e destruição de modos de vida em uma escala ainda maior do que aquela observada nas últimas décadas.

Esse diagnóstico dialoga diretamente com inúmeros conflitos que já conhecemos no Brasil. A expansão da mineração na Amazônia, o avanço sobre terras indígenas, a crescente pressão sobre aquíferos e a multiplicação de grandes projetos de infraestrutura revelam que o país ocupa posição estratégica nessa nova divisão internacional dos recursos naturais. Caso o governo brasileiro continue tratando a mineração apenas como uma oportunidade econômica, sem fortalecer os mecanismos de controle ambiental, consulta às populações afetadas e planejamento territorial, o país poderá aprofundar um modelo primário-exportador baseado na intensificação do extrativismo e na exportação de impactos ambientais.

A principal contribuição do Oakland Institute talvez seja justamente desfazer a falsa oposição entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. O problema não reside simplesmente na extração de minerais necessários à descarbonização, mas no fato de que a atual corrida mineral atende, em grande medida, aos interesses da militarização global, da financeirização da economia e da expansão acelerada da inteligência artificial corporativa. Sob esse prisma, a chamada “transição verde” deixa de ser o principal motor do processo e passa a funcionar como uma narrativa legitimadora de um novo ciclo de acumulação baseado na intensificação do extrativismo.

Para países como o Brasil, a mensagem é clara. Não basta discutir quantas minas serão abertas ou quanto investimento estrangeiro será atraído. É indispensável perguntar quem controlará esses recursos, quem capturará seus benefícios econômicos e, sobretudo, quem suportará os custos sociais e ambientais dessa nova corrida global pelos minerais críticos.

Para baixar o relatório  “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet”, basta clicar [Aqui! ].

Virgínia mostra o caminho: por que o Brasil precisa estudar antes de entregar sua água aos data centers

Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos

A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.

Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?

O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.

As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.

A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.

Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.

O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.

O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.

A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.

O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.

O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.

Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.

Um dia depois, a fumaça continua e um silêncio sepulcral envolve os responsáveis por combatê-la

As imagens registradas nesta sexta-feira (24) mostram que as queimadas seguem consumindo áreas de Campos dos Goytacazes e mantêm uma espessa camada de fumaça sobre a cidade. A repetição do problema apenas um dia após a informação publicada neste blog revela a incapacidade — ou a falta de disposição — dos órgãos públicos para enfrentar uma situação que já ultrapassou os limites de uma questão ambiental e assumiu contornos evidentes de uma crise de saúde pública

Ontem publiquei neste espaço o texto Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental com o objetivo de chamar atenção para um fenômeno que se repete todos os anos, mas que em 2026 atingiu uma intensidade particularmente preocupante. As fotografias divulgadas naquele momento mostravam grandes colunas de fumaça cercando Campos dos Goytacazes e indicavam que a população estava submetida a uma deterioração significativa da qualidade do ar. A expectativa mais modesta seria que a ampla visibilidade do problema estimulasse uma resposta rápida dos órgãos encarregados da fiscalização e da proteção ambiental.

As imagens registradas nesta sexta-feira demonstram, entretanto, que praticamente nada mudou. Novos focos de queimadas continuam ativos em diferentes pontos do município, enquanto extensas massas de fumaça permanecem cobrindo o horizonte e reduzindo a visibilidade em diversos bairros. A população continua respirando material particulado e outros poluentes produzidos pela combustão da vegetação, situação que aumenta os riscos para crianças, idosos e pessoas acometidas por doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que compromete a qualidade de vida de todos os moradores. 

A persistência desse cenário evidencia que o problema não decorre apenas das condições climáticas típicas do inverno no Norte Fluminense, caracterizadas por baixa umidade relativa do ar, vegetação ressecada e ventos que favorecem a propagação do fogo. Esses fatores são conhecidos há décadas e deveriam orientar ações preventivas permanentes por parte do poder público. Quando as queimadas continuam ocorrendo sucessivamente e a fumaça permanece encobrindo a cidade por vários dias,  é inevitável concluir que as medidas de prevenção, monitoramento e fiscalização têm sido insuficientes para impedir que a situação se agrave.

Também não faz sentido restringir essa responsabilidade a um único órgão. A proteção da população exige atuação coordenada da administração municipal, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e das demais instituições responsáveis pela fiscalização ambiental e pela repressão aos responsáveis pelas queimadas. Diante da gravidade do quadro, a população tem o direito de conhecer quais operações foram realizadas, quantos autos de infração foram lavrados, quantos responsáveis foram identificados e quais providências concretas estão sendo adotadas para interromper uma sequência de eventos que já não pode mais ser considerada excepcional.

As fotografias obtidas hoje reforçam ainda mais a gravidade da situação porque documentam uma realidade impossível de ocultar. A fumaça permanece visível a grandes distâncias, altera completamente a paisagem urbana e demonstra que a poluição atmosférica deixou de ser um problema localizado para atingir uma parcela expressiva do território municipal. Trata-se de uma evidência objetiva de que milhares de pessoas continuam expostas diariamente a um ambiente degradado, enquanto as respostas institucionais permanecem praticamente invisíveis.

Nesse contexto, é razoável esperar que o Ministério Público e a Defensoria Pública já estejam adotando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades e exigir providências imediatas dos órgãos competentes. Os danos produzidos pelas queimadas ultrapassam claramente a esfera ambiental e atingem direitos difusos relacionados à saúde pública, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à qualidade de vida da população. As imagens produzidas ao longo de dois dias consecutivos constituem um registro eloquente dessa realidade e oferecem elementos suficientes para justificar a abertura de procedimentos destinados a identificar tanto os responsáveis pelos incêndios quanto eventuais omissões do poder público.

Infelizmente, a sucessão de fotografias produzidas ontem e hoje transmite uma mensagem que nenhuma cidade deveria aceitar com naturalidade. Enquanto a fumaça continua dominando o horizonte de Campos dos Goytacazes, cresce a percepção de que os órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pela defesa da saúde coletiva permanecem incapazes de oferecer uma resposta compatível com a gravidade do problema. A população já fez sua parte ao denunciar aquilo que qualquer pessoa pode ver a olho nu; agora cabe às instituições demonstrar que ainda são capazes de cumprir a missão para a qual foram criadas.

Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Amplo estudo realizado em Nova York reforça a evidência que associa o glifosato ao risco de parto prematuro

Por Julie Zenderoudi para “The New Lede”

Mulheres grávidas expostas ao glifosato, o herbicida mais  amplamente utilizado no mundo, podem enfrentar um risco maior de partos prematuros, de acordo com um dos maiores estudos já realizados sobre essa relação. 

O estudo, liderado pelo New York University (NYU) Langone Health e publicado na revista Environmental Pollution , mostrou que mulheres grávidas com maior exposição ao glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, apresentaram um risco significativamente maior de entrar em trabalho de parto espontâneo prematuro. Embora pesquisas anteriores já tivessem associado a exposição ao glifosato a gestações mais curtas, o estudo da NYU é um dos maiores a examinar a exposição durante a gravidez e o parto prematuro em humanos.

“Este estudo reforça a ideia de que a exposição ao glifosato durante a gravidez é generalizada e pode estar ligada ao risco de parto prematuro. Mesmo associações modestas são importantes porque a gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais”, disse Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, em um e-mail.

“A gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais.” — Jessie Buckley, Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

Pesquisadores coletaram amostras de urina de 1.450 mulheres que deram à luz entre 2016 e 2019 e descobriram que aquelas com níveis mais altos de glifosato durante o meio da gravidez tinham maior probabilidade de entrar em trabalho de parto espontâneo — ou seja, entrar em trabalho de parto naturalmente antes de 37 semanas, em vez de ter o parto induzido medicamente — em comparação com aquelas com níveis mais baixos.

O parto prematuro é uma das principais causas de doenças e morte em recém-nascidos. Bebês prematuros podem enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo infecções e dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento a longo prazo.

As participantes planejavam dar à luz em hospitais da cidade de Nova York, longe de áreas agrícolas, o que sugere que a exposição provavelmente ocorreu por meio dos alimentos. “Não é como se estivessem em populações agrícolas onde há pulverização em larga escala e dispersão de resíduos de herbicidas pelo ar”, disse o Dr. Leonardo Trasande, autor sênior do estudo e professor de pediatria na Escola de Medicina Grossman da NYU.

Buckley observou que a exposição ao glifosato não é algo que as pessoas possam necessariamente evitar. “A exposição ao glifosato é fundamentalmente um problema sistêmico. Reduções reais exigem decisões políticas sobre como e onde o glifosato é usado”, disse Buckley. “Embora a dieta possa influenciar a exposição pessoal, mudanças como a escolha de alimentos orgânicos não estão igualmente disponíveis para todos. Escolhas individuais não podem substituir ações preventivas que eliminem o risco de exposição em primeiro lugar.”

O estudo surge um mês depois de o Supremo Tribunal ter decidido a favor da Monsanto, agora propriedade da Bayer, limitando os processos judiciais de consumidores contra empresas de pesticidas. A decisão no caso Monsanto v. Durnell determinou que as empresas de pesticidas não podem ser responsabilizadas por omitirem avisos sobre o risco de cancro, desde que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha considerado esses avisos desnecessários.

Em fevereiro, o governo Trump assinou uma ordem executiva protegendo a produção de glifosato. A ordem foi amplamente criticada por grupos de saúde pública e ambientalistas.

Um porta-voz da Ruveon, subsidiária da Bayer que administra seus produtos à base de glifosato, afirmou que estão analisando a publicação. “O glifosato tem sido usado com segurança há 50 anos e está entre os produtos de sua categoria mais extensivamente estudados”, diz o comunicado, acrescentando que “nenhuma autoridade regulatória no mundo determinou que o glifosato cause danos reprodutivos ou ao desenvolvimento”.

Trasande acredita que os resultados apresentados no estudo destacam a necessidade de regulamentações mais rigorosas para proteger a saúde de gestantes e bebês, dois grupos especialmente vulneráveis ​​a substâncias químicas no meio ambiente. “Certamente, isso reforça ainda mais a necessidade de mudanças, tanto individuais quanto sociais, em relação ao que comemos e como produzimos [alimentos].”

Imagem em destaque por Eduardo Ramos no Unsplash


Fonte: The New Lede