Ondas de calor podem provocar colapso dos ecossistemas e ameaçar novas gerações, afirma relatório

amazonia desmatamentoAmazônia está à beira de um ponto de inflexão, passando de sumidouro de carbono para fonte de carbono para a atmosfera. Future Earth/Divulgação

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O aumento das temperaturas globais torna nosso planeta cada vez mais inabitável e está perturbando processos vitais nos oceanos, levando a Amazônia ao limite de um colapso em grande escala e colocando em risco uma geração ainda não nascida, aumentando as chances de complicações na gravidez e até mesmo de perdas. Essa é uma das conclusões do relatório anual ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançado na  última segunda-feira (28) pela The Earth League, um consórcio internacional de cientistas e especialistas em clima.

O trabalho revela o impacto avassalador das mudanças climáticas, que podem reverter décadas de progresso em saúde materna e reprodutiva, contribuir para eventos de El Niño mais extremos e causadores de prejuízo, além de ameaçar a Amazônia, um dos mais importantes sumidouros naturais de carbono, juntamente com outros sete insights climáticos cruciais.

O relatório abrange uma gama de pesquisas climáticas e foi elaborado para subsidiar os formuladores de políticas com o conhecimento mais recente disponível. As informações científicas foram sintetizadas para destacar as implicações políticas que podem orientar as negociações na COP29, que ocorre em novembro, no Azerbaijão, e direcionar as políticas nacionais e internacionais.

“O relatório confirma que o mundo enfrenta desafios em escala planetária, desde o aumento das emissões de metano até a vulnerabilidade de infraestruturas críticas. Ele mostra que o aumento do calor, a instabilidade dos oceanos e a possível virada da Amazônia podem empurrar partes do nosso planeta além dos limites habitáveis. No entanto, também oferece caminhos claros e soluções, demonstrando que, com ação urgente e decisiva, ainda podemos evitar resultados incontroláveis”, diz Johan Rockström, co-presidente da The Earth League e diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, na Alemanha.

“O relatório revela o alcance dos impactos da mudança do clima em diferentes sistemas ecológicos, econômicos e sociais. Com menos ambientes habitáveis, a migração de populações pode se intensificar. Também existe um impacto importante na saúde materna, que pode perdurar por gerações”, afirma Mercedes Bustamante, professora da UnB (Universidade de Brasília) e membro do conselho editorial da publicação.

Segundo ela, no Brasil, há uma articulação entre as ações do país para reduzir o desmatamento e a degradação da Amazônia e as iniciativas internacionais para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, que afetam o bioma de forma sinérgica. Apesar dos desafios globais em intensificação, ela ressaltou que há um conjunto de políticas e soluções que podem ser implementadas para enfrentar as mudanças climáticas de maneira eficaz. Diante das ameaças à saúde materna, essas soluções integram, por exemplo, ações de equidade de gênero e justiça climática.

O relatório também destaca dois grandes desafios para o mundo natural. O aquecimento dos oceanos persiste e os recordes de temperatura da superfície do mar continuam a ser quebrados, levando a eventos de El Niño mais severos do que se compreendia anteriormente. Segundo o relatório, as perdas econômicas globais adicionais projetadas devido ao aumento na frequência e intensidade do El Niño, resultante do aquecimento global, podem chegar a quase 100 trilhões de dólares ao longo do século 21.

A série ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançada com a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) nas COPs desde 2017, é uma iniciativa colaborativa da Future Earth, da The Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, sintetizando os principais desenvolvimentos recentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. O relatório deste ano representa o esforço coletivo de mais de 80 pesquisadores de destaque, provenientes de 45 países.

Veja os 10 insights:

Metano: Desde 2006, os níveis de metano aumentaram drasticamente. Já existem soluções econômicas, mas políticas rigorosas são necessárias para reduzir suas emissões nos setores de combustíveis fósseis, resíduos e agricultura.
Poluição do ar: A redução da poluição atmosférica melhora a saúde pública, mas afeta o clima de forma complexa, exigindo que as estratégias de mitigação e adaptação levem isso em consideração.
Calor extremo: Temperaturas e níveis de umidade crescentes estão tornando partes do planeta inabitáveis. Planos de ação contra o calor precisam priorizar os grupos mais vulneráveis.
Saúde materna e reprodutiva: Extremos climáticos estão prejudicando a saúde materna, ameaçando décadas de progresso. Soluções precisam integrar equidade de gênero e justiça climática.
Mudanças nos oceanos: O aquecimento dos oceanos agrava eventos de El Niño e ameaça a estabilidade de sistemas marinhos, podendo causar perdas econômicas globais massivas.
Resiliência da Amazônia: A diversidade biocultural ajuda a Amazônia a resistir às mudanças climáticas, mas essas ações locais precisam ser complementadas por reduções globais de emissões.
Infraestruturas críticas: Infraestruturas estão cada vez mais vulneráveis a desastres climáticos. Ferramentas de IA podem ajudar a torná-las mais resilientes.
Desenvolvimento urbano: Poucas cidades integram mitigação e adaptação em seus planos climáticos. Uma abordagem que combine fatores sociais, ecológicos e tecnológicos pode ajudar no desenvolvimento resiliente.
Minerais de transição energética: A demanda por minerais de transição está aumentando, assim como os riscos na cadeia de suprimentos. Melhor governança é essencial para uma transição justa.
Justiça climática: A aceitação pública das políticas climáticas depende de sua percepção de justiça. A exclusão dos cidadãos no processo de formulação pode gerar resistência.


Fonte: Agência Bori

Espanha e o sistema de recifes da Amazônia: distância que a crise climática aniquila

afogados

A região leste da Espanha, especialmente a cidade de Valência, ainda tenta se recuperar dos efeitos devastadores das maiores tempestades em décadas que deixaram um visível rastro de destruição e mortes (até agora o número está na casa de uma centena, mas promete aumentar), um claro sinal de que a crise climática é algo que continuará a se manifestar globalmente, desconhecendo as fronteiras artificiais traçadas pela sociedade humana (ver imagens abaixo).

Enquanto isso no Brasil, segue a pressão para que a Petrobras seja autorizada a perfurar na região do foz do Rio Amazonas onde se acredita existirem reservas de petróleo e gás cuja exploração justificaria a destruição de um ecossistema de alta importância ecológica conhecido cientificamente como “Great Amazon Reef System (GARS) ” (ou em bom português, Grande Sistema de Recifes da Amazônia). No caminho da sanha exploratória apenas um grupo de técnicos do IBAMA que se nega a emitir licenças ambientais necessárias para iniciar a destruição daquele ecossistema tão singular quanto importante. Sobre eles está recaindo um pesado ataque que se assemelha muito ao que sofreram há pouco tempo pelas mãos do governo de Jair Bolsonaro, em viés explícito de Macarthismo de esquerda ( ver imagem abaixo).

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Algo que precisa ser lembrado, após a quase total da privatização total da Petrobras pelo governo Bolsonaro, é que a empresa hoje é praticamente uma para-estatal, cujos beneficiários principais são seus acionistas estrangeiros que residem a milhares de distância do GARS, e não poderiam se preocupar menos com sua destruição em nome de uma quantidade maior de dividendos.

O fato é que o embate entre os que querem proteger o GARS e os que querem destruí-lo (começando por sua negação como fez recentemente a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos.  O buraco aqui é muito mais embaixo, pois, para justificar a exploração do GARS, há que se negar a própria existência da crise climática e as responsabilidades do Brasil na sua ocorrência, tanto pelas emissões oriundas da destruição acelerada das nossas florestas, mas também pela própria exploração de combustíveis fósseis.

Por isso é que há um esforço para apagar as conexões existentes entre o que está ocorrendo na Espanha (e já ocorreu recentemente aqui mesmo no Brasil) e a aposta no avanço da fronteira extrativa dos combustíveis fósseis, como é o caso da tentativa de abrir poços sobre o sistema de recifes amazônicos. Desta forma, não adianta nada o presidente Lula e a emudecida ministra Marina Silva fazerem seus discursos de sensibilidade climática em banquetes realizados para os convidados das Conferência entre as Partes (COP), ou Conferência do Clima (COPs), enquanto aqui mesmo o que vale é o ronco incessante das motosserras e o barulho das brocas de perfuração nos poços de petróleo.

O problema é que a crise climática é real e é devastadora, especialmente para os mais pobres. Isso torna a aposta no combustíveis fósseis algo que só faz sentido para os detentores de grandes lotes de ações das petroleiras, a Petrobras inclusa.  Reagir às pressões por mais extração de petróleo e gás se tornou uma das principais necessidades pelos defensores do clima da Terra. E essa reação começa pela defesa dos técnicos do IBAMA que estão cumprindo o seu dever com grande coragem como servidores públicos que são.

Agronegócio financia lobby para patrulhar livros didáticos

De Olho No Material Escolar tem entre seus líderes um ex-executivo da indústria de agrotóxicos, nega o impacto do desmatamento da Amazônia causado pela pecuária e vê até poemas de autores como Ferreira Gullar como conteúdos negativos sobre o agro

lobby livros didáticos

Por Hélen Freitas | Edição Paula Bianchi e Diego Junqueira para a Repórter Brasil

“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.

“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu. 

Cientista político e um dos fundadores do Partido Novo, ele lidera uma organização que se apresenta como um grupo de pais e mães apartidários preocupados com o ensino dos filhos. Na prática, porém, trata-se de um movimento financiado por empresas do agronegócio com um objetivo: alterar materiais didáticos para retratar o setor de forma mais positiva.

Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)
Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)

Com apenas três anos, a De Olho No Material Escolar, conhecida como Donme, cresceu e vem ganhando espaço em instituições públicas. Já fechou parceria com a Universidade de São Paulo (USP), tem portas abertas nas secretarias de Educação e de Agricultura do estado e mantém diálogos com a cúpula do Congresso, em Brasília, na tentativa de influenciar o novo Plano Nacional de Educação (PNE) – que vai estabelecer as diretrizes da educação na próxima década. 

Por trás desta atuação, porém, está o financiamento de dezenas de empresários e corporações do agronegócio. A organização declara 70 empresas entre os membros, mas não diz quem são. Um estudo ainda inédito, de pesquisadoras da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mostra que na lista estão grandes associações, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, a Cargill, o Itaú BBA e a Cosan.

A associação também é financiada pela Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.

“Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”, afirma a Donme em seu site.

Em conjunto com a USP, por exemplo, a organização criou a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio. Nela, é possível encontrar conteúdos que negam que o Brasil seja o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tema frequente nas falas da Donme. 

No entanto, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o Brasil lidera com folga o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países com as maiores áreas de lavoura no mundo. A média aqui é de mais de 12 kg aplicados por hectare. Na sequência estão Indonésia (6,5 kg/ha), Argentina (5,9 kg/ha) e Estados Unidos (3 kg/ha).

Negar a responsabilidade da pecuária pelo desmatamento na Amazônia e a existência de trabalho escravo na cana-de-açúcar também fazem parte desta estratégia – ainda que diversos estudos apontem a criação de gado como o principal vetor da destruição na Amazônia, e mesmo que a cana seja um dos setores que mais empregam mão-de-obra escrava, com 1.105 trabalhadores resgatados nos últimos quatro anos. 

Especialistas em educação pública ouvidos pela Repórter Brasil classificam a organização como uma versão atualizada do “Escola Sem Partido”, que há uma década passou a fiscalizar o material didático e promover perseguições a professores para impedir uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas. 

Para o professor da pós-graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Rodrigo Lamosa, que pesquisa políticas públicas de educação, o posicionamento da organização é, muitas vezes, “absolutamente ideológico e nada científico”.

“Os livros didáticos são produzidos por autores diversos, são avaliados no interior das editoras e depois no Programa Nacional do Livro Didático, que é um dos maiores programas de distribuição de livros públicos e gratuitos do mundo”, afirma Lamosa. “Então, por mais que a gente possa ter divergências e críticas a alguns livros, isso é parte do processo que constitui a diversidade do campo educacional”, complementa

Um dos objetivos do movimento é ir contra essa diversidade para impor uma visão única, opina o professor da Faculdade de Educação da USP Daniel Cara. “O agronegócio considera que a educação é uma esfera importante para disputa da hegemonia das ideias na sociedade, para disputa da formação de opinião pública”, afirma ele, que é membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).

Lobby da associação mira plano nacional de educação

Inicialmente batizada de “Mães do Agro”, a Donme foi fundada em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.

Ela faz parte de uma família influente no agronegócio, com empresas e fazendas em São Paulo e Goiás, nos ramos de pecuária, cana-de-açúcar e soja. Letícia é considerada uma das mulheres mais poderosas do agro pela revista Forbes, juntamente com a sua sogra, Helen Jacintho. Também fundadora da Donme, Helen é membro do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). 

Em três anos, a organização conquistou associados em 17 estados e 129 cidades. Entre suas ações, a entidade realiza palestras, treinamentos e análise de materiais escolares. Organiza reuniões com editoras de livros didáticos, além de excursões a feiras do agronegócio para alunos, professores e profissionais das editoras. Atua também no lobby em Brasília. 

Apenas neste ano, a organização já se reuniu pelo menos duas vezes com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para debater o Plano Nacional de Educação (PNE). O documento deve ser votado em 2025, com validade para os próximos dez anos.

O documento de referência do plano, divulgado em dezembro, foi alvo de críticas da De Olho No Material. A associação diz que a proposta é pouco plural, carece de “base técnico-científica na abordagem do conteúdo” e apresenta “postura refratária à iniciativa privada”. 

As críticas foram apresentadas em uma nota assinada conjuntamente por outras associações do agro, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Desde então, a Donme realizou diversas investidas em Brasília. Além dos encontros com Pacheco e Lira, reuniu-se com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), presidente da Comissão de Educação da Câmara. Em março, o deputado apresentou os resultados de um estudo da Donme, que avaliou as menções ao agro no material escolar, durante uma reunião da Frente Parlamentar Agropecuária. 

O deputado corroborou a visão da associação de que os livros didáticos supostamente trazem uma visão distorcida do agro, e prometeu pautar a Comissão de Educação. “Afinal de contas, o agro é que sustenta, e é locomotiva deste país”, justificou.

Já em abril, quando o Senado realizou uma sessão temática para debater o PNE, a Donme indicou vários nomes para discursar. A sessão foi solicitada pela senadora Damares Alvares (Republicanos-DF) a pedido da associação, segundo apurou a Repórter Brasil.

O PNE, porém, só deve avançar quando for analisado o requerimento do deputado federal Rafael Brito (MDB-AL) e de outros 13 parlamentares, para que seja criada uma comissão mista de análise do plano, composta por deputados e senadores. Desde julho o pedido está parado na Câmara.

donmeEm encontros com os presidentes da Câmara Arthur Lira e do Senado Rodrigo Pacheco, a De Olho no Material Escolar apresenta suas propostas para o Plano Nacional da Educação (Fotos: Reprodução Redes Sociais)

Para a coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, a Donme está atuando junto com a bancada ruralista em torno do novo PNE, e pode impedir avanços em temas como as mudanças climáticas.

Procurada, a De Olho No Material Escolar disse em nota que trabalha para a melhoria da qualidade do conteúdo didático sobre o agronegócio oferecido às escolas, independentemente do tema. “Nosso principal ponto é que a ciência esteja presente nos livros didáticos com dados e informações técnicas e reais, por isso a parceria com institutos de pesquisas e instituições de ensino especializadas no setor”. Leia a resposta completa.

Movimento influencia escolas particulares

Embora já tenha alcançado a cúpula do Congresso, o movimento teve início com uma simples carta enviada a uma escola particular de Barretos, interior de São Paulo.

Letícia Jacintho e outros pais escreveram para um colégio na cidade que utilizava o material didático do sistema Anglo, para criticar como temas como desmatamento e povos indígenas eram abordados. Segundo a carta, “as crianças são incentivadas a manifestar piedade aos índios e repudiar a cultura da cana-de-açúcar [por retirar as terras dos indígenas]”.

Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)
Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)

O protesto viralizou quando o agrônomo e político Xico Graziano, ex-secretário de Meio Ambiente no governo de José Serra e voz influente no agro, divulgou a história. “Tem coisa errada [nos livros], tem coisa doutrinária, esquerda, esquerdismo”, disse Graziano.

Na carta ao Anglo, os pais afirmavam que a realidade do campo é “totalmente” diversa da retratada nos livros. “A cana-de-açúcar é responsável por uma parcela importantíssima de nossos empregos e renda”, escreveram. 

Após o episódio, Letícia decidiu realizar um estudo sobre materiais didáticos, mas faltava o financiamento. Foi quando entrou em cena a Croplife Brasil, associação das fabricantes de agrotóxicos, que era então presidida por Christian Lohbauer. 

“A gente [Croplife] foi um dos principais financiadores do estudo, junto com todo um pessoal que eu ajudei a angariar das associações do agro. A pecuária, os exportadores de carne, os exportadores de frango e suínos, açúcar e etanol, que são setores muito afetados [pelos livros escolares]”, lembrou Lohbauer em uma entrevista recente.

Em janeiro de 2023, Lohbauer deixou a presidência da Croplife para embarcar na Donme. Chamado de “professor”, o executivo passou boa parte da carreira em empresas, como a Bayer, e associações ligadas ao agronegócio, como a Abag. Ainda foi candidato a vice-presidente do Brasil pelo partido Novo em 2018. 

Ele também é comentarista da Brasil Paralelo, produtora conhecida pela veiculação de conteúdo audiovisual de extrema-direita, em um programa ao lado do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).

O estudo financiado pela Croplife – o mesmo apresentado pelo deputado Nikolas Ferreira à FPA – identificou que a maior parte das menções ao agro em 94 livros didáticos tinham tom negativo. Um dos exemplos apresentados é um poema de 1991 de Ferreira Gullar, que trata das condições precárias dos trabalhadores de cana-de-açúcar. Os resultados da pesquisa são utilizados pela associação em palestras, entrevistas e no lobby.

“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)
“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)

O discurso da Donme sensibilizou ao menos um representante do sistema Anglo, Mario Ghio, ex-presidente e atual conselheiro da Somos Educação, dona das marcas Anglo, Mackenzie, Ática e Saraiva. Ele se lembrou da carta de Letícia durante o evento do Lide neste mês.

“A gente se conheceu num momento duro, a Letícia veio me dar uma ‘paulada na cabeça’. Ela veio me criticar, e eu falei: ‘você tem razão’. Nós temos autores metropolitanos que viveram uma vida urbana e que acham que o mundo agropecuário é o Jeca Tatu do Monteiro Lobato ou é o destruidor da Amazônia, que eles leem em alguns meios de comunicação. A gente precisou reconhecer o problema, andar pra trás, educar todo mundo”, declarou.

Atualmente, a Somos Educação mantém parcerias com a Donme para a elaboração de vídeoaulas e treinamento para autores e editores. A reportagem não conseguiu confirmar se o material do sistema Anglo é alterado sob orientação da Donme. 

Questionada, a Somos Educação declarou que “todo o material didático é atualizado anualmente, seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”. “A Somos Educação se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização”, finalizou.

Parceria com a USP e aproximação do governo de SP

Não foi apenas o Anglo que abriu as portas para a De Olho No Material. Em Piracicaba (SP), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, decidiu colocar sua produção acadêmica à disposição da associação em um projeto de divulgação científica. 

Assim nasceu em 2022 a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com conteúdo do agronegócio. No repositório, porém, não há menções a fatos como  a responsabilidade do agronegócio por queimadas ou desmatamento.

Procurada, a Esalq não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

O governo paulista também abriu as portas para a Donme. “O primeiro estado que passou a adaptar os seus materiais próprios, os escritos, até por orientação do [ex-governador João] Dória, foi o estado de São Paulo junto com o movimento De Olho No Material, justamente porque a gente concorda que não dá para demonizar aquilo que nos sustenta”, declarou no evento do Lide o ex-secretário de educação do estado, Rossieli Soares. Ele já foi secretário de Educação do Amazonas, ministro da Educação do governo Michel Temer e é o atual chefe da pasta no Pará.

Repórter Brasil questionou a secretaria de educação paulista sobre mudanças no material didático e parcerias envolvendo a Donme, mas não houve retorno. Já a Donme declarou que não tem qualquer acordo com o governo de São Paulo, apesar de a sua presidente já ter dito em entrevista recente que está negociando com a pasta um treinamento para professores, que se chamará “Mestres do Agro”.

A Secretaria de Agricultura do estado também recebeu a Donme este ano, em reunião em fevereiro sobre materiais escolares. “Precisamos promover conteúdos com embasamento científico e vivência real para os jovens brasileiros”, afirmou após o encontro o secretário da agricultura Guilherme Piai, que também vem de uma família de produtores rurais. 

Em setembro, a secretaria anunciou a criação do programa Agro Jovem, “que prevê políticas públicas para integrar as novas gerações ao campo”, iniciativa celebrada pela De Olho No Material.

Para Lamosa,  a Donme utiliza-se de uma estratégia ideológica de disputa de espaço ao criar campanhas afirmando que os livros didáticos e a escola estão de costas para o agronegócio. “É uma falácia dizer que o agro não está dentro da escola. Todas as pesquisas sobre ações que eles vêm produzindo [dentro e fora da escola] mostram que eles estão lá. A questão é que eles querem o monopólio da escola”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil

Web of Science coloca o eLife ‘em espera’ devido ao seu modelo radical de publicação

suspenso

Tommy Vis Getty Images, adapto por N. Jessup/Science

Por Jeffrey Brainard para a “Science”

O Web of Science, um serviço líder de indexação bibliométrica, suspendeu ontem o periódico eLife de suas listagens porque seu novo modelo de publicação adotado no ano passado — que inclui revisão pública por pares, mas nenhuma decisão final sobre se um manuscrito é aceito ou rejeitado — entra em conflito com os padrões do Web of Science para garantir qualidade.

A medida pode colocar em risco o fator de impacto (FI) do periódico da eLife , a métrica controversa — determinada anualmente pela Clarivate, empresa controladora da Web of Science, com base na média de citações de artigos de um periódico — que é amplamente usada como um indicador de qualidade.

Veteranos da indústria editorial estavam esperando pela decisão da Web of Science. A suspensão era “provavelmente inevitável”, escreveu Richard Sever, diretor assistente da Cold Spring Harbor Laboratory Press e cofundador do servidor de pré-impressão bioRxiv, no X (antigo Twitter), porque os padrões de qualidade aplicados pela Clarivate e pela eLife > “claramente entram em conflito”.

Ainda assim, a gerência da eLife disse estar decepcionada com a decisão da Clarivate. “[Ela] sufoca tentativas de mostrar como a publicação e a revisão por pares podem ser melhoradas usando princípios de ciência aberta e, em vez disso, dá a aparência de suporte contínuo para modelos de publicação estabelecidos e ineficazes que precisaram mudar por tanto tempo”, eles escreveram em uma declaração online . A Clarivate não identificou nenhum artigo revisado pela eLife como carente de qualidade, diz Damian Pattinson, diretor executivo do periódico.

Em uma declaração por e-mail, a Clarivate diz que conduzirá uma revisão aplicando seus critérios de qualidade padrão, mas já tem preocupações sobre os artigos publicados sob o novo modelo porque as decisões de publicação da eLife são “desacopladas da validação por revisão por pares”. As descobertas da Clarivate podem levá-la a remover a eLife de sua Master Journal List, caso em que a revista não receberia mais um IF atualizado anualmente. Nesse caso, a Web of Science ainda pode indexar algum conteúdo que atenda aos critérios de qualidade. “Consideraremos o conteúdo que tem ‘força de evidência’ descrita pela revista como ‘sólida’, ‘convincente’, ‘convincente’ ou ‘excepcional’, mas excluiremos ‘incompleto’ ou ‘inadequado'”, diz sua declaração.

O curso de colisão foi traçado quando a eLife — uma revista sem fins lucrativos, seletiva e somente online focada em ciências biológicas — instituiu seu novo modelo de publicação em janeiro de 2023. Sob a nova abordagem, a revista mantém o que Pattinson chama de um processo rigoroso para determinar se uma submissão atende aos padrões para ser enviada para revisão por pares. Autores de artigos selecionados são cobrados uma taxa de US$ 2.500. Quando as revisões são recebidas, a revista as publica, sem assinatura, com um manuscrito, independentemente de serem positivas ou negativas, e elas e o artigo são livres para ler. Se o autor revisar o artigo para abordar os comentários, a eLife publica a nova versão. Além do Web of Science, a versão final do artigo também é indexada em outros bancos de dados acadêmicos, como PubMed e Google Scholar.

Anunciado como um experimento, os gerentes da eLife disseram na época que esperavam que o modelo aliviasse uma variedade de disfunções que afligem a publicação científica, incluindo longos atrasos e falta de transparência. Outro objetivo era desafiar o domínio do IF como um marcador de qualidade, que eles dizem ser inadequado e não confiável para esse propósito e fomenta uma dependência excessiva de alguns periódicos seletivos com pontuações altas; na época, a eLife tinha um IF relativamente alto de 6,4. Apesar das críticas à métrica, Pattinson disse que a eLife manteve discussões com a Clarivate desde o ano passado, argumentando pela manutenção do periódico na Lista de Periódicos Mestres da Clarivate. Ele chamou a suspensão da Clarivate de “um exagero”, acrescentando “isso parece uma tentativa de definir as regras da publicação acadêmica, e tenho uma preocupação real de que uma grande corporação como a Clarivate esteja fazendo isso. Parece-me algo que deveria ser muito liderado pela comunidade”.

A eLife tem enfrentado questões sobre se permanecerá financeiramente viável ou afastará cientistas. Em uma atualização publicada no ano passado , o periódico disse que mais de 90% dos autores escolheram sua nova opção de fevereiro a julho de 2023. (O modelo anterior, tradicional, ainda era oferecido naquela época.) O total de submissões caiu em um quarto em comparação com o mesmo período de meses em 2022, mas quase atingiu a meta da eLife . Pattinson diz que o crescimento tem sido forte este ano; o periódico planeja lançar uma atualização adicional sobre essas tendências em breve.


Fonte: Science

Renan Ferreirinha premia professores que votaram em Eduardo Paes aumentando de 26 para 32 aulas semanais

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Renan Ferreirinha pediu votos dos professores e agora entrega o presente: mais  6 aulas semanais

Poucos dias antes do primeiro turno das eleições municipais na cidade do Rio de Janeiro, o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha (um dos muitos que foram treinados pela Fundação Lehmann), publicou um vídeo em que pedia a desistência da candidatura do professor Tarcísio Motta que concorria ao cargo de prefeito pelo PSOL.   Lembro que em um vídeo muito articulado, Ferreirinha pedia que Motta desistisse para evitar a dispersão de votos que supostamente poderiam colocar a extrema-direita em um hipotético segundo turno que acabou não ocorrendo.

Eis que no dia de hoje saiu a notícia de que o prefeito Eduardo Paes enviou à Câmara do Rio um projeto de lei  que muda as regras para a contagem de horas-aula e de planejamento das atividades curriculares para os 40 mil professores da rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Em vez de a carga de trabalho ser calculada com base na hora inteira, a contagem passa a ser por minutos. Na prática, se o projeto for aprovado, os professores que trabalham no regime de 40 horas passarão a ministrar 32 aulas por semana (ver imagem abaixo).

horas aulas

Eu gostaria agora de ver o que Ferreirinha tem a declarar, bem como outros escapistas da esquerda, como é o caso do ex-deputado Marcelo Freixo. Aos professores que caíram na conversa de Ferreirinha et caterva e votaram em Eduardo Paes e não em Tarcísio Motta, está aí mais uma prova de que votar no supostamente mal menor é um grande engodo.

Mulher é mais vulnerável a efeitos de agrotóxicos, dizem pesquisadores

agrotóxicos mulheres

Por Priscilla Mazenotti para Rádio Nacional

As mulheres e as meninas são a parcela da população mais vulnerável aos efeitos de substâncias tóxicas que vêm da indústria, da produção extrativista e da agricultura. E esses efeitos podem durar várias gerações.

São questões como aborto espontâneo, câncer, problemas no sistema endócrino, puberdade precoce. O alerta é do relator especial da ONU sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana.

São diversos os produtos químicos que podem trazer essas desordens. Quando se fala de Brasil, a preocupação de especialistas é, também, com os agrotóxicos. Segundo o advogado Emiliano Maldonado, somos um dos países que mais usam essas substâncias no mundo.

“Infelizmente, o Brasil é campeão mundial de agrotóxicos. Dados apontam que consumimos mais de 720 mil toneladas dessas substâncias”.

Dentre os alimentos, alguns campeões: morango, arroz, pimentão e cenoura, por exemplo. Carolina Panis, pesquisadora na área de micropoluentes, agrotóxicos fala sobre os efeitos que essas substâncias podem ter no nosso organismo.

“Quando o agrotóxico consegue entrar no nosso corpo e simular o hormônio que produzimos naturalmente, ele tá causando um super estímulo desses receptores, no momento em que eles não deveriam estar trabalhando. Então isso vai ter, sim um impacto na criança. E na mulher adulta, isso tem uma consequência muito séria, que é a ligação direta com o desenvolvimento de câncer”.

E não são só os consumidores que estão submetidos a riscos. Carolina Panis chama a atenção para outra parte da população: as mulheres que trabalham na agricultura.

“A partir do momento em que elas são agricultoras ou manipulam EPI, utensílio ou roupa contaminada com agrotóxico, ele entra pela pele, porque elas não usam nenhum tipo de proteção. E a gente estima que essas mulheres têm risco aumentando de ter câncer de mama de mais de 50%, se comparar com mulheres ocupadas com atividades urbanas”.

E qual a solução? O caminho quem aponta é o advogado Emiliano Maldonado. Um deles é o uso de bioinsumos, um processo feito a partir de microrganismos.

“São possibilidades que o conhecimento científico e o uso de outros mecanismos têm apontado no sentido que a gente não perderia a nossa produtividade agrícola, e estaria protegendo a saúde dos consumidores e consumidoras brasileiras”.

O assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo dia 5, uma audiência pública vai debater a questão econômica dos agrotóxicos, da desoneração de IPI e ICMS para essas substâncias. Mas o relator, ministro Edson Fachin, entende que o assunto ultrapassa os limites jurídicos e envolve política agrícola, meio ambiente e saúde.

*Com produção de Beatriz Evaristo


Fonte: Agência Brasil

Negacionismo científico em alta na cúpula Petrobras: para explorar petróleo, diretora executiva nega a existência do sistemas de corais da Amazônia

recifes

O sistema de recifes da Amazônia, comprovado cientificamente mas negado pela Petrobras

Em abril de 2018, este blog noticiou a publicação de um artigo científico pela revista “Frontiers in Marine Science dando conta da existência de um complexo sistema de recifes na foz do Rio Amazonas.  Com comprovações científicas irrefutáveis, a descoberta revolucionou o conhecimento científico acerca do estabelecimento de sistemas de recifes em águas lamosas. Um dos cientistas responsáveis por essa descoberta foi o professor e pesquisador do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende.

coral reefs

Mapa do Great Amazon Reef System (GARS) mostrando locais de amostragem. A área cinza denota a área potencial coberta por recifes mesofóticos (56.000 km2). As letras A-D correspondem aos locais em que características típicas dentro de um gradiente de profundidade de 70 a 220 m.

Eis que na semana passada, a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos, se utilizou de uma aula na Coppe, o instituto de pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (achei isso um ultraje, já que em universidade pública deveria ser proibido atacar o conhecimento cientifico) para negar a existência dos corais da foz do Amazonas afirmando que tal sistema não passaria de uma “fake news científica“.

A razão para esse ataque a algo que já foi demonstrado científicamente é simples: a Petrobras quer impor a exploração de petróleo em uma região de grande biodiversidade e de alta importância social a despeito de todas as incertezas sobre a segurança das operações que seriam ali conduzidas.

O ataque da diretora executiva da Petrobras é uma demonstração de que a empresa, apesar de todas os esforços de greenwashing que realiza, continua presa em uma visão de exploração e produção que desconhece não apenas a existência de algo que foi objetivamente demonstrado pela ciência (no caso a existência de uma área de alta biodiversidade e singularidade ecológica), mas também os complexos processos ambientais que isso causa, a começar pelas mudanças climáticas que hoje ameaçam a sobrevivência da Humanidade.

A questão agora é de como a silente ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, vai reagir a este ataque ao conhecimento científico, especialmente porque envolve a ampliação de riscos climáticos, algo que parece ser uma das questões estratégicas para 2025, ano em que a Petrobras pretende começar a perfurar na região em que este ecossistema altamente singular existe.

Agrotóxicos foram encontrados em 80% das amostras de ar de comunidades agrícolas da Califórnia

pesticidas ar

Por Shannon Kelleher para o “The New Lede”

Quase 80% das amostras de ar coletadas no ano passado nas quatro comunidades com maior uso intensivo de agricultura da Califórnia continham resíduos de agrotóxicos, embora as concentrações fossem “improváveis ​​de serem prejudiciais à saúde humana”, de acordo com um relatório regulatório estadual divulgado recentemente.

O Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) coletou 207 amostras de ar em estações em Oxnard, Santa Maria, Shafter e Watsonville uma vez por semana ao longo de 2023, encontrando pelo menos um dos 40 agrotóxicos testados em 163 das amostras,  de acordo com os resultados .

As estações de monitoramento detectaram um total de 19 agrotóxicos diferentes nas amostras de ar, incluindo o herbicida pendimetalina e o fumigante 1,3-dicloroproneno (Telone), ambos associados ao câncer.

Esses produtos químicos e outros detectados pelo CDPR também foram associados a náuseas, falta de ar e irritação ocular e respiratória.

Apesar de ser proibido em 34 países, o Telone é o terceiro agrotóxico mais usado na Califórnia, e o CDPR foi  criticado por não implementar regulamentações  que protegessem adequadamente os trabalhadores rurais, em sua maioria latinos, do produto químico.

Todas as amostras foram coletadas nas dependências da escola, o que gerou preocupações entre defensores do meio ambiente e da saúde sobre riscos à segurança de crianças e outros membros vulneráveis ​​da comunidade.

“Os últimos resultados de amostragem de ar continuam a mostrar que os agrotóxicos pulverizados nos campos se afastam do local e contaminam o ar próximo, uma preocupação séria para aqueles que vivem, estudam ou trabalham perto de campos agrícolas”, disse Alexis Temkin, toxicologista sênior do Environmental Working Group (EWG), em um  comunicado à imprensa .

“Alguns agrotóxicos podem se espalhar por vários quilômetros dos campos, colocando muitas pessoas em risco, incluindo trabalhadores rurais e populações vulneráveis, como crianças pequenas, grávidas e idosos”, disse Temkin.

Nenhum dos agrotóxicos nas amostras de ar de 2023 foi detectado em concentrações iguais ou superiores aos níveis que o CDPR considera ameaçadores à saúde pública, disse o CDPR.

As “detecções de agrotóxicos abaixo das metas de proteção à saúde não indicam riscos para pessoas que vivem, trabalham ou vão à escola perto de campos agrícolas”, disse a agência estadual.

Apesar de detectar a presença de agrotóxicos na maioria das amostras, a agência emitiu um  comunicado à imprensa  no início deste mês afirmando que “95% de todas as análises de amostras não apresentaram agrotóxicos detectáveis”.

A maneira como a agência divulgou publicamente seus dados deturpou as descobertas e pareceu intencionalmente enganosa, disseram os críticos.

“Esta é uma desinformação deliberada com a intenção de enganar o público”, disse Jane Sellen, codiretora da Californians for Pesticide Reform. “É muito a serviço da indústria.”

Como um grande centro agrícola, a Califórnia aplica  mais agrotóxicos do que qualquer outro estado dos EUA . Um  estudo de 2022  publicado no periódico  Science of the Total Environment  descobriu que uma média de 5,7 milhões de libras de agrotóxicos por ano foram pulverizadas somente no Condado de Ventura, Califórnia, de 2016 a 2018, incluindo mais de 60 produtos com ligações conhecidas ao câncer. As seções de municípios dentro do Condado de Ventura onde pessoas de cor constituem a maioria da população tiveram tanto o maior uso de agrotóxicos quanto o uso de  produtoss mais tóxicos, descobriu o estudo.

Mas mesmo os moradores das cidades podem não conseguir evitar a exposição a agrotóxicos, de acordo com descobertas publicadas no início deste mês.

Um  estudo  publicado no periódico Environment International encontrou glifosato, o herbicida mais usado no mundo e o principal ingrediente do herbicida Roundup, em todas as 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados do país, embora o produto químico não seja usado em ambientes fechados.

“Descobrimos a ocorrência onipresente de glifosato e AMPA [seu produto de degradação] na poeira interna de residências em áreas urbanas nos Estados Unidos”, escrevem os autores, observando que a presença generalizada do herbicida na poeira interna “pode ser explicada por sua ampla aplicação nos EUA”.


Fonte: The New Lede

Concentrações de poluentes que aquecem a atmosfera da Terra atingiram níveis recordes em 2023

A concentração de dióxido de carbono aumentou mais de 10% em apenas duas décadas, relata a Organização Meteorológica Mundial

emissõesO aumento de poluentes e CO2 na atmosfera é impulsionado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM. Fotografia: Mark Waugh/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian”

A concentração de poluentes que aquecem o planeta e obstruem a atmosfera atingiu níveis recordes em 2023, disse a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Foi descoberto que o dióxido de carbono está se acumulando mais rápido do que em qualquer outro momento da história da humanidade, com concentrações aumentando em mais de 10% em apenas duas décadas.

“Mais um ano, mais um recorde”, disse Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. “Isso deve fazer soar o alarme entre os tomadores de decisão.”

O aumento foi motivado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM, e agravado por grandes incêndios florestais e uma possível queda na capacidade das árvores de absorver carbono.

A concentração de CO2 atingiu 420 partes por milhão (ppm) em 2023, observaram os cientistas. O nível de poluição é 51% maior do que antes da Revolução Industrial, quando as pessoas começaram a queimar grandes quantidades de carvão, petróleo e gás fóssil.

Concentrações de poluentes fortes, mas de curta duração, também aumentaram. As concentrações de metano atingiram 1.934 partes por bilhão (ppb), um aumento de 165% em relação aos níveis pré-industriais, e o óxido nitroso atingiu 336,9 partes por bilhão (ppb), um aumento de 25%, disse.

Saulo disse: “Estamos claramente fora do caminho para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2C e almejar 1,5C acima dos níveis pré-industriais. Isso é mais do que apenas estatísticas. Cada parte por milhão e cada fração de grau de aumento de temperatura tem um impacto real em nossas vidas e em nosso planeta.”

A queima de combustíveis fósseis – como a gasolina para abastecer um carro ou o carvão para alimentar uma usina termelétrica – libera gases que retêm a luz solar e aquecem o planeta.

A OMM alertou que esse aquecimento pode levar a feedbacks climáticos que são “preocupações críticas” para a sociedade, como incêndios florestais mais fortes que liberam mais carbono e oceanos mais quentes que absorvem menos CO2.

Houve uma ligeira desaceleração no crescimento das emissões globais na última década, mas um forte crescimento contínuo nas concentrações atmosféricas, disse Glen Peters, um cientista climático do Cicero na Noruega, que não estava envolvido no estudo. “[Isso] deve nos dar motivos para pensar sobre quão fortes os sumidouros de carbono permanecerão em um clima em mudança.”

A Terra experimentou pela última vez uma concentração comparável de CO2 há alguns milhões de anos, quando o planeta estava 2-3 °C mais quente e o nível do mar estava 10-20 metros mais alto.

Peters disse que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera são a “medida mais precisa” do progresso da humanidade. “Os dados mostram, novamente, que não estamos fazendo muito progresso na redução de emissões.”

O anúncio da OMM vem antes da cúpula climática Cop29 no Azerbaijão no mês que vem. Ele segue um relatório do Programa Ambiental da ONU na quinta-feira que descobriu que o mundo está a caminho de aquecer 3C até o final do século. Líderes mundiais prometeram impedir que ele aquecesse 1,5C.

Joeri Rogelj, cientista climático do Imperial College London e coautor do relatório, disse: “Os níveis recordes de dióxido de carbono em nossa atmosfera são o resultado lógico das quantidades recordes de gases de efeito estufa que nossas economias continuam a despejar em nosso ar ambiente.”

Cientistas estimam que investimentos de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões são necessários a cada ano para reduzir as emissões a zero até meados do século.

“As tendências atuais verão o aquecimento global cruzar todos os limites de aquecimento que os líderes globais concordaram no acordo climático de Paris de 2015”, disse Rogelj. “[O relatório] também mostra que isso não precisa ser o fim da história.”


Fonte: The Guardian

Abstenções, o dado escondido pela direita, mas também pela esquerda

Falta de identificação com projetos pode explicar alta de | Política

Tenho notado uma série de análises sobre a vitória dos partidos de direita e extrema-direita nas eleições municipais, mas vejo pouca coisa em relação às abstenções. Vale lembrar que abstenções incluem aqueles eleitores que sequer se dão ao trabalho de irem votar, em que pese a obrigatoriedade de voto.

Neste segundo turno das eleições municipais, o total de eleitores que se abstiveram foi 29,26%, um número que desde o ano 2000 só foi superado em 2020 quando o Brasil experimentava a dureza da pandemia da COVID-19 (ver imagem abaixo).  Na capital paulista, o índice foi ainda maior,  já que o número de ausentes chegou em 31,54%, ou seja, 2.940.360 eleitores (valor mais alto do que o dado a Guilherme Boulos que foi de 2.323.901 votantes).

abstenções

Esconder o total das abtenções serve a vários propósitos, mas o principal me parece ser o de esconder a descrença de uma parte considerável do eleitorado com o sistema político brasileiro. Esses eleitores que se abstém mandam um recado que me parece claro: este sistema não nos representa a ponto de que queiramos sair de casa para votar em quem quer que seja.

Quem deveria analisar este descontentamento em mais profundidade deveria ser aqueles partidos que se dizem de esquerda, pois muitas eleições se decidem em porcentagens muito menores do que a margem de abstenções. Mobilizar esse eleitorado poderia ser assim chave para garantir mais vitórias contra a direita e a extrema-direita.

O problema é que para mobilizar esse eleitorado, a dita esquerda teria que apresentar programas que representassem mudanças qualitativas e profundas na condição de vida dos brasileiros. O problema é que se olharmos com um mínimo de atenção o que estão propondo os partidos supostamente de esquerda, o que se verá é que seus programas não são assim tão diferentes da direita e da extrema-direita. E é aí que a porca torce o rabo.