Agronegócio financia lobby para patrulhar livros didáticos

De Olho No Material Escolar tem entre seus líderes um ex-executivo da indústria de agrotóxicos, nega o impacto do desmatamento da Amazônia causado pela pecuária e vê até poemas de autores como Ferreira Gullar como conteúdos negativos sobre o agro

lobby livros didáticos

Por Hélen Freitas | Edição Paula Bianchi e Diego Junqueira para a Repórter Brasil

“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.

“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu. 

Cientista político e um dos fundadores do Partido Novo, ele lidera uma organização que se apresenta como um grupo de pais e mães apartidários preocupados com o ensino dos filhos. Na prática, porém, trata-se de um movimento financiado por empresas do agronegócio com um objetivo: alterar materiais didáticos para retratar o setor de forma mais positiva.

Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)
Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)

Com apenas três anos, a De Olho No Material Escolar, conhecida como Donme, cresceu e vem ganhando espaço em instituições públicas. Já fechou parceria com a Universidade de São Paulo (USP), tem portas abertas nas secretarias de Educação e de Agricultura do estado e mantém diálogos com a cúpula do Congresso, em Brasília, na tentativa de influenciar o novo Plano Nacional de Educação (PNE) – que vai estabelecer as diretrizes da educação na próxima década. 

Por trás desta atuação, porém, está o financiamento de dezenas de empresários e corporações do agronegócio. A organização declara 70 empresas entre os membros, mas não diz quem são. Um estudo ainda inédito, de pesquisadoras da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mostra que na lista estão grandes associações, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, a Cargill, o Itaú BBA e a Cosan.

A associação também é financiada pela Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.

“Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”, afirma a Donme em seu site.

Em conjunto com a USP, por exemplo, a organização criou a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio. Nela, é possível encontrar conteúdos que negam que o Brasil seja o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tema frequente nas falas da Donme. 

No entanto, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o Brasil lidera com folga o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países com as maiores áreas de lavoura no mundo. A média aqui é de mais de 12 kg aplicados por hectare. Na sequência estão Indonésia (6,5 kg/ha), Argentina (5,9 kg/ha) e Estados Unidos (3 kg/ha).

Negar a responsabilidade da pecuária pelo desmatamento na Amazônia e a existência de trabalho escravo na cana-de-açúcar também fazem parte desta estratégia – ainda que diversos estudos apontem a criação de gado como o principal vetor da destruição na Amazônia, e mesmo que a cana seja um dos setores que mais empregam mão-de-obra escrava, com 1.105 trabalhadores resgatados nos últimos quatro anos. 

Especialistas em educação pública ouvidos pela Repórter Brasil classificam a organização como uma versão atualizada do “Escola Sem Partido”, que há uma década passou a fiscalizar o material didático e promover perseguições a professores para impedir uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas. 

Para o professor da pós-graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Rodrigo Lamosa, que pesquisa políticas públicas de educação, o posicionamento da organização é, muitas vezes, “absolutamente ideológico e nada científico”.

“Os livros didáticos são produzidos por autores diversos, são avaliados no interior das editoras e depois no Programa Nacional do Livro Didático, que é um dos maiores programas de distribuição de livros públicos e gratuitos do mundo”, afirma Lamosa. “Então, por mais que a gente possa ter divergências e críticas a alguns livros, isso é parte do processo que constitui a diversidade do campo educacional”, complementa

Um dos objetivos do movimento é ir contra essa diversidade para impor uma visão única, opina o professor da Faculdade de Educação da USP Daniel Cara. “O agronegócio considera que a educação é uma esfera importante para disputa da hegemonia das ideias na sociedade, para disputa da formação de opinião pública”, afirma ele, que é membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).

Lobby da associação mira plano nacional de educação

Inicialmente batizada de “Mães do Agro”, a Donme foi fundada em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.

Ela faz parte de uma família influente no agronegócio, com empresas e fazendas em São Paulo e Goiás, nos ramos de pecuária, cana-de-açúcar e soja. Letícia é considerada uma das mulheres mais poderosas do agro pela revista Forbes, juntamente com a sua sogra, Helen Jacintho. Também fundadora da Donme, Helen é membro do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). 

Em três anos, a organização conquistou associados em 17 estados e 129 cidades. Entre suas ações, a entidade realiza palestras, treinamentos e análise de materiais escolares. Organiza reuniões com editoras de livros didáticos, além de excursões a feiras do agronegócio para alunos, professores e profissionais das editoras. Atua também no lobby em Brasília. 

Apenas neste ano, a organização já se reuniu pelo menos duas vezes com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para debater o Plano Nacional de Educação (PNE). O documento deve ser votado em 2025, com validade para os próximos dez anos.

O documento de referência do plano, divulgado em dezembro, foi alvo de críticas da De Olho No Material. A associação diz que a proposta é pouco plural, carece de “base técnico-científica na abordagem do conteúdo” e apresenta “postura refratária à iniciativa privada”. 

As críticas foram apresentadas em uma nota assinada conjuntamente por outras associações do agro, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Desde então, a Donme realizou diversas investidas em Brasília. Além dos encontros com Pacheco e Lira, reuniu-se com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), presidente da Comissão de Educação da Câmara. Em março, o deputado apresentou os resultados de um estudo da Donme, que avaliou as menções ao agro no material escolar, durante uma reunião da Frente Parlamentar Agropecuária. 

O deputado corroborou a visão da associação de que os livros didáticos supostamente trazem uma visão distorcida do agro, e prometeu pautar a Comissão de Educação. “Afinal de contas, o agro é que sustenta, e é locomotiva deste país”, justificou.

Já em abril, quando o Senado realizou uma sessão temática para debater o PNE, a Donme indicou vários nomes para discursar. A sessão foi solicitada pela senadora Damares Alvares (Republicanos-DF) a pedido da associação, segundo apurou a Repórter Brasil.

O PNE, porém, só deve avançar quando for analisado o requerimento do deputado federal Rafael Brito (MDB-AL) e de outros 13 parlamentares, para que seja criada uma comissão mista de análise do plano, composta por deputados e senadores. Desde julho o pedido está parado na Câmara.

donmeEm encontros com os presidentes da Câmara Arthur Lira e do Senado Rodrigo Pacheco, a De Olho no Material Escolar apresenta suas propostas para o Plano Nacional da Educação (Fotos: Reprodução Redes Sociais)

Para a coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, a Donme está atuando junto com a bancada ruralista em torno do novo PNE, e pode impedir avanços em temas como as mudanças climáticas.

Procurada, a De Olho No Material Escolar disse em nota que trabalha para a melhoria da qualidade do conteúdo didático sobre o agronegócio oferecido às escolas, independentemente do tema. “Nosso principal ponto é que a ciência esteja presente nos livros didáticos com dados e informações técnicas e reais, por isso a parceria com institutos de pesquisas e instituições de ensino especializadas no setor”. Leia a resposta completa.

Movimento influencia escolas particulares

Embora já tenha alcançado a cúpula do Congresso, o movimento teve início com uma simples carta enviada a uma escola particular de Barretos, interior de São Paulo.

Letícia Jacintho e outros pais escreveram para um colégio na cidade que utilizava o material didático do sistema Anglo, para criticar como temas como desmatamento e povos indígenas eram abordados. Segundo a carta, “as crianças são incentivadas a manifestar piedade aos índios e repudiar a cultura da cana-de-açúcar [por retirar as terras dos indígenas]”.

Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)
Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)

O protesto viralizou quando o agrônomo e político Xico Graziano, ex-secretário de Meio Ambiente no governo de José Serra e voz influente no agro, divulgou a história. “Tem coisa errada [nos livros], tem coisa doutrinária, esquerda, esquerdismo”, disse Graziano.

Na carta ao Anglo, os pais afirmavam que a realidade do campo é “totalmente” diversa da retratada nos livros. “A cana-de-açúcar é responsável por uma parcela importantíssima de nossos empregos e renda”, escreveram. 

Após o episódio, Letícia decidiu realizar um estudo sobre materiais didáticos, mas faltava o financiamento. Foi quando entrou em cena a Croplife Brasil, associação das fabricantes de agrotóxicos, que era então presidida por Christian Lohbauer. 

“A gente [Croplife] foi um dos principais financiadores do estudo, junto com todo um pessoal que eu ajudei a angariar das associações do agro. A pecuária, os exportadores de carne, os exportadores de frango e suínos, açúcar e etanol, que são setores muito afetados [pelos livros escolares]”, lembrou Lohbauer em uma entrevista recente.

Em janeiro de 2023, Lohbauer deixou a presidência da Croplife para embarcar na Donme. Chamado de “professor”, o executivo passou boa parte da carreira em empresas, como a Bayer, e associações ligadas ao agronegócio, como a Abag. Ainda foi candidato a vice-presidente do Brasil pelo partido Novo em 2018. 

Ele também é comentarista da Brasil Paralelo, produtora conhecida pela veiculação de conteúdo audiovisual de extrema-direita, em um programa ao lado do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).

O estudo financiado pela Croplife – o mesmo apresentado pelo deputado Nikolas Ferreira à FPA – identificou que a maior parte das menções ao agro em 94 livros didáticos tinham tom negativo. Um dos exemplos apresentados é um poema de 1991 de Ferreira Gullar, que trata das condições precárias dos trabalhadores de cana-de-açúcar. Os resultados da pesquisa são utilizados pela associação em palestras, entrevistas e no lobby.

“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)
“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)

O discurso da Donme sensibilizou ao menos um representante do sistema Anglo, Mario Ghio, ex-presidente e atual conselheiro da Somos Educação, dona das marcas Anglo, Mackenzie, Ática e Saraiva. Ele se lembrou da carta de Letícia durante o evento do Lide neste mês.

“A gente se conheceu num momento duro, a Letícia veio me dar uma ‘paulada na cabeça’. Ela veio me criticar, e eu falei: ‘você tem razão’. Nós temos autores metropolitanos que viveram uma vida urbana e que acham que o mundo agropecuário é o Jeca Tatu do Monteiro Lobato ou é o destruidor da Amazônia, que eles leem em alguns meios de comunicação. A gente precisou reconhecer o problema, andar pra trás, educar todo mundo”, declarou.

Atualmente, a Somos Educação mantém parcerias com a Donme para a elaboração de vídeoaulas e treinamento para autores e editores. A reportagem não conseguiu confirmar se o material do sistema Anglo é alterado sob orientação da Donme. 

Questionada, a Somos Educação declarou que “todo o material didático é atualizado anualmente, seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”. “A Somos Educação se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização”, finalizou.

Parceria com a USP e aproximação do governo de SP

Não foi apenas o Anglo que abriu as portas para a De Olho No Material. Em Piracicaba (SP), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, decidiu colocar sua produção acadêmica à disposição da associação em um projeto de divulgação científica. 

Assim nasceu em 2022 a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com conteúdo do agronegócio. No repositório, porém, não há menções a fatos como  a responsabilidade do agronegócio por queimadas ou desmatamento.

Procurada, a Esalq não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

O governo paulista também abriu as portas para a Donme. “O primeiro estado que passou a adaptar os seus materiais próprios, os escritos, até por orientação do [ex-governador João] Dória, foi o estado de São Paulo junto com o movimento De Olho No Material, justamente porque a gente concorda que não dá para demonizar aquilo que nos sustenta”, declarou no evento do Lide o ex-secretário de educação do estado, Rossieli Soares. Ele já foi secretário de Educação do Amazonas, ministro da Educação do governo Michel Temer e é o atual chefe da pasta no Pará.

Repórter Brasil questionou a secretaria de educação paulista sobre mudanças no material didático e parcerias envolvendo a Donme, mas não houve retorno. Já a Donme declarou que não tem qualquer acordo com o governo de São Paulo, apesar de a sua presidente já ter dito em entrevista recente que está negociando com a pasta um treinamento para professores, que se chamará “Mestres do Agro”.

A Secretaria de Agricultura do estado também recebeu a Donme este ano, em reunião em fevereiro sobre materiais escolares. “Precisamos promover conteúdos com embasamento científico e vivência real para os jovens brasileiros”, afirmou após o encontro o secretário da agricultura Guilherme Piai, que também vem de uma família de produtores rurais. 

Em setembro, a secretaria anunciou a criação do programa Agro Jovem, “que prevê políticas públicas para integrar as novas gerações ao campo”, iniciativa celebrada pela De Olho No Material.

Para Lamosa,  a Donme utiliza-se de uma estratégia ideológica de disputa de espaço ao criar campanhas afirmando que os livros didáticos e a escola estão de costas para o agronegócio. “É uma falácia dizer que o agro não está dentro da escola. Todas as pesquisas sobre ações que eles vêm produzindo [dentro e fora da escola] mostram que eles estão lá. A questão é que eles querem o monopólio da escola”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil

Web of Science coloca o eLife ‘em espera’ devido ao seu modelo radical de publicação

suspenso

Tommy Vis Getty Images, adapto por N. Jessup/Science

Por Jeffrey Brainard para a “Science”

O Web of Science, um serviço líder de indexação bibliométrica, suspendeu ontem o periódico eLife de suas listagens porque seu novo modelo de publicação adotado no ano passado — que inclui revisão pública por pares, mas nenhuma decisão final sobre se um manuscrito é aceito ou rejeitado — entra em conflito com os padrões do Web of Science para garantir qualidade.

A medida pode colocar em risco o fator de impacto (FI) do periódico da eLife , a métrica controversa — determinada anualmente pela Clarivate, empresa controladora da Web of Science, com base na média de citações de artigos de um periódico — que é amplamente usada como um indicador de qualidade.

Veteranos da indústria editorial estavam esperando pela decisão da Web of Science. A suspensão era “provavelmente inevitável”, escreveu Richard Sever, diretor assistente da Cold Spring Harbor Laboratory Press e cofundador do servidor de pré-impressão bioRxiv, no X (antigo Twitter), porque os padrões de qualidade aplicados pela Clarivate e pela eLife > “claramente entram em conflito”.

Ainda assim, a gerência da eLife disse estar decepcionada com a decisão da Clarivate. “[Ela] sufoca tentativas de mostrar como a publicação e a revisão por pares podem ser melhoradas usando princípios de ciência aberta e, em vez disso, dá a aparência de suporte contínuo para modelos de publicação estabelecidos e ineficazes que precisaram mudar por tanto tempo”, eles escreveram em uma declaração online . A Clarivate não identificou nenhum artigo revisado pela eLife como carente de qualidade, diz Damian Pattinson, diretor executivo do periódico.

Em uma declaração por e-mail, a Clarivate diz que conduzirá uma revisão aplicando seus critérios de qualidade padrão, mas já tem preocupações sobre os artigos publicados sob o novo modelo porque as decisões de publicação da eLife são “desacopladas da validação por revisão por pares”. As descobertas da Clarivate podem levá-la a remover a eLife de sua Master Journal List, caso em que a revista não receberia mais um IF atualizado anualmente. Nesse caso, a Web of Science ainda pode indexar algum conteúdo que atenda aos critérios de qualidade. “Consideraremos o conteúdo que tem ‘força de evidência’ descrita pela revista como ‘sólida’, ‘convincente’, ‘convincente’ ou ‘excepcional’, mas excluiremos ‘incompleto’ ou ‘inadequado'”, diz sua declaração.

O curso de colisão foi traçado quando a eLife — uma revista sem fins lucrativos, seletiva e somente online focada em ciências biológicas — instituiu seu novo modelo de publicação em janeiro de 2023. Sob a nova abordagem, a revista mantém o que Pattinson chama de um processo rigoroso para determinar se uma submissão atende aos padrões para ser enviada para revisão por pares. Autores de artigos selecionados são cobrados uma taxa de US$ 2.500. Quando as revisões são recebidas, a revista as publica, sem assinatura, com um manuscrito, independentemente de serem positivas ou negativas, e elas e o artigo são livres para ler. Se o autor revisar o artigo para abordar os comentários, a eLife publica a nova versão. Além do Web of Science, a versão final do artigo também é indexada em outros bancos de dados acadêmicos, como PubMed e Google Scholar.

Anunciado como um experimento, os gerentes da eLife disseram na época que esperavam que o modelo aliviasse uma variedade de disfunções que afligem a publicação científica, incluindo longos atrasos e falta de transparência. Outro objetivo era desafiar o domínio do IF como um marcador de qualidade, que eles dizem ser inadequado e não confiável para esse propósito e fomenta uma dependência excessiva de alguns periódicos seletivos com pontuações altas; na época, a eLife tinha um IF relativamente alto de 6,4. Apesar das críticas à métrica, Pattinson disse que a eLife manteve discussões com a Clarivate desde o ano passado, argumentando pela manutenção do periódico na Lista de Periódicos Mestres da Clarivate. Ele chamou a suspensão da Clarivate de “um exagero”, acrescentando “isso parece uma tentativa de definir as regras da publicação acadêmica, e tenho uma preocupação real de que uma grande corporação como a Clarivate esteja fazendo isso. Parece-me algo que deveria ser muito liderado pela comunidade”.

A eLife tem enfrentado questões sobre se permanecerá financeiramente viável ou afastará cientistas. Em uma atualização publicada no ano passado , o periódico disse que mais de 90% dos autores escolheram sua nova opção de fevereiro a julho de 2023. (O modelo anterior, tradicional, ainda era oferecido naquela época.) O total de submissões caiu em um quarto em comparação com o mesmo período de meses em 2022, mas quase atingiu a meta da eLife . Pattinson diz que o crescimento tem sido forte este ano; o periódico planeja lançar uma atualização adicional sobre essas tendências em breve.


Fonte: Science

Renan Ferreirinha premia professores que votaram em Eduardo Paes aumentando de 26 para 32 aulas semanais

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Renan Ferreirinha pediu votos dos professores e agora entrega o presente: mais  6 aulas semanais

Poucos dias antes do primeiro turno das eleições municipais na cidade do Rio de Janeiro, o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha (um dos muitos que foram treinados pela Fundação Lehmann), publicou um vídeo em que pedia a desistência da candidatura do professor Tarcísio Motta que concorria ao cargo de prefeito pelo PSOL.   Lembro que em um vídeo muito articulado, Ferreirinha pedia que Motta desistisse para evitar a dispersão de votos que supostamente poderiam colocar a extrema-direita em um hipotético segundo turno que acabou não ocorrendo.

Eis que no dia de hoje saiu a notícia de que o prefeito Eduardo Paes enviou à Câmara do Rio um projeto de lei  que muda as regras para a contagem de horas-aula e de planejamento das atividades curriculares para os 40 mil professores da rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Em vez de a carga de trabalho ser calculada com base na hora inteira, a contagem passa a ser por minutos. Na prática, se o projeto for aprovado, os professores que trabalham no regime de 40 horas passarão a ministrar 32 aulas por semana (ver imagem abaixo).

horas aulas

Eu gostaria agora de ver o que Ferreirinha tem a declarar, bem como outros escapistas da esquerda, como é o caso do ex-deputado Marcelo Freixo. Aos professores que caíram na conversa de Ferreirinha et caterva e votaram em Eduardo Paes e não em Tarcísio Motta, está aí mais uma prova de que votar no supostamente mal menor é um grande engodo.

Mulher é mais vulnerável a efeitos de agrotóxicos, dizem pesquisadores

agrotóxicos mulheres

Por Priscilla Mazenotti para Rádio Nacional

As mulheres e as meninas são a parcela da população mais vulnerável aos efeitos de substâncias tóxicas que vêm da indústria, da produção extrativista e da agricultura. E esses efeitos podem durar várias gerações.

São questões como aborto espontâneo, câncer, problemas no sistema endócrino, puberdade precoce. O alerta é do relator especial da ONU sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana.

São diversos os produtos químicos que podem trazer essas desordens. Quando se fala de Brasil, a preocupação de especialistas é, também, com os agrotóxicos. Segundo o advogado Emiliano Maldonado, somos um dos países que mais usam essas substâncias no mundo.

“Infelizmente, o Brasil é campeão mundial de agrotóxicos. Dados apontam que consumimos mais de 720 mil toneladas dessas substâncias”.

Dentre os alimentos, alguns campeões: morango, arroz, pimentão e cenoura, por exemplo. Carolina Panis, pesquisadora na área de micropoluentes, agrotóxicos fala sobre os efeitos que essas substâncias podem ter no nosso organismo.

“Quando o agrotóxico consegue entrar no nosso corpo e simular o hormônio que produzimos naturalmente, ele tá causando um super estímulo desses receptores, no momento em que eles não deveriam estar trabalhando. Então isso vai ter, sim um impacto na criança. E na mulher adulta, isso tem uma consequência muito séria, que é a ligação direta com o desenvolvimento de câncer”.

E não são só os consumidores que estão submetidos a riscos. Carolina Panis chama a atenção para outra parte da população: as mulheres que trabalham na agricultura.

“A partir do momento em que elas são agricultoras ou manipulam EPI, utensílio ou roupa contaminada com agrotóxico, ele entra pela pele, porque elas não usam nenhum tipo de proteção. E a gente estima que essas mulheres têm risco aumentando de ter câncer de mama de mais de 50%, se comparar com mulheres ocupadas com atividades urbanas”.

E qual a solução? O caminho quem aponta é o advogado Emiliano Maldonado. Um deles é o uso de bioinsumos, um processo feito a partir de microrganismos.

“São possibilidades que o conhecimento científico e o uso de outros mecanismos têm apontado no sentido que a gente não perderia a nossa produtividade agrícola, e estaria protegendo a saúde dos consumidores e consumidoras brasileiras”.

O assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo dia 5, uma audiência pública vai debater a questão econômica dos agrotóxicos, da desoneração de IPI e ICMS para essas substâncias. Mas o relator, ministro Edson Fachin, entende que o assunto ultrapassa os limites jurídicos e envolve política agrícola, meio ambiente e saúde.

*Com produção de Beatriz Evaristo


Fonte: Agência Brasil

Negacionismo científico em alta na cúpula Petrobras: para explorar petróleo, diretora executiva nega a existência do sistemas de corais da Amazônia

recifes

O sistema de recifes da Amazônia, comprovado cientificamente mas negado pela Petrobras

Em abril de 2018, este blog noticiou a publicação de um artigo científico pela revista “Frontiers in Marine Science dando conta da existência de um complexo sistema de recifes na foz do Rio Amazonas.  Com comprovações científicas irrefutáveis, a descoberta revolucionou o conhecimento científico acerca do estabelecimento de sistemas de recifes em águas lamosas. Um dos cientistas responsáveis por essa descoberta foi o professor e pesquisador do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende.

coral reefs

Mapa do Great Amazon Reef System (GARS) mostrando locais de amostragem. A área cinza denota a área potencial coberta por recifes mesofóticos (56.000 km2). As letras A-D correspondem aos locais em que características típicas dentro de um gradiente de profundidade de 70 a 220 m.

Eis que na semana passada, a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos, se utilizou de uma aula na Coppe, o instituto de pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (achei isso um ultraje, já que em universidade pública deveria ser proibido atacar o conhecimento cientifico) para negar a existência dos corais da foz do Amazonas afirmando que tal sistema não passaria de uma “fake news científica“.

A razão para esse ataque a algo que já foi demonstrado científicamente é simples: a Petrobras quer impor a exploração de petróleo em uma região de grande biodiversidade e de alta importância social a despeito de todas as incertezas sobre a segurança das operações que seriam ali conduzidas.

O ataque da diretora executiva da Petrobras é uma demonstração de que a empresa, apesar de todas os esforços de greenwashing que realiza, continua presa em uma visão de exploração e produção que desconhece não apenas a existência de algo que foi objetivamente demonstrado pela ciência (no caso a existência de uma área de alta biodiversidade e singularidade ecológica), mas também os complexos processos ambientais que isso causa, a começar pelas mudanças climáticas que hoje ameaçam a sobrevivência da Humanidade.

A questão agora é de como a silente ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, vai reagir a este ataque ao conhecimento científico, especialmente porque envolve a ampliação de riscos climáticos, algo que parece ser uma das questões estratégicas para 2025, ano em que a Petrobras pretende começar a perfurar na região em que este ecossistema altamente singular existe.

Agrotóxicos foram encontrados em 80% das amostras de ar de comunidades agrícolas da Califórnia

pesticidas ar

Por Shannon Kelleher para o “The New Lede”

Quase 80% das amostras de ar coletadas no ano passado nas quatro comunidades com maior uso intensivo de agricultura da Califórnia continham resíduos de agrotóxicos, embora as concentrações fossem “improváveis ​​de serem prejudiciais à saúde humana”, de acordo com um relatório regulatório estadual divulgado recentemente.

O Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) coletou 207 amostras de ar em estações em Oxnard, Santa Maria, Shafter e Watsonville uma vez por semana ao longo de 2023, encontrando pelo menos um dos 40 agrotóxicos testados em 163 das amostras,  de acordo com os resultados .

As estações de monitoramento detectaram um total de 19 agrotóxicos diferentes nas amostras de ar, incluindo o herbicida pendimetalina e o fumigante 1,3-dicloroproneno (Telone), ambos associados ao câncer.

Esses produtos químicos e outros detectados pelo CDPR também foram associados a náuseas, falta de ar e irritação ocular e respiratória.

Apesar de ser proibido em 34 países, o Telone é o terceiro agrotóxico mais usado na Califórnia, e o CDPR foi  criticado por não implementar regulamentações  que protegessem adequadamente os trabalhadores rurais, em sua maioria latinos, do produto químico.

Todas as amostras foram coletadas nas dependências da escola, o que gerou preocupações entre defensores do meio ambiente e da saúde sobre riscos à segurança de crianças e outros membros vulneráveis ​​da comunidade.

“Os últimos resultados de amostragem de ar continuam a mostrar que os agrotóxicos pulverizados nos campos se afastam do local e contaminam o ar próximo, uma preocupação séria para aqueles que vivem, estudam ou trabalham perto de campos agrícolas”, disse Alexis Temkin, toxicologista sênior do Environmental Working Group (EWG), em um  comunicado à imprensa .

“Alguns agrotóxicos podem se espalhar por vários quilômetros dos campos, colocando muitas pessoas em risco, incluindo trabalhadores rurais e populações vulneráveis, como crianças pequenas, grávidas e idosos”, disse Temkin.

Nenhum dos agrotóxicos nas amostras de ar de 2023 foi detectado em concentrações iguais ou superiores aos níveis que o CDPR considera ameaçadores à saúde pública, disse o CDPR.

As “detecções de agrotóxicos abaixo das metas de proteção à saúde não indicam riscos para pessoas que vivem, trabalham ou vão à escola perto de campos agrícolas”, disse a agência estadual.

Apesar de detectar a presença de agrotóxicos na maioria das amostras, a agência emitiu um  comunicado à imprensa  no início deste mês afirmando que “95% de todas as análises de amostras não apresentaram agrotóxicos detectáveis”.

A maneira como a agência divulgou publicamente seus dados deturpou as descobertas e pareceu intencionalmente enganosa, disseram os críticos.

“Esta é uma desinformação deliberada com a intenção de enganar o público”, disse Jane Sellen, codiretora da Californians for Pesticide Reform. “É muito a serviço da indústria.”

Como um grande centro agrícola, a Califórnia aplica  mais agrotóxicos do que qualquer outro estado dos EUA . Um  estudo de 2022  publicado no periódico  Science of the Total Environment  descobriu que uma média de 5,7 milhões de libras de agrotóxicos por ano foram pulverizadas somente no Condado de Ventura, Califórnia, de 2016 a 2018, incluindo mais de 60 produtos com ligações conhecidas ao câncer. As seções de municípios dentro do Condado de Ventura onde pessoas de cor constituem a maioria da população tiveram tanto o maior uso de agrotóxicos quanto o uso de  produtoss mais tóxicos, descobriu o estudo.

Mas mesmo os moradores das cidades podem não conseguir evitar a exposição a agrotóxicos, de acordo com descobertas publicadas no início deste mês.

Um  estudo  publicado no periódico Environment International encontrou glifosato, o herbicida mais usado no mundo e o principal ingrediente do herbicida Roundup, em todas as 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados do país, embora o produto químico não seja usado em ambientes fechados.

“Descobrimos a ocorrência onipresente de glifosato e AMPA [seu produto de degradação] na poeira interna de residências em áreas urbanas nos Estados Unidos”, escrevem os autores, observando que a presença generalizada do herbicida na poeira interna “pode ser explicada por sua ampla aplicação nos EUA”.


Fonte: The New Lede

Concentrações de poluentes que aquecem a atmosfera da Terra atingiram níveis recordes em 2023

A concentração de dióxido de carbono aumentou mais de 10% em apenas duas décadas, relata a Organização Meteorológica Mundial

emissõesO aumento de poluentes e CO2 na atmosfera é impulsionado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM. Fotografia: Mark Waugh/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian”

A concentração de poluentes que aquecem o planeta e obstruem a atmosfera atingiu níveis recordes em 2023, disse a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Foi descoberto que o dióxido de carbono está se acumulando mais rápido do que em qualquer outro momento da história da humanidade, com concentrações aumentando em mais de 10% em apenas duas décadas.

“Mais um ano, mais um recorde”, disse Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. “Isso deve fazer soar o alarme entre os tomadores de decisão.”

O aumento foi motivado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM, e agravado por grandes incêndios florestais e uma possível queda na capacidade das árvores de absorver carbono.

A concentração de CO2 atingiu 420 partes por milhão (ppm) em 2023, observaram os cientistas. O nível de poluição é 51% maior do que antes da Revolução Industrial, quando as pessoas começaram a queimar grandes quantidades de carvão, petróleo e gás fóssil.

Concentrações de poluentes fortes, mas de curta duração, também aumentaram. As concentrações de metano atingiram 1.934 partes por bilhão (ppb), um aumento de 165% em relação aos níveis pré-industriais, e o óxido nitroso atingiu 336,9 partes por bilhão (ppb), um aumento de 25%, disse.

Saulo disse: “Estamos claramente fora do caminho para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2C e almejar 1,5C acima dos níveis pré-industriais. Isso é mais do que apenas estatísticas. Cada parte por milhão e cada fração de grau de aumento de temperatura tem um impacto real em nossas vidas e em nosso planeta.”

A queima de combustíveis fósseis – como a gasolina para abastecer um carro ou o carvão para alimentar uma usina termelétrica – libera gases que retêm a luz solar e aquecem o planeta.

A OMM alertou que esse aquecimento pode levar a feedbacks climáticos que são “preocupações críticas” para a sociedade, como incêndios florestais mais fortes que liberam mais carbono e oceanos mais quentes que absorvem menos CO2.

Houve uma ligeira desaceleração no crescimento das emissões globais na última década, mas um forte crescimento contínuo nas concentrações atmosféricas, disse Glen Peters, um cientista climático do Cicero na Noruega, que não estava envolvido no estudo. “[Isso] deve nos dar motivos para pensar sobre quão fortes os sumidouros de carbono permanecerão em um clima em mudança.”

A Terra experimentou pela última vez uma concentração comparável de CO2 há alguns milhões de anos, quando o planeta estava 2-3 °C mais quente e o nível do mar estava 10-20 metros mais alto.

Peters disse que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera são a “medida mais precisa” do progresso da humanidade. “Os dados mostram, novamente, que não estamos fazendo muito progresso na redução de emissões.”

O anúncio da OMM vem antes da cúpula climática Cop29 no Azerbaijão no mês que vem. Ele segue um relatório do Programa Ambiental da ONU na quinta-feira que descobriu que o mundo está a caminho de aquecer 3C até o final do século. Líderes mundiais prometeram impedir que ele aquecesse 1,5C.

Joeri Rogelj, cientista climático do Imperial College London e coautor do relatório, disse: “Os níveis recordes de dióxido de carbono em nossa atmosfera são o resultado lógico das quantidades recordes de gases de efeito estufa que nossas economias continuam a despejar em nosso ar ambiente.”

Cientistas estimam que investimentos de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões são necessários a cada ano para reduzir as emissões a zero até meados do século.

“As tendências atuais verão o aquecimento global cruzar todos os limites de aquecimento que os líderes globais concordaram no acordo climático de Paris de 2015”, disse Rogelj. “[O relatório] também mostra que isso não precisa ser o fim da história.”


Fonte: The Guardian

Abstenções, o dado escondido pela direita, mas também pela esquerda

Falta de identificação com projetos pode explicar alta de | Política

Tenho notado uma série de análises sobre a vitória dos partidos de direita e extrema-direita nas eleições municipais, mas vejo pouca coisa em relação às abstenções. Vale lembrar que abstenções incluem aqueles eleitores que sequer se dão ao trabalho de irem votar, em que pese a obrigatoriedade de voto.

Neste segundo turno das eleições municipais, o total de eleitores que se abstiveram foi 29,26%, um número que desde o ano 2000 só foi superado em 2020 quando o Brasil experimentava a dureza da pandemia da COVID-19 (ver imagem abaixo).  Na capital paulista, o índice foi ainda maior,  já que o número de ausentes chegou em 31,54%, ou seja, 2.940.360 eleitores (valor mais alto do que o dado a Guilherme Boulos que foi de 2.323.901 votantes).

abstenções

Esconder o total das abtenções serve a vários propósitos, mas o principal me parece ser o de esconder a descrença de uma parte considerável do eleitorado com o sistema político brasileiro. Esses eleitores que se abstém mandam um recado que me parece claro: este sistema não nos representa a ponto de que queiramos sair de casa para votar em quem quer que seja.

Quem deveria analisar este descontentamento em mais profundidade deveria ser aqueles partidos que se dizem de esquerda, pois muitas eleições se decidem em porcentagens muito menores do que a margem de abstenções. Mobilizar esse eleitorado poderia ser assim chave para garantir mais vitórias contra a direita e a extrema-direita.

O problema é que para mobilizar esse eleitorado, a dita esquerda teria que apresentar programas que representassem mudanças qualitativas e profundas na condição de vida dos brasileiros. O problema é que se olharmos com um mínimo de atenção o que estão propondo os partidos supostamente de esquerda, o que se verá é que seus programas não são assim tão diferentes da direita e da extrema-direita. E é aí que a porca torce o rabo.

Tsulama de Mariana: acordo multibilionário revela disputa acirrada por dinheiro, desagrada a quase todos e deixa perguntas sem resposta

sala de aula tsulama

Por Maurício Angelo e Ígor Passarini para o “Observatório da Mineração”

Quase nove anos depois do rompimento da barragem de Mariana em Minas Gerais, propriedade de Samarco, Vale e BHP, considerado o maior desastre socioambiental do Brasil e o caso mais complexo tramitando na justiça brasileira por seu ineditismo, número de atores envolvidos e extensão do dano, um acordo no valor de R$ 170 bilhões em números finais para tentar uma solução definitiva foi anunciado hoje.

A possibilidade de que este acordo encerre as disputas envolvendo as consequências do rompimento da barragem do Fundão, no entanto, são questionáveis. Os valores multibilionários chamam a atenção e revelam os números superlativos que sempre envolveram o caso.

Dos R$ 170 bilhões, R$ 100 bilhões seria “dinheiro novo”, ou seja, dinheiro extra que as mineradoras se comprometeram a aportar em uma série de ações nas próximas duas décadas. O volume de recursos repartido em várias áreas sob a gestão de diversos órgãos federais e estaduais injetará ainda mais dinheiro na bacia do Rio Doce, em Ministérios, no bolso de advogados, nas contas de assessorias técnicas, de representantes legítimos ou não das pessoas atingidas.

A disputa por essas centenas de bilhões foi e continuará sendo ferrenha. No fim, o acordo desagrada a quase todos, exceto, talvez, o governo federal e as empresas envolvidas, que conseguem encaminhar uma resolução no Brasil para um caso que se arrasta há quase uma década.

São muitas pontas soltas e perguntas sem resposta sobre o acordo anunciado hoje, que começou a ser mediado pelo Conselho Nacional de Justiça em julho de 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro. Todo o arcabouço construído ao longo de quase uma década por ações civis, termos de ajustamento de conduta, pactuações e repactuações, incluindo inúmeros questionamentos, devem ser empurrados para debaixo do tapete e celebrados como uma solução aceitável.

Em fevereiro de 2023, por exemplo, o procurador federal Carlos Bruno Ferreira, coordenador da Força-Tarefa responsável pelo Caso Samarco, em entrevista exclusiva ao Observatório da Mineração, afirmou nunca houve auditoria externa e independente dos R$ 36 bilhões que as empresas alegavam ter pagado na época (atualizado para R$ 38 bi no anúncio de hoje do governo), que o Ministério Público Federal não tinha “nenhuma informação” sobre onde estava sendo gasto o dinheiro e que isso não era verificável na prática na bacia do Rio Doce.

Esses valores, no entanto, entraram na conta do “dinheiro velho” já pago dentro do R$ 170 bilhões mesmo sem confirmação e auditoria externa. O release do governo Lula, no entanto, faz um aceno claro ao escrever que esses R$ 38 bi são o que as empresas “alegam já terem desembolsado”. A Ação Civil Pública impetrada pelo MPF em 2018 pedia R$ 155 bilhões, época, porém, em que muitos danos ainda eram desconhecidos e valor que, corrigido, ficaria acima do pactuado agora.

Os termos do acordo de hoje devem encerrar o sistema indenizatório simplificado adotado pelas empresas e Fundação Renova sob orientação do ex-juiz responsável pelo caso, criado no meio da pandemia e que despejou bilhões na bacia do Rio Doce, sobretudo no bolso de advogados de cidades pequenas com práticas suspeitas e questionáveis que ficaram multimilionários da noite para o dia.

Inicialmente tratado como “modelo”, o sistema foi posteriormente considerado ilegítimo, repleto de irregularidades e que padecia de “nulidades absolutas” de acordo com a justiça. Matérias exclusivas deste Observatório da Mineração sobre a atuação do ex-juiz foram preponderantes para o resultado.

O chamado “Novel” será substituído por um “Sistema Indenizatório Final e Definitivo (PID)”, que destinará R$ 10 bilhões para indenizações individuais. As pessoas que não conseguiram comprovar documentalmente terem sido atingidos ao atual sistema de indenização – caso de milhares de pessoas mesmo nove anos depois – receberão R$ 35 mil em uma parcela única.  Pescadores e agricultores atingidos receberão R$ 95 mil, além de R$ 13 mil adicionais referentes ao “dano água”. Estima-se que 300 mil pessoas receberão esses pagamentos.

Não há clareza ainda sobre os rumos da ação por crimes ambientais que de toda forma já prescreveriam em 2024, deixando um rastro de impunidade. Nove anos depois, a ação penal também praticamente não andou, ninguém foi responsabilizado e dezenas de réus já foram inocentados.

Dentre os R$ 100 bilhões de dinheiro novo, R$ 40,73 bilhões serão destinados diretamente aos atingidos, R$ 16,13 bilhões serão aplicados na recuperação ambiental, R$ 17,85 bilhões irão para ações socioambientais que beneficiam indiretamente atingidos e meio ambiente, R$ 15,60 bilhões para saneamento e rodovias, R$ 7,62 bilhões para municípios e R$ 2,06 bilhões para ações institucionais e transparência.

Foto de destaque: Isis Medeiros


Fonte: Observatório da Mineração

Nos EUA, agência de proteção ambiental é forçada a avaliar como agrotóxicos prejudicam os sistemas hormonais em humanos e na vida selvagem

dereguladores endocrinos

Por Sustainable Pulse

Após décadas de inação, na sexta-feira passada a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA)  divulgou  um plano proposto para implementar seu Programa de Triagem de Disruptores Endócrinos (EDSP), o programa da EPA para avaliar como os  agrotóxicos podem prejudicar os sistemas hormonais de humanos e animais selvagens.

O plano de implementação proposto é resultado de um acordo legal provisório entre a EPA e uma coalizão de trabalhadores rurais e organizações de saúde ambiental, incluindo o Center for Food Safety, a Alianza Nacional de Campesinas, a Organización en California de Líderes Campesinas, o Center for Environmental Health, a Pesticide Action Network of North America e a Rural Coalition, que  contestaram  a falha da agência em testar e regulamentar agrotóxiocos desreguladores endócrinos no tribunal em 2022.

O sistema endócrino, ou sistema hormonal, opera como um dos principais sistemas de controle do corpo, regulando quase todos os processos, do crescimento e desenvolvimento à fertilidade e função sexual. Os agrotóxicos podem perturbar o sistema hormonal aumentando a produção de alguns hormônios enquanto diminuem outros, e interferindo em sua sinalização. A perturbação pode prejudicar a fertilidade e a função imunológica, causar câncer e criar anormalidades metabólicas. Em 1996, o Congresso determinou que a EPA implementasse o EDSP para avaliar os potenciais efeitos de perturbação endócrina dos  agrotóxicos. Quase 3 décadas depois, a EPA testou menos de 50 dos mais de 1.315 agrotóxicos registrados para efeitos de perturbação endócrina e concluiu apenas 34 desses testes.

“Muitos dos agrotóxicos abrangidos pelo acordo estão ligados a defeitos congênitos, danos reprodutivos significativos e certos tipos de câncer em pessoas, particularmente trabalhadores rurais que estão em contato direto com esses produtos químicos tóxicos”, disse Sylvia Wu, advogada do Center for Food Safety, consultora dos demandantes no caso. “Após décadas de inação, apesar desses danos terríveis, como resultado do nosso processo, a EPA agora está comprometida com medidas muito necessárias para proteger os trabalhadores rurais e o público dos danos potenciais de desregulação endócrina dos agrotóxicos.”

Em outubro de 2023, quase um ano após os demandantes processarem a EPA, a EPA propôs uma revisão do EDSP. O acordo legal proposto hoje se baseia nessa revisão inicial ao definir prazos nos quais a EPA implementará o EDSP e avaliará os efeitos de desregulação endócrina dos agrotóxicos. Sob os termos do acordo proposto, nos próximos cinco anos, a EPA coletará dados e avaliará os efeitos dos agrotóxicos desreguladores endócrinos, seja como parte da revisão de registro da agência de pesticidas registrados ou como parte de novas aprovações de agrotóxicos. Para maximizar a proteção do trabalhador rural e da saúde pública, o acordo proposto oferece oportunidades para a contribuição do trabalhador rural na priorização de certos agrotóxicos e exige que a EPA forneça atualizações públicas regulares sobre o status de sua avaliação em andamento. De acordo com o acordo, a EPA concluirá a avaliação de desregulação endócrina para 86 agrotóxicos nos próximos 10 anos.

“A Alianza Nacional de Campesinas aplaude o acordo da EPA para avançar o Programa de Triagem de Disruptores Endócrinos (EDSP). Como mulheres trabalhadoras rurais, os perigos representados por produtos químicos desreguladores endócrinos em agrotóxicos são uma realidade vivida que ameaça nossa saúde e o bem-estar de nossas famílias. Embora o compromisso da EPA em implementar triagens de agrotóxicos seja um passo vital à frente, mais trabalho é necessário para garantir que produtos químicos nocivos sejam removidos inteiramente de nossos campos e comunidades”, disse Mily Trevino-Sauceda, diretora executiva e cofundadora da Alianza Nacional de Campesinas, uma autora no caso.

Estudos recentes mostram que os disruptores endócrinos estão no sangue ou na urina de quase todas as pessoas, impactando a fertilidade e a função sexual, os sistemas metabólicos, o sono e a resposta imunológica das pessoas. Sem a implementação legalmente obrigatória do teste EDSP para efeitos endócrinos, os agrotóxicos que provavelmente estão interrompendo o sistema endócrino permanecem registrados, expondo trabalhadores rurais, paisagistas, consumidores e animais selvagens a danos. A EPA está fornecendo um período de comentários públicos de 30 dias sobre o acordo legal proposto.


Fonte: Sustainable Pulse