Obesidade é ameaça crescente para pacientes com doenças renais

Materiais médicos e resultados de exames usados para diagnóstico de doenças renais

Exames laboratoriais ajudam a identificar lesões e medir a função dos rins em pacientes com doenças glomerulares

A obesidade e certas lesões nos rins aceleram a perda da função renal, e a nefrite lúpica — inflamação causada pelo lúpus — tornou-se a forma mais comum de doença glomerular secundária no Brasil. Essas doenças afetam os glomérulos, pequenas estruturas que filtram o sangue e eliminam impurezas. O achado vem de um estudo com 417 pacientes acompanhados por até 25 anos no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), publicado na última sexta-feira (15/8) no Brazilian Journal of Nephrology.

A pesquisa também mostrou queda nos casos de podocitopatias, grupo de doenças que danificam as células filtrantes do rim, e identificou fatores que aumentam o risco de progressão da doença renal crônica — como sobrepeso, cicatrizes no tecido renal (fibrose intersticial/atrofia tubular) e função renal já baixa no início do acompanhamento.

As doenças glomerulares são um conjunto de condições que comprometem a filtragem do sangue e podem levar à perda progressiva da função renal. Elas são classificadas em dois grupos:

  • Primárias, quando a doença começa no próprio rim, sem ligação com outros problemas de saúde.
  • Secundárias, quando são consequência de outras doenças ou condições, como infecções, uso de certos medicamentos, câncer ou enfermidades autoimunes — caso da nefrite lúpica.

O estudo analisou dados clínicos, laboratoriais e de biópsias renais coletados entre 1998 e 2023. Mais de três quartos dos pacientes (77,5%) passaram por biópsia, exame que permite observar diretamente as lesões nos rins. Entre as doenças secundárias, a nefrite lúpica respondeu por 51,9% dos casos. Já nas primárias, a nefropatia membranosa — em que anticorpos se acumulam na membrana filtrante dos rins — liderou (26,3%), seguida da nefropatia por IgA e da glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF). A GESF, que em estudos anteriores aparecia no topo, agora ocupa a terceira posição entre as primárias.

“Esse achado reflete avanços na compreensão da fisiopatologia da doença e possível reclassificação diagnóstica”, avalia o pesquisador Fernando Sales, autor do artigo.

Durante o acompanhamento, a função renal média dos pacientes — medida pela taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) — caiu de 72,9 para 62,5 mL/min/1,73m² (essa unidade de medida representa o volume de sangue filtrado pelos rins por minuto, ajustado para uma área corporal padrão de 1,73 m²). Já a quantidade de proteína na urina (proteinúria), marcador de lesão renal, diminuiu de 3,7 para 1,3 grama por dia. A análise mostrou que pacientes com sobrepeso ou obesidade tinham 26% mais risco de piora da função renal.

A presença de fibrose intersticial/atrofia tubular aumentou esse risco em cerca de 8%. Já aqueles que iniciaram o acompanhamento com função renal mais alta tiveram menor probabilidade de progressão da doença. “Além disso, notamos a presença de histórico familiar em cerca de 23,3% dos pacientes com doenças glomerulares, o que pode inferir possível componente genético associado”, diz o pesquisador da UFJF.

“Os próximos passos em potencial seriam a realização de análises genéticas e proteômicas dos pacientes, especialmente no contexto de histórico familiar presente para nefropatias”, prevê Sales.


Fonte: Agência Bori

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