Edward Luz, “antropólogo dos ruralistas”, é preso após invadir terra indígena no Pará

edward luzEdward Luz no momento de sua prisão por estar ilegalmente no interior da Terra Indígena Ituna Itatá

O antropólogo Edward Luz ganhou notoriedade por ter uma empresa de consultoria que produzia laudos pagos por fazendeiros contra a demarcação de terras indígenas e quilombolas no Brasil. Luz chegou inclusive a ser cotado para ocupar o segundo cargo mais importante na Fundação Nacional do Índio (Funai) no início do governo Bolsonaro, o que felizmente não se concretizou.

Entretanto, Edward Luz aparentemente continua tendo acesso aos corredores dos palácios em Brasília, o que acabou sendo revelado por ele mesmo em um vídeo que mostrava a sua presença ilegal na Terra Indígena Ituna Itatá, localizada na região de Altamira no estado do Pará, durante uma operação de desintrusão realizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) (ver vídeo abaixo).

O que as cenas gravadas pelo próprio Edward Luz sugerem, nas palavras do próprio, é que ele estaria tendo acesso direto ao ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e realizando tratativas para garantir a permanência de invasores de terras públicas, como é o caso da TI Ituna Itatá.

Felizmente, o comandante da operação, o servidor público  Roberto Cabral não se deixou intimidado pela “carteirada” desferida pelo “antropólogo dos ruralistas” e fez cumprir a lei.  Mas esse pequeno episódio desvela de forma cabal as relações políticas existentes entre os invasores de terra indígenas na Amazônia com conhecidos militantes bolsonaristas como é o caso de Edward Luz.

Apesar de ocultada pela mídia e perseguida pelo judiciário, a greve nacional dos petroleiros se amplia

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Ocultada pela mídia corporativa e pressionada pelo judiciário, a greve nacional dos petroleiros não apenas não está recuando, mas dando mostras de que irá se ampliar ainda mais com a entrada de novas unidades no movimento paredista.

O vídeo abaixo mostra a  emoção dos petroleiros ao desembarcar da Plataforma P-58 para se somar à greve nacional da categoria. A P-58 plataforma opera o Campo de Jubarte, no Parque das Baleias, área do pré-sal no litoral do Espírito Santo.  

#PetroleirosPelaSoberania

Degradação florestal na Amazônia está saindo das sombras para assombrar o latifúndio agro-exportador

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Ondas de fumaça da floresta amazônica. Foto: Dado Galdieri / AP

Em menos de uma semana um veículo de mídia, agora o site UOL, resolveu jogar luz sobre o avanço e impacto das diferentes formas de degradação da floresta amazônico, mostrando ainda uma progressão exponencial deste processo em relação ao desmatamento apenas no último mês de janeiro.

A verdade é que a “grande mentira verde” como caracterizou a matéria publicada pela BBC News Brasil sobre a ênfase no desmatamento como elemento de empobrecimento da biodiversidade e dos serviços ambientais associados aos biomas amazônicas tem sido algo conveniente para governos de diferentes matizes desde que o governo militar resolveu incorporar a Amazônia ao circuito dependente em que a economia brasileira está historicamente inserida.

Por isso, tem sido dada ênfase aos 20% da Amazônia brasileira que foram desmatados. É que, por contraponto, haveriam ainda 80% preservados, o que serviria com uma espécie de calmante de consciências de corporações e dos governos que sempre facilitam o saque da biodiversidade que esse bioma contém.  Assim, enquanto o saque seguia em frente, todos podiam oferecer a falsa ideia de que a maioria da floresta amazônica seguia intacta.

degradation 2Exemplos de processos de degradação  e mudanças ocorridas ao longo do tempo na cobertura florestal.

Agora, é importante enfatizar a discrepância notada pelos pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) para os dois fenômenos (i.e., desmatamento e degradação) que estão atuando para criar fortes distúrbios na paisagem amazônica. Segundo dados levantados pelo Imazon, em janeiro de 2020, enquanto o desmatamento cresceu “meros” 74%, a degradação cresceu vertiginosos 1382%.  

Mas mais importante do que o número estratosférico é saber os fatores causais deste crescimento. Em 2010, participei da publicação de um artigo na respeitada “Remote Sensing” onde eu e meus colegas apresentamos os dados relativos aos impactos causados por exploração de madeira e queimadas no estado do Mato Grosso. Ali ficou demonstrado que, ao contrário do que dizia a maior parte da literatura científica, o processo de degradação florestal não apenas é significativo, como nem sempre é captado por métodos automáticos, como é o caso da maioria dos estudos.

Dez anos depois da publicação daquele estudo, e em meio à vigência de um completo estado de “laissez faire” aplicado pelo governo Bolsonaro nas distintas formas de exploração de recursos florestais e não florestais na Amazônia, não deveria surpreender a ninguém que o montante de floresta degradada supere ao que já foi desmatado.

O principal problema disso é que os representantes do governo Bolsonaro, a começar pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, passem a ter ainda maior dificuldade para justificar o processo de desmanche da governança ambiental brasileiro e o desmantelamento das nossas estruturas de comando e controle que, precariamente, mantinham em níveis “toleráveis” os dois processos (desmatamento e degradação florestal) que agora surgem com números cada vez mais impressionantes.

A consequência do aumento da consciência de que os biomas amazônicas estão mais fragilizados do que se fazia pensar até a pouco vai certamente aumentar a pressão por embargos contra as commodities brasileiras saídas de áreas desmatadas ou degradadas sob os olhares cúmplices do presidente Bolsonaro e seu governo de céticos das mudanças climáticas.

Em tempo: apesar dos estudos sobre degradação florestal existirem em menor quantidade do que aqueles que medem desmatamento puro e simples, isso não quer dizer que neste momento não existam diferentes grupos de pesquisadores (dentro e fora do Brasil) medindo esses dois fenômenos de forma separada para toda a Amazônia brasileira.  Assim, cedo ou tarde (e talvez mais cedo do que tarde) comecemos a ter acesso a artigos científicos mostrando os números. Quando isso acontecer, o certo é que a chama por debaixo da frigideira onde dançam os latifundiários agro-exportadores que vendem soja e carne produzidas na Amazônia vai aumentar, e muito. A ver!

Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima recebe apoio de mais de 1.000 organizações no mundo

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A Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (Task Force on Climate-related Financial Disclosures — TCFD) anunciou hoje que alcançou oficialmente mais de 1.000 apoiadores em todo o mundo para suas recomendações, significando uma grande mudança entre os participantes do mercado ao reconhecerem que a mudança climática apresenta um risco financeiro. Juntas, as organizações do setor privado que são apoiadoras têm uma capitalização de mercado de quase US$ 12 trilhões. Presidida por Michael R. Bloomberg, a Força-Tarefa fornece recomendações para permitir que os mercados abordem o impacto financeiro das mudanças climáticas, aumentando a transparência sobre os riscos e relacionados ao clima e as oportunidades de promover tomadas de decisão financeiras mais bem informadas. Ao declarar publicamente seu apoio à TCFD e suas recomendações, as organizações apoiadoras estão demonstrando que estão tomando medidas para construir um sistema financeiro mais resiliente por meio de divulgações relacionadas ao clima.

“Atingir esse marco importante para a TCFD mostra que empresas e organizações globais estão aceitando que o risco climático é um risco financeiro. O anúncio de hoje também destaca a demanda significativa dos investidores por informações que os ajudarão a mitigar riscos potenciais e avaliar oportunidades na transição para a economia de baixo carbono”, afirmou Mary Schapiro, chefe do Secretariado da TCFD. “O momento e o apoio dos setores público e privado são críticos, à medida que concentramos nossos esforços na implementação das recomendações da TCFD.”

“Apenas dois anos após a publicação das recomendações finais da TCFD, a demanda por divulgações financeiras relacionadas ao clima disparou e está sendo atendida”, disse Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra. “A TCFD está ajudando a trazer riscos e resiliência climáticos ao coração da tomada de decisões financeiras, tornando mais abrangente e comparável a divulgação sobre o clima, ajudando a popularizar o objetivo de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius. Neste ano de ação climática, vamos aproveitar o momento para melhorar a qualidade e a quantidade de divulgações e criar um mercado a caminho da descarbonização”.

Os 1.027 apoiadores, com sede em 55 países, abrangem os setores público e privado e incluem organizações como corporações, governos nacionais (Bélgica, Canadá, Chile, França, Japão, Suécia e Reino Unido), ministérios, bancos centrais, reguladores, bolsas de valores e agências de classificação de crédito. Entre os apoiadores estão 473 empresas financeiras responsáveis por ativos de US$ 138,8 trilhões. Os apoiadores do setor privado incluem gestoras de investimentos, bancos e empresas de segmentos como produtos químicos, energia, seguros, metais e mineração, petróleo e gás, e transporte, entre outros.

“À medida que começamos a testemunhar uma grande mudança do capital em direção à sustentabilidade, com o investimento em ESG tornando-se padrão, é cada vez mais crítico para as empresas divulgar riscos e oportunidades relacionados ao clima. A estrutura de divulgação da TCFD é benéfica tanto para empresas que buscam capital a longo prazo como investidores que desejam tomar decisões bem informadas. No ano passado, o GPIF publicou seu primeiro relatório alinhado às recomendações da TCFD, sobre nosso portfólio global de US $ 1,6 trilhão, e também incentivamos nossos gerentes de investimentos a unirem-se em torno do nosso objetivo, compartilhando suas análises de riscos relacionadas ao clima e oportunidades das carteiras que gerenciam para nós. É necessário que todas as partes de nossa cadeia de investimentos apoiem a TCFD para que proprietários de ativos possam acessar adequadamente o nosso portfólio. Estou convencido de que a TCFD continuará evoluindo como uma estrutura importante para essa divulgação e recomendo fortemente que todas as empresas participem”, disse Hiro Mizuno, diretor executivo e CIO do GPIF.

A ampla implementação das recomendações da TCFD dará aos investidores, credores e subscritores de seguros as informações necessárias para entender os riscos e as oportunidades das empresas em relação às mudanças climáticas. Além disso, a divulgação de acordo com as recomendações ajuda os mercados globais a se ajustarem adequadamente aos efeitos dessas mudanças. As empresas podem se beneficiar da implementação das recomendações da TCFD de várias maneiras:

•Acesso mais fácil ou melhor ao capital aumentando a confiança dos investidores e credores de que os riscos relacionados ao clima da empresa são avaliados e gerenciados adequadamente

•Melhor capacidade de atender aos requisitos de divulgação existentes, relatando informações relevantes em registros financeiros

•Maior conscientização e entendimento dos riscos e oportunidades relacionados ao clima dentro da empresa, resultando em melhor gerenciamento de riscos e planejamento estratégico mais bem informado

•Atender proativamente à demanda crescente dos investidores por informações relacionadas ao clima

Empresas e outros podem expressar seu interesse em apoiar as recomendações da TCFD por meio deste formulário online. A lista completa das organizações atuais que apoiam o trabalho da Força Tarefa pode ser visualizada aqui, e depoimentos de incentivo aqui. As empresas que consideram implementar as recomendações da TCFD são encorajadas a visitar o TCFD Knowledge Hub, onde podem acessar mais de 520 recursos, incluindo estudos de caso e uma plataforma de e-learning.

Sobre a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD)

Em 4 de dezembro de 2015, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) estabeleceu a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), liderada pela indústria e com Michael R. Bloomberg como Presidente. Atualmente, a Força-Tarefa tem quatro Vice-Presidentes e 33 membros no total. Solicitou-se à TCFD que desenvolvesse divulgações financeiras voluntárias e consistentes relacionadas ao clima, para uso das empresas no fornecimento de informações a credores, seguradoras, investidores e outras partes interessadas, que foram publicadas no Relatório de Recomendações da TCFD em 29 de junho de 2017. Mais informações sobre a TCFD podem ser encontradas em www.fsb-tcfd.org.

Está nas mãos dos ministros do STF decidir o que é mais importante ao país: o lucro do mercado do veneno ou a saúde da população

Locals Trade Fruit and Vegetables at a Food Market in São Paulo, BrazilFarra do veneno: bom para as empresas de agrotóxicos, péssimo para a população © Bárbara Veiga/ Greenpeace

Por Greenpeace Brasil

A necessidade de cortes nos gastos públicos é um elemento central no discurso do atual governo  —  a bola da vez é a reforma tributária. E é isso que faz parecer tão absurdo o fato de que o mesmo Brasil que quer cortar gastos ou aumentar impostos às custas do bem-estar da população, há tempos, deixa de arrecadar impostos na comercialização de agrotóxicos. Isso precisa mudar!

No próximo dia 19/02, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) irão julgar se algumas das medidas que possibilitam a isenção fiscal aos agrotóxicos são mesmo constitucionais. A ação que questiona esses benefícios (ADI 5553) argumenta que agrotóxicos provocam grandes impactos na nossa saúde e no meio ambiente, o que vai contra a Constituição Federal de 1988. Por isso, não poderiam ser considerados produtos fundamentais ao desenvolvimento do país nem ter seu comércio facilitado.  

Para se ter uma ideia, apenas em 2017 o país deixou de arrecadar cerca de R$ 10 bilhões em impostos federais e estaduais, segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Esse valor é cerca de quatro vezes o orçamento total previsto para o Ministério do Meio Ambiente para 2020 (R$ 2,7 bilhões) e mais que o dobro do que o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou em 2017 para tratar pacientes com câncer (R$ 4,7 bilhões).

Essa aliança entre o poder público e as agroquímicas beneficia poucos e afeta toda a população. Uma estimativa aponta que cada dólar gasto com agrotóxicos (o equivalente a R$ 4,36 na cotação de hoje) gera um custo de até US$ 1,28 na saúde (R$ 5,58), somente para tratamento de casos de intoxicação aguda, cujos efeitos são imediatos. 

Nós do Greenpeace apoiamos a ADI 5553, por também entendermos que facilidades dadas a agrotóxicos mantêm o Brasil na contramão de uma agricultura mais justa e saudável. Enquanto o governo deixa de arrecadar bilhões de reais com subsídios para esses venenos, os gastos com saúde pública aumentam, assim como os danos ao meio ambiente, e só quem ganha com isso são as empresas de químicos.

Se a isenção acabar, minha comida ficará mais cara?

Locals Trade Fruit and Vegetables at a Food Market in São Paulo, Brazil

Mais saúde, menos agrotóxicos. Foto: Bárbara Veiga/Greenpeace

Não é verdade que a nossa comida ficará mais cara se as isenções fiscais aos agrotóxicos acabarem. Esse argumento tem sido utilizado pelos defensores da medida e do agronegócio, para desqualificar o debate. 

Em primeiro lugar, a maior parte do veneno usado na agricultura brasileira é destinada às chamadas commodities, ou seja, produtos que são exportados, como soja, milho, cana-de-açúcar e algodão. 

Portanto, mexer com o imposto é mexer com o lucro de quem comercializa agrotóxicosnão de quem compra o alimento básico de cada dia, como o arroz e o feijão. Como são commodities, o preço é regulado pelo mercado lá fora. Não há como repassar o custo para o preço do produto. 

Em segundo lugar, precisamos corrigir uma lógica equivocada. Esses benefícios fiscais só existem porque, atualmente, agrotóxicos são considerados produtos essenciais à população. Mas o correto seria o governo conceder mais subsídios aos alimentos que vão para o prato dos brasileiros e, claro, criar políticas de incentivo e benefícios fiscais a produtores que produzem com menos agrotóxicos, o que garantiria preços justos para toda a população. 

“Acabar com parte desses benefícios aos venenos seria um avanço imenso rumo a políticas agrícolas melhores. É assim que construímos uma agricultura mais moderna, mudando velhas regras que não fazem sentido para o bem comum, e abrindo espaço para o novo e para medidas mais justas”, avalia Marina Lacôrte, coordenadora da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace. 

O que você pode fazer?

1. Escreva para os ministros do STF pedindo que julguem inconstitucionais as normas que concedem benefícios fiscais para o mercado de agrotóxicos. É pela nossa saúde, pelo meio ambiente e pela economia do Brasil. 

Ministro Celso de Mello: gabcob@Stf.Jus.Br 

Ministro Marco Aurélio: audienciagabmmam@stf.jus.br   

Ministro Gilmar Mendes: memoriaisgilmarmendes@stf.jus.br 

Ministro Ricardo Lewandowski: gabinete.mrl@stf.jus.br 

Ministra Cármen Lúcia: gabcarmen@stf.jus.br 

Ministro Luiz Fux: gabineteluizfux@stf.jus.br 

Ministra Rosa Weber: convites-minrosaweber@stf.jus.br 

Ministro Luís Roberto Barroso: gabmlrb@stf.jus.br 

Ministro Edson Fachin: gabineteedsonfachin@stf.jus.br 

Ministro Alexandre de Moraes: gabmoraes@stf.jus.br 

ADI 5553 – Entenda o caso no STF

Em 2016, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5553 foi protocolada pelo PSOL questionando alguns dos benefícios aos agrotóxicos que se valem da máxima de que esses produtos devem ser considerados fundamentais ao desenvolvimento do país e, por isso, devem ter seu comércio facilitado.

Essa ação questiona se os benefícios concedidos a um produto dessa natureza estão alinhados aos princípios da nossa Constituição. Segundo a ADI 5553, o subsídio a substâncias tóxicas estimula um consumo intensivo que viola os direitos fundamentais à saúde e ao ambiente equilibrado, além de onerar os cofres públicos.A ADI 5553 é apoiada por organizações como Terra de Direitos, Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida; Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco); Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec); Associação Brasileira de Agroecologia (ABA); Fian Brasil; Defensoria Pública de São Paulo e Greenpeace.O que é uma ADI?

Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) servem para contestar uma norma ou lei ativa, caso algo esteja em desacordo com o principal conjunto de normas que rege nossa sociedade — nossos direitos e deveres: a Constituição Brasileira.

Entenda, neste blog, quais os tipos de isenções fiscais que os agrotóxicos têm: greenpeace.org/brasil/blog/um-privilegio-toxico-e-perigoso

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Os refugiados ambientais de Atafona

Mar já engoliu casas de 15 quarteirões e vai obrigando antigos moradores de balneário a mudarem de casa, de cidade e de profissão

ata 5Imóvel destruído pelo mar em Atafona: mais de 300 casas engolidas em 15 quarteirões criaram centenas de refugiados ambientais em balneário no litoral norte do Estado do Rio (Foto: Carolina Gomes)

Por Carolina Gomes para o Projeto Colabora

Ronaldo Cravo era conhecido no Balneário de Atafona, em São João da Barra, a cerca de 350 quilômetros ao norte da cidade do Rio, pelo seu famoso pirão de peixe e pelas frases otimistas nas paredes de seu bar, o “Não Me Viu”, tomado três vezes pelo avanço do mar. Em meados dos anos 1990, o comerciante e cozinheiro, nascido e criado da Praia de Atafona já havia perdido também duas casas no balneário: foi dormir nas ruas e virou alcoólatra.

“Vi essa praia crescer e estou vendo o mar comer de volta. Eu tinha uma palafita dentro do manguezal, e, na frente dele, tinham cinco ruas de casas com cooperativas, frigoríficos, postos… Tinha vida. De uns anos para cá, tudo foi levado pelo mar e ninguém toma providência”, disse Ronaldo ao dar entrevista, em outubro, sobre sua vida de refugiado ambiental. Havia se recuperado com a ajuda dos filhos e estava há 18 anos sem consumir bebida alcoólica. Morava numa parte do imóvel onde mantinha o bar na mesma Avenida Atlântica que margeia a praia, mas via o mar se aproximando de novo.

Cravo morreu de infarto, aos 63 anos, sem ver a solução para o avanço do mar, cada vez mais feroz, mudando a geografia do Pontal de Atafona e bloqueando a foz do Rio Paraíba do Sul. “A água do poço, de tão salgada, não serve nem para dar banho nos cachorros, porque a veia do mar já está aqui por baixo”, lamentava o cozinheiro, enquanto recordava vizinhos e amigos, que trocaram de cidade.

ata 4Ronaldo Cravo, em entrevista pouco antes de sua morte: duas casas e o bar perdidos para o mar em Atafona (Foto: Carolina Gomes)

A vida de Ronaldo foi uma das centenas afetadas pelo avanço do mar. Moradores da região ainda são obrigados a deixar suas casas, e pescadores estão com dificuldades para se manter em atividade em função da erosão costeira, que ocorre desde a década de 1970 e vem se agravando, nos últimos anos, com as mudanças climáticos. São os refugiados ambientais do Balneário de Atafona, onde mais de 300 casas, distribuídas por 15 quarteirões, já foram levadas pelo mar.

De acordo com a ONG Oxfam, os desastres climáticos tornaram-se a principal causa da deslocação de pessoas em todo o mundo na última década e forçaram mais de 20 milhões por ano a deixarem as suas casas. Em estudo apresentado no dia da abertura da Cúpula do Clima da ONU em Madri, a organização aponta que atualmente é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos”.

Ter a casa inundada não é novidade para Mary Lúcia Tavares, que mora à beira da praia em Atafona. Nas últimas semanas, o mar avançou mais e invadiu novamente sua residência. Ela precisou esperar que a água escoar e as escavadeiras retirarem areia dos portões; a Defesa Civil vistoriou o lugar e liberou a permanência dos moradores, por ora. A dona de casa já viu muitos vizinhos serem levados para residências sociais pela prefeitura, após o mar abalar a estrutura das casas.

Como todos os moradores mais antigos, a dona de casa lembra dos imóveis que foram sendo levados pelo mar: o farol da Marinha, o prédio da Colônia de Pesca, bares, pequenas lojas, a Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, o posto policial, um posto de combustível para os barcos. Em 2008, a erosão costeira provocou a queda do único prédio de Atafona, com 48 apartamentos.

ata 3O mar já visitou a casa de Mary Lúcia onde os móveis estão sobre caixas plásticas: “Nesses dias, ninguém dorme, fica todo mundo andando pela rua. O mar é engraçado, tem hora que ele tá lá longe, daqui a pouco ele tá jogando aqui pertinho” (Foto: Carolina Gomes)

Mary Lúcia sabe que sua casa, em que os móveis estão sobre caixas plásticas, é uma das próximas. Ela sofre de ansiedade e dorme com a ajuda de remédios, já que a preocupação não lhe permite descansar, atenta para acordar os vizinhos quando a água invadir as casas novamente. “Nesses dias, ninguém dorme, fica todo mundo andando pela rua. O mar é engraçado, tem hora que ele tá lá longe, daqui a pouco ele tá jogando aqui pertinho”, conta.

Doutor em Geologia e Geofísica Marinha pela UFF, o professor Eduardo Bulhões explica que o problema de Atafona acontece por causa do déficit de areia na praia. “Todas as praias se equilibram com areias que chegam e que saem. Em Atafona, esse equilíbrio foi quebrado, então entra menos areia do que sai e, por isso, a praia entra em um processo de erosão extrema”, explica. Esse desequilíbrio foi quebrado pelo processo de urbanização e de ocupação do litoral e das margens do Rio Paraíba do Sul, que deságua no mar em Atafona.

O geólogo e geofísico acrescenta que Atafona sofre déficit de sedimento, pois o Paraíba do Sul não consegue repor a quantidade de areia necessária para manter o equilíbrio. “O rio não consegue fazer isso desde a década de 80, sobretudo após construções de barragens ao longo do seu leito. Isso fez com que ele não consiga empurrar a areia para praia, ao passo que o mar continua removendo essa areia”, esclarece Eduardo Bulhões.

Foz fechada

O desequilíbrio ambiental teve novo ápice no final de outubro quando a foz do Rio Paraíba do Sul, em Atafona, foi fechada pela areia. A água do rio só está desaguando no Oceano Atlântico no vizinho município de São Francisco de Itabapoana, através de um braço menor do curso d’água. O desequilíbrio não é apenas ambiental, mas também econômico, já que hoje os pescadores – a maioria da população de Atafona vive da pesca – precisam seguir até São Francisco do Itabapoana para ir para alto-mar. Muitos voltam da pesca sem esperança.

À beira do rio, no Pontal de Atafona, ficam frigoríficos de peixes onde as embarcações atracam, descarregam, enchem o tanque de gasolina e o depósito de gelo, antes de os pescadores saírem de novo para o alto-mar e voltarem até uma semana depois. Nos últimos anos, apenas barcos com menos de 10 toneladas conseguiam atravessar a foz do Rio, já que a areia estava assoreada na foz do rio o que já fazia com que alguns barcos atolassem na barra.

ata 2O pescador Nilson Ferreira e o drama de quem está sofrendo com a mudança climática: fechamento da foz do Rio Paraíba do Sul dificulta ainda mais a vida de quem vive da pesca (Foto: Carolina Gomes)

Nilson Ferreira, de 44 anos, pesca desde os 8 anos de idade. Seu pai o incentivou a ser pescador, mas ele pede para que seus filhos não sigam na profissão. “A renda caiu porque não consigo mais sair com tanta frequência por causa do fundo do rio. Tem dia que saio às quatro da manhã e volto sem nada. Não temos mais acesso ao cais para carregar e descarregar a mercadoria. Às vezes fico até devendo, as contas do mês não fecham”, lamenta Nilson, que pensa em mudar de ramo ou se mudar de Atafona, como fizeram muitos outros pescadores do pontal.

O Rio Paraíba do Sul sofre com a redução de sua vazão, o assoreamento, o desmatamento nas margens e um processo de salinização na foz, que causa prejuízo às produções pesqueiras, além de extinguir manguezais. Os ambientalistas alertam que, se, de um lado, o Paraíba do Sul perde vazão pela ação humana, do outro, o aumento do nível dos oceanos, provocado pelo aquecimento global e as mudanças climáticas, faz o mar subir de forma mais intensa e violenta em Atafona.

Sem solução à vista

Pesquisadores observam a região há décadas, mas não há consenso sobre a melhor forma de resolver o problema. Em 2015, estudo realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias apontava para necessidade de construção de nove espigões costeiros – estruturas para conter o mar – com comprimento de 240 metros cada e espaçados entre si para compartimentar a praia e evitar a perda de areia, além de um aterro de 100 metros de largura, a transferência de um volume de areia de 2.650.000 metros cúbicos e de um volume de pedra de 262.650 metros cúbicos. Esse projeto estava orçado, na ocasião em cerca de R$ 100 milhões.

Em 2018, o próprio professor Eduardo Bulhões apresentou, a pedido da Defensoria Pública de Barra de São João, estudo e proposta para enfrentar a erosão costeira em Atafona, que parte da dragagem e do bombeamento hidráulico de areias compatíveis de dentro da calha fluvial do Paraíba do Sul para o pontal de Atafona. Esta “transposição artificial de areias” – como é chamada no estudo – seria complementada pelo espalhamento deste material por uma faixa de 1,5 km com a formação de dunas artificiais. O custo deste projeto ficaria entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

ata 1Restos de casas destruídas pelo mar em Atafona: combinação de erosão costeira e mudanças climáticas (Foto de Oscar Valporto)

Nenhum dos projetos avançou. Em março de 2019, a maré subiu quase dois metros e foram necessários mobilizar caminhões de areia para formar uma barragem e evitar a chegada da água em pontos mais vulneráveis da praia. Em julho, uma nova subida brusca da maré alagou mais de uma dezena de casas. No fim de outubro, parte do asfalto desmoronou na esquina da Avenida Atlântica com a rua Elias Beirute por conta da erosão costeira.

Os moradores temem que Atafona se transforme numa nova Ilha da Convivência. O lugar fica a 850 metros do pontal e era residência de pescadores. Já chegou a reunir 400 famílias, mesmo com a água potável chegando em barcos e sem luz elétrica. Hoje, o panorama é diferente. Quem visita o local não vê nada além de uma faixa de areia. Até o mês passado, chegar até a Ilha só era possível de barco, entretanto, agora que foz do Rio Paraíba do Sul secou, o trajeto pode ser feito a pé. “O rio secou, está todo mundo revoltado e com medo que seque tudo, e os barcos não consigam sair mais”, conta Mary Lúcia

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

‘A grande mentira verde’: como a destruição da Amazônia vai além do desmatamento

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O tamanho da destruição atual da Amazônia é bem maior do que se acredita.

Atualmente, o bioma contém a maior e mais diversa floresta tropical do mundo, ocupa mais de 6,8 milhões de km2 e abriga 33 milhões de pessoas em nove países.

Em 2018, Brasil Bolívia estiveram entre os cinco países que mais perderam florestas primárias, as matas virgens, no mundo, de acordo com a organização internacional Global Forest Watch.

A grilagem de terras, a expansão de fronteiras agropecuárias, a mineração e a exploração econômica descontrolada, entre outros fatores, são consideradas as principais atividades responsáveis pela perda de floresta.

Mas o desmatamento é só uma parte do problema.

Mapa de localização do bioma amazônico

“Falar só de desmatamento quando falamos da destruição da Amazônia é o que eu chamo de a grande mentira verde”, diz à BBC News Brasil o climatologista Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“A perda de floresta amazônica até hoje é muito maior do que os quase 20% de desmatamento dos quais se fala nos meios de comunicação.

Nobre e outros pesquisadores acreditam que, para ter um panorama mais completo da destruição da floresta, é preciso considerar também a degradação.

Degradação é o fenômeno que acontece quando o acúmulo de perturbações em um trecho de floresta (incêndios, extração de madeira e caça descontrolada, por exemplo) retira daquele ecossistema sua capacidade de funcionar normalmente.

Em 2019, por exemplo, Brasil e Bolívia também viram aumentar dramaticamente o número de incêndios na região amazônica.

“A questão é que a degradação tem um papel importante na maneira como a floresta muda, e nós não estamos vendo. Não há nenhum tipo de política para evitar a degradação”, diz à BBC News Brasil o botânico Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e pesquisador da Rede Amazônia Sustentável (RAS).

“Assim como uma pessoa saudável tem menos chances de pegar uma gripe, uma floresta saudável tem menos chance de queimar e de sucumbir às mudanças climáticas. O que a degradação faz é deixar a floresta cada vez mais vulnerável”, explica.

Entre as muitas funções da Amazônia está ajudar a América do Sul — e todo o planeta — a equilibrar o clima, distribuir as chuvas pela região e capturar quantidades enormes de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases causadores do efeito estufa.

São papéis fundamentais para mitigar os efeitos da mudança climática. “Podemos ver essas árvores nas fotos de satélite, mas para a função climática essas florestas degradadas já não existem mais”, diz Antonio Nobre.

bbc 12Os dados de destruição da floresta costumam mostrar o corte raso de árvores, mas não a degradação. Getty

O avanço da degradação e o desmatamento estão empurrando o ecossistema para um “ponto de não retorno” no qual ele perderia sua capacidade de funcionar, de acordo com os cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, dois dos principais especialistas em Amazônia no mundo.

Se a situação não for revertida, dizem eles, os impactos dessas mudanças poderiam se acelerar, com consequências catastróficas.

Nem toda perda de floresta é igual

Quando falamos em dados de desmatamento, nem sempre falamos da mesma coisa.

Uma maneira de medir o desmatamento é levando em conta todas as áreas da floresta em que a vegetação foi completamente eliminada. É o que se chama perda de cobertura florestal.

Só em 2018, a perda de cobertura florestal em toda a Amazônia chegou a 4 milhões de hectares (40 mil km2), segundo dados da Global Forest Watch.

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Mas algumas destas áreas desmatadas são de florestas primárias, aquelas que se encontram em seu estado original — não afetadas, ou afetadas o mínimo possível, pela ação humana. Por serem mais antigas, elas têm mais diversidade de espécies e guardam mais carbono.

As florestas secundárias, por sua vez, são todas as que estão em recuperação de processos de desmatamento ou de degradação grave. Mas elas podem levar décadas e, em alguns casos, séculos, para voltarem a ter as características que tinham quando primárias se forem mantidas intocadas, o que também é raro.

Em 2018, a Pan-Amazônia, como é chamado o conjunto do bioma em todos os países, perdeu cerca de 1,7 milhão de hectares de floresta primária, segundo os dados produzidos pelo sistema de monitoramento da Universidade de Maryland, nos EUA, e publicados pelo Global Forest Watch.

Isso significa que pouco mais de  de mata virgem foram desmatados a cada minuto em 2018.

A perda pode parecer insignificante perto da imensidão da floresta (representa cerca de 0,32% do total), mas não é uma questão só quantitativa e, sim, qualitativa.

“Essa forma de medir o desmatamento é importante porque as florestas primárias são muito mais ricas e diversas em biodiversidade”, explica Jos Barlow, da Universidade de Lancaster.

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Uma floresta é muito mais do que suas árvores. É o produto de todos os processos e interações entre milhares de espécies de plantas e animais que coexistem ali. Por isso a floresta amazônica é insubstituível.

Muitas pessoas acham que para compensar o que perdemos na Amazônia basta plantar árvores em outros lugares. Mas isso está errado.”Erika Berenguer, Universidade de Oxford

“Cada hectare desmatado significa que uma parte do ecossistema deixa de funcionar, e isso afeta todo o resto”, diz à BBC News Brasil a pesquisadora Erika Berenguer, especialista em florestas tropicais da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da RAS.

Nos últimos dez anos, as taxas de perda de florestas primárias se mantiveram altas ou voltaram a aumentar na maioria dos países amazônico

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Nas florestas primárias vivem árvores que podem ter centenas ou até mesmo milhares de anos de idade. Elas cumprem um papel essencial na batalha contra as mudanças climáticas, já que agem como um enorme armazém de dióxido de carbono.

Uma pequena parte do CO2 que as árvores absorvem no processo de fotossíntese é emitida de volta para a atmosfera durante sua respiração. A outra parte é transformada em carbono e usada na produção dos açúcares que a planta necessita para seu metabolismo.

“Medimos a quantidade de carbono em uma árvore pela espessura do tronco. O carbono é armazenado ali, em forma de biomassa”, explica Erika Berenguer.

Por isso, quanto maior e mais antiga a árvore, mais carbono ela costuma armazenar.

bbc 9As queimadas e o corte de madeira fazem com que o carbono armazenado nas árvores se transforme em CO2 e volte à atmosfera. Getty

Segundo Berenguer, uma árvore grande (com pelo menos três metros de circunferência) pode armazenar cerca de 3 a 4 toneladas de carbono.

Isso equivaleria a cerca de 10 a 12 toneladas de dióxido de carbono — ou a média que um carro de passeio emite durante quatro anos.

Um dos efeitos do desmatamento é liberar o CO2 guardado na floresta de volta na atmosfera — seja pela queimada ou pela decomposição da madeira cortada, processos que transformam o carbono das árvores novamente em gás.

Por este motivo, os cientistas temem que a região deixe de ser um armazém de carbono e se transforme em um importante emissor de CO2, acelerando os efeitos da mudança climática. Um estudo recente mostra que cerca de 20% do total da Amazônia já emite mais dióxido de carbono do que absorve.

A destruição (in)visível da floresta

bbc 8Quando a floresta está degradada, fica mais vulnerável a incêndios e a mudanças climáticas. Alexander Leer/RAS

Os sistemas que produzem imagens do desmatamento consideram geralmente o corte raso de árvores, ou seja, áreas em que a vegetação original foi totalmente removida.

No entanto, cientistas como Antonio Nobre acreditam que só o desmatamento não dá corretamente a dimensão da perda. Para isso, seria preciso ter também dados sobre a degradação.

Esse fenômeno é um produto dos eventos climáticos — como as secas — e da ação humana que deixam a floresta mais pobre e vulnerável. Mesmo quando, vista de cima, ela ainda parece seguir em pé.

Atividades como o corte de madeira ilegal e eventos recentes como os incêndios de 2019 fazem parte do problema.

“O solo fica mais frágil e mais seco por causa da remoção da vegetação, ainda que não seja total. Isso muda o microclima da floresta. Fica mais fácil incêndios se espalharem, por exemplo, porque o chão esquenta mais rápido”, explica Alexander Lees, professor de Ecologia Tropical na Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido.

No Brasil, entre os meses de janeiro e novembro, o fogo arrasou 70.698 km² (mais de 7 milhões de hectares) de Amazônia. Na Bolívia, o incêndio atingiu mais de 2 milhões de hectares do bioma.

Uma área de floresta degradada também perde, por exemplo, a capacidade de reciclar água da chuva.

“Somando o corte raso e a degradação, mais da metade da Amazônia já tem seus  ao clima da região comprometidos”, afirma Antonio Nobre.

Nenhuma árvore mais pode tombar na Pan-Amazônia.”Antonio Nobre, Inpe

 

bbc 7Poucos países amazônicos divulgam dados anuais de degradação em suas florestas.

Segundo o climatologista, as áreas degradadas da Amazônia chegam a ser até duas vezes maiores que as desmatadas.

Para fazer essa afirmação, ele se baseia no fato de que, só no Brasil, entre 2007 e 2016, foram contabilizados 14,6 milhões de hectares (146 mil km2) degradados na Amazônia brasileira.

Isso é quase o dobro da área desmatada no mesmo período, que foi de 7,5 milhões de hectares (75 mil km2), de acordo com dados do Inpe.

Um relatório recente do governo da Colômbia afirma que entre 2012 e 2015, a região amazônica no país perdeu 187.955 hectares por desmatamento e 414.605 hectares por degradação ​​— mais que o dobro.

Os dados disponíveis, segundo Antonio Nobre, fazem pensar que a área da Amazônia destruída pela ação humana é muito maior do que se acredita.

Jos Barlow, da Universidad de Lancaster, concorda.

“Sabemos que até os números oficiais que temos são subestimados, porque geralmente só se mede a degradação mais grave.”

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Mas por que não se fala mais a respeito disso?

“É um fenômeno mais difícil de medir. Mesmo quando é possível enxergar a degradação por imagens de satélite, você precisa ter dados sobre o que está acontecendo no solo para entender se aquela área está mais ou menos degradada, se está se recuperando”, explica o pesquisador Alexander Lees.

Entre os países amazônicos, só o Brasil publica sistematicamente dados anuais de degradação.

No entanto, cientistas de toda a região estão tentando medir o fenômeno, para fazer um retrato mais amplo do estado atual do bioma.

bbc 5O modelo que projeta um ponto de inflexão da Amazônia nos próximos 20 a 30 anos ainda não inclui dados de degradação. Getty

Se o desmatamento e a degradação continuarem nos ritmos atuais, a Amazônia pode deixar de funcionar como um ecossistema tropical em breve, mesmo que parte dela continue de pé.

Atualmente, pouco mais de 18% de toda a floresta original foi desmatada, de acordo com dados do projeto de monitoramento Mapbiomas, parceria entre universidades, ONGs, institutos de todos os territórios amazônicos e o Google.

O número é perigosamente próximo do que o biólogo americano Thomas Lovejoy e o climatologista brasileiro Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP, chamam de tipping point (ponto de não retorno, em inglês).

Eles se referem ao momento em que o desmatamento, em conjunto com as mudanças climáticas e a vulnerabilidade a incêndios mudarão completamente a Amazônia.

Esse ponto ocorrerá, segundo eles, quando entre 20% e 25% da floresta original estiverem destruídos.

De acordo com os cálculos de Nobre e Lovejoy, o tipping point pode acontecer nos próximos 20 a 30 anos, mantida a taxa atual de cerca de 1,5 milhão de hectares (15 mil km2) desmatados em média por ano em toda a região.

“Se chegarmos a esse ponto, aumentará a duração da estação seca e a temperatura da floresta. A partir daí, as árvores começarão a morrer de maneira acelerada, e isso criará um ciclo vicioso. O que era floresta tropical ficará parecido com o cerrado brasileiro, mas como uma espécie de savana pobre, sem a rica biodiversidade do cerrado”, diz Carlos Nobre à BBC News Brasil.

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No estudo, os cientistas projetam um cenário para 2050 (confira na imagem acima) no qual a Amazônia perdeu 20% de floresta e está mais vulnerável a incêndios, em que a temperatura da região aumentou 3°C e em que aumentou cerca de 30% a concentração de CO2 na atmosfera.

“Neste cenário, teríamos até 60% da floresta transformada nesta savana pobre”, afirma o pesquisador.

A projeção, no entanto, ainda não inclui detalhadamente a degradação, pela dificuldade de conseguir dados da Pan-Amazônia.

Isso significa que a floresta poderia estar ainda mais próxima do ponto de não retorno. Segundo Nobre, há planos de incluir o fenômeno em uma próxima análise.

Mas o que acontece após o ponto de não retorno?

Menos chuva

Os cientistas ainda não sabem com precisão todos os possíveis efeitos de uma transformação brusca da floresta amazônica.

Mas, segundo as estimativas de Carlos Nobre, a temperatura na região poderia aumentar de 1,5°C a 3°C nas regiões que se tornarem savanas pobres. Isso sem contar o aumento já esperado com o aquecimento global.

Em 2012, um estudo da Universidade de Leeds afirmou que o desmatamento pode fazer com que as chuvas na Amazônia diminuam cerca de 12% durante a estação chuvosa e 21% na estação seca até 2050.

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Legenda:A transformação da Amazônia em savana pode ter um efeito catastrófico para a economia da América do Sul. Marizilde Crupe/RAS

Com menos  na floresta, diminuiríam também as chuvas na bacia do rio da Prata, e a temperatura no Centro-Oeste brasileiro poderia aumentar em até 2°C.

Isso teria um efeito catastrófico para a economia regional. Menos chuva e mais calor significaria menos água para a pecuária e para cultivos como a soja.

“Certamente, haveria diminuição da produtividade da agropecuária nas partes da região que são mais importantes para essas atividades”, diz Carlos Nobre.

Mais doenças

Estudos feitos na Amazônia brasileira e em outras florestas tropicais do mundo relacionam o desmatamento a um aumento na incidência de doenças transmitidas por mosquitos, como a malária e a leishmaniose.

“Em um ambiente rico em biodiversidade, a proliferação do vírus se dilui, porque há mais espécies que podem ser incubadoras.  como os mosquitos têm uma oferta de alimento grande”, disse a bióloga Márcia Chame, pesquisadora da Fiocruz, à BBC News Brasil.

O processo de queimadas e degradação faz com que os bichos busquem outras fontes alimentares, explica Chame. Isso normalmente aproxima o ciclo de algumas doenças das cidades.

A perda de áreas de floresta pode fazer com que mosquitos transmisores de vírus tenham maior contato com humanos. Getty

“Não sabemos ainda o que vai acontecer, mas temos elementos para dizer que, com menos floresta, há um risco alto de termos mais transmissão em humanos”, alerta a bióloga.

O aumento da temperatura causado pelas mudanças na floresta também pode provocar mais mortes e internações por doenças cardiovasculares e respiratórias relacionadas ao calor, segundo a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Rede Brasileira de Pesquisas em Mudanças Climáticas.

“Mesmo mantendo as condições que temos hoje, a temperatura na região amazônica poderia aumentar até 8°C, somando o desmatamento e o aquecimento global, a partir de 2070. Com a substituição da floresta por outro ecossistema, esse incremento poderia ser maior ou acontecer bem antes”, adverte.

É possível evitar o ‘tipping point’?

De acordo com Carlos Nobre, há uma maneira de prevenir a transformação da floresta em savana:

“O que precisamos fazer imediatamente é adotar uma política de desmatamento zero na Pan-Amazônia e, junto com ela, um grande programa de restauração florestal no sul, no sudeste e no leste da Amazônia, que são os trechos mais vulneráveis”, afirma.

“Se conseguíssemos reflorestar 60 ou 70 mil km2 dessa grande área, onde a estação seca já está mais longa, poderíamos fazer a floresta voltar a funcionar melhor ali, ela ficaria mais resiliente.”

O objetivo não parece fácil de ser atingido no futuro próximo.

bbc 1Em toda a Amazônia há cerca de 100 tribos indígenas com as quais há pouco ou nenhum contato. Getty

Em setembro de 2019, representantes de sete países amazônicos — sem a presença de Venezuela e Guiana Francesa — se reuniram em Leticia, na Colômbia, com um objetivo de criar uma agenda de prevenção de crises ambientais como os incêndios recentes.

O resultado foi o Pacto pela Amazônia, um acordo de 16 medidas não obrigatórias, mas que indicam um compromisso dos países contra o avanço da destruição da floresta. No entanto, o texto não coloca metas específicas para a redução do desmatamento, nem para um plano de reflorestamento.

Todos os políticos falam a frase célebre: preservação sim, mas com desenvolvimento. Mas está escondido na palavra desenvolvimento um modelo que só consegue ver a atividade econômica sem a floresta. Isso precisa mudar, e precisa ser agora.”Carlos Nobre, USP

Créditos

Reportagem: Camilla Costa

Texto: Camilla Costa e Carol Olona

Design e gráficos: Cecilia Tombesi

Programação: Marta Martí e Marcos Gurgel

Estimativas do gráfico sobre espécies em 1 hectare de Amazônia: Jos Barlow y Alexander Lees, da Rede Amazônia Sustentável, com base em estudos científicos (https://doi.org/10.6084/m9.figshare.10104368).

Agradecimentos: Carlos Nobre, Antonio Nobre, Rede Amazônia Sustentável, Rede Amazônia de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), Júlia Jacomini, Gustavo Faleiros, Infoamazônia, Thiago Medaglia, Erika Berenguer, Rodrigo Botero, Mikaela Weisse, Global Forest Watch.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela BBC News Brasil [Aqui!].