A Comissão Europeia lança um acordo com o Mercosul, mas os protestos aumentam. A desindustrialização ameaça a América Latina

Pode explodir novamente: Protesto contra a cúpula do Mercosul em Montevidéu (6.12.2024). Foto: Martín Varela Umpierrez/REUTERS
Por David Siegmund-Schultze para o “JungeWelt”
Se a Comissão Europeia tivesse conseguido o que queria, o acordo deveria ter entrado em vigor no ano passado, mas associações agrícolas conseguiram pressioná-lo contra ele. Na semana passada, porém, a Comissão finalmente iniciou a ratificação do acordo comercial com os países do Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O acordo será votado no Conselho da UE no final de novembro. Para impedir sua adoção, a aliança “Stop UE-Mercosul”, juntamente com mais de 50 organizações de ambos os lados do Atlântico, lança uma campanha contra o acordo “tóxico” na terça-feira. “O acordo reforçaria o sistema tradicional de comércio neocolonial”, disse Bettina Müller, da associação “Power Shift Germany”, que participa da campanha, em entrevista ao Junge Welt . “Na América Latina, a exportação de produtos primários, como produtos agrícolas, seria promovida, enquanto, em troca, a importação de produtos industriais da União Europeia (UE) seria facilitada – isso cimenta a desigualdade entre as duas regiões.”
Além da Polônia, que já anunciou que votará contra o acordo, França, Áustria, Holanda e Itália são candidatos instáveis. Mas, após o veto de Paris no ano passado, a Comissão dividiu o acordo em uma parte comercial e uma parte política. E como o comércio é da competência da UE, apenas uma maioria qualificada de 65% é necessária para esta parte – o direito de veto para os Estados individuais foi eliminado. Além disso, a Comissão promete aos agricultores que seriam prejudicados pelo acordo uma indenização de um fundo de mais de um bilhão de euros. Além disso, um chamado mecanismo de salvaguarda visa permitir que a Comissão “intervenha” caso as importações agrícolas excedam determinadas cotas ou violem as diretivas ambientais da UE.
Para Müller, isso é apenas fachada: “São apenas promessas; nada de concreto foi apresentado ainda.” Além disso, o acordo também contém o chamado mecanismo de compensação. Isso permite que os países do Mercosul tomem contramedidas caso a UE restrinja novamente as importações de produtos agrícolas e aumente as tarifas. A Comissão, portanto, pensará duas vezes antes de intervir para proteger os agricultores. “Com seus compromissos, a Comissão está indiretamente admitindo que também pressupõe que a agricultura será duramente atingida”, disse Andoni García Arriola, da associação de pequenos agricultores da Via Campesina, à jW . “A compensação não nos serve de nada se o dano já ocorreu devido aos produtos baratos que inundam o mercado e derrubam os preços.”
Apesar da pressão constante das associações de agricultores, há indícios de que Paris e Roma aprovarão o acordo no Conselho da UE. O obstáculo final seriam os parlamentos dos quatro países do Mercosul. No entanto, os protestos aqui são menores, como observa Müller. “Tenho a maior esperança de que surja resistência na Argentina.” Os peronistas da oposição se opõem ao acordo há muito tempo, pois ele ameaça atingir a indústria local de forma particularmente dura.
No Brasil, os protestos de sindicatos e organizações de esquerda foram silenciados, pois não querem causar mais danos a Luiz Lula da Silva, que está sob pressão antes das eleições presidenciais do próximo ano. O chefe de Estado brasileiro mantém firme apoio ao acordo. Diante das tarifas americanas, ele se compromete com a diversificação comercial e chega a falar em efeitos positivos para a indústria e a tecnologia. No entanto, é justamente nessas áreas que se avizinham graves prejuízos: “Acordos anteriores entre a UE e os países latino-americanos mostraram que, nestes últimos, apenas a exportação de matérias-primas e produtos agrícolas aumenta – eles causaram enormes prejuízos à indústria”, diz Müller. A indústria automotiva, em particular, pode ser duramente atingida. Devido às altas tarifas, os fabricantes da UE até agora têm produção no Brasil e na Argentina para o mercado local. Assim que as barreiras comerciais forem suspensas, as fábricas nesses países correm o risco de serem fechadas.
Mas Lula se vê forçado a repetidamente ceder aos conservadores que dominam o Congresso. Além disso, 49% das exportações do país são provenientes do setor agrícola – impressionantes US$ 168 bilhões no ano passado. Desse total, 16% foram para a UE, o segundo mercado mais importante do setor. Governo “de esquerda” ou não, Lula não quer alienar a facção capitalista mais poderosa do país.
Fonte: JungeWelt