A destruição da ciência e educação superior no Brasil

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta?

destruição

Por Luis Felipe Miguel

Qual é a melhor maneira de resistir à destruição da ciência e da educação superior no Brasil?

Não sei a resposta. Mas creio que não é prosseguir no piloto automático, fazendo tudo o que sempre fazíamos como se nada estivesse acontecendo.

Preenchendo o Lattes, pontuando as publicações com Qualis, preparando o relatório Capes…

Já era mesmo necessário repensar essas métricas, discutir para que tipo de produção científica elas nos empurravam. Mas, no imediato, fazia sentido seguí-las, já que elas definiam nossas possibilidades de financiamento.

E agora? Vamos continuar no mesmo passo, mas para quê? Para disputar as migalhas que sobram?

E serão premiados aqueles que mais conseguirem fingir que está tudo bem…

Pensemos nos eventos científicos. As agências governamentais estão retirando todo o apoio que era dado a eles.

Será que vale a pena tentar mantê-los no padrão de sempre – medalhão estrangeiro na conferência de abertura, sacolinha ecológica com livro de resumo e canetinha, coffee break com pão de queijo para que a fome não acirre os ânimos e faça as discussões desandarem?

Sem apoio, o “padrão de sempre” significa taxas de inscrição batendo nos mil reais.

O financiamento não vem pelo outro lado, já que os programas de pós-graduação também estão com suas verbas estranguladas. De qualquer jeito, mesmo que eles financiassem as participações, a taxa de inscrição estratosférica significaria mais uma vantagem para os programas consolidados e portanto melhor financiados, em geral no Sudeste do país, em detrimento das periferias.

E agora, aliás, nem isso: a inacreditável portaria do ministro da Educassão proíbe a participação de múltiplos docentes da mesma instituição num mesmo evento.

Ingênuo, pensei no começo que era uma demonstração de ignorância sobre o sentido de um evento científico – que não é para discutir com os pares, mas para fazer representação institucional. Ou, no máximo, uma feira de ciências.

Claro que não é isso. É que no projeto de país de Guedes e Bolsonaro a pesquisa é inútil (pois nosso papel no mundo é subordinado mesmo), quando não perigosa.

Não seria melhor adaptar os eventos à nova realidade – abraçar a precariedade, em vez de escamoteá-la, e usá-la como estímulo para nosso debate e nossa resistência?

Ou mesmo cancelar, como manifestação de protesto, aquilo que não tem como ser mantido?

Com as revistas científicas, o movimento de acomodação é pior ainda. Com o corte profundo no financiamento, que aliás sempre foi insuficiente, começa um movimento para cobrar dos autores pela publicação.

Alguns periódicos já estão implantando a medida. Outro dia recebi um pedido de parecer. Fui olhar as regras de submissão, como sempre faço antes de emitir um parecer, e estava lá: caso o artigo seja aprovado, há taxa de mil reais para a publicação.

Sei de outros periódicos que estão discutindo a cobrança.

Quem vai publicar, então? O pesquisador vinculado a um programa forte, que ainda tenha recursos para bancar a taxa de publicação, reforçando as disparidades regionais. O pesquisador sênior que ainda consiga alavancar um dos poucos financiamentos de pesquisa disponíveis. E, claro, um ou outro filhinho de papai, que pague do próprio bolso.

Essa é a ciência que nos queremos?

Seria melhor aproveitar para mandar as exigências do Qualis e do Scielo praquele lugar e buscar formas alternativas de publicização das pesquisas.

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta, neste pacote, para que se assuma de vez que não, não está tudo bem?

* Luis Felipe Miguel é  professor do Instituto de Ciência Política da UnB, coordenador do Demodê – Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.

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Este texto foi retirado da página oficial do professor Luis Felipe Miguel na rede social Facebook [Aqui!].

L’Oréal abre inscrições para programa de inovação com foco em sustentabilidade

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Brandstorm 2020 premiará universitários com uma imersão em Paris, em um programa completo para desenvolver e viabilizar projetos inovadores de negócios focando a redução de plástico na indústria da beleza

Estão abertas as inscrições para a 28ª edição do Brandstorm, programa global de incentivo a inovação para universitários. Todos os anos é lançado um desafio no qual estudantes são convidados a desenvolverem sua solução. Este ano, os universitários são desafiados em um tema relacionado a sustentabilidade e o futuro do planeta. A proposta é que eles apresentem uma solução que reduza ou elimine o plástico na indústria da beleza.

Estudantes de qualquer curso podem se inscrever, basta estarem matriculados em uma universidade e formarem grupos de três integrantes. As inscrições vão até o dia 13 de abril e podem ser feitas na página: http://brandstorm.loreal.com/.

Os seis melhores grupos do Brasil irão apresentar seus projetos na sede da L’Oréal, no dia 14 de maio, no Rio de Janeiro. O trio finalista brasileiro representará o país na França, na etapa final, definida em 23 de junho.

O time vencedor da etapa internacional terá a chance de desenvolver sua ideia por três meses em uma imersão 360° na Station F, em Paris, na França, o maior campus de startups do mundo, ao lado de alguns dos mais brilhantes empreendedores da Europa. Além disso, também terá a oportunidade de participar da cúpula One Young World. Um fórum global para jovens líderes e uma plataforma exclusiva de interação com outros jovens de diversos países e setores, compartilhando ideias para desenvolver soluções relacionadas a questões globais urgentes e criar mudanças positivas.

As equipes finalistas do país receberão a mentoria dos especialistas da L’Oréal para se prepararem melhor na defesa do seu modelo de negócios para os principais executivos e investidores da companhia.

Os times inscritos devem enviar uma apresentação de três slides e um vídeo de três minutos introduzindo o projeto. Todo o material deve estar em inglês. Na final nacional, as seis equipes selecionadas participarão de uma feira de inovação para apresentar os projetos ao júri e um time será escolhido para representar o Brasil na final global, em Paris.

O programa Brandstorm existe há 28 anos e já envolveu a participação de mais de 40 mil estudantes de 65 países e regiões, com mais de 80 horas de e-learning e 10 mil projetos e inovações avaliados.

Mais sobre o Brandstorm: http://brandstorm.loreal.com/

Brandstorm 2020
Inscrições: até 13 de abril, no site http://brandstorm.loreal.com/
Final Nacional: 14 de maio.
Final Global na França: 23 e 24 de junho, em Paris, França.
Prêmio ganhadores – nacional: viagem para Paris.
Prêmio ganhadores – internacional: período de três meses de incubação na Station F, em Paris, maior campus de startups do mundo, além da participação no fórum global One Young World.

Perspectivas sombrias para o Brasil

Quatro pesquisas de institutos renomados indicam crescimento lento da economia e perda de importância como destino de investimentos. Sem aumento da produtividade, desemprego não deve diminuir nos próximos anos.

desempregoBrasil ameaça ter mesmo destino de Espanha e Grécia quanto ao alto desemprego

Por Alexander Busch para a Deutsche Welle

A reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos é sempre uma boa ocasião para um registro do momento econômico e para um prognóstico: como a economia global continuará a crescer, quais são os maiores problemas? Pois pontualmente para o encontro nos Alpes suíços, inúmeras organizações e empresas fornecem suas previsões para o desenvolvimento da economia global. 

Essas previsões podem, claro, estar erradas. Por exemplo, é surpreendente que o Fundo Monetário Internacional (FMI) preveja que a economia global cresça 3,3% este ano. Por outro lado, o Banco Mundial – a entidade “irmã” do FMI em Washington e responsável pelo financiamento de projetos de desenvolvimento – espera apenas 2,5%.

As análises da perspectiva brasileira levam a uma constatação chocante: as perspectivas para a maior economia da América Latina são sombrias. As únicas boas notícias vêm do FMI, que aumentou levemente a projeção de crescimento do Brasil para este e próximo ano: de 2% para 2,2% neste ano e para 2,3% em 2021.

Isso faz do Brasil um dos poucos países cuja perspectiva melhorou nos últimos meses. As previsões para a Índia, México ou África do Sul, por exemplo, foram revisadas significativamente para baixo.

Mas a melhora não é realmente um motivo de alegria para o país. Com 2,2% este ano, o Brasil deverá crescer muito mais lentamente do que a economia global como um todo (3,3%). 

Em comparação com os mercados emergentes, ou seja, com as outras economias em ascensão, a situação do Brasil é ainda pior: o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro será provavelmente apenas metade daquele registrado por esse grupo de países, que precisam de um crescimento particularmente alto para reduzir a pobreza em seus territórios.

A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, disse que, por um lado, a reforma previdenciária e as baixas taxas de juros no Brasil melhoraram as perspectivas de crescimento. Mas isso está longe de ser o suficiente para permitir que o país cresça de forma duradoura. Segundo Gopinath, novas reformas no setor público são urgentemente necessárias.

A pesquisa realizada pela empresa de consultoria Pricewaterhouse Coopers (PwC) entre 1.581 líderes empresariais em todo o mundo também foi decepcionante: quando indagados sobre qual país desempenharia um papel importante nos negócios globais, o Brasil passou de 6º no ano passado para 9º lugar em 2020. 

Durante anos, o Brasil esteve no topo da lista, ao lado da China, dos EUA e da Alemanha, como um dos locais de investimento mais importantes do mundo. Agora, polos e mercados como Japão, Austrália ou França deixaram o Brasil para trás.

Os prognósticos são ainda mais pessimistas quando se analisam isoladamente as previsões dos líderes empresariais brasileiros na pesquisa: 78% dos CEOs disseram esperar que o faturamento aumente este ano. Mas a maioria dos chefes de empresas deseja alcançar esse aumento de receita através do crescimento orgânico. 

Em linguagem simples, isso significa que as empresas não estão planejando nenhum investimento para expandir suas capacidades este ano. Elas ainda se encontram subutilizadas após seis anos de recessão e estagnação.

As consequências sociais dessa baixa disposição para o investimento ficam evidentes na pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostrando que o desemprego pouco diminuirá no Brasil nos próximos cinco anos. Em vez de 12% de taxa de desemprego, 11,4% dos brasileiros em idade ativa ​​ainda estarão sem trabalho em 2025. 

Ou seja, em vez dos 12,8 milhões de desempregados de 2019, haverá “apenas” 12,6 milhões de pessoas à procura de trabalho daqui a cinco anos. A OIT diz sucintamente: “Não vemos razão para supor que o desemprego caia abaixo do nível de 2014 nos próximos anos.”

No início da recessão, a taxa de desemprego de 6,7% no Brasil era pouco menos da metade do que vem sendo há três anos. No país, essa taxa é atualmente cerca de três vezes maior que a média global. O Brasil ameaça ter o mesmo destino da Espanha ou da Grécia, onde o desemprego ainda é extremamente alto, mesmo uma década depois da crise financeira global.

Para esclarecer o quadro sombrio: é impressionante que tanto o FMI quanto o Banco Mundial como a OIT vejam a quase paralisada produtividade da economia brasileira como o principal obstáculo para a criação de mais empregos e rápido crescimento: além da formação profissional, são as condições básicas da economia que precisam ser urgentemente melhoradas.

A implantação do 5G e da inteligência artificial, como também a digitalização do setor público e da economia devem agora ser promovidos o mais rápido possível.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Kurumi poderá ser teste de “pior cenário” nas barragens de mineração em Minas Gerais

kurumiFormação do ciclone Kurumi poderá gerar teste real de “pior cenário” nas barragens de mineração que estão instáveis em Minas Gerais

A possibilidade de que tenhamos altos volumes de chuvas em função da formação do ciclone Kurumi está causando certo alarme dado o montante que está sendo esperado, e pelo fato no litoral da região Sudeste estão sendo esperados ventos de até 100 km/h e intensidade 7, numa escala que vai de 1 a 9., sendo que nas áreas continentes os ventos poderão chegar a 60 km/h e causar estragos estruturais (ver abaixo simulação de possíveis montantes de chuva que deverão atingir Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito).

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Pois bem, ainda que até agora tenhamos apenas valores teóricos obtidos a partir de modelagens, os mesmos não são nada desprezíveis e obviamente criam apreensão, especialmente em áreas que contenham barragens de rejeitos de mineração que possuem problemas conhecidos de estabelecidos, especialmente no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais (ver imagem abaixo).

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A questão que muitos moradores estão se colocando neste momento como as várias das barragens que, desde o início de 2019, estão sendo monitoradas por indicações de instabilidade. Um dos casos é o da mina Mar Azul no município de Nova Lima, que já foi analisada aqui mesmo neste espaço.

Pois bem, o que se tem até para Mar Azul é um comunicado da mineradora Vale  no dia de ontem apontando que “a barragem B3/B4, da Mina Mar Azul, em Macacos, continua com parâmetros inalterados, mesmo com as chuvas intensas dos últimos dias” (ver imagem abaixo).

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A verdade é que com a incidência das chuvas associadas ao Kurumi, os padrões de chuvas intensas deverá ter uma modificação para muito maior, o que torna o informe da Vale algo como se fosse um exercício de otimismo corporativo. 

O problema é que, desde que desde a primeira vez que as sirenes de alerta foram acinonados na Mina Mar Azul em fevereiro de 2019, os habitantes das localidades e municípios próximos estão vivendo em contínuo sobressalto, além de estarem acumulando perdas econômicas causadas pela possibilidade de rompimento de uma ou mais barragens associadas à Mina Mar Azul.  

Por outro lado, as informações que me chegaram desde o distrito de Macacos dão conta que, na prática, a Vale pouco fez para efetivamente aumentar os níveis de segurança de suas estruturas, o que aumentou o nível de desconfiança e apreensão dos habitantes das áreas que podem ser diretamente ou indiretamente afetadas caso a B3/B4 venha a romper.

Agora com a possível chegada de chuvas acima das médias históricas causadas pelo Kurumi, mesmo para períodos chuvosos, veremos como resiste não apenas o sistema de barragens da Mina Mar Azul, mas também de outras minas cujos depósitos vêm sendo monitorados desde os ocorridos em Mariana e Brumadinho.   Nesse sentido, Kurumi poderá oferecer a materialização do que se convenciona chamar de “pior cenário”. E salve-se quem puder!

Saúde valia mesmo só um cafezinho na visita de deputada Bolsonarista a Campos dos Goytacazes

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Pegou muito mal para a “Major Fabiana” (PSL/RJ) se reunir com os representantes do governo Rafael Diniz antes de ir para a praça pedir apoio para a legalização do “Aliança pelo Brasil”.

As redes sociais em sua velocidade extrema estão mostrando que a inspeção dos hospitais campistas valiam mesmo só um cafezinho na visita que a deputa federal, e vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara de Deputados, a “Major Fabiana” (PSL/RJ). É que o real motivo parece ser mesmo a busca de apoio dos campistas para a legalização do partido recentemente lançado pelo presidente Jair Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil (ver imagem abaixo).

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Alguém da equipe da “Major Fabiana” deveria ter evitado a foto para inglês ver dela com representantes do governo do jovem prefeito Rafael Diniz. É que na situação de total descrédito que vive o prefeito e sua equipe de menudos neoliberais, quem desejar apoio da população para o quer que seja deveria evitar fotos, ainda mais com sorrisos largos.

Os campistas que estão sofrendo o Diabo (melhor dizendo o Cabrunco) nas unidades municipais de saúde, as quais a Major Fabiana disse ter vindo inspecionar, não vão perdoar esse deslize.

 

Exoneração da Coordenadora responsável pela avaliação de agrotóxicos agrava o desmanche técnico do Ministério do Meio Ambiente

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A Coalizão Ciência e Sociedade, que reúne 72 cientistas reconhecidos de diferentes áreas de conhecimento, instituições e regiões do país, avalia as implicações da exoneração de mais uma técnica altamente qualificada em uma das áreas mais sensíveis para a saúde pública e qualidade ambiental brasileira.

Ciência e Sociedade

No dia 10 de janeiro de 2020, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, exonerou a servidora de carreira Marisa Zerbetto, responsável pela Coordenação-Geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas na Diretoria de Qualidade Ambiental (DIQUA) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). A única razão fornecida para a demissão seria o “desejo da direção do instituto de iniciar novos projetos”. A servidora, com mais de 30 anos de serviço público dos quais quase 20 anos na DIQUA, atuava na avaliação do impacto ambiental de agrotóxicos. A Diretoria de Qualidade Ambiental é responsável por dar autorizações e licenças para uso, comercialização, importação e exportação de substâncias químicas e resíduos sólidos.

Em 2019, ano marcado pelo recorde de agrotóxicos liberados pelo Ministério da Agricultura nos últimos dez anos, foram divulgados números alarmantes de ocorrências de intoxicação por agrotóxicos nos estados brasileiros. A revisão do Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, coordenado pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da USP, informa que, entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde registrou cerca de 25 mil casos de intoxicação. A análise dos dados de intoxicação indicou que crianças e jovens com idade até 19 anos representaram 20% da população afetada. A contaminação humana por agrotóxicos pode ocorrer de forma direta ou indireta. A contaminação direta geralmente ocorre durante o manuseio do produto e sua aplicação, enquanto a indireta pode ocorrer pela ingestão de alimentos contaminados, por meio de resíduos presentes no ar durante a aplicação dos produtos na cultura e contaminação por inserção na cadeia alimentar.

Ainda segundo o estudo, em 2015, as culturas de soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no Brasil. A comparação entre os limites permitidos de concentração de alguns compostos por diferentes países para alimentos e água indica que os valores no Brasil são mais permissivos que na União Europeia.

A crescente aplicação de agrotóxicos ameaça ecossistemas terrestres e aquáticos. Cabe destacar também que os agrotóxicos são considerados uma das principais ameaças aos polinizadores, como as abelhas, responsáveis pela polinização de 85% das plantas de importância para a alimentação humana. Além de garantir a oferta de alimentos, o benefício econômico dos polinizadores no Brasil é estimado em R$ 43 bilhões, dos quais 80% nas culturas de soja, café, laranja e maça, como demonstrou o recente Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. O alcance de nossa dependência deste serviço ecossistêmico, entre muitos outros, parece não ser do conhecimento do Ministro da Economia, Paulo Guedes, que em uma participação recente no Fórum Econômico Mundial de 2020, afirmou que “somos animais que escapamos da natureza“.

Nesse contexto preocupante de ampliação descontrolada de uso de agrotóxicos no país, a mal explicada decisão de exoneração da servidora Marisa Zerbetto ocorre justamente quando o país mais necessita fortalecer os mecanismos de monitoramento e controle de agrotóxicos para evitar consequências negativas para a saúde ambiental e humana. Em sua função, a servidora vinha discutindo e construindo soluções dentro do IBAMA e junto à ANVISA sobre o uso de herbicidas em áreas naturais para o controle de espécies exóticas invasoras, uma das maiores ameaças à biodiversidade no Brasil e no mundo. Com o objetivo de achar soluções técnicas e legalmente embasadas, envolveu técnicos e pesquisadores de diferentes instituições públicas e privadas, incluindo empresas, organizações não governamentais, universidades e outros órgãos vinculados ao próprio Ministério do Meio Ambiente.

Embora a exoneração de servidores em funções de gestão seja uma prerrogativa da direção do órgão, chama atenção o desmonte acelerado e metódico da fiscalização ambiental no Brasil. Mais uma vez, a estrutura vigente é desmantelada e o corpo técnico qualificado é afastado sem projetos novos ou melhorias em sua substituição. Causa profunda inquietação que isso ocorra em uma área de tal nível de criticidade ao mesmo tempo em que propostas de flexibilização do uso de agrotóxicos no Brasil seguem em discussão no Congresso sem um debate amplo, real e necessário com todos os segmentos da sociedade.

Coalizão Ciência e Sociedade

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Este material foi inicialmente publicada na página oficial da ” Coalizão Ciência e Sociedade” [Aqui!].

Caos na saúde de Campos dos Goytacazes: inspeção de deputada bolsonarista termina em cafezinho

A deputada federal “Major Fabiana” (PSL/RJ), vice líder do governo Bolsonaro na Câmara de Deputados, começou o dia de hoje fazendo uma inspeção transmitida online no Hospital Geral de Guarus (HGG)  (ver vídeo abaixo).

Como se vê nas imagens acima,  “Major Fabiana” veio com a corda toda para avaliar o uso de supostos R$ 5 milhões de emendas parlamentares que ela teria conseguido liberar para a rede municipal de Saúde, o que em tese é algo mais do que justo e necessário.

Entretanto, algo muito diferente deve ter acontecido entre a visita que foi efetivamente realizada no HGG e outra que acabou ficando apenas no anúncio no Hospital Ferreira Machado. É que, acabo de ler no site “Diário da Planície” que a parlamentar bolsonarista acabou tendo um alegre encontro com o secretário municipal Saúde, o vereador Abdu Neme que incluiu ainda o deputado federal Marcão Gomes e o diretor do HGG, o médico e ex vereador Dante Pinto Lucas (ver imagem abaixo).

MAJOR-FABIANADo que riem os participantes desta conversa, a começar pelos deputados Marcão Gomes e Major Fabiana?

Dificilmente saberemos o que levou a mudança de postura da deputada entre a ida aos corredores do HGG e o alegre encontro com os representantes do governo Rafael Diniz. Entretanto, a postura alegre é mais coerente com a atuação parlamentar da “Major Fabiana” que é uma das líderes parlamentares de um governo federal que vem encolhendo a sustentação financeira do SUS, causando uma perda significativa de recursos para um sistema de saúde público que se vê cada vez mais sobrecarregado e subfinanciado. 

Enquanto isso, a população de Campos dos Goytacazes que não possui plano de saúde e tem na rede municipal a principal forma de acesso a serviços de saúde vai continuar padecendo em unidades hospitalares em condição caótica.