Nota técnica de Paulo Lindesay mostra que, apesar das oscilações da relação dívida/PIB, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 10,95 trilhões em julho de 2026
Uma nota técnica elaborada por Paulo Lindesay, coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo RJ, oferece elementos importantes para compreender um dos aspectos mais frequentemente simplificados no debate sobre as contas públicas brasileiras. Com base em dados oficiais do Banco Central, Lindesay reconstrói a trajetória da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) entre dezembro de 2001 e julho de 2026.
O primeiro número chama atenção pela dimensão. Em dezembro de 2001, a DBGG correspondia a R$ 683,6 bilhões. Em julho de 2026, alcançou R$ 10,947 trilhões. No mesmo período, entretanto, sua proporção em relação ao PIB apresentou fortes oscilações: era de 51,9% em 2001, atingiu o máximo de 86,9% durante a pandemia, em 2020, recuou para 71,7% em 2022 e voltou a subir, chegando a 82,5% do PIB em julho deste ano. É justamente nessa diferença que reside um dos aspectos mais interessantes da análise de Paulo Lindesay. A queda da relação dívida/PIB não significa necessariamente redução do estoque da dívida. O exemplo de 2020-2022 é particularmente esclarecedor: enquanto a relação caiu de 86,9% para 71,7%, o estoque nominal passou de R$ 6,67 trilhões para R$ 7,22 trilhões. Em outras palavras, a dívida continuou crescendo enquanto o indicador dívida/PIB diminuía, em razão, entre outros fatores, do aumento do PIB nominal.
A série apresentada por Lindesay também mostra uma mudança importante a partir de 2014. Entre 2001 e 2013, a relação DBGG/PIB permaneceu aproximadamente entre 51% e 60%. A partir daí ocorreu uma escalada: 56,3% em 2014, 65,5% em 2015, 73,7% em 2017 e 75,3% em 2018, até o salto extraordinário ocorrido durante a pandemia. Depois do recuo de 2021 e 2022, a tendência voltou a ser ascendente: 74,3% em 2023, 76,5% em 2024, 78,7% em 2025 e 82,5% em julho de 2026.
O gráfico apresentado na página 3 da nota (ver logo abaixo) torna essa dinâmica particularmente visível: enquanto a linha da dívida como proporção do PIB sobe e desce conforme diferentes conjunturas econômicas, a curva correspondente ao estoque nominal apresenta uma trajetória praticamente contínua de crescimento. O próprio autor divide o período em três fases: estabilização entre 2001 e 2013, recessão e pandemia entre 2014 e 2020 e retomada da trajetória ascendente entre 2021 e 2026.
Há aqui uma questão política que merece ser acrescentada à leitura dos números. O debate fiscal brasileiro costuma concentrar enorme atenção sobre despesas primárias, salários do funcionalismo, Previdência, saúde, educação e investimentos públicos. A trajetória apresentada por Paulo Lindesay recomenda que se dê atenção igualmente rigorosa à dinâmica do próprio endividamento público e ao seu papel na disputa pelo orçamento estatal. Uma dívida que se aproxima dos R$ 11 trilhões não deveria aparecer no debate público apenas como uma porcentagem do PIB.
A nota técnica não encerra essa discussão — e nem pretende fazê-lo. Mas oferece uma série histórica de quase 25 anos, construída a partir das estatísticas oficiais do Banco Central, que permite formular perguntas fundamentais sobre a política fiscal brasileira. Se o estoque da dívida continua crescendo mesmo em períodos nos quais a relação dívida/PIB diminui, é preciso perguntar quais mecanismos alimentam essa expansão, quanto ela custa, quem são seus principais beneficiários e quais consequências produz sobre a capacidade do Estado de financiar políticas públicas. Por isso, a nota de Paulo Lindesay merece ser lida e debatida. Em meio ao discurso permanente de que o Estado brasileiro precisa cortar despesas para recuperar o chamado “equilíbrio fiscal”, seus números recolocam uma questão que frequentemente permanece fora do centro do debate: não basta discutir quanto o Estado gasta; é preciso discutir para onde vai o dinheiro público e como a própria dívida condiciona as escolhas orçamentárias do Brasil.










