BB, Bradesco e Itaú lideram ranking dos que financiam desmatadores da Amazônia e do Cerrado

Maior parte do crédito liberado é destinada para as indústrias da soja e da pecuária bovina, setores com amplo histórico de violações socioambientais na Amazônia e no Cerrado brasileiro

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Por Igor Ojeda/ Edição Paula Bianchi 

Banco do Brasil (BB), Bradesco e Itaú lideram um ranking global das 30 instituições bancárias que mais concederam créditos para 159 empresas de produção de commodities com risco de desmatamento que operam na América do Sul, Sudeste Asiático e África Central e Ocidental entre janeiro de 2018 e junho de 2024.

Disparado na liderança, o BB destinou, nesse período, mais de 95 bilhões de dólares, especialmente para os setores de soja (47 bilhões de dólares) e carne bovina (45 bilhões). Em seguida, vem o Bradesco (um total de mais de 14,5 bilhões de dólares) e o Itaú Unibanco (12 bilhões de dólares no total). 

Os dados estão presentes no relatório “Financiando o colapso da biodiversidade. Rastreamento de bancos e investidores que impulsionam o desmatamento tropical”, divulgado na última quarta-feira (16) pela Coalizão Florestas & Finanças, aliança global de organizações da sociedade civil da qual a Repórter Brasil faz parte e que cobra o fim do financiamento a atividades predatórias em florestas tropicais

O estudo analisou fluxos de créditos e participações em financiamentos a 300 empresas de seis setores de commodities – soja, carne, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira – cuja produção representa altos riscos de desmatamento de florestas tropicais, perda de biodiversidade e violações de direitos humanos. Um levantamento inicial foi publicado em dezembro de 2023.

Mais cinco bancos brasileiros aparecem na lista: Banco do Nordeste (5° lugar), Banco da Amazônia (7º), Sicredi (20º), Banrisul (21º) e Grupo Safra (24º).

“A grande maioria dos créditos – 70% – vai para a América do Sul, com as indústrias da soja e da pecuária bovina recebendo a maior fatia. Esse financiamento alimenta diretamente a destruição da floresta amazônica, um dos ecossistemas mais importantes da Terra”, afirmou à Repórter Brasil Merel van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças.

Para Christian Poirier, diretor de Programas da Amazon Watch, uma das organizações que integram a Coalizão Florestas e Finanças, “os bancos brasileiros estão particularmente expostos a esses riscos ao possibilitarem que algumas das indústrias mais destrutivas que existem operem na Amazônia e em outros locais de grande biodiversidade”. “Essas instituições precisam ser rigorosamente reguladas e responsabilizadas por ameaçarem nosso futuro coletivo”, defende. 

O que dizem os bancos

À Repórter Brasil, o BB afirmou que não financia empresas responsáveis por “dano doloso” ao meio ambiente e que possui “um framework de finanças sustentáveis totalmente alinhado ao Acordo de Paris e aos principais standards de sustentabilidade internacionais”. Diz também que “todas as operações de Custeio e Investimento contratadas pelo Banco passam por rigoroso processo de verificação Socioambiental”. 

O Bradesco respondeu que todas as operações do programa de crédito rural do banco passam por um rigoroso processo de análise que contempla aspectos socioambientais e que cumpre integralmente todas as regras de concessão do programa. “A metodologia utiliza restritivos cadastrais para sinalizar riscos identificados a partir do cruzamento dos dados com listas públicas que dispõe sobre prática de crimes/danos socioambientais, monitoramento das áreas financiadas por satélite e visitas prévias de campo por engenheiros agrônomos para avaliação de financiamentos concedidos em áreas localizadas na região Amazônica, entre outras ferramentas de análise”, afirmou a instituição em nota enviada à reportagem.

O Itaú Unibanco, por sua vez, respondeu que segue “rigorosamente” o Código Florestal e que reafirma o compromisso com o cumprimento das leis e práticas socioambientais. “O banco mantém uma governança bastante criteriosa para a concessão de crédito para seus clientes corporativos, em especial aqueles com classificação prévia de alto risco, que passam por análises mais aprofundadas, com foco no risco socioambiental e climático”, afirma.

O Sicredi afirma que “possui processos e regras para liberação e manutenção de crédito em conformidade com as melhores práticas de gestão do mercado, amparados por uma Política de Sustentabilidade e por uma Política de Gerenciamento de Riscos Sociais, Ambientais e Climáticos”.

Já o Banco da Amazônia informou que adota uma postura rigorosa, não concendendo crédito rural a empreendimentos localizados em imóveis rurais com embargos de órgãos ambientais e que utiliza dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite para monitorar e avaliar o desmatamento. “Esta política visa garantir que nossos financiamentos não contribuam para a degradação ambiental, especialmente em Áreas de Proteção Permanente (APP), matas nativas ou áreas de reserva legal”.

A íntegra das respostas dos cinco bancos pode ser lida aqui. Os demais bancos foram procurados, mas não retornaram aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Soja e carne

Segundo o levantamento da Coalizão Florestas & Finanças, desde a aprovação do Acordo de Paris, em 2015, as maiores instituições bancárias do mundo financiaram em mais de 395 bilhões de dólares os seis setores pesquisados. Mais de um quinto desse total (77 bilhões de dólares) foi desembolsado apenas entre janeiro de 2023 e junho de 2024. 

Em relação à produção de soja no Brasil, o estudo menciona os problemas socioambientais causados por gigantes do setor como Cargill e Bunge, empresas ligadas ao desmatamento e à expulsão de comunidades tradicionais na Amazônia e no Cerrado em razão da expansão de suas operações. 

Um dos conflitos lembrados pelo relatório é a luta do povo indígina Munduruku em defesa de seu território no Pará contra a construção da ferrovia conhecida como Ferrogrão – promovida por ambas as empresas –, o que, segundo o relatório, poderia resultar em desmatamento em grande escala e em violações dos direitos de indígenas e comunidades locais.

Ainda de acordo com o documento, comunidades tradicionais do Pará acionaram judicialmente a Cargill diante de sua intenção de construir um porto em suas terras tradicionais. Além disso, a companhia é objeto de uma queixa apresentada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no ano passado por conta de violações ambientais e de direitos humanos. 

Em resposta encaminhada à Repórter Brasil, a Bunge afirma estar comprometida em desenvolver práticas agrícolas sustentáveis em todas suas cadeias de suprimentos e “apoiar projetos que protejam o meio ambiente, respeitem os direitos humanos e melhorem o bem-estar econômico de agricultores, colaboradores e comunidades locais”. “Usamos recursos disponíveis para garantir que cumpramos nossos compromissos, incluindo tecnologia de satélite de ponta para monitorar áreas prioritárias na América do Sul”, diz. A íntegra do posicionamento pode ser lida aqui.

A reportagem também enviou questionamentos à assessoria de imprensa da Cargill, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. 

Outro exemplo “gritante” destacado pelo estudo é o da JBS, maior processadora de carnes do mundo. Entre 2018 e junho de 2024, a empresa recebeu mais de 1,1 bilhão de dólares em créditos, e em julho de 2024 contava com 719 milhões de dólares em investimentos. “O fracasso da empresa em rastrear suas cadeias de fornecimento de gado contribuiu para a pecuária ilegal em terras indígenas, incluindo a destruição de 477 quilômetros quadrados da Terra Indígena Parakanã, no Pará”, diz o relatório.

A JBS respondeu que desde 2009 avalia, por meio de monitoramento geoespacial, “milhares de potenciais fazendas fornecedoras de bovinos diariamente”. “A Política de Compras de Matéria-Prima da JBS proíbe a compra de propriedades com desmatamento ilegal, áreas de embargo ambiental, unidades de conservação e terras indígenas ou quilombolas, entre outros requisitos, como estar na Lista Suja do Trabalho Escravo”, afirma a nota à reportagem.

Marco Global da Biodiversidade

Para a Coalizão Florestas & Finanças, os números revelam como, sob a inação dos governos, as finanças globais têm impulsionado a degradação de ecossistemas tropicais e, assim, contribuído para a aceleração da crise global de biodiversidade, apesar da existência de acordos internacionais como o Marco Global da Biodiversidade (GBF, na sigla em inglês), aprovado em 2022 durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP15), realizada em Montreal, no Canadá. 

De acordo com o relatório, o “financiamento atual está alimentando a crise que está levando as florestas tropicais na Amazônia, na Bacia do Congo e no Sudeste Asiático ao colapso ecológico”. “As evidências indicam que, desde a adoção do GBF em 2022, a Meta 14 – que exige o alinhamento dos fluxos financeiros com as metas de biodiversidade – tem sido amplamente ignorada”.

A Coalizão Florestas e Finanças defende que é preciso alterar o fluxo de financiamentos de atividades ambientalmente destrutivas para soluções sustentáveis. “Os povos indígenas, guardiões de longa data da biodiversidade, são fundamentais nesses esforços, e devem ser apoiados por proteções legais e financeiras mais fortes.”

‘Greenwashing’

O relatório chama a atenção, ainda, para o que classifica como “uma falsa narrativa de sustentabilidade” das instituições financeiras, cujas práticas apresentam uma lacuna crescente entre compromissos e ações. De acordo com o documento, mais da metade dos 30 principais bancos que financiam setores ligados ao desmatamento integram iniciativas voluntárias voltadas para uma atuação que leve em conta a preservação ambiental. 

No entanto, segundo os pesquisadores, não foi possível encontrar evidências que sugiram que essas iniciativas tenham restringido fluxos financeiros prejudiciais. Assim, “tais estruturas voluntárias permitem que as empresas pareçam sustentáveis enquanto continuam com práticas destrutivas”.

A Bunge é citada pelo estudo como um exemplo desta situação. Líder no comércio de soja no Cerrado brasileiro, ela integra a “Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza” (TNFD, na sigla em inglês). “Apesar de estar ligada a mais de 60 mil hectares de desmatamento e abusos de direitos humanos, a Bunge usa a estrutura da TNFD para relatar de forma seletiva sobre os riscos relacionados à natureza, mascarando seus danos ambientais”, alerta a Coalizão Florestas e Finanças. 

O relatório critica também sistemas de certificação que não garantem exigências básicas, como a de que empresas excluam de sua cadeia produtiva qualquer elo que promova desmatamento ou violações de direitos humanos. “As instituições financeiras que dependem dessas certificações são cúmplices dessa lavagem verde (greenwashing), que perpetua ainda mais os danos ambientais”, afirma o documento.

“As instituições financeiras e seus clientes corporativos têm bastante experiência na fraude do ‘greenwashing’. Ao promoverem falsas soluções, como, por exemplo, créditos de carbono e de biodiversidade, aparentam estar promovendo ações relacionadas a questões climáticas e de biodiversidade, quando, na realidade, apenas encontraram uma nova forma de continuarem lucrando com a destruição”, critica Merel van der Mark.


Fonte: Repórter Brasil

Bilionários são os “beneficiários finais” de R$ 22 bilhões em subsídios agrícolas da União Europeia

Milhares de pequenas  propriedades agrícolas fecharam, de acordo com a análise de dados oficiais, mas opacos, dos estados-membros da União Europeia (UE)

farming euDezessete bilionários receberam subsídios agrícolas da UE por meio de empresas que possuíam total ou parcialmente ao longo de um período de quatro anos. Fotografia: Dominika Zarzycka/NurPhoto/Rex/Shutterstock

Por Arjit Niranjan para o “The Guardian

A União Europeiaconcedeu generosos subsídios agrícolas às empresas de mais de uma dúzia de bilionários entre 2018 e 2021, segundo o Guardian, incluindo empresas de propriedade do ex-primeiro-ministro tcheco Andrej Babiš e do empresário britânico Sir James Dyson.

Bilionários foram os “beneficiários finais” vinculados a R$ 22 bilhões de subsídios agrícolas da UE ao longo do período de quatro anos, mesmo com milhares de pequenas fazendas fechadas, de acordo com a análise de dados oficiais, porém opacos, de estados-membros da UE.

Os 17 “beneficiários finais” que apareceram na lista dos ricos da Forbes de 2022 incluem Babiš, o ex-primeiro-ministro tcheco que foi absolvido em fevereiro de fraude envolvendo subsídios agrícolas ; Dyson, o magnata britânico dos aspiradores de pó que argumentou que a Grã-Bretanha deveria deixar a UE e cuja empresa recebeu pagamentos antes do Brexit; e Guangchang Guo , um investidor chinês dono do clube de futebol Wolverhampton Wanderers.

Outros beneficiários bilionários de fundos dos contribuintes da UE incluem Clemens Tönnies, o magnata alemão da carne que admitiu que “estava errado” sobre Vladimir Putin em 2022; Anders Holch Povlsen, o entusiasta dinamarquês da reintrodução da vida selvagem e proprietário privado de terras no Reino Unido; e Kjeld Kirk Kristiansen, o fabricante de brinquedos dinamarquês e ex-CEO da Lego.

“É uma loucura”, disse Benoît Biteau, um fazendeiro orgânico francês e MEP dos Verdes no último parlamento europeu. “A vasta maioria dos fazendeiros está lutando para sobreviver.”

A UE doa um terço de todo o seu orçamento aos agricultores por meio de sua política agrícola comum (PAC), que distribui dinheiro com base na área de terra que o agricultor possui, e não na necessidade ou não de apoio.

Mas regras rígidas de privacidade, requisitos de transparência fracos e cadeias complexas de propriedade de empresas significam que pouco escrutínio tem sido possível sobre quem recebe o dinheiro. Em um estudo encomendado pelo comitê de controle orçamentário do parlamento europeu em 2021, pesquisadores do Centre for European Policy Studies (Ceps) descobriram que é “atualmente de fato impossível” identificar os maiores beneficiários finais do financiamento da UE com total confiança.

Para fazer uma estimativa melhor, os pesquisadores vincularam dados sobre beneficiários de subsídios agrícolas de cada estado-membro com um banco de dados comercial de empresas. Trabalhando de trás para frente a partir dos beneficiários, eles identificaram pessoas que possuíam pelo menos 25% de uma empresa em cada etapa da cadeia de propriedade para descobrir os “beneficiários finais”.

A análise observou a pessoa física final no final de uma cadeia de empresas, disse Damir Gojsic, um pesquisador de mercados financeiros que coescreveu o relatório do Ceps e atualizou a análise para o Guardian. “Idealmente, você se concentraria em milionários, mas não há uma lista de milionários por aí.”

Gojsic descobriu que 17 bilionários receberam doações agrícolas da UE por meio de empresas que eles possuíam total ou parcialmente ao longo do período de quatro anos. A soma total de dinheiro vinculada aos bilionários era de R$ 22 bilhões, mas a cadeia de empresas era muito complexa e imprecisa para ponderar os valores por sua participação acionária, disse ele.

Cientistas criticaram “incentivos perversos” no Cap que empurram fazendeiros a destruir a natureza. Eles estimam que 50%-80% dos subsídios agrícolas da UE vão para a agricultura animal em vez de alimentos que seriam melhores para a saúde das pessoas e do planeta.

“Precisamos de uma rápida transição alimentar para um futuro mais saudável e os subsídios são a maior alavanca econômica para a mudança”, disse Paul Behrens, pesquisador de mudanças globais na Universidade de Leiden, que não estava envolvido no estudo.

Ele disse: “A desigualdade no PAC é extrema e este trabalho destaca novamente o quanto os proprietários de terras mais ricos continuam a ficar mais ricos com os subsídios. Embora a transparência no Cap tenha melhorado ao longo do tempo, a quantidade de trabalho de detetive necessária para descobrir como o dinheiro público dos impostos é gasto é espantosa.”

A maioria dos 17 bilionários não respondeu aos pedidos de comentários. Alguns se recusaram a comentar.

A Dyson Farming escreveu uma carta ao The Guardian no ano passado argumentando que ele “nunca apoiou a base do PAC”. Um porta-voz da Dyson Farming disse que a família investiu R$ 1,06 bilhão para melhorar de forma sustentável suas fazendas e terras agrícolas, além do custo da terra, o que “supera qualquer pagamento de subsídio” recebido pela Dyson Farming Ltd. Eles disseram: “Suas empresas também contribuíram com muitas centenas de milhões de libras em impostos e tarifas da UE.

“As fazendas agora empregam mais de 250 pessoas e usam agrotecnologia e inovação para dar suporte à segurança alimentar do Reino Unido. Somente em 2023, a Dyson Farming produziu de forma sustentável 40.000 toneladas de trigo, 12.000 toneladas de batatas e 750 toneladas de morangos britânicos fora de estação, o que evita as milhas aéreas e o impacto de carbono das frutas importadas do exterior.”

Thomas Dosch, chefe de relações públicas da Tönnies, disse que a empresa apoiava uma “reorientação” da política agrícola europeia para que os agricultores que trabalhassem de maneiras ecologicamente corretas fossem compensados ​​pela perda de renda associada. “Nenhum subsídio deve ser pago pela quantidade de produtos ou como prêmios de área por hectare”, disse ele.

Outra opção seria sancionar comportamentos prejudiciais ao meio ambiente impondo altos custos, ele acrescentou. “No entanto, se isso levasse a preços de alimentos muito mais altos e talvez até mesmo a escassez de alimentos, acredito que isso seria politicamente inaceitável.”


Fonte: The Guardian

A Uenf e o Porto do Açu: um acordo de cooperação que só servirá aos donos do enclave

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Enquanto agricultores que tiveram suas terras tomadas aguardam pelas indevidas devidas há mais de uma década, a Uenf serve para dar credibilidade às fantasias de ESG do Porto do Açu

Graças a uma iniciativa singular de um colega, pude revisitar brevemente a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) como um daqueles produtos benignos do fim do ciclo militar inaugurado com o golpe de estado de 1964.   O fato é que foi graças à mobilização popular ocorrida em Campos dos Goytacazes e à eleição de um líder político exilado pelo regime militar, no caso Leonel Brizola, que a Uenf foi criada. E se sublinhe, com um desenho institucional altamente inovador, pois Brizola entregou a um intelectual militante, Darcy Ribeiro, a tarefa de desenvolver um modelo institucional que estivesse à altura dos desafios impostos pela realidade socialmente injusta que existia (e persiste) na região Norte Fluminense.

Passadas mais de três décadas da criação da Uenf, sua gênese nas lutas populares está majoritariamente esquecida, e na instituição fundada por exigência do povo pobre de Campos dos Goytacazes está instalada uma visão empresarial (que nada tem de empreendedora) que não apenas ignora os objetivos fundacionais da instituição, mas dá passos largos para apagá-los.

Um exemplo disso é um termo de cooperação em vias de ser assinado com o Porto do Açu, empreendimento que não passa de um enclave geográfico que está posto na paisagem do V Distrito como um elemento estranho para sugar tudo o que puder, deixando um rastro de destruição social e ambiental. Nas palavras de um respeitado pesquisador aqui da região “o Porto só quer tirar e só se importa com o que é bom para ele”.

 O fato é que para o Porto do Açu e seus proprietários alojados no fundo de “private equity“, o EIG Global Partners, acordos com instituições universitárias públicas como a Uenf (mas também a UFF-Campos e o IFF) são muito interessantes porque garantem mais uma meia página (ou uma, quando muito) nos relatórios anuais de governança corporativa. Isso acaba valendo milhões de dólares para os acionistas secretos de fundos de private equity, pois no mercado da governança sócio-corporativa (ESG), este tipo de acordo serve para acomodar preocupações dos seus investidores. Já para a Uenf (e UFF e IFF), o que fica é uma enorme mancha na imagem de que são instituições realmente voltadas para contribuir para um processo de desenvolvimento social e ambientalmente justo, e não para perpetuar um modelo que é social e ambientalmente desagregador e segregador.

Tenho que frisar aqui o estudo recentemente completado pela minha orientanda Jesa Mariano no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais que mostrou que os programas de ESG do Porto do Açu não mudaram em nada a vida dos habitantes do V Distrito de São João da Barra, especialmente agricultores familiares e pescadores artesanais, que receberam e recebem as piores consequências da instalação desse enclave geográfico.

Aliás, como alguém que vem realizando pesquisas no V Distrito de São João da Barra desde antes do início da instalação do Porto do Açu, posso dizer que as questões que valem a pena de serem pesquisadas ocorrem fora das cercas que demarcam o território desse enclave internacional. Tanto é verdade que já desses estudos já saíram dissertações de Mestrado e teses de doutorado que resultaram em capítulos de livros e incontáveis artigos científicos. 

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Agricultores protestam na Barra do Açu contra a tomada de suas terras para implantação do Porto do Açu

O inconveniente para o Porto do Açu e seus proprietários é que esses trabalhos realizados sem a chancela oficial de acordos de cooperação como o que está para ser assinado com a Uenf mostram os graves efeitos ambientais e sociais que o enclave vem causando em São João da Barra. A começar pelo fato de que as centenas de propriedades forçosamente tomadas, muitas vezes com o uso de violência extrema, pelo governo do Rio de Janeiro de seus legítimos proprietários agora se encontram sob controle de fato do Porto do Açu, sem que seus proprietários, agricultores pobres, tenham sequer a perspectiva de que um dia serão ressarcidos pela perda de suas terras. 

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Agricultor mostrando seu plantio de abacaxi afetando pela salinização causada pelo Porto do Açu

Mas estudos realizados pelos meus orientandos no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente (Sesma) do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) também já identificaram a ocorrência de um processo erosão costeira e de salinização de águas continentais, fatos que complicam ainda mais a existência daqueles que se recusam a abandonar um território forte e negativamente impactado pela implantação do Porto do Açu.

Apesar da eventual assinatura de um termo de cooperação entre Uenf e Porto do Açu, uma coisa é certa: os estudos que documentam os malfeitos do enclave geográfico vão continuar, pois na instituição criada por Brizola e Darcy ainda há quem queira cumprir os objetivos fundacionais do que deveria ser uma Universidade do Terceiro Milênio comprometida com a felicidade do povo e não de quem o faz sofrer. E mais importante, enquanto os atingidos não forem ressarcidos e os danos ambientais continuarem avançando, o que não faltará é objeto de pesquisa. E no que depender de mim e dos meu grupo de pesquisa, o compromisso sempre será com os atingidos, compromisso esse que nunca caberá em acordos que só beneficiarão os donos do enclave.

COP 16: Ativismo e Greenwashing

A conferência da ONU sobre proteção da biodiversidade em Cali, Colômbia, é um símbolo de conflitos ambientais

cali cop16Esperança pela proteção das espécies? Ativistas manifestam o seu ceticismo à margem da cimeira da ONU. Foto: Agência EL UNIVERSAL/Estrella

Por Sarah Meyer para o Neues Deutschland

A Colômbia – o país que tem o maior número de ativistas ambientais assassinados no mundo e é o lar de uma das maiores biodiversidades – acolhe a Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Ameaçadas de Extinção (COP 16) deste ano em Cali. O lema da conferência é “Paz com a Natureza” e o seu objetivo é um plano para implementar os 23 objetivos da ONU da COP 15 em Montreal para conter a destruição ambiental e a extinção global de espécies até 2030.

Cali, conhecida como a “Cidade dos Pássaros”, serve como símbolo das tensões do país: a biodiversidade encontra a monocultura, a pobreza extrema encontra a riqueza e o protesto social encontra indústrias poderosas. A conferência deste ano enfatiza pela primeira vez as perspectivas indígenas e afro-colombianas, mas destaca os conflitos profundos entre a população local e a política.

Em Cali, os participantes da conferência estão espacialmente separados: representantes dos quase 200 estados participantes reúnem-se na “zona azul”, a área protegida para negociações políticas e delegações de alto escalão. A população indígena e afro-colombiana encontra-se predominantemente na “zona verde” aberta ao público – simbolicamente distante dos processos de tomada de decisão. Luis Acosta, porta-voz da Guarda Indígena e da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Colômbia, critica duramente esta separação. “Basta de ser explorado”, explica. “Queremos ter uma palavra a dizer em pé de igualdade.”

Esta representação das minorias étnicas é promovida pelo governo de esquerda do presidente Gustavo Petros – por exemplo, elas são consultadas sobre determinados temas na “zona azul”. Mas a exclusão estrutural da “zona azul” permanece.

Petro tenta dar espaço ao seu compromisso com as minorias no evento de abertura da conferência. Ele critica a crescente monocultura da cana-de-açúcar que domina a área a redor de Cali e expulsa as minorias étnicas. Sua afirmação de que as comunidades estão migrando para as favelas por causa da grande propriedade de terras é recebida com aprovação. O prefeito de Cali, Alejandro Eder, e a governadora Dilian Francisca Toro – ambos ligados à indústria açucareira – são vaiados.

Povos indígenas de todas as regiões da Colômbia também protestam em torno da COP 16 pela proteção de suas áreas e pelo financiamento direto que deveria beneficiar a natureza. Eles estão pedindo o afastamento das indústrias extrativas. Estes não só ameaçaram o seu ambiente, mas também a sua saúde.

Enquanto os representantes indígenas e afro-colombianos na “zona verde” esperam o apoio da sociedade civil, as grandes empresas estão a aproveitar o palco para o greenwashing, ou seja, para criar uma imagem sustentável. O grupo cervejeiro da Baviera e empresas de comunicação social como El Tiempo, por exemplo, declaram o seu apoio à protecção ambiental.

Um colombiano mais velho que observa os estandes das grandes empresas na “zona verde” resume o estado de espírito de muitos dos presentes: “É absolutamente ridículo o que estão fazendo aqui. Para os ativistas ambientais no local, isto é um exemplo”. de como os interesses económicos são colocados acima das preocupações da natureza e das populações marginalizadas.

Os conflitos entre interesses econômicos e proteção ambiental são visíveis não só em torno de Cali, mas também no norte da Colômbia. Há greves em Guajira durante a COP 16. Os grevistas culpam a mina de carvão El Cerrejón, operada pela empresa suíça Glencore, pelos problemas de saúde e pela escassez de alimentos entre a população indígena. A mina também abastece a Alemanha com carvão.  Petro anunciou que iria eliminar completamente o carvão e, em vez disso, construir parques eólicos na região com parceiros alemães. No entanto, a população local permanece cética.

De acordo com o Juiz Especial para a Paz, a mineração ilegal, a guerra civil que já dura mais de 50 anos e os conflitos de drogas são fatores importantes na destruição ambiental. A natureza é reconhecida como uma “vítima silenciosa” do conflito armado. O Painel para a Paz defende a avaliação e punição dos combates armados.

Na COP 16, os movimentos sociais que fazem campanha contra diversas outras injustiças também querem fazer ouvir a sua voz. Mães cujos filhos foram assassinados nas ruas pelas forças de segurança do Estado durante os protestos de 2019 e 2021 fizeram campanha por informação. Indivíduos como uma antiga empregada doméstica que escondeu o seu filho de um político que a violou também estão a tentar chamar a atenção para si próprios com sinais de protesto.

Muitos ativistas da COP 16 não acreditam nos grandes acordos que serão celebrados na “zona azul”. Em vez disso, esperam que as suas vozes na “zona verde” sejam pelo menos ouvidas na sociedade e desencadeiem um repensar. O radialista Camilo Adolfo Mayor, da estação Oriente Estéreo, explica a esperança emergente com a presidência do Petro desde 2022: “Com o primeiro governo de esquerda, abriu-se um lugar para a base”.


Fonte: Neues Deutschland 

Bomba climática em Valência: após a catástrofe das inundações, população se organizam em face da inação dos governantes


paraportaPrincípio da autoajuda: Os voluntários tomam a reparação dos danos com as próprias mãos (Paiporta, 1 de novembro de 2024)

Por Carmela Negrete para o JungeWelt

Milhares de pessoas, incluindo muitos jovens, organizaram-se para apoiar os residentes nas zonas mais gravemente danificadas da região espanhola de Valência. Com vassouras, latas de água e mochilas cheias de comida e remédios, eles se deslocam pelas ruas, que muitas vezes só são transitáveis ​​a pé por quilômetros. As autoridades espanholas alertaram contra o uso de carros nas áreas do desastre, especialmente nas muitas aldeias onde as chuvas torrenciais causaram os piores danos na terça-feira. Relatos da mídia e pedidos de ajuda nas redes sociais confirmam que muitas pessoas ainda estão presas em suas casas.

Embora a ajuda institucional demore a chegar, os refeitórios sociais estão a ser improvisados ​​com o que ainda pode ser encontrado. Sem eletricidade, sem água. Particularmente pérfido: em locais onde ainda não chegou nenhum apoio e onde já não existem oportunidades de compras, os residentes ainda recebem avisos se, por exemplo, retirarem água ou alimentos em lojas fechadas.

Foi a pior tempestade que a Espanha sofreu em cem anos. A verdadeira extensão dos danos ainda é desconhecida. O número de pessoas desaparecidas está na casa dos milhares. Segundo fontes oficiais, 202 mortes foram registradas até a tarde de sexta-feira. Ao mesmo tempo, as redes sociais estão repletas de mensagens de vizinhos alegando que os corpos ainda estão debaixo de escombros, em caves e garagens inundadas, ou mesmo em casas que precisam de ser recuperadas.

Na quinta-feira, o presidente regional Carlos Mazón, membro do conservador Partido Popular (PP), anunciou que o exército seria utilizado para trabalhos de limpeza. O Ministério da Defesa enviou então 1.700 soldados dos cerca de 120.000 que compõem o exército espanhol – um número que parece ridículo tendo em conta a destruição e que faz pouca diferença, como relatam numerosas testemunhas oculares. O partido de esquerda Podemos apela ao governo para que declare o estado de emergência, mobilize todas as forças disponíveis e confisque temporariamente hotéis e outros alojamentos. À medida que as pessoas procuram ajuda desesperadamente, os preços dos hotéis em Valência disparam.

O próprio Mazón é cada vez mais criticado. Governando junto com o partido negacionista do clima Vox, ele aboliu a unidade de resgate de desastres naturais durante seu mandato e enganou a população no pior momento da terça-feira, quando anunciou às 18 horas que a chuva iria parar em breve – exatamente no momento em que a tempestade realmente começou. Ironicamente, as autoridades receberam permissão para voltar para casa mais cedo para evitar serem apanhadas pela tempestade.

Houve avisos: o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) tinha publicado uma previsão cinco dias antes que previa o que aconteceria então de uma forma muito semelhante, explicou Antonio Turiel, especialista em clima do Conselho Superior de Investigação Científica ( CSIC), na quinta-feira o canal Canal Red . “Se eventos com intensidade e destrutividade equivalentes a um furacão são iminentes”, diz Turiel, “medidas como evacuações” devem ser ordenadas.


Fonte: JungeWelt

PT, direita volver!

pt direita volver

Passados alguns dias do segundo turno das eleições municipais já é possível afirmar, lendo declarações de alguns dos seus principais dirigentes, que o PT está inclinando-se para a direita, com uma firmeza que não deveria deixar mais dúvidas. Uma hora é o deputado federal (PT/SP) que afirma que o PT deveria ter feito um esforço maior para se aproximar do prefeito recém-eleito da capital paulista. De forma quase sincrônica, o (de) novo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, classificando o apoio dado a Guilherme Boulos (PSOL) como uma espécie de morte anunciada, pois, para o falante vice-presidente nacional do PT, o certo seria fazer alianças mais à direita com partidos como PP, PSD e Republicanos que garantiram a vitória apertada em Fortaleza. E a chamada “esquerda” do PT, essa até onde se sabe permanece muda, sem mostrar capacidade ou, pior, disposição de combater a narrativa de próceres do calibre de Tatto e Quá quá.

O que sabe até agora é que foi disparada uma disputa pelo comando nacional do PT, e que deverá  contrapor membros da mesma tendência interna, a “Construindo um Novo Brasil” (CNB), que, apesar de discordâncias pontuais, quer fixar o partido em uma posição de centro (direita) a partir da qual se poderá continuar apoiando as medidas recessivas retiradas do mais puro caldo neoliberal pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Aliás, falando em Haddad, ele após visitar os banqueiros da Faria Lima está preparando um pacote de maldades dignas de terem sido engendradas por Paulo Guedes. que está sendo escondido pelo singelo nome de “pacote de revisão de gastos”.  Mantido até agora sob uma cortina de fumaça, esse pacote deverá atingir os mais pobres, começando por limitar via reformas da constituição federal gastos com saúde e educação.  Mas de forma prática, os cortes deverão afetar o chamado Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e outros direitos essenciais.

O fato é que com a aplicação desse pacote, o que deverá ocorrer será uma concentração ainda maior dos recursos públicos nas mãos dos banqueiros, e um aumento ainda maior  das dificuldades dos trabalhadores brasileiros de terem acesso a serviços públicos essenciais. E aí que o PT e o governo da frente ampla se dão as mãos para abraçarem os partidos da direita e da extrema-direita, seja na aprovação do pacote de maldades de Fernando Haddad, seja na formação de alianças para as eleições de 2026.

Esclareço que essa é uma análise muito preliminar do que eu estou chamando de uma inexorável e firme marcha do PT para a direita.  A lição que fica, até para militantes sinceros do PT, é que não é possível ficar apostando em uma suposta guinada para a esquerda, que sempre se espera em nome da memória afetiva do que o PT já foi ou de que poderia ter sido.  A verdade crua e nua é que há que se apostar na construção de outros instrumentos de luta, partidária e ´para além dela, para fazer frente às políticas neoliberais que continuam sendo impostas sobre os trabalhadores brasileiros.

Essa guinada para a esquerda deve começar por abandonar as ilusões no PT, rejeitar as teses neoliberais e de contrapor esse programa de destruição do Estado e da coisa pública com a construção de uma nova direção política que seja capaz de mobilizar a classe trabalhadora em defesa de seus direitos.  Um bom exemplo desse esforço de construção, é o abaixo-assinado que está circulando para obter apoio para a luta contra o que está sendo chamado de “Pacote Antipovo” de Fernando Haddad. Quem se interessar em ler e apoiar, esse movimento em defesa dos direitos trabalhadores, basta clicar [Aqui!].

Negacionismo científico em torno da existência do sistema de recifes do Amazonas revela a existência de um “bolsonarismo de esquerda”

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O grande sistema de recifes do Amazonas virou um alvo preferencial de uma peculair de Bolsonarismo, o “bolsonarismo de esquerda”

O portal Brasil 247  repercutiu no dia de hoje uma entrevista do professor aposentado da UFPA, Luís Ercílio Faria Junior, que foi feita pela Associação de Engenheiros da Petrobras que é um primor no sentido de mostrar que, na busca de se justificar a arriscada empreitada de explorar petróleo e gás na região da foz do Rio Amazonas, negar a ciência não é algo restrito ao que se convencionou chamar de “Bolsonarismo”.

Ao tentar enterrar evidências científicas sérias, as quais foram levantadas por cientistas que possuem produções acadêmicas altamente cientificas atribuindo a existência de um sistema recifal na foz do Amazonas, que foi denominado de “Great Amazon Reef System” (GARS)“, o que se faz é aumentar a campanha anti-científica que tem sido conduzida pela extrema-direita no Brasil e no resto do mundo, especialmente no que se refere à existência de uma grave crise climática.

E isso para quê? Para justificar a ampliação da participação do Brasil na exploração de combustíveis fósseis, inclusive em áreas de grande importância ecológica e social, como é o caso da região da foz do Rio Amazonas.

Como esses ataques estão vindo de setores que se dizem de esquerda, o que me parece ficar demonstrado é que quando se trata da ideologia negacionista, podem chamar de Bolsonarismo se quiserem, fica claro que ela não está estabelecida e operada pela chamada extrema-direita. Curiosamente, oq que os ataques à integridade ecológica do GARS em nome da exploração de petróleo e gás é que há sim uma variante de esquerda no Bolsonarismo.

Na busca de um lar para Spock

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Raramente uso o espaço deste blog para questões que não seja ciência, educação e política, mas vou abrir uma exceção para fazer um pedido bastante pessoal aos leitores deste blog. Há uns dias resgastei um filhote de gato (de no máximo 2 meses de idade) no meu quintal e até pensei em aumentar a família felina, mas um exame de sangue detectei que o Spock (nome dado por causa das orelhas pontiagudas) deu positivo para FIV, um vírus que afeta o sistema imunológico dos felinos. 

Como eu já hospedo uma gata que é FIV negativa, se tornou impossível adotar o Spock. Por isso, peço aos leitores do blog para que me ajudem a encontrar outro lar para Spock. Qualquer contato sobre essa procura de um lar para o Spock, por favor entrar em contato no endereço eletrônico do blog.

JBS quebrou suas próprias regras ao comprar gado criado em áreas desmatadas ilegalmente no Pantanal

Fornecedores da JBS desmataram ilegalmente grandes áreas de vegetação do Pantanal, mostra reportagem

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O Pantanal é a maior área úmida do mundo. Localizado no Brasil, Bolívia e Paraguai, ele cobre mais de 170.500 km² e abriga mais de 4.000 espécies de plantas e animais. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP via Getty Images 

Por Naíra Hofmeister e Fernanda Wenzel para o “Unearthed”

A maior empresa de carne do mundo comprou gado mais de 100 vezes de uma fazenda que foi sancionada e multada em quase £ 2 milhões por destruir ilegalmente áreas úmidas únicas e vulneráveis ​​no Brasil, conforme revelado  pela Unearthed .

A gigante brasileira da carne bovina JBS, que fornece para KFC, McDonalds, Walmart e Tesco , tem sido repetidamente associada à destruição em larga escala da Amazônia. As compras de gado da JBS parecem estar em violação direta de suas promessas de manter sua cadeia de suprimentos limpa. 

As descobertas vêm como parte de uma investigação mais ampla sobre o crescente impacto da indústria de carne bovina do Brasil nas áreas úmidas do Pantanal, um hotspot de biodiversidade que está cada vez mais ameaçado por incêndios florestais e agronegócios. Nossa investigação, baseada em uma análise encomendada pelos especialistas em imagens de satélite da AidEnvironment, descobriu que fornecedores diretos e indiretos dos três maiores frigoríficos do Brasil desmataram uma área de pelo menos sete vezes o tamanho de Manhattan no Pantanal nos últimos cinco anos . 

A grande maioria disso, 93%, estava ligada à JBS. A Unearthed então investigou os 10 maiores desmatadores na análise e encontrou fornecedores diretos da JBS envolvidos com desmatamento ilegal e conflito de terras indígenas. 

A JBS precisa ser responsabilizada tanto pela destruição imprudente do ecossistema quanto pela lavagem verde enganosa

A JBS vem promovendo recentemente seus controles de desmatamento e credenciais verdes antes de uma tentativa de listar ações na Bolsa de Valores de Nova York . Ela diz que está reprimindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos, mas está expandindo significativamente a produção no Pantanal, com planos de criar o maior matadouro da América Latina . O pantanal listado como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter uma de suas piores temporadas de incêndios florestais .  

“É chocante descobrir que a JBS continua a ser uma das principais causas do desmatamento flagrante, enquanto engana os clientes com alegações de que está reduzindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos”, disse o senador dos EUA Cory Booker em resposta à nossa investigação. “A JBS precisa ser responsabilizada tanto por sua destruição imprudente do ecossistema quanto por sua lavagem verde enganosa.”

Em nota, a JBS disse: “As fazendas mencionadas estão bloqueadas pela JBS e, portanto, automaticamente impedidas de fazer negócios com a empresa. Bloqueios causados ​​por embargos são realizados assim que há visibilidade nos sistemas alimentados pelas instituições públicas responsáveis.” 

Gado pasta em área queimada de vegetação do Pantanal após os incêndios florestais de 2020, os piores que a região já viu. Foto: Mauro Pimentel / Getty

A JBS não comentou a escala de desmatamento ligada aos seus fornecedores descoberta pela investigação e acrescentou que as fazendas foram bloqueadas antes que a Unearthed contatasse a empresa.

O diretor da Mighty Earth no Brasil, João Gonçalves, disse: “Para alimentar suas enormes operações de carne, a JBS demonstrou, mais uma vez, que tem pouca consideração pelas pessoas ou pelo planeta ao continuar a obter gado, mais de 100 vezes, de uma fazenda proibida, responsável pelo desmatamento no vulnerável Pantanal.

“Uma guerra contra a natureza está sendo travada pela indústria da carne no Pantanal e a JBS está na linha de frente”, acrescentou .

O Pantanal é um mosaico único de pântanos, florestas e rios. Ele inunda sazonalmente, seus córregos e rios são inchados por chuvas torrenciais que viajam para o sul da floresta amazônica. Até relativamente pouco tempo, era um refúgio para a vida selvagem, lar da maior concentração mundial de onças-pintadas , centenas de espécies de pássaros e grandes mamíferos, como antas e tamanduás-bandeira. 

Danos causados ​​por incêndios no Pantanal, no estado do Mato Grosso do Sul. A área úmida listada como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter sua segunda pior temporada de incêndios florestais já registrada. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Embora permaneça alto, o desmatamento na Amazônia caiu desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à presidência em 2023. Mas continuou a aumentar em seu vizinho menos conhecido, o Pantanal, de acordo com uma análise do MapBiomas colaborativo de mapeamento . As secas, agravadas pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento na Amazônia, tornam mais fácil que os incêndios provocados por fazendeiros para limpar a vegetação queimem fora de controle. Este ano, os satélites detectaram 10.956 incêndios de junho a setembro, tornando esta a segunda pior temporada de incêndios desde o início dos registros . Apenas 2020 foi mais intenso, matando mais de 17 milhões de vertebrados e queimando quase 30% do bioma . 

“Estamos enfrentando uma das piores situações já vistas no Pantanal”, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, aos jornalistas . 

Açougueiros do Brasil

Desde sua criação, há 70 anos, como um açougue familiar no estado de Goiás, a JBS se expandiu e se tornou a maior produtora de carnes do mundo, com interesses comerciais nos cinco continentes. 

Essa ascensão meteórica exigiu a transformação em larga escala de grandes áreas de florestas tropicais e savanas do Brasil em fazendas de gado . Nos últimos anos, sob crescente escrutínio internacional por seu papel no desmatamento da Amazônia, e buscando listar nos EUA, a JBS disse que eliminará todo o desmatamento de sua cadeia de suprimentos na Amazônia brasileira até 2025 e em todo o país, incluindo o Pantanal, até 2030 . 

A JBS tem uma política de “tolerância zero ao desmatamento” e bloqueou 16.000 fazendeiros que não estavam em conformidade, disse o CEO da JBS, Gilberto Tomazoni, ao The New York Times no ano passado .

O Pantanal abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo. Mas o bioma está cada vez mais ameaçado pelo desmatamento para agronegócio em larga escala, seca e incêndios. Foto: Leandro Cagiano / Greenpeace

“Colocamos [em] um blockchain para obter informações dos fornecedores indiretos. Até agora, temos cerca de 50% dos fornecedores indiretos no blockchain, e quando estivermos totalmente neste blockchain, podemos rastrear 97% da nossa carne bovina.” 

Mas no Pantanal, a JBS está expandindo sua pegada. No início deste ano, a empresa disse que dobraria a capacidade de seu frigorífico Campo Grande II, que recebe gado de muitos dos fornecedores identificados nesta investigação, permitindo-lhe abater 4.400 vacas todos os dias .

Em fevereiro , o frigorífico Campo Grande II recebeu duas remessas de gado da Fazenda Querência, no município de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, segundo a plataforma de transparência da JBS . 

De acordo com as próprias regras da cadeia de suprimentos da JBS , essa compra não deveria ter sido possível. A agência ambiental brasileira, IBAMA, havia colocado um embargo por desmatamento ilegal em mais de 1 km² da fazenda no mês anterior , e a JBS alega que seus sistemas a bloqueiam automaticamente de comprar gado de quaisquer fazendas embargadas . 

Embargos são o mecanismo do Brasil para punir fazendeiros por destruir vegetação sem permissão, ou em áreas que são legalmente supostamente protegidas . Eles impedem que terras desmatadas ilegalmente sejam usadas, permitindo que a vegetação se recupere enquanto impõe uma penalidade financeira. Comprar gado desta fazenda viola diretamente os compromissos ambientais da JBS.

Este embargo foi cancelado no final de outubro por uma decisão judicial preliminar. Mas estava longe de ser a única vez que a JBS parece ter comprado gado de Querência enquanto estava sob sanção. De 2018 a 2023, a plataforma de transparência da JBS lista 112 compras de gado pelos frigoríficos Campo Grande I e II da JBS da Fazenda Querência em Aquidauana . Os registros do IBAMA mostram que a Fazenda Querência teve dois embargos ativos do IBAMA durante este período. Um desses embargos, imposto em 2016, cobria 28 km², aproximadamente metade do tamanho de Manhattan, e incluía uma multa de quase £ 2 milhões .  

Os embargos foram levantados recentemente, mas em ambos os casos os fazendeiros admitiram o desmatamento ilegal da vegetação do Pantanal . 

(A plataforma da JBS lista apenas nomes de fazendas e municípios, mas apenas uma fazenda em Aquidauana chamada Fazenda Querência aparece no registro nacional de terras do Brasil .)

A JBS se recusou a dizer quando Querência ou as outras propriedades foram bloqueadas, apenas que as “aquisições seguiram a Política de Compras da JBS de acordo com as informações disponíveis na época”.

No total, segundo análise da AidEnvironment, a Fazenda Querência desmatou um total de 50 km² de vegetação natural entre 2019 e 2023 – destruindo uma área do Pantanal equivalente à metade do tamanho de Paris . 

Em resposta às nossas perguntas, André Ribeiro Corrêa, um membro da família proprietária da Querência, disse que eles contestaram o embargo de 2024. Ele enviou um documento mostrando uma ordem judicial para suspender o embargo enquanto o Ibama toma uma decisão final. Corrêa não quis fazer mais comentários . 

De 2018 a 2023, enquanto comprava regularmente gado de uma fazenda embargada, a JBS exportou 83 remessas de carne bovina ou subprodutos bovinos do município de Campo Grande para o Reino Unido, totalizando 1.350 toneladas, sugerem dados comerciais coletados pela Panjiva, embora os dados não detalhem de qual matadouro os produtos se originaram. As exportações da JBS para os EUA de Campo Grande totalizaram 46.600 toneladas, e para a Itália, que importa couros bovinos da JBS para sua indústria de couro, mais de 24.000 toneladas . Os dados da Panjiva também sugerem que a JBS exportou carne bovina para a Alemanha e Holanda de Campo Grande durante esse período. 

“Os frigoríficos que operam no Pantanal são os mesmos da Amazônia, mas aplicam menos controles aos fornecedores lá”, disse Luciano Furtado Loubet, promotor estadual do Mato Grosso do Sul que trabalha com fiscalização ambiental. “As empresas não realizam auditorias para verificar se seus controles e sistemas estão funcionando corretamente”, acrescentou.

Bombeiros combatem incêndios no Pantanal, Mato Grosso do Sul, este ano. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A análise da AidEnvironment rastreou o desmatamento recente em uma amostra de fazendas que forneceram direta ou indiretamente os maiores frigoríficos do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – de 2018 a 2019. Usando GTAs de 2018 a 2019 – documentos que rastreiam o gado entre fazendas e matadouros, originalmente projetados para evitar a propagação de doenças – e dados de satélite, descobriu que 190 fazendas desmataram um total de 426 km² do bioma Pantanal de 2019 a 2023. 

É provável que esse número seja subestimado, já que a AidEnvironment só teve acesso a uma amostra não abrangente de GTAs, e os frigoríficos podem ter estabelecido novos relacionamentos de fornecimento desde então . 

A Marfrig informou que, de 2018 a 2019, comprou gado de 46 propriedades no Pantanal e, posteriormente, bloqueou 17 delas por descumprimento de algum compromisso da empresa.

“A empresa reafirma seu compromisso de não adquirir animais de áreas desmatadas, unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas, áreas embargadas e propriedades ou proprietários na lista suja de trabalho análogo ao escravo em todos os biomas onde atua”, disse a Marfrig em nota, acrescentando que já monitora 100% de seus fornecedores diretos e 93% de seus fornecedores indiretos no Pantanal .

A Minerva disse que se comprometeu a monitorar todos os seus fornecedores diretos e indiretos na América do Sul até 2030. Atualmente, ela está monitorando todos os seus fornecedores diretos no Brasil, que estão sujeitos a auditorias anuais, disse a empresa.

“A cada nova venda de animal, toda propriedade passa por uma análise de conformidade, de acordo com os critérios adotados pela Companhia”, diz o comunicado. “Caso sejam identificadas irregularidades em relação aos critérios, o fornecedor é bloqueado no sistema, impedindo novas negociações até que a situação seja regularizada. Nesse contexto, as auditorias mais recentes mostram que todas as compras realizadas atingiram 100% de conformidade.” 

Do total de desmatamento vinculado às três empresas, 394 km², ou 93%, foram associados à JBS – uma área maior que a Ilha de Wight .

Um filhote de tamanduá resgatado das queimadas do Pantanal deste ano recebendo cuidados veterinários. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A grande área de desmatamento da Fazenda Querência é responsável por 13% do desmatamento encontrado na amostra de fornecedores da JBS analisada pela AidEnvironment entre 2019 e 2023. 

O segundo maior desmatador na análise, a Fazenda Tupaceretã, converteu 17 km² de vegetação nativa entre 2019 e 2023 . 

A JBS parou de comprar gado da fazenda enquanto um embargo de 2018 em 5,8 km² estava ativo . De fato, o representante do fazendeiro reclamou ao IBAMA que o produtor estava “incapaz de vender gado ou acessar crédito” como resultado do embargo . A negociação com a JBS foi retomada em 2020 após o proprietário de Tupaceretã pagar “taxas de reposição florestal” e uma multa ao IBAMA pelo desmatamento ilegal. 

Mas entre setembro de 2021 e abril de 2022 — período em que a Tupaceretã vendeu três lotes de gado para a JBS — especialistas em uso da terra do MapBiomas encontraram novos desmatamentos em áreas da fazenda que deveriam ser preservadas por lei . 

“O alerta mostra que o desmatamento foi feito para plantio de pastagem”, disse Eduardo Rosa, da equipe do Pantanal do MapBiomas.

O sistema de conformidade da JBS usa dados do satélite PRODES, que são divulgados anualmente pela agência espacial brasileira INPE. Mas o MapBiomas publica novos alertas de desmatamento semanalmente, verificados pela equipe e acompanhados de relatórios detalhados e imagens de alta resolução.

A propriedade foi vendida em dezembro. Imagens de satélite do Planet Labs de julho e agosto mostram uma vasta área de 145 km² na Fazenda Tupaceretã que parece ter queimado durante a temporada de incêndios deste ano. Os satélites captaram mais de 91 incêndios queimando na propriedade este ano . Um advogado dos novos proprietários disse que eles não venderam gado desde que compraram a fazenda. Eles não ofereceram uma explicação para o incêndio. 

As regras da cadeia de suprimentos da JBS não excluem fazendas que usam fogo para limpar terras, apesar de uma investigação do Greenpeace de 2021 ter vinculado os incêndios recordes no Pantanal em 2020 aos fornecedores de gado da JBS.

Um advogado do antigo proprietário da Fazenda Tupaceretã, Linneu Rondon, que morreu em abril, disse que o espólio de Rondon assinou um acordo com o Ministério Público do Mato Grosso do Sul para reparar os danos ambientais encontrados na fazenda e pagou uma multa ao IBAMA para encerrar o embargo de 2018.

Os embargos são apenas uma das regras da cadeia de suprimentos da JBS; outra afirma que a empresa “não compra de pessoas envolvidas com invasão de terras indígenas” .

Um tamanduá-bandeira resgatado de incêndios florestais no Pantanal do Brasil. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Mas os promotores acusaram os proprietários de outro fornecedor da JBS no Pantanal em nossa análise, a Fazenda Touro Peru, no município de Porto Murtinho, estado do Mato Grosso do Sul, de cultivar em território indígena. A Touro Peru foi uma fornecedora regular da JBS de 2018 a 2022 , e desmatou 4,4 km² nos últimos cinco anos 

Os promotores alegaram que seus proprietários registraram uma fazenda de gado diferente, chamada Baía da Bugra, na Terra Indígena Kadiwéu, também em Porto Murtinho . 

De acordo com uma decisão judicial de 2021 , a família buscou anular o reconhecimento oficial do território indígena, argumentando que sua propriedade da fazenda é anterior à demarcação do território Kadiwéu na década de 1980. O conflito é antigo; em 2013 e 2017, membros do grupo étnico Kadiwéu ocuparam a fazenda em protesto. 

Outras fazendas pertencentes à família, Fazenda Santa Lucia e Fazenda Sapucay, também são fornecedoras da JBS na análise da Aidenvironment, totalizando mais 1,7 km² de desmatamento . Cerca de 60% do território Kadiwéu foi queimado durante os  incêndios deste ano 

Um advogado da família proprietária da Fazenda Touro Peru não respondeu a um pedido de comentário. 

Agricultura tradicional ameaçada

Por gerações, o Pantanal permaneceu como um reduto para a vida selvagem , ao mesmo tempo em que ainda apoiava a agricultura tradicional de baixa intensidade compatível com a preservação: o gado pasta nas pastagens nativas naturais e se move com as inundações sazonais. Consequentemente, cerca de 85% da vegetação nativa do Pantanal permanece . As vacas pastam ao lado de espécies que estão ameaçadas em outros lugares, como veados-do-pantanal, queixadas e tamanduás-bandeira . 

Mas agora o bioma está sob pressão do agronegócio em larga escala no bioma vizinho Cerrado, onde as plantações de grãos, especialmente a soja, estão causando o desmatamento. 

“Ao redor do Pantanal, a soja tomou conta. Então a pressão para criar gado está crescendo no Pantanal porque fora do bioma não tem mais espaço para isso”, disse o biólogo Gustavo Figueiroa, da ONG SOS Pantanal .

Uma anta ferida pelos incêndios florestais no Pantanal recebeu atendimento veterinário no Mato Grosso do Sul. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Todos os fornecedores da JBS que a Unearthed investigou — os 10 maiores desmatadores na análise da AidEnvironment sobre os fornecedores do frigorífico — estão situados nos cinco municípios com a maior área queimada em 2024. Um estudo recente da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que esses também estavam entre os locais mais desmatados no Pantanal em 2023 .

“Os pecuaristas querem produzir mais por hectare e o caminho é substituir o campo nativo por pastagem de braquiária”, disse Rafael Chiaravalloti, professor especialista em manejo de recursos naturais do Pantanal.

Os embargos do IBAMA impostos às fazendas Querência e Tupaceretã apontam que áreas desmatadas foram semeadas com capim braquiária, uma espécie invasora que compete com gramíneas nativas e é altamente inflamável .

Com a expansão do frigorífico Campo Grande II da JBS, especialistas dizem que a demanda por gado no Pantanal vai aumentar.

“Qualquer expansão das operações de carne da JBS levará o bioma ao ponto de ruptura, impactando a Amazônia e o Cerrado”, disse Gonçalves, da Mighty Earth. “A JBS deve obter controle total de suas cadeias de fornecimento de carne bovina e suspender urgentemente todos os fazendeiros empenhados nessa destruição da natureza para obter lucro.”

Como uma área úmida, o bioma também é particularmente sensível à seca que atualmente afeta todo o continente. Um estudo recente do WWF Brasil prevê que este ano pode ser o mais seco do bioma desde que os registros começaram — pior ainda do que 2020, quando uma seca histórica levou a incêndios sem precedentes, muitos deles iniciados em fazendas de gado . 

“É considerada seca quando o Rio Paraguai cai abaixo de quatro metros. Nas cheias de 2024, essa medida não passou de um metro”, disse Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil .

Agora, alguns cientistas temem que as zonas úmidas possam estar se aproximando de um ponto crítico, quando o Pantanal perderia sua capacidade de recuperação natural, sofrendo uma perda abrupta de espécies . 

“O Pantanal é uma das áreas úmidas mais biodiversas do mundo”, disse Correa. “É uma herança que precisamos conservar.”


Fonte: Unearthed

A revitalização do Centro de Campos: diga-me com quem e como fazes, e te direi qual será o resultado

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O monumental edifício que abrigava o Hotel Flávio em chamas:  uma rica história arquitetônica virando fumaça

Por Douglas Barreto da Mata

Ao contrário do que diz a maioria, o abandono dos centros das cidades médias e grandes no Brasil e no resto do mundo não é só resultante de processos de drenagem econômica destas áreas, geralmente associado à criação de shoppings e bairros mais afastados.  Estes fatores impactam esse fenômeno, mas não respondem a todas as questões implicadas.

Em Campos dos Goytacazes há um nítido esforço da prefeitura, personalizado no prefeito Wladimir, de tratar desse tema. Atitude louvável.  Eu temo apenas que ele se reúna, justamente, com os que deram causa ao problema (as elites comerciantes locais e suas entidades), e que agora posam de solução.

Primeiro e antes de mais nada, não há um só modelo, por óbvio, nem todos funcionam, e sim, há modelos que beneficiam mais a alguns e menos a outros.  Foi o que aprendi com Raul Juste Lores, jornalista que tem um programa muito legal sobre o tema no YouTube: São Paulo Nas Alturas.

Há boas pistas ali, que merecem ser consideradas, apesar das particularidades de cada processo histórico. Porém, há princípios básicos, vamos a eles.  O olhar da elite falida campista é um só: da valorização imobiliária em si, do maior emprego de verbas públicas, e claro, com o menor esforço deles. Foi justamente isso que trouxe a cidade a esse ponto, a especulação e concentração imobiliária, a elisão e evasão fiscais, e a apropriação do espaço público pelo setor privado, naquilo que chamo de mini grilagem urbana, com os empreendimentos avançando sobre calçadas, hegemonia de carros sobre pedestres e transportes públicos, enfim, a privatização dos centros.

Como avançam como gafanhotos sobre o espaço da cidade, e matam toda vida possível, agora reclamam mais e mais recursos para salvarem a si mesmos dos males que eles mesmos se infligiram.  Mentalidade parecida com a do agronegócio, que destruiu todo um ecossistema nacional, e exige ajuda para se livrar daquilo que “plantou”. 

Nas cidades europeias e nas colônias, as cidades se erigiam em volta de uma praça (núcleo central), onde estavam a igreja, câmara e a cadeia, e outras instalações públicas.  Destes pontos derivaram as ruas e os bairros.  Mesmo com a modernização capitalista do automóvel, e outras que aumentaram a pressão sobre os centros, as cidades mais inteligentes mantiveram seus sistemas de transportes públicos, o acesso ao centro por equipamentos públicos de mobilidade, e principalmente, tentaram conter a especulação imobiliária, que empurrava as pessoas para as franjas da cidade, o que nem sempre se conseguia, mas eram compensados pela eficiente circulação de pessoas em modais coletivos.

Qualquer medida a ser considerada para revitalizar centros urbanos, como o campista, tem que considerar primeiro o essencial: gente.  Há modelos como o da zona portuária do Rio, e de Porto Madero, em Buenos Aires (este já definido), que privilegiaram aspectos imobiliários.  Em Buenos Aires a aposta em um altíssimo padrão resultou em um bairro parecido com os Alphavilles no Brasil (em BA, com enormes torres), porém, no modelo portenho, há amplo acesso aos pedestres e os imóveis não se isolam das vias públicas, pois há muitos com lojas, cafés e restaurantes, e tanto que anda vê quem está dentro, como vice versa. Isso aumenta a segurança. 

Ideia central em qualquer projeto desse tipo é a de que as pessoas vejam, e se protejam.  Ainda que as ruas de Porto Madero não sejam essa explosão de gente, o fato é que ali há calçadas enormes, parques e etc.  Não sei se no Rio de Janeiro isso vai dar certo, até porque a realidade da violência na capital fluminense e na capital portenha são abissais.

Já nas outras áreas centrais recuperadas, as diretivas foram parecidas, com combate à especulação e concentração fundiária urbana, aumento dos impostos para imóveis ociosos, transferência de serviços públicos para as áreas degradadas, transporte público acessível, e claro, intervenções no domínio das propriedades, no quesito da arquitetura dos imóveis, dando ênfase aos edifícios que se integrem a paisagem, e não se exilem dela atrás de muros, grades e canteiros.

Por fim, as praças, parques e todo tipo de espaço de convivência que possa ser criado e mantido com eficiência.  Menos estacionamentos e mais praças.  Como eu disse, lá no começo, tenho pouca fé de que o prefeito sozinho consiga mover a carcomida e obtusa elite comercial da cidade na direção oposta ao que pensam.

Andar pelo centro campista e ver “espaços reservados” para veículos de “clientes” ou “donos”, quando algumas dessas restrições de espaço são feitas com cones e pedaços de madeiras ilegais, ao arrepio das autoridades, ou assistir ao lamentável espetáculo proporcionado por essa gente, quando da adoção de ciclofaixas, eu diria que o prefeito Wladimir Garotinho já teria muito trabalho. 

Porém, ao delegar a um bando de parasitas sociais uma tarefa que deveria ser pública e do público todo (não apenas os comerciantes) torna, no meu modesto entender, impossível a missão. Afinal de contas,  não se pode cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.