Mendonça Filho quer instalar estado de sítio acadêmico na UNB

mendonça

O governo “de facto” de Michel Temer vem se esmerando no esforço de ser um governo obscurantista, isso ninguém pode negar. Depois de jogar os valores do investimento em ciência e tecnologia no chão, várias ações partindo do Ministério da Educação e Cultura, comandado pelo inexpressivo ministro Mendonça Filho, sinalizam que está se partindo para um estado em que é proibido pensar dentro das universidades brasileiras.

Exagero? Nenhum pouco. É que além das várias operações da Polícia Federal para supostamente procurar malfeitos ocorridos dentro das universidades, agora temos a aberração da tentativa de interferir diretamente no conteúdo das disciplinas que os docentes podem oferecer, num ataque direto aos pressupostos constitucionais que garantem autonomia didática e pedagógica para as universidades brasileiras.

Falo aqui da tentativa de impedir o oferecimento de uma disciplina optativa pelo professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB), Luís Felipe Miguel.  A disciplina tem como objetivo abordar três temas que giram em torno do impeachment de Dilma Rousseff (PT): os elementos de fragilidade do sistema político que permitiram a ruptura; a análise do governo Temer e a investigação “o que sua agenda de o retrocesso nos direitos e restrição às liberdades diz sobre a relação entre as desigualdades sociais e o sistema político no Brasil”; e os desdobramentos da crise política.

Numa dessas atitudes em que somente podem ocorrer em meio a um regime de exceção, o ministro da Educação, Mendonça Filho,  veio a público informar que deve enviar um ofício nesta 5ª feira (22.fev.2018) a vários órgãos de controle para que seja analisada a legalidade do curso oferecido pela Universidade de Brasília “o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”[1] . Para Mendonça Filho, o problema é que ““Está claro que não houve base científica na criação desse curso. Contraria as boas práticas da educação. Alguém não pode ter uma ideia ou uma opinião e simplesmente oferecer dentro de uma universidade 1 curso”.

A primeira coisa que deveria ser informada ao nada ilustre Mendonça Filho é que as universidades possuem regras claras sobre o conteúdo de cursos e disciplinas que são oferecidas por seus docentes. Assim, bastaria o MEC acionar a própria UNB para que, se fosse o caso, abrir uma comissão especial de sindicância para apurar se o Prof.  Luís Felipe Miguel estaria oferecendo uma disciplina sem seguir critérios acadêmicos. A segunda é que ao tentar impedir o oferecimento da disciplina,  Mendonça Filho provavelmente aumentou o interesse pela mesma.

É também importante notar que o professor  Luis Felipe Miguel já declarou  na rede social Facebook que essa disciplina optativa”Tópicos especiais em Ciência Política: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” é “corriqueira” e apenas questionará a realidade, de acordo com o conhecimento produzido nas ciências sociais. Além disso, o professor Miguel informou  que “[a disciplina] não merece o estardalhaço artificialmente criado”.  O professor adicionou ainda que o curso tem “valores claros, em favor da liberdade, da democracia e da justiça social”, e que isso não significa que irá abrir “mão do rigor científico” ou “aderir a qualquer tipo de dogmatismo” (ver texto completo abaixo).

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O problema é que apesar de todas as explicações do professor Miguel,  o ânimo que emana do MEC é de impor limites didáticos às universidades brasileiras, especialmente no que se refere à impedir que se faça uma análise crítica dos fatos que cercaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff e de tudo o que vem acontecendo desde então. E esse esforço de censura pode estar até começando numa disciplina de Ciência Política, mas poderá se estender a qualquer disciplina que o governo “de facto” de Michel Temer julge pouco lustroso para a sua já desgastada imagem.

O fato é que se não for rechaçada agora essa tentativa de cerceamento da autonomia universitária, sabe-se lá o que virá depois. Eu que ensino, por exemplo, na disciplina Geografia Geral que a Terra é um corpo esférico que gravita em torno do Sol, posso vir a ser obrigado a oferecer a informação de que nosso planeta é plano e que tem um estrela que gravita em torno de sí, como eram ensinados os jovens do período Medieval. Afinal, só mesmo numa Terra plana é que Mendonça Filho poderia ser ministro da educação, ão é?

Mas para quem desejar acesar o conteúdo da disciplina que Mendonça Filho deseja proibir,  basta clicar [Aqui!].


[1] https://www.poder360.com.br/wp-content/uploads/2018/02/disciplinaunbgolpe.pdf

Abismo climático na Amazônia se aproxima, dizem cientistas

América do Sul pode enfrentar problemas de água com a devastação da floresta

 

Resultado de imagem para DESMATAMENTO AMAZONIA

Por Reinaldo José Lopes, de SÃO CARLOS

A Amazônia está se aproximando perigosamente da beira do abismo climático, alertam dois respeitados pesquisadores (um brasileiro e outro americano) em editorial publicado numa das principais revistas científicas do mundo.

Se o Brasil e os demais países amazônicos não acharem uma maneira de evitar que o desmatamento da maior floresta tropical supere os 20% de sua área original, aumentará muito a probabilidade de que boa parte da Amazônia, no futuro não tão distante, simplesmente deixe de ser floresta.

Pássaros voam no meio da Amazônia
Pássaros voam no meio da Amazônia – Keiny Andrade/Folhapress

E isso seria uma péssima notícia não apenas para a biodiversidade da região como também para as dezenas de milhões de pessoas América do Sul afora que dependem da água gerenciada pela floresta —o que inclui tanto os moradores de Manaus quanto os da região Sul do Brasil, do Uruguai e até de áreas da Argentina e do Paraguai.

Ponto de Virada

Os responsáveis pelo alerta são o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, e o biólogo Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason (Virgínia, EUA).

O grande temor da dupla é que, embora não se saiba exatamente qual o chamado ponto de virada do sistema amazônico —ou seja, qual o nível de desmatamento e degradação pelo fogo que faria com que grandes porções da floresta se tornassem inviáveis—, seria péssimo descobrir onde fica esse fiel da balança chegando lá, ou seja, quando já seria tarde demais.

Em países como os próprios EUA, políticos e ativistas conservadores que não aceitam as conclusões científicas sobre as mudanças climáticas costumam usar as incertezas consideráveis a respeito de como será o clima do futuro como argumento para evitar os custos de ações drásticas contra o problema, os quais poderiam afetar a economia.

Nobre diz que não vê esse tipo de argumento ganhando força no cenário político brasileiro, mas usa uma analogia médica para rebatê-lo.

“Quando você começa a sentir alguma coisa estranha, marca uma consulta com o médico, depois pode ouvir uma segunda ou uma terceira opinião. Bom, a incerteza sobre os efeitos das mudanças climáticas é muito menor hoje do que a que vem de uma consulta como essa, e mesmo assim as pessoas não deixam de seguir as recomendações dos seus médicos”, compara. “Vai contra toda a evolução da civilização você achar que não vale a pena minimizar um risco que é bem real.”

O risco de que Nobre fala vem de uma conjunção de fatores destrutivos. O primeiro e mais óbvio é o desmatamento —o qual, como lembra o pesquisador, só não ultrapassou o limite perigosamente alto dos 20% porque muitas áreas abandonadas na Amazônia já se regeneraram; ele estima que o número real hoje esteja entre 15% e 17%.

Desmates e queimadas tendem a tornar a mata mais vulnerável durante períodos de seca, porque a luz solar penetra com mais facilidade, levando ao acúmulo de matéria vegetal inflamável. E há indícios de que os próprios períodos de seca severa têm ficado mais comuns nas últimas décadas, com três episódios fora da curva em 2005, 2010 e 2015, por exemplo. Tais períodos de estiagem parecem estar ligados ao aquecimento anormal das águas do Atlântico, coisa que, por sua vez, é o esperado com uma temperatura média global mais alta.

Todos esses fenômenos podem ter impactos péssimos para a disponibilidade de água em boa parte da América do Sul porque a Amazônia, em grande medida, é capaz de reciclar seus próprios recursos hídricos, por meio dos processos de evaporação e transpiração das árvores e pelas moléculas orgânicas produzidas por elas, as quais ajudam a condensar nuvens de chuva. Boa parte dessa umidade é exportada rumo ao sul durante o inverno —justamente a época mais crítica no que diz respeito à falta d’água em boa parte do continente.

Embora o desmatamento tenha passado por aumentos em anos recentes, na contramão da tendência de redução desde 2004, Nobre considera que não houve mudança na postura governamental em relação ao tema.

“O Brasil tem mantido seus compromissos no Acordo de Paris [maior pacto internacional contra as mudanças climáticas firmado até agora] e continua buscando se colocar como liderança nessa área. A questão é saber até que ponto o discurso está afinado com a prática. E não há dúvida de que há forças políticas que querem expandir a produção de carne e grãos na Amazônia até os limites da demanda do mercado internacional por esses produtos, o que seria muito ruim”, diz o climatologista.

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/02/abismo-climatico-na-amazonia-se-aproxima-dizem-cientistas.shtml

As faces inocentes da intervenção no Rio de Janeiro

A imagem abaixo é de autoria de um fotógrafo da agência Associated Press e foi publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo” e nela são mostradas crianças da Favela Kelson (localizada no Complexo do Alemão) sendo revistadas por tropas militares e policiais ao chegarem na escola no dia de ontem.

kelson

Agora, me respondam com sinceridade: alguém imagina ver essa cena se repetindo num daqueles colégios caros da Zona Sul do Rio  Janeiro? Obviamente não. Mas com as crianças da Favela Kelson ainda vai ter gente que vai aplaudir.

E depois ainda tem gaiato que reclama quando se fala que o Brasil é um país racista. 

Anaferj expõe cronologia de mentiras do (des) governo Pezão

Intervenção apenas na segurança é um escárnio! É como dizer que o governador não tem mais capacidade para um setor, mas mantém administração aceitável no restante de suas atribuições.

Links:

https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/secretario-de-fazenda-do-rj-diz-que-venda-da-cedae-sera-garantia-para-regularizar-salario-dos-servidores.ghtml

https://extra.globo.com/emprego/servidores-publicos/pezao-volta-atras-diz-que-so-vai-pagar-servidores-se-derrubar-liminar-que-impede-venda-da-cedae-22214674.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/integrantes-do-governo-estao-otimistas-em-quitar-13-dos-servidores-ainda-em-janeiro-22279856.html

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/emprestimo-de-r-2-bi-e-liberado-e-governo-do-rj-diz-que-tenta-pagar-servidores-ainda-nesta-quarta.ghtml

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-mantem-esperanca-de-colocar-salarios-dos-servidores-em-dia-ate-fim-de-fevereiro-22326332.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-adia-mais-uma-vez-prazo-para-pagar-restante-do-13-ate-final-de-marco-22411533.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-da-novo-prazo-para-pagar-restante-do-13-salario-primeiros-15-dias-de-marco-22380214.html

 FONTE: http://anaferj.blogspot.com.br/2018/02/cronologia-da-mentira.html

Pesquisa aponta alto risco de desertificação na Bahia

Identificação de áreas vulneráveis em polos de produção agrícola serve de alerta para agricultores e representantes do poder público

Camila da Silva Dourado, autora da pesquisa: polos agrícolas como áreas de alto risco | Foto: Antoninho Perri

Pesquisa desenvolvida na Unicamp revela que o Estado da Bahia vem apresentando aumento no índice de aridez e diminuição de chuvas. Os estudos indicam que a tendência é que a situação se agrave nos próximos 30 anos, provocando um aumento das áreas com risco de desertificação na região. As conclusões são da tese de doutorado “Áreas de risco de desertificação: cenários atuais e futuros, frente às mudanças climáticas”, defendida por Camila da Silva Dourado na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp.

A desertificação é a degradação de terras nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas a secas, como resultado das variações climáticas e ações antrópicas, ou seja, as alterações causadas pelo ser humano no ambiente. Este fenômeno transforma terras férteis e agricultáveis em terras improdutivas, causa impactos ambientais como a destruição da biodiversidade, diminuição da disponibilidade de recursos hídricos e provoca a perda física e química dos solos. Neste caso, a pesquisa aponta que as mesorregiões que mais expandiram as áreas com risco de aridez são os maiores polos agrícolas baianos. “Ainda é necessária uma análise mais aprofundada sobre a desertificação nessas áreas, mas os dados mostram que esses polos agrícolas observados passaram a ser considerados como áreas de alto risco”, explica Camila.

O trabalho foi realizado sob orientação de Stanley Robson de Medeiros Oliveira, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e coorientação de Ana Maria Heuminski de Avila, pesquisadora do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura). Os autores alertam para a necessidade de se adotar medidas preventivas agora para que as previsões não se consolidem.

Foto: Perri
Camila da Silva Dourado, autora da pesquisa: “Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”

No cenário da produção agrícola nacional, a Bahia ocupa destaque no Nordeste brasileiro como grande produtora de grãos, além de ser responsável por 12,2% do valor da produção de frutas, ocupando o segundo lugar no ranking nacional. A cultura do algodão no estado representa 25,4% da produção nacional, ficando atrás apenas de Mato Grosso com 64,1% da produção, de acordo com dados da safra de 2016 divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dois principais polos agrícolas baianos estão no oeste, em cidades como Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, por exemplo, onde é forte a produção de algodão e grãos, principalmente a soja. Outro polo está no norte do Estado, maior produtor de frutas da Bahia, sendo destaques as cidades entre Juazeiro (BA) e Petrolina, em Pernambuco.

“Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”, explica Camila. Por isso, uma das alternativas recomendáveis é o desenvolvimento de ferramentas e sistemas inteligentes capazes de capturar, organizar e quantificar dados e informações, que auxiliem o planejamento da produção agrícola e o processo de tomada de decisão, com o objetivo de diminuir os impactos ambientais.

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De acordo com os resultados obtidos por meio da análise de dados climáticos (chuva, temperatura e evapotranspiração), dados edáficos, declividade do terreno, fragilidade do solo à erosão e de vegetação (extraídos de imagens de satélite), entre os anos de 2000 e 2014, o território baiano já apresentou uma queda do nível de precipitações (chuvas), diminuição de áreas de cobertura vegetal nativa, e um aumento no índice de aridez e das áreas com risco de desertificação.

Para o futuro, ou seja, entre os anos de 2021 a 2050, a previsão é que o Estado enfrente um aumento de temperatura de aproximadamente 1 °C e diminuição das precipitações, em relação ao clima atual. As previsões também apontam um aumento nas áreas consideradas áridas e uma expansão de terras com risco “alto” e “muito alto” de desertificação. “Essa pesquisa exibe o cenário futuro; então, se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções. Não podemos esperar até 2050”, alerta Stanley Oliveira.

Segundo o orientador da pesquisa, as técnicas de mineração de dados associadas às técnicas de sensoriamento remoto em imagens orbitais, tratam do desafio de captar padrões e processos, e proporcionam um diagnóstico espaçotemporal da mudança na paisagem, permitindo também monitorar e diagnosticar o grau de degradação de terras. Essas técnicas facilitam a análise e a manipulação de dados em grandes áreas, com menos custo que os métodos convencionais, permitindo uma avaliação das alterações ocorridas no meio ambiente, no passado, presente e com simulações do futuro.

“A depender da prática agrícola que é adotada hoje, terras produtivas serão transformadas em improdutivas. Não adianta utilizar práticas inadequadas que não visem à sustentabilidade daquele solo e dos recursos naturais. É preciso alertar o grande e pequeno produtor sobre formas de produção que amenizem essa situação; é uma questão de sensibilização. São necessárias políticas públicas também para que haja incentivo às novas formas de produção e de utilização da terra e dos recursos naturais”, ressalta Camila.

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O desafio de alimentar uma população em crescimento

Os resultados que a pesquisa aponta são importantes para a busca de soluções ao principal desafio da agricultura mundial: cumprir a meta de alimentar nove bilhões de pessoas até 2050, de acordo com previsão da FAO, a Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura. Estudos da agência indicam que, para alimentar uma população extra projetada em mais 2,3 bilhões de pessoas, o mundo precisará produzir 70% a mais de alimentos. Entretanto, a expansão das terras agricultáveis terá de se dar em cerca de 120 milhões de hectares nos próximos 40 anos em países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na África Subsaariana.

Regiões áridas e terras desertificadas dificultam e impedem a produtividade de alimentos. Terras antes agricultáveis se tornam improdutivas em razão dos processos de semiaridez, aridez e desertificação. Estima-se que boa parte das terras inseridas em áreas de clima propícios à desertificação tenha seu processo de improdutibilidade acelerado. Por isso, os resultados são importantes para orientar o trabalho de gestores e apoiar a formulação de políticas públicas focadas na região.

Foto: Perri
O pesquisador Stanley Robson de Medeiros Oliveira, orientador da tese: “Se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções”

Historicamente a região norte do território baiano integra o polígono da seca, uma área de mais de 1 milhão de km² entre os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, que enfrenta crises repetidas de estiagem. Dessa forma, a manutenção da fruticultura no norte é feita através de sistemas de irrigação. Porém, outro problema apontado pela pesquisa é que regiões antes consideradas com risco baixo de desertificação passam ao moderado e alto, como é o caso da região oeste. Essa situação mudaria todo o cenário de produção agrícola do estado.

Nos últimos anos os pesquisadores também vêm se preocupando com a influência das mudanças climáticas no avanço do processo de desertificação. “Com o aumento de temperatura estimado em 1 ºC e a diminuição na precipitação, há a ocorrência de um outro indicador que utilizamos, a evapotranspiração, que é subsídio para um outro indicador, o índice de aridez. Juntando essas variáveis, e com as novas projeções do modelo de mudanças climáticas, confirma-se que há uma expansão muito grande das áreas de desertificação”, esclarece Camila.

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“Se considerarmos os resultados, esse é um cenário muito drástico e assustador, mas o objetivo dessa pesquisa não é assustar e sim informar. É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias, porque o grande risco é que elas migrem para outras regiões e se tornem marginalizadas. As pessoas precisam continuar produzindo alimento para subsistência e comércio”, afirma a coorientadora da pesquisa, Ana Avila.

Metodologia

Para avaliar as áreas com potencial de risco de desertificação no estado da Bahia, foram utilizados sete indicadores biofísicos de desertificação: índice de vegetação de diferença normalizada e índice de vegetação realçado (NDVI e EVI, respectivamente, na sigla em inglês) ambos gerados pelo sensor Modis; índice de aridez; dados de solo; precipitação; temperatura e evapotranspiração. No caso dos mapas climáticos foi aplicado o método geoestatístico Krigagem Bayesiana Empírica. Também foram elaborados mapas de modelo de elevação digitação, declividade e classificação do solo, com o intuito de gerar um mapa de fragilidade do solo, usado como indicador, com as características edáficas da região.

Foto: Perri
A pesquisadora Ana Maria Heuminski de Avila: “É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias”

A partir do empilhamento das imagens dos sete indicadores de desertificação foi aplicada a tarefa classificação, por meio do algoritmo Máquinas de Vetores Suporte (SVM, sigla em inglês) na imagem produto, definindo quatro níveis de risco de desertificação: muito alto, alto, moderado e baixo. A pesquisa usou imagens de alta resolução espacial do satélite RapidEye para validação da classificação fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As simulações dos impactos das mudanças climáticas para o cenário futuro, 2021 até 2050, utilizaram modelos climáticos Eta-MIROC5, que preveem diminuição da precipitação, aumento de temperatura e deslocamento das áreas com maiores taxas de evapotranspiração potencial.

Foram estudados dois cenários de períodos temporais distintos: o de clima presente, abrangendo os anos de 2000 a 2014, e o cenário de clima futuro, para o período de 2021 a 2050. Os resultados mostraram que em 2014 houve uma diminuição na precipitação e nas áreas de cobertura vegetal em relação ao ano 2000, além de um aumento no índice de aridez e nas áreas de risco de desertificação. No cenário futuro, houve um aumento de temperatura de aproximadamente 1 °C e diminuição da precipitação em relação ao clima presente. O índice de aridez aponta um aumento nas áreas áridas para o clima futuro, e uma expansão nas áreas de risco de desertificação, principalmente nas áreas de risco muito alto e alto.

“Essa metodologia é inédita e rica por usar técnicas de sensoriamento remoto e de mineração de dados, incluindo um algoritmo inteligente (SVM – Support Vector Machine), que aprende interativamente com uma massa de dados, descobre e apresenta os padrões encontrados. Isso pode ser aplicado em outras regiões do Brasil, principalmente aquelas mais carentes; a contribuição não se restringe só ao estado da Bahia”, enfatiza Oliveira.

FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/02/19/pesquisa-aponta-alto-risco-de-desertificacao-na-bahia

 

Jornal francês repercute vídeo com dicas de sobrevivência para negros durante a intervenção militar no Rio de Janeiro

media

Li  que o Rádio França Internacional que o jornal francês “20 minutos” havia repercutido um vídeo produzido por três jovens negros do Rio de Janeiro, com dicas de como sobreviver à abordagem indevida de policiais e militares [1].  O título do vídeo já antecipa bem o seu conteúdo: Intervenção do Rio: dicas para sobreviver a uma abordagem indevida (ver vídeo abaixo).

Resolvi dar uma busca no site do jornal francês para ver como o vídeo havia sido repercutido por lá e a manchete já é bem reveladora de como as dicas dadas pelos três moradores da cidade do Rio de Janeiro foram apresentadas aos franceses ( ver imagem abaixo) [2].

20 minutes

Traduzida para o português a manchete fica mais ou menos como “Brasil: três jovens publicam um guia de sobrevivência para os negros que se encontram com as forças da ordem“.

Mesmo sendo a França um país marcado por tensões sociais, o conteúdo do vídeo (produzido por Edu Carvalho, repórter do site Favela da Rocinha, do publicitário e youtuber Spartakus Santiago e de AD Junior, do canal Descolonizando) deverá causar ainda mais embaraços para o governo Temer em face de sua decisão de realizar uma intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro.   É que as dicas dadas fazem muito sentido no Brasil, mas são quase que impensáveis na França onde as forças policiais são vigiadas de perto pelos órgãos de controle do Estado.

O que me parece curioso é que apesar do vídeo já ter viralizado na internet, a mídia corporativa não deu a mesma cobertura a ele que o “20 Minutes” resolveu dar.  E a razão para isso me parece óbvia. É que a mídia corporativa brasileira que, em grande parte, está dando uma cobertura positiva para a intervenção militar no Rio de Janeiro, não está nem um pouco disposta a abordar que os inevitáveis ônus causados pela militarização da segurança pública deverão recair sobre as favelas cujas populações são majoritariamente compostos por pessoas negras e pobres.

E eu adiciono: desgraçado é o país e as elites que o governam onde dicas como as dadas no vídeo acima devem ser tomadas como coisas sérias.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/343092/Jornal-franc%C3%AAs-se-surpreende-com-v%C3%ADdeo-de-conselhos-para-negros-no-Brasil.htm.

[2] https://www.20minutes.fr/monde/2223911-20180220-video-bresil-trois-jeunes-publient-guide-survie-noirs-face-forces-ordre

O que esperar e não esperar de um orientador

Flickr credit: Miyagi by AJ Brustein

Por Adrian Sgarbi*

Prometi a mim mesmo que não escreveria sobre esse assunto. Seria como um tabu. Afinal, o tema do blog é como a tecnologia pode ser útil na pesquisa. Mas recebi um tweet de @odeiomeuorientador perguntando como se faz para “deletar” um orientador. Engasguei com o café que estava bebendo. Realmente eu não tenho um aplicativo para isso. Tentarei de outro modo.

*   *   * 

Já sei. Você gostaria que o seu orientador fosse como Mr. Miyagi, mas em sua opinião ele está mais para Darth Vader. Pelo visto, você não está sozinho. Na última vez em que busquei no Google Brasil pela frase “Eu odeio o meu orientador”, encontrei quase 10.000 entradas. Isso faz alguns dias, mas não creio que essa realidade tenha melhorado.1

Talvez seja ingenuidade. Mas em minha opinião, saber o que é razoável esperar de um orientador e o que não é pode ajudar a melhorar o cenário. E quem sabe? É possível que de 10.000 o número chegue algum dia ao redor de 7.000 casos de puro ódio. Um começo, não?

A relação entre orientador e orientando pode ser disfuncional de muitas formas. Por isso, ao tratar do tema, deixemos de complicá-lo com grandes expectativas. Caso estejamos de acordo nisso, já podemos passar às listas.

O que esperar

Em termos gerais, você tem razão ao querer que o seu orientador:

  • O auxilie na delimitação do tema com conselhos e técnicas de pesquisa;
  • Converse sobre referências bibliográficas importantes;
  • Encontre-o para tratar dos avanços da tese;2
  • Que ele seja tão pontual quanto você nos encontros;3
  • Que ele maneje encontros com o mínimo de interrupções externas;4
  • Opine de forma franca sobre a qualidade de seu trabalho e informe como melhorá-lo;
  • Mantenha respeito recíproco no tratamento;
  • Que ele seja exigente quanto à qualidade de seu trabalho;
  • Estabeleça objetivos e prazos;
  • Que ele explique o ritual de defesa no seu devido tempo;
  • Que ele não esculhambe você no dia de sua defesa.5

O que não esperar

Agora vamos ao que não esperar. Todos os itens abaixo, de um modo ou de outro, apareceram como queixas nos blogs cujo tema é “odeio o meu orientador”. Sinceramente, acho que você tem grandes chances de se decepcionar se você deseja que o seu orientador:

  • Seja o seu terapeuta;6
  • Seja seu amigo;
  • Responda a todas as suas perguntas;7
  • Resolva os seus problemas com algum professor;
  • Tenha a responsabilidade de lembrar a você os prazos que você deve cumprir;8
  • Trabalhe sábado, domingo, feriados ou nas férias na sua tese;
  • Considere uma emergência sua como se fosse uma emergência dele;9
  • Fique satisfeito ao receber seus rascunhos ao invés de textos coerentes;
  • Fique satisfeito ao notar que você não segue suas instruções de pesquisa;
  • Espere por você para os encontros de discussão de tese;
  • Seja o revisor do seu texto.10

Alguns Extras

Antes de terminar, gostaria de dizer uma ou outra coisa sobre algumas situações bastante comuns que podem, ao final, também causar problemas. Considere-as como “extras”.

Meu orientador orientou pouco em sua vida. Veja por esse lado. Isso não é necessariamente um problema. Conheço professores em início de carreira que tiveram um resultado muito bom nas primeiras orientações. Além disso, sempre é possível considerar co-orientações.

Meu orientador não é uma estrela; ele é uma galáxia. Caso o seu orientador seja tão cheio de si que considere que dedicar algum tempo para ler a sua tese é um desperdício para ele, você está encrencado. Neste caso, sugiro uma co-orientação com urgência, caso você não esteja disposto a mudar de orientador por alguma razão.

Meu orientador é famoso. É errado pensar que a fama do seu orientador passará a você. O que você quer? Osmose? O trabalho de escrever e de pesquisar continua sendo seu. Busque apenas manter um bom ritmo de encontros e discussão sobre o seu trabalho. Isso é crucial.

Meu orientador tem zilhões de orientandos. Isso merece uma bandeira vermelha. É ruim para a instituição e também para você. Um orientador com muitos orientandos é um orientador sem tempo. Fuja desses casos.

Eu nunca fiz uma pesquisa antes. Sempre há um começo. Isso valeu para o orientador inexperiente e vale para o pesquisador inexperiente também. Nesse caso, procure um modelo de profissional que você admira, leia os seus estudos e seja sincero com o seu orientador a respeito de suas dificuldades. Lembre-se de que se você já tivesse todas as qualidades prontas de um pesquisador, pouco sentido faria ingressar em um mestrado ou em um doutorado para aprendê-las.11

Assim, @odeiomeuorientador; espero que este post o ajude. E para aqueles que eu já orientei… Bem, vale a leitura da teoria Budista do Karma.


  1. Para surpresa minha há muitos blogs dedicados ao tema. 
  2. Normalmente, um encontro por mês como média. Estágios iniciais da tese podem demandar maior frequência e fase mais adiantada, menos. Portanto, caso ele nunca esteja disponível, isso é ruim. Muito ruim. 
  3. De todo modo, imprevistos acontecem. Mantenha os seus dados atualizados na secretaria do programa de pós-graduação. 
  4. Sem dúvida seu orientador pode ser atarefado mas interrupções constantes atrapalham a orientação. Caso inúmeras interrupções estejam ocorrendo pergunte (sem irritação) ao seu orientador se vocês deveriam marcar outro horário. 
  5. Eu já testemunhei orientadores criticando o trabalho do próprio orientando durante a defesa. Pessoalmente, acho isso descabido e feio. 
  6. Note a diferença: uma coisa é receber a informação – de você – que há alguns problemas externos à universidade que podem comprometer algum prazo anteriormente estabelecido (fato relevante que deve ser compartilhado com o seu orientador); outra é querer que ele escute e opine sobre questões pessoais suas (fato pessoal seu que ele dificilmente aceitará participar). 
  7. Parte do trabalho que você tem como pesquisador é pesquisar. Ademais, um bom sinal quando você está trabalhando em uma tese é tratar de algo que seja novo para o seu orientador e que ele considere interessante a ponto de merecer pesquisa. 
  8. Para isso você deve se informar na secretaria de seu programa e manter um calendário com essas informações. Recomendo que você crie um calendário Google e o deixe sincronizado com o seu telefone celular e computador.  
  9. Portanto, planeje e trabalhe buscando antecipar problemas. 
  10. Embora sejam esperáveis observações sobre estilo e sobre a qualidade de seu texto. 
  11. Mas peça essa ajuda logo no começo. Porque pouco o ajudará dizer ao seu orientador que você não sabe anotar um texto quando faltam seis meses para entregar a sua tese de doutoramento. 

*Adrian Sgarbi é professor pesquisador da PUC-Rio desde 2002 e da Cátedra de Cultura Jurídica da Universitat de Girona (Espanha) desde 2010. Adrian Sgarbi também é diretor da Coleção Filosofia e Direito da Editora Marcial Pons.

Este texto foi publicado originalmente no blog do professor Adrian Sgarbi [Aqui!]