A contaminação de um dos principais rios brasileiros revela que os agrotóxicos não permanecem nas lavouras, circulam pelos territórios e expõem os limites do monitoramento da qualidade da água no Brasil
A reportagem publicada pela Globo Rural, na seção Um Só Planeta, sobre a presença de traços de 25 agrotóxicos nas águas do Rio Tietê deveria provocar uma discussão muito mais ampla do que aquela normalmente reservada à poluição de um dos rios mais importantes do Brasil. Afinal, durante décadas, o Tietê tornou-se símbolo quase exclusivo dos efeitos do crescimento urbano desordenado, do lançamento de esgoto sem tratamento e da poluição industrial. Os resultados agora apresentados mostram que essa interpretação, embora continue válida, tornou-se insuficiente.
O estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com instituições de pesquisa, percorreu mais de 1.100 quilômetros do Tietê, entre a nascente, em Salesópolis, e a foz, no Rio Paraná, e chegou a uma conclusão alarmante: não existe mais nenhum trecho do rio plenamente livre de contaminação. Entre os diversos poluentes identificados estão microplásticos, resíduos de medicamentos e outras substâncias associadas às atividades humanas. Mas a detecção de 25 tipos de agrotóxicos acrescenta uma dimensão especialmente preocupante ao problema, pois revela que a degradação do Tietê não pode ser compreendida apenas a partir das grandes cidades que cresceram às suas margens.
A presença desses compostos nas águas evidencia a conexão entre o modelo agrícola dominante e a contaminação dos sistemas hídricos. Os agrotóxicos aplicados nas lavouras não permanecem confinados às propriedades rurais nem desaparecem depois de cumprir a função para a qual foram comercializados. Parte dessas substâncias pode alcançar córregos, rios e reservatórios por meio do escoamento superficial, da erosão do solo, da deriva durante as pulverizações e da circulação da água através das diferentes partes da bacia hidrográfica. O resultado é uma contaminação difusa, espacialmente extensa e muito mais difícil de controlar do que aquela proveniente de uma fonte única e facilmente identificável.
É justamente esse caráter difuso que torna o problema tão grave. Quando um cano lança efluentes diretamente em um rio, existe uma fonte de poluição que, ao menos em princípio, pode ser localizada, fiscalizada e interrompida. No caso dos agrotóxicos, a contaminação pode resultar da combinação de milhares de aplicações realizadas em diferentes propriedades e momentos. Cada ocorrência pode parecer isolada, mas o conjunto produz uma carga química que se desloca pela bacia hidrográfica e rompe os limites artificiais entre o rural e o urbano.
A descoberta também expõe uma das grandes fragilidades do debate brasileiro sobre os agrotóxicos. A discussão pública costuma se concentrar na quantidade de resíduos encontrada nos alimentos, como se a exposição humana e ambiental terminasse naquilo que chega ao prato. Mas os agrotóxicos circulam pelo solo, pela água e pelo ar. Quando 25 substâncias diferentes são detectadas em um rio da dimensão e da importância do Tietê, a questão deixa de ser apenas quanto de cada composto foi encontrado individualmente e passa a envolver também os efeitos de uma exposição simultânea a múltiplas substâncias.
Esse aspecto merece especial atenção porque os sistemas regulatórios continuam amplamente organizados em torno da avaliação individual de cada ingrediente ativo. Os ecossistemas e as populações, entretanto, não entram em contato com substâncias isoladas em condições controladas de laboratório. A exposição real ocorre por meio de misturas químicas, ao longo do tempo e por diferentes vias. A presença simultânea de numerosos agrotóxicos em um mesmo sistema hídrico deveria, portanto, acender um alerta sobre os limites de uma regulação que frequentemente analisa cada molécula separadamente, enquanto a realidade ambiental produz combinações muito mais complexas.
Há ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O Brasil segue sustentando um modelo agrícola fortemente dependente de insumos químicos, ao mesmo tempo em que o monitoramento da presença de agrotóxicos nas águas permanece insuficiente diante da escala do problema. Quanto mais se amplia o número de substâncias autorizadas e utilizadas, maior se torna a necessidade de sistemas permanentes e territorialmente abrangentes de acompanhamento da qualidade da água. Sem isso, corremos o risco de conhecer a dimensão da contaminação apenas quando pesquisas pontuais decidem procurar aquilo que o monitoramento oficial não acompanha de forma adequada.
O que o Tietê nos mostra, portanto, é que a contaminação por agrotóxicos não constitui um problema restrito às lavouras ou às populações rurais diretamente expostas. Ela integra uma crise ambiental mais ampla, na qual as substâncias utilizadas para sustentar determinados padrões de produção agrícola circulam pelos territórios e alcançam sistemas hídricos dos quais dependem cidades, comunidades, atividades econômicas e ecossistemas inteiros.
A presença de 25 agrotóxicos no Rio Tietê deveria servir como um poderoso sinal de alerta. Se um dos rios mais monitorados e simbolicamente importantes do país apresenta essa diversidade de contaminantes, é inevitável perguntar o que está acontecendo em milhares de rios, córregos e reservatórios onde praticamente ninguém procura por essas substâncias. Talvez o aspecto mais inquietante da descoberta não seja apenas aquilo que foi encontrado no Tietê, mas tudo aquilo que ainda permanece invisível porque simplesmente não está sendo procurado.









