Vidas seguem sendo queimadas nos campos de cana para alimentar o lucro de poucos

Há alguns anos atrás fui contactado por um advogado que cuidava dos interesses da família da trabalhadora rural Cristina Fernandes dos Santos Dutra que havia morrido em queimada de cana na Fazenda Tocaia, enquanto coordenava uma equipe de 30 trabalhadores que ali trabalhava no perigoso e doloroso trabalho do corte da cana.  O contato, se eu me lembro bem, se deu por causa do atraso no pagamento do ressarcimento decidido pela 3a. Vara do Trabalho da Comarca de Campos dos Goytacazes. Depois de tantos anos, esqueci o nome do advogado que contactou há mais de uma década, e fiquei sem saber se a família da trabalhadora morta recebeu algum tipo de ressarcimento por sua perda.

Eis que agora quase 16 anos depois (afinal, Cristina Fernandes dos Santos Dutra pereceu em uma queimada ocorrida no dia 29/9/2009), eis que outro trabalhador morreu trabalhando em uma área em que uma ocorria na presença de trabalhadores que iriam executar o corte da cana ali plantada.  O nome deste trabalhador era Ivanildo da Silva Felizardo que, apesar dos seus 60 anos, continuava a exercer uma forma de trabalho que é exaustiva, penosa e, de tempos em tempos, mortal.

O mais lamentável é que existe uma lei,  a Lei estadual nº 5.990, de 20 de junho de 2011, que prevê a eliminação gradativa das queimadas em áreas cultivadas com cana de açúcar, cujo limite temporal máximo era o ano de 2024.  Em outras palavras, a queimada que ceifou a vida de Ivanildo Felizardo ocorreu ao arrepio do que termina uma lei vigente.

Como estamos chegando ao período de intensificação das queimadas quando o céu do município de Campos dos Goytacazes é tomado diariamente por imensas colunas de fumaça que despejam fuligem e todo tipo de contaminante ambiental (incluindo compostos mercuriais), a morte de Ivanildo Felizardo é uma espécie de lembrete macabro de uma prática ambiental e socialmente ultrapassada, e que se continua ocorrendo porque os direitos da maioria continuam sendo sacrificados em nome dos interesses de uma ínfima minoria.

O que se espera é que, finalmente, se cumpra a lei, e que se proíba, de uma vez por todas, a  realização de queimadas para a limpeza de campos de cana em nossa região.

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