Professor da UFRJ analisa os múltiplos significados do ataque à Venezuela e sequestro de Maduro

Trump: EUA vão explorar petróleo da Venezuela após ataques e sequestro de  Maduro

Ordem de Donald Trump para ataque à Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro representa atualização da Doutrina Monroe e retomada da Doutrina do Destino Manifesto

Por Carlos Eduardo Martins* 

Em relação ao ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e sequestro de Nicolas Maduro e sua esposa cabe mencionar o seguinte: 

1) Representa não apenas a atualização da Doutrina Monroe, mas a retomada da Doutrina do Destino Manifesto e sua extensão a todo o Hemisfério Ocidental. O objetivo é o domínio completo do poder estadunidense nessa região para garantir o acesso a recursos estratégicos e banir a influência do BRICS, da China, da Rússia e da multipolaridade emergente nesse espaço. Para isso se busca a destruição de governos nacionais-populares e sua substituição por governos e regimes títeres dos Estados Unidos. Estamos diante de um novo padrão de imperialismo norte-americano que transita do imperialismo informal para o tout-court, como vimos denunciando em nossos livros e artigos;

2) Toda a América Latina se torna alvo e está na linha das prioridades da reestruturação do poder norte-americano provocada por Donald Trump. Ele esvazia o Leste Europeu e mesmo o Oriente Médio do campo de regiões vitais para os interesses norte-americanos. A América Latina tende a ocupar o espaço que o Oriente Médio ocupou no século XX, com a descoberta e mapeamento de suas reservas estratégicas e a liderança dos Estados Unidos na exportação de petróleo e gás. Países, como a Venezuela, com dotação excepcional de petróleo, e o Brasil, com dotação extraordinária de terras raras, estão em risco extremo e convertem-se em alvos prioritários do imperialismo estadunidense;

3) Apesar dos grandes avanços internacionais dos poderes multipolares, são ainda evidentes as suas deficiências na garantia da defesa da soberania nacional, da paz mundial, de um padrão monetário alternativo ao dólar e na capacidade de organizar ações coletivas. A unidade contra o unilateralismo e o imperialismo norte-americano é por si só insuficiente para garantir as respostas necessárias. A diversidade de poderes que sustentam a multipolaridade emergente, seus distintos níveis de compromisso com a defesa dos povos e a democracia substantiva fragiliza a ação coordenada e a resposta coletiva. A acumulação de forças disponível é ainda limitada;

4) Por enquanto, o que há de confirmado na intervenção dos Estados Unidos é a deposição e sequestro de Maduro e sua esposa. A facilidade com que se deu a ação, o descarte por Trump de Maria Corina Machado como sucessora de Maduro, seu discurso afastando um segundo ataque e anunciando o controle do Estado venezuelano pelos norte-americanos abrem interrogações: será blefe? Houve negociação com setores do governo venezuelano como Trump insinuou para uma mudança de regime sem descartar a estrutura hierárquica atual? Em caso positivo, qual a estabilidade dessa negociação? Haverá reação interna? Qual o efeito concreto do discurso da Vice-Presidente Delcy Rodriguez repudiando a ação estadunidense?

5) Estamos diante de um novo padrão de imperialismo muito mais agressivo que o das últimas décadas para enfrentar o seu declínio econômico e geopolítico. A reação moderada do governo brasileiro, que publicou nota condenando a intervenção mas sem denunciar o governo Trump ou o sequestro de Maduro e sua esposa, e inoperância da CELAC para se manifestar evidenciam as limitações das forças locais para estarem à altura dos acontecimentos e a necessidade de se construir nas esquerdas e no campo democrático novos níveis de de solidariedade e de compromisso com a Integração latino-americana.


* Carlos Eduardo Martins é  doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen).

Um comentário sobre “Professor da UFRJ analisa os múltiplos significados do ataque à Venezuela e sequestro de Maduro

  1. Há um outro aspecto …

    A derrota da EU para a Rússia impôs aos EUA a demonstração de força…

    No entanto, as dificuldades e o tamanho da vitória de Putin não se comparam a essa “bananada” de Mar a Lago.

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