O veneno escorre pelo rio: 25 agrotóxicos são encontrados nas águas do Tietê

A contaminação de um dos principais rios brasileiros revela que os agrotóxicos não permanecem nas lavouras, circulam pelos territórios e expõem os limites do monitoramento da qualidade da água no Brasil

A reportagem publicada pela Globo Rural, na seção Um Só Planeta, sobre a presença de traços de 25 agrotóxicos nas águas do Rio Tietê deveria provocar uma discussão muito mais ampla do que aquela normalmente reservada à poluição de um dos rios mais importantes do Brasil. Afinal, durante décadas, o Tietê tornou-se símbolo quase exclusivo dos efeitos do crescimento urbano desordenado, do lançamento de esgoto sem tratamento e da poluição industrial. Os resultados agora apresentados mostram que essa interpretação, embora continue válida, tornou-se insuficiente.

O estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com instituições de pesquisa, percorreu mais de 1.100 quilômetros do Tietê, entre a nascente, em Salesópolis, e a foz, no Rio Paraná, e chegou a uma conclusão alarmante: não existe mais nenhum trecho do rio plenamente livre de contaminação. Entre os diversos poluentes identificados estão microplásticos, resíduos de medicamentos e outras substâncias associadas às atividades humanas. Mas a detecção de 25 tipos de agrotóxicos acrescenta uma dimensão especialmente preocupante ao problema, pois revela que a degradação do Tietê não pode ser compreendida apenas a partir das grandes cidades que cresceram às suas margens.

A presença desses compostos nas águas evidencia a conexão entre o modelo agrícola dominante e a contaminação dos sistemas hídricos. Os agrotóxicos aplicados nas lavouras não permanecem confinados às propriedades rurais nem desaparecem depois de cumprir a função para a qual foram comercializados. Parte dessas substâncias pode alcançar córregos, rios e reservatórios por meio do escoamento superficial, da erosão do solo, da deriva durante as pulverizações e da circulação da água através das diferentes partes da bacia hidrográfica. O resultado é uma contaminação difusa, espacialmente extensa e muito mais difícil de controlar do que aquela proveniente de uma fonte única e facilmente identificável.

É justamente esse caráter difuso que torna o problema tão grave. Quando um cano lança efluentes diretamente em um rio, existe uma fonte de poluição que, ao menos em princípio, pode ser localizada, fiscalizada e interrompida. No caso dos agrotóxicos, a contaminação pode resultar da combinação de milhares de aplicações realizadas em diferentes propriedades e momentos. Cada ocorrência pode parecer isolada, mas o conjunto produz uma carga química que se desloca pela bacia hidrográfica e rompe os limites artificiais entre o rural e o urbano.

A descoberta também expõe uma das grandes fragilidades do debate brasileiro sobre os agrotóxicos. A discussão pública costuma se concentrar na quantidade de resíduos encontrada nos alimentos, como se a exposição humana e ambiental terminasse naquilo que chega ao prato. Mas os agrotóxicos circulam pelo solo, pela água e pelo ar. Quando 25 substâncias diferentes são detectadas em um rio da dimensão e da importância do Tietê, a questão deixa de ser apenas quanto de cada composto foi encontrado individualmente e passa a envolver também os efeitos de uma exposição simultânea a múltiplas substâncias.

Esse aspecto merece especial atenção porque os sistemas regulatórios continuam amplamente organizados em torno da avaliação individual de cada ingrediente ativo. Os ecossistemas e as populações, entretanto, não entram em contato com substâncias isoladas em condições controladas de laboratório. A exposição real ocorre por meio de misturas químicas, ao longo do tempo e por diferentes vias. A presença simultânea de numerosos agrotóxicos em um mesmo sistema hídrico deveria, portanto, acender um alerta sobre os limites de uma regulação que frequentemente analisa cada molécula separadamente, enquanto a realidade ambiental produz combinações muito mais complexas.

Há ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O Brasil segue sustentando um modelo agrícola fortemente dependente de insumos químicos, ao mesmo tempo em que o monitoramento da presença de agrotóxicos nas águas permanece insuficiente diante da escala do problema. Quanto mais se amplia o número de substâncias autorizadas e utilizadas, maior se torna a necessidade de sistemas permanentes e territorialmente abrangentes de acompanhamento da qualidade da água. Sem isso, corremos o risco de conhecer a dimensão da contaminação apenas quando pesquisas pontuais decidem procurar aquilo que o monitoramento oficial não acompanha de forma adequada.

O que o Tietê nos mostra, portanto, é que a contaminação por agrotóxicos não constitui um problema restrito às lavouras ou às populações rurais diretamente expostas. Ela integra uma crise ambiental mais ampla, na qual as substâncias utilizadas para sustentar determinados padrões de produção agrícola circulam pelos territórios e alcançam sistemas hídricos dos quais dependem cidades, comunidades, atividades econômicas e ecossistemas inteiros.

A presença de 25 agrotóxicos no Rio Tietê deveria servir como um poderoso sinal de alerta. Se um dos rios mais monitorados e simbolicamente importantes do país apresenta essa diversidade de contaminantes, é inevitável perguntar o que está acontecendo em milhares de rios, córregos e reservatórios onde praticamente ninguém procura por essas substâncias. Talvez o aspecto mais inquietante da descoberta não seja apenas aquilo que foi encontrado no Tietê, mas tudo aquilo que ainda permanece invisível porque simplesmente não está sendo procurado.

O outro jogo da Noruega na Amazônia

Foto:  Pedrosa Neto

Por Ismael MachaDo*

A eliminação do Brasil diante da Noruega ficará registrada como mais um capítulo das surpresas (dessa feita não tão surpresa assim) que só o futebol é capaz de produzir. Noventa minutos, um placar a ser ruminado, discutido, debatido profundamente, uma despedida precoce dos gramados estadunidenses. Mas, para quem vive na Amazônia, especialmente em Barcarena, a Noruega representa uma peleja muito mais antiga e muito mais difícil de reverter o placar adverso.

No futebol, adversários se enfrentam sob as mesmas regras. Na economia global, as disputas obedecem a outra lógica. E essa lógica é perversa. Muitas vezes silenciosa, em outras, estridente.

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a seleção em campo, poucos lembravam (ou sabem) que o Estado norueguês é o principal acionista da empresa Norsk Hydro, por meio do governo da Noruega. Não, não estou aqui escrevendo bobagens do tipo ‘o futebol aliena e coisas mais importantes estão acontecendo’. Não é nada disso. apenas estou tentando contar outra história também relevante. Sigamos. A companhia controla, em Barcarena, um dos maiores complexos industriais de produção de alumina e alumínio do mundo, formado principalmente pela refinaria Alunorte e pela fábrica Albras. A refinaria tem capacidade para produzir mais de 6 milhões de toneladas de alumina por ano, matéria-prima essencial para a fabricação do alumínio, abastecendo cadeias produtivas espalhadas por diversos continentes.

O alumínio que sai de Barcarena está presente em automóveis, aviões, embalagens, equipamentos eletrônicos, painéis solares e turbinas eólicas. Em outras palavras, uma parte da chamada economia verde (e não ‘verde’) mundial passa inevitavelmente pela exploração mineral da Amazônia.

O paradoxo é evidente. Internacionalmente, a Noruega construiu a imagem de uma potência ambiental. Tornou-se o maior financiador do Fundo Amazônia, destinando cerca de R$ 3,4 bilhões ao mecanismo desde sua criação, como parte de sua política de combate ao desmatamento e às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, por intermédio de uma empresa da qual é o principal acionista, mantém um dos maiores empreendimentos minerometalúrgicos da região amazônica.

Não há ilegalidade nessa condição. O que existe é uma contradição política e ética que merece ser debatida. O mesmo Estado que financia a conservação da floresta também participa economicamente de uma atividade industrial que produz impactos ambientais significativos sobre essa mesma Amazônia.

Barcarena tornou-se um dos símbolos dessa tensão. Desde 1977, quando as primeiras famílias começaram a ser ‘visitadas’ em suas casas, sendo alertadas de que viriam futuros empreendimentos, passando pela década de 1980, quando o complexo industrial começou a ser implantado, o município experimentou crescimento econômico acelerado, mas também sucessivos conflitos fundiários, deslocamentos de comunidades tradicionais, pressão sobre rios, igarapés e áreas de uso coletivo.

A instalação de refinarias de alumina, terminais portuários e grandes obras de infraestrutura modificou profundamente o território. Ao mesmo tempo em que a região passou a ocupar posição estratégica na exportação de minérios e outras commodities, comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e agricultores familiares passaram a conviver com mudanças drásticas em seu modo de vida.

A expansão industrial trouxe consigo processos de desapropriação, redução de áreas tradicionalmente ocupadas, pressão sobre os recursos naturais e alterações na dinâmica dos rios, fundamentais para a pesca, o transporte e a subsistência das populações locais. Ao longo dos anos, moradores denunciaram dificuldades crescentes para manter atividades tradicionais, além do aumento dos conflitos fundiários e da insegurança em relação aos seus territórios.

Barcarena também se tornou conhecida nacionalmente por sucessivos acidentes ambientais. Vazamentos de resíduos industriais, denúncias de contaminação de rios e igarapés e questionamentos sobre a segurança das operações reforçaram a percepção de que os custos ambientais do desenvolvimento recaíam, sobretudo, sobre as comunidades mais vulneráveis. Diversas investigações conduzidas por órgãos públicos, universidades e organizações da sociedade civil apontaram a necessidade de fortalecer os mecanismos de fiscalização e de ampliar a participação das populações atingidas nos processos de licenciamento.

O episódio mais emblemático ocorreu em 2018. Após fortes chuvas, moradores denunciaram o transbordamento de bacias e o lançamento irregular de efluentes. Estudos produzidos por órgãos públicos identificaram alterações na qualidade da água em diferentes pontos do município. A empresa contestou parte das conclusões, afirmou que seus sistemas eram seguros e celebrou posteriormente acordos com autoridades ambientais e o Ministério Público para ampliar investimentos, monitoramento e programas de compensação. Ainda assim, o episódio permanece como uma referência do conflito entre desenvolvimento industrial e direitos socioambientais.

Os números ajudam a compreender a dimensão dessa relação. A mineração responde por parcela expressiva das exportações do Pará, e Barcarena figura entre os maiores municípios exportadores do Brasil. Bilhões de dólares deixam anualmente seus portos na forma de alumina, alumínio e outros produtos minerais. Um levantamento recente mostra que pelo menos 36% do minério exportado pelo Brasil sai do Pará. Entretanto, comunidades quilombolas, ribeirinhas e agricultores familiares continuam reivindicando acesso à água de qualidade, segurança ambiental, regularização de seus territórios e participação efetiva nas decisões que afetam suas vidas.

Já há algum tempo, como repórter, acompanho essas histórias. Desde 2009, pelo menos, quando visitei a comunidade de Burajuba a primeira vez até esses dias atuais, quando estou envolvido em uma edição especial para uma Organização Não Governamental sobre a situação dessas comunidades e sua luta pelo território.

Essa é talvez a maior contradição da relação entre Noruega e Amazônia. O país europeu tornou-se uma referência internacional na agenda climática, financiando projetos de conservação florestal e defendendo metas globais de redução de emissões. Porém, uma parte importante da riqueza administrada por seu Estado também depende da extração intensiva de recursos naturais em regiões ambientalmente sensíveis como a Amazônia.

Não se trata de demonizar a Noruega nem de ignorar os benefícios econômicos gerados pela atividade mineral. A mineração produz empregos, arrecada impostos, movimenta cadeias produtivas e possui papel estratégico para a transição energética mundial. Mas justamente por isso precisa ser permanentemente confrontada com perguntas que continuam sem resposta satisfatória. Quem suporta os custos ambientais dessa riqueza? Quem assume os riscos? Quem decide o destino dos territórios?

Por isso, talvez a maior derrota para a Noruega não tenha acontecido com os gols decisivos de Haaland. Ela vem sendo disputada há décadas, longe dos estádios, às margens dos rios de Barcarena. É uma partida cujo placar não se mede por quantidade de bolas na rede, mas pela qualidade da água, pela preservação das florestas, e sobrevivência dos territórios tradicionais, além da capacidade de transformar o desenvolvimento econômico em justiça ambiental.

No futebol, sempre haverá outra Copa, outras emoções, uma nova chance. Para a Amazônia, porém, algumas derrotas podem deixar marcas que atravessam gerações.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

BR-319: o caminho asfaltado para uma nova fronteira de devastação na Amazônia

O projeto de reconstrução da rodovia que liga Manaus a Porto Velho expõe as contradições entre a retórica climática do governo Lula e a abertura de uma nova fronteira extrativa no coração da Amazônia

Uma extensa e importante reportagem publicada pela jornalista Monica Piccinini no site independente YourVoiz lança luz sobre um dos projetos de infraestrutura mais controversos atualmente em discussão no Brasil: a reconstrução e pavimentação da BR-319, rodovia de aproximadamente 885 quilômetros que liga Manaus a Porto Velho e atravessa uma das áreas mais preservadas da floresta amazônica.

O mérito da reportagem está em não tratar a BR-319 como uma simples obra de engenharia. Esse talvez seja, aliás, o principal equívoco de boa parte do debate público sobre a rodovia. Uma estrada na Amazônia nunca é apenas uma faixa de asfalto ligando dois pontos no mapa. Ela altera o valor da terra, cria acessos onde antes existiam barreiras geográficas, reduz custos para atividades econômicas e abre caminho para uma sucessão de processos que o Estado brasileiro historicamente demonstrou pouca capacidade — e muitas vezes pouca disposição — para controlar.

A experiência acumulada na Amazônia mostra que o asfalto costuma chegar acompanhado por estradas secundárias, desmatamento, exploração ilegal de madeira, grilagem de terras públicas, pecuária, mineração e especulação fundiária. Por isso, a pergunta decisiva não deveria ser apenas qual será o impacto direto da pavimentação da BR-319, mas quais processos econômicos, territoriais e políticos a existência de uma ligação rodoviária permanente poderá desencadear em uma das últimas grandes extensões contínuas de floresta tropical relativamente preservada do planeta.

Monica Piccinini lembra que a área de influência da rodovia alcança 42 unidades de conservação, 69 territórios indígenas e cerca de 18 mil indígenas. A dimensão do problema, portanto, ultrapassa em muito a faixa física ocupada pela estrada. O que está em jogo é a possibilidade de conectar o centro relativamente preservado da Amazônia à região conhecida como AMACRO, formada por áreas dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia e já convertida em uma das principais frentes de expansão do desmatamento na floresta.

Há um dado particularmente revelador apresentado na reportagem: o desmatamento no entorno da BR-319 cresceu aproximadamente 122% entre 2020 e 2022, mesmo sem que a pavimentação tivesse sido retomada. Isso demonstra que uma obra dessa natureza começa a produzir efeitos antes mesmo da chegada das máquinas. O anúncio político, a expectativa de valorização da terra e a perspectiva de novos acessos já movimentam grileiros, especuladores e diferentes interesses econômicos. Nesse sentido, uma promessa de infraestrutura pode funcionar, por si só, como um acontecimento territorial.

É justamente por isso que soa excessivamente otimista a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a BR-319 poderá se tornar a estrada “mais ambientalmente consciente” do mundo. O governo aposta na ideia de que sistemas de monitoramento, satélites, drones e novas tecnologias seriam capazes de impedir a repetição da história. O problema é que satélites detectam o desmatamento, mas não expulsam grileiros, não desmontam redes criminosas, não recuperam territórios invadidos e tampouco neutralizam os interesses econômicos e políticos que acompanham a abertura de novas fronteiras.

A questão central, portanto, não é tecnológica. É política e institucional. O Brasil já dispõe de alguns dos sistemas mais sofisticados do mundo para detectar a destruição da floresta. A dificuldade histórica sempre esteve em impedir que ela aconteça, responsabilizar seus autores e resistir às pressões daqueles que lucram com a transformação da floresta em terra, madeira, minério, petróleo, gás e pastagem.

A reportagem do YourVoiz acrescenta outra dimensão que torna o debate ainda mais grave. A BR-319 não aparece isolada no território. Ao seu redor, avançam ou são planejados projetos de mineração, exploração de petróleo e gás e novas conexões rodoviárias. A mina de potássio projetada em Autazes, com seus conflitos envolvendo o povo Mura, os novos investimentos da Petrobras no polo de Urucu e as perspectivas de exploração de hidrocarbonetos na Bacia do Solimões compõem um cenário mais amplo de transformação econômica da Amazônia central.

Vista sob essa perspectiva, a BR-319 deixa de ser apenas uma estrada destinada a reduzir o isolamento de Manaus e passa a funcionar como possível espinha dorsal de uma nova fronteira extrativa. A melhoria do acesso reduz custos logísticos, altera a viabilidade econômica de projetos antes considerados remotos e cria as condições materiais para que mineração, combustíveis fósseis e agronegócio avancem sobre áreas até agora protegidas, em grande medida, pela própria dificuldade de acesso.

Isso não significa ignorar as necessidades reais da população do Amazonas. A dependência do transporte fluvial, o alto custo dos alimentos, as dificuldades de acesso a serviços públicos e os efeitos das secas cada vez mais severas sobre a navegabilidade dos rios constituem problemas concretos. A questão é outra: será que a principal beneficiária da BR-319 será a população que enfrenta essas dificuldades ou os grandes interesses econômicos que já se posicionam para explorar uma nova fronteira?

A história brasileira recomenda cautela diante da ideia de que grandes projetos de infraestrutura construídos em nome do desenvolvimento regional beneficiam prioritariamente as populações locais. Com frequência, os custos permanecem no território enquanto os benefícios econômicos são apropriados por agentes externos. A floresta é derrubada, os conflitos fundiários se multiplicam, os povos indígenas e comunidades tradicionais perdem territórios e os lucros seguem outros caminhos.

A reportagem também chama atenção para uma dimensão ainda pouco discutida: os riscos para a saúde pública. A abertura de estradas em áreas de floresta preservada aumenta o contato entre seres humanos, animais domésticos e reservatórios silvestres de microrganismos. A fragmentação dos ecossistemas e a expansão da ocupação humana criam condições favoráveis para eventos de transbordamento zoonótico, além de alterar os ciclos de doenças como malária, dengue, leishmaniose e febre do Oropouche.

Essa dimensão deveria receber atenção especial depois da pandemia de Covid-19. A destruição de ecossistemas não representa apenas uma ameaça à biodiversidade ou ao clima. Ela também remove barreiras ecológicas construídas ao longo de milhares de anos e aumenta as oportunidades de contato entre populações humanas e agentes infecciosos ainda desconhecidos. A saúde da floresta e a saúde humana não constituem problemas separados.

Há ainda a questão dos direitos indígenas. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho garante aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito à consulta livre, prévia e informada diante de projetos capazes de afetar seus territórios e modos de vida. Entretanto, como mostra a reportagem, cresce a preocupação de que essas consultas se transformem em procedimentos burocráticos realizados depois que as decisões políticas fundamentais já foram tomadas. Consulta realizada após a decisão não é consulta; é tentativa de legitimação.

Tudo isso coloca o governo Lula diante de uma contradição que será cada vez mais difícil ocultar. O Brasil reconstruiu parte de sua credibilidade ambiental depois dos anos de devastação institucional do governo Bolsonaro e voltou a apresentar-se internacionalmente como liderança climática. Ao mesmo tempo, porém, o governo federal avança com um projeto que numerosos pesquisadores consideram capaz de abrir uma das últimas grandes áreas preservadas da Amazônia às forças combinadas do desmatamento, da grilagem, da mineração, dos combustíveis fósseis e da especulação fundiária.

A contradição não desaparece com discursos sobre governança ambiental ou com a promessa de uma estrada tecnologicamente monitorada. O problema é que a BR-319 não será construída em um laboratório. Ela atravessará um território marcado por conflitos fundiários, presença do crime organizado, fragilidade institucional e enormes interesses econômicos. Imaginar que o Estado conseguirá controlar todos os processos desencadeados pela abertura dessa nova fronteira exige uma confiança que a própria história da ocupação da Amazônia não autoriza.

Talvez a pergunta mais importante levantada pela reportagem de Monica Piccinini seja justamente esta: uma estrada construída através de uma das maiores extensões contínuas de floresta tropical ainda preservadas do planeta pode realmente permanecer apenas uma estrada? Tudo o que sabemos sobre a história da Amazônia sugere que não.

Por isso, a decisão sobre a BR-319 não deveria ser apresentada como uma escolha simples entre desenvolvimento e atraso, integração e isolamento ou modernidade e abandono. O verdadeiro debate envolve o tipo de desenvolvimento que se pretende promover, quem ficará com seus benefícios, quem pagará seus custos e quais transformações se tornarão irreversíveis depois que o asfalto chegar.

O presidente Lula já afirmou que o Brasil não precisa destruir suas florestas para prosperar. Poucos projetos testarão essa afirmação de maneira tão profunda quanto a BR-319. Se os alertas científicos estiverem corretos, a rodovia poderá entrar para a história não como a estrada que integrou o Amazonas ao restante do país, mas como aquela que abriu uma das últimas grandes fronteiras florestais do planeta para forças econômicas que, uma vez instaladas, nenhum governo conseguiu até hoje controlar plenamente.

E talvez seja essa a maior contribuição da reportagem publicada por Monica Piccinini no YourVoiz: lembrar que, na Amazônia, a parte mais importante da história de uma estrada começa justamente onde termina o asfalto.

Brasil campeão mundial de juros: quando a dívida pública vale mais do que o país

Os dados publicados neste sábado pelo Poder360 deveriam provocar um escândalo nacional. O Brasil destinou, em 2024, o equivalente a 8,8% do Produto Interno Bruto apenas ao pagamento de juros da dívida pública, a maior proporção entre os países do G20. O dado se torna ainda mais impressionante quando se observa que, de 2023 para 2024, essa despesa saltou de 5,8% para 8,8% do PIB, um crescimento de três pontos percentuais em apenas um ano.

O mais revelador, entretanto, é que o Brasil não ocupa posição equivalente quando se considera o tamanho de sua dívida. Pela metodologia utilizada pelo Financial Stability Board, a dívida bruta brasileira correspondia a 88% do PIB, colocando o país apenas na oitava posição entre os membros do G20. O Japão, por exemplo, possui uma dívida próxima de 220% do PIB, mas gasta cerca de 2,5% de sua riqueza anual com juros. O Brasil deve proporcionalmente muito menos, mas paga muito mais para carregar sua dívida.

Essa diferença deveria ser suficiente para deslocar o debate público da obsessão quase religiosa com o tamanho da dívida para uma questão muito mais incômoda: por que o Estado brasileiro paga tanto para se endividar e quem se beneficia desse mecanismo?

A reportagem atribui o elevado custo da dívida aos riscos fiscais, à inflação, às incertezas institucionais, à taxa Selic e à composição dos títulos públicos, parte importante dos quais está indexada aos juros ou aos índices de preços. Esses elementos são reais e ajudam a explicar o mecanismo. Mas há um limite evidente nessa explicação: ela tende a apresentar o problema como resultado quase natural de variáveis econômicas, quando o próprio dado central revela uma escolha política de enormes consequências distributivas. O Brasil mantém uma estrutura na qual a remuneração dos detentores da dívida ocupa uma posição extraordinariamente protegida, enquanto educação, saúde, ciência, universidades e serviços públicos precisam disputar recursos sob a vigilância permanente da austeridade.

É justamente aqui que os dados publicados pelo Poder360 encontram as contribuições que Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida, vem apresentando e que já foram discutidas neste blog. Em seus estudos, Lindesay insiste em um ponto que raramente ocupa o centro da cobertura econômica convencional: não basta perguntar quanto o Brasil deve; é necessário investigar como essa dívida se forma, como ela cresce, quanto já foi pago, quem recebe e por que o estoque continua aumentando apesar dos volumes gigantescos transferidos aos seus credores.

Em estudo recentemente analisado no Blog do Pedlowski, Lindesay mostrou que, entre 2018 e 2025, aproximadamente R$ 13,343 trilhões foram destinados ao serviço da dívida pública, somando juros e amortizações. Apenas em 2025, esse montante teria alcançado R$ 2,135 trilhões, enquanto os dados do primeiro semestre de 2026 já indicavam um ritmo capaz de superar novamente esse valor.

Esse é o ponto que transforma o ranking do G20 em algo muito maior do que uma curiosidade estatística. O Brasil não é apenas o país que paga proporcionalmente mais juros entre as principais economias do planeta. Ele mantém um sistema de drenagem contínua do orçamento público em favor do serviço da dívida. Enquanto isso, políticas sociais, universidades, institutos de pesquisa, hospitais e investimentos públicos são submetidos à lógica permanente da escassez.

No estudo sobre os desvios orçamentários da educação, comentado anteriormente neste blog, Lindesay mostrou precisamente a dimensão dessa assimetria. De um lado, trilhões de reais circulam pelo sistema da dívida; de outro, recursos destinados a funções sociais permanecem sujeitos a contingenciamentos, subexecuções e limites fiscais. A escassez, portanto, não se distribui igualmente pelo orçamento. Ela parece atingir com extraordinária precisão aquilo que atende à maioria da população, enquanto o serviço da dívida desfruta de uma capacidade de absorção de recursos que nenhuma universidade pública, nenhum hospital e nenhuma política de ciência e tecnologia jamais conheceram.

Os dados mais recentes reforçam esse diagnóstico. Em maio de 2026, o pagamento de juros nominais acumulado em 12 meses chegou a 8,48% do PIB, o maior patamar desde fevereiro de 2016. No mesmo período, o déficit primário correspondia a 1,14% do PIB, mas, quando os juros são incorporados, o déficit nominal saltava para 9,62%. A diferença entre esses dois números deveria ocupar um lugar muito maior no debate brasileiro, porque mostra que o problema fiscal não pode ser explicado apenas pela narrativa de um Estado que supostamente “gasta demais” com políticas públicas.

Em outras palavras, enquanto o debate cotidiano insiste em responsabilizar aposentadorias, salários de servidores, universidades, políticas sociais e investimentos públicos pela crise fiscal, uma parcela gigantesca do desequilíbrio passa pelo custo financeiro da dívida. O déficit primário e o déficit nominal contam histórias muito diferentes, e entre uma e outra está o peso dos juros.

Esse diagnóstico também ajuda a compreender a crítica de Paulo Lindesay ao PROPAG e, em particular, aos mecanismos de renegociação das dívidas estaduais. Como já discutido no Blog do Pedlowski, Lindesay questiona a ideia de que o estoque da dívida deva ser simplesmente reconhecido como um dado natural e incontestável, sobretudo quando nunca houve a auditoria pública e independente prevista na Constituição. Para ele, programas de renegociação podem acabar consolidando dívidas cuja formação permanece sem exame adequado e, ao mesmo tempo, impor novas rodadas de austeridade, privatizações e restrições aos investimentos sociais.

O caso do estado do Rio de Janeiro oferece uma demonstração particularmente didática dessa lógica. Dados apresentados pela Auditoria Cidadã da Dívida e divulgados neste blog mostram que o estado refinanciou cerca de R$ 15,2 bilhões em 1999 e, mesmo depois de pagar mais de R$ 31,8 bilhões, continuou vendo o saldo devedor crescer, superando R$ 108 bilhões apenas no contrato original. Considerando a dívida consolidada com a União, o valor alcançaria cerca de R$ 205,4 bilhões.

É difícil imaginar exemplo melhor daquilo que Lindesay chama a atenção ao reconstruir a história do endividamento brasileiro: uma dívida que recebe pagamentos sucessivos, consome parcelas crescentes dos recursos públicos e, ainda assim, parece adquirir uma extraordinária capacidade de nunca desaparecer. A dívida é paga, refinanciada, renegociada e novamente paga, enquanto seu estoque permanece ou cresce.

O dado publicado agora pelo Poder360 deveria, portanto, ser lido à luz dessa questão mais ampla. O fato de o Brasil liderar o G20 em gastos com juros não é apenas um problema de política monetária nem uma fatalidade decorrente da “desconfiança dos mercados”. Trata-se de uma estrutura de transferência de renda mediada pelo Estado. Os juros pagos pela dívida não desaparecem no ar; eles chegam a destinatários concretos. Por isso, qualquer discussão séria deveria identificar a composição dos credores, a estrutura dos títulos, os mecanismos de indexação e os beneficiários finais desse fluxo de recursos.

Também seria necessário perguntar por que o país aceita como normal pagar 8,8% de toda a riqueza que produz em um ano apenas em juros e, ao mesmo tempo, trata aumentos de recursos para educação, saúde, ciência ou servidores públicos como ameaças à responsabilidade fiscal. A contradição é particularmente evidente porque o Brasil ainda enfrenta déficits históricos de infraestrutura e serviços públicos. Em um país com tantas carências, a liderança mundial no pagamento proporcional de juros representa uma escolha distributiva de enorme alcance.

A reportagem do Poder360 acerta ao mostrar que o Brasil possui uma das dívidas mais caras do mundo. Mas a contribuição de Paulo Lindesay permite avançar para a pergunta seguinte, talvez mais importante: por que essa dívida é tão cara, por que continua crescendo depois de pagamentos trilionários e por que seu funcionamento permanece fora do escrutínio público que se aplica a praticamente qualquer outra despesa estatal?

A resposta não surgirá de mais uma rodada de cortes em universidades, congelamento de salários, redução de investimentos sociais ou privatização do patrimônio público. Essas medidas podem até liberar novos recursos, mas, enquanto a engrenagem financeira permanecer intocada, existe o risco de que apenas aumentem a quantidade de dinheiro disponível para alimentar o mesmo mecanismo.

O Brasil acaba de conquistar um título que ninguém deveria comemorar: é o campeão do G20 em gastos com juros em relação ao PIB. E talvez a pergunta decisiva não seja por que o país gasta tanto, mas por que a sociedade brasileira continua sendo convencida de que o problema fiscal está sempre na escola, no hospital, na universidade, na aposentadoria ou no salário do servidor, e quase nunca no sistema que transforma uma parcela gigantesca da riqueza nacional em remuneração financeira para os detentores da dívida.

Os dados apresentados pelo Poder360 e as análises de Paulo Lindesay apontam, por caminhos diferentes, para a mesma conclusão: o problema da dívida pública brasileira não é apenas contábil. É uma questão de poder, de prioridades e de distribuição da riqueza produzida pelo país. Enquanto essa discussão permanecer interditada, continuaremos ouvindo que falta dinheiro para quase tudo, ao mesmo tempo em que o Brasil encontra, ano após ano, recursos extraordinários para sustentar o mais caro sistema de juros entre as maiores economias do mundo.

PROPAG vai mesmo destravar bilhões para a UENF ou estamos contando com dinheiro que ainda não existe?

Durante a reunião do Consuni que discutiu a PLOA 2027, uma referência feita pela reitora Rosana Rodrigues ao possível impacto da adesão do Rio de Janeiro ao PROPAG me levou a examinar até que ponto o programa de renegociação da dívida poderá, de fato, abrir espaço para novos investimentos nas universidades estaduais. A legislação e as amarras fiscais recomendam cautela antes de transformar essa possibilidade em expectativa de receita disponível

Durante a reunião do Conselho Universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) que discutiu a proposta orçamentária da universidade para 2027, a chamada PLOA 2027, uma referência feita pela reitora Rosana Rodrigues me chamou particularmente a atenção. Em meio ao debate sobre as perspectivas orçamentárias da instituição, a reitora mencionou a adesão do Estado do Rio de Janeiro ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o PROPAG, em um contexto que me levou a considerar a possibilidade de que esse novo arranjo fiscal pudesse abrir espaço para investimentos substanciais nas universidades estaduais fluminenses, incluindo, naturalmente, a própria Uenf.

Foi a partir dessa referência, e da possibilidade que vislumbrei em sua fala, que decidi examinar a questão com mais cuidado. Como estamos falando de dinheiro público e de decisões que podem influenciar o futuro da universidade, considero prudente separar aquilo que o PROPAG pode eventualmente permitir daquilo que já se encontra concretamente demonstrado. Afinal, uma coisa é afirmar que determinado arranjo fiscal pode produzir algum alívio nas contas estaduais; outra, bastante diferente, é concluir que desse alívio surgirão automaticamente verbas novas, livres e substanciais para financiar a expansão da Uenf. A leitura da Lei Complementar nº 212/2025, que instituiu o programa, não me parece autorizar tamanho otimismo.

É verdade que esse novo regime cria mecanismos para a renegociação das dívidas estaduais e que, dependendo das condições concretas da adesão, pode reduzir encargos financeiros e alterar o fluxo de pagamentos do Estado à União. Também é verdade que a legislação prevê a aplicação de valores em áreas como educação, infraestrutura, saneamento, habitação, adaptação às mudanças climáticas, transportes e segurança pública. Mas entre essa possibilidade geral e a existência de dinheiro efetivamente disponível para a Uenf existe uma distância considerável.

O primeiro problema está no próprio desenho do PROPAG. O programa não cria uma espécie de cofre novo, repleto de dinheiro livre, do qual o governo estadual possa simplesmente retirar alguns bilhões para distribuir entre suas universidades. O que ele oferece é uma nova arquitetura para o pagamento da dívida, acompanhada de condicionantes, compromissos fiscais, regras de destinação, mecanismos de acompanhamento e limites sobre a expansão das despesas estaduais. Portanto, mesmo que a adesão produza alguma redução imediata dos encargos da dívida, isso não significa que o valor correspondente se transformará automaticamente em dotação orçamentária adicional para a Uenf.

Foi precisamente esse aspecto que Paulo Lindesay destacou em sua análise publicada no Blog do Pedlowski. Longe de representar uma libertação financeira dos estados, o PROPAG pode funcionar como uma nova modalidade de camisa de força fiscal. O programa oferece alívio em determinados componentes da dívida, mas mantém — e, em alguns aspectos, reorganiza — mecanismos que restringem a capacidade dos governos estaduais de ampliar suas despesas primárias. Em outras palavras, pode até haver alguma folga de um lado, enquanto novas amarras impedem que ela se converta livremente em expansão dos serviços públicos.

Essa questão me parece especialmente importante quando se fala das universidades estaduais. Afinal, investir em uma universidade não significa apenas construir prédios ou comprar equipamentos. Uma universidade precisa de professores, técnicos administrativos, laboratórios funcionando, bolsas, manutenção, energia elétrica, segurança, limpeza, bibliotecas, sistemas de informação e financiamento permanente para desenvolver ensino, pesquisa e extensão. Um novo prédio sem meios para custeá-lo pode rapidamente se transformar em um problema orçamentário, enquanto uma expansão física sem novos servidores pode apenas ampliar a sobrecarga sobre uma estrutura já tensionada.

Por isso, a referência feita pela reitora Rosana Rodrigues durante a reunião do Conselho Universitário me levou imediatamente a uma série de perguntas. De quanto dinheiro poderíamos estar falando? Qual seria a fonte específica desses valores? Que parcela poderia caber à Uenf? Em quais exercícios financeiros eles estariam disponíveis? Poderiam financiar apenas obras e equipamentos ou também o custeio das novas estruturas? Seria possível sustentar despesas permanentes? Haveria condições para a contratação dos servidores necessários ao funcionamento de uma eventual expansão? Existe alguma pactuação formal entre o governo estadual e as universidades? Há algum documento oficial que permita estimar quanto efetivamente poderia chegar à Uenf? Até o momento, não conheço respostas concretas para essas perguntas.

E aqui reside, a meu ver, o problema central. Uma expectativa de receita não pode ser tratada como receita disponível. Uma possibilidade de abertura de espaço fiscal não equivale a uma dotação orçamentária. Uma manifestação política de intenção não substitui uma previsão formal de financiamento e, sobretudo, uma renegociação da dívida estadual não pode servir como fundamento suficiente para decisões institucionais que criem novas despesas permanentes.

A distinção é ainda mais importante porque o PROPAG pode favorecer justamente ações de maior visibilidade física — obras, equipamentos e expansão patrimonial — sem garantir, na mesma proporção, os meios permanentes necessários para fazer essas estruturas funcionar. No caso da Uenf, esse risco não é abstrato, pois qualquer projeto de expansão institucional precisa responder não apenas quanto custará para ser implantado, mas quanto custará anualmente para funcionar.

Também existe uma questão de autonomia universitária que não deveria ser ignorada. Mesmo que a renegociação da dívida abra algum espaço para novas aplicações, isso não significa que o dinheiro chegará às universidades como uma espécie de cheque em branco. Os valores poderão vir condicionados a prioridades definidas pelo governo estadual, a categorias específicas de despesa e a pactuações feitas no âmbito da relação entre o Estado e a União. Nesse cenário, a existência de dinheiro para “educação” não significa necessariamente financiamento para as prioridades definidas pela própria comunidade universitária e pelos seus conselhos superiores.

Por tudo isso, considero que a possibilidade suscitada, ao menos para mim, pela referência feita pela reitora Rosana Rodrigues durante a reunião do Conselho Universitário que discutiu a PLOA 2027 precisa ser acompanhada de informações muito mais concretas antes que se possa extrair dela qualquer expectativa segura de financiamento. Se existem perspectivas de que valores substanciais possam ser destinados à Uenf após a adesão do Rio de Janeiro ao PROPAG, seria importante conhecer os documentos que sustentam essa avaliação. Qual é o montante estimado? Qual é a fonte? Qual é o cronograma? Qual é o instrumento legal de transferência? Quais são as limitações para a utilização do dinheiro? E, principalmente, que garantias existem de que uma expansão física será acompanhada pelo custeio e pelo pessoal indispensáveis ao seu funcionamento?

Sem essas respostas, continuo considerando temerário tratar o PROPAG como uma espécie de passaporte para um novo ciclo de expansão das universidades estaduais fluminenses. O programa pode, eventualmente, criar alguma margem fiscal e permitir ações pontuais, mas daí a concluir que valores substanciais serão destravados para a Uenf existe um salto que, por enquanto, parece apoiado mais em expectativa do que em evidências orçamentárias concretas.

Como membro do Conselho Universitário, considero que cabe ao Consuni exigir essas informações antes de tomar decisões que possam gerar compromissos institucionais e financeiros duradouros. O Conselho Universitário é o órgão colegiado supremo da Uenf e não deveria decidir o futuro da instituição com base em valores aventados, expectativas de receitas ou promessas de uma prosperidade fiscal futura ainda não demonstrada documentalmente.

No final das contas, a questão é bastante simples: se o PROPAG realmente puder abrir caminho para que valores substanciais cheguem à Uenf, que se apresentem os números, os documentos, as fontes, os cronogramas e as condições. Até lá, parece-me mais prudente tratar essa perspectiva pelo que ela efetivamente é: uma hipótese que merece ser examinada. E universidades públicas não deveriam planejar expansões permanentes apostando que hipóteses fiscais acabarão, em algum momento, transformando-se em dinheiro.

Quando a colmeia já não consegue se proteger: abelhas-rainhas transferem agrotóxicos para seus ovos

Pesquisa publicada na Current Biology mostra que a organização social das abelhas funciona como uma rede coletiva de proteção química, mas essa defesa pode entrar em colapso sob exposição crônica

Um novo estudo científico oferece uma perspectiva ao mesmo tempo fascinante e perturbadora sobre os efeitos dos agrotóxicos nas colônias de abelhas. Em vez de analisar apenas a toxicidade sofrida por indivíduos isolados, os pesquisadores acompanharam o caminho percorrido por um agrotóxico através de toda a estrutura social da colmeia: da alimentação às operárias, das operárias à rainha e, finalmente, da rainha aos ovos.

O trabalho, intitulado Queen bees offload pesticide burden to eggs when social buffering is overwhelmed, foi realizado por Angela M. Encerrado-Manriquez, Julia D. Fine, Eliza Litsey, David Baliu-Rodriguez, Sean Patrick Leonard, Bruce A. Buchholz e Sascha C. T. Nicklisch e publicado em 2026 na revista científica Current Biology, editada pela Cell Press.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que uma colônia de abelhas não pode ser entendida simplesmente como uma reunião de indivíduos expostos separadamente a substâncias tóxicas. A colmeia funciona como uma espécie de rede coletiva de desintoxicação, na qual diferentes castas e estruturas cumprem papéis específicos na filtragem, retenção e redistribuição dos contaminantes.

Para acompanhar esse processo, os pesquisadores utilizaram uma técnica extremamente sensível, capaz de rastrear quantidades minúsculas de uma substância marcada radioativamente. Como modelo experimental, utilizaram o metil paration, um agrotóxico organofosforado neurotóxico, acompanhando seu deslocamento durante dez dias através de pequenas colônias mantidas em laboratório.

Os resultados mostram que as abelhas operárias constituem a primeira barreira contra a contaminação. Ao manipular, processar e armazenar o alimento, elas reduziram inicialmente em 95% a concentração do agrotóxico antes que ele alcançasse as partes mais protegidas da colmeia. Após dez dias de exposição contínua, porém, essa eficiência caiu para 86%, enquanto a contaminação aumentou no alimento armazenado. Ao final do experimento, as operárias apresentavam uma carga corporal do agrotóxico cerca de 55 vezes maior que a observada nas rainhas.

Esse resultado revela uma dimensão pouco discutida da organização social das abelhas. Diante da contaminação química, as operárias funcionam como uma espécie de linha de sacrifício toxicológico, absorvendo grande parte da carga de contaminantes que entra na colmeia. Mas essa capacidade de proteção não é ilimitada e começa a falhar sob exposição crônica.

É nesse ponto que surge a descoberta mais inquietante do estudo. Embora mantenha concentrações corporais muito inferiores às das operárias, a rainha transfere parte do agrotóxico que chega ao seu organismo para os tecidos reprodutivos e, principalmente, para os ovos. Ao décimo dia do experimento, os ovos apresentavam concentrações entre 81 e 141 partes por bilhão, valores entre cinco e dez vezes superiores à carga corporal observada nas próprias rainhas.

Os autores chamam esse fenômeno de maternal offloading, ou transferência materna de contaminantes. A rainha parece proteger o próprio organismo transferindo parte da carga química para a geração seguinte. Sob uma perspectiva evolutiva, preservar a rainha, único núcleo reprodutivo da colônia, pode representar uma estratégia de sobrevivência coletiva. Mas essa estratégia contém uma contradição devastadora: quando as operárias já não conseguem filtrar adequadamente a contaminação, a colônia passa a proteger a rainha transferindo a carga química para o seu componente mais vulnerável, os embriões que formarão as futuras gerações de abelhas.

A descoberta também expõe uma limitação importante dos testes toxicológicos convencionais. Grande parte desses estudos observa abelhas operárias adultas isoladamente e por períodos relativamente curtos. O novo trabalho mostra que uma colônia pode parecer inicialmente resistente justamente porque suas defesas sociais ainda estão funcionando. As operárias filtram o alimento, absorvem parte da contaminação e protegem a rainha. Sob exposição prolongada, porém, essas barreiras começam a falhar e a carga química alcança os ovos.

O estudo possui limitações que os próprios autores reconhecem. O experimento foi realizado em nano-colônias de laboratório, o número de rainhas analisadas foi pequeno e não se acompanhou o destino posterior dos ovos contaminados. Ainda assim, os resultados levantam uma questão urgente sobre o que pode ocorrer em colônias reais expostas, durante longos períodos, a misturas de diferentes agrotóxicos.

A grande lição oferecida pelo trabalho de Encerrado-Manriquez e seus colegas é que as abelhas precisam ser estudadas como organismos sociais integrados. A toxicologia centrada no indivíduo isolado corre o risco de não perceber que a própria estrutura social da colmeia participa da absorção e redistribuição dos contaminantes. Quando a exposição crônica ultrapassa a capacidade coletiva de defesa, as operárias absorvem a maior parte do veneno e a rainha permanece relativamente protegida, mas a conta não desaparece: ela é transferida para a geração seguinte.

Fluazinam, agrotóxico aprovado pela União Europeia tem efeitos potenciais no desenvolvimento cerebral

Um novo estudo sobre a neurotoxicidade do fluazinam apresenta resultados diferentes de um relatório anterior baseado em dados do fabricante

Por Pippa Neill para “The Guardian”

Pesquisadores que refizeram um estudo crucial sobre a neurotoxicidade de um fungicida chegaram a conclusões significativamente diferentes, e ativistas argumentam que a substância deve ser retirada do mercado.

Em 2005, um estudo conduzido pela Huntingdon Life Sciences em nome da ISK, fabricante do fluazinam, sobre o desenvolvimento da neurotoxicidade do fluazinam em ratas grávidas, concluiu que não houve efeitos estatisticamente significativos em relação ao desenvolvimento cerebral dos filhotes das ratas.

Em 2008, após uma avaliação de segurança, o agrotóxico fluazinam foi aprovado na União Europeia. O fluazinam é um fungicida Pfas utilizado para controlar diversos fungos patogênicos presentes no solo em batatas e maçãs. Em 2024, foram vendidas 340 toneladas do produto somente na Alemanha.

O estudo de 2005, como o Guardian já havia revelado , não foi apresentado como parte das evidências para a decisão de aprovação, mas foi utilizado em discussões posteriores.

Em um novo estudo , ainda não revisado por pares, utilizando os mesmos métodos estatísticos, pesquisadores da Universidade de Estocolmo chegaram a uma conclusão diferente, encontrando seis casos em que a exposição ao agrotóxico levou a impactos estatisticamente significativos no desenvolvimento cerebral.

Notavelmente, eles descobriram que a exposição ao agrotóxico levou a diminuições no peso e na largura do cérebro dos filhotes dos ratos.

“Na nossa opinião, considerando as consequências potencialmente permanentes dos déficits no desenvolvimento cerebral, o efeito de uma substância química no peso, largura e morfometria do cérebro é considerado grave”, escrevem os autores.

Os pesquisadores disseram ao The Guardian: “É impossível chegar corretamente aos resultados do relatório de 2005 com base nos dados brutos do mesmo relatório, utilizando os métodos especificados no próprio relatório. Tirar conclusões a partir dos resultados é uma questão mais complexa e menos direta. Diríamos que as conclusões do relatório de 2005 (especificamente aquelas relacionadas aos cérebros dos filhos adultos) são totalmente descabidas e não são sustentadas pelos resultados que deveriam ter sido relatados.”

Antoine Bailleux, professor de direito da UE e teoria jurídica na UCLouvain, na Bélgica, afirmou que a omissão da informação sobre significância estatística em relação à neurotoxicidade do desenvolvimento configuraria uma violação dos regulamentos da UE sobre pesticidas.

A Dra. Angeliki Lysimachou, chefe de ciência e política do grupo de campanha Pesticide Action Network (Pan) Europe , afirmou que este estudo foi “ocultado dos órgãos reguladores e protegido de uma análise adequada. Quando finalmente chegou às autoridades, os sinais de alerta ainda foram ignorados. Trata-se de uma violação tanto das obrigações legais quanto da integridade científica, que exige uma investigação urgente, a responsabilização integral dos culpados e a retirada imediata do fluazinam do mercado.”

Considerando os efeitos do agrotóxico no desenvolvimento cerebral, os autores do estudo escrevem que não é possível estabelecer um nível seguro de exposição e, portanto, afirmam que ele não deveria ter sido aprovado para uso em 2008.

Após analisar o estudo para o The Guardian, Hans Peter Arp, químico ambiental do Instituto Geotécnico Norueguês, concordou que, com base nessas descobertas, o pesticida não deveria ter sido aprovado.

O fluazinam está sendo avaliado para reaprovação na UE. O fungicida foi incluído no registro de substâncias ativas aprovadas do Reino Unido após o Brexit, onde seu uso está autorizado até 2029.

Bailleux afirmou que o fluazinam não deve ser renovado sem uma investigação mais aprofundada.

Nick Mole, gerente de políticas da Pan UK, afirmou que a Agência Executiva de Saúde e Segurança do Reino Unido deveria “revogar imediatamente sua autorização”.

Os autores do estudo escrevem que o uso contínuo desse pesticida desde 2008 pode ter resultado em “exposição humana desnecessária e potencialmente prejudicial”. O fluazinam foi detectado em parques infantis na região do Tirol do Sul, na Itália, onde o pesticida é usado em fazendas próximas para tratar macieiras.

O Dr. Axel Mie, autor principal do estudo, afirmou que os resultados obtidos em animais não podem ser extrapolados diretamente para humanos. No entanto, ele disse que, se uma substância prejudica o desenvolvimento cerebral em ratos, deve-se presumir que o mesmo possa ocorrer em humanos.

Christina Rudén, professora de toxicologia regulatória e ecotoxicologia da Universidade de Estocolmo e coautora do estudo, afirmou que o atual sistema da UE para aprovação de pesticidas “baseia-se em um conflito de interesses”, uma vez que a empresa que produz o agrotóxico é responsável por gerar dados sobre sua segurança.

A UE enfrenta acusações de tentar enfraquecer ainda mais as salvaguardas contra pesticidas, introduzindo aprovações sem prazo de validade.

Lysimachou afirmou: “Essas descobertas transmitem exatamente a mensagem oposta: a Europa precisa de fiscalização mais rigorosa, maior transparência e uma análise mais independente da ciência aplicada à indústria. Quando evidências confiáveis ​​apontam para riscos ao desenvolvimento neurológico infantil, a saúde pública deve vir antes dos interesses comerciais.”

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que a Agência Austríaca para a Saúde e Segurança Alimentar (AGES) foi solicitada a rever a análise estatística e os dados subjacentes para a aprovação do fluazinam.

Um porta-voz afirmou: “Esta avaliação é independente e segue os procedimentos estabelecidos pela UE. A EFSA não atua sozinha: as conclusões são alcançadas coletivamente com os Estados-Membros através do processo de revisão por pares. Assim que a AGES concluir a sua avaliação, as conclusões serão analisadas no contexto da avaliação de risco em curso do fluazinam. Prevemos publicar as nossas conclusões sobre a segurança do fluazinam, acordadas e elaboradas em conjunto com todos os Estados-Membros da UE, até ao primeiro trimestre de 2027.”

Um porta-voz da Ages afirmou que as preocupações levantadas no estudo seriam submetidas a “avaliações adicionais, a fim de fornecer uma base sólida para a decisão sobre a renovação da aprovação do fluazinam”.

Um porta-voz da ISK disse: “Estamos cientes das alegações referentes ao estudo de 2005 e, como não recebemos a análise subjacente, não podemos fornecer mais comentários.

“O estudo desta substância ativa faz parte da avaliação regulamentar e foi revisto pelas autoridades competentes de acordo com os procedimentos aplicáveis. Confiamos nos processos regulamentares estabelecidos e salientamos que quaisquer alegações relacionadas devem ser cuidadosamente analisadas e comprovadas.”

A Huntingdon Life Sciences não respondeu ao pedido de comentários.

Esta reportagem foi produzida em colaboração com a Bayerischer Rundfunk (BR/ARD) na Alemanha, a FF Südtirol na Itália e a Sveriges Television (SVT) na Suécia.


Fonte: The Guardian

A violência lenta dos microplásticos já alcançou a Amazônia Azul

Pesquisa publicada no Journal of Soils and Sediments identifica contaminação em todos os pontos analisados no litoral baiano e mostra que a degradação dos ecossistemas marinhos avança muito antes de aparecer nas manchetes

A poluição por microplásticos deixou há muito tempo de ser um problema restrito aos grandes centros urbanos ou às regiões industriais. Um estudo recém-publicado no Journal of Soils and Sediments mostra que essa contaminação já está disseminada nos sedimentos marinhos da chamada Amazônia Azul, conceito utilizado para designar a vasta zona econômica exclusiva brasileira no Atlântico. A pesquisa, conduzida por Rayane Sorrentino e colaboradores, analisou sedimentos de diferentes regiões do litoral da Bahia e encontrou microplásticos em todos os locais amostrados, sem exceção.

À primeira vista, os números podem parecer modestos quando comparados a áreas extremamente degradadas do planeta. Foram identificados 270 microplásticos por quilograma de sedimento seco, variando entre 8 e 90 partículas por quilograma conforme o local analisado. Mas a relevância do estudo não está apenas na quantidade encontrada. O verdadeiro alerta reside no fato de que mesmo áreas reconhecidas por sua elevada biodiversidade e importância ecológica já apresentam um nível consistente de contaminação, demonstrando que praticamente não existem mais ambientes costeiros livres da presença desse novo poluente planetário.

Outro aspecto que merece destaque é o predomínio das microfibras, responsáveis por aproximadamente dois terços de todas as partículas identificadas. Esse resultado aponta diretamente para uma das principais fontes contemporâneas de poluição: os tecidos sintéticos utilizados pela indústria da moda. A simples lavagem de roupas produzidas com poliéster, poliamida e outros polímeros libera milhares de microfibras que passam pelos sistemas convencionais de tratamento de esgoto e acabam sendo transportadas para rios, estuários e, finalmente, para o oceano. Não se trata apenas de lixo plástico descartado inadequadamente, mas de uma forma contínua e invisível de contaminação produzida diariamente pelo próprio funcionamento da economia contemporânea.

Os autores também identificaram uma tendência de maiores concentrações de microplásticos nas áreas mais urbanizadas, especialmente em Salvador e Itaparica. Embora a correlação estatística com a densidade populacional não tenha alcançado significância, a distribuição espacial dos resultados indica que o crescimento urbano, o lançamento insuficientemente tratado de esgoto, a drenagem pluvial e o turismo intenso constituem importantes vetores da poluição marinha. Em outras palavras, os microplásticos acompanham o avanço da urbanização desordenada e das deficiências históricas da infraestrutura sanitária brasileira.

Talvez o aspecto mais inquietante do estudo seja justamente aquilo que ele não consegue medir plenamente. Os pesquisadores reconhecem que as limitações analíticas impediram a identificação química de muitas partículas extremamente pequenas. Isso significa que a contaminação observada provavelmente representa apenas uma fração do problema real. À medida que os plásticos continuam sofrendo fragmentação física e química no ambiente, transformam-se em partículas cada vez menores, potencialmente mais biodisponíveis e mais facilmente incorporadas por organismos marinhos ao longo da cadeia alimentar.

Esse processo merece atenção especial porque os microplásticos já não são considerados apenas resíduos inertes. Hoje se sabe que eles funcionam como vetores de contaminantes químicos, metais pesados e microrganismos patogênicos, além de liberarem aditivos utilizados durante sua fabricação. Dessa forma, cada pequena partícula pode atuar como um veículo de múltiplas formas de contaminação ambiental e alimentar.

No caso brasileiro, o trabalho ganha importância adicional por demonstrar que a degradação da Amazônia Azul ocorre de maneira silenciosa e cumulativa. O debate público costuma concentrar-se em grandes desastres ambientais, como derramamentos de petróleo, rompimentos de barragens ou episódios de mortandade de peixes. Entretanto, a poluição por microplásticos representa um tipo distinto de ameaça: difusa, permanente e praticamente invisível. Todos os dias milhões de partículas chegam ao ambiente marinho sem provocar manchetes ou mobilizações políticas, mas acumulam-se lentamente nos sedimentos e nos organismos que sustentam a biodiversidade e a pesca costeira.

Esse caráter gradual aproxima a contaminação por microplásticos do conceito de violência lenta, formulado pelo pesquisador Rob Nixon. Ao contrário das catástrofes espetaculares, a violência lenta se manifesta por processos ambientais que evoluem quase imperceptivelmente ao longo do tempo, acumulando danos que acabam recaindo de forma desproporcional sobre populações costeiras, pescadores artesanais e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas marinhos para sua sobrevivência. É justamente essa invisibilidade que torna o problema tão difícil de enfrentar politicamente.

O estudo de Sorrentino e colaboradores reforça, portanto, uma constatação incômoda: o Brasil continua tratando seus oceanos como receptores passivos dos resíduos produzidos pelo atual modelo de desenvolvimento. Enquanto o país celebra a expansão da chamada economia azul e projeta novos investimentos em infraestrutura portuária, exploração offshore e turismo costeiro, a contaminação por microplásticos avança silenciosamente sobre ecossistemas cuja recuperação poderá levar décadas, talvez séculos. A Amazônia Azul, frequentemente apresentada como patrimônio estratégico nacional, já revela sinais de uma degradação que não pode mais ser considerada um problema do futuro. Ela já está presente nos sedimentos do presente.

Plano Safra 2026/2027: governo Lula mantém prioridade para o latifúndio agroexportador e deixa a agricultura familiar em segundo plano

O anúncio do Plano Safra 2026/2027 confirma a permanência de uma das maiores contradições da política agrícola brasileira. Embora o governo Lula reafirme, em seus discursos, a importância estratégica da agricultura familiar para garantir a segurança alimentar da população, sua política de crédito rural continua concentrando a maior parte dos recursos públicos na agricultura empresarial voltada para a exportação de commodities. Os números do novo Plano Safra deixam pouca margem para dúvidas: o governo destina um volume de recursos muito superior ao agronegócio empresarial do que ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), preservando uma desigualdade histórica que sucessivos governos prometeram reduzir, mas nunca enfrentaram de forma consistente.

Enquanto isso, a agricultura familiar continua enfrentando dificuldades para acessar financiamento, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento e canais de comercialização. Ainda assim, são justamente os agricultores familiares que produzem grande parte dos alimentos que abastecem diariamente a mesa dos brasileiros. Feijão, mandioca, frutas, hortaliças, leite e inúmeros outros produtos essenciais dependem muito mais do trabalho das pequenas propriedades do que das grandes monoculturas destinadas ao mercado internacional. Ao concentrar a maior parte do crédito no agronegócio exportador, o governo envia um sinal inequívoco sobre quais interesses considera prioritários.  Essa é uma escolha que enfraquece justamente o segmento mais importante para a segurança alimentar do país e reforça um modelo voltado prioritariamente para a geração de divisas por meio da exportação de commodities agrícolas.

Essa opção política se torna ainda mais difícil de justificar quando se analisa a situação financeira do próprio agronegócio. Nos últimos anos, grandes produtores rurais e empresas agrícolas acumularam pedidos de recuperação judicial, revelando um setor muito mais dependente do apoio estatal do que seus representantes costumam admitir. Apesar do discurso permanente sobre eficiência, competitividade e capacidade de gerar riqueza, boa parte do grande agronegócio enfrenta elevados níveis de endividamento e encontra cada vez mais dificuldades para sustentar seu próprio modelo de expansão sem o apoio do crédito subsidiado oferecido pelo Estado. Em outras palavras, o governo direciona a maior parcela dos recursos públicos justamente para um segmento que demonstra crescente dependência financeira, enquanto limita o apoio ao setor que efetivamente garante o abastecimento alimentar da população brasileira.

Essa política também produz profundas consequências ambientais. O crédito rural não apenas financia a produção agrícola; ele define a forma como o território brasileiro se organiza e se transforma. Quando o governo concentra recursos nas grandes monoculturas de soja, milho, algodão e outras commodities, ele estimula a expansão contínua da fronteira agrícola. Esse processo mantém forte pressão sobre a Amazônia e, principalmente, sobre o Cerrado, onde grandes proprietários continuam convertendo áreas de vegetação nativa em extensas plantações mecanizadas. Não existe neutralidade nessa escolha orçamentária. Quem financia determinado modelo agrícola também financia os impactos ambientais que esse modelo produz.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o desmatamento continua representando uma das principais fontes das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Embora o governo tenha obtido resultados importantes na redução do desmatamento ilegal em algumas áreas da Amazônia, a expansão da agricultura empresarial continua deslocando a fronteira agropecuária sobre regiões ambientalmente sensíveis, especialmente no Cerrado, bioma que abriga parte significativa das nascentes que alimentam as principais bacias hidrográficas do país. Ao ampliar o financiamento desse modelo produtivo, o Plano Safra reforça uma lógica territorial que caminha na direção oposta aos compromissos climáticos assumidos pelo próprio governo brasileiro.

O Plano Safra também fortalece um modelo agrícola profundamente dependente do uso intensivo de agrotóxicos. As grandes monoculturas de exportação alcançam seus atuais níveis de produtividade porque utilizam enormes quantidades de herbicidas, inseticidas e fungicidas ao longo de seus ciclos produtivos. Ao privilegiar financeiramente esse segmento, o governo também reforça a continuidade de um padrão tecnológico cuja sustentabilidade ambiental e sanitária enfrenta questionamentos cada vez mais sólidos por parte da comunidade científica.

Nos últimos anos, pesquisadores brasileiros e estrangeiros produziram um conjunto robusto de evidências que associam a exposição aos agrotóxicos ao aumento da incidência de doenças neurológicas, alterações hormonais, diferentes tipos de câncer, problemas reprodutivos e contaminação de solos, rios e aquíferos. Estudos recentes também demonstram impactos relevantes sobre polinizadores, organismos aquáticos e diversas espécies fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar uma transição em direção a sistemas produtivos menos dependentes desses produtos, o governo continua destinando a maior parte dos recursos públicos justamente ao segmento que mais consome agrotóxicos no país.

O mesmo raciocínio vale para o consumo de água. Grandes monoculturas exigem volumes crescentes de recursos hídricos, sobretudo nas áreas irrigadas, justamente em um momento em que diversos aquíferos brasileiros apresentam sinais preocupantes de sobreexploração e em que os efeitos das mudanças climáticas tornam cada vez mais frequentes os períodos de estiagem prolongada. Ao estimular continuamente esse padrão produtivo, o governo amplia a pressão sobre recursos naturais que já demonstram claros sinais de esgotamento.

Essa orientação política revela uma contradição difícil de ignorar. O presidente Lula busca projetar o Brasil como liderança internacional no enfrentamento da crise climática e pretende transformar a realização da COP30 em uma vitrine da política ambiental brasileira. Entretanto, a principal política de financiamento da agricultura continua privilegiando um modelo baseado na concentração fundiária, na expansão das monoculturas, no consumo intensivo de água e no uso maciço de agrotóxicos. A distância entre o discurso ambiental e a política agrícola permanece significativa.

Não se trata de negar a importância econômica das exportações agrícolas nem de ignorar o papel que o agronegócio desempenha na balança comercial brasileira. O problema reside na enorme desproporção da distribuição dos recursos públicos e na ausência de critérios que condicionem o acesso ao crédito subsidiado à redução efetiva do desmatamento, do consumo de agrotóxicos, do desperdício de água e da concentração fundiária. O Estado dispõe de instrumentos suficientes para induzir uma agricultura mais diversificada, mais sustentável e mais comprometida com a produção de alimentos para a população brasileira. No entanto, continua utilizando o Plano Safra para fortalecer exatamente o modelo que concentra terras, amplia os conflitos socioambientais e aprofunda a dependência da economia nacional da exportação de commodities primárias.

Talvez a maior contradição do novo Plano Safra resida justamente em sua dimensão política. Ao concentrar a maior parte do crédito subsidiado no latifúndio agroexportador, o governo Lula fortalece um segmento que permanece amplamente identificado com o bolsonarismo e que, desde o início do atual mandato, atua sistematicamente contra as principais iniciativas do governo no Congresso Nacional e na disputa política mais ampla. Essa escolha expressa a lógica de concertação que tem orientado o governo desde 2023: na tentativa de reduzir conflitos com setores historicamente conservadores, o Palácio do Planalto amplia concessões sem conseguir alterar o alinhamento político desse segmento. Ao mesmo tempo, essa política contradiz os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, quando Lula prometeu fortalecer a agricultura familiar, ampliar a produção agroecológica e conduzir a agricultura brasileira por uma trajetória social e ambientalmente mais sustentável. Na prática, o governo percorreu o caminho inverso. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar a transição para um modelo menos dependente do desmatamento, dos agrotóxicos e das grandes monoculturas de exportação, preferiu reforçar econômica e politicamente um setor que continua resistindo às mudanças necessárias e que permanece entre os principais adversários do próprio projeto político que levou Lula de volta à Presidência da República.

Incêndios “zumbis”: quando o Ártico passa a alimentar a crise climática

O reaparecimento de incêndios subterrâneos mostra que o aquecimento global já alterou profundamente o funcionamento dos ecossistemas boreais

A expressão “incêndio zumbi” pode parecer um recurso de marketing para atrair leitores, mas descreve um fenômeno absolutamente real e cada vez mais frequente nas regiões boreais do planeta. Como mostra a reportagem publicada pela Sierra Club, esses incêndios conseguem sobreviver durante todo o inverno queimando lentamente sob a superfície do solo, protegidos pela neve e por espessas camadas de turfa, ressurgindo meses depois, na primavera, como novos focos de incêndio. Trata-se de um comportamento que, até poucas décadas atrás, era considerado raro, mas que vem se tornando parte da nova realidade climática do Norte do planeta.

O aspecto mais inquietante desse processo é que ele revela uma mudança estrutural no funcionamento dos ecossistemas do Ártico e das florestas boreais. O fogo deixa de ser um evento sazonal para transformar-se em um processo praticamente contínuo, capaz de atravessar o inverno e reiniciar sua propagação quando as temperaturas voltam a subir. Em outras palavras, a estação fria já não representa necessariamente o fim da temporada de incêndios.

Essa transformação está diretamente relacionada ao aquecimento acelerado das altas latitudes. O Ártico aquece várias vezes mais rapidamente do que a média global, reduzindo a umidade dos solos, prolongando as estações de fogo e favorecendo grandes incêndios durante o verão. Quando esses incêndios alcançam solos ricos em matéria orgânica — especialmente turfeiras e áreas de permafrost — parte do fogo permanece latente durante meses, alimentando-se lentamente do carbono acumulado ao longo de milhares de anos.

O problema, entretanto, vai muito além da destruição local das florestas. As regiões de permafrost armazenam quantidades gigantescas de carbono, superiores ao total atualmente presente na atmosfera. Quando esse carbono é liberado pela combustão ou pela degradação do solo congelado, intensifica-se o efeito estufa, aumentando ainda mais o aquecimento global. Forma-se, assim, um perigoso ciclo de retroalimentação: temperaturas mais altas produzem mais incêndios; mais incêndios liberam mais carbono; mais carbono provoca temperaturas ainda mais elevadas.

Além das emissões de dióxido de carbono, os incêndios subterrâneos liberam grandes quantidades de metano e de material particulado fino, deteriorando a qualidade do ar em milhares de quilômetros de distância. A fumaça proveniente dos grandes incêndios canadenses dos últimos anos atingiu extensas áreas da América do Norte e até mesmo a Europa, demonstrando que os impactos desses eventos ultrapassam em muito as regiões onde eles se originam.

Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito às profundas alterações ecológicas provocadas pelos incêndios zumbis. Ao consumirem lentamente as camadas orgânicas do solo, eles destroem bancos de sementes, alteram a hidrologia local e dificultam significativamente a regeneração natural das florestas. Em alguns casos, os ecossistemas podem deixar de retornar ao estado anterior, sendo substituídos por formações vegetais completamente distintas.

Embora o fenômeno esteja ocorrendo nas altas latitudes, seria um equívoco considerá-lo um problema distante do Brasil. Os incêndios extremos observados recentemente na Amazônia, no Pantanal e em partes do Cerrado evidenciam que o planeta está entrando em uma nova fase da dinâmica do fogo. Se, no Norte, o grande combustível é a turfa congelada e o permafrost, nos trópicos a combinação entre desmatamento, degradação florestal, secas prolongadas e expansão da fronteira agropecuária produz um cenário igualmente preocupante. Em ambos os casos, o elemento comum é o mesmo: mudanças climáticas potencializadas pela ação humana.

Talvez a principal contribuição da reportagem da Sierra Club seja justamente desmontar a falsa percepção de que o aquecimento global produzirá apenas eventos climáticos mais intensos. Na realidade, o que está ocorrendo é uma transformação muito mais profunda: estão sendo alterados processos ecológicos fundamentais que sustentaram o funcionamento dos ecossistemas durante milhares de anos. Os incêndios zumbis são apenas uma das manifestações dessa nova realidade.

Como costumo observar neste espaço, as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. Elas já estão reorganizando o funcionamento do sistema terrestre. E quando até o inverno deixa de conseguir extinguir o fogo, torna-se evidente que estamos diante de mudanças que ultrapassam em muito aquilo que os modelos climáticos mais conservadores projetavam há apenas duas décadas.