Em audiência pública, secretário estadual de Saúde do MS enfrenta negacionistas da COVID-19 e os chama de “nazistas e fascistas da atualidade”

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Secretário estadual de Saúde do MS, Geraldo Resende, responde de forma dura a manifestantes que impediam realização de audiência pública na Câmara de Vereadores de Campo Grande

Em uma audiência pública realizada para discutir a implantação de um “passaporte da imunidade” no estado do Mato Grosso do Sul, o secretário estadual de Saúde,  Geraldo Resende, resolveu literalmente nome aos bois e chamou manifestantes de “nazistas e fascistas da atualidade” por tentarem se opor aos esforços realizados para conter a continuidade da pandemia da COVID-19, dizendo que a maioria do povo os irá colocar na lata de lixo da história (ver vídeo abaixo).

De quebra, Resende defendeu que se avance na implantação de um passaporte sanitário no Mato Grosso do Sul como forma de proteger vidas e deter a pandemia da COVID-19.

Eu diria, sem conhecer a trajetória do secretário estadual de Saúde do MS que ele disse o que muitos pensam e não têm coragem ou oportunidade de dizer.

Podcast com Ailton Krenak: A Terra está com febre!

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“A Terra está com febre!” A frase é do líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak, convidado do 36º episódio do Política ao Quadrado. Além de trazer reflexões sobre o custo do atual modelo de consumo e de desenvolvimento para o planeta, o convidado falou sobre vida, morte e sonhos.

Ao explicar as contradições do fenômeno do aquecimento global, Krenak alertou que a Amazônia poderá virar um “Pantanal estragado”, um deserto, enquanto a Rússia demonstra satisfação com o degelo das calotas polares – o que pode aumentar a quantidade de terras daquele país. O líder indígena aponta a existência de estudo de previsão de alteração do bioma da floresta já em 2035, caso o planeta continue esquentando. Autor de livros como “A vida não é útil”, “O amanhã não está a venda” e “Ideias para adiar o fim do mundo”, ele afirma que a questão central a ser discutida na próxima Cúpula do Clima são soluções para desaquecer o planeta.

A pandemia de COVID-19 é outro resultado do desequilíbrio do ecossistema terrestre, conforme o escritor. Ele relatou desconhecer pessoa sensata que a considera um fenômeno natural. Ao observar animais, plantas e insetos livres do vírus, enquanto humanos caíam mortalmente, Krenak conclui: “a covid tem endereço, o endereço dela é o organismo do Homo sapiens. Se o planeta Terra em desequilíbrio deixou escapar um vírus que mata os humanos, a gente está esperando o que pra entender que estamos fazendo a coisa errada?”

O convidado criticou os projetos de desenvolvimento para a Amazônia que permitem a exploração econômica da região por meio de atividades como a agropecuária e a mineração. Ele lembra que a ONU começa a projetar os objetivos do milênio colocando em questão os índices que tomam como referência o acesso a eletrodomésticos, internet, habitações com luz elétrica e saneamento. “Você chega numa metrópole onde todo mundo está empilhado, todo mundo tem fogão, geladeira e carro. Só que eles estão com doença mental”. As novas avaliações de desenvolvimento humano deveriam levar em consideração fatores como segurança alimentar e as condições que proporcionam um estado psicológico saudável.

Quem faz o quadrado? O Política ao Quadrado é o podcast de primeira que vai ao ar toda segunda. A produção independente tem apresentação de Lívia Carolina e Caio Barros, técnica e vídeo por Kauê Pinto, edição e mixagem de Brunno Rossetti e produção de Germano Neto.

Ouça o episódio:

https://spoti.fi/3AMcu4y

O agro é pó, e não pop… e tome “haboob caipira” para provar isso

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A mídia corporativa até agora deu uma cobertura do tipo “passar o pano” para um intenso processo de invasão de nuvens de poeira que vem ocorrendo em Ribeirão Preto (SP) e outros municípios como Franca (que ficam a cerca de 80 km de distância  um da outro). Segundo informou de forma bem prosaica o jornalista Wanderley Preite Sobrinho para o site UOL, o fenômeno que está ocorrendo no coração do latifúndio agro-exportador brasileiro, que transformou a paisagem dos municípios atingidos em uma espécie de Dubai caipira, se chama “haboob” e resulta da ocorrência de fortes temporais de chuva com ventos fortes que, ao entrarem em contato com o solo seco, encontram resquícios de queimada, poeira e vegetação, os quais acabam criando um “rolo compressor” de sujeira que pode chegar a até 10 quilômetros de altura (ver vídeos abaixo).

O problema é que a matéria escrito Wanderley Preite Sobrinho “esqueceu” de mencionar que Ribeirão Preto e os municípios mais próximos têm a maioria das suas terras agrícolas destinadas principalmente ao plantio da monocultura da cana-de-açúcar, o que facilitou a ocorrência deste “haboob”, provavelmente porque os temporais encontraram muita terra nua após a colheita anual de grandes extensões desta lavoura. Assim, ainda que a situação do uso da terra seja ligeiramente diferente, a proximidade espacial fez o município, mais conhecido pelo plantio da monocultura do café, também sofresse os impactos deste fenômeno climático. Em comum, a remoção praticamente total da cobertura florestal.

E a questão aqui é simples: a persistência das grandes monoculturas (independente de qual seja a lavoura dominante) está no cerne da geração deste tipo de fenômeno que antes parecia destinado a ocorrer em regiões desérticas, mas que agora estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil, em regiões que outrora eram ocupadas por grandes extensões de florestas, como era o estado de São Paulo até metade do século XX.

Esse “haboob caipira” é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão ocorrendo em uma velocidade até maior do que a comunidade científica tem previsto. E quanto antes acordarmos para essa realidade, mais cedo iremos pensar seriamente em nos ajustarmos a um clima em ritmo de mudança acelerada.

Voltando à matéria de Wanderley Preite Sobrinho, uma parte hilária da mesma é sobre um pedido da Sabesp para que as pessoas não lavem a calçada para tirar a poeira trazida pelo haboob. O problema é aqui, lavar com qual água se a região passa por uma gravíssima crise hídrica? 

Resultados das eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro: isolamento diplomático do Brasil deverá aumentar

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A derrota eleitoral do partido de Angela Merkel (CDU) deverá aumentar isolamento político de Jair Bolsonaro

Ainda que pareçam desconectadas da situação brasileira, as eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro e seu cambaleante governo. É que tudo indica que o partido de Angela Merkel (a CDU) não terá condições de manter a chancelaria alemã em função dos resultados obtidos pelo Partido Social Democrata (SPD) que deverá tentar formar uma aliança com os Verdes (Grüne) e com os ex-comunistas do “Die Linke” (ver gráfico abaixo), formando o que se chama de uma aliança “Vermelho-Verde-Vermelho) para governar a Alemanha.

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O problema com a saída da CDU do comando do governo federal alemão é que até aqui quem literalmente segurava a adoção de medidas contra o governo Bolsonaro era justamente a chanceler Angela Merkel, principalmente no tocante ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Com a saída da CDU do governo alemão e a provável formação de um governo que deve incluir o Partido Verde, a pressão contra as práticas destrutivas contra o meio ambiente, especialmente no tocante ao desmatamento desenfreado na Amazônia brasileira. Nesse caso, é importante lembrar que a crise climática global esteve entre os principais tópicos que permearam os debates eleitorais na Alemanha, onde ficou claro o papel nefasto que está sendo cumprido pelo Brasil comandado por Jair Bolsonaro e sua trupe de ministros anti ambiente. 

Ainda sobre as eleições alemãs, dois dados parecem mostrar que as coisas devem mudar por lá. A primeira coisa foi um freio na ascensão da extrema-direita (AfD) que viu seu montante de votos diminuir, e a eventual eleição de uma representante do Partido Verde para dirigir a prefeitura de Berlim, o que, se for confirmado, representará um forte avanço da agenda ambientalista em uma das principais cidades da Europa.

Movimento que pediu pacote antiambiental a Paulo Guedes inclui Gerdau, Google, Amazon, Globo e outros

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Por Maurício Angelo para o Observatório da Mineração

Movimento Brasil Competitivo (MBC), organização que enviou ao Ministério da Economia um “pacote antiambiental” repassado ao Ministério do Meio Ambiente, foi criado e é mantido essencialmente pela siderúrgica Gerdau, uma das maiores empresas do Brasil.

Entre os parceiros do MBC, constam gigantes da tecnologia como Microsoft, Amazon, Google, Motorola, Huawei e SAP. Amazon e Microsoft são “associados master”, assim como o Itaú e o Grupo FarmaBrasil.

Entre os associados mantenedores” estão Google, Facebook, Intel, IBM e Oracle, de tecnologia, além de empresas gigantes de segmentos diversos, como 99, Airbnb, Braskem, JBS, Localiza, Suzano, Toyota, Telefonica e outros. Gerdau e GOL também constam como patrocinadores.

Já entre os membros que “compartilham dos ideais do MBC” estão Paulo Tonet Camargo, vice-presidente de relações institucionais do Grupo Globo e Silvio Barros, político, comentarista, irmão de Ricardo Barros (PP-PR), deputado federal líder do governo Bolsonaro que está enrolado em uma série de denúncias na CPI da Covid.

O pacote inclui a sugestão de dispensar de licenciamento ambiental a reutilização de rejeito e estéril de mineração”, o que tem o potencial enorme de causar ainda mais dano às comunidades que já convivem com um processo de licenciamento falho e quase que inteiramente cooptado por mineradoras.

Com o nome de “Projeto de Redução do Custo Brasil”, a série de medidas repassadas por Paulo Guedes ao Ibama, que tem prazo até 30 de setembro para responder, incluem também:

  • extinguir a lista do Conselho Nacional do Meio Ambiente que define casos em que se exige o estudo prévio de impacto ambiental (EIA);
  • prever a concessão de licenças por decurso de prazo, em razão da demora na análise dos pedidos de licenciamento ambiental;
  • revogar as regras sobre autorização de supressão de vegetação nativa que se aplicam especificamente ao bioma Mata Atlântica, bem como reduzir a participação do Ibama nesses processos autorizativos;
  • alterar o mapa de biomas do IBGE, excluindo da delimitação da Amazônia as áreas com características de Cerrado;
  • cancelar a consulta ao Iphan para empreendimentos agrossilvipastoris;
  • reduzir as exigências para fabricação de agrotóxicos voltados à exportação, com o objetivo de tornar o país um polo produtor de agroquímicos.

O Observatório do Clima, que representa diversas organizações ambientalistas do terceiro setor, repudiou o pacote.

Para Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o documento reforça o “caráter irresponsável e o desespero” do atual governo. “O crescimento pífio da economia brasileira, a perda de produtividade e de competitividade não são culpa da legislação ambiental do país. Este tipo de ato, em desrespeito às leis e ao Congresso Nacional, só mostra que o que temos hoje é uma gestão criminosa do meio ambiente”, disse.

Frente Parlamentar recém-lançada conta com o apoio do MBC e da Confederação Nacional da Indústria

O MBC atua como secretário-executivo da “Frente Parlamentar Pelo Brasil Competitivo”, lançada em julho, presidida pelo deputado federal Alexis Fonteyne (Novo/SP) e composta por mais de 200 parlamentares, entre senadores e deputados.

O objetivo declarado da Frente é “trabalhar para reduzir o Custo Brasil”. O meio ambiente, pelo visto, é considerado um inimigo do país.

A agenda legislativa para reduzir o que eles consideram esse custo foi lançada em 01 de setembro com a presença de Paulo Guedes. O ministro da Economia, um dos fundadores do BTG Pactual, acusado e inocentado de fraudar fundos de pensão e que atuou no Chile durante a ditadura de Pinochet, celebrou a formação da Frente e elogiou o “reformismo” do Congresso.

Essa é a mesma agenda ultraliberal da Escola de Chicago, “alma mater” de Guedes e que pautou a destruição da economia chilena durante a ditadura, incluindo a privatização de serviços essenciais e a previdência miserável que legou à população do Chile. Herança que o país tenta até hoje, às duras penas, superar.

O presidente do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo, Jorge Gerdau, se disse “extremamente otimista” com o atual momento e com o lançamento da Agenda Legislativa da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo.

“Estamos com essas três estruturas – Poder Executivo, Legislativo e setor empresarial, com o apoio da CNI – realmente engajadas no sentido de atingir os nossos objetivos de redução do Custo Brasil”, frisou o empresário. Teoricamente, o objetivo desse grupo de empresários, segundo os seus critérios, é reduzir esse custo a “zero”.

O lucro líquido da Gerdau no primeiro trimestre de 2021 aumentou incríveis 1.016% no primeiro trimestre de 2021, na comparação com o mesmo período de 2020, chegando a R$ 2,4 bilhões.

O deputado Alexys Fonteyne (Novo/SP), presidente da Frente, é sócio da Solepoxy e da Propiso, que produzem e comercializam resinas, revestimentos, areias e outros produtos que usam massivos insumos da mineração em sua cadeia e atendem a uma vasta gama de indústrias.

“A estrutura e o apoio do MBC, assim como o estudo do custo Brasil, vão servir para nortear ações em favor do Brasil mais produtivo e competitivo que queremos!”, disse Fonteyne no lançamento da Frente Parlamentar, feita na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Fonteyne declarou patrimônio de R$ 28,8 milhões ao TSE em 2018. Segundo o deputado, a Frente é uma “ferramenta propositiva e de advocacy” para pressionar por propostas que melhorem “o ambiente de negócios no Brasil”.

Além de Fonteyne, participam da frente muitos deputados do Novo e do PSL, ruralistas como Jerônimo Goergen e Alceu Moreira e senadores como Antonio Anastasia, Eduardo Girão, Jorginho Mello, Luiz Carlos Heinze, Oriovisto Guimarães, Lasier Martins, Marcelo Castro e Zequinha Marinho.

E este não é o primeiro movimento de Paulo Guedes contra o licenciamento. Em março, decreto publicado por Jair Bolsonaro, Guedes e Bento Albuquerque, de Minas e Energia, define que minerais considerados estratégicos ganharão tratamento especial no governo.

Estes minerais agora estão inseridos dentro do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e serão analisados por um Comitê que não terá a opinião do Ministério do Meio Ambiente nem de qualquer Conselho ambiental ou de representantes da sociedade civil.

Embora o licenciamento fique restrito aos órgãos competentes – como o Ibama – o Comitê dará opiniões sobre o processo, acelerando a aprovação.

Em nota enviada na sexta, MBC diz que não participou da “elaboração ou debate das proposições citadas em ofício do Ministério da Economia“

Eu procurei o MBC, o Ministério da Economia e o MMA para apurar quais critérios técnicos e quais justificativas e análises foram usadas para sugerir o pacote de medidas. As instituições não responderam até a publicação desse texto.

Atualização: diante da ausência de resposta do MBC, Economia e Meio Ambiente, procurei algumas das empresas citadas para verificar o posicionamento diante das medidas. Por enquanto, apenas o Google respondeu afirmando que “não tem nada a comentar” e que quem deve responder é mesmo o MBC.

A assessoria da SAP, mencionando o MBC, enviou o seguinte posicionamento do Movimento Brasil Competitivo às 16:52h desta sexta-feira:

“São inverídicas informações que têm circulado em alguns veículos de imprensa, desde a última quarta-feira, 22, sobre o posicionamento do Movimento Brasil Competitivo sobre a questão ambiental no país. Nos últimos 20 anos, o MBC tem defendido a competitividade brasileira baseada na economia sustentável, com foco nos pilares de governança e gestão, redução do Custo Brasil, transformação digital e educação. Diante disso, o MBC esclarece que realizou em 2019, um projeto de diagnóstico do Custo Brasil em parceria com o Ministério da Economia com o objetivo de medir os entraves em diversas áreas. Neste estudo, não constam propostas de iniciativas, somente indicadores e comparativos com a OCDE. Numa segunda etapa, o MBC apoiou o Ministério da Economia, de forma técnica, no mapeamento das iniciativas já existentes ou em desenvolvimento no governo federal que poderiam contribuir com a redução do Custo Brasil, sem entrar no mérito ou defesa de tais propostas. Não participamos da elaboração ou debate das proposições citadas em ofício do Ministério da Economia. Diante disso, reiteramos nossa posição em defesa de uma política nacional de sustentabilidade social, ambiental e econômica.”

Foto de destaque: Paulo Guedes recebe homenagem do Instituto MicroPower com a presença de Jorge Gerdau.

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Este texto foi originalmente publicado pelo “Observatório da Mineração” [Aqui! ].

A extração madeireira penetra no núcleo intocado da região amazônica brasileira

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, 464.000 hectares foram desmatados. A degradação progressiva da floresta é outro problema que até agora tem sido negligenciado

madeira mtO estado de Mato Grosso respondeu por mais da metade da extração de madeira amazônica. FONTE: ICV

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

De acordo com um novo estudo baseado em satélite da rede Simex , a extração ilegal de madeira nas áreas periféricas está penetrando cada vez mais fundo na zona central da floresta amazônica. Uma aliança das quatro organizações ambientais brasileiras sem fins lucrativos Imazon, Imaflora, Idesam e Instituto Centro de Vida (ICV) documentou a extração de madeira em quase todas as partes da Amazônia pela primeira vez. Para tanto, foram mapeados sete dos nove estados brasileiros (Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima) , dos quais, juntos, vem quase 100% da produção de madeira da floresta tropical.

O mapeamento baseado no rastreamento das árvores derrubadas mostra a extensão da destruição da floresta: entre agosto de 2019 e julho de 2020, 464 mil hectares foram desmatados, uma área três vezes maior que a da metrópole de 21 milhões de habitantes de São Paulo. Mais da metade (50,8%) da exploração madeireira estava no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas (15,3%) e Rondônia (15%), dos quais a maior parte (78%) era de propriedade privada.

A extração de madeira em reservas indígenas (24.866 hectares) e reservas naturais (28.112 hectares) é, de acordo com o estudo do Simex, totalmente ilegal porque é proibida.

Segundo Vinicius Silgueiro, coordenador de monitoramento territorial do ICV de Mato Grosso, quase não existem controles e sanções estaduais para as inúmeras violações. As licenças legais são freqüentemente usadas para disfarçar a extração de madeira em áreas restritas, também conhecidas como “lavagem de árvores”. Segundo Marco Lentini, coordenador-chefe do projeto do Imaflora, o avanço da agricultura industrial do chamado ‘arco do desmatamento’ para o seio da Amazônia deve ser interrompido com urgência. Quanto mais licenças as autoridades emitem para o desenvolvimento da floresta, mais madeira ilegal existe.

O cartão Simex também inclui áreas onde, em março de 2021, a Polícia Federal apreendeu 226 mil metros cúbicos de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará, a maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil. Esta ação foi o gatilho para a demissão do controverso ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em junho, depois que ele havia exigido uma liberação impune da madeira confiscada.

Já em 2018, o estudo do Greenpeace “Árvores imaginárias, destruição real” destacou a falta de confiabilidade dos sistemas de licença e controle florestal brasileiro, que são suscetíveis a fraudes. Como resultado, há uma deficiência crucial na fraqueza do processo de aprovação de planos de manejo florestal sustentável, antes do qual nenhuma inspeção de campo ou apenas inspeções de campo de baixa qualidade são normalmente realizadas. Os estoques de madeira seriam superestimados ou árvores inexistentes com alto valor comercial seriam incluídas no inventário florestal da área.

De acordo com o Greenpeace, as autoridades estaduais emitiram licenças para a colheita e transporte dessa madeira valiosa inexistente, que na verdade é derrubada ilegalmente em outras áreas em terras indígenas, em áreas protegidas ou em terras públicas.

De acordo com um estudo mais detalhado do Imazon , mais da metade da exploração madeireira no estado do Pará não tinha licença das autoridades ambientais – 20% a mais que no ano anterior. Na maioria dos estados, é quase impossível verificar se é ilegal devido à falta de transparência ou barreiras tecnológicas. Em muitos casos, segundo o ICV, os certificados das atividades florestais legais são apresentados em papel, o que dificulta a correspondência dos dados com as imagens de satélite. Apenas Pará e Mato Grosso já digitalizaram bancos de dados.

Além do desmatamento bem documentado da Amazônia, a degradação contínua das florestas é um grande problema que até agora foi negligenciado e tem efeitos de longo alcance sobre a biodiversidade e o sequestro de carbono. Por exemplo, um estudo científico publicado recentemente na Science pela primeira vez mapeou a degradação de longo prazo para toda a região amazônica brasileira e registrou as causas. Como resultado, no período de 1992 a 2014, a área total afetada foi de 337.427 Km2, em comparação com 308.311 Kmdo desmatamento total. Isso significa que a área destruída pela degradação florestal agora é maior do que pelo desmatamento.

Segundo Silgueiro, a extração legal e ilegal persiste em uma proporção em torno de 60:40. Quanto mais licenças as autoridades emitem para o desenvolvimento da floresta, mais madeira ilegal existe. A fraude de registro só vai parar quando o volume de registro real for estimado e cada árvore for rastreada. Segundo o coordenador do ICV, as tecnologias disponíveis só estão sendo implantadas aos poucos pelos países produtores.

A floresta amazônica é um fator estabilizador decisivo para o clima global e armazena grandes quantidades de gases de efeito estufa. Preservá-lo é fundamental para o combate ao aquecimento global.

Há muito tempo, especialistas e organizações ambientais vêm alertando que a destruição da Amazônia terá consequências catastróficas para o clima global: vários estudos recentes de cientistas brasileiros publicados pelo Projeto de Monitoramento da Amazônia (MAAP) e um publicado na revista Nature mostra que, como resultado do corte e queima, desmatamento e mudança climática, a área passou de um sumidouro de carbono a uma fonte líquida de dióxido de carbono. Uma grande parte da floresta tropical já está emitindo mais gases de efeito estufa na atmosfera terrestre do que absorve novamente.

Os pesquisadores suspeitam que esse desenvolvimento ainda pode ser interrompido no momento se a destruição da floresta tropical for interrompida imediatamente e tudo for feito globalmente para deter o aquecimento global.

Como parceira comercial do Brasil, a Alemanha também é responsável pela compra de grandes quantidades de produtos da destruição da selva, especialmente soja como ração animal para a pecuária local. Mais de 450 organizações da sociedade civil pedem um protesto contra o acordo de livre comércio entre a UE e a aliança econômica Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai), que o governo alemão está promovendo fortemente e que agravaria ainda mais a sobreexploração da Amazonas.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Anistia Internacional Brasil aponta perda de direitos ao longo dos 1000 dias do governo Bolsonaro

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Brasileiros e brasileiras perderam direitos e sentiram os impactos diariamente ao longo dos 1000 dias de governo do presidente Jair Bolsonaro, aponta a Anistia Internacional Brasil. O documento “1000 dias sem direitos – As violações do governo Bolsonaro” lançado nesta sexta-feira, 24 de setembro. Ao todo foram catalogadas 32 situações que levaram a violações de direitos humanos desde a posse de Bolsonaro. E muitos delas permanecem sem solução e sem uma justa reparação. O número diz respeito às campanhas, ações urgentes e reativos produzidos pela equipe da Anistia Internacional Brasil desde 01 de janeiro de 2019 até o momento.

O governo federal descumpre seu papel de garantir e facilitar acesso aos direitos humanos fundamentais como a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a moradia.

“Reunimos as ações da Anistia Internacional Brasil ao longo desses 1000 dias de governo Bolsonaro e concluímos que são 1000 dias sem direitos que brasileiros e brasileiras estão vivendo. As pessoas estão sentindo no bolso, no prato, na pele e no corpo as perdas dos seus direitos mais fundamentais”, explica Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

“O Brasil vive um momento preocupante, agravado pela pandemia da COVID-19, mas não só. Indígenas, populações tradicionais, quilombolas, moradores e moradoras das favelas e periferias foram deixados de lado pela omissão do presidente Jair Bolsonaro e seus ministros em fazer um governo para todos e todas. O Brasil é muito maior que o cercadinho do Palácio do Planalto”, completa Jurema.

O documento sinaliza que diversas vezes o governo de Jair Bolsonaro descumpriu seu dever de garantir direitos e qualidade de vida para população brasileira.

A conduta negacionista e irresponsável, omissão, falta de transparência de dados, troca de ministros da saúde, falta de assistência adequada aos profissionais de saúde foram algumas das denúncias que a Anistia Internacional Brasil catalogou a partir de março de 2020, sobre a pandemia da COVID-19 na gestão do presidente Jair Bolsonaro.

“Na pandemia da COVID-19 milhares de mortes poderiam ter sido evitadas e as mais chocantes desigualdades e injustiças que fazem parte da história do Brasil poderiam ter sido enfrentadas. Brasileiros e brasileiras hoje passam fome, estão desempregados, desemparados pelas autoridades públicas e é a sociedade civil organizada quem segue dando respostas contundentes para o enfrentamento dessa crise sanitária. Os responsáveis pelas condutas inadequadas na gestão da pandemia até aqui devem ser processados judicialmente e devidamente responsabilizados”, afirma Jurema Werneck.

O declarado afrouxamento no controle de armas no Brasil também é lembrado pela análise da Anistia Internacional Brasil que ainda em 2019 já sinalizava que os discursos eleitorais do candidato Jair Bolsonaro, se tornariam prática recorrente do presidente eleito. O tema da segurança pública é uma das preocupações da Anistia Internacional Brasil e houve inúmeros retrocessos na garantia da proteção de brasileiros e brasileiras e do direito à vida. Pelo contrário, há uma crescente flexibilização do porte e acesso a armas de fogo, mesmo sendo o Brasil um dos países que mais mata com armas de fogo no mundo.

“Armas não salvam vidas. Para Anistia Internacional Brasil segurança pública é também agir para que outros tantos direitos sejam garantidos. O que inclui um plano nacional de redução de homicídios e de homicídios cometidos pelas polícias em serviço, sobretudo os que atingem jovens negros de favelas e periferias. Já perdemos João Pedro, Ágatha Félix, Mizael Fernandes da Silva, Kethlen Romeu e tantas outras vidas para uma política de guerra e morte que há mais de 30 anos não resolve o problema”, explica Jurema.

Autoritarismo, intimidação e agressões verbais constantes deram o tom da relação do presidente Jair Bolsonaro com a imprensa. A restrição ao amplo debate, diminuição do espaço cívico e as ameaças ao estado de direito em discursos de convocação de atos públicos também foram apontados como graves perdas de direitos de brasileiros e brasileiras. E a prometida perseguição às organizações não governamentais, ainda na campanha eleitoral, tornou-se prática com a denúncia veiculada na imprensa de que agentes da Abin monitoraram a participação de ONGs e movimentos sociais na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP25), em 2019, em Madrid.

“Perseguir e monitorar opositores ou críticos ao governo são práticas do período sombrio do Regime Militar. Todos e todas têm o direito de construir uma sociedade mais justa e em prol do interesse público, com acesso à informação, participação ampla de ideias e valorização da diversidade que está em cada brasileiro e brasileira”, aponta Jurema.

Quase 600 mil vidas perdidas para a COVID-19, mais de 14 milhões de desempregados, cerca de 19 milhões de brasileiros passando fome, indígenas, quilombolas e populações tradicionais sendo perseguidos e perdendo suas terras para grileiros, madeireiros e garimpeiros… A lista de dados e fatos do Brasil do governo de Jair Bolsonaro revela que serão alcançados 1000 dias de direitos atacados.

“É dever e responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro e de seu governo garantir direitos humanos para todos e todas. Brasileiros e brasileiras estão neste momento perdendo suas vidas ou sofrendo na pele a má gestão e omissão que atinge o país nestes últimos 1000 dias”, afirma Jurema.

Aproveitando pandemia, CBA faz audiências virtut para aprovar extração “sustentável” de bauxita na Zona da Mata

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Mesmo antes da aprovação da famigerada lei dodeslicenciamento ambientalenviado pelo governo Bolsonaro ao congresso nacional, corporações que lucram com a destruição do patrimônio ambiental brasileiro se movimentam para aprovar empreendimentos que são caracterizados por gerar um amplo leque de ações destrutivas contra o meio ambiente e as populações que produzem e se reproduzem em verdadeiros santuários ecológicos.

Um caso exemplar é a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) que está lançando mão do artifício de realizar audiências públicas virtuais para aprovar um autodenominado projeto de extração sustentável da bauxita (sic!) que abrangerá cinco municípios da Zona Mata Mineira (ver convocação abaixo).

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A ação da CBA está sendo vista com perplexidade por moradores da região afetada, principalmente por pessoas que vivem nas áreas rurais dos municípios abrangidos pelo referido projeto, na medida em que o acesso à rede mundial de computadores é limitada em pontos fora das zonas urbanas, o que é agravado pelas distâncias relativamente altas que os potenciais interessados. Para piorar a “audiência” prevista para o dia 07 de outubro ocorrerá na parte noturna, dificultando ainda mais a vida dos moradores de áreas rurais (que afinal são os principais afetados pela destruição ambiental que invariavelmente acompanha qualquer atividade de mineração).

Esse simulacro de participação popular claramente procura criar as condições políticas para a emissão de licenças ambientais, as quais permitirão a continuidade de atividades minerárias que nada têm de sustentáveis.

Ativistas apontam que Parque Estadual da Serra do Brigadeiro poderá ser o próximo alvo da CBA

Este blog já divulgou em momentos anteriores informações sobre as tensões existentes entre comunidades locais e a CBA (eu, aliás, fui alvo em 2017 de um processo movido pela empresa por causa das informações aqui postadas sobre conflitos ocorrendo na área de influência das suas atividades minerárias, mais precisamente no Distrito de Belisário, pertencente ao município de Muriaé) no entorno do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB), cujo entorno possui reservas consideráveis de bauxita (ver mapa abaixo).

Agora, fontes consultadas pelo blog mostraram preocupação com as ações da CBA em torno do seu projeto de extração “sustentável” de bauxita, na medida em que existem evidências de que há uma proposta para que se reduza a chamada “área de amortecimento” do PESB de 10 km para 3 km. Tal redução possibilitaria que a CBA também conduzisse suas atividades minerárias em uma região de alto valor ecológico, sendo também considerada uma grande berço de águas para os municípios sob sua influência.

Aliás, a simples visualização das áreas de mineração que a CBA pretende aprovar com o plano em questão afetam diversas unidades de conservação (ver mapa abaixo), o que coloca em xeque qualquer possibilidade de que haja qualquer chance de sustentabilidade, a não ser que se esteja falando de sustentar o processo de destruição ambiental que já ocorre em função da mineração da bauxita, com saldos paupérrimos para os municípios onde ela ocorre.

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Um futuro sustentável passa ao largo da mineração de bauxita

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Seja qual for o resultado dessa “audiência” virtual que será promovida pela CBA para levar à frente o licenciamento do seu inverossímil projeto de extração “sustentável” de bauxita, o certo é que os habitantes da região já demonstraram serem capazes de desenvolver sistemas produtivos que são bem mais rentáveis do que a mineração, mas também ecologicamente sustentáveis. Além disso, o desenvolvimento de um movimento endógeno voltado para a defesa do patrimônio hídrico que é protegido pelas unidades de conservação existentes, principalmente pelo PSB, é  uma garantia de que as ações da CBA não passarão em branco.

E uma coisa é certa: não será com extração de bauxita que se chegará a um futuro que seja social e ambientalmente sustentável.

Monoculturas (de árvores) não beneficiam a biodiversidade, o meio ambiente nem a população local

monoculturas árvores indiaAs monoculturas dificilmente criam espaços para a biodiversidade. Foto: viagem alamy / srijanrc

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Organizações de proteção ambiental e direitos humanos, como o World Rainforest Movement e a Global Forest Coalition, vêm fazendo campanha há décadas contra o florestamento em grande escala com monoculturas, porque isso geralmente leva ao deslocamento de terras e danos ambientais, como a perda de espécies. Um novo estudo feito por uma equipe internacional de cientistas de doze pessoas, publicado pouco antes do Dia Internacional Contra as Plantações de Árvores em 21 de setembro, agora está dando a eles um vento de favor.

O artigo de pesquisa “Efeitos limitados do plantio de árvores na cobertura das copas das florestas e meios de subsistência rurais no norte da Índia”, publicado em 13 de setembro na Nature Sustainability, examinou as consequências do florestamento estatal no distrito de Kangra de Himachal Pradesh, no norte da Índia. Usando dados de satélite, os doze cientistas de institutos de pesquisa nos EUA, Suécia e Índia mediram a cobertura do dossel na região antes e depois das medidas de reflorestamento. Por outro lado, eles entrevistaram a população local.

“Usamos uma combinação de sensoriamento remoto, pesquisas domiciliares e pesquisas extensas de solo para mapear mais de 400 plantações de árvores plantadas entre 1980 e 2017 e para avaliar as mudanças na cobertura da terra e os efeitos das plantações na subsistência de 2.400 famílias na região«, Explica co-autor do estudo Forrest Fleischman.

O estudo descobriu que o plantio de árvores em grande escala não aumentou a cobertura florestal nem contribuiu significativamente para o sustento da população local na região examinada. Em vez disso, a arborização apenas mudou a composição das árvores – das espécies de folhas largas, que são tradicionalmente usadas pela população local como forragem e como lenha, para variedades de coníferas menos úteis. As espécies de coníferas plantadas em Himachal Pradesh, principalmente Pinus roxburghii, são fáceis de cultivar, mas oferecem menos biodiversidade e meios de subsistência para a vida selvagem e a população local do que as árvores decíduas mistas.

“Depois de décadas de investimentos caros (por parte do governo indiano), não encontramos evidências de que os projetos de plantio de árvores no norte da Índia tivessem quaisquer benefícios significativos em termos de redução de CO2 ou suporte de subsistência”, escreveram os pesquisadores em seu estudo. “Nossa análise mostra que plantar árvores dessa forma é uma estratégia ineficaz para reduzir o CO2.”

Plantar árvores pode parecer uma medida simples para aumentar o armazenamento de carbono. Na prática, entretanto, o florestamento pode entrar em conflito com os usos da terra existentes, especialmente em paisagens agrícolas densamente povoadas. “Em geral, nosso estudo levanta sérias questões sobre os programas de plantio de árvores e reflorestamento da Índia. Kangra é, obviamente, um entre centenas de distritos na Índia, mas há razões para considerar este o melhor cenário para o plantio de árvores ”, escrevem os autores do estudo. A desapropriação de terras por meio de projetos de plantio de árvores, relatada em outras partes da Índia, não ocorreu na região de estudo. É por isso que os pesquisadores esperavam os projetos de reflorestamento mais bem-sucedidos aqui.

“Os tomadores de decisões políticas e proponentes das plantações de madeira não devem presumir que os programas de plantio de árvores irão efetivamente atingir seus objetivos de sequestro de carbono e meios de subsistência”, concluiu o estudo. Mais pesquisas são necessárias.

Isso não significa que as árvores geralmente não sejam um refúgio para a biodiversidade. Em vez disso, os estoques existentes devem ser preservados. O “Relatório sobre o Estado das Árvores do Mundo” recentemente apresentado pela organização guarda-chuva Botanic Gardens Conservation International mostra que das 58.497 espécies de árvores conhecidas mundialmente, 17.510 – cerca de 30%- estão gravemente ameaçadas de extinção. “Nos últimos 300 anos, a área florestal do mundo diminuiu cerca de 40%”, disse o relatório. A maioria das espécies de árvores está ameaçada pela perda de habitat e agricultura. 29% das plantas lenhosas estão ameaçadas pela conversão de terras para o cultivo de safras. Com o desmatamento para a produção de madeira, 27% das espécies de árvores podem desaparecer para sempre.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A caçada às revistas predatórias

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Por Bradley Allf, Austin American-Statesman

 AUSTIN, TEXAS – Como os Texas Rangers de antigamente que caçavam gangues de ladrões de gado e pistoleiros, outro grupo do Texas liderado por Kathleen Berryman caça outros tipos de criminosos: golpistas no oeste selvagem dos golpes de correio eletrônico.

Mas os golpistas que Berryman rastreou executam um esquema sofisticado que visa o único grupo de pessoas que você acha que conhece melhor: os cientistas.

O golpe é simples: crie um jornal acadêmico falso e incentive os cientistas a enviar seus artigos para ele. Quando o fazem, eles pedem aos investigadores que paguem centenas de dólares em taxas. Eles então arrecadam até US $ 150 milhões, segundo algumas estimativas (a maioria fornecida pelos contribuintes), não fazendo nada para o avanço da ciência e fazendo-o mal em vez disso.

E eles são verdadeiros bandidos: essas revistas foram consideradas culpadas de violar a legislação dos Estados Unidos. Em um caso, um juiz federal em 2019 ordenou que o editor de revistas Srinubabu Gedela e suas empresas (OMICS Group Inc, iMedPub LLC, Conference Series LLC) pagassem mais de US $ 50,1 milhões para resolver as alegações feitas pela Federal Trade Commission. Alegações enganosas para acadêmicos e pesquisadores sobre a natureza de suas palestras e publicações, e escondeu as altas taxas de publicação.

Berryman e sua pequena equipe de detectores de fraude na Cabells International, com sede em Beaumont, são algumas das únicas pessoas no mundo que fazem algo contra esses tubarões. Universidades, bibliotecas e cientistas individuais podem pagar a Cabells para ter acesso ao seu banco de dados de periódicos.

O banco de dados consiste em duas partes: uma metade é para análise dos periódicos reais (classificação dos mesmos, divisão em campos, como apresentar trabalhos aos diferentes periódicos e coisas assim), a outra metade são “relatórios de predadores”, lista de revistas que se revelaram falsas.

Eles estão vasculhando meticulosamente os perfis online de periódicos científicos para encontrar e localizar editores “predatórios”. Mas resta saber se seu trabalho frustra esse golpe multimilionário que, às vezes, semeou desinformação em grande escala.

É assim que o golpe funciona

Desde a segunda metade do século XX, o sistema de intercâmbio de conhecimento científico segue um roteiro estabelecido. Um cientista conduz um experimento, anota seus resultados e envia o documento a uma revista acadêmica como a  Nature  ou  The Lancet . Esses periódicos examinam o documento, encaminhando-o a alguns colegas do cientista. Este processo é conhecido como revisão por pares. Se o artigo for considerado adequado pelos colegas, será publicado no próximo número da revista junto com alguns outros estudos que também foram aprovados.

Mas nas últimas décadas, algo mudou.

“Em algum momento, os acadêmicos começaram a perceber que havia periódicos que não faziam o que afirmavam fazer”, explicou Berryman. “Eles afirmam fazer essa revisão por pares, mas ou não é feita ou é uma revisão por pares falsa, como um teatro de revisão por pares.”

Esses editores predatórios, muitos deles baseados em países asiáticos como China, Índia e Paquistão, se aproveitam do ego dos cientistas, enviando-lhes e-mails lisonjeiros e pedindo que submetam suas pesquisas ao periódico.

Quando um cientista concorda (às vezes porque está enganado, às vezes porque está apenas procurando uma maneira fácil de adicionar à sua história editorial), a “revista” publica online quase que imediatamente, muitas vezes sem nem mesmo ler o artigo. O periódico então pede uma alta taxa de publicações, algo com que os cientistas concordam porque estão acostumados a fazer esses pagamentos a periódicos legítimos.

“Essas taxas podem chegar a milhares de dólares e, então, eles publicam 100 ou mais artigos por ano”, disse Berryman. “Eles ganham muito dinheiro.”

Esse dinheiro geralmente vem de bolsas de pesquisa de cientistas de instituições com financiamento público, como a National Science Foundation ou o National Institutes of Health, o que significa que os contribuintes estão pagando a conta por essa fraude elaborada.

Este é um plano inteligente, pois a execução de um desses golpes requer pouco mais do que o custo de hospedagem de um site.

“Algumas dessas revistas predatórias são compostas por uma única pessoa por trás de um computador que as publica na web, então a sobrecarga é quase nula”, diz Berryman.

Até agora, Cabells encontrou cerca de 15.000 periódicos científicos fraudulentos, e o número está crescendo a cada dia.

Mais do que roubar dinheiro

Mas, ao contrário de um golpe normal por e-mail, os golpistas de revistas predatórias fazem mais do que simplesmente roubar o dinheiro das pessoas. Eles também podem contribuir para uma forma particularmente ruim de desinformação.

“Se os artigos não estão sendo revisados ​​por pares, não sabemos ao certo se esta é uma boa pesquisa”, disse Berryman. “Um artigo que vem à mente diz que o 5G causa COVID-19, como um crescimento espontâneo da COVID-19 no corpo.”

Esse artigo absurdo foi publicado em uma revista predatória e seus resultados foram compartilhados milhares de vezes nas redes sociais e até chegaram ao site de teoria da conspiração Infowars, de Austin.

Se um grupo quer espalhar desinformação, as revistas predatórias permitem que qualquer um lave a desinformação por meio de um moinho que transforma uma ideia rebuscada em um fato comprovado cientificamente, ou pelo menos em algo que se pareça com isso.

Para combater o problema da ciência falsa, o que Berryman faz por Cabells é separar o joio do trigo (as revistas “reais” dos impostores) examinando seu site em busca de sinais de práticas predatórias. Isso permite que cientistas e bibliotecas que assinam seus serviços saibam se um periódico é legítimo ou não.

“Somos como a polícia nas revistas”, diz ele.

No entanto, não são apenas Cabells que estão lutando contra esses golpistas. Os próprios cientistas fazem justiça com as próprias mãos e deliberadamente submetem artigos sem sentido a periódicos suspeitos de serem predatórios para mostrar que os periódicos não praticam a revisão por pares.

Josh Gunn, um professor de estudos de comunicação da Universidade do Texas, enviou um desses artigos ao Open Access Library Journal quando a revista o perseguia com e-mails. O artigo de Gunn foi escrito em um jargão acadêmico que parece convincente, mas é uma verdadeira garatuja.

Uma linha caracteristicamente opaca diz: “… incorporamos as periferias existenciais de nossa existência arquivística desmaterializada, como a demanda utópica tautológica do Papa ‘no’ Twitter.”

Apesar dos erros óbvios, a revista publicou rapidamente o artigo. Gunn repetiu a manobra um ano depois com outra revista predatória. Após a publicação, ele foi convidado a enviar centenas de dólares via Western Union para algum lugar em Bangladesh, algo que ele se recusou a fazer.

Embora o artigo de Gunn pretendesse ser tolo, ele disse que outros artigos publicados nessas revistas “podem resultar em perda de vidas” se as pessoas aceitarem informações potencialmente incorretas como verdade.

“Fui convidado a publicar em revistas médicas”, disse Gunn, que tem doutorado em estudos retóricos. “Não tenho absolutamente nenhuma experiência nessas áreas. Se eu escrevesse algo para esses campos, ficaria preocupado se alguém levasse isso a sério. “

Berryman concordou.

“É muito perigoso”, disse ele. “Se os artigos não são revisados ​​por pares, não sabemos ao certo se é uma boa pesquisa, se foi feita corretamente.”

Berryman confirmou que o “Open Access Library Journal” estava em seu banco de dados de periódicos predatórios por violar vários de seus 74 indicadores diferentes que sugerem que um periódico é predatório, incluindo reter informações sobre sua empresa-mãe e publicar artigos do mesmo autor repetidamente .

“O lixo que as revistas publicam é inacreditável”, disse ele.

Embora não seja comum que um artigo de revista predatória seja amplamente compartilhado online, isso acontece. Berryman diz que verificar quem está associado a uma publicação específica pode ajudar a descobrir uma revista predatória. Visto que cientistas de verdade não querem ter nada a ver com essas publicações, os periódicos costumam ser membros de seus conselhos editoriais ou usam cientistas que não estão mais vivos.

“Certa vez, encontramos ‘Yosemite Sam’, que é um ‘professor de Yale’, em um conselho editorial. Foi muito divertido ”, diz Berryman.

No entanto, separar o bom do mau – as revistas duvidosas das legítimas – requer prática, e é aí que Berryman e sua equipe entram em jogo. O trabalho proporciona uma certa satisfação romântica em um mundo que raramente é tão simples.

“Eu amo meu trabalho. E me faz sentir que estou ajudando a melhorar a pesquisa ”, diz Berryman. “Talvez se eu puder alertar as pessoas para não enviarem artigos para revistas predatórias, então não haverá tanto lixo por aí.”

Para levar em consideração

Cabells oferece uma lista de sinais que podem ser sinais de alerta de uma fonte de informação que não é confiável.

  • O periódico afirma falsamente ter sido incluído em qualquer serviço de indexação de periódicos acadêmicos ou banco de dados de citações, como Cabells, Scopus, Journal Citation Reports, DOAJ, etc.
  • O conselho editorial contém nomes falsos ou com credenciais / afiliações fabricadas ou falsificadas.
  • Os membros do conselho editorial desconhecem sua posição no conselho editorial da revista.
  • A revista promete publicação muito rápida ou revisão por pares extraordinariamente rápida (por exemplo, publicação em menos de quatro semanas a partir do despacho).
  • Não existe uma política de revisão por pares ou a política de revisão por pares não define claramente quem analisa as submissões, quantos revisores leem cada uma delas e os possíveis resultados do processo de revisão por pares.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo Austin American Statesman [Aqui!].