Soja “livre de desmatamento” varia conforme critérios de cada corporação, mostra estudo

Tecnologias como monitoramento por satélite certificam soja “sustentável”, mas podem ocultar outros impactos ambientais

 

A soja “livre de desmatamento” é uma resposta do setor agrícola às pressões por maior responsabilidade ambiental. Porém, as corporações não seguem uma definição consensual sobre qual tipo de desmatamento é ou não aceitável na produção. Além disso, o selo pode estar contribuindo para novas dinâmicas de poder, em que ciência e tecnologia legitimam uma simplificação dos problemas ambientais causados pelo setor – desconsiderando, por exemplo, o uso intensivo de agrotóxicos e o desrespeito a direitos humanos e territoriais. As conclusões foram publicadas no Dossiê Agronegócio, Ciência e Tecnologia da revista Sociologias por pesquisadoras das universidades federais do Pará (UFPA) e do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

O artigo compara as experiências de soja “livre de desmatamento” ou “responsável” dos principais sistemas de compliance ambiental, analisando protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios ESG (Social, Ambiental e Governança) das seis principais corporações brasileiras que agregam a produção das fazendas e negociam a safra com mercados externos, as chamadas traders de soja. As pesquisadoras investigaram o que exatamente é considerado desmatamento para cada empresa, além de qual tipo seria ou não aceitável e as áreas definidas como prioritárias para conservação ambiental.

O estudo evidencia que o surgimento de uma soja “livre de desmatamento” acaba por simplificar impactos complexos, que envolvem também outros pontos da cadeia de produção. Além disso, as pesquisadoras destacam o conceito de tecnopoder, em que ciência e tecnologia ajudam a legitimar posicionamentos de atores sociais – no caso, as corporações da cadeia de soja, que passam a, em teoria, atender às demandas do mercado. Recursos tecnológicos como imagens de satélite e classificações de risco são mensurações que podem conferir aparência de objetividade às alegações das sojicultoras, mas podem também gerar dados desprovidos de contexto, invisibilizando efeitos locais da exploração ambiental.

“Argumentamos que as métricas, critérios e formas de monitoramento de problemas ambientais não são definições e tecnologias neutras. Elas não apenas medem a conformidade ambiental, mas ajudam a defini-la de forma conveniente para o setor”, explica a pesquisadora Ângela Camana, autora principal do artigo. Um exemplo está na própria definição de desmatamento a que as corporações se referem. “Algumas interditam apenas a compra de soja oriunda de áreas de desmatamento ilegal, enquanto outras abarcam também o desmatamento legal, assim como há diferentes recortes temporais para considerar quando o desmatamento na cadeia passa a ser inaceitável. Isso significa que uma mesma soja pode ser enquadrada como ‘livre de desmatamento’ por uma trader, mas não por outra”.

Camana também destaca o crescente poder de consultorias e assessorias que executam a definição destas normas e determinam as formas adequadas de medir os fenômenos. “O estudo mostra que a disputa sobre como medir e monitorar a ocorrência de problemas ambientais tornou-se uma estratégia importante para o setor responder a críticas e demonstrar responsabilidade ambiental, apoiando-se na autoridade da ciência e no uso de dados, que resultam de critérios específicos sobre o que conta como evidência de sustentabilidade, para legitimar suas práticas”, comenta a autora.

O artigo recomenda a continuidade das pesquisas sobre o posicionamento do agronegócio brasileiro diante da demanda crescente por conformidade ambiental do setor. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, quase metade das emissões brasileiras são vinculadas às mudanças de uso da terra, que envolvem desmatamento e conversão das áreas de vegetação nativa para atividades como plantio e pastagens.


Fonte: Agência Bori

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