Terras ocupadas pelo MST em Campos dos Goytacazes sofrerão adjudicação para serem usadas para reforma agrária

Mobilização teve a capacidade de fazer o governo Lula para acelerar o processo de reforma agrária da área – Foto: divulgação

Em um desdobramento bastante peculiar para os tempos que vivemos onde falta ousadia e coragem para enfrentar os descalabros cotidianos, a ocupação organizada pelo MST em uma fazenda de propriedade da falida Usina Sapucaia, o governo Lula decidiu usar o instrumento da adjudicação para criar mais um assentamento de reforma agrária em Campos dos Goytacazes.

Para quem nunca ouviu falar de adjudicação, este termo serva para designat “um ato judicial ou extrajudicial que consiste na transferência de bens de um devedor para um credor. O objetivo é quitar a dívida do devedor“. 

A boa nova foi publicizada em vídeo pela deputada estadual Marina do MST (PT/RJ) que se manifestou no início da noite de ontem sobre o resultado das negociações realizadas pelo movimento social com o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira (ver abaixo).

O que me parece interessante nesse desdobramento tão rápido para algo que já se desenrolava há décadas, é que foi necessário que 400 famílias que demandam a execução da reforma agrária ocupassem uma das fazendas da Usina Sapucaia para que um ato que devia ser rotineiro, mas não é, fosse colocado em marcha para entregar terra para quem quer produzir alimentos.

O mais curioso é que neste município tão rico mas que possui uma massa de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, o que não falta é terra pronta para ser “adjudicada” em função das dívidas bilionárias que o setor sucro-alcooleiro possui com o Estado brasileiro. 

Não vamos nem falar nas dívidas tributárias e trabalhistas que as usinas falidas ainda devem para a União e seus ex-empregados. Afinal, apenas no caso da Usina Sapucaia, dados do portal Lista de Devedores do governo federal, apontam que a empresa acumula dívidas superiores a R$ 208 milhões, incluindo mais de R$ 90 milhões em débitos previdenciários não pagos aos trabalhadores.   No caso de Campos dos Goytacazes, bastaria dar uma olhada no estoque de dívidas existentes pela tomada de empréstimos milionários com o Fundo de Desenvolvimento do Município de Campos (Fundecam) que certamente já se identificariam milhares de hectares prontos para ser “adjudicados” e entregues para famílias pobres implantarem sistemas agrícolas voltados para a produção de alimentos.

Aliás, falando nas dívidas milionárias do Fundecam, talvez esse fosse o momento perfeito para os vereadores que assinaram a nota de repúdio contra a ocupação da Fazenda Santa Luzia decidirem criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar de forma ampla, geral e irrestrita, o montante das dívidas existentes pelo setor sucro-alcooleiro com o município de Campos dos Goytacazes.  É que pau que bate em Chico, precisa bater primeiro nos Franciscos que devem bilhões aos cofres municipais.  Com a palavra os vereadores campistas, especialmente os que se dizem de oposição, mas valendo também para os que são claramente da situação!

Uma dica para começo da apuração é o caso da Usina Paraíso que em 2021 mereceu uma série de reportagens no Portal Viu que apurou uma situação para lá de estranha que envolvia personagens bem conhecidos na nossa cidade.

Em tempo: quem estuda a reforma agrária como eu estudo sabe que a sua realização representaria um salto para frente sem precedentes na história do Brasil.  Por isso, que o exemplo das famílias lideradas pelo MST possa resultar em muitas outras adjudicações. É que dívida para ser paga é o que não falta por estas bandas.

A ocupação do MST tira o véu das dívidas milionárias da Usina Sapucaia e reforça urgência da reforma agrária

A reforma agrária continua sendo o único mecanismo capaz de trazer paz e justiça no campo

A rápida reação do chamado setor (im) produtivo combinada com uma rara unanimidade na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes (ver imagens abaixo) tem como objetivo ocultar um fato que a ocupação liderada pelo MST deixa escancarado: as dívidas milionárias que a Usina Sapucaia possui com o governo federal e com os seus antigos trabalhadores.

A ação do governo de Cláudio Castro para forçar a retirada dos trabalhadores sem terra da Fazenda Santa Luzia, que pertence à massa falida da Usina Sapucaia, é uma espécie de coroamento de uma aliança anti-reforma agrária. Tal aliança nada santa busca apenas impedir que seja feita justiça com centenas de famílias que vivem na mais completa miséria, enquanto dívidas milionárias continuam, como diria Bob Dylan, “blowing in the wind“.

Grande efetivo da Polícia Militar está impedindo entrada de água e alimentos no acampamento de trabalhadores rurais sem terra na Fazenda Santa Luzia

É importante lembrar aos vereadores que assinaram a nota de repúdio à ocupação da Fazenda Santa Luzia que a única forma de garantir um efetivo compromisso com o desenvolvimento sustentável, defender o direito dos trabalhadores e manter a legalidade seria cobrar do governo Lula a rápida desapropriação das terras da Fazenda Santa Luzia e sua transformação em uma assentamento de reforma agrária.

O resto, me perdoem, é tampar o sol com a peneira.  Fato que nessa planície tão ensolarado é um grande nada.

Deputada Marina do MST denuncia ação ilegal contra ocupantes da Fazenda Santa Luzia

A deputada estadual Marina do MST (PT/RJ)denuncia o bloqueio feito contra 400 famílias que ocupam fazenda em Campos dos Goytacazes. Segundo Marina, este bloqueio está impedindo a chegada água, comida e solidariedade ao acampamento montado na Fazenda Santa Luzia.

Ainda segundo a deputada, a Polícia Militar teria recebido “ordens superiores” do governador Claúdio Castro para despejar à força quem luta por terra e dignidade. Segundo ela, isso configura repressão e injustiça!

Marina aponta que, enquanto a Usina Sapucaia deve 200 milhões à União, famílias sem terra são tratadas como criminosas.  Segundo a deputada, a reforma agrária é um direito, não um favor!

É importante afirmar a solidariedade com essas 400 famílias e denunciar a tentativa de criminalizar quem luta pela reforma agrária.

Veja a declaração completa da deputada Marina do MST no vídeo abaixo.

Perfilamento de oponentes da indústria de agrotóxicos foi interrompida nos EUA após a prática da empresa ser exposta

Por Carey Gillam, Margot Gibbs e Elena Debre para o “the Nee Lede”

Uma empresa norte-americana que estava secretamente traçando perfis de centenas de defensores da alimentação e da saúde ambiental em um portal privado interrompeu as operações devido à reação generalizada após suas ações terem sido expostas pelo The New Lede em colaboração com o Lighthouse Reports e outros parceiros de mídia.

A empresa de St. Louis(Missouri), v-Fluence, está fechando o serviço, que ela chamou de “wiki de stakeholders”, que apresentava detalhes pessoais sobre mais de 500 defensores ambientais, cientistas, políticos e outros vistos como oponentes de pesticidas e culturas geneticamente modificadas (GM). Entre os visados ​​estava Robert F. Kennedy Jr., a escolha controversa do presidente Trump para Secretário de Saúde e Serviços Humanos. 

Os perfis frequentemente forneciam informações depreciativas sobre os oponentes do setor e incluíam endereços residenciais, números de telefone e detalhes sobre membros da família, incluindo crianças.

Os perfis foram fornecidos a membros de um portal da web somente para convidados, onde a v-Fluence também ofereceu uma variedade de outras informações para sua lista de mais de 1.000 membros. A associação incluía funcionários de agências regulatórias e políticas dos EUA, executivos das maiores empresas agroquímicas do mundo e seus lobistas, acadêmicos e outros. 

O perfil foi parte de um esforço para minimizar os perigos dos agrotóxicos, desacreditar oponentes e minar a formulação de políticas internacionais, de acordo com registros judiciais, e-mails e outros documentos obtidos pela redação sem fins lucrativos Lighthouse Reports. A Lighthouse colaborou com The New Lede, The Guardian , Le Monde, Africa Uncensored, Australian Broadcasting Corporation e outros parceiros de mídia internacionais na publicação da investigação em setembro de 2024.

As notícias sobre o perfil e o portal privado geraram indignação e ameaças de litígio por parte de algumas das pessoas e organizações perfiladas.

O professor pesquisador de Londres Michael Antoniou, que foi perfilado no portal com informações depreciativas sobre sua vida pessoal e de membros da família, disse temer que as ações para remover os perfis possam ser “muito pouco e tarde demais”.

“Aqueles de nós que foram perfilados ainda não sabem quem acessou as informações e como elas foram usadas”, ele disse. “Isso nos atrapalhou em nossas carreiras ou fechou portas que de outra forma poderiam estar abertas para nós? O fato de que a V-Fluence e as indústrias que ela atende recorreram a esses métodos desonestos mostra que eles não conseguiram vencer no nível da ciência.”

A V-Fluence não apenas eliminou o perfil, mas também fez “cortes significativos de pessoal” na esteira da exposição pública, de acordo com  Jay Byrne, o ex-executivo de relações públicas da Monsanto que fundou e lidera a v-Fluence. Byrne culpou as dificuldades da empresa pelos “custos crescentes do assédio contínuo de litigantes e ativistas à nossa equipe, parceiros e clientes com ameaças e falsas representações…” 

Ele disse que os artigos publicados sobre o perfil da empresa e o portal privado eram parte de uma “campanha de difamação” baseada em “representações falsas e enganosas” que “não eram apoiadas por nenhum fato ou evidência”.

Para piorar os problemas da empresa, vários patrocinadores corporativos e organizações do setor cancelaram contratos com a v-Fluence, de acordo com uma publicação para profissionais da agricultura.  

“Reunião de informações”

Desde seu lançamento em 2001, a v-Fluence tem trabalhado com os maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo e fornecido serviços autodescritos que incluem “coleta de informações”, “mineração de dados proprietários” e “comunicações de risco”.  

Um cliente de mais de 20 anos é a Syngenta, uma empresa estatal chinesa que está sendo processada por milhares de pessoas nos EUA e Canadá que alegam que desenvolveram a doença cerebral incurável Parkinson por usar os herbicidas paraquat da Syngenta. O primeiro teste nos EUA está programado para começar em março. Vários outros estão programados para os meses seguintes.

Byrne e v-Fluence são nomeados como co-réus em um dos casos contra a Syngenta. Eles são acusados ​​de ajudar a Syngenta a suprimir informações sobre os riscos de que o paraquat da empresa poderia causar a doença de Parkinson e de ajudar a “neutralizar” seus críticos. (A Syngenta nega que haja uma ligação causal comprovada entre o paraquat e o Parkinson.) Byrne contesta as alegações no processo. 

A v-Fluence, que também tinha a antiga Monsanto Co. como cliente , garantiu algum financiamento do governo dos EUA como parte de um contrato com uma terceira parte. Registros de gastos públicos mostram que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) contratou uma organização não governamental separada que gerencia uma iniciativa governamental para promover culturas GM em nações africanas e asiáticas.

Essa organização, o Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI), pagou à v-Fluence um pouco mais de US$ 400.000, aproximadamente entre 2013 e 2019, por serviços que incluíam o enfrentamento de críticas às “abordagens agrícolas modernas” na África e na Ásia.

O “portal de rede social privada” criado pela v-Fluence era parte do contrato e deveria fornecer, entre outras coisas, “suporte tático” para esforços de ganhar aceitação para as culturas GM . A empresa chamou a plataforma de “Bonus Eventus”, nomeada em homenagem ao deus romano da agricultura  cujo nome se traduz como “bom resultado”.

Um contrato separado assinado pelo Departamento de Agricultura dos EUA nos últimos meses do primeiro mandato do presidente Donald Trump também forneceu aos funcionários do governo acesso ao portal, incluindo os “documentos de histórico das partes interessadas” sobre cientistas e ativistas que a v-Fluence diz ter removido. 

O perfil de Kennedy o descreveu como “um litigante ativista antivacinas, anti-OGM e antipesticidas que defende várias alegações de conspiração em matéria de saúde e meio ambiente”.

Questões legais

Após as operações se tornarem públicas em artigos do The New Lede, do The Guardian e de parceiros de mídia, a v-Fluence contratou um escritório de advocacia para conduzir uma revisão independente sobre se o perfil pode ou não ter violado o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) da União Europeia. O regulamento tem como objetivo proteger o direito de um indivíduo sobre a coleta e o uso de seus dados pessoais.

A análise descobriu que a v-Fluence “não estava sujeita ao GDPR”, mas recomendou que a v-Fluence lidasse com “dados pessoais da UE consistentes com os requisitos do GDPR no caso de o Regulamento ser considerado aplicável”, disse a empresa em uma declaração . Uma das recomendações foi remover os perfis, reconheceu a empresa.  

A v-Fluence continuará a “oferecer pesquisas às partes interessadas com diretrizes atualizadas para evitar futuras interpretações errôneas do nosso produto de trabalho”, de acordo com a declaração da empresa.

Wendy Wagner, professora de direito na Universidade do Texas com experiência na regulamentação de substâncias tóxicas, disse que parecia haver poucos motivos para manter esse banco de dados, além de ser usado para assediar oponentes.

“Estou bastante familiarizado com o assédio corporativo de cientistas que produzem pesquisas indesejadas, e às vezes isso inclui desenterrar informações pessoais sobre o cientista para fazer seu trabalho parecer menos confiável”, disse Wagner. “Mas não encontrei o uso de bancos de dados maiores que rastreiam detalhes pessoais de vários críticos de uma corporação (incluindo cientistas e jornalistas independentes). É difícil ver a relevância de detalhes pessoais sem o uso como assédio.”

(As jornalistas do Lighthouse Margot Gibbs e Elena DeBre foram coautoras deste artigo.) 

(Este artigo foi publicado em parceria com o The Guardian.)


Fonte: The New Lede

MST ocupa fazenda para pressionar a execução da Reforma Agrária no Norte Fluminense

Cerca de 400 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Santa Luzia que pertence à Usina Sapucaia

Integrantes do MST na Fazenda Santa Luzia, próximo à Usina Sapucaia (Reprodução)

Por J3 News 

Na manhã desta segunda-feira (10), cerca de 400 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Santa Luzia, pertencente à Usina Sapucaia, em Campos dos Goytacazes (RJ). O grupo reivindica a conclusão do processo de adjudicação (ato judicial que dá a alguém a posse e a propriedade de determinados bens) de duas matrículas que tramitam no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA-RJ).

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Coagro, indústria que funciona nas instalações da Usina Sapucaia para um posicionamento sobre a situação.

Em um comunicado oficial, a empresa diz que “repudia veementemente a invasão de terras produtivas pertencentes à Usina Sapucaia e arrendadas à cooperativa desde 2013. Essas áreas, arrendadas em processo judicial, são fundamentais para a geração de empregos e o sustento de milhares de famílias em Campos e Região” (leia na íntegra abaixo).

Veículos estacionados na fazenda ocupada pelo MST

A assessoria do MST afirma que áreas ocupadas serão destinadas à Reforma Agrária ainda este ano, com processos avançados na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. De acordo com o MST, as terras estão atreladas a dívidas superiores a R$ 200 milhões com a União, incluindo mais de R$ 90 milhões em débitos previdenciários devidos a trabalhadores.

A ocupação faz parte da estratégia do MST para pressionar o governo a acelerar a destinação das terras, garantindo o assentamento das famílias que desde abril do ano passado estão acampadas às margens da BR-101, próximo ao Morro do Coco. O movimento reivindica urgência na conclusão do processo e na efetiva implementação da Reforma Agrária nessas áreas.


Fonte: J3 News

A insustentável leveza da inteligência artificial

Por Silvia Ribeiro para o “La Jornada”

O desenvolvimento rápido, desregulado e geralmente desnecessário de sistemas de inteligência artificial levou a um aumento brutal no consumo de água doce e energia globalmente, especialmente em comunidades onde grandes data centers estão instalados. Isso traz consigo um aumento global de gases de efeito estufa que aceleram a crise climática, além de impactos ambientais e à saúde.

Não é um desenvolvimento baseado na demanda . Há atores poderosos que a promovem agressivamente: a oligarquia tecnológica que agora governa os Estados Unidos sem ter um único voto. É uma estratégia deliberada para aumentar a dependência do usuário e o controle sobre os dados e o comportamento do usuário.

Tecnologias com inteligência artificial geral existem há décadas e podem ou não ser úteis para automatizar algumas atividades, dependendo do contexto, necessidades, alternativas, custos e impactos que acarretam. O desenvolvimento recente da chamada inteligência artificial generativa (GAI) é diferente porque não apenas coleta e sistematiza dados, mas também produz novos conteúdos que podem ser texto, imagens, som e até mesmo novas formas biológicas. Esse tipo de inteligência artificial sustenta aplicativos como o ChatGPT e similares. Exige processos de treinamento extensivos com grandes modelos de linguagem e conjuntos de dados cada vez mais volumosos, o que implica um aumento exponencial no uso de computadores, servidores, infraestrutura e, portanto, energia, água, recursos e geração de poluição e resíduos.

A digitalização em todos os setores industriais e seu uso individual em plataformas e redes sociais geram imensos volumes de dados que, para funcionar, exigem muitos computadores interconectados, ou seja, data centers que podem armazenar, processar, extrapolar e reinterpretar. Esses centros são a base física das nuvens de computação. Atualmente, três das maiores empresas da oligarquia tecnológica – Amazon, Microsoft e Google – controlam 66% das nuvens de computação do mundo e, junto com a Meta (dona do Facebook), 70% dos cabos submarinos.

Cecilia Rikap, do University College London, entrevistada na série Data Vampires pelo analista canadense Paris Marx, explica que grandes empresas de tecnologia estabeleceram uma estratégia deliberada de centralizar informações digitais em suas meganuvens. Ela é apresentada a empresas, instituições e governos como uma solução eficiente para evitar a criação de uma infraestrutura digital própria, com contratos que supostamente podem ser interrompidos. De fato, devido às constantes atualizações de programas e aplicativos de interconexão, fica muito difícil para quem contrata esses serviços revogar e até mesmo controlar o uso de suas informações. Os proprietários da nuvem ganham dinheiro vendendo o serviço, ao mesmo tempo em que aumentam seu acesso a mais dados e lucram com o negócio de vender ou usar a interpretação desses dados para influenciar escolhas de consumidores, políticas ou quaisquer outras.

Em 2018, havia 430 grandes data centers no mundo todo. No final de 2023 eram 992, atualmente são mais de mil. Com o uso da inteligência artificial generativa, estima-se que o número de grandes data centers dobre a cada 4 anos, sendo a maioria em hiperescala, uma categoria para aqueles com mais de 5.000 servidores e 10.000 pés quadrados de área de superfície. Por exemplo, a Amazon Web Services (AWS) está instalando um centro com mais de 50 mil servidores em Minnesota,

Com o sucesso de vendas do ChatGPT, todas as grandes empresas de tecnologia investiram no desenvolvimento de aplicativos com o IAG. A China acaba de anunciar o DeepSeek, um aplicativo muito mais barato que os dos EUA. Eles também incorporaram sistemas IAG em mecanismos de busca, celulares e diversos dispositivos, muitas vezes sem nos dar a opção de não usá-los, o que aumenta exponencialmente a demanda por água e energia sem que possamos decidir sobre isso.

De acordo com Sasha Luccioni, cientista da computação entrevistado pelo Data Vampires, a diferença entre fazer um cálculo matemático em uma calculadora manual com energia solar ou usar o ChatGPT pode multiplicar o uso de energia em até 50 mil vezes. Uma pergunta e resposta no ChatGPT ou em um mecanismo de busca de IA consome entre 0,5 e um litro de água. Também sujeito a erros frequentes e sem fornecer fontes.

As necessidades de água e energia são brutais e levaram a conflitos com diversas cidades onde estão instalados data centers. Cingapura, Irlanda e Holanda impuseram moratórias à instalação desses centros devido ao alto consumo de recursos.

Na América Latina, os principais locais para instalação de mega data centers são São Paulo, Brasil, e Querétaro, México. Em terceiro lugar está Quilicura, em Santiago do Chile, onde já há protestos da população contra essas instalações.

Os impactos ambientais, de saúde, sociais e políticos locais e globais do IAG são sérios e afetam a todos. Os lucros vão para um pequeno grupo de ultra-ricos.


Fonte: La Jornada

Manguezais no Rio de Janeiro: em tempos de mudanças climáticas, o descuido desses ecossistemas é garantia de tragédia

Por Carlos Eduardo de Rezende

Os manguezais são ecossistemas de extrema importância ecológica, social e econômica, ocupando uma extensa faixa do litoral brasileiro, ao longo de 6.800 km de costa. Com uma cobertura estimada em 1,38 milhão de hectares, o Brasil, junto com a Austrália, abriga a segunda maior área de manguezais do planeta.

Apesar de representarem apenas cerca de 1% da cobertura vegetal global, os manguezais desempenham um papel essencial na manutenção da biodiversidade marinha, fornecendo matéria orgânica e áreas de reprodução para diversas espécies de vertebrados e invertebrados. Além disso, são fundamentais para a estabilidade da zona costeira, atuam como barreiras biogeoquímicas na retenção de poluentes e são considerados ecossistemas estratégicos para a mitigação das mudanças climáticas.

No entanto, a ideia de que os manguezais vêm sendo valorizados e preservados nos últimos tempos não se sustenta diante dos dados disponíveis. Estudos baseados em levantamentos de campo e sensoriamento remoto revelam uma perda progressiva dessas áreas ao longo do último século, chegando, em alguns locais, à supressão total do ecossistema.

Um exemplo próximo é a foz do Rio Paraíba do Sul, onde estudos realizados, por nosso grupo de pesquisa em 2010, constataram perdas significativas, como nas regiões de Atafona e nas Ilhas do Lima e Graça. A degradação, principalmente por ação humana, dos manguezais nessa área tem contribuído para o avanço da erosão costeira e para a redução da pesca, especialmente do camarão. A queda na produção pesqueira, por sua vez, está associada a dois fatores principais: o uso de redes de pesca com malhas inadequadas, que capturam indivíduos ainda jovens, sem ter se reproduzido uma única vez, e a drástica redução da vegetação de manguezal nos estuários dos rios Paraíba do Sul e Itabapoana.

A destruição dos manguezais tem implicações econômicas expressivas. Entre 1986 e 2001, por exemplo, o estuário do Rio Paraíba do Sul perdeu aproximadamente 200 hectares de manguezal, representando uma taxa de supressão de 13 hectares por ano, assumindo obviamente uma taxa anual, que pode ter sido diferente, isto é, alguns anos maiores e em outros menores. Considerando que cada hectare de manguezal armazena cerca de 6 toneladas de carbono e que o valor de mercado do carbono é de R$ 400,00 por tonelada, essa perda equivale a aproximadamente R$ 500.000,00 por ano. No entanto, esse cálculo não inclui outros impactos econômicos indiretos, como a intensificação da erosão costeira, a redução da pesca e a perda de serviços ambientais essenciais, como o controle hidrológico.

Diante desse cenário, é fundamental promover estratégias de conservação e manejo sustentável dos manguezais, garantindo sua proteção e integrando a valorização econômica desse ecossistema com o desenvolvimento sustentável. Políticas públicas eficazes e ações locais de recuperação e monitoramento contínuo são essenciais para reverter esse quadro e assegurar que os benefícios ambientais, sociais e econômicos dos manguezais sejam mantidos para as gerações futuras.

Os serviços ambientais  fundamentais que são cumpridos pelos ecossistemas de manguezais e a necessidade urgente de sua proteção

Mangue conservado transforma pescadores em guias de turismo | Agência Brasil

No estado do Rio de Janeiro, as maiores áreas de manguezal encontram-se na foz do rio Paraíba do Sul e nas baías de Guanabara, Sepetiba e Angra dos Reis. Esses ecossistemas, que ocupam aproximadamente 16.000 km², abrigam espécies típicas como Avicennia germinans (L.) Stearn., Avicennia schaueriana Stapft & Leechm., Laguncularia racemosa (L.) Gaertn. e Rhizophora mangle L. Segundo uma proposta de classificação (1990), os manguezais do Norte Fluminense estão incluídos na Unidade que se estende do Recôncavo Baiano (13º00’S) até Cabo Frio (23º00’S). Nessa região, destacam-se os manguezais localizados na foz dos três principais rios do litoral norte: Itabapoana, Paraíba do Sul e Macaé.

Os manguezais são ecossistemas fundamentais para a manutenção da biodiversidade, pois abrigam espécies vegetais e animais de elevada importância ecológica. Muitas plantas ocorrem associadas a esses ambientes, e sua diversidade reflete tanto as condições climáticas locais quanto a proximidade com outros ecossistemas. A composição da flora é altamente variável entre regiões e até mesmo dentro de um mesmo sistema. Entre as espécies associadas mais amplamente distribuídas no Brasil, destacam-se Acrostichum aureum L., Conocarpus erecta L., Hibiscus pernambucensis Arruda e a gramínea Spartina alterniflora Loisel.

A fauna dos manguezais também é rica e diversa. Os caranguejos, por exemplo, são espécies bandeira desse ecossistema e ocorrem em toda a costa brasileira, desempenhando um papel crucial na ciclagem de nutrientes e na manutenção do equilíbrio ecológico. Além deles, diversas espécies de moluscos (ostras, mexilhões), aves, répteis e peixes encontram abrigo e alimento nesses habitats, evidenciando sua importância ecológica e socioeconômica.

Apesar da relevância desses ecossistemas, há poucas informações sobre os atributos estruturais e a dinâmica dos manguezais da região Norte do Estado do Rio de Janeiro. Alguns estudos foram conduzidos pelo nosso grupo de pesquisa, como os da Dra Elaine Bernini, ex-aluna da Uenf e atualmente professora na Universidade Federal da Paraíba. No entanto, a carência de dados dificulta a determinação de padrões estruturais para esses manguezais. Por outro lado, pesquisas mais avançadas já foram desenvolvidas nos manguezais da Baía de Guanabara, Baía de Sepetiba e Lagoa da Tijuca, fornecendo subsídios importantes para a compreensão desses ecossistemas.

O estudo da estrutura da vegetação dos manguezais é essencial para sua conservação e manejo sustentável. Esse tipo de pesquisa envolve a caracterização da altura das árvores de cada espécie, o número de indivíduos vivos e mortos em uma determinada área, o diâmetro médio dos troncos, a quantidade de plântulas – plantas jovens – por área, os períodos de floração e frutificação, além do padrão de distribuição das espécies ao longo do tempo e do espaço. Esses parâmetros são fundamentais para embasar qualquer iniciativa de recuperação da vegetação suprimida ilegalmente por atividades humanas.

A preservação dos manguezais é uma questão ambiental e social de grande relevância. Além de funcionarem como berçários naturais para inúmeras espécies marinhas e estuarinas, esses ecossistemas protegem a linha costeira contra erosão, regulam a qualidade da água e fornecem recursos essenciais para comunidades tradicionais. Assim, estudos sobre sua estrutura e dinâmica devem ser incentivados, garantindo a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade dos serviços ecossistêmicos que eles oferecem para toda sociedade.

 Tarefas que continuam ignorados pelas diferentes esferas de governo na proteção e conservação dos manguezais

Com toda sinceridade, não vejo nenhuma ação concreta por parte do poder público para modificar o cenário de desmatamento e degradação desta importante vegetação costeira, exceto pela elaboração de documentos formais que, na prática, têm apresentado poucos resultados na conservação e no uso sustentável desses valiosos recursos naturais. O Brasil, de fato, é pródigo em documentar boas intenções, mas, muitas vezes, falha em implementar o que é proposto nos expedientes legais.

Recentemente, a Presidência da República, por meio da Casa Civil e da Secretaria Especial para Assuntos Jurídicos, publicou o Decreto nº 12.045, de 5 de junho de 2024, que institui o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil, denominado ProManguezal. A divulgação desse decreto é relevante, pois demonstra uma intenção formal de conservar esse ecossistema crucial. Contudo, um decreto não possui a mesma força normativa de uma lei, o que já evidencia a dificuldade na implementação do que está previsto no ProManguezal. O descumprimento de decretos pelos estados e municípios muitas vezes ocorre pelo simples fato de que não foram discutidos e aprovados no legislativo, o que enfraquece a eficácia de qualquer iniciativa estabelecida por esse meio.

Portanto, embora existam mecanismos legais que deveriam garantir a conservação e o uso sustentável dos manguezais ao longo da costa brasileira, o cenário atual é alarmante e extremamente vulnerável em todas as regiões, especialmente devido ao alto interesse econômico sobre essas áreas costeiras. Para que uma política pública consistente e eficaz seja estabelecida, é imprescindível que ela se baseie em sólidos argumentos científicos e que haja um compromisso genuíno por parte dos políticos em promover uma mudança de comportamento em relação aos recursos naturais e sua conservação.

Entre os múltiplos bens e serviços frequentemente destacados na literatura – como o fornecimento de matéria orgânica para a cadeia alimentar costeira, a função de área de reprodução para vertebrados e invertebrados marinhos, e a estabilização da zona costeira –, este texto enfatiza, sobretudo, a relevância dos manguezais no ciclo global da matéria orgânica e seu papel crucial na dinâmica de poluentes. Além disso, espero que este texto contribua para estimular o interesse de novos pesquisadores na atuação junto aos ecossistemas de manguezais, pois acredito que essa é uma das muitas responsabilidades de cientistas e professores de universidades comprometidas com o bem-estar da humanidade.

Carlos Eduardo de Rezende é Professor Titular do Laboratório de Ciências Ambientais, Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).


Uma reportagem sobre a importância dos manguezais e a necessidade de sua proteção foi publicada por J3 News neste domingo 09/fev/2025 (Aqui!)

Não há final feliz, sem contar toda a história…uma missiva sobre o oportunismo do memorialismo fantástico

Por Douglas Barreto da Mata

Um movimento recorrente, que eu vou chamar aqui de memorialismo fantástico, se assanha, de tempos em tempos, na cidade de Campos dos Goytacazes. Suas motivações? Não ouso descrever todas, mas tenho cá minhas suspeitas. Já foram filiados à necrofilia do jornal Monitor Campista, como se coubesse ao dinheiro público (sempre a viúva!) o papel (sem trocadilhos) de embalsamar o espólio do filho menor do grupo Diários Associados, que teve como dono Assis Chateaubriand, uma espécie de Cidadão Kane tupinambá, um tipo que pariu Marinho e outros.

Antes, porém, o memorialismo se reuniu com as carpideiras do ciclo do açúcar em torno do Trianon, e deste soluçar nostálgico, essa nossa classe média ilustrada passou a defesa dos prédios, sim, apenas no aspecto conservacionista físico das construções, desconsiderando que o que mantém de pé as obras civis é gente.

É a história de gente que construiu, limpou, pintou, reformou nesses prédios, junto com aqueles que mandaram nessa gente.  São as classes e seus conflitos. 

Os objetos de desejo desse pessoal são casarões, tabacaria, que eles chamam da “terceira livraria mais antiga do Brasil”, enfim, tudo reunido em um sentimento confuso, que desconhece que cada edifício daqueles reúne o sofrimento, a exploração da mesma classe preta e pobre de sempre, e simboliza em suas fachadas a indiferença de sempre de seus donos, dourada a doses cavalares de falso intelectualismo e poses e gestos cosmopolitas, que um dia bailaram em seus salões.

Agora, essa turma resolveu olhar para o cinema, é um chamado ao passado de uma alegada “glória desse mercado de produção cultural” na cidade plana.  Motivada pelo oportunismo de uma produção de cinema empacotada para “vender”, que por opção comercial e estética sufocou a historicidade da ditadura em um drama familiar, como se fosse isso que realmente devemos saber, essa turma quer porque quer tirar uns trocados no dinheiro público, seja como fomento direto ou subvencionado por renúncias fiscais, com a justificativa de que Campos dos Goytacazes foi a terra do cinema.

Um parêntese. Na defesa apaixonada do filme “Ainda estou aqui”, os minimalistas da ditadura. São aqueles que defendem que as escolhas artísticas do Paiva filho (Marcelo) e do filho do banqueiro (Salles)  impediriam uma abordagem política e histórica do que houve com o desaparecido e sua família, eu diria que essa é uma mentira cavalar, como diria Ariano Suassuna. O filme é, sim, um alívio da história do país e da violência estatal, afogado em lágrimas de um drama pessoal verdadeiro, e que por isso permite a catarse anti histórica.

Há milhões de filmes que tratam de dramas pessoais, partindo dessa referência íntima, mas que não abrem mão de um contexto histórico preciso e bem contado.  Que o filho escreva um livro para homenagear sua mãe, e a luta dela pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado, eu entendi e aplaudo de pé. Agora, um filme, um instrumento de intervenção pública com essa importância, escolher ignorar tudo em volta, e fazer parecer que um “bando de homens maus” mataram um ex-deputado é de doer. Central do Brasil, nesse sentido, foi um filme muito mais denso e útil. E muito melhor também, em minha opinião.  O filme é um tipo de: podemos falar de um drama da ditadura, sem falarmos em culpados e em quem apoiou o regime, como a própria produtora associada, a Globo filme, uma ironia doentia.

Voltando ao pessoal do memorialismo fantástico, é engraçado ver o esforço para reescrever o passado.  Agora teremos festival de cinema, blá, blá, blá.  Sim, ótimo, sou um entusiasta, mas e a periferia?  Qual vai ser o alcance dessa empreitada?  Quanto o contribuinte vai pagar, e qual será o retorno? Quanto de cinema vai impregnar o cotidiano das pessoas que já vivem um uma distopia digna de Ridley Scott e sua Los Angeles de Blade Runner?

Esses festivais, saraus e convescotes vão chamar os “replicantes” para o palco principal, ou a choldra vai ficar onde sempre esteve, nos backstages, lavando banheiros e servindo acepipes e bebidas nos foyers? Quantas projeções serão levadas às favelas e bairros pobres?  Enfim, o que esse festival vai melhorar a vida de quem vive aqui? Os pobres poderão contar suas histórias, vão ser incentivados a produzir, escrever e dirigirá suas histórias?

Em tempo, e para encerrar, estranho que  as centenárias liras e bandas sinfônicas da cidade estejam à míngua, e sejam depositárias de cultura (ainda) viva, e tradição na acepção exata do termo, isto é, entrega do passado para o presente, com a transmissão de saberes musicais, e nossos próceres do  memorialismo fantástico não os enxerguem.  Quem sabe um pequeno documentário? Ou um convite para abrirem o festival?

Duvido muito, afinal, o memorialismo fantástico se destina a nos convencer que fomos “grandes”, mas sabemos o quanto medíocres ainda somos.

Luta contra os fabricantes de agrotóxicos sacode o campo nos EUA

A batalha continua contra as proteções legais propostas para proteger os fabricantes de agrotóxicos

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços das empresas de agrotóxicos para aprovar leis que possam bloquear litígios contra elas estão gerando batalhas em vários estados agrícolas dos EUA e colocando alguns grupos agrícolas uns contra os outros.

Leis foram introduzidas em pelo menos 8 estados até agora e rascunhos estão circulando em mais de 20 estados, apoiados por uma enxurrada de publicidade apoiando as medidas.

A luta é particularmente feroz agora em Iowa, onde os oponentes chamam a lei proposta apoiada por agrotóxicos de “Cancer Gag Act”, devido aos altos níveis de câncer em Iowa que muitos temem estar ligados ao grande uso agrícola de agrotóxicos no estado. Iowa tem a segunda maior taxa de novos casos de câncer nos EUA e a taxa de câncer que mais cresce. 

Os organizadores contra o projeto de lei de Iowa estão planejando um comício no capitólio estadual na segunda-feira, depois que o senado estadual votou em 5 de fevereiro para avançar a medida. O projeto de lei impediria as pessoas de processar os fabricantes de agrotóxicos por não alertá-los sobre os riscos à saúde, desde que os rótulos dos produtos sejam aprovados pela Agência de Proteção Ambiental (EPA).  

Os oponentes dizem que a legislação impedirá que agricultores e outros usuários de agrotóxicos responsabilizem as empresas na justiça caso seus produtos causem doenças ou ferimentos.

“Estamos muito preocupados. Nossos fazendeiros acham que se tiverem ferimentos ou doenças devido ao uso de um agrotóxico, eles devem ter acesso aos tribunais”, disse Aaron Lehman, um fazendeiro de milho e soja de Iowa que é presidente do Iowa Farmers Union . “Nós simplesmente não achamos que o campo de jogo deva ser inclinado (em favor dos fabricantes de agrotóxicos).”

Mas os defensores da legislação dizem que estão tentando garantir que os agricultores não percam o acesso a herbicidas benéficos, inseticidas e outros produtos químicos que são comumente usados ​​no cultivo de alimentos. Eles sustentam que os advogados de responsabilidade civil exploram e induzem pessoas doentes a entrar com ações judiciais que não são apoiadas por evidências científicas, e tais ações devem ser limitadas.

Vários grandes grupos agrícolas, incluindo a Iowa Farm Bureau Federation, estão apoiando o projeto de lei.

As ações nos estados vêm junto com uma pressão simultânea por mudanças na lei federal que efetivamente protegeriam as empresas de processos movidos por pessoas que alegam ter desenvolvido câncer ou outras doenças devido ao uso de agrotóxicos.

A Bayer, proprietária alemã da antiga Monsanto Co., é a principal arquiteta da estratégia, projetada como um meio de combater milhares de processos movidos por fazendeiros e outros que culpam o uso dos herbicidas Roundup da Monsanto por causar câncer.

O litígio custou até agora à Bayer bilhões de dólares em acordos e vereditos do júri favorecendo os demandantes, e mais casos estão pendentes. A empresa diz que a busca pelas mudanças legislativas é necessária para proteger seus “investimentos importantes” e garantir que os fazendeiros não percam o acesso ao Roundup.

A Bayer diz que se uniu a mais de 360 ​​grupos de produtores e da indústria para impulsionar as mudanças legislativas federais e à coalizão de organizações agrícolas Modern Ag Alliance para lutar pelas mudanças nas leis estaduais que ajudam a proteger os fabricantes de pesticidas de litígios.

A CropLife America, que faz lobby em nome da Bayer e de outros fabricantes de agrotóxicos, afirma que a EPA é a “ agência federal especialista ” encarregada pelo Congresso de avaliar a segurança dos pesticidas. As empresas não têm a opção de adicionar avisos aos seus rótulos se a EPA não tiver considerado tais avisos precisos, de acordo com a CropLife .

Além de Iowa, as medidas estão avançando em outros estados. No Missouri, o antigo estado natal da Monsanto, a proposta de lei de proteção foi aprovada pelo House Agriculture Committee em 4 de fevereiro.

A legislação ainda não foi formalmente introduzida em Idaho, mas um rascunho tem circulado entre os legisladores, disse Jonathan Oppenheimer, diretor de relações governamentais da Idaho Conservation League. A liga e um contingente de outros grupos de oposição realizaram uma coletiva de imprensa na semana passada denunciando os esforços para aprovar o que os grupos chamam de lei de “Imunidade de Empresas Químicas”.

Eles citaram pesquisas que mostram níveis elevados de agrotóxicos em mulheres grávidas que vivem perto de campos agrícolas e um estudo que descobriu que a ocorrência elevada de câncer  está correlacionada à exposição ao uso destes produtos. 

“Há preocupações significativas com o fato de que a EPA não conduz seus próprios estudos de segurança sobre esses produtos antes de serem aprovados”, disse Oppenheimer. “Eles confiam nesses estudos de pesquisa da indústria. E quando você olha para o histórico de aprovação de agrotóxicos, houve vários casos em que os fabricantes sabiam que seus produtos causavam certos danos, mas buscavam limitar a divulgação pública desses estudos. Como resultado, muitos produtos perigosos estão no mercado há anos. Muitas vezes, leva décadas para a EPA retirar a aprovação desses produtos.”

Junto com as ações legislativas estaduais, a EPA abriu no mês passado um período de comentários públicos sobre uma petição apresentada pelos procuradores-gerais de Nebraska, Iowa, Alabama, Arkansas, Geórgia, Indiana, Louisiana, Montana, Dakota do Norte, Carolina do Sul e Dakota do Sul buscando uma emenda à lei federal que tornaria mais difícil para as pessoas processarem os fabricantes de agrotóxicos.

As modificações propostas proibiriam quaisquer requisitos de rotulagem estaduais que fossem “inconsistentes” com as conclusões da EPA sobre a segurança de um agrotóxico.

“Declarações ou conclusões sobre os efeitos do produto na saúde humana, incluindo a probabilidade de causar câncer, defeitos congênitos ou danos reprodutivos, que sejam diferentes das descobertas e conclusões da EPA” seriam consideradas “rotulagem enganosa”, afirma a emenda proposta.

Assim como as leis estaduais propostas, o texto essencialmente impediria ações judiciais contra fabricantes de pesticidas que os acusassem de não alertar o consumidor sobre certos riscos à saúde se a EPA não tivesse exigido que esses riscos fossem explicitados no rótulo do produto.

A EPA está aceitando comentários até 20 de fevereiro.

De volta a Iowa, espera-se que o projeto de lei seja aprovado pelo senado estadual, mas a projeção é de que enfrentará uma batalha difícil na câmara dos deputados.

Apesar de uma “enxurrada” de anúncios online e em jornais por parte dos proponentes do projeto de lei de Iowa, a oposição é forte, disse Andrew Mertens, diretor executivo da Associação de Justiça de Iowa, que se opõe ao projeto de lei.

“ Pesquisas em Iowa indicariam que o público em geral simplesmente não vai cair na mensagem da Bayer”, disse Mertens. “Mas os legisladores podem ser influenciados de maneiras que os eleitores não podem, então a luta está longe de acabar.” 


Fonte: The New Lede

Liberação de agrotóxicos mostra como governo Lula segue ‘refém’ de estrutura colonialista, diz Larissa Bombardi

Em 2024, Brasil liberou 663 agrotóxicos, 19% a mais do que ano anterior, superando marca alcançada por Bolsonaro

Por Lucas Salum para o “Brasil de Fato” 

Ano passado, o Brasil liberou 663 agrotóxicos. Embora a grande maioria se refira a produtos genéricos de outros agrotóxicos que já estavam aprovados no país, o número ligou sinal de alerta para pesquisadores que acreditavam que a atual gestão federal iria mudar a política de uso de venenos nas lavouras.

“A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país”, resume a pós-doutora em geografia humana Larissa Bombardi, em entrevista ao programa Bem Viver desta quinta-feira (6).

Ela é autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico que explica como a América Latina compra e consome produtos extremamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, ao mesmo tempo que esses agrotóxicos são proibidos nos países de origem, principalmente nações da União Europeia.

“No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que  é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente, porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.”

Na entrevista, a pesquisadora explica mais sobre a ligação do câncer com agrotóxicos e como se dá essa relação de colonialismo, que, segundo ela, segue se agravando ano após ano.

Confira a entrevista na íntegra 

Estamos na semana em que marca o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Podemos relacionar o enfrentamento à doença com as políticas de agrotóxicos?

Nossa, é essencial conectar esses pontos. 

Tem uma sigla em inglês, HHP [Highly Hazardous Pesticides], que define os agrotóxicos extremamente perigosos. A maior parte desses agrotóxicos está proibida na União Europeia justamente porque eles causam não só uma intoxicação aguda – aquela situação em que a pessoa teve contato com a substância e passou mal, desmaiou, teve vômitos, dores ou coceiras, algo que é muito instantâneo –, mas também existe outro efeito mais invisível, por assim dizer.

São os efeitos crônicos da exposição agrotóxicos. O que é esse efeito? São doenças crônicas, dentre elas, principalmente, o câncer, que as pessoas desenvolvem em função da exposição cotidiana a essas substâncias. 

No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.

Obviamente, que os trabalhadores rurais, os camponeses, a população que vive próximo a áreas com cultivo intensivo, estão mais expostas a essas substâncias, mas eu diria que a população como um todo está, por conta dos alimentos que a gente consome.

Essas substâncias estão presentes na alimentação e na água. Então, o glifosato, por exemplo, que é o agrotóxico mais vendido no Brasil, o mais vendido no mundo, foi considerado potencialmente cancerígeno para seres humanos pela Organização Mundial da Saúde há 10 anos, desde 2015. E, no Brasil, o resíduo dessa substância é 5 mil vezes mais permissivo do que aquele permitido na União Europeia.

Mesmo que a pessoa apenas consuma orgânicos, ela segue exposta aos agrotóxicos, certo?

O monitoramento que acontece no Brasil de resíduos de agrotóxicos é muito incipiente. Por exemplo, quando a gente fala de agrotóxicos nos alimentos, a gente tem essa representação na nossa cabeça de que a gente está falando de alimento fresco, frutas, verduras e legumes.

No entanto, a carne não é monitorada, a alimentação infantil não é monitorada, os ultraprocessados não são monitorados, as bebidas não são monitoradas. 

Então, grande parte da nossa alimentação sequer é monitorada. E houve anos em que sequer a soja, que responde por mais da metade do consumo de agrotóxicos no Brasil, também não foi monitorada. 

Realmente é uma violência invisível. É uma violência invisível no campo quando a gente fala dos conflitos fundiários em que essas substâncias têm sido utilizadas como armas químicas para uma  tentativa de expulsão de indígenas, de camponeses, de quilombolas de suas terras.

E ela é também uma, eu diria, uma violência invisível, na isenção de impostos para agrotóxicos. 

Como a senhora avalia a atuação do governo Lula diante deste cenário?

Eu diria que o governo está tímido. Achei muito importante esse pronunciamento dele com relação à comparação que ele fez Brasil e Alemanha, de que não é possível que o Brasil esteja exposto às substâncias que, por exemplo, a Alemanha não está. 

Mas os dados mostram um caminho diferente do que a gente esperava. Por exemplo, o número de novos agrotóxicos aprovados. Isso me remete ao título do meu livro [Agrotóxicos e Colonialismo Químico]. 

Quando a gente fala de colonialismo, obviamente a gente pensa no colonialismo histórico, no momento em que a Europa avançava sobre as terras da América, em que pilhava essas terras, ou seja, em que se apropriava dos recursos naturais por meio de extrema violência,

[Karl] Marx morou aqui em Bruxelas, onde eu vivo, e escreveu o Manifesto Comunista em 1847, 1848. Ou seja, naquele momento, a Europa já estava discutindo questões de trabalho, relações de trabalho, condição do trabalhador.. E a escravização de pessoas era algo impensável naquele momento histórico. 

No entanto, eram as companhias europeias que comercializavam as pessoas escravizadas, que traziam as pessoas da África para outras partes do mundo na condição de escravos. 

Então, aquilo que ela não tolerava para si, estava no auge mundo afora, patrocinado pela própria Europa.

Guardadas as devidas proporções históricas e geográficas, a gente está diante de uma Europa que não tolera algumas substâncias no seu território, mas que vende essas substâncias para outros países.

Só que o colonialismo não existe sem a colonialidade. Qual que é a parte da colonialidade? A colonialidade é essa maneira, essa forma como nós nos constituímos como nação, em que há uma pequena, minúscula elite, classe social, que controla a propriedade da terra. 

E isso se perpetuou na América Latina e no Brasil ao longo dos séculos. E o que é que a gente tem hoje? A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país.


Fonte: Brasil de Fato