Donald Trump (de novo) presidente: os EUA em sua versão original ou o Momento Waldo!

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma das grandes sacadas das elites brasileiras, e também das elites internacionais, foi vender a ideia de que os EUA são o “role model” da democracia mundial.  Essa narrativa ganhou corpo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Era necessário, primeiro, apagar o peso e importância histórica da URSS na vitória, cujo esforço e 20 milhões de mortos foram imprescindíveis para a derrubada de Hitler, Mussolini, e depois, deixar os EUA livres para derrotarem o Japão. Sem a frente oriental soviética, talvez o mundo falasse alemão hoje, e, por certo, Israel não existisse.

Bem, a partir do fim do conflito, a campanha de marketing para convencer a todos de que os EUA eram os mocinhos teve início, misturando cultura e geopolítica, economia e intervenções (golpes), patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA, sem o menor pudor.

Talvez isso ajude a explicar o fascínio brasileiro pela ideia de que os EUA são uma democracia quase perfeita, e que devemos seguir seu exemplo, desde como lidar com mídia, bancos, minorias, e tudo o mais, ainda que (e porque) sejamos uma cópia mal feita do capitalismo praticado por lá. 

É bom que se diga que os EUA trataram os negros como gente de segunda classe até o fim da década de 60 do Século XX, não muito diferente de nós, mas o fizeram sem salamaleques, com cassetete nas mãos, segregação oficial com estrutura legal e tudo mais.  O tratamento dado aos latinos não é muito diferente, e oscila entre mais ou menos aceitação, dependendo da demanda de mão-de-obra barata. 

A ilegalidade dos imigrantes é um negócio, como qualquer outro nos EUA (na Europa, justiça seja feita, também).

Enfim, por onde quer que se olhe, os EUA não chegam nem perto da definição clássica de democracia, inclusive porque seu sistema eleitoral federalizado, onde os estados determinam as regras, permitem que a forma, os locais e os eleitores sejam deslocados de um lugar para outro (distritos), e essa manipulação descarada, feita com maiorias parlamentares estaduais, o “gerrymandering”, permite alterar o resultado das eleições.

É mais ou menos como se a ALERJ aprovasse leis que alterassem os locais de votação, colocando, por exemplo, os eleitores da 129ª zona eleitoral em Campos dos Goytacazes para voltarem na 98ª, ou dispersar esses eleitores em várias zonas e seções.

Em um país onde o voto não é obrigatório, como os EUA, não há feriado para votar, e em algumas cidades, negros não frequentem certos bairros, seja por questões étnicas ou por ausência de transporte público, essa interferência faz toda diferença.  Por isso tudo eu não entendo muito esse deslumbramento do brasileiro com os EUA.

Também faço aqui uma ressalva, não é democracia, mas para eles funciona, e ponto final.

Hoje, já li e ouvi muita gente boa repercutindo a vitória de Trump, uns lamentando, outros comemorando, como se fosse fazer alguma diferença para nós.  Bem, tudo isso diz muito mais sobre nós do que sobre os EUA, é verdade.  Nossa posição relativa no mundo estará intacta: quintal dos EUA, seja lá quem for o presidente de plantão.

Direita e esquerda brasileiras parecem vira-latas, os primeiros felizes, abanando o rabo para a troca de dono, os últimos rosnando, mas ambos estão na coleira desde e para sempre.

Já em relação à surpresa de alguns com o retorno de Trump, eu sugiro assistir um episódio da série Black Mirror, na Netflix.  Alguns dizem que a série é visionária, e antecipa um bocado de coisa, principalmente em relação à tecnologia, sociedade e política. 

Sei lá, mas no caso das eleições, me parece que eles acertaram em cheio quando criaram o episódio Momento Waldo, que em resumo, é um boneco manipulado por um comediante frustrado, que alcança enorme sucesso. Os desdobramentos eu não vou antecipar, mas digo que vale à pena.

Enfim, com Trump, Kamala, Obama, Bush, o certo é que temos que trabalhar para pagar nossas contas, e os juros mais altos do planeta, que sustentam o American Way Of Life.

Imbróglio envolvendo Uenf e Prefeitura na reforma do prédio do Arquivo Público Municipal agita Câmara de Vereadores

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Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal. Mas reforma que é bom, nada…

Desde o início de 2022 já abordei por diversas vezes o estranho caso de uma verba de R$ 20 milhões que foi disponibilizada pela Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro (Alerj) para reformar o prédio histórico do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes (Aqui!, Aqui!, Aqui!Aqui!). A coisa já se estendeu tanto que o presidente da Alerj que era André Ceciliano (PT) passou a ser Rodrigo Bacellar (União Brasil) e o cargo de reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que era ocupado por Raul Palácio, agora é exercido por Rosana Rodrigues.

A coisa começou muito mal explicada, pois nunca ficou claro porque os R$ 20 milhões foram parar na Uenf, mas esse foi só o começo da história. Uma das questões mais apontadas é o fato de que a realização de reformas em prédios históricos exige um tipo de expertise que a universidade fundada por Brizola e Darcy Ribeiro simplesmente não tem.

A exasperação com a demora da Uenf em realizar a coisa mais básica que seria uma licitação para apontar quem faria a reforma já ficou clara em diversas ocasiões desde que o dinheiro chegou há quase 2 anos.  Entretanto, com mais um ano próximo de se encerrar, o que significa que o período chuvoso vai se iniciar, agora a coisa tomou um tom de cobrança ainda mais aberto, inclusive no plenário da Câmara Municipal de Vereadores (ver vídeo abaixo).

Como fui uma das poucas vozes críticas em relação a essa triangulação esquisita envolvendo Alerj, Uenf e Prefeitura de Campos, eu não tenho nenhum prurido em afirmar que esse caso nunca foi abertamente discutido pela comunidade universitária.  Assim, não acho justo que o ônus sendo gerado pela incapacidade evidente de iniciar a obra seja jogado nas costas de todos os que labutam diariamente na Uenf.

Por outro lado, como a reitora da Uenf já está praticamente no final do seu primeiro ano como a dirigente que “segura a caneta” na Uenf (para usar uma terminologia que a professora Rosana Rodrigues usou durante a campanha eleitoral que terminou com sua eleição), me parece que está na hora dela dar as respostas que estão sendo demandadas há algum tempo pela sociedade campista, e agora também pela Câmara Municipal de Vereadores. Afinal, as preocupações em torno do atraso das obras são mais do que justificadas.

E nunca é demais lembrar que a próxima estação de chuvas poderá comprometer ainda mais as condições estruturais do Solar do Colégio, impondo graves riscos para toda a documentação que se encontra no interior do Arquivo Público Municipal.

Subsídios mortais: qual a lógica de subsidiar os agrotóxicos?

O STF decide entre o país e o agronegócio

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Por Jean Marc von der Weid

O STF estará julgando, no próximos dias, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5.553) impetrada pelo PSOL, questionando o projeto de lei 6.299/2002 que modifica a legislação sobre agrotóxicos vigente, visando ampliar os subsídios e isenções fiscais no Brasil. O agronegócio brasileiro já é há alguns anos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, sendo que pelo menos um terço com alto grau de toxidade e muitos deles proibidos por órgãos reguladores tanto nos Estados Unidos como na União Europeia. As reduções de impostos têm um papel importante neste processo, mas o agronegócio quer mais, sobretudo reduzir em 60% o ICMS e zerar o IPI sobre os agrotóxicos.  

Em outras manobras legislativas, a bancada ruralista almeja facilitar ainda mais a liberação de novos agrotóxicos, apesar de estar conseguindo colocar estes produtos cada vez mais rapidamente no mercado interno, na base de centenas a cada ano, oito vezes mais ligeiro do que na União Europeia. Isto se faria pela retirada da competência da ANVISA e do IBAMA do sistema de aprovação, entregando-o estritamente nas mãos da complacente e cúmplice burocracia do MAPA. 

O agronegócio brasileiro argumenta que sem estes e outros subsídios (sobretudo para fertilizantes e sementes) não conseguiriam competir no mercado internacional e que teriam que cotejar as eventuais vantagens apontadas pelo agrobusiness com os impactos negativos (custos externos) das suas atividades. 

Com toda a propaganda de alta qualidade e alto custo na mídia brasileira (“agro é pop, agro é tec, agro é tudo…”) o nosso agronegócio confessa a sua ineficiência quando cobra do erário o custo da sua sobrevivência. 

O argumento da preocupação com a alta do custo dos alimentos é pura falácia. O aumento dos preços do arroz com feijão, que usaremos como indicativo da base de uma dieta nacional desejável, não é provocado principalmente pelos custos de produção (inclusive dos agrotóxicos), mas pela baixa oferta dos produtos no mercado interno. 

A oferta per capita de arroz e de feijão vem caindo regularmente ao longo dos últimos 50 anos. Entre 1977 e 2022, o consumo per capita de arroz caiu de 79 para 49 quilogramas por ano, uma redução de 38%. O de feijão caiu de 24,7 kg para 14 kg, 43% a menos.  

O consumo de outros alimentos básicos da dieta tradicional brasileira (aquela entronizada na lei do salário-mínimo de Getúlio Vargas nos anos trinta e que está longe de ser a mais correta do ponto de vista nutricional), como o milho e a mandioca, seguiram o padrão do arroz e feijão. Em 2022, o milho usado para consumo humano não superou os 8,7 kg per capita no ano, um sétimo do que foi consumido por animais sob forma de ração e a metade do que foi usado para produzir biodiesel. Ficou muito para trás o tempo em que a broa de milho era o pão de boa parte dos brasileiros 

Para apontar o destino da produção agropecuária brasileira de forma mais geral, basta olhar a área cultivada dos produtos dirigidos principalmente para o mercado interno e os dirigidos principalmente para as exportações. Entre os 22 cultivos mais importantes, ocupando em 2022/2023 perto de 88 milhões de hectares de lavouras, soja e milho (em grande parte exportados quer em grãos, farelo ou para a engorda de frangos, suínos e bovinos, também exportados em grande parte) ocuparam 71% da área total. Mais 15% da área foi destinada para outros produtos de exportação como cana de açúcar, algodão, café, cacau e fumo. Apenas 11,5 % da área de lavouras foi destinada a cultura alimentares do mercado interno, como arroz, feijão, trigo, mandioca, banana, batata, aveia, cebola, tomate, etc.). 

Este processo de internacionalização do nosso agro não é novo. Afinal de contas, o país nasceu e cresceu sob o signo da exportação de produtos agrícolas, açúcar, café, algodão, cacau e outros, nos famosos ciclos econômicos que só tiveram um período em que foram os minerais (ouro) que dominaram a exportação. O que é novo é que, depois de um período de desenvolvimento industrial acelerado iniciado nos governos de Vargas, mas que tiveram continuidade até no regime da ditadura militar, voltamos a ser essencialmente um país exportador de produtos primários, agrícolas e minerais, com a produção industrial caindo a pouco mais de 12 % do PIB.  

Esta regressão tem um efeito brutal no custo da alimentação dos brasileiros. Neste século, tivemos 6 anos apenas em que a inflação geral medida pelo IPCA ficou acima da inflação de alimentos (60% mais alta em média), enquanto nos outros 18 anos esta última bateu a primeira mais ou menos com a mesma média anual. 

Descartemos, portanto, o argumento de que os subsídios se dirigem a baratear a alimentação dos brasileiros. Eles se dirigem a aumentar a competitividade dos nossos produtos no mercado internacional, deixando o consumo interno de alimentos em permanente insuficiência frente às necessidades dos consumidores.  

Para dar uma ideia aproximada do problema, é só lembrar que a demanda anual reprimida de arroz (em casca) é de 18 milhões de toneladas, extrapolação realizada pelo autor a partir do consumo desejável indicado em pesquisa do Instituto de Nutrição da UERJ, publicada na Revista de Saúde Pública. A demanda anual reprimida de feijão é de 7,6 milhões de toneladas, pelo mesmo critério. Isto significa a necessidade de se multiplicar a produção de arroz por 2,8 e a de feijão por 3,4 para alimentar corretamente os brasileiros (sem contar, é claro, vários outros produtos alimentares necessários e igualmente deficitários). E, enquanto os preços da soja e do milho nos mercados internacionais de comodities forem mais altos do que os do feijão e arroz no mercado interno, a orientação do agronegócio será a de privilegiar as exportações. 

Enquanto isso, a produção de soja cresceu de 12 para 153 milhões de toneladas, entre os anos de 1977 e 2022. A de milho de 19 para 125. Ambos os produtos, como vimos acima, dirigidos essencialmente para o mercado externo sob diversas formas, grãos, farelo e carnes de frango e de suínos. 

O agronegócio é “tec”, como ele autoproclama na sua propaganda? Nem tanto. A produtividade da soja brasileira iguala a americana e supera a da Argentina, dois grandes exportadores, mas com uso mais intensivo de insumos. Já a produtividade do milho é muito menor: 2,78 e 1,7 vezes mais baixa do que nos Estados Unidos e na Argentina. Os nossos concorrentes têm algumas vantagens naturais de clima e de solos, mas isto não explica o nosso atraso em termos de produtividade. Entretanto, o Brasil hoje produz e exporta mais do que qualquer outro e não só nestes dois produtos dominantes. Como explicar? 

É simples. Por um lado, a legislação ambiental e a sanitária nos EUA e na União Europeia implicam em custos mais altos na aplicação das mesmas tecnologias. Temos custos bem menores pela fragilidade da aplicação da nossa legislação ambiental, cada dia mais permissiva. E temos custos de mão de obra também muito mais baixos. Mas, sobretudo, nós temos disponibilidade de terras baratas para expandir a produção, algo que falta para os concorrentes. Enquanto a demanda continuar aquecida pelas compras chinesas estaremos bombando com preços compensadores, mas com qualquer redução das cotações nós seremos os primeiros a perder mercado pois nossos custos de produção são mais altos. Como nossa produtividade é mais baixa, nem o custo quase zero da ocupação de terras griladas na Amazônia ou o trabalho mal pago compensará os custos maiores de produção. 

É claro que existem setores do agronegócio mais tecnificados e competitivos, mas a maioria vive de explorar as vantagens naturais e humanas locais sem pensar no amanhã. Se fossem de fato “high tec”, como proclamam, já estariam aplicando as tecnologias disponíveis para reduzir o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, ao invés de lutar para facilitar o uso de produtos cada vez mais perigosos … e caros. 

Na verdade, a experiência internacional mostra que o agronegócio é igual em todo o mundo. Os produtores americanos só adotam técnicas mais racionais e de menor risco ambiental ou para a saúde quando a pressão de legisladores ou do mercado os obriga. 

Um exemplo do outro lado do mundo é dos mais ilustradores deste axioma. Nas Filipinas dos anos 90, a FAO convenceu o governo da hora a montar um plano de redução do uso dos agrotóxicos na cultura do arroz, central na economia e na sociedade do país. O projeto visava não a erradicação do uso de agrotóxicos, mas o seu uso racional, na forma do manejo integrado de pragas ou IPM, na sigla em inglês. O programa dirigiu-se a agricultores de pequeno, médio e grande porte, mas seu sucesso inicial se deu principalmente no primeiro grupo. Os pequenos produtores, com menos acesso a recursos financeiros, perceberam a oportunidade de reduzir custos sem perder produtividade e filiaram-se ao programa em grandes números. Já os médios e grandes produtores só aderiram quando o governo filipino retirou os subsídios para o uso de agrotóxicos na produção de arroz. Em dez anos, as Filipinas reduziram o emprego de agrotóxicos no arroz a menos de 20% dos volumes anteriormente empregados. Com ganhos de produtividade e menores custos.  

O programa da FAO ganhou prêmios de excelência e passou a ser disseminado na Ásia e na África com apoio do Banco Mundial, que estava carente de alguma coisa para melhorar a sua imagem junto aos ambientalistas. Embora o IPM esteja longe de ser um programa agroecológico e que ele nem sequer imagine outros componentes de racionalização do uso de insumos, o resultado, embora estrategicamente diminuto, aponta na direção correta. Ele ficou ainda mais relevante com a escalada dos preços dos agrotóxicos e dos adubos químicos nas últimas décadas e que tende a se intensificar ainda mais. 

Ao que eu saiba, não existe no Brasil um cálculo sobre os custos indiretos do uso de agrotóxicos nos sistemas produtivos do agronegócio. Sabe-se que cerca de 25% das amostras de alimentos contêm, em média, doses de agrotóxicos acima do tolerável, segundo as definições da ANVISA. Também é sabido que a contaminação de trabalhadores agrícolas é um recorde mundial contínuo. Mas não se sabe quanto isto custa em termos de gastos privados ou do SUS. Os impactos ambientais sobre fauna e flora são constatados em grande escala, mas também sem avaliações de custos. A única indicação encontrada foi de um estudo da cooperação técnica da Alemanha, apontando para um custo indireto (abrangendo todos os impactos) de 20,00 reais para cada real de faturamento do agronegócio. Não tive acesso ao estudo, somente às suas conclusões que me parecem algo exageradas, mas por comparação com estudos em outros países estes “custos externos” apontados pelo estudo podem estar corretos. 

O que temos que entender no caso brasileiro é que o caráter predador e imediatista do nosso agronegócio só pode ser parado com maiores controles de seus impactos ambientais e na saúde e não com o programa da bancada ruralista que é desmontar a legislação e os instrumentos estatais de controle para poderem devastar a seu talante. 

Sem sombra de dúvida, o maior freio possível no uso dos agrotóxicos é o financeiro, na forma da diminuição paulatina até a eliminação dos subsídios existentes. O STF tem nas mãos a possiblidade de colocar limites nesta fúria devastadora, já que o governo Lula ou bem resolveu se aliar com o agronegócio, na ilusão de amansar a besta ou bem capitulou frente a bancada ruralista por total falta de poder de fogo. 

Resta saber se os votos restantes no STF (em seções anteriores suas excelências já votaram a favor do agronegócio por 6×2) vão equilibrar o resultado e estimular algum dos anteriores a se penitenciar e rever sua posição, talvez pensando no bem do Brasil, do seu povo e de sua fauna. 


Fonte: 68naluta 

Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

Flooding due to heavy rains in Rio Grande do Sul

Experiência devastadora das chuvas teve pouco ou nenhum impacto nas eleições municipais em Porto Alegre. Diego Vara/Reuters

Por João Anschau

Findado o segundo turno das eleições municipais é possível cravar sem medo de errar que os grandes perdedores destas eleições somos eu e você. Sim, nós dois ganhamos mais uma derrota. A novidade é que não tem nada de novo nesse resultado. Um trabalho árduo da criminalização da Política, aliado à miopia institucional de líderes estrategistas de ar condicionado no 19, pariu frutos nada saborosos e que terão que ser degustados por mais alguns anos.

A começar! Barrou-se toda e qualquer iniciativa que ousasse discutir, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas nas nossas vidas nada românticas, e a consequente necessidade de colocar na agenda, colada na porta da geladeira, a preservação do que ainda resta de biodiversidade. Os poucos que se atreveram foram carimbados de apocalípticos. É mais fácil, cômodo e covarde fazer cara de paisagem, cordial e pacificador. Estes, confundem a fumaça branca do Vaticano com as queimadas produzidas e reproduzidas como de costume, achando que ambos sinalizam o mesmo. 

“Aos vencedores as batatas”

 A abstenção é uma vitória retumbante da chamada “grande” imprensa. Ela, que costuma usar seu o poder persuasão e chantagem, dá as cartas e joga de mão. Tem uma sorte danada e não perde nunca. Como estratégia prefere brigar com os fatos, jamais com os anunciantes. A informação é tratada como mercadoria e as narrativas são moldadas ao gosto do freguês. Umas quantas no cravo e, para vender imparcialidade gourmet, outra na ferradura lá de vez em quando. O Estado deve ser mínimo, minguado, para mim e para você que lê esse escrito agora. Tudo que envolve a política é tratada como uma doença incurável, capaz contaminar o bem bolado bolado pelos liberais que não conseguem viver sem as benesses do poder público. Não é incoerência. É um projeto. A indignação seletiva é alimentada e fortalecida diariamente e o alvo é sempre o mesmo. Os “liberais” não dormem. 

E o ganhador é…?

O acontecido no segundo turno em Porto Alegre já apresentou múltiplas análises. Não é tarefa simples processar o resultado final que reconduz um gestor incapaz de fazer o básico, e que tem como sua maior marca o  negacionismo. Mesmo tendo um currículo de não serviços prestados para o grosso da população, ele logrou êxito. No frigir dos ovos temos algo bem próximo a síndrome de Estocolmo “mas bah”. Ganhou o discurso do “nós por eles”, capturado e patrocinado pelos causadores do desastre. O homem do chapéu de palha deu um chapéu no sofrimento alheio, juntou-se ao grupo das vítimas e recebeu como prêmio um novo mandato. Uma distopia escrita em tempo real que centrou todo o enredo na frase “não é hora de achar culpados”. Não é necessário fazer nenhum exercício de futurologia para trás e saber qual teria sido o comportamento da mídia hegemônica se o paço municipal tivesse na cadeira de prefeito/a alguém do time da esquerda durante as chuvas de maio.  

Sirvam nossas façanhas, outra vez, de como não fazer e evitem seguir o nosso exemplo. Quem um dia se arvorou o carimbo de estado mais “politizado” do Bra(z)sil, hoje está na série D e correndo sério risco de ser rebaixado para divisões amadoras. Giovani Cherini, um deputado federal eleito democraticamente pelo RS, com o uso das urnas eletrônicas, mesmo que seu partido questione a lisura eleitoral há anos, é o chorume não aproveitável e que contamina toxicamente toda e qualquer tentativa de fazer uma conversa minimamente racional. Esse “nobre” parlamentar, a bem da verdade, não está sozinho nesta empreitada muito bem organizada e que não tem nada de estúpida, faz parte da chamada bancado do agro e como tal atende os interesses de seus patronos. Cherini, com o meu e o seu dinheiro, quer ir até a COP-30 e demonstrar – chupem cientistas, pesquisadores e afins – que o aquecimento global é uma grande mentira.

Contará, provavelmente, com a consultoria muito bem remunerada de Luiz Carlos Molion, o mesmo pesquisador que disse em 2023, no senado, que meteorologistas exageravam quanto à possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. Um dia depois da sua eloquente afirmação, parte do estado amanheceu debaixo d’água. Molion não foi folclórico ao contestar a ciência e o trabalho de seus pares. O adjetivo é outro.

O sucesso dos ganhadores do mesmo lado seguiu um roteiro muito parecido. Apostaram no medo e em temas que mexem com o imaginário dos eleitores. Continuarão a multiplicar o receituário de que o fim não está tão no fim assim, e que os extremos – chuvaradas, ciclones… – são parte do pacote da “felicidade” – e do Deus deles que quis assim -, mesmo que não os tenhamos contratado, portanto, seu cancelamento é impossível. E como não temos tempo para o óbvio, preocupados e pautados por trivialidades, interdita-se, em todos os sentidos, qualquer iniciativa que promova o contestar. Portanto, o SERASA não colocará em suas listas o nome dos dos delinquentes responsáveis pelo caos. 

Um levantamento feito pela EMATER/RS, após o dilúvio de maio, mostra um cenário nada paradisíaco quando o assunto é perdas, danos e consequências em se tratando de comida no nosso prato para logo ali adiante. Como vivemos cercados pelo improviso nada genial dos gestores públicos municipais, existe uma grande chance de termos gôndolas quase vazias de comida. E não é preciso ser um gênio para saber que segurança alimentar (para a galera que gosta de armas, vamos acabar com a chaga da fome?) foi mandada às favas mais uma vez em nome do “progresso” e das prioridades da turma do 1%.

As indústrias de processados e de remédios agradecem com generosas doações eleitorais. Sejamos honestos, o senhor e a senhora viu/ouviu durante alguns minguados segundos, dedicados por candidato/a ao legislativo ou a executivo municipal, independente de mídia, alertas – alertas – que o tempo não é – nem será tão cedo – de colheita farta, e que o mundo alimentar não se resume à soja? Ou que tomamos agrotóxicos de copinho, fazendo com que sejamos os top one no campeonato da insanidade produtiva e reprodutiva no uso de venenos? Cartas para a ouvidoria do blog. 

E por que chegamos nesse estágio quase terminal? Diferente do outro Deus, os “nossos” gurus acreditam no poder da magia e da osmose. A imortalidade de sua melhor referência política está na lista depositada no pratinho que fica ao lado da vela de 7 dias. No mundo real, aquele em que a desigualdade ainda reina, o modo no qual a relação é recíproca foi abandonada há muito. Ações simples, mas eficazes, foram deixadas de lado, tornando-se obsoletas. O diálogo contínuo foi deletado das práticas mais elementares. Ao invés de habilidosos camisas 10, o que se apresenta atualmente são caneludos que costeiam o alambrado do lado esquerdo e que comprometem o resultado final. Perdeu-se a mão e a forma fraterna de interação. A disputa para estes não é mais Política, mas, apenas, e tão somente, eleitoral. Alguém, com um mínimo de sensibilidade, precisa alertar essa galera que a balança da conciliação pende toda para o lado dos bem nutridos.

Não existe almoço grátis

“Não existe almoço grátis” ou “é a economia estúpido” deixaram de ser apenas mantras que dão as tintas para parte da sociedade que abandonou o caminho da coletividade e optou pelo pragmatismo do despachante ouvidor, bancado por quem já se deu conta de que no final da contas, problemas têm família grande, como já sentenciou o saudoso Paulo Leminski. Não é tão somente a conquista de corações e mentes, mas, voltar a conhecer e conviver com essa galera que têm corações, mentes, sonhos e muito medo represado. Dá pra ser radical, e manter as origens, sem perder a empatia pelos irmãos de jornada. É importante reforçar que mutações fazem parte de outra gaveta. A apatia e o descontentamento interessa apenas ao adversário que joga no ataque a todo o momento de forma sincronizada. 

Peço desculpas mais uma vez aos seres não racionais pela nossa total e irrestrita incapacidade. De fazer o beabá mais simples. De amar ao próximo como se não houvesse amanhã – nos tempos atuais, o amanhã é tão certo como 2+2 são 3. O breve futuro é uma incógnita, mas mesmo assim os advogados do capitalismo predatório, homens brancos, “héteros” e detentores dos meios, querem nos fazer crer que tudo está sob controle e a falta de freio é psicológico. Ao cabo de tudo o que temos é uma luta de equação básica: mais e mais estupidez resulta em cada vez menos tempo por estas paragens. E as opções, para eu que escrevo e você que acompanhou o texto até aqui, de encontrar outro lar, lamento informar, é zero. E morar em Marte, tô fora. A vizinhança é estranha. Portanto, o último apaga a luz. Espera, depois das privatizações, nem isso mais está garantido.

BB, Bradesco e Itaú lideram ranking dos que financiam desmatadores da Amazônia e do Cerrado

Maior parte do crédito liberado é destinada para as indústrias da soja e da pecuária bovina, setores com amplo histórico de violações socioambientais na Amazônia e no Cerrado brasileiro

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Por Igor Ojeda/ Edição Paula Bianchi 

Banco do Brasil (BB), Bradesco e Itaú lideram um ranking global das 30 instituições bancárias que mais concederam créditos para 159 empresas de produção de commodities com risco de desmatamento que operam na América do Sul, Sudeste Asiático e África Central e Ocidental entre janeiro de 2018 e junho de 2024.

Disparado na liderança, o BB destinou, nesse período, mais de 95 bilhões de dólares, especialmente para os setores de soja (47 bilhões de dólares) e carne bovina (45 bilhões). Em seguida, vem o Bradesco (um total de mais de 14,5 bilhões de dólares) e o Itaú Unibanco (12 bilhões de dólares no total). 

Os dados estão presentes no relatório “Financiando o colapso da biodiversidade. Rastreamento de bancos e investidores que impulsionam o desmatamento tropical”, divulgado na última quarta-feira (16) pela Coalizão Florestas & Finanças, aliança global de organizações da sociedade civil da qual a Repórter Brasil faz parte e que cobra o fim do financiamento a atividades predatórias em florestas tropicais

O estudo analisou fluxos de créditos e participações em financiamentos a 300 empresas de seis setores de commodities – soja, carne, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira – cuja produção representa altos riscos de desmatamento de florestas tropicais, perda de biodiversidade e violações de direitos humanos. Um levantamento inicial foi publicado em dezembro de 2023.

Mais cinco bancos brasileiros aparecem na lista: Banco do Nordeste (5° lugar), Banco da Amazônia (7º), Sicredi (20º), Banrisul (21º) e Grupo Safra (24º).

“A grande maioria dos créditos – 70% – vai para a América do Sul, com as indústrias da soja e da pecuária bovina recebendo a maior fatia. Esse financiamento alimenta diretamente a destruição da floresta amazônica, um dos ecossistemas mais importantes da Terra”, afirmou à Repórter Brasil Merel van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças.

Para Christian Poirier, diretor de Programas da Amazon Watch, uma das organizações que integram a Coalizão Florestas e Finanças, “os bancos brasileiros estão particularmente expostos a esses riscos ao possibilitarem que algumas das indústrias mais destrutivas que existem operem na Amazônia e em outros locais de grande biodiversidade”. “Essas instituições precisam ser rigorosamente reguladas e responsabilizadas por ameaçarem nosso futuro coletivo”, defende. 

O que dizem os bancos

À Repórter Brasil, o BB afirmou que não financia empresas responsáveis por “dano doloso” ao meio ambiente e que possui “um framework de finanças sustentáveis totalmente alinhado ao Acordo de Paris e aos principais standards de sustentabilidade internacionais”. Diz também que “todas as operações de Custeio e Investimento contratadas pelo Banco passam por rigoroso processo de verificação Socioambiental”. 

O Bradesco respondeu que todas as operações do programa de crédito rural do banco passam por um rigoroso processo de análise que contempla aspectos socioambientais e que cumpre integralmente todas as regras de concessão do programa. “A metodologia utiliza restritivos cadastrais para sinalizar riscos identificados a partir do cruzamento dos dados com listas públicas que dispõe sobre prática de crimes/danos socioambientais, monitoramento das áreas financiadas por satélite e visitas prévias de campo por engenheiros agrônomos para avaliação de financiamentos concedidos em áreas localizadas na região Amazônica, entre outras ferramentas de análise”, afirmou a instituição em nota enviada à reportagem.

O Itaú Unibanco, por sua vez, respondeu que segue “rigorosamente” o Código Florestal e que reafirma o compromisso com o cumprimento das leis e práticas socioambientais. “O banco mantém uma governança bastante criteriosa para a concessão de crédito para seus clientes corporativos, em especial aqueles com classificação prévia de alto risco, que passam por análises mais aprofundadas, com foco no risco socioambiental e climático”, afirma.

O Sicredi afirma que “possui processos e regras para liberação e manutenção de crédito em conformidade com as melhores práticas de gestão do mercado, amparados por uma Política de Sustentabilidade e por uma Política de Gerenciamento de Riscos Sociais, Ambientais e Climáticos”.

Já o Banco da Amazônia informou que adota uma postura rigorosa, não concendendo crédito rural a empreendimentos localizados em imóveis rurais com embargos de órgãos ambientais e que utiliza dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite para monitorar e avaliar o desmatamento. “Esta política visa garantir que nossos financiamentos não contribuam para a degradação ambiental, especialmente em Áreas de Proteção Permanente (APP), matas nativas ou áreas de reserva legal”.

A íntegra das respostas dos cinco bancos pode ser lida aqui. Os demais bancos foram procurados, mas não retornaram aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Soja e carne

Segundo o levantamento da Coalizão Florestas & Finanças, desde a aprovação do Acordo de Paris, em 2015, as maiores instituições bancárias do mundo financiaram em mais de 395 bilhões de dólares os seis setores pesquisados. Mais de um quinto desse total (77 bilhões de dólares) foi desembolsado apenas entre janeiro de 2023 e junho de 2024. 

Em relação à produção de soja no Brasil, o estudo menciona os problemas socioambientais causados por gigantes do setor como Cargill e Bunge, empresas ligadas ao desmatamento e à expulsão de comunidades tradicionais na Amazônia e no Cerrado em razão da expansão de suas operações. 

Um dos conflitos lembrados pelo relatório é a luta do povo indígina Munduruku em defesa de seu território no Pará contra a construção da ferrovia conhecida como Ferrogrão – promovida por ambas as empresas –, o que, segundo o relatório, poderia resultar em desmatamento em grande escala e em violações dos direitos de indígenas e comunidades locais.

Ainda de acordo com o documento, comunidades tradicionais do Pará acionaram judicialmente a Cargill diante de sua intenção de construir um porto em suas terras tradicionais. Além disso, a companhia é objeto de uma queixa apresentada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no ano passado por conta de violações ambientais e de direitos humanos. 

Em resposta encaminhada à Repórter Brasil, a Bunge afirma estar comprometida em desenvolver práticas agrícolas sustentáveis em todas suas cadeias de suprimentos e “apoiar projetos que protejam o meio ambiente, respeitem os direitos humanos e melhorem o bem-estar econômico de agricultores, colaboradores e comunidades locais”. “Usamos recursos disponíveis para garantir que cumpramos nossos compromissos, incluindo tecnologia de satélite de ponta para monitorar áreas prioritárias na América do Sul”, diz. A íntegra do posicionamento pode ser lida aqui.

A reportagem também enviou questionamentos à assessoria de imprensa da Cargill, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. 

Outro exemplo “gritante” destacado pelo estudo é o da JBS, maior processadora de carnes do mundo. Entre 2018 e junho de 2024, a empresa recebeu mais de 1,1 bilhão de dólares em créditos, e em julho de 2024 contava com 719 milhões de dólares em investimentos. “O fracasso da empresa em rastrear suas cadeias de fornecimento de gado contribuiu para a pecuária ilegal em terras indígenas, incluindo a destruição de 477 quilômetros quadrados da Terra Indígena Parakanã, no Pará”, diz o relatório.

A JBS respondeu que desde 2009 avalia, por meio de monitoramento geoespacial, “milhares de potenciais fazendas fornecedoras de bovinos diariamente”. “A Política de Compras de Matéria-Prima da JBS proíbe a compra de propriedades com desmatamento ilegal, áreas de embargo ambiental, unidades de conservação e terras indígenas ou quilombolas, entre outros requisitos, como estar na Lista Suja do Trabalho Escravo”, afirma a nota à reportagem.

Marco Global da Biodiversidade

Para a Coalizão Florestas & Finanças, os números revelam como, sob a inação dos governos, as finanças globais têm impulsionado a degradação de ecossistemas tropicais e, assim, contribuído para a aceleração da crise global de biodiversidade, apesar da existência de acordos internacionais como o Marco Global da Biodiversidade (GBF, na sigla em inglês), aprovado em 2022 durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP15), realizada em Montreal, no Canadá. 

De acordo com o relatório, o “financiamento atual está alimentando a crise que está levando as florestas tropicais na Amazônia, na Bacia do Congo e no Sudeste Asiático ao colapso ecológico”. “As evidências indicam que, desde a adoção do GBF em 2022, a Meta 14 – que exige o alinhamento dos fluxos financeiros com as metas de biodiversidade – tem sido amplamente ignorada”.

A Coalizão Florestas e Finanças defende que é preciso alterar o fluxo de financiamentos de atividades ambientalmente destrutivas para soluções sustentáveis. “Os povos indígenas, guardiões de longa data da biodiversidade, são fundamentais nesses esforços, e devem ser apoiados por proteções legais e financeiras mais fortes.”

‘Greenwashing’

O relatório chama a atenção, ainda, para o que classifica como “uma falsa narrativa de sustentabilidade” das instituições financeiras, cujas práticas apresentam uma lacuna crescente entre compromissos e ações. De acordo com o documento, mais da metade dos 30 principais bancos que financiam setores ligados ao desmatamento integram iniciativas voluntárias voltadas para uma atuação que leve em conta a preservação ambiental. 

No entanto, segundo os pesquisadores, não foi possível encontrar evidências que sugiram que essas iniciativas tenham restringido fluxos financeiros prejudiciais. Assim, “tais estruturas voluntárias permitem que as empresas pareçam sustentáveis enquanto continuam com práticas destrutivas”.

A Bunge é citada pelo estudo como um exemplo desta situação. Líder no comércio de soja no Cerrado brasileiro, ela integra a “Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza” (TNFD, na sigla em inglês). “Apesar de estar ligada a mais de 60 mil hectares de desmatamento e abusos de direitos humanos, a Bunge usa a estrutura da TNFD para relatar de forma seletiva sobre os riscos relacionados à natureza, mascarando seus danos ambientais”, alerta a Coalizão Florestas e Finanças. 

O relatório critica também sistemas de certificação que não garantem exigências básicas, como a de que empresas excluam de sua cadeia produtiva qualquer elo que promova desmatamento ou violações de direitos humanos. “As instituições financeiras que dependem dessas certificações são cúmplices dessa lavagem verde (greenwashing), que perpetua ainda mais os danos ambientais”, afirma o documento.

“As instituições financeiras e seus clientes corporativos têm bastante experiência na fraude do ‘greenwashing’. Ao promoverem falsas soluções, como, por exemplo, créditos de carbono e de biodiversidade, aparentam estar promovendo ações relacionadas a questões climáticas e de biodiversidade, quando, na realidade, apenas encontraram uma nova forma de continuarem lucrando com a destruição”, critica Merel van der Mark.


Fonte: Repórter Brasil

Bilionários são os “beneficiários finais” de R$ 22 bilhões em subsídios agrícolas da União Europeia

Milhares de pequenas  propriedades agrícolas fecharam, de acordo com a análise de dados oficiais, mas opacos, dos estados-membros da União Europeia (UE)

farming euDezessete bilionários receberam subsídios agrícolas da UE por meio de empresas que possuíam total ou parcialmente ao longo de um período de quatro anos. Fotografia: Dominika Zarzycka/NurPhoto/Rex/Shutterstock

Por Arjit Niranjan para o “The Guardian

A União Europeiaconcedeu generosos subsídios agrícolas às empresas de mais de uma dúzia de bilionários entre 2018 e 2021, segundo o Guardian, incluindo empresas de propriedade do ex-primeiro-ministro tcheco Andrej Babiš e do empresário britânico Sir James Dyson.

Bilionários foram os “beneficiários finais” vinculados a R$ 22 bilhões de subsídios agrícolas da UE ao longo do período de quatro anos, mesmo com milhares de pequenas fazendas fechadas, de acordo com a análise de dados oficiais, porém opacos, de estados-membros da UE.

Os 17 “beneficiários finais” que apareceram na lista dos ricos da Forbes de 2022 incluem Babiš, o ex-primeiro-ministro tcheco que foi absolvido em fevereiro de fraude envolvendo subsídios agrícolas ; Dyson, o magnata britânico dos aspiradores de pó que argumentou que a Grã-Bretanha deveria deixar a UE e cuja empresa recebeu pagamentos antes do Brexit; e Guangchang Guo , um investidor chinês dono do clube de futebol Wolverhampton Wanderers.

Outros beneficiários bilionários de fundos dos contribuintes da UE incluem Clemens Tönnies, o magnata alemão da carne que admitiu que “estava errado” sobre Vladimir Putin em 2022; Anders Holch Povlsen, o entusiasta dinamarquês da reintrodução da vida selvagem e proprietário privado de terras no Reino Unido; e Kjeld Kirk Kristiansen, o fabricante de brinquedos dinamarquês e ex-CEO da Lego.

“É uma loucura”, disse Benoît Biteau, um fazendeiro orgânico francês e MEP dos Verdes no último parlamento europeu. “A vasta maioria dos fazendeiros está lutando para sobreviver.”

A UE doa um terço de todo o seu orçamento aos agricultores por meio de sua política agrícola comum (PAC), que distribui dinheiro com base na área de terra que o agricultor possui, e não na necessidade ou não de apoio.

Mas regras rígidas de privacidade, requisitos de transparência fracos e cadeias complexas de propriedade de empresas significam que pouco escrutínio tem sido possível sobre quem recebe o dinheiro. Em um estudo encomendado pelo comitê de controle orçamentário do parlamento europeu em 2021, pesquisadores do Centre for European Policy Studies (Ceps) descobriram que é “atualmente de fato impossível” identificar os maiores beneficiários finais do financiamento da UE com total confiança.

Para fazer uma estimativa melhor, os pesquisadores vincularam dados sobre beneficiários de subsídios agrícolas de cada estado-membro com um banco de dados comercial de empresas. Trabalhando de trás para frente a partir dos beneficiários, eles identificaram pessoas que possuíam pelo menos 25% de uma empresa em cada etapa da cadeia de propriedade para descobrir os “beneficiários finais”.

A análise observou a pessoa física final no final de uma cadeia de empresas, disse Damir Gojsic, um pesquisador de mercados financeiros que coescreveu o relatório do Ceps e atualizou a análise para o Guardian. “Idealmente, você se concentraria em milionários, mas não há uma lista de milionários por aí.”

Gojsic descobriu que 17 bilionários receberam doações agrícolas da UE por meio de empresas que eles possuíam total ou parcialmente ao longo do período de quatro anos. A soma total de dinheiro vinculada aos bilionários era de R$ 22 bilhões, mas a cadeia de empresas era muito complexa e imprecisa para ponderar os valores por sua participação acionária, disse ele.

Cientistas criticaram “incentivos perversos” no Cap que empurram fazendeiros a destruir a natureza. Eles estimam que 50%-80% dos subsídios agrícolas da UE vão para a agricultura animal em vez de alimentos que seriam melhores para a saúde das pessoas e do planeta.

“Precisamos de uma rápida transição alimentar para um futuro mais saudável e os subsídios são a maior alavanca econômica para a mudança”, disse Paul Behrens, pesquisador de mudanças globais na Universidade de Leiden, que não estava envolvido no estudo.

Ele disse: “A desigualdade no PAC é extrema e este trabalho destaca novamente o quanto os proprietários de terras mais ricos continuam a ficar mais ricos com os subsídios. Embora a transparência no Cap tenha melhorado ao longo do tempo, a quantidade de trabalho de detetive necessária para descobrir como o dinheiro público dos impostos é gasto é espantosa.”

A maioria dos 17 bilionários não respondeu aos pedidos de comentários. Alguns se recusaram a comentar.

A Dyson Farming escreveu uma carta ao The Guardian no ano passado argumentando que ele “nunca apoiou a base do PAC”. Um porta-voz da Dyson Farming disse que a família investiu R$ 1,06 bilhão para melhorar de forma sustentável suas fazendas e terras agrícolas, além do custo da terra, o que “supera qualquer pagamento de subsídio” recebido pela Dyson Farming Ltd. Eles disseram: “Suas empresas também contribuíram com muitas centenas de milhões de libras em impostos e tarifas da UE.

“As fazendas agora empregam mais de 250 pessoas e usam agrotecnologia e inovação para dar suporte à segurança alimentar do Reino Unido. Somente em 2023, a Dyson Farming produziu de forma sustentável 40.000 toneladas de trigo, 12.000 toneladas de batatas e 750 toneladas de morangos britânicos fora de estação, o que evita as milhas aéreas e o impacto de carbono das frutas importadas do exterior.”

Thomas Dosch, chefe de relações públicas da Tönnies, disse que a empresa apoiava uma “reorientação” da política agrícola europeia para que os agricultores que trabalhassem de maneiras ecologicamente corretas fossem compensados ​​pela perda de renda associada. “Nenhum subsídio deve ser pago pela quantidade de produtos ou como prêmios de área por hectare”, disse ele.

Outra opção seria sancionar comportamentos prejudiciais ao meio ambiente impondo altos custos, ele acrescentou. “No entanto, se isso levasse a preços de alimentos muito mais altos e talvez até mesmo a escassez de alimentos, acredito que isso seria politicamente inaceitável.”


Fonte: The Guardian

A Uenf e o Porto do Açu: um acordo de cooperação que só servirá aos donos do enclave

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Enquanto agricultores que tiveram suas terras tomadas aguardam pelas indevidas devidas há mais de uma década, a Uenf serve para dar credibilidade às fantasias de ESG do Porto do Açu

Graças a uma iniciativa singular de um colega, pude revisitar brevemente a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) como um daqueles produtos benignos do fim do ciclo militar inaugurado com o golpe de estado de 1964.   O fato é que foi graças à mobilização popular ocorrida em Campos dos Goytacazes e à eleição de um líder político exilado pelo regime militar, no caso Leonel Brizola, que a Uenf foi criada. E se sublinhe, com um desenho institucional altamente inovador, pois Brizola entregou a um intelectual militante, Darcy Ribeiro, a tarefa de desenvolver um modelo institucional que estivesse à altura dos desafios impostos pela realidade socialmente injusta que existia (e persiste) na região Norte Fluminense.

Passadas mais de três décadas da criação da Uenf, sua gênese nas lutas populares está majoritariamente esquecida, e na instituição fundada por exigência do povo pobre de Campos dos Goytacazes está instalada uma visão empresarial (que nada tem de empreendedora) que não apenas ignora os objetivos fundacionais da instituição, mas dá passos largos para apagá-los.

Um exemplo disso é um termo de cooperação em vias de ser assinado com o Porto do Açu, empreendimento que não passa de um enclave geográfico que está posto na paisagem do V Distrito como um elemento estranho para sugar tudo o que puder, deixando um rastro de destruição social e ambiental. Nas palavras de um respeitado pesquisador aqui da região “o Porto só quer tirar e só se importa com o que é bom para ele”.

 O fato é que para o Porto do Açu e seus proprietários alojados no fundo de “private equity“, o EIG Global Partners, acordos com instituições universitárias públicas como a Uenf (mas também a UFF-Campos e o IFF) são muito interessantes porque garantem mais uma meia página (ou uma, quando muito) nos relatórios anuais de governança corporativa. Isso acaba valendo milhões de dólares para os acionistas secretos de fundos de private equity, pois no mercado da governança sócio-corporativa (ESG), este tipo de acordo serve para acomodar preocupações dos seus investidores. Já para a Uenf (e UFF e IFF), o que fica é uma enorme mancha na imagem de que são instituições realmente voltadas para contribuir para um processo de desenvolvimento social e ambientalmente justo, e não para perpetuar um modelo que é social e ambientalmente desagregador e segregador.

Tenho que frisar aqui o estudo recentemente completado pela minha orientanda Jesa Mariano no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais que mostrou que os programas de ESG do Porto do Açu não mudaram em nada a vida dos habitantes do V Distrito de São João da Barra, especialmente agricultores familiares e pescadores artesanais, que receberam e recebem as piores consequências da instalação desse enclave geográfico.

Aliás, como alguém que vem realizando pesquisas no V Distrito de São João da Barra desde antes do início da instalação do Porto do Açu, posso dizer que as questões que valem a pena de serem pesquisadas ocorrem fora das cercas que demarcam o território desse enclave internacional. Tanto é verdade que já desses estudos já saíram dissertações de Mestrado e teses de doutorado que resultaram em capítulos de livros e incontáveis artigos científicos. 

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Agricultores protestam na Barra do Açu contra a tomada de suas terras para implantação do Porto do Açu

O inconveniente para o Porto do Açu e seus proprietários é que esses trabalhos realizados sem a chancela oficial de acordos de cooperação como o que está para ser assinado com a Uenf mostram os graves efeitos ambientais e sociais que o enclave vem causando em São João da Barra. A começar pelo fato de que as centenas de propriedades forçosamente tomadas, muitas vezes com o uso de violência extrema, pelo governo do Rio de Janeiro de seus legítimos proprietários agora se encontram sob controle de fato do Porto do Açu, sem que seus proprietários, agricultores pobres, tenham sequer a perspectiva de que um dia serão ressarcidos pela perda de suas terras. 

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Agricultor mostrando seu plantio de abacaxi afetando pela salinização causada pelo Porto do Açu

Mas estudos realizados pelos meus orientandos no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente (Sesma) do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) também já identificaram a ocorrência de um processo erosão costeira e de salinização de águas continentais, fatos que complicam ainda mais a existência daqueles que se recusam a abandonar um território forte e negativamente impactado pela implantação do Porto do Açu.

Apesar da eventual assinatura de um termo de cooperação entre Uenf e Porto do Açu, uma coisa é certa: os estudos que documentam os malfeitos do enclave geográfico vão continuar, pois na instituição criada por Brizola e Darcy ainda há quem queira cumprir os objetivos fundacionais do que deveria ser uma Universidade do Terceiro Milênio comprometida com a felicidade do povo e não de quem o faz sofrer. E mais importante, enquanto os atingidos não forem ressarcidos e os danos ambientais continuarem avançando, o que não faltará é objeto de pesquisa. E no que depender de mim e dos meu grupo de pesquisa, o compromisso sempre será com os atingidos, compromisso esse que nunca caberá em acordos que só beneficiarão os donos do enclave.

COP 16: Ativismo e Greenwashing

A conferência da ONU sobre proteção da biodiversidade em Cali, Colômbia, é um símbolo de conflitos ambientais

cali cop16Esperança pela proteção das espécies? Ativistas manifestam o seu ceticismo à margem da cimeira da ONU. Foto: Agência EL UNIVERSAL/Estrella

Por Sarah Meyer para o Neues Deutschland

A Colômbia – o país que tem o maior número de ativistas ambientais assassinados no mundo e é o lar de uma das maiores biodiversidades – acolhe a Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Ameaçadas de Extinção (COP 16) deste ano em Cali. O lema da conferência é “Paz com a Natureza” e o seu objetivo é um plano para implementar os 23 objetivos da ONU da COP 15 em Montreal para conter a destruição ambiental e a extinção global de espécies até 2030.

Cali, conhecida como a “Cidade dos Pássaros”, serve como símbolo das tensões do país: a biodiversidade encontra a monocultura, a pobreza extrema encontra a riqueza e o protesto social encontra indústrias poderosas. A conferência deste ano enfatiza pela primeira vez as perspectivas indígenas e afro-colombianas, mas destaca os conflitos profundos entre a população local e a política.

Em Cali, os participantes da conferência estão espacialmente separados: representantes dos quase 200 estados participantes reúnem-se na “zona azul”, a área protegida para negociações políticas e delegações de alto escalão. A população indígena e afro-colombiana encontra-se predominantemente na “zona verde” aberta ao público – simbolicamente distante dos processos de tomada de decisão. Luis Acosta, porta-voz da Guarda Indígena e da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Colômbia, critica duramente esta separação. “Basta de ser explorado”, explica. “Queremos ter uma palavra a dizer em pé de igualdade.”

Esta representação das minorias étnicas é promovida pelo governo de esquerda do presidente Gustavo Petros – por exemplo, elas são consultadas sobre determinados temas na “zona azul”. Mas a exclusão estrutural da “zona azul” permanece.

Petro tenta dar espaço ao seu compromisso com as minorias no evento de abertura da conferência. Ele critica a crescente monocultura da cana-de-açúcar que domina a área a redor de Cali e expulsa as minorias étnicas. Sua afirmação de que as comunidades estão migrando para as favelas por causa da grande propriedade de terras é recebida com aprovação. O prefeito de Cali, Alejandro Eder, e a governadora Dilian Francisca Toro – ambos ligados à indústria açucareira – são vaiados.

Povos indígenas de todas as regiões da Colômbia também protestam em torno da COP 16 pela proteção de suas áreas e pelo financiamento direto que deveria beneficiar a natureza. Eles estão pedindo o afastamento das indústrias extrativas. Estes não só ameaçaram o seu ambiente, mas também a sua saúde.

Enquanto os representantes indígenas e afro-colombianos na “zona verde” esperam o apoio da sociedade civil, as grandes empresas estão a aproveitar o palco para o greenwashing, ou seja, para criar uma imagem sustentável. O grupo cervejeiro da Baviera e empresas de comunicação social como El Tiempo, por exemplo, declaram o seu apoio à protecção ambiental.

Um colombiano mais velho que observa os estandes das grandes empresas na “zona verde” resume o estado de espírito de muitos dos presentes: “É absolutamente ridículo o que estão fazendo aqui. Para os ativistas ambientais no local, isto é um exemplo”. de como os interesses económicos são colocados acima das preocupações da natureza e das populações marginalizadas.

Os conflitos entre interesses econômicos e proteção ambiental são visíveis não só em torno de Cali, mas também no norte da Colômbia. Há greves em Guajira durante a COP 16. Os grevistas culpam a mina de carvão El Cerrejón, operada pela empresa suíça Glencore, pelos problemas de saúde e pela escassez de alimentos entre a população indígena. A mina também abastece a Alemanha com carvão.  Petro anunciou que iria eliminar completamente o carvão e, em vez disso, construir parques eólicos na região com parceiros alemães. No entanto, a população local permanece cética.

De acordo com o Juiz Especial para a Paz, a mineração ilegal, a guerra civil que já dura mais de 50 anos e os conflitos de drogas são fatores importantes na destruição ambiental. A natureza é reconhecida como uma “vítima silenciosa” do conflito armado. O Painel para a Paz defende a avaliação e punição dos combates armados.

Na COP 16, os movimentos sociais que fazem campanha contra diversas outras injustiças também querem fazer ouvir a sua voz. Mães cujos filhos foram assassinados nas ruas pelas forças de segurança do Estado durante os protestos de 2019 e 2021 fizeram campanha por informação. Indivíduos como uma antiga empregada doméstica que escondeu o seu filho de um político que a violou também estão a tentar chamar a atenção para si próprios com sinais de protesto.

Muitos ativistas da COP 16 não acreditam nos grandes acordos que serão celebrados na “zona azul”. Em vez disso, esperam que as suas vozes na “zona verde” sejam pelo menos ouvidas na sociedade e desencadeiem um repensar. O radialista Camilo Adolfo Mayor, da estação Oriente Estéreo, explica a esperança emergente com a presidência do Petro desde 2022: “Com o primeiro governo de esquerda, abriu-se um lugar para a base”.


Fonte: Neues Deutschland 

Bomba climática em Valência: após a catástrofe das inundações, população se organizam em face da inação dos governantes


paraportaPrincípio da autoajuda: Os voluntários tomam a reparação dos danos com as próprias mãos (Paiporta, 1 de novembro de 2024)

Por Carmela Negrete para o JungeWelt

Milhares de pessoas, incluindo muitos jovens, organizaram-se para apoiar os residentes nas zonas mais gravemente danificadas da região espanhola de Valência. Com vassouras, latas de água e mochilas cheias de comida e remédios, eles se deslocam pelas ruas, que muitas vezes só são transitáveis ​​a pé por quilômetros. As autoridades espanholas alertaram contra o uso de carros nas áreas do desastre, especialmente nas muitas aldeias onde as chuvas torrenciais causaram os piores danos na terça-feira. Relatos da mídia e pedidos de ajuda nas redes sociais confirmam que muitas pessoas ainda estão presas em suas casas.

Embora a ajuda institucional demore a chegar, os refeitórios sociais estão a ser improvisados ​​com o que ainda pode ser encontrado. Sem eletricidade, sem água. Particularmente pérfido: em locais onde ainda não chegou nenhum apoio e onde já não existem oportunidades de compras, os residentes ainda recebem avisos se, por exemplo, retirarem água ou alimentos em lojas fechadas.

Foi a pior tempestade que a Espanha sofreu em cem anos. A verdadeira extensão dos danos ainda é desconhecida. O número de pessoas desaparecidas está na casa dos milhares. Segundo fontes oficiais, 202 mortes foram registradas até a tarde de sexta-feira. Ao mesmo tempo, as redes sociais estão repletas de mensagens de vizinhos alegando que os corpos ainda estão debaixo de escombros, em caves e garagens inundadas, ou mesmo em casas que precisam de ser recuperadas.

Na quinta-feira, o presidente regional Carlos Mazón, membro do conservador Partido Popular (PP), anunciou que o exército seria utilizado para trabalhos de limpeza. O Ministério da Defesa enviou então 1.700 soldados dos cerca de 120.000 que compõem o exército espanhol – um número que parece ridículo tendo em conta a destruição e que faz pouca diferença, como relatam numerosas testemunhas oculares. O partido de esquerda Podemos apela ao governo para que declare o estado de emergência, mobilize todas as forças disponíveis e confisque temporariamente hotéis e outros alojamentos. À medida que as pessoas procuram ajuda desesperadamente, os preços dos hotéis em Valência disparam.

O próprio Mazón é cada vez mais criticado. Governando junto com o partido negacionista do clima Vox, ele aboliu a unidade de resgate de desastres naturais durante seu mandato e enganou a população no pior momento da terça-feira, quando anunciou às 18 horas que a chuva iria parar em breve – exatamente no momento em que a tempestade realmente começou. Ironicamente, as autoridades receberam permissão para voltar para casa mais cedo para evitar serem apanhadas pela tempestade.

Houve avisos: o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) tinha publicado uma previsão cinco dias antes que previa o que aconteceria então de uma forma muito semelhante, explicou Antonio Turiel, especialista em clima do Conselho Superior de Investigação Científica ( CSIC), na quinta-feira o canal Canal Red . “Se eventos com intensidade e destrutividade equivalentes a um furacão são iminentes”, diz Turiel, “medidas como evacuações” devem ser ordenadas.


Fonte: JungeWelt

PT, direita volver!

pt direita volver

Passados alguns dias do segundo turno das eleições municipais já é possível afirmar, lendo declarações de alguns dos seus principais dirigentes, que o PT está inclinando-se para a direita, com uma firmeza que não deveria deixar mais dúvidas. Uma hora é o deputado federal (PT/SP) que afirma que o PT deveria ter feito um esforço maior para se aproximar do prefeito recém-eleito da capital paulista. De forma quase sincrônica, o (de) novo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, classificando o apoio dado a Guilherme Boulos (PSOL) como uma espécie de morte anunciada, pois, para o falante vice-presidente nacional do PT, o certo seria fazer alianças mais à direita com partidos como PP, PSD e Republicanos que garantiram a vitória apertada em Fortaleza. E a chamada “esquerda” do PT, essa até onde se sabe permanece muda, sem mostrar capacidade ou, pior, disposição de combater a narrativa de próceres do calibre de Tatto e Quá quá.

O que sabe até agora é que foi disparada uma disputa pelo comando nacional do PT, e que deverá  contrapor membros da mesma tendência interna, a “Construindo um Novo Brasil” (CNB), que, apesar de discordâncias pontuais, quer fixar o partido em uma posição de centro (direita) a partir da qual se poderá continuar apoiando as medidas recessivas retiradas do mais puro caldo neoliberal pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Aliás, falando em Haddad, ele após visitar os banqueiros da Faria Lima está preparando um pacote de maldades dignas de terem sido engendradas por Paulo Guedes. que está sendo escondido pelo singelo nome de “pacote de revisão de gastos”.  Mantido até agora sob uma cortina de fumaça, esse pacote deverá atingir os mais pobres, começando por limitar via reformas da constituição federal gastos com saúde e educação.  Mas de forma prática, os cortes deverão afetar o chamado Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e outros direitos essenciais.

O fato é que com a aplicação desse pacote, o que deverá ocorrer será uma concentração ainda maior dos recursos públicos nas mãos dos banqueiros, e um aumento ainda maior  das dificuldades dos trabalhadores brasileiros de terem acesso a serviços públicos essenciais. E aí que o PT e o governo da frente ampla se dão as mãos para abraçarem os partidos da direita e da extrema-direita, seja na aprovação do pacote de maldades de Fernando Haddad, seja na formação de alianças para as eleições de 2026.

Esclareço que essa é uma análise muito preliminar do que eu estou chamando de uma inexorável e firme marcha do PT para a direita.  A lição que fica, até para militantes sinceros do PT, é que não é possível ficar apostando em uma suposta guinada para a esquerda, que sempre se espera em nome da memória afetiva do que o PT já foi ou de que poderia ter sido.  A verdade crua e nua é que há que se apostar na construção de outros instrumentos de luta, partidária e ´para além dela, para fazer frente às políticas neoliberais que continuam sendo impostas sobre os trabalhadores brasileiros.

Essa guinada para a esquerda deve começar por abandonar as ilusões no PT, rejeitar as teses neoliberais e de contrapor esse programa de destruição do Estado e da coisa pública com a construção de uma nova direção política que seja capaz de mobilizar a classe trabalhadora em defesa de seus direitos.  Um bom exemplo desse esforço de construção, é o abaixo-assinado que está circulando para obter apoio para a luta contra o que está sendo chamado de “Pacote Antipovo” de Fernando Haddad. Quem se interessar em ler e apoiar, esse movimento em defesa dos direitos trabalhadores, basta clicar [Aqui!].