Com o governo federal paralisado, a pandemia avança para os rincões do Brasil

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No último dia do mês de maio, o Brasil está fortemente consolidado como o segundo principal foco da COVID-19 no mundo, tendo já ultrapassado 500.000 infectados e beirand os 30.000 mortos, apenas se considerando os dados oficiais. E isso é especialmente lamentável porque não teria que ter sido assim, já que o Brasil teve tempo suficiente para evitar a confirmação dos piores cenários (ver tabela abaixo).

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O avanço da pandemia no Brasil caminha “pari passu” com a paralisia do governo Bolsonaro, que após demitir dois ministros da Saúde que procuravam imprimir um mínimo de racionalidade científica às ações do governo federal (e quando digo mínimo é isso mesmo, mínimo). Após a demissão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e a ascensão de uma espécie de protetorado militar no Ministério da Saúde, o fato objetivo é que se perdeu qualquer capacidade de gestão centralizada. O resultado dessa ação, orquestrada a partir das posições negacionistas do presidente Jair Bolsonaro, foi o avanço rápido da ascensão da curva de contaminação e, consequentemente, de mortos.

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Plataforma criada para analisar avanço da COVID-19 mostra rápida interiorização da pandemia no Brasil.

É essa natureza política do avanço da pandemia que tornou o Brasil um concorrente sério a passar das 100.000 mortes por COVID-19.  Mas o pior é que se persistirem os esforços para reabrir o comércio, o número de óbitos poderá ser o dobro do que o limite atualmente estipulado.  Nesse caso, é preciso enfatizar que as pressões para reabrir atividades não- essenciais resultam da indisposição do ministro Paulo Guedes em liberar recursos para as micro- e pequenas empresas que têm carregado o piano nas costas em meio a uma crise econômica que já perdura desde 2016.  Guedes manifestadamente só se preocupa com os bancos, em uma espécie de “cuidar dos seus” já que ele é ligado diretamente ao setor.

Em outras palavras, o avanço da pandemia no Brasil tem origem em uma opção de gestão da nossa economia com olho na saúde dos bancos, e não do povo, especialmente dos segmentos mais pobres. Tivesse o governo Bolsonaro qualquer preocupação real em conter a pandemia, uma linha especial de crédito, tal qual a que foi criada para as grandes instituições financeiras, já teria sido criada, retornando os R$ 20 bilhões que foram retirados do orçamento do Ministério da Saúde em 2019. Mas nem gastar o que foi orçado para o ano de 2020 está se gastando.

Com surto em lar de idosos e frigorífico, Passo Fundo tem mais ...Trabalhadores de frigoríficos estão entre mais contaminados por coronavírus no Brasil.

Um aspecto que tem sido negligenciado no avanço da pandemia é aquele que revela que os grandes focos de contaminação estão hoje associados ao agronegócio e à mineração, com milhares de casos sendo concentrados em frigoríficos e áreas de mineração, onde os trabalhadores seguem sendo obrigados a se expor ao coronavírus para manter as atividades das grandes empresas aptas a exportar suas commodities agrícolas e minerais, aumentando ainda mais a concentração da renda no Brasil. A razão dessa negligência é só uma: o agronegócio e as mineradoras são aliadas de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro, e cada vez mais são estratégicas para a sua manutenção no poder. Em troca desse apoio, esses setores receberam uma espécie de passe livre para expor seus trabalhadores aos riscos de contaminação.

Por isso, considero que todos os ruídos que estão sendo causados nas redes sociais e nas ruas pelos apoiadores do governo Bolsonaro não passam de uma tática diversionista para permitir que as ações anti-nacionais e anti-povo continuem sendo realizadas, no melhor estilo “passa boiada” de Ricardo Salles.  Mas não há propaganda de cloroquina que possa apagar as evidências já consolidadas de que o presidente Jair Bolsonaro tem sido uma espécie de “melhor amigo do coronavírus”, e as pesquisas de opinião pública revelam claramente que a maioria das pessoas já entendeu isso perfeitamente. 

“Basta!”: Juristas compram página inteira da Folha e do Estadão para divulgar manifesto contra Bolsonaro

Manifesto que condena ataques de Bolsonaro às instituições e que prega o fim da “noite de terror que cobre o país” é assinado por mais de 600 renomados juristas; leia aqui em primeira mão

BASTA

Um grupo de mais de 600 juristas comprou uma página inteira dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão para divulgar, como um informe publicitário, um manifesto contra o presidente Jair Bolsonaro e seus constantes ataques às instituições.

O manifesto, intitulado “Basta!”, será publicado nas edições de domingo (31) dos dois jornais paulistas (ver figura abaixo).

Basta!

No texto, os juristas afirmam que “o Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”.

“Todos nós temos a firme convicção de que o Direito só tem sentido quando for promotor da justiça. Todos nós acreditamos que é preciso dar um BASTA a esta noite de terror com que se está pretendendo cobrir este país”, diz ainda o manifesto, que é finalizado com a seguinte frase: “Sejamos intolerantes com os intolerantes!”.

Entre as mais de 600 assinaturas, estão a de juristas de renome, como de Antonio Claudio Mariz de Oliveira, Dalmo Dallari, Celso Lafer, Pedro Estevam Serrano e Mario Sergio Duarte Garcia, Sebastião Tojal, Claudio Lembo.

Confira aqui, em primeira mão, a íntegra do texto.

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Este texto foi originalmente publicado pela “Revista Fórum” [Aqui!].

Convite para participação em pesquisa científica sobre uso de sacolas de supermercado

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Uma pesquisa envolvendo pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e da Fairfield University (localizada no estado de Connecticut) está convidando interessadas para uma pesquisa acerca do uso de sacolas de supermercado (de plástico ou ecológicas).

A descrição completa do projeto segue abaixo, e os interessados podem acessar a pesquisa [Aqui!]

sacolas plásticas

A mensagem que vem dos EUA: não basta não ser racista, há que se ser anti-racista

protestos 2Manifestante branco segura cartaz exigindo justiça para George Floyd em frente da Casa Branca em Washington DC.

O episódio do assassinato (porque foi isso exatamente o que aconteceu) de um cidadão negro, George Floyd, por um policial branco na cidade de Minneapolis acabou desencadeando um amplo e massivo movimento de protestos em todo o território dos EUA.

Um aspecto que até agora permanece pouco falado no pouquíssimo que a mídia corporativa está cobrindo este movimento de protestos é o crescente envolvimento de cidadãos brancos não apenas no proteção dos manifestantes negros. O motivo para isso é bastante simples: a polícia estadunidense tende a hesitar mais em usar munição letal em pessoas brancas.

Um dos episódios que já viralizou no tocante à proteção dos manifestantes negros por pessoas de pele branca ocorreu na cidade de Louisville no estado do Kentucky (quando uma linha de proteção foi formada majoritariamente por mulheres brancas para impedir a ação violenta da polícia ver imagem abaixo).

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Esses manifestantes brancos estão levando ao pé da letra o que já disse a filósofa e militante política negra Angela Davis quando afirmou que “em uma sociedade racista não é suficiente não ser racista, pois há que se ser anti-racista”.

Como o Brasil é uma espécie de irmão gêmeo dos EUA no tocante à formação racista de sua sociedade que se escorou na exploração brutal do trabalho escravo negro, o que os manifestantes brancos estão fazendo neste momento para garantir a integridade física dos negros que protestam contra a brutalidade policial poderia ser muito bem repetido por aqui.  

Movimento “estamos #Juntos” lança manifesto em defesa da vida, da liberdade, e da democracia no Brasil

Movimento Estamos #Juntos

Em um sinal de que a maré está se virando forte contra os instintos golpistas que têm sido disseminados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, um novo manifesto político foi lançado no dia de ontem a partir do movimento “Estamos #Juntos” que reúne uma ampla gama de personalidades do mundo político, científico e artístico.

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A lista inicial de aderentes ao manifesto “Estamos juntos” reúne mais de 2.000 signatários e abarca um amplo espectro político e ideológico. Entre os participantes estão nomes como os de Eliane Brum (jornalista), Luciano Huck (apresentador de TV), Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente), Vahan Agopyan (Reitor da USP), Petra Costa (Diretora), Marcos Palmeira (Ator), João Paulo Capobianco (SOS Mata Atlântica) e Frei Betto (Escritor).

O manifesto explicita que “como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia“.

O manifesto aponta ainda que seus signatários defendem “uma administração pública reverente à Constituição, audaz no combate à corrupção e à desigualdade, verdadeiramente comprometida com a educação, a segurança e a saúde da população“.

O caráter de amplo espectro ideológico do manifesto é explicitado no reconhecimento de que os signatários “possuem ideias e opiniões diferentes, mas comungam dos mesmos princípios éticos e democráticos“, e que “querem combater o ódio e a apatia com afeto, informação, união e esperança“.

Este movimento, devido principalmente ao seu amplo espectro de impulsionadores, é provavelmente um sinal claro de que o espaço político para as aventuras políticos dos que defendem a implantação de um regime de força no Brasil está começando a diminuir, e que reação no campo democrático começa a se levantar. O que, convenhamos, já não era sem tempo.

Quem desejar conhecer a íntegra do manifesto do movimento “Estamos juntos”, basta clicar [Aqui!].

Le Monde faz matéria sobre Tereza Cristina, a “Madame Desmatamento”

Tereza Cristina madame desmatamentoTereza Cristina, a “Madame Desmatamento, no seu escritório no Ministério da Agricultura em Brasília. 

Os leitores do jornal francês “Le Monde” foram premiados hoje com uma ampla matéria sobre os feitos da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a quem o jornalista Bruno Meyerfeld conferiu, com rara felicidade, o título de “Mme Déforestation”, ou “Madame Desmatamento”.  Essa matéria apresenta Tereza Cristina como o “rosto respeitável de um governo de loucos”, mas nem por isso menos responsável pelos números estratosféricos de desmatamento que vão marcar o ano de 2020 como um dos piores desde que o acompanhamento foi iniciado para medir a perda anual de florestas na Amazônia brasileira.

tereza cristina le monde

Um número que deverá causar espanto aos leitores franceses é o dos 1.202 km2   de floresta tropical que desapareceram nos primeiros quatro meses de 2020,  o equivalente a mais de 1.400 campos de futebol por dia.  Este valor recorde de desmatamento, ressalta a matéria, ocorreu no meio da estação das chuvas, e se soma aos 10.000 km2 destruídos no ano passado.

Bruno Meyerfield também informa na matéria o apelido de “Musa do Veneno” que Tereza Cristina ganhou enquanto ocupava o posto de líder da famigerada “Frente Parlamentar da Agricultura (FPA), mais conhecida como “bancada ruralista”, onde defendeu com unhas e dentes a aprovação desenfreada de agrotóxicos altamente venenosos, coisa que agora ela faz com incrível celeridade enquanto segura a caneta de ministra da Agricultura.

Um ponto que é marcado na reportagem é a fala de Tereza Cristina no sentido de que ela é ouvida por Jair Bolsonaro, que lhe dá “total liberdade para expressar sua opinião”.  Até onde essa liberdade total vai é sempre uma questão a se medir, mas não há dúvida que Tereza Cristina vem realizando com maestria o papel duplo de fazer avançar os interesses daqueles que se beneficiam com o avanço o processo de desmatamento que, muitas vezes, agem juntos com os produtores de agrotóxicos que são despejados nas áreas que estão perdendo florestas.  Não é por outra razão que Tereza Cristina favorece por um lado a liberação de um número recorde de agrotóxicos banidos na União Europeia e, por outro, se posiciona de forma inequívoca na defesa da “MP da Grilagem de Terras”. 

Por tudo que aparece na matéria do “Le Monde” é que considero um equívoco deixar Tereza Cristina operando tranquilamente no segundo plano que ela escolheu, enquanto toda a atenção é jogada sobre o improbo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles.  É que objetivamente, Ricardo Salles vem jogando o papel de “boi de piranha” e não de “passador de boiada”, já que é Tereza Cristina quem operacionaliza a ação devastadora do latifúndio agro-exportador sobre nossos ecossistemas naturais.  Mas, felizmente, sempre há um “Le Monde” da vida para nos mostrar isso, já que a mídia corporativa brasileira prefere se omitir em nome de seus próprios interesses.

 

Quem checa os checadores de fatos?

fato checadores

O vídeo abaixo, lamentavelmente em inglês, é uma porção de uma audiência pública realizada no congresso dos EUA em abril de 2018, onde o CEO da rede social Facebook, Mark Zuckerberg, é fortemente questionado pela deputada Alejandra Ocasio-Cortez sobre a posição da empresa de permitir a publicação de conteúdos que sabidamente disseminam “fake news” (notícias falsas) ou mesmo mensagens consideradas como de ódio a minorias e oponentes políticos.

Após muita pressão por parte de Ocasio-Cortez, Zuckerberg reconheceu que o Facebook não pararia de publicar conteúdos pagos que pudessem ser eventualmente falsos. A alegação apresentada naquela audiência é que o Facebook disponha de “agências independentes de checagem de fatos” que verificariam a autenticidade de determinados conteúdos.  Em resposta a Zuckerberg, Ocasio-Cortez então perguntou se o CEO do Facebook que um dos seus “checadores de fatos” era ele próprio um disseminador de ideias racistas, e se, apesar disso, poderia ser considerado um checador confiável de conteúdos. 

Todo esse debate que permanece mais do que atual me leva à seguinte pergunta: quem checa os checadores de fatos? É que, como em outras partes do mundo, os tais “fact checkers” assumem como capazes de verificar o que é verdadeiro ou falso em termos do que circula com conteúdo na mídia, mas raramente se questiona quem são os “checadores”  e, mais importante ainda, quem paga pelo trabalho de checagem.  E também muito raramente é questionada quão neutros os checadores são em relação aos conteúdos que supostamente checam com imparcialidade. A verdade é que a “checagem de fatos” é, por si só um novo tipo de empreendimento, uma indústria se preferirem, que também é influenciada por interesses econômicos e políticos.

A questão da autenticidade das informações que circulam nas redes ganhou grande interesse esta semana com a operação policial a mando do Supremo Tribunal Federal que já se sabe paralisou parte da rede de “robôs” que dão apoio ao presidente Jair Bolsonaro, e já se sabe que isso poderá gerar uma grave descontinuidade na dinâmica pela qual a narrativa política acerca da realidade brasileira era apresentada até esta semana. É que justamente na hora que a justiça agiu para impor limites, a principal reclamação é que se está atacando o direito de livre expressão.

Mas não é só no Brasil que sérios conflitos estão ocorrendo entre as empresas que operam as novas mídias e governantes que até agora fizeram amplo uso para determinar o rumo dos debates políticos. O maior exemplo disso é o presidente dos EUA, Donald Trump, que é usuário contumaz das redes sociais que agora está sendo contrariado por causa dos limites que lhe estão sendo impostos pela rede social Twitter que finalmente resolver impor limites na disseminação de “fake news” e mensagens de ódio.

O mais interessante disso é que Mark Zuckerberg está sendo apontado como uma voz contrária a que se aplique regras de contenção na disseminação de conteúdos. Até aqui não há nenhuma surpresa, pois o Facebook gera bilhões de dólares em receitas por meio da publicação de conteúdos pagos. A questão aqui é que agora está ficando claro que é preciso que limites sejam estabelecidos para o tipo de conteúdo que pode ser livremente distribuído sem que haja a devida responsabilização daqueles que distribuem notícias falsas e mensagens de ódio.

Coronavirus: Facebook combats misinformation with facts in news feed

A pandemia da COVID-19 veio, entre outras coisa, para demonstrar que é preciso existirem limites e necessidade de responsabilizar os que distribuem conteúdos falsos ou apenas que não sobrevivem ao exame da racionalidade científica.  É que não se trata mais de vencer esta ou aquela eleição, mas também definir sobre a vida e a morte das pessoas que são influenciadas direta ou indiretamente pela disputa de narrativas que estão ocorrendo em torno da pandemia da COVID-19. O problema mais uma vez não se resume apenas sobre a checagem dos fatos, mas também dos seus checadores.