As queimadas da cana como expressão da violência lenta de Rob Nixon: uma nova forma de compreender um velho problema de Campos dos Goytacazes

A persistência da fumaça, da poluição atmosférica e da exposição cotidiana da população aos seus efeitos demonstra que algumas das formas mais graves de violência ambiental não ocorrem em grandes desastres, mas na repetição silenciosa de práticas que a legislação já deveria ter eliminado

Recentemente participei de uma banca de qualificação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ. Durante a leitura do projeto, fiquei com a impressão de que havia espaço para ampliar sua fundamentação teórica e comecei a procurar autores que pudessem oferecer novas chaves de interpretação para o problema investigado. Nessa busca encontrei o livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, publicado em 2011 por Rob Nixon, pesquisador sul-africano e professor do Departamento de Inglês da Universidade de Princeton. Apesar de sua enorme influência internacional, a obra continua inédita em português. Convencido da relevância de suas ideias, comprei um exemplar e, agora que o recebi, comecei sua leitura com bastante expectativa.

As primeiras páginas já deixam claro por que esse livro se tornou uma referência nos estudos sobre justiça ambiental. Nixon propõe o conceito de violência lenta (slow violence), definido como uma forma de violência que “ocorre gradualmente e fora de vista”, produzindo uma destruição retardada, dispersa no tempo e no espaço, que normalmente sequer é reconhecida como violência. Em vez de chamar atenção apenas para guerras, explosões, acidentes industriais ou grandes desastres ambientais, Nixon convida o leitor a olhar para processos cumulativos, como a contaminação química, a degradação dos solos, as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a exposição permanente à poluição. São processos que se desenvolvem lentamente, dificultando tanto sua percepção pela sociedade quanto a responsabilização política daqueles que os produzem.

Enquanto avançava na leitura, tornou-se impossível não estabelecer um paralelo com uma realidade que há décadas faz parte da vida dos moradores de Campos dos Goytacazes e de outros municípios canavieiros do Norte Fluminense: as queimadas da cana-de-açúcar.

Ao contrário de um desastre industrial ou de um grande vazamento de produtos tóxicos, a queima da palha da cana não produz um único episódio catastrófico. Ela consiste em centenas de pequenos incêndios distribuídos ao longo de toda a safra. Cada um deles libera para a atmosfera grandes quantidades de material particulado fino (PM₂.₅), monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. A literatura científica também demonstra que a combustão da biomassa pode reemitir metais-traço previamente acumulados no solo e na vegetação, entre eles o mercúrio, ampliando a toxicidade da fumaça respirada diariamente pela população.

Nenhuma dessas emissões, considerada isoladamente, costuma provocar uma tragédia imediatamente perceptível. O problema reside justamente na repetição cotidiana dessa exposição durante meses, ano após ano. Crianças, idosos, trabalhadores rurais e moradores das áreas urbanas respiram continuamente essa mistura de poluentes, aumentando progressivamente o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares, inflamatórias e, potencialmente, neurológicas. É exatamente essa temporalidade que Nixon denomina destruição retardada (delayed destruction): a violência não explode diante dos nossos olhos; ela se acumula lentamente nos corpos, nos ecossistemas e nas estatísticas de adoecimento.

Há ainda outro aspecto fundamental da violência lenta: sua invisibilidade.

Uma explosão industrial produz imagens que ocupam imediatamente os telejornais. Uma enchente ou um rompimento de barragem mobilizam autoridades e geram forte repercussão pública. Já a fumaça das queimadas desaparece poucas horas depois. No dia seguinte, a cidade parece ter voltado ao normal. Entretanto, os contaminantes permanecem suspensos na atmosfera, depositam-se sobre o solo e continuam circulando no organismo das pessoas expostas.

No caso das queimadas da cana, essa invisibilidade assume diferentes formas. A primeira é temporal: os efeitos à saúde aparecem lentamente e dificultam a associação entre causa e efeito. A segunda é espacial: a fumaça ultrapassa os limites das propriedades rurais e alcança bairros urbanos cujos moradores não recebem qualquer benefício econômico da atividade sucroenergética. A terceira é epidemiológica: embora estudos demonstrem o aumento do risco de adoecimento associado à exposição prolongada ao material particulado, dificilmente se consegue atribuir um caso específico de doença a uma determinada queimada, favorecendo a diluição das responsabilidades. Por fim, existe a invisibilidade política. Durante décadas, a chamada “chuva de fuligem” foi naturalizada como parte da paisagem de Campos, transformando uma forma permanente de exposição tóxica em algo aparentemente inevitável.

Essa naturalização talvez seja uma das maiores vitórias do modelo de produção baseado nas queimadas. Afinal, quando uma população passa a considerar normal respirar fumaça durante boa parte do ano, a violência deixa de ser percebida como violência.

O mais preocupante é que essa situação não decorre da inexistência de instrumentos legais. Ao contrário. A legislação brasileira e a legislação fluminense caminham há anos no sentido de eliminar progressivamente as queimadas pré-colheita, especialmente onde a mecanização já é tecnicamente possível. No entanto, sucessivos adiamentos, flexibilizações e a fragilidade da fiscalização transformaram aquilo que deveria ser uma prática cada vez mais excepcional em uma rotina que continua afetando milhares de pessoas.

É justamente aí que o conceito de Rob Nixon ganha uma força extraordinária para compreender a realidade de Campos dos Goytacazes. A violência lenta não se manifesta apenas na fumaça que respiramos ou nas doenças que aparecem anos depois. Ela também se expressa na incapacidade — ou na falta de vontade política — de fazer cumprir normas criadas para proteger a saúde da população e o meio ambiente. Cada safra em que as queimadas continuam ocorrendo representa não apenas o descumprimento de um compromisso legal, mas a renovação de um modelo de desenvolvimento que socializa os danos ambientais e sanitários enquanto concentra os benefícios econômicos em poucos agentes da cadeia sucroenergética.

Talvez essa seja uma das mais importantes lições de Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Algumas das formas mais profundas de violência não chegam acompanhadas de explosões, sirenes ou imagens espetaculares. Elas se repetem todos os dias, tornam-se parte da paisagem e acabam sendo aceitas como inevitáveis. Em Campos dos Goytacazes, a persistência das queimadas da cana constitui um exemplo emblemático desse processo: uma violência lenta, silenciosa e politicamente tolerada, que continua comprometendo a saúde da população apesar do conhecimento científico acumulado e da existência de instrumentos legais destinados justamente a impedir sua continuidade.

Novo estudo associa exposição ao glifosato a alterações em hormônios importantes durante a gravidez

Por Sustainable Pulse

Um novo estudo que examinou como o herbicida mais usado no mundo pode afetar o corpo das mulheres durante a gravidez revelou que a exposição ao glifosato, o ingrediente ativo de muitos herbicidas, está relacionada a alterações em diversos hormônios que contribuem para a gravidez e o desenvolvimento fetal.

 estudo , publicado no Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology, analisou 752 mulheres grávidas em Porto Rico. A equipe de pesquisa descobriu que níveis mais altos de glifosato e um composto relacionado estavam associados a alterações hormonais que auxiliam na manutenção da placenta, no crescimento fetal e no momento do parto. O glifosato é amplamente utilizado na agricultura, paisagismo e em produtos para controle de ervas daninhas, e as pessoas podem ser expostas por meio de alimentos, água, solo, deriva de pesticidas ou contato com áreas tratadas.

“Este é o herbicida mais utilizado no mundo, contudo, existem surpreendentemente poucos estudos sobre os potenciais impactos que ele pode ter na saúde reprodutiva humana, na gravidez ou no desenvolvimento fetal e infantil”, afirmou John Meeker, professor de Ciências da Saúde Ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan e autor principal do artigo. “Ao considerarmos nossas novas descobertas juntamente com as de estudos experimentais, fica claro que é preciso dar mais atenção a esses riscos potenciais e que mais pesquisas são urgentemente necessárias.”

Os pesquisadores utilizaram dados da  coorte de nascimento PROTECT , um estudo de longa duração sobre exposições ambientais e saúde materno-infantil em Porto Rico.

As participantes forneceram amostras de urina até três vezes durante a gravidez, por volta das 18, 22 e 26 semanas. Os pesquisadores também mediram diversos hormônios em amostras de sangue, incluindo estrogênio, hormônios da tireoide e hormônio liberador de corticotropina (CRH). O CRH é um hormônio envolvido na resposta do corpo ao estresse e em processos biológicos relacionados ao trabalho de parto.

Glifosato e AMPA — a principal substância em que o glifosato se decompõe no meio ambiente — foram encontrados na maioria (70%) das amostras coletadas nas visitas de estudo, demonstrando que a exposição era comum entre os participantes.

Para cada aumento moderado nos níveis de AMPA, os pesquisadores encontraram níveis de estriol 10,6% menores durante a gravidez. Um aumento semelhante no glifosato foi associado a níveis de estriol 8,3% menores. O AMPA também foi associado a níveis mais elevados do hormônio tireoidiano T3.

Mais tarde na gravidez, o AMPA foi associado a níveis mais elevados de hormônio estimulante da tireoide, e o glifosato foi associado a níveis mais elevados de CRH.

“Os níveis de exposição que medimos em Porto Rico são mais altos do que os relatados para a população geral dos EUA, e os territórios americanos historicamente suportam uma parcela desproporcional dos impactos ambientais”, disse Mislael Valentín-Cortés, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Epidemiologia da Universidade de Michigan. “Crucialmente, essas exposições químicas coincidem com eventos climáticos extremos, desastres e falhas de infraestrutura, e seus efeitos adversos cumulativos sobre a saúde exigem uma atenção mais constante do que a que recebem atualmente.”

Alguns estudos recentes em humanos associaram a exposição ao glifosato a certos desfechos relacionados à gravidez, incluindo parto prematuro e diferenças no crescimento fetal. Até então, pouco se sabia sobre as alterações biológicas que poderiam explicar essas associações.

Este estudo aponta para a disrupção hormonal como uma possível via. As descobertas complementam estudos em laboratório e com animais que sugerem que herbicidas à base de glifosato podem afetar o sistema endócrino e acrescentam novas evidências em humanos a partir de medições repetidas durante a gravidez.

Os autores observaram que o estudo foi observacional, o que significa que pode mostrar associações, mas não pode comprovar causa e efeito por si só sem considerações adicionais. As amostras de urina também refletem a exposição recente e podem não capturar a exposição total de uma pessoa ao longo da gravidez. O estudo não testou se as alterações hormonais levaram a resultados do parto ou efeitos posteriores na saúde da criança, mas os pesquisadores planejam explorar isso no futuro com a coleta de mais dados.

Ainda assim, os pesquisadores afirmam que as descobertas contribuem para o crescente interesse em como as exposições ambientais comuns podem afetar a saúde durante a gravidez.

“À medida que a atenção pública continua a crescer em torno de alimentos, pesticidas e saúde ambiental, essas descobertas ajudam a direcionar a conversa de uma preocupação geral para mudanças mensuráveis ​​em processos fisiológicos”, disse Meeker. “Compreender como as exposições comuns podem afetar a gravidez é um passo importante para proteger a saúde materna e infantil.”


Fonte: Sustainable Pulse

Guilherme Boulos no PSOL: realinhamento ou entrismo?

Da filiação de Guilherme Boulos às atuais tensões em torno da Revolução Solidária, uma reflexão sobre a relação do PSOL com o PT e os desafios para reconstruir um partido voltado à organização política da classe trabalhadora

Uma tática utilizada inicialmente pelos bolcheviques e posteriormente retomada por Leon Trotsky ficou conhecida como entrismo. Essa tática consistia em ingressar em organizações e partidos com orientações não necessariamente revolucionárias, mas que possuíam forte apelo entre a classe trabalhadora e a juventude. Um exemplo clássico eram os partidos social-democratas europeus, especialmente o francês, que, em determinados momentos da conjuntura e apesar de suas direções, conseguiam atrair os segmentos mais radicalizados da classe trabalhadora.

A justificativa para o entrismo decorria do fato de que as organizações revolucionárias, por se encontrarem conjunturalmente em posição minoritária diante desses partidos maiores, poderiam recrutar mais militantes justamente entre seus setores mais combativos. Para Trotsky, porém, tratava-se de uma ação estritamente tática e temporária, pois o principal risco consistia na adaptação política a programas não revolucionários, em vez da conquista de novos militantes.

O fato é que, desde que Trotsky formulou essa tática, incontáveis organizações, movimentos sociais e partidos passaram por processos de entrismo, nem sempre com o objetivo exclusivo de recrutar militantes. Em muitos casos, o entrismo serviu para neutralizar e reduzir a capacidade organizativa de agrupamentos políticos que poderiam colocar em xeque a hegemonia de determinados partidos sobre a classe trabalhadora.

Como alguém que já presenciou o entrismo sendo praticado in loco, tive a sensação de assistir ao mesmo método sendo aplicado contra o PSOL quando Guilherme Boulos se filiou ao partido, em 2018. Até então, um dileto filho da classe média paulista ocupava a liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e utilizava uma linguagem política muito mais próxima do PT do que do PSOL.  A decisão de Boulos de ingressar no PSOL, e não no PT, pareceu estranha para alguns, inclusive para mim. Ainda assim, as resistências internas mostraram-se insuficientes para impedir que fosse rapidamente alçado à condição de candidato à Presidência da República, algo, no mínimo, inusitado para alguém recém-chegado ao partido.

A questão é que, desde sua entrada no PSOL, Boulos  promoveu um  exitoso processo de realinhamento político em relação ao PT que contribuiu para o enfraquecimento da proposta original do partido: constituir uma alternativa à esquerda capaz de aglutinar e organizar a classe trabalhadora. É possível discutir até que ponto realinhamento e entrismo são ou não faces da mesma moeda. O fato, contudo, é que esse processo foi acompanhado pelo fortalecimento e pela quase hegemonia das chamadas pautas identitárias no programa político do PSOL. Ainda que a atuação de Boulos não se caracterize prioritariamente pela defesa dessas pautas, foi em torno de sua liderança que se reuniram quadros políticos orientados por elas e que, em grande medida, relegam a segundo plano elementos mais clássicos da tradição da esquerda.

Além disso, todo processo de realinhamento tende a produzir tensões, e no PSOL isso não tem sido exceção. Essas tensões se intensificaram em março de 2026, quando foi rejeitada a proposta de formação de uma federação com o PT. A discussão, que se arrastou durante parte de 2025, aprofundou as divergências internas, ainda que tenha produzido apenas movimentações pontuais, e não um êxodo em massa. Ainda assim, a corrente liderada por Boulos e integrada por parlamentares como Érika Hilton e Henrique Vieira parece manter um pé em cada partido. Aliás, a permanência de Érika Hilton e Henrique Vieira no PSOL parece decorrer menos de uma opção preferencial pela legenda do que da inexistência, por ora, de espaço equivalente no eleitorado petista, configurando uma escolha tática voltada a maximizar a viabilidade eleitoral nas eleições de outubro.

É nesse contexto que parece se inserir a recente controvérsia levantada por Érika Hilton acerca da distribuição dos recursos do fundo partidário entre as candidaturas do PSOL. Embora tenha recebido uma dotação de R$ 2,3 milhões — a maior entre as candidaturas proporcionais do partido (deputados federais e estaduais) —, o que parece estar em jogo é uma demonstração de descontentamento com o apoio destinado a outras candidaturas, como a de Manuela D’Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul, que não compartilham o mesmo viés programático atribuído à parlamentar. Em outras palavras, a celeuma pode estar servindo mais para reforçar uma determinada agenda identitária do que propriamente para discutir a justiça dos mecanismos de distribuição dos recursos partidários. Nada impedirá, por exemplo, que essa polêmica venha a servir de justificativa para uma futura saída de Hilton do PSOL rumo ao PT, já de posse de um novo mandato.

O aspecto que considero mais importante em todo esse debate diz respeito ao destino do PSOL, não apenas como força institucional ocupante de mandatos parlamentares, mas como partido político capaz de organizar as lutas da classe trabalhadora e da juventude contra as políticas neoliberais que asfixiam o cotidiano da população brasileira. Ainda que isso possa parecer contraditório, a saída de figuras como Guilherme Boulos e Érika Hilton — acompanhados dos segmentos da corrente Revolução Solidária que ainda permanecem no partido — poderá produzir o realinhamento de que o PSOL necessita para deixar a longa sombra exercida pelo PT. Hoje, essa influência se traduziria na redução da ação política para uma atuação predominantemente parlamentar e em um foco hegemônico nas pautas identitárias, que mobilizam parte da classe trabalhadora, mas que, objetivamente, não alcançam os segmentos mais atingidos pelas políticas neoliberais emanadas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Voltando ao ponto de partida, resta a pergunta: caso essa saída venha a ocorrer, estaremos diante apenas de um novo realinhamento político ou do encerramento de uma bem-sucedida estratégia de entrismo disfarçado? O futuro dará a resposta.

Paulo Lindesay disseca a “caixa preta” da dívida pública e o desmonte silencioso do Estado brasileiro

Em novo ensaio, Paulo Lindesay articula seis décadas de reformas fiscais, administrativas e monetárias para sustentar que a prioridade conferida ao capital financeiro redefiniu o papel do Estado e aprofundou os limites ao financiamento das políticas públicas

O texto A Caixa Preta do Sistema da Dívida: O Desmonte do Estado Nacional da Ditadura à autonomia do Banco Central, de Paulo Lindesay, oferece uma das mais abrangentes reconstruções históricas recentes das transformações institucionais que moldaram as finanças públicas brasileiras nas últimas seis décadas. Mais do que uma cronologia de leis e reformas administrativas, o autor procura demonstrar que existe um fio condutor ligando diferentes governos, orientações ideológicas e ciclos econômicos: a crescente subordinação do Estado aos interesses do capital financeiro.

O principal mérito do trabalho reside justamente em romper com uma interpretação fragmentada das reformas do Estado. Em vez de analisar isoladamente o Decreto-Lei nº 200/1967, a Lei Kandir, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Emenda Constitucional nº 95, a autonomia do Banco Central ou o novo Arcabouço Fiscal, Lindesay os interpreta como componentes de uma mesma arquitetura institucional. Segundo essa leitura, cada uma dessas mudanças contribuiu, em maior ou menor grau, para ampliar a prioridade conferida ao pagamento da dívida pública e restringir a capacidade do Estado de financiar políticas sociais e investimentos públicos.

Essa perspectiva possui grande força explicativa porque evidencia que a disputa em torno do orçamento público não constitui apenas uma questão técnica. Ao contrário, Lindesay mostra que se trata de uma disputa política sobre quem se apropria do fundo público. Nesse sentido, o texto aproxima-se das formulações da economia política crítica e da sociologia do Estado ao mostrar que as regras fiscais, monetárias e administrativas expressam relações de poder e escolhas distributivas, e não meros imperativos econômicos.

Outro aspecto particularmente relevante é a conexão estabelecida entre política monetária, reformas administrativas e precarização do serviço público. Em geral, esses temas aparecem separados no debate nacional. Lindesay demonstra que a contenção das despesas primárias, a flexibilização das relações de trabalho no setor público, a terceirização e a expansão de formas privadas de gestão podem ser compreendidas como parte de uma mesma lógica de reorganização do Estado em favor da sustentabilidade financeira da dívida pública.

Ao mesmo tempo, o texto suscita questões que merecem aprofundamento. Diversas interpretações apresentadas  (tal  como a caracterização de determinados dispositivos legais como instrumentos deliberados de favorecimento ao rentismo ou a avaliação sobre aspectos jurídicos da dívida pública) pertencem a uma corrente específica da economia política brasileira e permanecem objeto de intenso debate entre economistas, juristas e cientistas políticos. Justamente por isso, sua maior contribuição talvez não esteja em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar perguntas frequentemente ausentes da agenda pública: quem ganha e quem perde com o atual desenho institucional das finanças públicas? Quais interesses são privilegiados pelas sucessivas reformas do Estado? E quais são os custos sociais de um modelo em que o pagamento da dívida assume posição central na organização do orçamento?

Para quem acompanha a situação das universidades públicas estaduais, essas reflexões adquirem significado especial. A compressão dos investimentos em educação, ciência, saúde e infraestrutura não decorre apenas de dificuldades conjunturais de arrecadação, mas também das prioridades estabelecidas pelo próprio Estado na distribuição dos recursos públicos. É precisamente nesse ponto que o debate sobre dívida pública deixa de ser um tema restrito aos especialistas em finanças e passa a interessar diretamente a professores, pesquisadores, servidores públicos e à sociedade como um todo.

Independentemente das posições adotadas em relação às teses defendidas por Paulo Lindesay, seu trabalho presta um serviço importante ao estimular uma discussão que raramente ultrapassa os círculos técnicos do Ministério da Fazenda, do Banco Central ou do mercado financeiro. Em uma democracia, a forma como o Estado arrecada, distribui e prioriza seus recursos não pode permanecer como uma “caixa preta”. Tornar essas escolhas transparentes constitui um passo indispensável para que a sociedade possa decidir, de forma informada, qual projeto de desenvolvimento deseja construir para o Brasil.

ADF chega à Alerj e confirma uma velha lição: direitos não são concedidos, são conquistados

Mensagem enviada pelo governador em exercício Ricardo Couto cria o Adicional de Desenvolvimento Funcional para servidores atingidos pela LC 194/2021, mas sua chegada ao Parlamento é fruto direto da mobilização dos trabalhadores, especialmente da histórica greve da UERJ

O envio da Mensagem 06.2026 pelo governador em exercício Ricardo Couto de Castro à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro representa um movimento político relevante para milhares de servidores públicos estaduais. A proposta institui o chamado Adicional de Desenvolvimento Funcional (ADF), mecanismo destinado a recompor parcialmente uma perda criada pela Lei Complementar nº 194/2021, que extinguiu, para os novos servidores, o antigo adicional por tempo de serviço e a gratificação por tempo de serviço.

Segundo a exposição de motivos, o governo procura substituir a lógica exclusivamente temporal de progressão por um modelo baseado na combinação entre experiência profissional, avaliações periódicas de desempenho, capacitação continuada e ausência de penalidades disciplinares. O projeto prevê a aquisição de um adicional de 5% a cada três anos de efetivo exercício, com uma regra transitória que concede 10% no primeiro período aquisitivo e estabelece um teto máximo de 60% de incorporação remuneratória. Também deixa claro que o benefício será restrito aos servidores que ingressaram após a vigência da LC 194/2021 e que pertencem a carreiras anteriormente contempladas pelos antigos adicionais por tempo de serviço.

O próprio governo admite que a iniciativa busca corrigir um problema criado pela reforma administrativa de 2021. Na justificativa encaminhada à Alerj, afirma que a medida pretende “recompor a política de reconhecimento da experiência funcional” e restabelecer um equilíbrio entre os servidores antigos e aqueles que ingressaram após a edição da Lei Complementar nº 194. A mensagem também apresenta estimativas de impacto financeiro que alcançam R$ 25,4 milhões em 2026, R$ 46,9 milhões em 2027 e R$ 86,3 milhões em 2028, valores considerados compatíveis com a responsabilidade fiscal pelo Executivo.

A comunicação feita pelo presidente da Alerj, Douglas Ruas aos demais deputados que compõe a atual legislatura, de que a matéria será apreciada em regime prioritário demonstra que existe disposição política para acelerar sua tramitação. Ao informar aos deputados que a mensagem chegou à Casa por volta das 21 horas da sexta-feira, determinando sua publicação imediata e convocando um Colégio de Líderes extraordinário antes de uma sessão específica sobre o tema, Ruas sinaliza que o ADF tornou-se uma das principais pautas do Legislativo fluminense neste momento.

Entretanto, seria um erro interpretar essa iniciativa como um gesto espontâneo do governo estadual. O encaminhamento do projeto constitui, antes de tudo, uma resposta às pressões acumuladas do funcionalismo público. Em particular, ele guarda relação direta com a greve realizada por professores e servidores técnico-administrativos da UERJ, cuja mobilização recolocou no centro da agenda política estadual o debate sobre valorização das carreiras públicas e os efeitos perversos produzidos pela Lei Complementar nº 194.

Essa é talvez a principal lição política do episódio. Em um Estado do Rio de Janeiro permanentemente submetido às restrições impostas pelo Regime de Recuperação Fiscal e por uma dívida pública que continua consumindo parcela expressiva das receitas estaduais, nenhuma conquista dos servidores ocorre por simples boa vontade dos governantes. Como tem alertado reiteradamente neste blog o auditor fiscal e especialista em finanças públicas Paulo Lindesay, o peso da dívida pública limita investimentos e políticas de valorização do funcionalismo, tornando cada avanço resultado de intensa disputa política e orçamentária.

Por isso, a criação do ADF deve ser compreendida menos como um ato de generosidade governamental e mais como consequência direta da capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores. A experiência recente da UERJ demonstra que a luta coletiva continua sendo o instrumento mais eficaz para romper a inércia do Estado e produzir respostas concretas às reivindicações do funcionalismo.

A tramitação da Mensagem nº 06/2026 na Alerj será acompanhada atentamente por todo o serviço público estadual. Mais do que definir um novo adicional remuneratório, sua aprovação poderá consolidar um precedente importante para futuras negociações envolvendo outras categorias. Mas a principal conclusão já pode ser extraída desde agora: quando trabalhadores se organizam, constroem unidade e sustentam a mobilização, tornam possível aquilo que, até pouco tempo antes, parecia politicamente inviável.

Girinos da Amazônia já carregam microplásticos, revela estudo

Perereca-de-banheiro. Imagem: Taucce et al., 2022, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Por David Brown para “Mongabay Brasil” 

Pela primeira vez, pesquisadores encontraram microplásticos em girinos e nos corpos d’água que lhes servem de habitat na Amazônia, segundo um novo estudo. A descoberta reforça evidências de contaminação por microplásticos na floresta amazônica, afirmam os pesquisadores.

Estudos anteriores realizados na região já haviam detectado contaminação por microplásticos em peixes, invertebrados, amostras de solo e de água.

No estudo mais recente, a ecologista Fabrielle Barbosa de Araújo, da Universidade Federal do Pará, e seus colegas coletaram amostras de água de cinco poças temporárias no solo do Parque Ecológico do Gunma, na Região Metropolitana de Belém. Essas poças, formadas pelo acúmulo de água da chuva, são importantes áreas de reprodução e desenvolvimento de girinos de várias espécies de anfíbios na Amazônia.

Em cada um dos cinco corpos d’água, os pesquisadores também coletaram cem girinos da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), espécie encontrada tanto em áreas florestais quanto urbanas com ampla distribuição na América do Sul.

Microplásticos foram encontrados em todas as poças e em todos os girinos analisados. A maioria das partículas era composta por fibras plásticas, como poliéster, principalmente transparentes, azuis e pretas. Estudos anteriores também identificaram fibras semelhantes em diferentes partes da Amazônia, possivelmente oriundas de esgoto sanitário e atividades pesqueiras.

Em entrevista por e-mail à Mongabay, Araújo disse que não ficou surpresa ao encontrar microplásticos nos girinos e em seus habitats. “O que realmente chamou nossa atenção foi a grande quantidade encontrada, principalmente porque esta é uma área com baixa densidade populacional humana e considerada relativamente bem preservada”, afirmou.

Araújo disse estar especialmente preocupada com a presença de microplásticos nos girinos porque “a contaminação pode afetar negativamente a saúde dos anfíbios, causando danos genéticos e morfológicos, como alterações nas células sanguíneas e no próprio DNA”. Segundo ela, as partículas também podem se acumular nos tecidos e provocar alterações fisiológicas nos anfíbios.

Os autores observam que os girinos da perereca-de-banheiro se alimentam de algas, fungos e ovos presentes na água, o que pode ajudar a explicar a ingestão dos microplásticos.

“As pesquisas sobre a presença de microplásticos na Amazônia se intensificaram nos últimos anos, e o nosso objetivo é continuar monitorando essa contaminação, principalmente em girinos de anuros, a fim de entender melhor como esse poluente está afetando a biodiversidade da nossa região”, disse Araújo.

“Este estudo apresenta as primeiras evidências de que microplásticos estão alcançando girinos na Amazônia, uma região sobre a qual temos muito poucos dados”, disse à Mongabay Jess Hua, pesquisadora de ecologia de água doce e de anfíbios que não participou do estudo.

“Isso é importante porque os anfíbios representam o grupo de vertebrados mais ameaçado e, para sua conservação, é fundamental entender as ameaças potenciais, incluindo os microplásticos.”

Hua acrescentou que a contaminação por microplásticos em ecossistemas de água doce ainda é muito menos estudada do que em ambientes marinhos.

Por mais informação informação sobre o problema da contaminação de microplásticos na Amazônia, clicar [ Aqui!].


Fonte: Mongabay Brasil

Minas Gerais: operação da Polícia Federal revela a engrenagem da mineração ilegal na Serra do Curral

Indiciamento de 17 pessoas mostra que a mineração ilegal depende de uma complexa rede empresarial, técnica, financeira e institucional, reforçando a necessidade de punição exemplar dos responsáveis

O indiciamento de 17 pessoas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Parcours, conectada à Operação Rejeito, representa mais um passo importante no desmonte de um sofisticado esquema de exploração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A reportagem assinada pelo jornalista Lucas Ragazzi, publicada no portal O Fator,  aponta que a investigação revelou que planos de recuperação ambiental e de fechamento de mina teriam sido utilizados como fachada para viabilizar a continuidade da lavra em uma área tombada e legalmente protegida.

Os crimes investigados vão muito além da extração mineral sem autorização. Segundo a Polícia Federal, o esquema envolveria, em tese, usurpação de bens da União, dano ambiental, degradação de patrimônio tombado, organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude processual. Mais significativo ainda é o fato de que a investigação identifica diferentes núcleos de atuação (i.e., empresarial, técnico, financeiro e de captura institucional   indicando que a mineração ilegal contemporânea não opera por meio de aventureiros isolados, mas através de estruturas organizadas, altamente especializadas e articuladas.

Esse talvez seja o aspecto mais relevante do caso. A imagem tradicional do garimpeiro ou do empresário que simplesmente descumpre a legislação ambiental já não explica a complexidade dos grandes empreendimentos ilegais. O que emerge das investigações é um modelo de atuação que depende da participação coordenada de empresários, advogados, consultores técnicos, operadores financeiros e, quando possível, de agentes capazes de influenciar ou capturar instâncias estatais responsáveis pelo licenciamento, fiscalização e controle.

O fato é que estamos diante de uma verdadeira cadeia econômica do crime ambiental. Cada segmento desempenha uma função específica para conferir aparência de legalidade a atividades que, segundo as investigações, produzem enormes danos ao patrimônio público e ao meio ambiente. O uso de instrumentos concebidos justamente para reparar impactos ambientais  (e.g.,  planos de recuperação de áreas degradadas) como suposta cobertura para a continuidade da exploração mineral talvez seja um dos elementos mais perversos revelados pela investigação da Polícia Federal.

Entretanto, esse padrão não constitui uma novidade exclusiva de Minas Gerais. Em diferentes regiões do Brasil observa-se uma crescente sofisticação dos crimes ambientais associados à mineração, ao desmatamento ilegal, à grilagem de terras públicas e até mesmo à expansão de determinadas fronteiras agropecuárias. Em comum, esses casos apresentam a formação de redes capazes de mobilizar recursos financeiros, conhecimentos técnicos e influência política para reduzir riscos, neutralizar mecanismos de fiscalização e prolongar atividades ilícitas durante anos.

É justamente por isso que eventuais punições brandas produziriam um efeito devastador sobre a credibilidade das instituições. Quando organizações criminosas movimentam milhões de reais explorando bens públicos e degradando áreas protegidas, multas administrativas ou condenações limitadas deixam de cumprir qualquer função dissuasória. Ao contrário, acabam sendo incorporadas ao próprio cálculo econômico da atividade ilegal.

Se as acusações forem confirmadas ao longo do devido processo legal, será indispensável que as sanções alcancem todos os integrantes da estrutura investigada, independentemente de sua posição econômica, profissional ou institucional. Não basta responsabilizar apenas quem opera diretamente a extração mineral. O que fica evidente é que se torna igualmente necessário alcançar aqueles que oferecem suporte técnico, financeiro, jurídico ou administrativo para viabilizar o empreendimento ilícito.

A Operação Parcours deixa uma lição importante para o Brasil: combater crimes ambientais exige muito mais do que fiscalizar escavadeiras ou interditar minas.  Este esforço exige enfrentar redes complexas de poder econômico e político que transformam a destruição ambiental em um negócio altamente lucrativo.  Asssim, será somente com a responsabilização integral de todos os envolvidos poderá romper esse ciclo e demonstrar que a legislação ambiental brasileira não constitui um obstáculo meramente burocrático, mas um instrumento efetivo de proteção do patrimônio natural e do interesse público.

Quem vigia a ciência? Caso Unicamp expõe como interesses do agronegócio ameaçam a integridade da ciência sobre agrotóxicos

Reportagem da Repórter Brasil mostra que a influência de financiadores privados sobre estudos científicos pode ser muito mais ampla do que se imagina e levanta dúvidas sobre a capacidade das instituições de proteger a independência da produção do conhecimento

A reportagem de Hélen Freitas, publicada pela Repórter Brasil merece ser lida com atenção por todos aqueles que acompanham o debate sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e no meio ambiente. O caso relatado não se resume à abertura de uma investigação pela Unicamp e pela revista científica InterAmerican Journal of Medicine and Health. Ele lança luz sobre um problema muito mais amplo: a fragilidade dos mecanismos de proteção da integridade científica justamente em uma das áreas mais disputadas da pesquisa contemporânea. 

Segundo a reportagem, a investigação procura esclarecer possíveis conflitos de interesse em um estudo que concluiu que trabalhadores rurais expostos ao glifosato apresentavam níveis considerados aceitáveis do herbicida. A questão central, entretanto, não é apenas o financiamento da pesquisa pela Aprosoja-MT. Os documentos analisados indicam que a entidade financiadora também teria participado da seleção dos trabalhadores avaliados, indicado laboratórios responsáveis pelas análises e participado da logística de coleta e transporte das amostras. Em outras palavras, o financiador teria interferido em etapas fundamentais do desenho metodológico da pesquisa.

Caso essas informações sejam confirmadas, estaremos diante de algo muito mais grave do que um simples conflito administrativo, pois se trata da possibilidade de comprometimento da independência científica justamente no momento em que são produzidas evidências destinadas a orientar decisões regulatórias sobre um dos herbicidas mais utilizados no planeta.

O aspecto mais preocupante, porém, talvez seja outro. É que seria um erro interpretar esse episódio como um acidente isolado. Ao contrário, ele parece ilustrar um padrão recorrente na literatura científica relacionada aos agrotóxicos.

Nas últimas décadas, inúmeras revisões sistemáticas demonstraram que estudos financiados por fabricantes ou por entidades diretamente interessadas na manutenção do uso de determinados produtos tendem, com frequência significativamente maior, a produzir conclusões favoráveis à segurança dessas substâncias quando comparados às pesquisas conduzidas por grupos independentes. Esse fenômeno já foi amplamente documentado nas áreas do tabaco, da indústria farmacêutica, dos combustíveis fósseis e, cada vez mais, da agricultura baseada em insumos químicos.

Não se trata de afirmar que toda pesquisa financiada pelo setor privado seja necessariamente inválida. A ciência depende de diferentes fontes de financiamento, inclusive empresariais. O problema surge quando o patrocinador deixa de financiar e passa a interferir na definição das perguntas, na seleção dos participantes, na metodologia empregada, na interpretação dos resultados ou na divulgação das conclusões. A partir desse momento, a independência científica deixa de existir.

O caso da Unicamp também revela outro aspecto igualmente preocupante: a insuficiência dos mecanismos de monitoramento ético atualmente existentes.

Os Comitês de Ética em Pesquisa exercem papel fundamental na proteção dos participantes dos estudos. Entretanto, sua atuação concentra-se predominantemente na análise inicial dos protocolos de pesquisa. Depois da aprovação, o acompanhamento efetivo da execução dos estudos costuma ser bastante limitado, dependendo quase sempre das informações prestadas pelos próprios pesquisadores.

Esse modelo parte de uma premissa de boa-fé que, embora essencial ao funcionamento da ciência, torna-se insuficiente quando pesquisas envolvem interesses econômicos extremamente elevados. Se, durante a execução do estudo, ocorrerem mudanças relevantes na seleção dos participantes, nos procedimentos metodológicos ou na participação do financiador, muitas vezes não existem mecanismos institucionais capazes de detectar essas alterações em tempo oportuno.

Da mesma forma, o sistema editorial das revistas científicas baseia-se fortemente nas declarações de conflito de interesse apresentadas pelos próprios autores. Editores e pareceristas normalmente não possuem instrumentos para verificar independentemente se todas as relações financeiras, institucionais ou metodológicas foram efetivamente declaradas. Como consequência, o sistema depende quase inteiramente da transparência dos pesquisadores.

É justamente essa combinação entre fiscalização limitada durante a execução das pesquisas e confiança quase absoluta nas autodeclarações dos autores que cria um ambiente favorável para conflitos de interesse permanecerem invisíveis durante anos.

O episódio reforça, portanto, a necessidade de uma agenda muito mais robusta de integridade científica. Pesquisas com potencial impacto sobre políticas públicas de saúde e de regulação ambiental deveriam adotar padrões muito mais rigorosos de transparência. Protocolos previamente registrados, divulgação integral das fontes de financiamento, publicidade sobre a participação dos patrocinadores em cada etapa da pesquisa, acesso aos bancos de dados e auditorias independentes deveriam constituir práticas rotineiras — e não exceções.

Essa discussão torna-se ainda mais urgente quando lembramos que as decisões regulatórias envolvendo agrotóxicos afetam milhões de trabalhadores rurais, comunidades expostas à pulverização, consumidores e ecossistemas inteiros. Quanto maiores os impactos sociais de uma pesquisa, maior deve ser o grau de independência e de escrutínio público sobre sua produção.

Por isso, o mérito da reportagem da Repórter Brasil vai além da denúncia de um caso específico. Ela convida a comunidade científica a enfrentar uma questão desconfortável, mas inevitável: até que ponto os atuais mecanismos de integridade científica conseguem proteger a produção do conhecimento quando os interesses econômicos em jogo alcançam bilhões de reais?

Infelizmente, tudo indica que, na área dos agrotóxicos, a resposta ainda está longe de ser satisfatória.

Espécie de caramujo que viveu há milhares de anos é descoberta no Paraná

Conchas encontradas na Ilha do Teixeira, no litoral paranaense, revelam espécie inédita; pesquisador reforça a importância dos sambaquis para a história da biodiversidade

Espécie de caramujo que viveu há milhares de anos é descoberta no Paraná Conchas encontradas na Ilha do Teixeira, no litoral paranaense, revelam espécie inédita; pesquisador reforça a importância dos sambaquis para a história da biodiversidade

Variações do caramujo terrestre Thaumastus teixeirensis, que viveu há milhares de anos no litoral paranaese, e acaba de ser catalogado (Foto: Papéis Avulsos de Zoologia/Reprodução)

Por Lívia Inácio para Ciência UFPR 

Encontrar um caramujo desconhecido pela zoologia já seria uma grande surpresa para um cientista. Agora imagine identificar uma espécie que, além de nunca ter sido catalogada, não existe mais. Essa foi a descoberta dos pesquisadores Marcos de Vasconcellos Gernet, do Laboratório de Evolução e Diversidade Zoológica da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Luiz Ricardo L. Simone, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP); e Fabiano Pinheiro, do Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais, também da UFPR. 

Ao analisar um sambaqui (sítio arqueológico pré-colonial) de aproximadamente 3 mil anos, na Ilha do Teixeira, no litoral do Paraná, a equipe encontrou conchas de um caramujo terrestre pertencente ao gênero Thaumastus, que possui 38 espécies na América do Sul, sendo 18 delas registradas no Brasil. “Elas tinham entre 3 e 6 centímetros de comprimento, o que para um caramujo terrestre, é consideravelmente grande”, diz Gernet. 

Mas os exemplares não correspondiam a nenhuma espécie já conhecida. A principal diferença estava na parte pontuda da concha, estrutura chamada de espira. Nos outros caracóis do mesmo grupo, essa ponta costuma ser mais longa. A superfície também tinha como diferenciais faixas marrom-avermelhadas e uma linha branca em espiral que os indivíduos do mesmo gênero não possuíam. 

Após constatar a novidade, os pesquisadores passaram dois anos investigando a Ilha do Teixeira para localizar mais exemplares do caramujo identificado, e não encontraram. “Não achamos sequer conchas vazias, nem animais do gênero, mesmo no sambaqui ao lado”, diz o professor. “Nossa hipótese é de que eles viviam restritos ao mangue e dificilmente conseguiam acessar o continente”.

As 23 conchas encontradas no sambaqui foram limpas e depositadas no Museu de Zoologia da USP, e o artigo com a descrição do animal foi publicado no periódico Papéis Avulsos de Zoologia, da mesma instituição, no final de 2025. A espécie foi batizada como Thaumastus teixeirensisem menção ao seu gênero e à ilha onde foi encontrada. 

O que terá acontecido com Thaumastus teixeirensis?

Diante dos vestígios, uma das principais perguntas em aberto é: o que aconteceu com o  teixeirensis? O desaparecimento pode estar ligado a uma rápida mudança no clima, marcada por um longo período de estiagem ou alterações no nível do mar, segundo o professor.

 “Moluscos são sensíveis a mudanças climáticas. Quando o tempo está seco, eles se recolhem nas conchinhas até a umidade voltar para que eles possam se locomover e procurar alimento. Se o tempo úmido não volta, eles simplesmente não saem, e morrem”.

Uma ocupação mais intensa da ilha a partir do ano 1700 também pode ter contribuído com a extinção. “Possivelmente não seja a causa principal, mas pode ter ajudado, já que comunidades costumam comer caramujos terrestres”, argumenta. 

Também não se sabe ainda como a espécie interagia com o ecossistema da Ilha do Teixeira e se o animal existiu em outros sambaquis ou áreas que ainda não foram escavadas ou estudadas. 

Histórias que o sambaqui conta

A descoberta do Thaumastus teixeirensis reforça a importância dos sambaquis. A palavra, que deriva do tupi e significa monte de conchas, corresponde a sítios arqueológicos comuns em regiões costeiras, que foram construídos por grupos humanos vivendo no litoral brasileiro milhares de anos antes da colonização europeia.

“A presença de um sambaqui indica que ali havia populações que caçavam, pescavam e coletavam recursos da fauna e da flora locais”, explica Gernet. Assim, pesquisadores encontram desde restos de alimentos e esqueletos humanos até artefatos como anzóis, pontas de lança e outras ferramentas,  que ajudam a reconstruir a história humana e da biodiversidade. 

As conchas são importantes marcadores de um sambaqui porque resistem bem à ação do tempo e ajudam a preservar informações sobre o ambiente e os organismos que existiam na região. “Portanto, estudar os moluscos é fundamental para compreendermos nosso passado. A construção dos sambaquis dependia deles”. 

Nesse sentido, o professor reforça a necessidade de proteger os sambaquis. As conchas que levaram à identificação da nova espécie, por exemplo, foram encontradas em uma área que estava sendo cimentada e se a intervenção tivesse avançado um pouco mais, os pesquisadores talvez nunca encontrassem os materiais que permitiram sua descrição. “É preciso preservar esses registros para que possamos entender como a biodiversidade mudou e ainda pode mudar”.

➕ Leia o artigo A new and already extinct Thaumastus from shell mounds (sambaquis) in Paraná, Brazil (Mollusca, Eupulmonata, Orthalicoidea), publicado no periódico Papéis Avulsos de Zoologia, do Museu de Zoologia da USP


Fonte: Ciência UFPR

Glifosato: da contaminação ambiental ao risco das superbactérias

Pesquisa publicada na Frontiers in Microbiology mostra que bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também apresentam elevada resistência ao herbicida mais utilizado no mundo, ampliando as preocupações sobre os impactos ambientais e sanitários do atual modelo agrícola

Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology acrescenta uma dimensão particularmente preocupante ao já extenso debate sobre os riscos associados ao glifosato. A pesquisa, conduzida por Camila A. Knecht e colaboradores, encontrou evidências de que bactérias hospitalares altamente resistentes a antibióticos também apresentam elevada resistência ao glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. A divulgação dos resultados pela ScienceDaily amplia o alcance de uma descoberta que merece atenção não apenas da comunidade científica, mas também das autoridades responsáveis pelas políticas de saúde pública e agricultura.

O estudo analisou mais de uma centena de cepas bacterianas provenientes de hospitais, áreas agrícolas e ambientes naturais na região do Delta do Paraná, na Argentina. Os resultados revelaram um padrão inquietante: bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também suportavam concentrações elevadas de glifosato e de formulações comerciais baseadas nesse herbicida. Os autores sugerem que a utilização intensiva do glifosato em sistemas agrícolas pode favorecer a seleção e a permanência dessas bactérias no ambiente, criando uma ponte ecológica entre hospitais e áreas rurais.

A hipótese apresentada pelos pesquisadores é particularmente relevante porque desloca parte do debate sobre resistência antimicrobiana para além do uso indiscriminado de antibióticos. Se confirmada por novos estudos, ela indica que herbicidas largamente empregados na agricultura também podem contribuir para selecionar microrganismos capazes de sobreviver aos principais antibióticos utilizados na medicina.

Embora o trabalho não demonstre que o glifosato seja a única causa da disseminação dessas bactérias, ele reforça a necessidade de compreender a resistência antimicrobiana como um fenômeno ambiental complexo, envolvendo múltiplos fatores de seleção. Nesse contexto, agricultura, saúde pública e qualidade ambiental deixam de ser temas separados e passam a integrar um mesmo sistema.

Na realidade brasileira, essa discussão adquire importância ainda maior. O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de glifosato, impulsionado pela expansão das monoculturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Em um cenário caracterizado pela aplicação contínua de grandes volumes desse herbicida, torna-se legítimo perguntar quais são os efeitos cumulativos dessa exposição sobre os microrganismos presentes nos solos, nos corpos d’água e até mesmo nos sistemas de abastecimento.

Esse novo estudo também dialoga com uma literatura científica que vem crescendo rapidamente. Em 2023, uma pesquisa publicada igualmente na Frontiers in Microbiology demonstrou que trabalhadores expostos ocupacionalmente a diferentes classes de agrotóxicos apresentavam alterações significativas na diversidade e na composição da microbiota intestinal. Os autores identificaram redução da diversidade bacteriana e modificações em dezenas de espécies microbianas associadas à exposição prolongada a fungicidas, inseticidas e outros pesticidas. Em outras palavras, os agrotóxicos não afetam apenas os organismos-alvo das lavouras: eles também alteram comunidades microbianas fundamentais para a saúde humana.

Essas descobertas convergem para uma conclusão cada vez mais difícil de ignorar: os processos regulatórios utilizados para autorizar pesticidas continuam avaliando predominantemente sua toxicidade direta sobre organismos superiores, mas ainda dedicam pouca atenção aos impactos ecológicos sobre comunidades microbianas. Trata-se de uma lacuna importante, pois o microbioma humano e ambiental desempenha funções essenciais para a imunidade, o metabolismo, a fertilidade dos solos e o equilíbrio dos ecossistemas.

Os próprios autores do estudo mais recente defendem que os processos de registro de pesticidas passem a incorporar testes que avaliem seu potencial de favorecer a seleção conjunta de resistência a antibióticos. É uma proposta coerente com o conceito de “Saúde Única” (One Health), segundo o qual saúde humana, saúde animal e saúde ambiental são dimensões inseparáveis.

Enquanto o agronegócio insiste em apresentar o glifosato apenas como uma ferramenta indispensável para elevar a produtividade agrícola, a ciência continua revelando efeitos indiretos que extrapolam em muito o controle de plantas daninhas. Se herbicidas também contribuem para fortalecer superbactérias resistentes aos antibióticos, estamos diante de um problema que ultrapassa os limites das lavouras e alcança diretamente hospitais, sistemas de saúde e toda a sociedade.