
Por Douglas Barreto da Mata
Quem observar atentamente os resultados das eleições, em todos os níveis, dentro e fora do país, desde o início dos anos 2000, perceberá que o eixo do debate político mudou drasticamente. Isso é óbvio, dirão vocês. Eu sei, mas alguém já disse que o óbvio precisa ser dito e repetido várias vezes. As reduções das gestões de políticas econômicas aos dogmas de mercado, e seus rigores fiscais impuseram uma aproximação radical de campos até então opostos.
De forma simplista, sobrou pouca diferença, por exemplo, entre Haddad e Paulo Guedes, Lula ou Bolsonaro, quando se observa as gestões fiscais e orçamentárias de ambos. Seja na Noruega ou na Argentina, a agenda de mercado pressiona as conquistas sociais. O terrorismo econômico, da “gastança do governo”, imobiliza-o no atendimento aos mais pobres! É uma estratégia de duas cabeças: a interdição do debate econômico (onde só há uma tese certa, a do mercado), e desestabilizar pelo conflito “cultural”.
De forma simplista, seja quem for o candidato da direita e da esquerda, não importará muito se foram criados empregos, a taxa de juros, o PIB, etc.
No âmbito estadual também não importará muito a saúde financeira do Estado, os índices de IDEB, se há filas de espera para atendimentos na saúde, se o transporte público faliu, ou outros indicadores. Os eixos centrais são aqueles que alimentam essa “guerra de mundos”, como segurança, religião, gênero, e toda a pauta identitária, conjugado com as limitações permanentes de investimento social. Quer dizer, os temas econômicos e de gestão administrativa não são cruciais pelos seus aspectos reais, mas pela capacidade de cada oponente distorcer a realidade a seu favor, seja realçando suas qualidades, seja destacando os defeitos do outro. Prova? Apesar de Trump ter deixado a economia dos EUA como uma bomba relógio para seu sucessor, o fato é que ele pinçou a alta dos preços, e transformou um dos aspectos da economia em sua pièce de résistance.
Ao mesmo tempo, ainda que o Brasil ostente crescimento positivo de PIB inesperado, com desemprego em patamar baixíssimo, apesar da taxa de juros mais alta do planeta, estabelecida pela sabotagem do Banco Central, o leve aumento inflacionário resultou em um ataque especulativo colossal, seguido de uma chantagem cruel da mídia para que sejam feitos cortes nos gastos sociais.
Não tenho como conspirar e dizer que mídia e mercado andam juntos, mas parece estranha a coincidência que todos sigam na mesma direção, sempre, subtraindo deste governo a base necessária para que mantenha uma agenda de direitos sociais e seu capital político para as eleições que se aproximam.
Voltando para o nosso Estado e para nossa região, dentro desse cenário descrito, nas eleições estaduais me parece que o papel de “herói” das esquerdas e do centro já foi escalado para Eduardo Paes. Ele é prefeito “playboy” boa praça, que circula nas altas rodas, pela sua origem privilegiada, mas sabe “entrar e sair” das “quebradas”, que samba com chapéu de Zé Pilintra, ecoando ‘miscigenação” e seu “sincretismo”, “um democrata racial e cultural”, para emprestar a lógica de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O papel dos “anti heróis” vai ficar para o outro lado.
Sim, a direita vai se reunir em torno do governador e do amplo leque de alianças de sua base. Vão ter que encarar a poderosa Rede Globo, cria do Estado, e que tem na pauta identitária uma de suas preferências (hipócritas, por certo), e não escondem seu zelo com o “mocinho Paes”. Por isso, o que Paes mais deseja é um plebiscito com um “vilão” característico, um candidato truculento ou com histórico truculento, mau encarado, fundamentalista religioso, do tipo KKK carioca…um híbrido de Malafaia com Tenório Cavalcante.
A direita fluminense parece não ter percebido a jogada de Paes, que esfrega as mãos, aguardando um antagonista desse tipo. Esse é o prato que Paes espera que lhe seja servido, para que ele possa desempenhar o papel de centrista ilustrado, amigo de Macron, um prefeito internacional, sintonizado com a imagem de um Rio cosmopolita. Paes tem tentado evitar que uma candidatura com as mesmas características dele, mas de sinal trocado, ou seja, deliberadamente conservadora, porém suave e ponderada, simpática mesmo, lhe enfrente.
Embora a pré candidatura anunciada seja a de Washington Reis, e só os tolos acreditam que o presidente da ALERJ tenha desistido da ideia de ser ele mesmo o candidato, o fato é que o ex-prefeito de Duque de Caxias está impedido juridicamente, e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) se encaixe mais no papel de “vilão” que de “mocinho”. Na verdade, o candidato dos sonhos de Paes, observando essa lógica acima, seria o presidente da Alerj.
No Estado do Rio há poucos com esse perfil de direita mais ameno e com potencial capital eleitoral significativo. Eu arriscaria dizer que o prefeito Wladimir Garotinho é um dos que pode colocar água no chopp de Paes. É de direita assumido, mas transita com facilidade na esquerda. Como filho de governadores não se pode dizer pobre ou de origem humilde, mas traz na carreira a referência da trajetória dos pais junto ao eleitorado popular. Soube se diferenciar de seus pais, sem ignorar seu legado. É religioso, mas sai do culto ao pagode sem perder a linha, nem parecer falso. Tem ótima entrada no público feminino pobre, principalmente das mães solo, e é atração entre crianças.
O perfil conciliador e bonachão de Wladimir, e sua habilidade nas redes sociais se compara à de Paes, soando às vezes parece mais sincero, dada a história da família Garotinho, como já mencionado. Ao contrário de Paes, tido e havido como um animal político de Zona Sul, até que, recentemente, conseguiu ultrapassar o túnel, mas não sem muito esforço e ruído, como o que aconteceu, recentemente, com a base evangélica. Outros atributos são a enorme capilaridade possível a Wladimir pelo Estado todo, ao contrário de Paes, que no máximo chega a Niterói, e com muito esforço, em boa parte, é verdade, pela parceria com Rodrigo Neves.
De todo modo, como diziam os romanos, alea jacta est. Que comecem os “jogos vorazes”.

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