Lula, o petróleo na Foz do Amazonas e um “passaporte para o futuro” com destino ao passado

Ao celebrar uma nova fronteira petrolífera em águas quase duas vezes mais profundas que as do desastre de Macondo, o governo Lula ignora as lições sociais da Bacia de Campos e compromete a credibilidade de um Brasil que pretende posar de liderança climática nas próximas COPs

A descoberta de petróleo no poço Morpho, localizado na costa do Amapá, oferece uma oportunidade particularmente reveladora para examinarmos as contradições que cercam a política ambiental do governo Lula. De um lado, o governo reivindica para o Brasil uma posição de liderança internacional no enfrentamento da crise climática, apresenta a redução do desmatamento da Amazônia como demonstração concreta desse compromisso e insiste na necessidade de uma transição energética capaz de diminuir progressivamente nossa dependência dos combustíveis fósseis. De outro, celebra a abertura de uma nova fronteira petrolífera em águas ultraprofundas na Margem Equatorial como uma oportunidade histórica de desenvolvimento econômico. Durante sua visita ao navio-sonda utilizado pela Petrobras, Lula sintetizou essa aparente quadratura do círculo ao afirmar que o petróleo encontrado na região poderá funcionar como um “passaporte para o futuro”, ao mesmo tempo em que insistiu que sua exploração não contradiz a defesa de um mundo que algum dia deixará de depender dos combustíveis fósseis.

A dificuldade começa justamente quando abandonamos o terreno confortável das intenções e examinamos as consequências materiais dessa escolha. Afinal, uma coisa é reconhecer que o Brasil e o restante do mundo continuarão consumindo petróleo durante algum tempo enquanto constroem alternativas energéticas; outra, bastante diferente, é abrir em pleno agravamento da crise climática uma nova fronteira petrolífera cuja infraestrutura precisará operar durante décadas para recuperar os enormes investimentos necessários à exploração em águas ultraprofundas. Por isso, o argumento de que ampliaremos agora a produção de petróleo para financiar uma economia que futuramente dependerá menos dele contém uma contradição que nenhuma engenharia retórica consegue eliminar: pretendemos diminuir nossa dependência dos combustíveis fósseis enquanto criamos novos interesses econômicos, infraestruturas e receitas públicas cuja sobrevivência dependerá justamente da continuidade de sua exploração.

A lembrança da explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México, em 20 de abril de 2010, torna essa discussão ainda mais necessária. O desastre ocorrido durante a perfuração do poço Macondo matou 11 trabalhadores e lançou aproximadamente quatro milhões de barris de petróleo no Golfo do México durante cerca de 87 dias, produzindo um dos maiores desastres ambientais associados à indústria petrolífera offshore. O Macondo encontrava-se sob aproximadamente 1.522 metros de água, enquanto a Petrobras perfura o Morpho em uma lâmina d’água próxima de 3.000 metros. Essa diferença não permite afirmar que ocorrerá um acidente no Amapá, tampouco que a profundidade, isoladamente, torne um blowout mais provável. Entretanto, ela nos obriga a reconhecer algo muito menos confortável para o discurso triunfalista que acompanha a descoberta: caso ocorra uma falha grave, qualquer intervenção direta sobre equipamentos instalados no fundo oceânico terá de acontecer a uma profundidade quase duas vezes maior do que aquela enfrentada no desastre do Golfo do México.

A experiência do Macondo também deveria impor alguma modéstia quando autoridades políticas apresentam equipamentos de segurança como garantias praticamente absolutas contra grandes acidentes. A Deepwater Horizon possuía um blowout preventer, o famoso BOP, exatamente como as plataformas modernas que operam em águas profundas e ultraprofundas. Ainda assim, uma combinação de decisões equivocadas, falhas técnicas e problemas organizacionais transformou aquilo que deveria representar a última barreira contra uma erupção descontrolada do poço em parte de uma sequência catastrófica de acontecimentos. A grande lição de Macondo, portanto, não consiste em concluir que toda perfuração offshore terminará em desastre, mas em reconhecer que sistemas tecnológicos complexos nunca eliminam completamente a possibilidade de falha. Quanto mais difícil for acessar fisicamente esses sistemas, maiores poderão ser os desafios quando aquilo que deveria funcionar perfeitamente simplesmente não funcionar.

O próprio Morpho já ofereceu um pequeno lembrete dessa realidade quando, em 4 de janeiro de 2026, ocorreu uma descarga de fluido de perfuração de base não aquosa para o oceano a partir de linhas auxiliares associadas ao poço. A Petrobras interrompeu a operação e controlou a descarga, e seria incorreto comparar esse episódio com um blowout ou com o desastre do Macondo. Entretanto, o incidente possui importância justamente porque demonstra que nem tecnologia avançada, nem procedimentos de segurança, nem experiência acumulada conseguem transformar uma operação realizada em condições extremas numa atividade infalível. Quando estamos falando de perfuração a quase três quilômetros abaixo da superfície do oceano, a pergunta politicamente responsável não deveria se limitar a saber se possuímos tecnologia para chegar ao petróleo, mas deveria incluir uma questão muito mais incômoda: o que conseguiremos fazer se alguma coisa der dramaticamente errado lá embaixo?

Essa pergunta adquire uma gravidade adicional porque a costa amazônica não representa simplesmente mais uma área do litoral brasileiro. Estamos diante de um sistema formado por manguezais, estuários, áreas de reprodução e alimentação de organismos marinhos, formações recifais e ambientes costeiros cuja importância ecológica ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais. As populações que dependem diretamente desses sistemas tampouco aparecem com a mesma frequência nas cerimônias governamentais que celebram novas descobertas petrolíferas. Pescadores artesanais, comunidades extrativistas e povos indígenas estão entre aqueles que provavelmente sofreriam primeiro e mais intensamente os efeitos de um grande derramamento, pois sua reprodução econômica, social e cultural mantém uma relação direta com a integridade das águas, dos estoques pesqueiros e dos ambientes costeiros.

Aqui aparece uma das dimensões mais perversas da distribuição dos riscos associados aos grandes projetos extrativos. Enquanto governos, empresas, investidores e setores empresariais disputam antecipadamente os benefícios econômicos decorrentes da exploração petrolífera, as populações que dependem diretamente dos ecossistemas locais recebem uma parcela desproporcional dos riscos. Em outras palavras, os benefícios tendem a circular pelas estruturas empresariais e fiscais, enquanto os riscos permanecem territorializados. Se tudo funcionar conforme o planejado, empresas recolherão lucros, governos receberão royalties e diferentes segmentos econômicos participarão da nova cadeia petrolífera. Se algo der errado, serão pescadores, indígenas, comunidades costeiras e ecossistemas que não participaram da decisão sobre a abertura dessa fronteira que estarão imediatamente diante das consequências.

A própria discussão sobre a possível trajetória de um derramamento deveria produzir muito mais cautela do que a que estamos vendo. A Petrobras sustenta, com base em suas modelagens, que mesmo um cenário de pior caso manteria o óleo afastado da costa brasileira. Entretanto, as simulações admitem que correntes oceânicas poderiam transportar esse petróleo em direção à Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela e ilhas do Caribe. Esse argumento produz uma situação quase surreal: parece que deveríamos considerar ambientalmente seguro um grande vazamento desde que as correntes marítimas tenham a gentileza de transportar parte das consequências para outros países. Desde quando exportar geograficamente um possível desastre ambiental passou a representar evidência da segurança de uma operação petrolífera?

Mas existe ainda uma segunda promessa associada à exploração da Margem Equatorial que precisa ser examinada com muito mais cuidado: a ideia de que o petróleo produzirá necessariamente desenvolvimento regional. Nesse ponto, quem vive no estado do Rio de Janeiro dispõe de um laboratório histórico que deveria recomendar muito mais cautela. A exploração da Bacia de Campos movimentou durante décadas uma quantidade extraordinária de riqueza, transformou municípios produtores em receptores de enormes volumes de royalties e participações especiais e ajudou a sustentar uma das principais regiões petrolíferas do planeta. Apesar disso, a circulação dessa riqueza não eliminou os altos níveis de pobreza existentes em vários municípios da região, tampouco resolveu suas graves deficiências educacionais ou os problemas associados à violência e à criminalidade. A presença de uma indústria capaz de movimentar bilhões de reais não se converteu automaticamente em desenvolvimento social duradouro e distribuído.

A experiência da Bacia de Campos deveria, portanto, ocupar posição central em qualquer discussão séria sobre o suposto “passaporte para o futuro” que agora oferecem ao Amapá. O Norte Fluminense conhece muito bem essa promessa. Durante décadas, royalties extraordinários coexistiram com desigualdade social, precariedades urbanas, déficits educacionais e violência. Municípios viram suas receitas crescerem sem que isso necessariamente produzisse transformação estrutural equivalente nas condições de vida de suas populações. O petróleo criou ilhas de riqueza, empregos altamente especializados e enormes fluxos financeiros, mas também aprofundou dependências fiscais e deixou economias municipais extremamente vulneráveis às oscilações do preço internacional do barril e às mudanças na distribuição dos royalties.

Por isso, antes de vender à população amazônica a ideia de que uma nova fronteira petrolífera representa um bilhete garantido para a prosperidade, seria conveniente explicar por que a experiência histórica de uma das maiores regiões produtoras de petróleo do Brasil produziu resultados sociais tão contraditórios. Na Bacia de Campos, o famoso passaporte para o futuro frequentemente acabou carimbado na direção contrária: enormes volumes de riqueza saíram do fundo do mar enquanto pobreza, baixa escolaridade, desigualdade e violência continuaram fazendo parte da paisagem social de muitos municípios da região. Ignorar essa experiência e repetir a promessa de que desta vez o petróleo produzirá automaticamente desenvolvimento não constitui apenas uma interpretação excessivamente otimista.  Esta postura constitui um exercício retórico que desqualifica quem o pratica, porque substitui a análise de uma experiência histórica concreta por uma profissão de fé nos supostos poderes modernizadores da renda petrolífera.

Mas o problema não termina no risco de acidentes ou na questionável promessa de progresso econômico. Mesmo que nenhuma plataforma exploda, nenhum poço perca o controle e nenhuma mancha de petróleo alcance qualquer manguezal, existe uma consequência que inevitavelmente acompanhará uma exploração comercial bem-sucedida: o petróleo retirado do subsolo entrará no circuito econômico mundial e, em sua maior parte, acabará queimado. É justamente nesse ponto que a tentativa de conciliar a expansão da fronteira petrolífera brasileira com a reivindicação de liderança climática começa a revelar suas maiores inconsistências.

A Agência Internacional de Energia já mostrou que uma trajetória capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C exige uma redução profunda do consumo mundial de petróleo nas próximas décadas. Isso não significa imaginar que o planeta interromperá amanhã a produção petrolífera, mas significa reconhecer que existe uma diferença fundamental entre administrar o declínio progressivo dos campos existentes e continuar procurando novas províncias destinadas a produzir durante décadas. Cada nova fronteira petrolífera exige plataformas, terminais, embarcações, gasodutos, oleodutos, contratos, fornecedores e enormes investimentos cuja rentabilidade pressupõe anos ou décadas de operação. Criamos, assim, aquilo que a literatura climática chama de lock-in: uma infraestrutura econômica que passa a produzir interesses materiais comprometidos com sua própria continuidade.

É exatamente por isso que considero frágil o argumento de que o Brasil poderá utilizar os recursos obtidos com o petróleo para financiar a transição energética. Uma indústria petrolífera ampliada não produz apenas royalties que um governo benevolente poderá posteriormente investir em painéis solares, parques eólicos ou programas sociais. Ela produz municípios dependentes das receitas petrolíferas, empresas fornecedoras, empregos especializados, infraestrutura portuária, interesses acionários, grupos empresariais e pressões políticas que passam a depender da continuidade da exploração. Imaginar que esse poderoso complexo econômico trabalhará serenamente para organizar sua própria obsolescência exigiria uma confiança na capacidade de autossacrifício do capital que toda a história econômica moderna recomenda evitar.

Essa contradição começa também a cobrar um preço que não podemos medir em barris ou royalties: a credibilidade internacional do Brasil na agenda climática. O país pretende chegar às próximas COPs reivindicando liderança na defesa da Amazônia e cobrando dos países ricos maior compromisso com a redução das emissões, ao mesmo tempo em que celebra a abertura de uma nova fronteira de petróleo em águas ultraprofundas diante da própria Amazônia. Há um limite para a quantidade de contorcionismo discursivo que uma política externa climática consegue suportar antes de perder credibilidade. Até para ser levado a sério nas próximas COPs, o Brasil precisará reduzir a distância crescente entre aquilo que anuncia nos palanques internacionais e aquilo que efetivamente promove dentro de suas fronteiras.

Nesse aspecto, a postura brasileira começa a lembrar uma freira que prega castidade enquanto visita regularmente um bordel. Não adianta comparecer às conferências climáticas vestido com o hábito da virtude ambiental enquanto, do lado de fora, comemoramos cada nova descoberta de petróleo como uma vitória nacional. O problema da metáfora não está na hipocrisia moral que ela poderia sugerir, mas na incompatibilidade objetiva entre discurso e prática. Quanto maior essa distância, menor será a autoridade política brasileira para exigir dos demais países aquilo que nós próprios demonstramos não estar dispostos a fazer.

Essa perda de credibilidade talvez seja ainda mais grave porque o Brasil possui condições extraordinárias para exercer liderança climática real. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias, enorme potencial solar e eólico, vastos recursos naturais e uma posição diplomática que historicamente permite dialogar tanto com países industrializados quanto com o Sul Global. Justamente por isso, desperdiçar esse capital político tentando convencer o mundo de que abrir novas fronteiras petrolíferas constitui parte de uma estratégia para abandonar o petróleo representa uma escolha particularmente contraproducente. Liderança climática não se proclama em discursos; demonstra-se por meio das decisões difíceis que um país aceita tomar quando seus interesses econômicos imediatos entram em conflito com seus compromissos ambientais.

Por isso, quando Lula chama o petróleo da Margem Equatorial de “passaporte para o futuro” enquanto reafirma seu compromisso com uma futura superação dos combustíveis fósseis, talvez estejamos diante de uma versão contemporânea da velha prática de acender uma vela para Deus e outra para o diabo. A vela destinada a Deus ilumina os discursos sobre proteção da Amazônia, redução do desmatamento, transição energética, biocombustíveis, energias renováveis e liderança brasileira nas negociações climáticas. A outra vela ilumina navios-sonda, plataformas, novas reservas e uma infraestrutura petrolífera planejada para permanecer economicamente ativa por décadas.

O problema dessa duplicidade não pertence ao terreno da moral religiosa, mas ao da física atmosférica. Uma tonelada de dióxido de carbono liberada pela combustão do petróleo brasileiro produz exatamente o mesmo efeito climático que uma tonelada proveniente do petróleo saudita, norte-americano ou russo. A atmosfera não consulta a nacionalidade do barril, não verifica se o governo produtor reduziu o desmatamento e tampouco concede descontos porque parte dos royalties financiou fontes renováveis. A atmosfera contabiliza carbono, não boas intenções, e essa talvez seja a inconveniência científica mais difícil de acomodar no discurso segundo o qual podemos ampliar a produção de combustíveis fósseis enquanto lideramos simultaneamente a luta mundial para reduzir seu consumo.

O governo brasileiro poderia assumir abertamente outra posição e afirmar que considera injusto exigir que países periféricos renunciem à exploração de suas reservas enquanto países ricos construíram sua prosperidade queimando combustíveis fósseis durante dois séculos. Esse argumento possui consistência política e encontra respaldo no debate sobre responsabilidades históricas diferenciadas pela crise climática. O governo poderia igualmente afirmar que pretende explorar o petróleo enquanto existir mercado mundial para ele e utilizar essa riqueza para financiar políticas sociais e investimentos públicos. Também poderíamos discutir criticamente essa escolha, mas pelo menos estaríamos diante de uma posição claramente formulada.

O que parece intelectualmente muito mais difícil é afirmar que a abertura de uma nova fronteira petrolífera constitui parte do próprio caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis. Nesse caso, o paradoxo deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também lógico: para reduzir nossa dependência do petróleo, ampliaremos nossa capacidade de produzi-lo; para enfrentar a crise climática, criaremos infraestrutura destinada a colocar novos bilhões de barris no mercado; para preparar uma economia pós-petróleo, construiremos novas regiões cuja dinâmica econômica dependerá precisamente dele.

Talvez seja justamente por isso que a expressão “passaporte para o futuro” utilizada por Lula mereça ser levada mais a sério do que provavelmente pretendiam seus assessores de comunicação. Um passaporte não determina apenas a possibilidade de viajar; ele também nos obriga a perguntar para onde estamos indo. A experiência da Bacia de Campos deveria servir como advertência para quem acredita que basta encontrar petróleo para encontrar desenvolvimento. Depois de décadas extraindo uma riqueza extraordinária do fundo do oceano, muitos municípios continuam convivendo com pobreza, deficiências educacionais, desigualdade e violência. Se isso representa o modelo de futuro que agora pretendemos reproduzir na Amazônia, talvez seja prudente olhar com mais atenção para o destino antes de comemorar a emissão do passaporte.

Porque, no caso da Bacia de Campos, para parcelas importantes da população, o prometido passaporte para o futuro acabou funcionando como um enorme salto para trás. Desconhecer essa experiência quando se anuncia a mesma promessa para uma nova fronteira petrolífera não representa apenas um lapso histórico. Constitui outro exercício retórico desqualificador, especialmente quando praticado por quem pretende convencer o país de que conhece antecipadamente os benefícios de uma atividade cujos custos sociais e ambientais a história brasileira já nos permitiu conhecer muito bem.

E há uma diferença decisiva entre o início da exploração da Bacia de Campos e a abertura da Margem Equatorial: desta vez conhecemos também o tamanho da crise climática. Sabemos o que significa continuar aumentando a concentração de gases de efeito estufa, sabemos que novas infraestruturas fósseis criam dependências que atravessam décadas e sabemos quem costuma receber os benefícios e quem normalmente fica com os custos quando grandes projetos extrativos chegam aos territórios.  Por isso, se ainda assim decidirmos embarcar, pelo menos não deveríamos fingir desconhecer o destino.

A Sage publica dezenas de retratações de duas revistas que adquiriu

 

Por Retraction Watch

Nas últimas semanas, a Sage retirou lotes de artigos publicados em dois periódicos que adquiriu da IOS Press em 2023. Em ambos os casos, as retratações ocorreram devido à manipulação e a preocupações com o processo de revisão por pares.

O primeiro lote de artigos foi retirado do Journal of Intelligent and Fuzzy Systems (JIFS) em 15 de julho e era composto por 43 artigos, alguns dos quais haviam sido apresentados em uma conferência na Turquia. De acordo com o comunicado de retratação, após uma investigação interna, a Sage “tomou conhecimento de que os artigos submetidos continham indícios de envolvimento de terceiros e tentativas de manipular o processo de revisão por pares” na edição especial.

O segundo lote de retratações aplicou-se a 34 artigos publicados no International Journal of Knowledge-Based and Intelligent Engineering Systems entre 2017 e 2025. O aviso de 5 de agosto cita suspeitas de envolvimento de terceiros, problemas na revisão por pares, manipulação de citações e linguagem não padronizada, incluindo frases rebuscadas, como razões para a retratação dos artigos. Frases rebuscadas podem indicar plágio .

Desde a aquisição da IOS Press em novembro de 2023 , a Sage estabeleceu o recorde de maior número de retratações para um único periódico, ao retratar mais de 1.500 artigos do JIFS. A medida ocorreu depois que a Clarivate suspendeu a indexação do periódico devido a preocupações com a qualidade dos artigos. A página do periódico no site da Clarivate ainda exibe o aviso de “em espera”. Chris Burnage, gerente de relações públicas da Sage, informou que as retratações mais recentes foram resultado de uma investigação separada daquela realizada entre 2024 e 2025.

A Sage tomou medidas semelhantes em relação a outros antigos periódicos da IOS Press, incluindo 45 artigos na revista  Clinical Hemorheology and Microcirculation, que foram retratados em novembro . 

A Sage define envolvimento de terceiros como atividades de produção em massa de artigos científicos, manipulação da revisão por pares ou “qualquer outra evidência que sugira a geração em larga escala de submissões de pesquisa”. 

Entre os autores dos artigos retratados do JIFS estavam organizadores presidentes de sessão da Conferência Internacional sobre Sistemas Inteligentes e Fuzzy de 2020 , realizada na Universidade Técnica de Istambul em julho daquele ano. Dos artigos retratados, oito tinham como coautores pelo menos um dos seis editores dos anais publicados . 

Um desses editores, Cengiz Kahraman , professor de economia da engenharia da Universidade Técnica de Istambul , consta como autor em seis desses artigos. Ele nos disse que os autores enviaram “inúmeros e-mails” à Sage levantando objeções às retratações e classificou as ações da editora como “legal e editorialmente inaceitáveis”.

“As decisões de retratação são processos complexos e demorados que devem ser concluídos levando em consideração o sistema editorial e de revisão por pares sob o qual os artigos foram originalmente publicados”, disse Kahraman. 

Burnage nos disse que a editora tem “informações limitadas sobre o processo de publicação original”. 

Selcuk Cebi , engenheiro da Universidade Técnica de Yildiz, em Istambul, também foi editor dos anais da conferência. Ele nos disse que “nunca lhe foi apresentada qualquer evidência específica de artigo que indicasse envolvimento não autorizado de terceiros ou manipulação do processo de revisão por pares em relação ao meu trabalho”.

Cebi e Kahraman perderam outro artigo no ano passado, em maisuma retratação em massa no JIFS . Cebi nos disse que enviou à Sage “o manuscrito original submetido, versões revisadas, documentos com as respostas dos revisores e a versão final aceita do manuscrito” em seu recurso contra a retratação, mas não recebeu uma resposta “substantiva”. 

A retratação em massa no International Journal of Knowledge-Based and Intelligent Engineering Systems afetou artigos de seis volumes da revista. Os autores de todos os artigos, exceto um, eram afiliados a instituições na ChinaGui-Wu (Guiwu) Wei , professor de administração de empresas na Universidade Normal de Sichuan, em Chengdu, era autor de sete dos artigos retratados. Ele não respondeu ao nosso pedido de comentário. 

A Sage não está sozinha em suas tentativas de sanear os periódicos que adquiriu. A Wiley comprou a Hindawi em 2021 e parou de usar a marca em 2024, após retratar milhares de artigos e fechar periódicos dominados por fábricas de papel.   

“Desde a aquisição da IOS Press, temos trabalhado para integrar o portfólio aos processos editoriais, tecnológicos e de integridade da pesquisa da Sage”, disse Laura West, gerente de comunicação e relações públicas da Sage. “Como parte desse esforço, aplicamos os mesmos padrões rigorosos de ética em publicação e integridade da pesquisa que orientam todas as nossas publicações em periódicos.”


Fonte: Retraction Watch

Jessé de Souza e o racismo brasileiro: quando a classe média vira explicação para o que deveria ser explicado

A recente exposição das ideias do sociólogo Jessé de Souza sobre racismo e classe média trouxe novamente ao debate público algumas das teses que ele vem desenvolvendo sobre a estrutura social brasileira. Entre suas afirmações mais provocativas está a caracterização da classe média branca como uma espécie de “reservatório seminal” do racismo brasileiro. Essa interpretação aparece associada a uma determinada leitura da imigração europeia ocorrida principalmente entre 1880 e 1930: milhões de italianos, alemães, portugueses, espanhóis e outros europeus teriam se estabelecido sobretudo em São Paulo e no Sul, prosperado economicamente e construído uma identidade separada da maioria negra e mestiça do país. Na formulação de Jessé, esse processo teria contribuído para produzir uma população que continuaria a se imaginar como uma espécie de comunidade europeia inserida num país majoritariamente mestiço, utilizando essa suposta superioridade racial e cultural para legitimar privilégios e a exclusão das classes populares.

Há aspectos importantes nessa interpretação, especialmente quando ela chama atenção para o papel desempenhado pelo branqueamento e pelas representações de São Paulo e de partes da região Sul como espaços da modernidade, do trabalho e da racionalidade em oposição a um Brasil apresentado como atrasado, negro e mestiço. Também não há razão para minimizar o papel desempenhado por setores das classes médias na reprodução cotidiana do racismo, especialmente porque seus integrantes ocupam posições estratégicas nas escolas, universidades, empresas, meios de comunicação, burocracias públicas, profissões liberais e no sistema de Justiça. O problema começa quando essas observações, em si mesmas relevantes, são transformadas numa explicação mais geral para a persistência histórica do racismo brasileiro.

O primeiro obstáculo está no próprio conceito de classe média. Afinal, estamos falando de uma posição definida pela renda, pela propriedade, pela escolaridade, pela ocupação, pelos padrões de consumo ou pela posição nas relações de produção? Quando essas dimensões são comprimidas numa categoria aparentemente homogênea, a classe média corre o risco de funcionar mais como personagem sociológico do que como conceito capaz de explicar a complexidade das relações raciais brasileiras. Reconhecer que determinados setores da classe média reproduzem e institucionalizam práticas racistas é uma coisa; transformá-los no principal reservatório histórico do racismo brasileiro é algo inteiramente diferente.

O racismo brasileiro chegou muito antes dos imigrantes europeus

É justamente quando colocamos a cronologia no centro da análise que a explicação de Jessé começa a apresentar sua maior fragilidade. A escravização de africanos no Brasil começou ainda no século XVI e foi organizada durante mais de três séculos pelo sistema colonial português. A Coroa portuguesa, os comerciantes envolvidos no tráfico transatlântico, os grandes proprietários e, posteriormente, o próprio Estado imperial brasileiro construíram, administraram e protegeram uma ordem econômica e social baseada na transformação de seres humanos africanos e seus descendentes em propriedade. Não estamos falando de um elemento periférico da formação brasileira, mas de uma instituição que organizou durante séculos a produção, a propriedade, o trabalho, a riqueza e o poder.

Quando os grandes contingentes de imigrantes europeus chegaram ao Brasil no final do século XIX, portanto, encontraram uma sociedade que possuía mais de três séculos de experiência na produção institucional de hierarquias raciais. Mais do que isso, chegaram justamente quando as elites brasileiras enfrentavam um problema fundamental: como reorganizar uma sociedade profundamente racializada diante da crise e posterior abolição da escravidão? A imigração europeia não criou esse problema. Ela foi, em parte, uma das respostas encontradas pelas elites brasileiras para enfrentá-lo.

Esse ponto inverte significativamente a causalidade sugerida pela interpretação de Jessé. Os imigrantes europeus certamente puderam incorporar o racismo brasileiro, reproduzi-lo e posteriormente beneficiar-se dele. Mas a política de atração desses trabalhadores já estava inserida num projeto de reorganização racial da sociedade brasileira. As ideologias do branqueamento e as políticas que favoreceram a entrada de trabalhadores europeus no mercado de trabalho não nasceram espontaneamente das comunidades de imigrantes. Foram formuladas e implementadas por elites e instituições de um país cuja população negra saía de séculos de escravização sem terra, sem reparação e sem mecanismos capazes de garantir sua integração econômica em condições minimamente igualitárias.

A pergunta sociologicamente mais interessante, portanto, não é simplesmente por que os imigrantes europeus e seus descendentes passaram a se considerar superiores aos negros e mestiços. É necessário perguntar que estrutura histórica tornou socialmente possível, economicamente vantajoso e politicamente funcional que a branquitude fosse associada à superioridade e a negritude à inferioridade. Quando o problema é formulado dessa maneira, os imigrantes deixam de aparecer como causa primordial do racismo e passam a integrar um processo muito mais amplo de reorganização de uma estrutura racial que antecedia em séculos a sua chegada.

Frantz Fanon e a inversão da causalidade

É justamente nesse ponto que Frantz Fanon oferece uma chave particularmente poderosa para testar a explicação de Jessé de Souza. Em textos como Pele negra, máscaras brancas e “Racismo e cultura”, Fanon recusou compreender o racismo simplesmente como preconceito, ignorância ou falha psicológica de determinados indivíduos. Para ele, a inferiorização racial precisa ser compreendida no interior de uma estrutura colonial de dominação na qual exploração econômica, violência política, cultura e produção de subjetividades se articulam.

Essa perspectiva permite perceber um problema fundamental na explicação que localiza o racismo primordialmente na mentalidade de descendentes de europeus que passaram a imaginar-se superiores à população negra e mestiça. Frantz Fanon não negaria a existência dessa consciência de superioridade; pelo contrário, dedicou boa parte de sua obra a demonstrar como a ordem colonial produz subjetividades racializadas. O ponto decisivo é outro: a sensação de superioridade do branco não constitui a causa original da estrutura racial, mas é também um dos seus produtos históricos. Uma ordem baseada na dominação e na exploração produz representações que naturalizam essa própria ordem, fazendo a posição dominante aparecer como expressão de mérito, civilização, inteligência ou superioridade cultural.

A crítica a Jessé pode então ser formulada de maneira mais precisa.  A fraqueza do argumento de Jessé não está em reconhecer a capacidade da classe média branca de reproduzir o racismo, mas em correr o risco de transformar um agente historicamente situado da reprodução do racismo numa explicação para sua própria existência. O descendente de europeu que se imagina culturalmente superior ao negro ou ao mestiço constitui certamente um fenômeno sociológico relevante, mas sua existência exige uma explicação anterior: por que a branquitude se tornou uma posição socialmente valorizada e por que a negritude foi historicamente associada ao trabalho compulsório, à pobreza e à inferioridade?

É aí que Fanon ajuda a inverter a cadeia causal. Não foi uma suposta superioridade cultural dos descendentes de europeus que produziu originalmente a hierarquia racial brasileira.  Uma sociedade constituída pela escravidão, pelo colonialismo e pela exploração racializada do trabalho é que tornou a branquitude uma posição socialmente valorizada e permitiu posteriormente que determinados grupos convertessem essa posição em sentimento de superioridade. A ideologia racial não antecede simplesmente a estrutura de dominação: ela é produzida por essa estrutura, naturaliza-a e, uma vez constituída, passa também a contribuir decisivamente para reproduzi-la.

Adolph Reed e o perigo de transformar raça em classe

A contribuição de Adolph Reed Jr. permite acrescentar outra dimensão crítica à formulação de Jessé. Reed parte de uma tradição materialista que recusa tratar “raça” como uma entidade dotada de capacidade explicativa independente das relações históricas que a produziram. Para ele, raça deve ser compreendida como uma forma historicamente específica de ideologia de hierarquia atributiva: uma maneira de transformar desigualdades produzidas social e politicamente em características aparentemente naturais dos grupos humanos. Em sociedades capitalistas, essa naturalização pode contribuir para obscurecer as relações concretas de classe que produzem e reproduzem desigualdades.

A objeção de Reed atingiria um ponto particularmente vulnerável da interpretação de Jessé. Ao aproximar descendência europeia, branquitude, prosperidade e pertencimento à classe média, Jessé corre o risco de fazer uma categoria racial ou étnica desempenhar o trabalho analítico que deveria caber à investigação da estrutura de classes. A pergunta deixa de ser como determinados trabalhadores europeus e seus descendentes ocuparam posições distintas numa economia capitalista em transformação e passa a sugerir uma trajetória quase contínua entre imigrante europeu, branco, ascensão econômica e classe média.

Mas essas categorias não são equivalentes. Branco não é sinônimo de classe média, assim como negro não é sinônimo de classe trabalhadora ou pobre. Reed insiste precisamente na necessidade de reconhecer diferenciações de classe existentes no interior dos próprios grupos racialmente definidos. A população negra, por exemplo, não possui interesses econômicos homogêneos simplesmente porque compartilha uma classificação racial. Empresários negros, profissionais negros de classe média e trabalhadores negros podem experimentar formas de discriminação racial e simultaneamente ocupar posições radicalmente diferentes na estrutura de classes, com interesses materiais que podem inclusive entrar em conflito.

Aplicada à população branca, a mesma lógica torna ainda mais problemática a generalização sobre os descendentes dos imigrantes europeus. Italianos, portugueses, espanhóis, alemães, poloneses e outros grupos chegaram ao Brasil em condições profundamente diferentes e experimentaram trajetórias igualmente diversas. Alguns conseguiram acumular propriedade e ascender socialmente; outros permaneceram trabalhadores assalariados, pequenos agricultores, trabalhadores rurais ou integrantes dos setores populares urbanos. Transformar a ascendência europeia numa espécie de antecâmara sociológica da classe média significa apagar justamente essas diferenciações.

Aqui surge uma ironia importante na própria construção teórica de Jessé. Se uma parcela dos descendentes desses europeus permanece nos estratos populares e poderia ser incluída naquilo que ele próprio denominou “ralé brasileira”, então sua ascendência europeia evidentemente não explica sua posição de classe. E se existe, simultaneamente, um componente negro crescente dentro das classes médias brasileiras, a correspondência entre raça, origem étnica e classe torna-se ainda menos sustentável. O problema não é negar que a branquitude possa proporcionar vantagens numa sociedade racializada, mas reconhecer que vantagem racial e posição de classe são dimensões distintas da realidade social, ainda que possam historicamente combinar-se e reforçar-se.

Uma experiência familiar que escapa ao esquema

Minha própria história familiar oferece um pequeno contraponto empírico a essa generalização. Como descendente de poloneses, vivenciei pessoalmente como a inserção historicamente subordinada de parte dessa comunidade deixou marcas que atravessaram gerações, mantendo muitos de seus descendentes fora daquilo que Jessé denomina classe média. Ser socialmente identificado como branco podia proporcionar vantagens evidentes numa sociedade racializada, mas jamais significou pertencimento automático à classe média, muito menos aos seus estratos superiores.

É justamente aqui que Reed acrescenta precisão ao argumento. A questão não consiste em negar o significado social da branquitude, mas em recusar que dela sejam deduzidas automaticamente posição econômica, consciência política e interesses de classe. Um trabalhador rural branco descendente de poloneses ou italianos podia ocupar uma posição profundamente subordinada na estrutura econômica e, ao mesmo tempo, beneficiar-se de uma hierarquia racial que colocava o trabalhador negro numa posição ainda mais vulnerável. Não há qualquer contradição nisso. O que existe são determinações diferentes que precisam ser reconstruídas historicamente, em vez de fundidas numa categoria social aparentemente homogênea.

Florestan Fernandes fez uma pergunta mais difícil

É precisamente aqui que a tentativa de escapar das interpretações clássicas sobre as relações raciais brasileiras parece conduzir Jessé a uma explicação menos sofisticada do que aquela apresentada há mais de seis décadas por Florestan Fernandes. Em A integração do negro na sociedade de classes, Florestan não procurou simplesmente identificar quem era racista ou em qual grupo social o preconceito aparecia com maior intensidade. Sua pergunta era muito mais difícil: o que acontece com uma população escravizada quando a escravidão é juridicamente abolida sem que desapareçam as estruturas econômicas e sociais responsáveis por sua subalternização?

A Abolição de 1888 libertou juridicamente os escravizados, mas não distribuiu terras, não democratizou a propriedade, não criou mecanismos de reparação e tampouco garantiu condições materiais que permitissem à população negra ingressar em igualdade de condições na nova ordem econômica. O antigo escravizado foi formalmente transformado em trabalhador livre sem receber os meios necessários para competir numa sociedade de classes que começava a se consolidar justamente no momento em que o Estado e as elites incentivavam a chegada de trabalhadores europeus.

A diferença teórica é enorme. Enquanto uma explicação centrada na classe média procura localizar o racismo nas disposições culturais de determinado grupo social, Florestan nos obriga a perguntar como o racismo foi incorporado às estruturas da sociedade de classes. A questão deixa de ser apenas quem possui preconceitos contra negros e passa a ser como propriedade, educação, mercado de trabalho, habitação, renda e poder foram organizados de maneira a reproduzir desigualdades racialmente constituídas.

Fanon, Reed e Florestan aproximam-se aqui por caminhos distintos. Fanon permite compreender como relações de dominação racial produzem subjetividades que posteriormente ajudam a legitimá-las; Florestan permite acompanhar como desigualdades constituídas no escravismo atravessam a Abolição e são reorganizadas dentro da sociedade capitalista brasileira; e Reed acrescenta uma advertência indispensável: não transformar os próprios grupos racialmente constituídos em sujeitos homogêneos, apagando as diferenciações de classe existentes dentro deles.

Escravidão, racismo e capitalismo mundial

Há ainda uma dimensão mais ampla que praticamente desaparece quando a explicação se concentra na identidade cultural de descendentes de imigrantes europeus. A escravidão brasileira nunca foi apenas um fenômeno brasileiro. Açúcar, algodão, café, ouro e outras mercadorias produzidas por diferentes formas de trabalho compulsório estavam profundamente integrados aos circuitos internacionais de comércio e acumulação. A exploração extrema dos trabalhadores escravizados nas Américas participou da expansão comercial europeia e das transformações históricas que acompanharam a formação do capitalismo industrial.

É nesse ponto que as contribuições de Eric Williams e Ruy Mauro Marini permitem ampliar decisivamente a escala da análise. Williams demonstrou a relação histórica entre escravidão, comércio atlântico e desenvolvimento do capitalismo britânico, enquanto Marini, em sua clássica Dialética da dependência, procurou demonstrar como a inserção subordinada da América Latina na economia mundial contribuiu para sustentar processos de acumulação nos países capitalistas centrais. A articulação dessas perspectivas permite perceber que a escravização de africanos não pode ser compreendida apenas como resultado de preconceitos culturais: ela constituiu um mecanismo extraordinariamente eficiente de organização da exploração do trabalho e da produção de riqueza no processo histórico de expansão do capitalismo.

Fanon acrescenta a esse quadro a compreensão de como relações de dominação produzem também um universo simbólico capaz de naturalizá-las. Reed, por sua vez, introduz uma cautela adicional: denominar essas relações de “racistas” não pode substituir a identificação dos mecanismos concretos pelos quais elas funcionam. Em sua crítica ao reducionismo racial, Reed insiste que constatar uma disparidade entre grupos não equivale a explicar sua produção. É necessário investigar instituições, relações de trabalho, políticas estatais, propriedade, distribuição de recursos e conflitos de classe. Caso contrário, “racismo” pode terminar funcionando como um nome atribuído ao fenômeno que deveria ser explicado.

Essa advertência é particularmente importante porque também impede que a crítica a Jessé caia no extremo oposto. Não basta substituir a afirmação de que “a classe média branca é racista” pela afirmação de que “o racismo brasileiro é estrutural”. Qual estrutura? Quais instituições? Quais relações de propriedade? Quais mecanismos do mercado de trabalho? Quais políticas estatais? Quem obtém vantagens materiais e quem suporta os custos? Sem responder a essas perguntas, a palavra “estrutural” corre o risco de adquirir a mesma função retórica que estamos criticando na categoria excessivamente genérica de classe média.

Duas reduções que precisam ser evitadas

A combinação entre Fanon e Reed permite, portanto, uma crítica particularmente produtiva à formulação de Jessé. Fanon impede que transformemos a consciência de superioridade branca na causa original da ordem racial, mostrando que essa subjetividade também precisa ser explicada como produto de relações históricas de dominação. Reed, por outro lado, impede que a crítica do racismo transforme raça numa explicação totalizante capaz de substituir a análise das relações de classe.

Isso significa que o problema não pode ser resolvido escolhendo simplesmente entre raça e classe. A questão é reconstruir historicamente como relações de classe e classificações raciais se combinaram em circunstâncias determinadas, sem pressupor que uma pessoa branca pertença necessariamente às classes dominantes ou médias e sem imaginar que negros constituam um bloco social economicamente homogêneo.

É justamente por isso que a presença simultânea de milhões de brancos pobres e de uma crescente classe média negra representa um problema importante para o esquema de Jessé. Ela não demonstra que o racismo desapareceu, mas mostra que as posições raciais e de classe não coincidem perfeitamente. Uma pessoa negra pode ascender socialmente e continuar enfrentando discriminação racial; um trabalhador branco pode beneficiar-se relativamente de sua classificação racial e continuar submetido à exploração econômica. Uma análise materialista precisa ser capaz de compreender simultaneamente essas duas realidades.

De “europeus na África” a uma questão mais incômoda

A imagem de descendentes de europeus imaginando-se como “europeus vivendo num contexto africano” é sociologicamente sugestiva porque captura uma forma possível de consciência racial e regional. Mas ela descreve melhor uma ideologia de legitimação do que a estrutura histórica que tornou essa ideologia possível. Dizer que determinados setores paulistas ou sulistas passaram a imaginar seus espaços como uma espécie de Europa moderna cercada por um Brasil atrasado pode ajudar a compreender determinadas formas de regionalismo e manifestações de superioridade diante do Brasil negro, mestiço e nordestino. Não explica, entretanto, por que negros já ocupavam posições subalternas muito antes que milhões de italianos, espanhóis, alemães ou poloneses desembarcassem no país.

Fanon permitiria interpretar essa fantasia de superioridade como produto de uma ordem racial. Reed acrescentaria uma pergunta incômoda: quais interesses e relações materiais essa representação ajuda a naturalizar? Afinal, para Reed, uma das funções históricas das ideologias raciais consiste justamente em fazer hierarquias socialmente produzidas aparecerem como consequência de atributos naturais ou culturais dos próprios grupos que ocupam posições diferentes.

A causalidade precisa, portanto, ser invertida. Não foram primordialmente os imigrantes europeus que produziram uma sociedade na qual ser branco representava uma vantagem. Eles chegaram a uma sociedade que já havia produzido historicamente a branquitude como posição privilegiada em relação à população negra escravizada. Parte deles e de seus descendentes conseguiu posteriormente converter essa vantagem racial relativa em mobilidade econômica, educacional e social. Outros permaneceram pobres. O fato decisivo é que ambas as trajetórias foram produzidas dentro de uma estrutura que antecedia sua chegada.

Onde está, afinal, o “reservatório” do racismo brasileiro?

Se quisermos preservar a metáfora utilizada por Jessé, talvez seja necessário deslocar radicalmente a localização desse “reservatório”. Ele dificilmente pode ser encontrado numa classe média descendente dos imigrantes europeus chegados ao Brasil no final do século XIX, pois começou a ser construído séculos antes. Seu conteúdo histórico está na escravização de africanos e seus descendentes, na concentração da propriedade da terra, na ausência de reparação após a Abolição, na formação racializada do mercado de trabalho, na segregação das cidades, nas desigualdades educacionais, na violência estatal e nos mecanismos pelos quais propriedade, riqueza, pobreza e oportunidades são transmitidas entre gerações.

Mas Reed obriga a acrescentar uma qualificação importante a essa formulação. Não basta declarar que tudo isso constitui manifestação de um “racismo estrutural” abstrato e autônomo. É necessário mostrar concretamente como essas desigualdades foram produzidas e transformadas, quais relações econômicas as sustentam e como políticas aparentemente universais podem beneficiar ou prejudicar diferencialmente grupos historicamente constituídos. Para Reed, tratar racismo como uma força independente da economia política pode terminar desistoricizando aquilo que uma análise materialista deveria justamente explicar historicamente.

Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe

Talvez Reed permita identificar de maneira ainda mais precisa o paradoxo central da explicação de Jessé de Souza. Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe. A classe média aparece progressivamente como branca; sua branquitude é relacionada à descendência europeia; essa descendência é associada à prosperidade; e dessa combinação é deduzida uma consciência de superioridade que explicaria sua disposição racista.

Mas uma análise materialista precisaria percorrer quase exatamente o caminho inverso. Seria necessário investigar como propriedade, trabalho, educação, políticas migratórias, acesso à terra, Estado e mercado produziram trajetórias diferenciadas entre negros, imigrantes europeus e seus descendentes e, somente então, analisar como classificações raciais interferiram nesses processos e ajudaram a legitimá-los.

É justamente nesse ponto que a combinação de Fanon, Reed, Florestan Fernandes, Eric Williams e Ruy Mauro Marini oferece uma alternativa teoricamente mais poderosa. Williams permite situar a escravidão atlântica nos processos de acumulação associados à expansão do capitalismo; Fanon mostra como colonialismo e exploração produzem hierarquias raciais e subjetividades capazes de naturalizá-las; Florestan acompanha a reorganização dessas desigualdades na passagem brasileira do escravismo para a sociedade de classes; Marini recoloca essa sociedade dentro de uma economia mundial hierarquizada e dependente; e Reed impede que, depois de reconstruirmos toda essa história, voltemos a transformar raça numa entidade autônoma ou grupos racialmente definidos em sujeitos de classe homogêneos.

Essas perspectivas não são idênticas e existem tensões importantes entre elas, especialmente porque Reed provavelmente seria mais crítico do que Fanon e Florestan em relação a certas utilizações contemporâneas do conceito de racismo estrutural. Essa tensão, entretanto, fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo, pois obriga a análise a especificar mecanismos e relações causais em vez de simplesmente substituir uma palavra totalizante por outra.

É perfeitamente legítimo investigar como setores brancos das classes médias reproduzem o racismo, transformam privilégios históricos em virtudes imaginárias e utilizam instituições para conservar posições sociais. O problema surge quando essa constatação é elevada à condição de explicação histórica geral. Nesse movimento, aquilo que deveria ser explicado — como determinados descendentes de imigrantes puderam converter uma posição racial relativamente privilegiada em vantagens sociais numa sociedade pós-escravista, enquanto outros descendentes dos mesmos fluxos migratórios permaneceram entre os trabalhadores pobres — acaba sendo apresentado como a própria causa do racismo.

Talvez seja esse o limite mais importante do esquema de Jessé de Souza. Ao procurar explicar o racismo brasileiro pela classe média branca e sua genealogia imigrante, ele concentra a análise num dos espaços contemporâneos de sua reprodução e perde de vista as relações históricas que produziram tanto as classificações raciais quanto as próprias posições de classe que pretende explicar. Fanon mostra por que a superioridade branca precisa ser explicada historicamente; Reed mostra por que branquitude não pode ser convertida em posição de classe; Florestan demonstra como as desigualdades raciais foram reorganizadas depois da escravidão; Williams conecta a exploração escravista aos circuitos internacionais de acumulação; e Marini situa essa formação social dentro da reprodução desigual e dependente do capitalismo mundial.

Ao tentar escapar das interpretações clássicas sobre a questão racial brasileira, Jessé termina, assim, oferecendo uma explicação que começa tarde demais na história e homogeneíza excessivamente os sujeitos que pretende explicar. O problema não está em reconhecer o racismo da classe média branca. Está em confundir um possível agente contemporâneo de sua reprodução com a estrutura histórica que tornou esse racismo possível.

Feira Cultural Bambas da Planície recebe II Festival do Aipim em domingo de samba, cultura e agricultura familiar em Campos

Programação gratuita com doação de alimentos não perecíveis, acontece no dia 23 de agosto, das 9h às 17h, na segunda praça do Flamboyant, reunindo samba, gastronomia, economia criativa, agricultura familiar e roda de conversa sobre agroecologia e produção orgânica

No dia 23 de agosto, domingo, das 9h às 17h, a Praça Poeta Antonio Roberto Fernandes, a segunda praça do Flamboyant, em Campos dos Goytacazes, será ponto de encontro entre samba, cultura popular, agricultura familiar, gastronomia e produção agroecológica.

Nesta edição, a Feira Cultural Bambas da Planície recebe o II Festival do Aipim, realizado em parceria com a Barraca Agroecológica. A programação é gratuita e reúne música, samba, atividades culturais, gastronomia, economia criativa, produtos da agricultura familiar e espaços de conversa e troca de conhecimentos.

Samba, cultura e economia local

O Bambas da Planície é resultado de um trabalho permanente de pesquisa, preservação e difusão do samba campista, desenvolvido desde 2003 em Campos dos Goytacazes.

Idealizado pela cantora, compositora, pesquisadora e produtora cultural Leny Moraes, o projeto busca reconhecer e difundir a contribuição histórica do Norte Fluminense para a música popular brasileira. Ao longo de mais de duas décadas, construiu um importante acervo, reunindo cinco álbuns fonográficos, documentário audiovisual, registros históricos, entrevistas, ações educativas e apresentações artísticas.

A Feira Cultural Bambas da Planície leva esse trabalho para o espaço público, aproximando cultura e comunidade e reunindo também gastronomia, artesanato, economia criativa e pequenos empreendimentos, contribuindo para a circulação da produção cultural e para a geração de trabalho e renda.

Da cultura da cidade aos saberes da roça

Nesta edição, a programação ganha um novo encontro com o II Festival do Aipim, promovido pela Barraca Agroecológica em parceria com a Feira Cultural Bambas da Planície.

O aipim, alimento profundamente ligado à agricultura familiar e à cultura alimentar da região, será protagonista, com produtos frescos da roça, bolinhos, tapiocas, doces de aipim e outras preparações.

Mais do que uma feira gastronômica, o Festival busca valorizar quem produz, os conhecimentos envolvidos no cultivo dos alimentos e a relação entre campo e cidade.

Criada em Campos dos Goytacazes em 2017, a Barraca Agroecológica atua na construção de circuitos curtos de comercialização, aproximando agricultores familiares e consumidores e dando visibilidade aos agricultores, às formas de produção e aos territórios de onde vêm os alimentos.

Agroecológico x Orgânico: qual é a diferença?

Entre as atividades do Festival estará a roda de conversa “Agroecológico x Orgânico: diferenças e complementaridades”, às 10h30, com duração aproximada de 30 minutos.

A conversa parte de uma dúvida comum entre os consumidores: agroecológico e orgânico são a mesma coisa?

De forma aberta e acessível, serão discutidas as aproximações e diferenças entre essas formas de produção, abordando temas como manejo agrícola, certificação, biodiversidade, meio ambiente, comercialização e agricultura familiar.

A roda reunirá agricultores orgânicos e profissionais de diferentes áreas do conhecimento, aproximando a experiência de quem produz no campo da pesquisa e da universidade. O público também poderá participar com perguntas e dúvidas. Os participantes serão divulgados em breve.

Cultura, alimento e território

A realização conjunta da Feira Cultural Bambas da Planície e do II Festival do Aipim parte de uma ideia comum: cultura não está apenas no palco.

Ela está no samba e na memória de seus mestres, mas também nos alimentos, nas formas de plantar, nas receitas transmitidas entre gerações e nos saberes da agricultura familiar.

Ao reunir esses universos em uma mesma praça, a programação propõe um encontro entre campo e cidade, tradição e novas gerações, cultura e geração de renda, música e alimentação.

Um domingo para ouvir samba, conhecer a produção cultural e criativa de Campos, experimentar os sabores do aipim, comprar alimentos diretamente da agricultura familiar e conversar sobre diferentes formas de produzir e consumir.

Tudo isso em uma programação gratuita e aberta à comunidade.

SERVIÇO

Feira Cultural Bambas da Planície + II Festival do Aipim

Data: domingo, 23 de agosto de 2026

Horário: 9h às 17h

Local: Praça Poeta Antonio Roberto Fernandes – 2ª praça do Flamboyant – Campos dos Goytacazes/RJ

Entrada: gratuita

 

Roda de conversa: Agroecológico x Orgânico: diferenças e complementaridades

Horário: 10h30

Duração: aproximadamente 30 minutos

Aduenf, 27 anos: longe dos regabofes oficiais, sempre presente nas lutas em defesa da Uenf

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) está conduzindo os festejos pelos 33 anos do início de suas atividades com a pompa celebratória própria de sua direção institucional. Mas outro aniversário deverá ocorrer de forma mais contida na próxima terça-feira (18/8). Falo aqui do aniversário da constituição oficial da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf), que, embora criada informalmente em 1995, somente foi legalizada em 1999. Assim, a Aduenf está, digamos, nas ruas, nos corações e nas mentes há praticamente 27 anos.

Ainda que haja omissões e esquecimentos, a Aduenf tem estado presente em momentos cruciais de grande parte da história da universidade. Foi a luta da Aduenf que garantiu a criação formal da Uenf, em 2001, após um duro processo de mobilização que unificou a comunidade universitária e obteve do então governador Anthony Garotinho o cumprimento de uma promessa de campanha que ele havia esquecido.

Também foi a partir da luta da Aduenf que a governadora Rosinha Garotinho enviou à Alerj o primeiro — e ainda vigente — Plano de Cargos e Vencimentos da Uenf. Esse plano era a demanda central de uma greve que durou vários meses em 2005 e que, apesar de ter sido encerrada sem o atendimento imediato da reivindicação, conquistou a implantação do PCV no ano seguinte.

A Aduenf também foi central na resistência que ocorreu em 2017, igualmente materializada em uma greve de mais de quatro meses, quando o estado do Rio de Janeiro entrou objetivamente em falência, deixando os professores da universidade sem o pagamento regular de seus salários. Aquele foi um momento particularmente difícil, que testou a capacidade do sindicato dos professores da Uenf de manter a categoria organizada e pronta para resistir ao projeto de destruição encabeçado pelo então governador Luiz Fernando Pezão.

A Aduenf também tem estado, no período mais recente, na linha de frente da luta pela atualização do PCV que a mobilização organizada arrancou há mais de duas décadas. Nesse embate, a Aduenf tem mais uma vez utilizado as ferramentas de um sindicalismo independente e combativo para reivindicar o direito não apenas dos professores, mas de todos os servidores, de terem salários dignos e carreiras capazes de responder aos novos desafios colocados diariamente pela construção e manutenção de uma universidade pública.

Olhando em retrospectiva, é seguro dizer que, se não fosse pela luta da Aduenf, a Uenf talvez sequer existisse legalmente nos moldes em que a conhecemos, nem haveria carreiras formalmente constituídas. Mais importante do que isso: sem a Aduenf, é provável que não houvesse sequer uma universidade que se pudesse chamar plenamente de pública, quanto mais gratuita. E a Aduenf tem sido capaz de cumprir esse papel justamente por praticar um sindicalismo autônomo em relação a governos, partidos e reitorias. Talvez seja por isso que a Aduenf não seja convidada para os banquetes oficiais, onde, além de desfrutar do regabofe, espera-se dos convidados o cumprimento do ritual de tecer loas aos poderosos de plantão. Mas essa ausência nos regabofes institucionais pode ser vista como uma espécie de selo de legitimidade: sinal de uma entidade que não existe para agradar aos ocupantes circunstanciais do poder, mas para representar os interesses de sua categoria e continuar travando as boas lutas que cercam a existência da Uenf.

Por tudo isso, como alguém que testemunhou não apenas o nascimento da Aduenf, mas que também participou de algumas de suas principais lutas, desejo-lhe um feliz aniversário. Mais do que celebrar os seus 27 anos de existência formal, porém, é preciso reafirmar aquilo que justifica a sua existência: a Uenf precisa de um sindicato livre, autônomo e combativo. Um sindicato que não confunda diálogo com subordinação, participação institucional com silêncio ou cordialidade com renúncia à crítica. Os direitos dos professores da Uenf nunca foram dádivas concedidas espontaneamente por governos ou administrações; foram conquistados por meio de organização, mobilização e luta coletiva. E, diante dos desafios que continuam postos à universidade pública e às carreiras de seus servidores, preservar a independência da Aduenf não é apenas honrar sua história: é garantir que os professores da Uenf continuem tendo uma voz coletiva capaz de enfrentar governos, reitorias ou quaisquer outros poderes sempre que seus direitos e a própria universidade pública estiverem sob ameaça.

Vida longa à Aduenf — e que ela continue livre para lutar!

O El Niño pode atingir seu pico no pior momento para a Amazônia – e isso deveria nos preocupar a todos

O atraso na estação chuvosa em florestas já danificadas pelo aquecimento provocado pelo homem pode desencadear um poderoso El Niño “Godzilla”

Os cientistas preveem que o pico do El Niño ocorrerá no pior momento possível para a maior floresta tropical do mundo: o final da estação seca, entre outubro e dezembro, quando os rios estão com seus níveis mais baixos e a vegetação rasteira provavelmente estará extremamente seca. Este será um período de extrema vulnerabilidade para a floresta, que desempenha um papel globalmente importante na estabilização do clima e na irrigação de plantações.

O sistema de suporte à vida do planeta já está sofrendo um duplo golpe. A perturbação climática causada pela ação humana, resultante da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento, está aquecendo o mundo implacavelmente e amplificando eventos climáticos extremos, como ondas de calor e tempestades. Além dessa tendência de longo prazo, há o recente El Niño, um fenômeno natural de altas temperaturas no Oceano Pacífico que leva ao aquecimento global – e à seca e incêndios – em grande parte do resto do mundo.

Caminhões de bombeiros e bombeiros em uma estrada na beira de uma floresta em chamas.

Bombeiros combatendo um grande incêndio florestal que consome uma floresta de pinheiros no departamento de Gironde, na França, em julho. Fotografia: Le Gonidec Margot/Abaca/Shutterstock

Cientistas afirmam que este El Niño está a caminho de ser o mais forte em 150 anos por uma margem impressionante“.  Mesmo em sua fase inicial, está causando estragos em todo o planeta.

A Europa Ocidental sofreu com os meses de junho e julho mais quentes da história, com chuvas excepcionalmente baixas, provocando incêndios florestais extremos na França, Grécia e outros países mediterrâneos, além de escassez de água nas bacias dos rios Sena, Reno e Danúbio. Três quartos da Inglaterra estão em situação de seca e sofrendo com o que se prevê ser o verão mais quente já registrado no Reino Unido.

Na Ásia, a Coreia do Sul e o Japão sofrem com uma onda de calor recorde , enquanto a China foi devastada pelo tufão Dolphin , que transformou as ruas de Xangai em rios, arrancou telhados de casas e forçou a evacuação de mais de 1 milhão de pessoas. Inundações mataram mais de 100 pessoas no estado de Assam, na Índia , e a previsão é de mais chuvas.

Vista aérea de um terreno alagado em ambos os lados de uma estrada.Inundações em Wenzhou, na província de Zhejiang, na China, após a passagem do tufão Dolphin no domingo. Fotografia: VCG/Getty Images

Vastos territórios ao redor do mundo estão em chamas. No Canadá, incêndios florestais “fora de controle” forçaram dezenas de milhares de pessoas a fugir da Colúmbia Britânica e escureceram os céus da distante Nova York. Enormes incêndios também devastam a ilha de Java, na Indonésia, e Utah, nos EUA, estado que também foi atingido por uma onda de calor recorde em julho .

Na África, a ONU prevê um impacto severo na produção de alimentos. No Oriente Médio, recordes de temperatura locais estão sendo quebrados quase diariamente, com os Emirados Árabes Unidos registrando 51,2°C em Al Dhafra.

Entretanto, as temperaturas da superfície do mar estão ultrapassando em muito os parâmetros anteriores, ameaçando os recifes de coral e outras formas de vida marinha. Como os oceanos são os principais absorvedores de calor do mundo , suas temperaturas são um prenúncio do que acontecerá em terra.

Mas entre as maiores preocupações sobre o futuro está a Amazônia, que é essencial para manter a biodiversidade e garantir chuvas para as regiões produtoras de alimentos em toda a América do Sul.

O rio Curuá, um afluente do Amazonas, atravessa a floresta nacional de Caxiuanã, no Brasil.

O rio Curuá, um afluente do Amazonas, atravessa a floresta nacional de Caxiuanã, no Brasil. Fotografia: Jorge Sáenz/AP

Há algumas décadas, a ideia de seca na floresta tropical pareceria absurda. O Amazonas é o maior rio do mundo e seus principais afluentes – Xingu, Negro, Tapajós, Madeira, Purus, Juruá e Japurá – estão entre as principais fontes de água doce do planeta. A floresta ao redor sempre foi famosa por sua umidade, com árvores gigantes que absorviam a umidade e a liberavam na atmosfera, gerando “rios voadores” que resfriavam e irrigavam um continente inteiro. Os trilhões de árvores e plantas na Amazônia também absorvem enormes quantidades de dióxido de carbono, trazendo benefícios para todo o planeta. Qualquer enfraquecimento dessa função aumenta os riscos de instabilidade, insegurança alimentar e eventos climáticos extremos.

Agora, a agência meteorológica brasileira divulgou uma previsão de que o El Niño, excepcionalmente forte, atrasará o início da estação chuvosa na Amazônia, elevará as temperaturas, diminuirá o nível dos rios e intensificará os riscos de incêndios.

Assim como em muitas outras partes do planeta, isso cria uma emergência dentro de outra emergência: o início de um El Niño natural, porém extremamente poderoso, do tipo “Godzilla”, que pode durar até o ano novo, além do aquecimento global causado pela ação humana.

Cientistas e moradores indígenas afirmam que a Amazônia está lutando para se recuperar da devastação causada pelo último El Niño, em 2023-24, que deixou alguns dos maiores rios do mundo em níveis recordes de baixa, provocou incêndios sem precedentes e causou a morte em massa de botos e peixes.

Com um terço da Amazônia agora degradada pela agricultura, mineração e alterações climáticas causadas pelo homem, as árvores e a vegetação rasteira estão mais inflamáveis ​​e vulneráveis ​​a megaincêndios“, aumentando as preocupações de que muitas áreas possam ultrapassar o ponto de não retorno .

Casas e barcos encalhados ao longo de um rio Negro seco.
Casas e barcos ilhados ao longo do Rio Negro, um importante afluente do Amazonas, que secou no estado do Amazonas, em outubro de 2023. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

O governo está tentando solucionar esse problema com monitoramento por satélite, operações de fiscalização e maiores investimentos em capacidade de combate a incêndios . Isso produziu resultados positivos no ano passado, quando as áreas queimadas na Amazônia caíram para o menor nível desde o início dos registros, em 1985.

Mas um ano não é tempo suficiente para a floresta se recuperar, e agora ela enfrenta uma ameaça muito maior.

Três eventos El Niño anteriores (1997-98, 2015-16 e 2023-24) foram desastrosos para a Amazônia. O professor Jos Barlow, especialista em Amazônia do Centro Ambiental de Lancaster, afirmou que a perspectiva de um fenômeno ainda mais forte é profundamente preocupante: “É difícil imaginar as consequências de secas e ondas de calor ainda mais severas.”

A temporada de incêndios na Amazônia já começou, mas o pico ainda está a alguns meses de distância.

Comunidades indígenas estão criando suas próprias unidades de combate a incêndios para lidar com focos em áreas mais profundas da floresta. A Dra. Erika Berenguer, especialista em florestas da Universidade de Oxford e autora de um livro sobre como lidar com incêndios em florestas tropicais, disse: “É uma loucura. A floresta úmida não deveria estar queimando.”

Uma das principais causas do problema, segundo Berenguer, foi a ocorrência de múltiplos fenômenos El Niño em um curto período de tempo: “É semelhante a quando você já está doente e contrai uma infecção. Essa infecção terá um impacto muito maior no seu organismo, porque seu sistema imunológico já está comprometido combatendo a doença.”

Um homem observa a floresta queimar.

Campos e floresta tropical queimando descontroladamente na Amazônia em outubro de 2023. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

É provável que as condições extremas persistam – e possivelmente se intensifiquem – em 2027, devido a um atraso de cerca de três meses entre o pico do aquecimento do El Niño no Oceano Pacífico e o aumento das temperaturas em outras partes do mundo.

Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo e um dos principais cientistas climáticos do Brasil, afirmou: “A Amazônia precisa estar muito bem preparada de agora até o início de 2027, pelo menos até março, porque este El Niño tem grande probabilidade de provocar uma seca severa.”

Os pecuaristas estão se preparando para um ano turbulento. “Caros pecuaristas, PREPAREM-SE PARA O EL NIÑO”, diz uma publicação em um grupo popular de WhatsApp para produtores de carne bovina no estado do Pará, na Amazônia. “O El Niño impactará a pecuária brasileira causando estresse térmico nos animais, reduzindo a qualidade das pastagens e levando à escassez de água. Isso aumenta os custos com suplementação e pode reduzir o ganho de peso e a produção de leite.”

Outras empresas agrícolas publicam imagens apocalípticas de solo ressecado ou cidades inundadas (a previsão é de muito mais chuva no sul do Brasil). “O Super El Niño de 2026 deixou de ser um mero fenômeno climático para se tornar um símbolo de uma nova era de instabilidade global”, alerta uma publicação.

A revista especializada Agroforte relata que as colheitas de soja no Brasil caíram durante anos anteriores de El Niño forte, mas omite qualquer menção às causas humanas para o clima mais hostil: o desmatamento – geralmente realizado por agricultores – e a queima de combustíveis fósseis.

Imagem aérea de uma colheitadeira se deslocando pelo campo.

Colheita de soja em uma fazenda perto de Senador Guiomard, no estado do Acre, Brasil. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

Em contrapartida, os grupos indígenas tendem a preservar a floresta e a ajudar a manter um clima estável, mas também enfrentam a tripla ameaça do aquecimento global, do desmatamento e do El Niño.

O governo alertou que as terras tradicionais enfrentarão riscos maiores de incêndios e estocou alimentos para o caso de escassez. Durante o El Niño anterior, algumas comunidades florestais nas bacias dos rios Xingu e Tapajós ficaram isoladas, sedentas e preocupadas com a fome quando os rios – a principal via de transporte – secaram e as hortas foram devastadas. Se a situação piorar no próximo ano, o Brasil poderá enfrentar o cenário apocalíptico de refugiados da seca em uma floresta tropical.

O simples fato de isso ser uma possibilidade já deveria alarmar o mundo. Uma Amazônia severamente enfraquecida perturbará ainda mais o clima e a produção agrícola em um momento em que agricultores em muitas partes do mundo já afirmam que as mudanças são rápidas demais para que consigam se adaptar. Os preços globais dos alimentos estão em seu nível mais alto em três anos, devido à queda nas colheitas combinada com a inflação dos combustíveis causada pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã. A ONU prevê que mais 49 milhões de pessoas provavelmente enfrentarão fome aguda por causa do El Niño.

É preciso fazer muito mais para proteger biomas como a Amazônia, dos quais o mundo depende. Investir mais em bombeiros florestais é uma medida necessária a curto prazo, mas lida apenas com as consequências, e não com as causas locais e globais. A menos que o desmatamento seja interrompido e os combustíveis fósseis sejam eliminados gradualmente, a atmosfera continuará a aquecer e a intensificar eventos climáticos extremos. Mesmo o El Niño deste ano, com sua intensidade colossal, parecerá insignificante em comparação com o que está por vir.


Fonte: The Guardian

“Tanto o alheamento do cidadão quanto o despreparo dos territórios são perigosos frente às mudanças climáticas” | Alice Grimm

Alice Grimm é uma das principais pesquisadoras do Brasil sobre oscilações climáticas. Como  professora do Departamento de Física da UFPR, Grimm alerta para os efeitos do El Niño esperado para este ano e pontua a necessidade de políticas públicas de prevenção de desastres articuladas com o conhecimento científico

A cidade de Rio do Sul (SC), onde morava a família de Alice Grimm, debaixo de uma enchente em julho de 1983. Foto: Acervo Pessoal

Por Camile Bropp para “Ciência UFPR”

No Oceano Pacífico, a mais de 5 mil quilômetros do Brasil, fica o Niño 3.4, um ponto monitorado por satélites de agências científicas que medem se as águas superficiais estão mais quentes ou subiram de nível. Esses são os indicadores para a previsão do El Niño, a fase quente da oscilação climática chamada ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superfície do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medição partiu o aviso de que as águas começaram a esquentar entre abril e junho deste ano com aceleração incomum, sugerindo um El Niño de grau “muito forte” para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.

O El Niño acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre é pauta pública, porque aumenta o risco de desastres e prejuízo econômico. Por sua localização e extensão continental, o Brasil é um dos países mais impactados por essa oscilação climática, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Niño já aumenta a propensão para seca e incêndios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise hídrica em boa parte do país.

Isso leva à questão: como o Brasil, que está no caminho das rotas preferenciais das alterações causadas pelo El Niño, tem se preparado para essa e outras oscilações climáticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Meteorologia (Labmet), há urgência na revisão de posicionamentos.

Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ciências atmosféricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revisão do quinto relatório (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão científico da ONU sobre questões de clima, e pela atuação em comitês científicos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Monções da Organização Meteorológica Mundial (WMO), no qual representou a América do Sul.

Os desastres climáticos que se repetem no país espelham entraves resistentes, como a insuficiência de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunicação técnica entre a ciência e a gestão pública. Um exemplo disso está nos resultados do levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná que expôs, em julho, que 60% das prefeituras do estado não possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a população.

Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinformação, apresentando pontos de vista científicos a gestores públicos. Uma dessa falas está marcada para essa segunda-feira (17), às 14 horas, em Curitiba, com transmissão on-line pelo canal de eventos da UFPR TV no YouTube.

Como pano de fundo dessa atuação está uma motivação antiga, a mesma que a levou a estudar oscilações climáticas. Em 1983, mestre em Ciências Geodésicas e à procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma família. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itajaí (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d’água, em julho daquele ano, durante um evento de El Niño. Assim a pesquisadora começou a construir sua trajetória na investigação de eventos climáticos de teleconexão, o conceito meteorológico que trata da ligação entre regiões distantes do planeta.

Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas científicas recentes a respeito das oscilações climáticas naturais e das mudanças climáticas antrópicas, além de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta climática: o foco em reação em vez de prevenção, a desinformação, e as lacunas de dados confiáveis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores públicos, entre outras questões.

Confira a matéria completa: https://ciencia.ufpr.br/portal/?p=29748  


Fonte: Ciência UFPR

Agrotóxicos: entre o que se aplica, o que chega à cultura e o que efetivamente alcança o alvo

Quase três décadas de avanços tecnológicos tornaram a pulverização mais precisa, mas não eliminaram as perdas para outros compartimentos ambientais nem resolveram a enorme distância entre a quantidade aplicada e aquela que efetivamente alcança o organismo-alvo

Quando David Pimentel e Lois Levitan publicaram, em 1986, o artigo Pesticides: Amounts Applied and Amounts Reaching Pests, chamaram atenção para uma característica desconcertante do modelo de controle químico de pragas: frequentemente, menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados às culturas alcançava efetivamente as pragas-alvo. A eficiência, entretanto, variava muito conforme o tipo de aplicação. O problema levantado pelos autores era justamente a enorme distância existente entre a quantidade lançada no ambiente e aquela que efetivamente cumpria a finalidade para a qual havia sido aplicada.

Vinte e oito anos depois, Peter Kryger Jensen e Merete Halkjær Olesen abordaram o problema por outro ângulo. Em uma revisão publicada na revista Crop Protection, os pesquisadores analisaram estudos de balanço de massa das pulverizações, procurando determinar quanto do produto aplicado ficava depositado sobre a cultura, quanto chegava ao solo e quanto era transportado para fora da área tratada por deriva.

A comparação entre os dois trabalhos exige uma distinção fundamental. Chegar à cultura não significa chegar à praga. Pimentel e Levitan estavam interessados principalmente na parcela que efetivamente alcançava o organismo que se pretendia controlar. Jensen e Olesen analisaram sobretudo a eficiência física da pulverização. Assim, uma aplicação pode apresentar elevada deposição sobre folhas e frutos e, ainda assim, apenas uma pequena parcela da dose original alcançar o inseto, patógeno ou planta daninha que justificou sua utilização.

A tecnologia avançou, mas as perdas permaneceram

Entre os dois estudos ocorreu um importante desenvolvimento tecnológico. Melhorias nos bicos, controle do tamanho das gotas, assistência de ar, sistemas de reciclagem e equipamentos como os tunnel sprayers aumentaram substancialmente a capacidade de colocar o produto sobre a vegetação e reduzir determinadas formas de perda.  Jensen e Olesen encontraram situações em que a deposição sobre a cultura ultrapassava 70% ou mesmo 80%, mas também demonstraram enorme variação conforme cultura, estágio de desenvolvimento e tecnologia utilizada. Em videiras, por exemplo, pulverizadores convencionais apresentaram frações não contabilizadas entre aproximadamente 10,8% e 25,7%, enquanto nos sistemas em túnel esses valores ficaram entre 0% e 7,3%.

Isso demonstra um ganho tecnológico real. Mas não significa que o problema ambiental tenha desaparecido.  O fato é que em aplicações convencionais sobre macieiras, 20% a 40% da quantidade aplicada não foi recuperada nas plantas ou no solo. Em outros sistemas de fruticultura, a fração não contabilizada alcançou 38,2% na laranja, 50,4% no pêssego e 61,8% na tangerina. Além disso, as condições meteorológicas alteraram radicalmente os resultados: em um experimento com macieiras, a recuperação da dose caiu de 91% pela manhã para apenas 68% ao meio-dia, sob temperatura mais elevada e menor umidade relativa.

O paradoxo da eficiência

Há, entretanto, uma segunda dimensão que precisa ser incorporada a essa discussão. Enquanto aperfeiçoamos as tecnologias de aplicação, ampliamos enormemente a escala em que os agrotóxicos são utilizados pela agricultura. E isso significa que o problema não pode ser analisado apenas em termos percentuais.   Mas uma redução relativa das perdas não implica necessariamente redução da quantidade absoluta de substâncias químicas transferidas para o ambiente.  É que se a quantidade total aplicada aumenta, mesmo uma porcentagem menor de perda pode representar uma massa considerável de agrotóxicos alcançando lugares que nunca foram seus alvos.

E aquilo que não chega ao alvo não simplesmente desaparece. Jensen e Olesen lembram que as perdas durante a aplicação são inevitáveis e que a deposição no solo constitui uma fonte potencial de lixiviação e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Os autores também chamam atenção para a deriva aérea, cuja quantificação continua metodologicamente difícil e que pode representar uma fração significativa do produto aplicado.

Assim, o que aparece como “perda” do ponto de vista agronômico deve ser entendido ambientalmente como transferência. O produto pode chegar ao solo, às águas superficiais e subterrâneas e à atmosfera e, por essas diferentes rotas, criar condições de exposição de organismos não alvo. É nesse contexto mais amplo que precisam ser considerados os impactos sobre plantas, microrganismos, insetos, polinizadores, organismos aquáticos, aves e também seres humanos. A extensão concreta desses efeitos, entretanto, precisa ser estabelecida por estudos toxicológicos e ambientais específicos, pois não foi objeto da revisão de Jensen e Olesen.

Mais precisão não resolve uma questão de escala

Colocados lado a lado, os dois estudos revelam uma contradição importante. Em 28 anos, aperfeiçoamos consideravelmente a capacidade de entregar o agrotóxico à cultura, mas não eliminamos sua transferência para compartimentos que não constituíam o alvo. Tampouco Jensen e Olesen oferecem evidências de que essa melhoria na deposição tenha produzido um aumento equivalente na fração da dose original que efetivamente alcança o organismo que se pretende controlar.

Por isso, o valor de menos de 0,1% apresentado por Pimentel e Levitan não deve ser simplesmente transportado para os dias atuais como se décadas de inovação tecnológica não tivessem ocorrido. Mas também não há nesses trabalhos evidência de que o problema fundamental identificado em 1986 tenha sido resolvido. Talvez esteja aí o aspecto mais inquietante dessa comparação.  A melhoria tecnológica tornou mais eficiente o processo de pulverização, mas simultaneamente aumentamos a escala na qual pulverizamos. Quando essas duas tendências são combinadas, ganhos relativos de eficiência podem ser anulados pelo crescimento absoluto da quantidade utilizada, mantendo ou mesmo ampliando a pressão química exercida sobre os sistemas ambientais.

A pergunta relevante, portanto, não deveria ser apenas quanto do agrotóxico conseguimos colocar sobre uma lavoura. Deveríamos perguntar quanto efetivamente chega ao organismo-alvo, quanto é necessário aplicar para produzir esse resultado e onde termina todo o restante. Afinal, aperfeiçoar a entrega é importante. Mas, diante da expansão do uso dessas substâncias, a questão ambiental fundamental continua sendo outra: quanto mais agrotóxico colocamos em circulação, maior é a importância de saber quanto dele vai parar justamente onde nunca deveria ter chegado.

Porto do Açu: gigantismo portuário, dependência de commodities e o risco de permanecer um enclave de recursos

Enquanto o Espírito Santo avança na disputa pelos contêineres, o Açu aposta na multifuncionalidade, mas continua diante de uma questão fundamental: o que sustentará o complexo quando o petróleo deixar de cumprir o papel de commodity-âncora?

O Porto do Açu é hoje alegadamente uma das maiores infraestruturas portuárias privadas existentes no Brasil. Com águas profundas, extensa retroárea e diferentes terminais especializados, o empreendimento costuma ser apresentado como evidência da emergência de um novo polo de desenvolvimento no Norte Fluminense. Entretanto, quase duas décadas depois do início de sua implantação, talvez seja necessário formular uma pergunta diferente daquela normalmente utilizada para medir seu sucesso: o gigantismo físico do Porto do Açu está efetivamente se convertendo em uma estrutura econômica capaz de dinamizar e diversificar a economia regional?

Essa questão ganha importância quando observamos uma característica peculiar do Porto do Açu. Apesar de suas dimensões hiperdimensionadas, o complexo ainda não possui um terminal especializado na movimentação de contêineres. E isso está longe de ser um detalhe, pois a conteinerização transformou profundamente a geografia mundial dos portos. Desde a segunda metade do século XX, o contêiner tornou-se um dos principais instrumentos de integração das cadeias globais de produção, fazendo com que a importância de um porto deixe de depender apenas da profundidade de seus canais, do comprimento de seus cais ou da tonelagem movimentada e passe a depender também de sua posição nas redes regulares de transporte marítimo.

Um grande terminal de contêineres não movimenta apenas caixas metálicas. Ele conecta indústrias, centros de distribuição, transportadoras, ferrovias, armadores e operadores logísticos, produzindo aquilo que poderíamos chamar de centralidade relacional. Quanto maior o número de linhas e escalas regulares, maior tende a ser a capacidade de atrair novas cargas, e quanto maior o volume de cargas, maior o interesse dos armadores em manter ou ampliar suas escalas.

É justamente nesse ponto que o avanço da estrutura portuária do estado vizinho do Espírito Santo merece atenção. Além da infraestrutura já existente na Grande Vitória, novos investimentos estão sendo realizados para transformar o território capixaba em um corredor ainda mais importante para a movimentação de contêineres. O exemplo mais significativo é o Porto da Imetame, em Aracruz, projetado como terminal multipropósito com capacidade expressiva para contêineres e possibilidade de conexão ferroviária com a Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Isso significa que o Porto do Açu pode estar diante de uma janela de oportunidade que não permanecerá aberta indefinidamente.  Além disso, construir fisicamente um terminal de contêineres é uma coisa; construir uma rede de contêineres é algo muito diferente. Para isso são necessários armadores, escalas regulares, cargas de ida e retorno, operadores logísticos, conexões terrestres e uma hinterlândia capaz de sustentar economicamente essas operações.

Se o Espírito Santo consolidar primeiro essas relações, empresas poderão organizar suas cadeias logísticas em função dos portos capixabas, operadores poderão instalar centros de distribuição em suas proximidades e os grandes armadores poderão estruturar suas rotas utilizando essas escalas. Nesse cenário, quando o  Porto do Açu eventualmente decidir entrar de maneira mais agressiva no mercado de contêineres, não encontrará necessariamente um espaço vazio esperando para ser ocupado, e terá de disputar cargas e escalas com redes previamente estabelecidas.

Assim, talvez a pergunta relevante já não seja quando o Porto do Açu terá um terminal de contêineres, mas se, quando isso acontecer, ainda haverá espaço econômico para uma nova escala relevante entre Santos e um sistema portuário capixaba cada vez mais especializado.

O petróleo como força e calcanhar de Aquiles

Existe ainda outra questão talvez mais importante. Depois do colapso do projeto empresarial original associado a Eike Batista, o Porto do Açu encontrou no petróleo offshore  sua commodity-âncora. Atualmente, uma parcela expressiva do petróleo exportado pelo Brasil passa pelo complexo, enquanto diferentes empresas ligadas às atividades de petróleo, gás, serviços offshore e subsea instalaram operações no empreendimento.  Esta foi uma solução extremamente bem-sucedida para garantir movimentação e receitas ao porto no plano imediato. Mas aquilo que representa sua grande força no presente pode também constituir seu calcanhar de Aquiles no futuro.

Portos são construídos para funcionar durante muitas décadas. O problema é que ciclos de commodities não possuem necessariamente a mesma duração. Independentemente das divergências sobre a velocidade da transição energética mundial, parece arriscado imaginar que o petróleo continuará ocupando indefinidamente a posição que possui atualmente na economia internacional. O  Porto do Açu está  procurando diversificar suas operações. O Terminal Multicargas vem incorporando café, soja, milho, fertilizantes, produtos minerais, cargas de projeto e outros fluxos. Também existem apostas relacionadas à siderurgia, gás, energia e novos combustíveis. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre diversificar cargas e diversificar estruturalmente uma economia.

Petróleo, minério, siderurgia, fertilizantes, gás e parte dos novos projetos energéticos permanecem, apesar de suas diferenças, fortemente relacionados a um metabolismo econômico baseado na exploração de recursos naturais, energia, processamento primário e exportação. Podemos estar, portanto, diante de uma diversificação dentro da especialização.  E isso faz toda a diferença.

E se as indústrias prometidas não chegarem?

A variável verdadeiramente decisiva para o futuro do Açu talvez não esteja nos navios que hoje atracam em seus terminais, mas no que acontecerá com sua enorme retroárea industrial.  Se indústrias diversificadas forem efetivamente instaladas no complexo, poderá ocorrer uma transformação qualitativa. Essas empresas importarão insumos, demandarão fornecedores, processarão matérias-primas, produzirão mercadorias de maior valor agregado e gerarão seus próprios fluxos logísticos. Nesse caso, o porto poderá deixar progressivamente de depender de uma commodity específica para justificar sua existência.

Poderá surgir um círculo virtuoso: o porto atrai indústrias, as indústrias geram cargas, as cargas atraem novas linhas marítimas, a maior conectividade reduz custos e os menores custos tornam o território mais atraente para novas empresas. Nesse contexto, inclusive a instalação de um terminal de contêineres poderia resultar de uma demanda econômica previamente constituída.

Mas existe também a possibilidade inversa. Se as indústrias não forem instaladas na escala anunciada, o complexo continuará dependendo fortemente das commodities. E, quando uma delas entrar em declínio, não haverá garantia de que outra atividade conseguirá ocupar imediatamente o seu lugar.  Essa é uma questão que toneladas movimentadas podem esconder.

Um porto pode movimentar volumes extraordinários e, ainda assim, possuir baixa complexidade econômica. Afinal, quebra-mares, canais profundos, quilômetros de cais e milhares de hectares de retroárea não produzem cargas por si mesmos.

Porto industrial ou enclave de recursos?

Essa discussão torna-se ainda mais importante quando consideramos os custos territoriais e socioambientais associados à implantação do Porto do Açu. Sua construção exigiu uma profunda reorganização territorial do V Distrito de São João da Barra, envolvendo desapropriações de agricultores, mudanças nas formas tradicionais de uso do território e impactos sobre ecossistemas costeiros, sistemas agrícolas e atividades pesqueiras.

O território onde o complexo foi implantado não era um espaço vazio esperando pela chegada do grande capital. Ali existiam comunidades, sistemas produtivos, pescadores artesanais, agricultores familiares, lagoas, restingas e relações históricas de pertencimento e utilização dos recursos naturais.  Por isso, avaliar o Açu apenas pela tonelagem movimentada significa observar somente uma parte da equação. A questão fundamental deveria ser: quanto da riqueza que atravessa o Porto do Açu permanece efetivamente no Norte Fluminense e contribui para diversificar sua estrutura econômica?

O petróleo é particularmente revelador. Uma parcela significativa do óleo exportado pelo Brasil passa pelo Açu, mas esse petróleo não é produzido em São João da Barra. Ele chega ao complexo pelo mar e pode sair novamente pelo mar. O território funciona, nesse caso, essencialmente como plataforma logística de conexão entre áreas produtoras offshore e mercados externos.

Isso não significa negar os empregos, contratos, impostos e atividades econômicas gerados pelo empreendimento. Eles existem e são relevantes. A questão é saber se possuem magnitude, diversidade e capacidade multiplicadora suficientes para justificar a narrativa de que o Açu estaria produzindo uma transformação estrutural da economia regional. É justamente aqui que aparece a diferença entre um complexo portuário-industrial territorialmente integrado e um enclave de recursos.

No primeiro caso, o porto produz encadeamentos para frente e para trás, estimula fornecedores regionais, promove inovação, atrai diferentes atividades produtivas e gera uma economia que progressivamente adquire capacidade de reprodução própria. No segundo, enormes volumes de recursos atravessam o território, enquanto as decisões fundamentais, os mercados consumidores, grande parte dos fornecedores e os circuitos de acumulação permanecem localizados fora dele.

O paradoxo do gigantismo

Talvez esse seja o grande paradoxo do Porto do Açu.  O seu gigantismo físico é um dos atributos mais reclamados pelos seus gestores, mas gigantismo portuário não significa necessariamente centralidade econômica regional.  Essa distinção torna-se ainda mais importante quando lembramos a magnitude das transformações territoriais realizadas para permitir sua implantação. Grandes extensões foram incorporadas ao projeto sob a justificativa da formação de um complexo portuário-industrial que produziria uma profunda transformação econômica no Norte Fluminense.

Quanto maiores os custos sociais e ambientais impostos para viabilizar esse empreendimento, maior deveria ser também sua obrigação de produzir benefícios econômicos duradouros e territorialmente distribuídos. Por isso, quase duas décadas depois do início desse processo, talvez seja necessário olhar menos para o número de navios que entram no porto e mais para aquilo que está acontecendo fora de seus portões.

Quantas cadeias produtivas regionais foram efetivamente criadas? Quantos fornecedores locais adquiriram capacidade tecnológica para participar dessas cadeias? Quanto da riqueza movimentada permanece no Norte Fluminense? Quantas atividades econômicas sobreviveriam independentemente do petróleo? E, principalmente, quanto da gigantesca retroárea apropriada para o empreendimento efetivamente se transformou em uma base industrial produtiva?

Essas perguntas se tornam ainda mais importantes diante do avanço do Espírito Santo na conteinerização. Se os portos capixabas consolidarem primeiro suas linhas regulares, conexões ferroviárias e relações com grandes hinterlândias, o Açu poderá descobrir que possuir espaço para construir um terminal de contêineres é muito diferente de possuir as condições econômicas necessárias para torná-lo competitivo.

No final das contas, o verdadeiro teste histórico do Porto do Açu provavelmente ocorrerá quando o petróleo deixar de desempenhar o papel de commodity-âncora que exerce atualmente. Se nesse momento houver indústrias diversificadas, cadeias produtivas regionais, conectividade logística e atividades capazes de gerar seus próprios fluxos, o Açu terá conseguido realizar a prometida transformação de porto de commodities em complexo portuário-industrial.

Mas, se isso não ocorrer, poderemos descobrir que aquilo que foi apresentado durante décadas como um novo polo de desenvolvimento do Norte Fluminense constituiu essencialmente um gigantesco enclave de recursos: extraordinariamente eficiente para conectar commodities brasileiras aos mercados globais, mas incapaz de criar raízes econômicas proporcionais às profundas transformações sociais, ambientais e territoriais que foram impostas para viabilizá-lo.

Revista de biologia despublica mais de 100 artigos de edições especiais por manipulação da revisão por pares

Por Retraction Watch

O periódico International Journal of Biological Macromolecules, da Elsevier, já publicou mais de 100 retratações, e esse número continua aumentando, devido à manipulação da revisão por pares em edições especiais editadas por autores convidados. A editora afirmou que mais uma retratação está a caminho. 

Desde junho, a editora retirou 120 artigos. De acordo com os avisos de retratação , a revista identificou “manipulação sistemática, coordenada e generalizada do processo de revisão por pares”.

Um porta-voz da Elsevier disse ao Retraction Watch que a editora “tomou conhecimento de possível manipulação sistemática e outros problemas, como plágio, duplicação de imagens e questões de autoria em diversos artigos publicados em Edições Especiais” em 2025, o que a levou a conduzir uma investigação mais ampla em edições especiais mais recentes. 

Quase todos os artigos retratados tinham autores com vínculos na China e foram publicados em 2024 e 2025. Os artigos abordavam mutações em células cancerígenas e causas moleculares de doenças crônicas como apneia do sono e dor, entre outros tópicos. 

Edições especiais editadas por autores convidados parecem ser particularmente vulneráveis ​​à manipulação. Em meio à retratação de mais de 10.000 artigos entre o final de 2022 e o início de 2024, a Hindawi suspendeu temporariamente a publicação de edições especiais em 2023 devido à manipulação do processo de revisão por pares. Em 2024, um periódico da Springer Nature retratou 34 artigos de edições especiais por “manipulação editorial e processo de revisão por pares comprometidos”. No mesmo ano, o periódico Annals of Operations Research retratou uma edição especial inteira devido a preocupações com a revisão por pares “comprometida”.

O autor que perdeu o maior número de artigos (cinco) na última onda de retratações foi Junkai Qin, que listou afiliações com o Hospital Minzu da Região Autônoma de Guangxi Zhuang e o Hospital Afiliado da Universidade Médica de Youjiang para Nacionalidades. Os cinco artigos retratados do International Journal of Biological Macromolecules são os únicos listados no perfil de Qin no ResearchGate . Não conseguimos encontrar um ORCID correspondente ou uma página de perfil institucional para o pesquisador, e nenhum dos autores correspondentes dos cinco artigos respondeu aos nossos e-mails. 

Li Jin , um pesquisador que listou afiliações com a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e a Universidade de Ciência e Tecnologia Eletrônica, perdeu três artigos na retratação em massa. Jin nos disse que estava em contato com a revista “para se informar sobre os detalhes específicos e a justificativa oficial dessas retratações, incluindo as preocupações com a revisão por pares”. 

O porta-voz da Elsevier nos disse que as retratações “relativas a esse esquema de manipulação da revisão por pares estão quase concluídas, e as verificações dos editores convidados foram ainda mais reforçadas para permitir a detecção de problemas o mais rápido possível”.

Fabian Wittmers, um pesquisador de pós-doutorado da Universidade Estadual do Oregon, nos contou que vem enviando lotes de artigos preocupantes para o periódico desde abril de 2025. Ele já sinalizou mais de 300 artigos , tanto para o periódico quanto no PubPeer, e escreveu sobre o periódico em uma postagem de blog em setembro passado. Apenas um dos artigos que ele relatou estava entre os retratados por manipulação na revisão por pares; 11 dos 352 que ele relatou foram retratados por outros motivos. 

A revista praticamente dobrou seu volume de publicações, passando de quase 5.000 artigos em 2023 para mais de 9.600 em 2024, e publicou mais de 10.300 artigos em 2025. 

A editora não respondeu à nossa pergunta sobre esse aumento repentino, mas afirmou: “Considerando o aumento no número de submissões em todo o ecossistema de publicação científica e outras mudanças observadas nos últimos anos, o investimento feito pela indústria editorial acadêmica para garantir a integridade da pesquisa é maior do que nunca”. Até o momento, em 2026, o International Journal of Biological Macromolecules publicou mais de 4.000 artigos. 

O pesquisador assistente de banco de dados, Noah Knox, contribuiu com dados para este artigo.


Fonte: Retraction Watch