O consumismo e a crise climática ameaçam o futuro equitativo da humanidade, diz relatório

A Comissão da Terra diz que a esperança reside em estilos de vida sustentáveis, numa transformação radical da política global e numa distribuição justa dos recursos

lixao india

Um catador de lixo carrega materiais recicláveis ​​cercado por vacas e cegonhas em um local de descarte em Guwahati, na Índia. Fotografia: Biju Boro/AFP/Getty Images

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Toda a humanidade poderia compartilhar um futuro próspero e equitativo, mas o espaço para o desenvolvimento está diminuindo rapidamente sob a pressão de uma minoria rica de ultraconsumidores, mostrou um estudo inovador .

A crescente degradação ambiental e a instabilidade climática levaram a Terra além de uma série de limites planetários seguros, dizem os autores da Comissão da Terra, mas ainda é possível criar um “espaço seguro e justo” que permita que todos prosperem.

Esse resultado utópico dependeria de uma transformação radical da política, economia e sociedade globais para garantir uma distribuição mais justa dos recursos, uma rápida eliminação dos combustíveis fósseis e a adoção generalizada de tecnologias e estilos de vida sustentáveis ​​e de baixo carbono, afirmou.

Isso provavelmente significaria que limites teriam que ser impostos ao consumo excessivo e que impostos teriam que ser usados ​​para lidar com a desigualdade e aumentar a receita para investimentos em tecnologia e infraestrutura.

A escala da mudança necessária alarmará muitos governos, reconheceu um dos principais autores. “Não será imediatamente bem-vinda. Até certo ponto, é assustadora, mas mostra que ainda há espaço para pessoas e outras espécies”, disse Joyeeta Gupta, ex-copresidente da Comissão da Terra e professora de meio ambiente e desenvolvimento no sul global na Universidade de Amsterdã.

O artigo é um “experimento mental” de 62 páginas por uma equipe internacional de 65 cientistas naturais e sociais que busca mapear como os 7,9 bilhões de pessoas do mundo poderiam permanecer dentro de limites planetários seguros enquanto acessam os níveis necessários de comida, água, energia, abrigo e transporte. Em seguida, projeta como isso pode mudar até 2050, quando a população provavelmente será de 9,7 bilhões de pessoas.

Publicado no periódico Lancet Planetary Health na quarta-feira, o artigo primeiro define um “piso” de justiça para padrões básicos de vida diária – definido como 2.500 calorias de alimentos, 100 litros de água e 0,7 kWh de eletricidade, juntamente com uma área útil de 15 metros quadrados e transporte anual de 4.500 km (2.800 milhas). Então eles calcularam quanto espaço havia entre isso e um “teto” de segurança – que foi definido por limites planetários – que estimou o quanto a humanidade pode pressionar o clima, os ecossistemas, os nutrientes e o fósforo e as fontes de água sem desestabilizar os sistemas da Terra.

Os resultados mostraram que, sob as atuais condições sociais e ambientais altamente desiguais e intensivas em combustíveis fósseis, é agora impossível para todos os humanos viverem vidas saudáveis ​​dentro deste “corredor seguro e justo”. Isso é ressaltado por estudos anteriores que mostram que sete dos oito limites planetários já foram violados .

Os pobres são afetados desproporcionalmente. O artigo identifica os locais ao redor do mundo onde as populações são mais vulneráveis ​​a danos causados ​​por colapso climático, perda de biodiversidade, poluição e escassez de água. Isso inclui a Índia, onde aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem em terras degradadas; a Indonésia, onde 194 milhões de pessoas são expostas a níveis inseguros de nitrogênio; e o Brasil, onde 79 milhões de pessoas são expostas a níveis inseguros e injustos de poluição do ar. Na China, Índia e Paquistão, mais de 200 milhões de pessoas também estão sendo expostas a temperaturas de bulbo úmido perigosamente altas , com aquecimento global do clima entre 1 °C e 2 °C acima dos níveis pré-industriais.

Isso poderia ser evitado. O estudo diz que um espaço seguro e justo ainda é teoricamente possível hoje, reduzindo o uso de recursos dos 15% maiores emissores e a rápida adoção de energia renovável e outras tecnologias sustentáveis.

Um grupo de pessoas caminhando em meio à água marrom da enchente, na altura da cintura, agarradas a um veículo com seus pertences no teto

Pessoas atravessam uma rua inundada após uma forte monção em Vijayawada, Índia. Fotografia: Chandu Lumburu/AFP/Getty Images

Isso poderia ser evitado. O estudo diz que um espaço seguro e justo ainda é teoricamente possível hoje, reduzindo o uso de recursos dos 15% maiores emissores e a rápida adoção de energia renovável e outras tecnologias sustentáveis.

Quanto mais as mudanças forem adiadas, mais difícil será o desafio nos próximos anos, particularmente com relação ao clima. “Se mudanças significativas não forem feitas agora, até 2050 não haverá espaço seguro e justo. Isso significa que, mesmo que todos no planeta tivessem acesso apenas aos recursos necessários para um padrão de vida básico em 2050, a Terra ainda estaria fora do limite climático”, alerta o relatório.

“O teto é tão baixo e o piso tão alto que você não consegue nem rastejar por aquele espaço”, disse Johan Rockström, copresidente da Comissão da Terra e diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático. Ele disse que esse resultado “chocante” deve ser usado como um estímulo para uma ação corretiva urgente.

Maior equidade é um componente vital das soluções propostas pelo artigo. “Limitar o que é possível para algumas pessoas permite a abertura de possibilidades para outras”, diz o relatório. Ele observa que indivíduos em sistemas econômicos que priorizam saúde pública, igualdade e democracia tendem a ter níveis de consumo mais baixos. Ao limitar a demanda, ele estima que as emissões poderiam ser reduzidas em 40-80% e ter esforços amplamente positivos no bem-estar humano.

A maneira de atingir essas metas é abordada com medidas que incluem tributação progressiva e executável, precificação gradual de recursos, planejamento do uso da terra, tecnologias verdes e subsídios para produtos sustentáveis.

O artigo enfatiza que a melhor chance de mudança no curto prazo está no nível das cidades e empresas, que tendem a ser mais ágeis do que os governos nacionais e menos dependentes de interesses corporativos adquiridos. Mas, no longo prazo, eles mencionam os apelos do secretário-geral da ONU por um pacto de solidariedade global e reforma da ONU em um órgão regulador de governança da Terra mais eficaz que quantificaria os direitos mínimos de acesso aos recursos e desenvolveria diretrizes seguras e justas.

Os autores disseram que a atual situação global de agravamento da desigualdade e aumento das políticas nacionalistas pode não parecer propícia para alcançar o plano justo e seguro estabelecido, mas os governos podem mudar, assim como a opinião pública — principalmente em um momento de estresse climático cada vez maior.

“É por isso que essa ciência é importante para lembrar a todos que vocês devem levar a justiça a sério, porque, do contrário, ela vai revidar em termos de instabilidade social, migração e conflito. Se você é um patriota que quer reduzir os fluxos migratórios, então é melhor levar a justiça global a sério”, disse Rockström. “A justiça é parte integrante da segurança – e a segurança é parte integrante da justiça.”


Fonte: The Guardian

A autoridade climática de Lula: mais um castelo de areia no meio de uma tempestade perfeita

Lula tempestade

Em meio à greve crise hídrica e da temporada extraordinariamente alta de incêndios que afetam a Amazônia brasileira neste ano, o presidente Lula foi a Manaus para anunciar uma série de medidas que supostamente se dirigem a colocar o seu governo em movimento na luta contra a crise climática.  Durante essa visita, o presidente Lula anunciou, entre outras coisas, a criação de uma tal “Autoridade Climática que terá como função suposta atuar no enfrentamento dos eventos naturais extremos, os climáticos principalmente.

Pois bem, essa e outras medidas anunciadas em Manaus não passam de mais um exercício retórico do presidente Lula.  O fato é que seu governo vem atuando no sentido oposto do controle da crise climático, começando pelos mais de R$ 400 bilhões que serão destinados para financiar a atuação do latifúndio agro-exportador na safra 2024/2025, mas indo além na implementação de diversas metas incluídas no “novo” PAC que incluem a pavimentação da BR-319, a construção ou ampliação de hidrovias, portos e ferrovias. 

O financiamento estatal vai assim alimentar a máquina de destruição da floresta amazônica e contribuir para a perda de áreas importantes não apenas da Amazônia brasileira, mas também de outros biomas importantes como o Cerrado e o Pampa.  Já para as agências ambientais e seus servidores, a grana vai continuar curta, muito curta.

Assim, o fato é que os pronunciamentos feitos por Lula em Manaus são daquele tipo de que só acredita quem quer, por ingenuidade ou por cinismo. 

O problema que fica para todos que não estão usufruindo dos ganhos resultantes com a incineração das florestas e com o envenenamento dos recursos aquáticos pelos agrotóxicos despejados a gosto na monocultura da soja é o que fazer de prático para reverter essa aposta no aprofundamento da crise climática, e não em sua mitigação.

Eu começaria por deixar de acreditar nos castelos de areia que nos são presenteados pelo presidente Lula como se fossem qualquer tipo de solução real, mas que só servem para cegar quando secam.  O problema é que tudo indica é que as coisas ainda vão piorar muito antes de começarem a melhorar. 

Não olhe para cima (Don’t look up!). O Negacionismo petista, da planície ao planalto!

dont look up

Por Douglas Barreto da Mata

Na terra plana

Sim, lá vamos nós com referências cinematográficas mais uma vez, o que eu vou fazer?  Este é o luxo que eu posso me dar, afinal, o que eu escrevo tem pouco alcance, ou nas palavras de alguns: “ninguém me dá importância mesmo”.  Concordo. Desde os tempos em que eu mantinha um blog, eu sempre fiz questão de dizer a todos (e poucos) que me liam, talvez, que o fazia para minha satisfação exclusiva. Se eu quisesse escrever algo “popular”, digamos assim, eu teria tentado um workshop com Paulo Coelho, ou Lair Ribeiro. 

Bem, parece claro que para determinados petistas, importa mais se o que eu escrevo tem ampla repercussão; portanto, dane-se o conteúdo, se está certo ou errado. Para ter validade, é preciso ter escala Deve ser por isso que estão no mesmo campo político hoje da candidata que idolatra Pablo Marçal, vá saber?

Em tempos de negacionismo, é engraçado assistir o PT de Campos e do Brasil embarcarem na mesma canoa furada, porém, com um agravante: Pablos Marçais e Bolsonaros sabem o que fazem, e tiram dividendos políticos desse comportamento “espantalho” que performam.  Já o PT, de Campos e o do Brasil, só fazem papel de idiotas mesmo, e o fazem porque não sabem fazer outra coisa.

Don’t Look Up é um filme pouco incensado pela mídia, assim como outros filmes de Adam McKay.  Ele não é um diretor denso, como Terrence Malick, com seus The Thin Red Line (com Sean Penn e etc) ou The Tree of Life (Com Brad Pitt e Sean Penn, e etc). O problema de McKay, na minha rasa e pouco lida opinião, é que ele fala de coisas incômodas.

No filme VICE, ele esquadrinha uma das mais sombrias personagens da história política dos EUA, Dick Cheney, vivido no filme por Christian Bale e etc.  Ali temos um ótimo resumo sobre o pensamento de Mckay sobre o momento que viria logo depois do 11 de setembro de 2001:  a era do negacionismo.

Quem quer falar de impostos, orçamentos, socialismo, capitalismo, luta de classes, etc?  Melhor dizer que isso é uma coisa chata e desinteressante, fazer o mesmo jogo rasteiro dos demais, e se exonerar de debates mais profundos. 

A fórmula para aplacar consciências dos intelectuais e dos militantes políticos que, supostamente, teriam alguma responsabilidade com essa tarefa histórica?  Ah, não conseguimos falar disso em uma linguagem acessível.

Bem, e o que o PT de Campos sabe elaborar? O mesmo anti Garotismo de sempre, esfarrapado, e como um relógio quebrado, espera marcar a hora certa pelo menos uma vez no dia!  O anti Garotismo é para o PT de Campos uma espécie de refúgio para suas incapacidades políticas.  Este é o retrato do PT de Campos dos Goytacazes (e do Brasil): um tipo de avestruz político que se nega a retirar a cabeça da areia, e olhar ao redor.

Segue como linha auxiliar de uma extrema-direita que se aninha no protofascismo marçaliano, simplesmente por que não sabe bem o que dizer à população campista.  A sorte dessa legenda é que, como ensinou Winston Churchill, na política morremos e vivemos várias vezes.

Mas fica a pergunta: vale a pena o PT de Campos levantar-se do túmulo, onde aliás, já deveria ter se deitado há uns 15 anos, pelo menos?

Nos altiplanos

O negacionismo do PT em Brasília, onde se espreme em um governo de cativeiro (coalizão foi só o nome educado para o sequestro de Lula e do PT pela Faria Lima e etc), tem um novo episódio.   A demissão do ministro de  Direitos Humanos, Sílvio de Almeida. 

Antes de mais nada:  Mulheres raramente mentem sobre abusos.  Sim, é bem provável que as mulheres tenham sido molestadas pelo ex-ministro.  Alguns se perguntam a razão da ministra irmã de Marielle (sim, eu não consigo nem lembrar o nome dela, e sua referência política é só essa mesma, que coisa louca, né?) ter adiado tanto as denúncias e tê-las feito a uma ONG, e não ao chefe-presidente ou a polícia.

Aqui vão hipóteses:  Mulheres abusadas quando sentem muito medo de denunciar, fazem aquilo que chamo de denúncia colateral, ou abafadas, que se dirigem ao seu círculo de amigos ou parentes, ou no caso da ministra, de gente em quem ela confiou.  É uma forma de poderem confirmar o que disseram, pelo testemunho indireto desses interlocutores.

Uai, e por que ela não confiou em Lula ou na primeira-dama?  É uma resposta que só a ministra pode dar, porém, há um dado concreto: ela não confiou no primeiro casal.  Isso diz muito mais do governo Lula do que dela.

O tempo decorrido também diz muito, porque nos parece que o governo sabia, e a própria vítima sabia do cálculo político que estava sendo feito, e não vou achincalhar a moça sobre esse cálculo, pois ela era a única com o direito de manipular a situação, já que é dela o sofrimento!

Outro fato concreto: o governo sabia, e não agiu!  Como faço essa afirmação?  Com a degola sumária do suposto tarado, como se quisesse o governo Lula acabar logo com o assunto, e afastar essa pergunta:  Lula sabia, por que nada fez?

Porém, isso se revelou um tiro no pé, e para variar, o PT cai na armadilha da direita e da mídia empresarial, tentando escapar da areia movediça que se meteu, desde que nomeou os dois para os cargos que ocupam, e pior, desde que deu a essa agenda identitária uma centralidade canhestra.

Distribuição de renda, impostos para os ricos, diminuição da orgia dos juros?  Nada! É melhor falar de agendas identitárias, pelo menos nisso a  Rede Globo nos ajuda, deve ter pensado o “jênio” da articulação política de Lula.  Justamente isso, parafraseando Brizola, que deveria evitar o PT, Lula e seu governo. Explico:  Brizola dizia que quando ele tinha dúvida sobre um tema, e qual posição adotar, ele olhava a Globo, e onde ela estivesse, ele estava do lado contrário. 

Caso tivessem a humildade de aprender essa lição simples, Lula, o PT e seu governo, poderiam saber que a pauta identitária é aceita pela mídia corporativa e por setores da direita, porque tem um viés imobilizante em qualquer governo que se reivindique algum progressismo.

Uma prova de como essa questão foi tratada pela direita internacional?  Gloria Steinem, notória feminista, que recentemente, disse ser agente da CIA. 

Mesmo colocando essa agenda como principal, o PT, Lula e o governo protagonizaram cenas dignas do mais tosco direitista, quando o presidente, ele mesmo, desautorizou o então ministro Sílvio de Almeida, quando ele preparou eventos para lembrar o golpe militar de 1964.

Depois, Lula sai em campo para dizer que corintiano estava isento de responsabilidade por chegar em casa e agredir a mulher, quando o time perdesse.  Quer dizer, nem agindo como se fosse importante, o presidente deixou de contrariar a si mesmo!

O negacionismo petista tem se transformado em piada, em motivo de vergonha.  Hoje, se você falar de bola com um petista, ele responderá, navio.  O fiasco de Campos dos Goytacazes, com o um candidato que deverá ter menos que 2% dos votos, e que mesmo assim não tenha se arriscado e demarcar um campo de esquerda na cidade, preferindo servir de boneco de ventríloquo das vozes da KKK local, se repetirá em São Paulo.

Enquanto Marçal avança sobre o eleitorado petista, a baba escorre pelo canto da boca de Boulos.  Eu não sei mais se a frase correta é não olhe para cima, ou melhor seria não olhe para baixo.  O PT de Campos e o PT nacional parecem com aquele homem que caiu do 121º andar, e passa pela janela do 89º andar, e alguém lhe pergunta:  E aí?  Ao que ele responde: “Até aqui, tudo bem”.

Expondo as ONGs cúmplices do projeto da BR-319 que está acelerando a destruição da Amazônia brasileira

A investigação a seguir é de Monica Piccinini, Lucas Ferrante e Philip Fearnside, e foi publicada originalmente em 9 de setembro, em português, no Amazonia Real

Ciência_na_BR-319

Por Monica Piccinini, Lucas Ferrante & Philip Fearnside para o “The Canary”

O Ministério dos Transportes do Brasil planeja “reconstruir” um trecho de 406 km da rodovia BR-319 da Amazônia, conectando Manaus, capital do estado do Amazonas, a Porto Velho, na borda sul da floresta. A estrada, abandonada em 1988, tem visto melhorias graduais desde 2015 por meio de um programa de “manutenção”:

BR-319-map

O projeto BR-319 na Amazônia brasileira

Atualmente, a rodovia BR-319 é ​​transitável durante o período de seca, embora a licença ambiental necessária para o projeto de reconstrução para criar uma nova rodovia no mesmo trajeto ainda não tenha sido concedida.

A reconstrução da rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central relativamente intacta ao notório foco de desmatamento conhecido como “AMACRO”, um nome composto pelas siglas dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia.

A rota da BR-319 passa por um dos blocos mais preservados da floresta amazônica , e as estradas propostas que ligam a BR-319 se abririam para a vasta área de floresta a oeste do Rio Purus, que é paralela à BR-319.

A BR-319 também permitiria que desmatadores do “arco do desmatamento” do Brasil, no sul da Amazônia, migrassem para Roraima , que faz fronteira com a Venezuela no norte da Amazônia, bem como para outras áreas já conectadas a Manaus por rodovia.

No geral, metade do que resta da floresta amazônica brasileira seria impactada, não apenas a beira da BR-319 em si, que é o foco do processo de licenciamento e dos esforços de organizações não governamentais (ONGs) para mitigar os impactos. Vários estudos fornecem informações extensas sobre os impactos do projeto e os motivos pelos quais ele deve ser interrompido.

Poder e influência das ONGs

Um fator-chave que impulsiona o desastre ambiental e social que o projeto BR-319 representa vem de um setor inesperado: várias ONGs ambientais e as fundações que as apoiam. Embora seja difícil imaginar uma organização ambiental que não se oponha ao projeto BR-319, algumas o fazem.

O Observatório do Clima, composto por 120 ONGs brasileiras , se posicionou fortemente contra o projeto da BR-319 e moveu uma Ação Civil Pública (ACP) contra o órgão ambiental federal por ter concedido uma “licença prévia” para o projeto.

O processo foi julgado favoravelmente em 25 de julho de 2024 , suspendendo a licença prévia que havia sido concedida durante a administração presidencial de 2019-2022 de Jair Bolsonaro, que havia ignorado os pareceres técnicos negativos da equipe de licenciamento para acomodar pressões políticas. A licença prévia não autoriza a construção de estradas, mas permite preparações significativas para obter uma “licença de instalação” que permitiria o início da construção de estradas.

ONGs que se recusaram a condenar o projeto da BR-319 assumiram a posição de que a aprovação e execução ambiental da estrada são inevitáveis, levando-as a adotar uma posição neutra sobre se ela deve ser construída e, em vez disso, focar em estratégias de governança para quando a estrada estiver concluída. A construção da estrada não é um fato consumado e, presumindo que o projeto seja inevitável, contribui para torná-lo uma profecia autorrealizável.

Essas ONGs acreditam que o projeto deve prosseguir desde que todos os requisitos para licenciamento ambiental sejam atendidos, incluindo consulta aos povos indígenas impactados. Isso ficou evidente em 5 de fevereiro de 2020, quando o Ministério Público Federal em Manaus realizou um evento para discutir os impactos do projeto da BR-319. O terceiro autor deste texto fez uma apresentação explicando por que o projeto da estrada não deveria ser aprovado, e tanto o segundo quanto o terceiro autores se envolveram na discussão.

Três organizações atuantes na área do projeto, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM), a Fundação Getúlio Vargas ( FGV) e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), expressaram a opinião de que o projeto de reconstrução da BR-319 não deveria sofrer oposição e poderia prosseguir, desde que os povos indígenas fossem consultados e fortes condições ambientais fossem incluídas nos requisitos para o licenciamento.

Lições do passado não devem ser esquecidas. A situação é paralela à história da luta contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu, no estado do Pará. Embora a maioria das ONGs ambientais se opusesse veementemente ao projeto da barragem, algumas chegaram à área da barragem oferecendo-se para ajudar a população deslocada a obter melhores compensações e programas sociais, dizendo-lhes que o projeto da barragem era inevitável e que não deveriam se opor a ele.

Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu e um proeminente oponente da barragem, apontou o evidente conflito de interesses : as ONGs que promovem melhor compensação para pessoas deslocadas não teriam razão para estar presentes se a barragem não fosse construída e a população deslocada. No caso de Belo Monte , a empresa da barragem e os políticos que a promoveram foram bem-sucedidos em provocar discórdia entre as ONGs e entre os líderes indígenas, contribuindo para a aprovação e execução deste projeto notoriamente desastroso.

Direitos indígenas na Amazônia

Nenhum dos povos indígenas impactados pelo projeto BR-319 foi consultado, conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) (OIT, 1989) e pela legislação brasileira que a implementa.

Entre os requisitos está que essa consulta deve ocorrer não apenas antes do projeto de construção em si, mas também antes da decisão sobre prosseguir com o projeto. Além disso, os povos indígenas devem ter o direito de rejeitar o projeto .

Algumas interpretações da convenção suavizam essa exigência para dar aos povos indígenas uma “voz” no processo de tomada de decisão sobre projetos que os afetam, mas não o poder de vetar esses projetos.

O plano do ministério dos transportes tem sido “consultar” apenas cinco grupos indígenas, embora o projeto afetasse pelo menos 68 grupos . O plano tem sido “consultar” esses grupos enquanto a construção da rodovia está em andamento, com a tarefa sendo feita antes da inauguração oficial da estrada.

“Governança”

O projeto BR-319 tem um longo histórico de promoção de cenários de “governança” altamente irrealistas, incluindo a primeira avaliação de impacto ambiental, que alegou que a rodovia se assemelharia às estradas do Parque Nacional de Yellowstone , por onde milhões de turistas viajam, sem levar ao desmatamento.

Cenários semelhantes persistem, como demonstra o relatório de um grupo de trabalho composto por cinco departamentos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Infelizmente, a história não acompanha esses cenários, mesmo quando apoiada por grandes esforços do governo e de organizações da sociedade civil, como demonstra a rodovia BR-163 (Santarém-Cuiabá) que o relatório do grupo de trabalho do DNIT usa como exemplo .

As ONGs que adotaram a posição de que incluir fortes condições ambientais nos requisitos para licenciamento evitaria um desastre ambiental e social estão fornecendo endosso de fato aos cenários oficiais de governança como justificativa para permitir que o projeto avance.

Membros da polícia federal e do exército brasileiros com quem conversamos deixaram claro que um cenário de governança futura é fictício, pois os órgãos de fiscalização não teriam recursos para monitorar a área devido ao seu tamanho, complexidade e perigo. O crime organizado já controla a grilagem de terras e a mineração na região , o que impactou severamente as comunidades tradicionais.

Enquanto a neutralidade era professada na questão do licenciamento e reconstrução da rodovia, na prática essas organizações, especialmente o IDESAM e a FGV, estavam trabalhando para facilitar a aprovação da estrada. Um exemplo é o projeto da FGV intitulado “Promovendo a transparência e a governança territorial no contexto da instalação de rodovias na Amazônia – o caso da BR-319”. Como o título indica, o projeto pressupõe que a rodovia será construída. Líderes indígenas que consultamos expressaram forte oposição ao projeto, preocupados que qualquer acordo pudesse ser mal interpretado pelos tomadores de decisão como apoio à construção, apesar da resistência das comunidades à rodovia.

Outro documento da FGV, intitulado “Agenda de Desenvolvimento Territorial para a Região da BR-319: Fortalecendo Territórios do Bem Viver”, busca promover o desenvolvimento territorial em Vila Realidade, no município de Humaitá. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), a única atividade econômica da região é o desmatamento ilegal. Estradas ilegais originárias da área de Vila Realidade já estão invadindo territórios indígenas, e é improvável que grileiros e madeireiros parem suas atividades, movidos pela atração de lucros rápidos e fáceis.

Líderes indígenas declararam que representantes da FGV sugeriram que seria do melhor interesse deles aceitar as condições propostas, já que a rodovia BR-319 seria construída de qualquer forma. Eles foram informados de que a abordagem mais prudente seria focar em mitigar os impactos em seus territórios negociando indenização com o DNIT.

Embora algumas dessas ONGs tenham expressado o desejo de negociar com todas as partes, tentar estabelecer governança entre invasores e invadidos é impraticável, pois isso apenas intensificaria os conflitos e aumentaria as ameaças às comunidades tradicionais.

De acordo com líderes indígenas, a violação mais grave dos direitos dos povos indígenas foi cometida pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB). Um documento, que os líderes indígenas relatam ter sido preparado pelo IEB e apresentado a eles para assinar, denuncia uma invasão de terra que é uma preocupação urgente para o grupo, mas também inclui uma declaração afirmando a aprovação do projeto de reconstrução da BR-319 desde que uma reserva extrativista seja criada para proteger os castanhais usados ​​pelo grupo. Os líderes só tomaram conhecimento da declaração aprovando o projeto da estrada depois que assinaram o documento e seguiram as instruções do IEB para enviá-lo ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e ao DNIT.

Omitimos os nomes das lideranças indígenas que fizeram as denúncias, juntamente com suas etnias e comunidades, para garantir sua proteção. Todas as denúncias foram feitas durante o evento científico e reunião de lideranças realizado dentro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com a presença oficial de um representante do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA).

O apoio das ONGs ao projeto da BR-319 permaneceu sutil até julho de 2024, quando o IDESAM se retirou do Observatório do Clima e emitiu uma declaração para a mídia e políticos pró-BR-319 selecionados . O gatilho para essa ruptura foi a aprovação judicial da ação do Observatório do Clima contestando a licença preliminar da BR-319, com a declaração do IDESAM endossando abertamente a reconstrução da rodovia.

O gabinete do procurador-geral federal entrou com um recurso para anular a suspensão de 25 de julho da licença preliminar emitida em 25 de julho. Diferentemente dos Estados Unidos, o procurador-geral do Brasil não tem independência e normalmente promove a agenda política do presidente.

O projeto da BR-319 não tem uma racionalidade econômica , a motivação para o projeto é seu valor na política eleitoral. O benefício do projeto em ganhar votos no estado do Amazonas explica não apenas o apoio de políticos locais, mas também o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva .

Em 23 de agosto, o Tribunal Regional Federal da Primeira Instância (TRF1) rejeitou o recurso . No entanto, a Procuradoria-Geral da República pode continuar a recorrer , e futuras tentativas podem ter sucesso devido às leis de “suspensão de segurança” do Brasil. Essas leis, que remontam à ditadura militar de 1964 , permitem que qualquer decisão seja anulada se for considerada como causadora de dano “grave” à economia, à saúde ou à ordem pública.

Esse mecanismo legal já foi usado para levar o projeto da BR-319 adiante, revertendo uma decisão judicial que havia pausado a primeira audiência pública, apesar das irregularidades existentes. O sistema legal do Brasil permite uma série aparentemente interminável de recursos, permitindo que o Ministério Público continue apelando até encontrar um juiz simpático.

Motivações por trás do apoio à BR-319

Temos tentado entender por que algumas ONGs apoiam o projeto de reconstrução da BR-319, seja seu apoio aberto ou implícito. Isso tem se mostrado desafiador devido à falta de transparência tanto das organizações quanto de seus financiadores.

Há uma coincidência extraordinária: as ONGs que se recusaram a condenar o projeto BR-319 são todas financiadas pela Fundação Gordon e Betty Moore (GBMF).

É possível que a GBMF tenha instruído as ONGs que apoia a evitar se opor ao projeto BR-319? Isso pode ser feito explicitamente por uma cláusula nos contratos de concessão (que nem a GBMF nem as ONGs estão dispostas a divulgar) ou por algum tipo de advertência verbal. Esta é uma questão em aberto.

O GBMF foi criado pelo cofundador da Intel Gordon Moore e sua esposa Betty Moore em 2000, com o objetivo de apoiar a pesquisa científica e a conservação ambiental. As doações do GBMF para instituições brasileiras começaram em 2004 dentro do contexto da Iniciativa Andes-Amazônia.

A Fundação concentra suas doações ao Brasil em uma área: terra, ecossistemas terrestres e uso da terra. Suas estratégias para áreas protegidas e territórios indígenas incluem conservação, consolidação, gestão e monitoramento. A área ao longo da rodovia BR-319 é ​​uma parte particularmente importante do financiamento do GBMF.

O GBMF vem fornecendo financiamento para o objetivo desejável de promover a governança, mas os projetos de governança de ONGs têm um efeito claro na facilitação da aprovação do projeto de reconstrução da rodovia BR-319.

Em resposta a uma pergunta sobre a BR-319, o porta-voz do GBMF compartilhou a seguinte declaração conosco:

A construção e pavimentação de estradas em regiões ecologicamente frágeis pode causar grande destruição. Não somos contra estradas; somos a favor de estabelecer salvaguardas ambientais e sociais que protegerão a natureza e as pessoas.

Além do efeito dos projetos de “governança” das ONGs em facilitar a aprovação da licença para autorizar a construção, esses projetos e a continuação implícita do financiamento para “governança” após a construção da estrada fazem parte do dilema que as ONGs e seus financiadores enfrentam com projetos de desenvolvimento prejudiciais em todo o mundo, ou seja, o fato de que as atividades das ONGs reduzem o custo geral dos projetos de construção, tornando-os mais propensos a serem executados.

O projeto BR-319 se torna muito mais atraente se o governo apenas arcar com o custo do asfalto e outras partes físicas do projeto, enquanto financiadores internacionais, incluindo organizações filantrópicas, pagam a conta por medidas de governança, como controle do desmatamento e salvaguarda de territórios indígenas. No caso da BR-319, o ministro dos transportes do Brasil declarou que quer usar dinheiro do Fundo Amazônia para tornar o projeto BR-319 “viável” .

Uma questão sem resposta é se a GBMF poderia estar financiando os projetos que facilitam a aprovação da BR-319 para beneficiar os próprios investimentos da fundação. Um alinhamento entre investimentos e os beneficiários do projeto da rodovia não significa necessariamente que tal cadeia de influência exista.

Muitas fundações atribuem a gestão de seus ativos a uma empresa terceirizada ou a um departamento dentro da fundação que é separado das atividades de concessão de subsídios. Esses arranjos geralmente implicam que os ativos são administrados para maximizar os lucros sem levar em conta os impactos ambientais e sociais que eles causam. Não se pode presumir que o processo de concessão de subsídios da GBMF seja influenciado pelas implicações da BR-319 para os investimentos da fundação. Sugerimos, no entanto, que esta e outras fundações na área ambiental devem se desfazer de investimentos em atividades prejudiciais ao meio ambiente.

Interesses de petróleo e gás na BR-319

Petróleo e gás têm sido uma parte significativa do portfólio de investimentos da GBMF, apesar de seu impacto ambiental global e outras preocupações. O setor de petróleo e gás seria um grande beneficiário da rodovia BR-319 e estradas secundárias associadas.

O portfólio de investimentos da GBMF não inclui a Rosneft, a gigante russa de petróleo e gás que adquiriu as primeiras 16 concessões de perfuração na área a ser acessada pela rodovia planejada AM-366, ramificando-se da BR-319. No entanto, a GBMF investiu anteriormente no SberBank, o maior banco de investimentos da Rússia, que financia a Rosneft .

O amplo projeto da Área Sedimentar do Solimões para extração de petróleo e gás, localizado a oeste da BR-319, oferece oportunidades significativas de investimento para empresas além da Rosneft. O projeto cobre uma área total de 740.000 km² – maior que o estado americano do Texas.

A GBMF investiu em várias empresas de combustíveis fósseis , incluindo a gigante petrolífera brasileira Petrobras, a russa LukOil – PJSC, a americana Anadarko Petroleum, a China Petroleum and Chemicals, a empresa americana Perusahaan Gas Comstock (que opera na Indonésia), a indiana Petronet LNG e a TownGas China.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) do Brasil designou nove grandes blocos de direitos de perfuração ao longo da rota BR-319 . Embora não estejam no “trecho do meio” da rodovia, eles se beneficiariam do projeto da rodovia. Um desses blocos (AM-T-107) foi arrematado pela Eneva em parceria com a ATEM no “leilão do fim do mundo” de dezembro de 2023.

A Eneva é uma empresa brasileira de gás e petróleo altamente recomendada pela Dynamo, que é a empresa de gestão de ativos da GBMF no Brasil. A própria Dynamo detém uma participação de 10,06% na Eneva , e a Eneva pode se fundir com a Vibra , uma empresa de gás e petróleo na qual a Dynamo detém 10,28%.

Devido ao impacto sobre os povos indígenas, uma decisão judicial suspendeu a assinatura dos contratos de perfuração do bloco AM-T-107 (mais quatro blocos comprados por essas empresas no Amazonas, fora da área da BR-319). Independentemente de essa suspensão persistir ou não, o aumento da lucratividade que a BR-319 traria ao setor de petróleo e gás em áreas acessadas por essa rodovia e suas estradas secundárias estimularia a extração de combustíveis fósseis em larga escala e aumentaria as chances de superar as objeções dos povos indígenas impactados.

Além de petróleo e gás, a GBMF investiu na JBS , conhecida como a “maior empresa de proteína animal do mundo”. Os matadouros da JBS, juntamente com as fazendas de gado que os abastecem, são contribuintes significativos para o desmatamento na Amazônia.

Grandes fazendeiros da região de desmatamento da AMACRO, juntamente com produtores de soja e outros interesses do agronegócio, estão planejando se expandir para a área a oeste da BR-319 , que seria aberta pela planejada rodovia AM-366, que também dá acesso às reservas de petróleo e gás.

Subvenções

O IEB recebeu um total de 10 subsídios do GBMF , entre 2004 e 2022, totalizando mais de US$ 14 milhões, incluindo US$ 2 milhões para obras na BR-319. Os objetivos do financiamento incluem “aumentar o engajamento” dos povos indígenas na seção central da BR-319 e aumentar a “compreensão pública” de “oportunidades e ganhos para o desenvolvimento sustentável do corredor rodoviário”.

A FGV recebeu recursos do GBMF superiores a US$ 6 milhões . O financiamento é “para desenvolver parâmetros para a adoção de uma abordagem baseada em direitos humanos e voltada para a prevenção de abusos e violações socioambientais ao longo do processo decisório de grandes obras no Brasil, especialmente no caso da BR-319, em sua totalidade” e para conduzir estudos para promover a criação e implementação de um plano de governança territorial ao longo do corredor rodoviário BR-319 na Amazônia.

O IDESAM, ONG sediada em Manaus responsável pela coordenação do Observatório da BR-319, recebeu cinco bolsas do GBMF , entre 2011 e 2023, totalizando US$ 2,4 milhões, sendo mais da metade (US$ 1,24 milhão) recebida em novembro de 2023.

Um relatório do IDESAM, intitulado “Análise da Implementação de Unidades de Conservação sob a Influência da Rodovia BR-319”, em colaboração com o FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade), que também é financiado pelo GBMF , delineou os benefícios e oportunidades que a reconstrução da BR-319 poderia oferecer à região amazônica.

Um porta-voz da Fundação Gordon e Betty Moore compartilhou a seguinte declaração:

A fundação Moore está apoiando parceiros para evitar o ponto de inflexão ecológica na Amazônia. Para isso, é necessário ter áreas protegidas e territórios indígenas sob gestão efetiva para conservação e uso sustentável. Existem muitos impulsionadores da mudança de habitat, um dos impulsionadores mais importantes é o desenvolvimento de infraestrutura porque perturba a conectividade ecológica e pode estabelecer condições sociais que ameaçam os meios de subsistência dos povos locais. A construção e pavimentação de estradas em regiões ecologicamente frágeis podem causar grande destruição. Não somos contra estradas; somos a favor do estabelecimento de salvaguardas ambientais e sociais que protegerão a natureza e as pessoas.

A necessidade de mudança

A proposta de reconstrução da rodovia BR-319 coloca em risco grande parte do que resta da floresta amazônica brasileira e é certamente um dos projetos mais prejudiciais ao meio ambiente do mundo .

ONGs ambientais e organizações filantrópicas devem se opor a projetos que colocam em risco áreas ricas em biodiversidade. Além disso, essas instituições precisam adotar maior transparência e responsabilidade, garantindo que suas iniciativas beneficiem genuinamente os destinatários pretendidos: o meio ambiente e as comunidades indígenas.

Imagem em destaque via Canary


Fonte: The Canary

Contaminação por glifosato atinge municípios a quilômetros de distância das lavouras

avião agrotóxico

Por Fernanda Wenzel para a Mongabay 

O Brasil é um dos maiores produtores de soja do mundo. Uma potência agrícola movida a toneladas e mais toneladas de agrotóxicos, que colocam o Brasil no topo do ranking mundial de consumos de agrotóxicos. Quase um terço desse consumo se concentra em apenas uma substância: o glifosato, um herbicida usado para matar as outras plantas que insistem em crescer junto aos pés da oleaginosa.

Em 2015, a Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos. Mesmo assim, quatro anos depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliou para baixo o nível de toxicidade do agrotóxico, até então classificado como “extremamente tóxico”.

À época, a agência justificou que “o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”, sugerindo que medidas de proteção na hora da aplicação seriam suficientes para garantir o uso seguro do agrotóxico. Afirmação reforçada pelos produtores do agrotóxico, que afirmam que o produto é rapidamente absorvido no ambiente, limitando sua dispersão.

 Cada vez mais estudos, no entanto, mostram que os efeitos do herbicida podem ser sentidos a dezenas de quilômetros dos locais de aplicação. Pesquisadores já detectaram a presença do agrotóxico em rios do Brasil, Argentina e Estados Unidos, os três maiores produtores de soja do mundo. Na Argentina, a substância foi encontrada mesmo em locais distantes das plantações, enquanto nos Estados Unidos um estudo encontrou a substância em 74% das amostras analisadas.

“O glifosato impacta toda a região, porque, além de contaminar a água superficial, contamina o lençol freático, o ar e a chuva”, afirma Wanderlei Pignati, médico e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Estudo publicado na Review of Economic Studies relacionou a contaminação da água por glifosato a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil. Foto: charlesricardo via Pixabay (domínio público)

Uma nova evidência vem de um artigo publicado no final do ano passado na Review of Economic Studiesque analisou as taxas de mortalidade infantil em municípios que não necessariamente produzem soja, mas que são abastecidos por rios vindos de áreas com uso intensivo de glifosato.

“Vimos que, a partir do momento em que algumas regiões a montante utilizam o produto, a mortalidade infantil aumenta rio abaixo. Esse estudo sugere que esse efeito é carregado através de corpos d’água”, afirma Rudi Rocha, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), e autor do estudo ao lado de Mateus Dias e Rodrigo Soares.

A conclusão é que a contaminação pelo agrotóxico levou a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil, o equivalente a 503 bebês mortos por ano. A pesquisa reforça estudos anteriores que apontaram para a contaminação pelo glifosato de células da placenta e do embrião, impactando o desenvolvimento do bebê ainda na barriga da mãe, e também através do leite materno.

Segundo Rocha, o glifosato pode ser carregado pelas águas dos rios por até 100 quilômetros, e a contaminação aumenta em períodos de muita chuva ou em regiões com maior erosão do solo. “Todas as hipóteses foram sendo testadas e concluímos que, de fato, o uso maior do glifosato afeta a saúde infantil de populações que estão rio abaixo.”

Lobby fala mais alto

 Rocha e seus colegas analisaram as taxas de mortalidade de bebês de até um ano de idade em 1.119 municípios das regiões Sul e Centro-Oeste do país entre os anos de 2000 e 2010. No meio deste período, em 2004, o Brasil aprovou o uso de uma semente de soja transgênica resistente ao glifosato.

A tecnologia permitiu a aplicação do veneno não apenas antes, mas também durante o cultivo — com a semente anterior, os pés de soja teriam morrido junto com as plantas indesejadas. A produtividade no campo explodiu, assim como o consumo do glifosato. Segundo algumas estimativas, o uso do produto em todo o mundo aumentou em 15 vezes após a disseminação da semente transgênica.

Liberação de semente resistente ao glifosato aumentou em 15 vezes o uso do pesticida em todo o mundo. Foto: © Bruno Kelly/Greenpeace.

“A adoção de novas tecnologias pode ser capaz de gerar ganhos enormes de produtividade, renda, crescimento econômico, mas é muito difícil medir as consequências disso”, afirma Rocha, que defende uma análise mais criteriosa das substâncias utilizadas no Brasil. “Tem um custo que é relativamente alto, e estamos falando da saúde da população”. 

O que se tem visto no país, no entanto, é um afrouxamento da regulação do uso de agrotóxicos. Após o libera-geral do governo de Jair Bolsonaro, que aprovou 2.182 pesticidas em quatro anos, em 2023 o Congresso brasileiro aprovou o chamado PL do Veneno, projeto de lei que limita o papel da Anvisa e do Ibama no registro de novos agrotóxicos. 

Os pontos mais polêmicos do PL chegaram a ser vetados pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas os vetos foram derrubados pelos parlamentares. “Tem um Congresso dominado pelo agro e que está aprovando estas leis”, lamenta Pignati. “O agro não quer saber se está contaminando água, matando gente, causando má formação, câncer. O agro quer lucro.”

Acoplada à bancada ruralista, a indústria dos agrotóxicos tem um dos lobbies mais fortes de Brasília. Segundo um levantamento da Fiquem Sabendo em parceria com O Joio e O Trigo, representantes do governo federal tiveram 752 encontros com empresas, associações e lobistas do setor entre outubro de 2022 e julho de 2024, o equivalente a um encontro a cada 4 horas e 48 minutos. 

Em meados de agosto, um grupo de ONGs, partidos políticos e sindicatos protocolou uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a derrubada do PL do Veneno.


Fonte: Mongabay

Estudos apontam chances de poluição intensa representar riscos ao cérebro

Neurocirurgião e pesquisador da Unicamp aborda os efeitos da poluição no sistema vascular cerebral e os riscos a longo prazo para a saúde mental

indoor

No mês de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado de São Paulo registrou mais queimadas do que nos últimos dois anos, contrariando um padrão histórico. A gravidade dos danos ambientais gerou preocupações urgentes sobre a qualidade do ar. As densas nuvens de fumaça, especialmente no interior, alarmaram a população e provocaram reflexões sobre os impactos dessa poluição no corpo humano, incluindo o cérebro.

Estudos destacam que, mesmo com exposição a níveis considerados seguros de poluentes, existem chances de o funcionamento cerebral sofrer impactos a longo prazo, principalmente nas funções cognitivas, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas.

Uma pesquisa realizada na Keck School of Medicine1, da Universidade do Sul da Califórniaavaliou dados de cerca de 9 mil participantes, a fim de investigar os impactos da exposição à poluição do ar no desenvolvimento cerebral de adolescentes. Os resultados indicaram que, mesmo nos casos em que níveis de poluição são considerados “seguros”, há alterações significativas na conectividade funcional do cérebro, influenciando o desenvolvimento cognitivo e emocional.

Outra publicação no Neurology Journals2 investigou a relação entre o contato com a poluição atmosférica e o risco de comprometimento cognitivo leve e demência. Os pesquisadores acreditam que a exposição prolongada a níveis mais altos está associada ao risco de desenvolvimento de problemas cognitivos, com implicações significativas para a saúde pública.

Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressalta a necessidade de olhar além dos efeitos mais óbvios da poluição. “O ar que respiramos não afeta apenas nossos pulmões. A longo prazo, essas agressões ao sistema nervoso central podem contribuir para o declínio cognitivo e aumentar o risco de demência, como evidenciam as pesquisas mais recentes,” afirma Dr. Valadares.

Existem riscos vasculares associados à poluição do ar?

A curto prazo, a poluição do ar, incluindo a fumaça das queimadas, pode também aumentar o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e de outros problemas vasculares3. A exposição aos poluentes atmosféricos está associada a um aumento da inflamação sistêmica e do estresse oxidativo, que podem danificar os vasos sanguíneos e levar a problemas cardiovasculares e cerebrovasculares.

“As partículas finas podem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea, provocando respostas inflamatórias que afetam o coração e o cérebro”, explica o Dr. Valadares.

3 medidas essenciais de proteção

Para se proteger da poluição intensa, confira três dicas importantes a seguir:

  1. Monitore a qualidade do ar: em tempos de poluição intensa, existem aplicativos e sites que informam a qualidade do ar em tempo real, como o do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Quando a qualidade do ar estiver ruim, siga as recomendações de saúde pública para proteger-se adequadamente.
  2. Evite atividades ao ar livre: evite ou minimize o tempo ao ar livre, especialmente durante o pico de poluição mais intensa. Se precisar sair, tente reduzir o tempo de exposição, principalmente se fizer parte de grupos de risco, como crianças, idosos, ou pessoas com problemas respiratórios.
  3. Mantenha ambientes internos saudáveis: em casa, mantenha janelas e portas fechadas para evitar que a poluição entre. Utilize purificadores de ar com filtros HEPA para melhorar a qualidade do ar.
  4. Use máscaras apropriadas: em ambientes com alto nível de poluição, especialmente em dias de muita fumaça ou poeira, como aconteceu nos últimos dias em diversos pontos do estado, utilize máscaras que filtrem partículas finas, como as do tipo N95 ou PFF2. Essas máscaras são capazes de bloquear a inalação de partículas perigosas que podem afetar tanto o sistema respiratório, quanto o cardiovascular.

Referências:

1: Even “safe” air pollution levels can harm the developing brain, study finds. Acesso clicando aqui.

2: Association of Long-term Exposure to Air Pollution and Dementia Risk. Acesso clicando aqui

3: Impact: Air pollution. Acesso clicando aqui.

Governo Lula está há quase 2 anos sem monitorar o nível de agrotóxicos na água consumida pelos brasileiros

agrotóxicos água

Por  Carol Castro e Hélen Freitas | Edição Carlos Juliano Barros para a “Repórter Brasil”

Um ano e oito meses: esse é o tempo que o governo federal está sem receber e sem publicar dados sobre os níveis de agrotóxicos na água consumida pelos brasileiros. Dessa forma, autoridades públicas, pesquisadores e cidadãos não dispõem de ferramentas para monitorar a contaminação por pesticidas. 

A Portaria 888/2021 do Ministério da Saúde obriga empresas públicas e privadas, responsáveis por redes de distribuição de água, a realizar testes periódicos sobre a presença de diversas substâncias potencialmente nocivas à saúde, como mercúrio, coliformes fecais e agrotóxicos. 

Os resultados das análises precisam ser registrados pelas empresas no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano). As informações ficam, então, abertas para consulta pública.

No caso dos agrotóxicos, os testes devem ser feitos a cada três meses. Entretanto, devido a um problema técnico com o sistema, desde janeiro de 2023 os dados específicos sobre pesticidas não vêm sendo repassados pelas distribuidoras de água ao governo federal, nem disponibilizados ao público. 

A correção dos problemas seria uma responsabilidade compartilhada entre a Secretaria de Informação e Saúde (Seidigi), comandada por Ana Estela Haddad, esposa do ministro Fernando Haddad (Fazenda), e a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, chefiada por Ethel Maciel. 

Contudo, reuniões para tratar do Sisagua ou de “vigilância da água” aparecem apenas duas vezes na agenda oficial de Maciel, e apenas uma na de Haddad, desde janeiro de 2023. O levantamento consta da Agenda Transparente, ferramenta da Fiquem Sabendo, organização especializada em transparência de dados públicos. 

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que o Sisagua está em “fase de atualização”, com conclusão prevista ainda em 2024. Segundo o comunicado, o tema é “prioritário para a pasta”. 

“Vale ressaltar que o monitoramento da qualidade da água distribuída nos municípios brasileiros é responsabilidade das equipes de vigilância das três esferas de governo, além dos responsáveis pelo tratamento e distribuição da água à população”, diz o texto. Leia aqui a íntegra.

Polêmica: Análise da água de Casa Branca pelo Repórter Brasil preocupa  população

Em 2022 havia 28 municípios com agrotóxicos na água acima do permitido

“Imagina se o governo federal precisasse ir atrás de todas as amostras e relatórios?”, ilustra Ana Cristina Rosa, doutora em saúde pública e meio ambiente e pesquisadora da Fiocruz. “Com o Sisagua, o governo faz um rastreamento sobre quem está enviando ou não os dados e fiscaliza as outras duas esferas [estaduais e municipais]”, complementa. 

O acesso público aos resultados dos testes também permite a produção de investigações científicas e jornalísticas. Com base nos dados do Sisagua referentes a 2022, por exemplo, a Repórter Brasil mostrou que havia agrotóxicos na água de 210 cidades brasileiras. Em 28 delas, as substâncias estavam acima do limite permitido pelo Ministério da Saúde.

No entanto, especialistas consultados pela reportagem afirmam que o consumo contínuo de água com pesticidas, mesmo dentro dos limites tidos como seguros, pode gerar efeitos graves, como câncer, além de problemas hormonais e neurológicos.

Outra preocupação é em relação à interação de diferentes tipos de agrotóxicos, chamada de “efeito coquetel”. A mistura de diferentes agrotóxicos pode gerar consequências ao organismo humano ainda desconhecidas, dizem os pesquisadores.

Contaminação da água potável por agrotóxico no Brasil é tema de audiência  pública na Câmara dos Deputados – Fiocruz Brasília

O que aconteceu com o Sisagua

Em 2021, a portaria 888 do Ministério da Saúde incluiu novas substâncias a serem monitoradas pelos órgãos de controle. No caso dos agrotóxicos, passou de 27 para 40 o número de pesticidas avaliados. São os casos do Fipronil, tido como responsável por mortandade em massa de abelhas, e o Paraquate, banido em 2020 por associação com a doença de Parkinson e o desenvolvimento de mutações genéticas. 

A portaria também revisou os limites considerados seguros. Além disso, aumentou a frequência de testes a serem realizados pelas empresas distribuidoras. Para os agrotóxicos, as análises — antes semestrais — agora precisam ser realizadas a cada três meses.

Novas regras de monitoramento de agrotóxicos na água entraram em vigor em 2021, com novas substâncias fiscalizadas, entre elas o fipronil, associado à morte de abelhas (Foto: George Campos/USP Imagens)
Novas regras de monitoramento de agrotóxicos na água entraram em vigor em 2021, com novas substâncias fiscalizadas, entre elas o fipronil, associado à morte de abelhas (Foto: George Campos/USP Imagens)

As novas regras exigiram uma atualização técnica do Sisagua. A manutenção prevista era temporária, mas há quase dois anos o site mostra o mesmo aviso: “ATENÇÃO: a nova versão do Sisagua adaptada à nova norma segue em desenvolvimento, em um trabalho conjunto entre CGVAM [Coordenação Geral de Vigilância em Saúde Ambiental] e DATASUS”. 

Sem receber os dados das empresas distribuidoras de água, o Ministério da Saúde não tem meios para identificar se as normas contidas na portaria 888/2021 estão sendo seguidas, como a ampliação dos testes. 

Em agosto, a Repórter Brasil questionou o Ministério da Saúde sobre as falhas do sistema. No fim do mês, segundo apurou a reportagem, as empresas distribuidoras conseguiram retomar o preenchimento dos dados sobre agrotóxicos no Sisagua. 

A reportagem também questionou a pasta se os números referentes ao período entre janeiro 2023 e agosto de 2024 precisarão ser registrados retroativamente, ou se apenas os dados sobre novos testes deverão ser inseridos, mas o ministério não respondeu esse pontou até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.


Fonte:  Repórter Brasil

Cultivo de coca e extração de ouro ameaçam a Amazônia

oro-cocaina-996x567Especialistas alertaram sobre os danos do tráfico de drogas e da mineração ilegal aos ecossistemas da Amazônia e às comunidades que os protegem. Crédito da imagem: Vinícius Mendonça/Ibama, Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 2.0

“Grande parte dos lucros do tráfico de drogas são lavados através da mineração de ouro, que entra nos circuitos legais através do desmatamento, e da compra massiva de terras e gado”, explicou Rodrigo Botero, em entrevista coletiva no dia 4 de setembro, diretor da Fundação para o Desenvolvimento. Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, que mantém um Observatório de Conflitos Socioambientais na Amazônia.

Estas dinâmicas ilícitas levam a vários ataques contra comunidades locais: invasões de garimpeiros (mineiros) armados no Brasil, grupos responsáveis ​​por massacres em cidades rurais na Colômbia e recrutamento de crianças para trabalhar nas plantações de coca peruanas.

A baixa presença do Estado, os altos níveis de corrupção e “décadas de estratégias de segurança vacilantes”, de acordo com o relatório Amazon Underworld , contribuem para grupos como o Exército de Libertação Nacional e os dissidentes das FARC na Colômbia, e o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho no Brasil. , assumir o controle de mais e mais territórios.

“Nos últimos sete anos foi registrada a maior curva de desmatamento da história da Amazônia” como resultado de atividades ilegais, observou Botero.

As consequências são devastadoras, porque “a conectividade ecológica da Amazônia está praticamente perdida”, com “um efeito muito importante de perda de biodiversidade” e na capacidade de regulação climática das florestas .

Melina Risso, diretora de pesquisas do Instituto Igarapé do Brasil, lembrou que “grupos armados atuam em quase 70% dos municípios fronteiriços” da região, o que indica que seus crimes só podem ser cometidos por meio de uma presença transnacional.

Ouro e coca

A mineração ilegal de ouro representa uma movimentação de até 12 bilhões de dólares anuais na região, com 4.500 “pontos críticos” de atividade, disse José Guarnizo, diretor geral do portaVorágine , fundação sem fins lucrativos que pesquisa a violação de direitos humanos e corrupção na Colômbia e no mundo.

Um deles é Putumayo, na fronteira entre o Peru e o Equador. Lá, um grama de ouro está disponível por 35 dólares e depois as organizações armadas negociam-no por 71 dólares, acrescentou.

Outro ponto crítico é o Bajo Cauca colombiano, no nordeste do país, onde organizações armadas podem obter até US$ 2,4 milhões anuais para um negócio que inclui a arrecadação de comissões para permitir a operação de embarcações que extraem ouro dos rios. a propriedade de empresas de comércio de metais.

“Grande parte dos lucros do tráfico de drogas são lavados através da mineração de ouro, que entra nos circuitos legais através do desmatamento e da compra massiva de terras e gado.”

Rodrigo Botero, diretor da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável da Colômbia

Além de promover deslocamentos forçados, a atividade danifica cursos de água , onde os resíduos de mercúrio são despejados e podem chegar às residências, com consequências para a saúde que vão desde tremores e insônia até disfunções motoras e cognitivas.

O processamento da coca também exige grandes quantidades de produtos tóxicos como acetona, ácido sulfúrico e gasolina, que são descartados na selva, contaminando seus recursos.

Os grandes lucros do tráfico de drogas “catalisam a compra da cumplicidade de autoridades, de guardas florestais a prefeitos”, que “devem aceitar a apropriação ilegal de terras se quiserem permanecer vivos”, reconheceu Kendra McSweeney, geógrafa da Universidade Estadual de Ohio que estuda o impactos socioecológicos do tráfico de drogas na América Central.

Depois de sugerir durante a conferência que as respostas militarizadas podem exacerbar as ameaças, McSweeney propôs dois cenários em resposta à consulta do SciDev.Net .

“O caso mais optimista é que o governo persegue os traficantes, mas esse grupo desloca-se para outra área, onde redirecciona as suas actividades”, começou por dizer. “Por outro lado, se houver dois grupos a operar na mesma área, a polícia pode prender o mais fraco, mas o mais poderoso captura uma parcela tão grande do mercado que utiliza essa rentabilidade para garantir que não será perseguido. ”

No entanto, deixar de enfrentar o crime organizado implicaria aceitar a incapacidade do Estado para enfrentar este drama, explicou Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos sobre Crime Organizado Transnacional da Argentina, que não participou da reunião.

Para além do combate directo, opções como o congelamento de activos ou regras sobre o confisco de activos – através das quais os estados podem recuperar activos obtidos com dinheiro ilícito – “são formas de transmitir uma mensagem positiva à comunidade, que em muitos casos sente que existem elevados níveis de de impunidade”, disse o pesquisador.

“Devemos colocar uma lupa nos fluxos internacionais que alimentam estes mercados, tanto nos seus aspectos ilegais como legais”, concordou Botero.

O anúncio, em junho, de um centro de troca de informações com sede na cidade amazônica de Manaus parece ser um passo nessa direção.

“Compartilhar inteligência e trabalhar em conjunto entre os países vizinhos é a única forma de derrotar essas organizações, que também atuam de forma cooperativa e transnacional”, concluiu Sampó.


Fonte: Edição latino-americana do SciDev.Net 

Aprendendo com um desastre climático: as inundações catastróficas no sul do Brasil

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Porto Alegre, 03/05/2024, Rio Guaíba, usina do gasômetro, em Porto Alegre após chuva intensa. Foto: Gilvan Rocha/Agência Brasil

Por Valério D. Pillar  e Gerhard E. Overbeck para a “Science”

As inundações catastróficas que afetaram o sul do Brasil em maio passado devem servir como um aviso às sociedades humanas de que, apesar do ceticismo ou negação ainda generalizado sobre as mudanças climáticas , a mitigação e a adaptação para lidar com a crise climática em curso são urgentemente necessárias. O número de mortos ou desaparecidos foi de 213 pessoas; 2,4 milhões de pessoas afetadas , incluindo 600.000 deslocadas; e perdas sem precedentes em infraestrutura urbana e rural, incluindo gado . Essas perdas poderiam ter sido menores se medidas de adaptação tivessem sido implementadas, como tem sidrepetidamente recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Tendo testemunhado a catástrofe em primeira mão, aqui destacamos medidas de adaptação baseadas na natureza que poderiam efetivamente fornecer resistência e resiliência contra eventos climáticos extremos.

Chuvas extremamente pesadas resultaram em precipitação acumulada de 652 mm (até 900 mm em algumas áreas) ao longo de 35 dias, com 444 mm caindo apenas nos 8 dias anteriores ao pico da enchente, quantidades normalmente esperadas ao longo de cerca de meio ano, nas bacias hidrográficas de 8,4 milhões de hectares que formam o delta do Rio Jacuí e o Lago Guaíba, onde fica a área metropolitana de Porto Alegre. Essa precipitação extrema, ligada a frentes frias bloqueadas no sul do Brasil, seguiu um clima anormalmente úmido nos 6 meses anteriores devido a um forte evento de Oscilação Sul do El Niño. Como consequência, a forte erosão do solo afetou as regiões de agricultura intensiva estabelecidas nos solos vermelhos e profundos que caracterizam as nascentes do norte das bacias hidrográficas. Imagens de satélite do início de maio mostraram uma forte cor laranja nas águas da enchente antes de descerem para os vales da Serra Geral, onde sedimentos adicionais atingiram os rios devido a vários deslizamentos de terra nas encostas íngremes e solos varridos de terras agrícolas ao longo dos vales mais baixos.

No pico da enchente, as áreas baixas da região metropolitana de Porto Alegre foram inundadas. A cidade de Porto Alegre em si era supostamente protegida por um sistema de proteção contra enchentes que consistia em diques, muros, comportas e bombas construídos na década de 1970, o que dava à população da cidade uma sensação de segurança. Esse sistema falhou principalmente devido à negligência da manutenção de rotina das comportas e bombas pela administração da cidade. Como consequência, as partes mais baixas da cidade, uma capital estadual com uma população de 1,3 milhão, foram inundadas pelo sistema de drenagem. Isso causou uma reação em cadeia que levou ao colapso do fornecimento de eletricidade em partes da cidade e estações de abastecimento de água potável na maior parte da cidade, incluindo áreas não inundadas. Um dos maiores hospitais da cidade teve que ser evacuado, o terminal de ônibus regional foi inundado e todas as rotas de acesso terrestre à cidade, exceto uma, foram interrompidas. Essa situação durou cerca de 3 semanas. O principal aeroporto que atende Porto Alegre e o estado ficou alagado por um mês e deve retornar à funcionalidade total somente perto do fim do ano. Recuperar essas perdas custará muito mais do que se medidas de adaptação tivessem sido implementadas.

Modelos climáticos previram um aumento na frequência e intensidade de eventos extremos de chuva para esta região, causando inundações e secas. Medidas de adaptação para lidar com esses eventos extremos são urgentes. Aqui, focamos na adaptação baseada na natureza envolvendo restrições de uso da terra em todas as bacias hidrográficas. Destacamos que a adaptação é necessária em todas as escalas espaciais e deve incluir toda a bacia hidrográfica, não apenas ao longo dos rios. Soluções baseadas na natureza , como proteger a vegetação nativa remanescente de florestas e não florestas e adotar práticas agrícolas que conservem o solo e a biodiversidade em áreas cultivadas, podem reduzir o impacto de eventos extremos, apesar das dificuldades na avaliação de sua eficácia. Menos erosão do solo reduz a quantidade de sedimentos suspensos nas águas das enchentes. Além disso, reter água a montante por um período mais longo pode evitar que estruturas de proteção a jusante, como os diques que deveriam proteger Porto Alegre, sejam sobrecarregadas quando a precipitação estiver mais alta do que nunca. Restaurar a vegetação nativa é um processo lento, mas é crucial para proteger o solo e as margens dos rios. Felizmente, grande parte das encostas íngremes da Serra Geral, que eram áreas agrícolas até cerca de quatro décadas atrás, agora têm florestas em regeneração (Mata Atlântica). No entanto, também é essencial restaurar a vegetação campestre que originalmente cobria os solos vermelhos do alto Rio Jacuí e do alto Rio Taquari. Notavelmente, a manutenção ou restauração de ecossistemas de várzea também reduz a vulnerabilidade dos humanos, já que decisões inadequadas de uso da terra no passado contribuíram muito para a gravidade desta catástrofe.

Conforme demonstrado pela iniciativa de mapeamento de uso e cobertura do solo MapBiomas , entre 1985 e 2022, 1,36 milhões de ha de vegetação nativa, incluindo 1,1 milhões de ha de pastagens nativas, foram perdidos para a agricultura e outros tipos mais intensivos de uso da terra nas nove bacias hidrográficas que formam o Lago Guaíba. A vegetação nativa florestal e não florestal (pastagens e áreas úmidas) protege o solo da erosão contribui para a atenuação de enchentes ao retardar o escoamento superficial da água da chuva. A Lei de Proteção à Vegetação Nativa (12.651/2012), a principal lei brasileira de conservação da natureza, obriga proprietários privados a destinar 20% de suas propriedades para manutenção da vegetação nativa na chamada Reserva Legal. Além disso, as Áreas de Proteção Permanente, também com vegetação nativa, são obrigatórias nas margens dos rios, em encostas íngremes e no topo de morros e montanhas. No entanto, ambos os instrumentos sofrem com problemas de implementação, o que reduz a proteção e leva a maior vulnerabilidade e impactos. Se essas áreas tivessem sido protegidas ou restauradas, elas teriam retido as águas a montante e a transbordamento nas planícies de inundação por um período mais longo, reduzindo os impactos catastróficos a jusante.

No entanto, sucessivos governos do estado do Rio Grande do Sul vêm promovendo o enfraquecimento da legislação que protege a vegetação nativa. Um decreto estadual de 2015 permitiu que proprietários de terras considerassem remanescentes de campos nativos sob pastagem como se fossem equivalentes a terras convertidas usadas para cultivos ou pastagens, enfraquecendo assim sua proteção sob a legislação federal. Esta disposição do decreto estadual é ilegal e foi bloqueada em 2016 por uma Ação Civil Pública. No entanto, em uma versão modificada, foi incorporada ao Código Ambiental Estadual (Lei 11.520/2020) contra a qual outra Ação Civil Pública ainda está pendente de decisão. No nível federal, tentativas de reduzir a proteção da vegetação nativa também estão em andamento, como o Projeto de Lei 364/2019 , atualmente em análise no Congresso Nacional, que remove a proteção de campos nativos sob pastagem em todo o país. Este projeto de lei foi proposto e apoiado por congressistas do Rio Grande do Sul, aparentemente cegos às potenciais consequências da proteção reduzida.

Claramente, os tomadores de decisão da região não consideram a urgência de lidar com as mudanças climáticas, sua mitigação e adaptação ao seu impacto. Se as mudanças climáticas não se tornarem uma prioridade nas políticas públicas, então a população da região que foi tão duramente atingida agora sofrerá eventos mais frequentes e potencialmente ainda mais catastróficos no futuro. No primeiro semestre de 2024 , chuvas fortes e inundações também afetaram o Quênia e os Emirados Árabes Unidos. O sul e o sudeste da Ásia viram uma onda de calor recorde, e a América do Norte está atualmente afetada por incêndios florestais graves. Esses são apenas exemplos de eventos extremos relacionados ao clima em 2024. O resultado são múltiplas ameaças às populações humanas, economias e produção de alimentos, que podem ter efeitos de longo alcance em todos os aspectos da segurança humana. Eventos como os do sul do Brasil nos alertam claramente: os esforços para conter as mudanças climáticas precisam ser globais e rápidos, e medidas de adaptação devem ser adotadas em todo o mundo.


Fonte: Science

Pesquisa internacional aponta pane em ciclo hídrico global

Desde o início do século 20, o padrão de chuva no mundo está cada vez mais imprevisível, com aumento de secas ou tempestades extremas. Aumento na variabilidade da precipitação coloca em risco os ecossistemas e a existência humana 

cm china

Precipitação de Cumulonimbus arcus sobre Zhuhai, China – (crédito: GAO Si)

Por Isabella Almeida para o “Correio Braziliense” 

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Academia Chinesa de Ciências (Ucas) e do Met Office, no Reino Unido, revelou que a variabilidade diária da precipitação global cresceu 1,2% por década desde 1900. As análises mostraram que, atualmente, mais de 75% das áreas terrestres sofreram com esse aumento. Os impactos foram mais acentuados na Europa, Austrália e leste da América do Norte.

A variabilidade da precipitação se refere à irregularidade temporal e na quantidade de chuva. Isso resulta em períodos de seca mais prolongados e intensos e tempestades torrenciais mais frequentes.

Zhang Wenxia, autor principal do estudo, detalhou que a atmosfera mais quente e úmida devido às emissões de gases de efeito estufa está provocando eventos de chuva mais fortes e flutuações mais drásticas entre períodos secos e úmidos. Isso torna a previsão e a gestão das águas pluviais cada vez mais complexas e desafiadoras.

Desmatamento

Marcelo Seluchi, especialista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sublinha que a mudança do uso do solo é um problema. “Desmatar para produzir modifica o solo e o balanço da umidade. Se troca floresta por pastagem, diminui a evaporação do solo, que é muito importante para provocar chuva, especialmente em países muito grandes, como o Brasil. Se é uma área costeira, o oceano tem grande influência, mas, por exemplo, a região Centro-Oeste está muito longe da água, então essas áreas dependem bastante da umidade evaporada pelas florestas.”

Além da variabilidade da precipitação, a segurança hídrica global enfrenta novos desafios. Uma pesquisa da Universidade de Estocolmo, publicada na Nature Water, destacou a importância de considerar a origem da umidade que gera a chuva ao avaliar o risco de escassez de água.

Tradicionalmente, a segurança hídrica tem sido avaliada com base na quantidade de água armazenada em aquíferos, lagos e rios. No entanto, o novo estudo revela que os riscos são significativamente maiores ao considerar a umidade a favor do vento — aquela evaporada de outras áreas, que contribui para a precipitação.

Demanda

Os cientistas estudaram 379 grandes áreas hídricas ao redor do mundo e descobriram que a demanda por água, que chega a 32,9 mil quilômetros cúbicos por ano, está ainda mais ameaçada do que se pensava. O risco de o recurso faltar é de quase 50% maior do que o calculado usando métodos tradicionais que só consideram a área acima das bacias.

A pesquisa também destaca a influência da governança e das mudanças no uso da terra nas áreas a favor do vento. Se o desmatamento e o desenvolvimento agrícola forem predominantes em regiões onde a umidade evapora, a quantidade de precipitação pode diminuir, aumentando os riscos à segurança hídrica.

Conforme José Marín, doutor pela Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, os impactos das mudanças no uso da terra na disponibilidade de água em áreas a jusante dependem das transições de uso da terra e mudanças na evaporação. “Por exemplo, a substituição de florestas por pastagens reduz tanto a evaporação quanto a disponibilidade de água em áreas desmatadas e a favor do vento, respectivamente. Por outro lado, a conversão de terra seca em terras de cultivo irrigadas aumenta a evaporação e a disponibilidade de água”, afirmou, ao Correio.

Integração

O artigo reforça ainda a interdependência entre países e a importância de uma gestão integrada dos recursos. Como exemplo, existe a bacia do Rio Congo, na África, que enfrenta riscos consideráveis devido à falta de regulamentação ambiental e desmatamento em países vizinhos.

Além disso, as secas prolongadas são consideradas um grande desafio. Ao contrário de desastres naturais repentinos, como terremotos ou furacões, elas se desenvolvem lentamente, o que as torna mais difíceis de gerenciar.

A conscientização global sobre o problema tem aumentado, em parte devido ao acesso à informação pela internet. No entanto, conforme aponta um estudo recente, divulgado na revista Clean Water, há uma grande disparidade na capacidade de resposta entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Nações com alta renda per capita têm mais recursos para gerenciar os impactos da seca, enquanto aqueles com menos infraestrutura enfrentam maiores dificuldades.

Ao Correio, Jonghun Kam, coautor do estudo e cientista da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pohang, na Coreia do Sul, ressaltou que muitas nações não estão prontas para uma seca severa. “Esses países precisam de ajudas e doações internacionais. As descobertas do nosso estudo sobre análise multidimensional da conscientização global sobre a seca dão ideias sobre como construir um roteiro eficiente e eficaz para ajudas e doações internacionais para os países que têm lutado contra secas.”

Três perguntas para…

Juliano Bueno
Juliano Bueno de Araujo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, acredita que a população não compreende a crise hídrica iminente(foto: Arquivo cedido)

Estudos mostram que os padrões pluviométricos estão se alterando no mundo todo. Qual a situação do Brasil nesse cenário?

Diversos estudos têm demonstrado que o aumento da temperatura média do planeta causa uma intensificação do ciclo hidrológico, o que poderá ocasionar mudanças nos regimes das chuvas, como o aumento da ocorrência de eventos hidrológicos extremos, alterando fortemente a disponibilidade hídrica de uma região e a qualidade de vida da população. A análise da tendência de séries históricas de precipitação pluviométrica é uma das maneiras de se inferir a ocorrência de mudança climática brasileira. Já estamos convivendo com extremos climáticos. Houve três enchentes no Rio Grande do Sul em 18 meses, vemos agora regiões com mais de 100 dias sem chuvas, com queimadas, fumaça tóxica e devastação de territórios que equivalem ao tamanho de Portugal incinerado em semanas.

É possível reverter a situação atual?

É possível e necessário, para mantermos nossa existência da forma que conhecemos hoje. A restauração ecológica inclui mecanismos como a recuperação acelerada de áreas e biomas degradados e a transição energética, que reduzirá pela metade as emissões de gases de efeito estufa. Temos como exemplo Brasília, que está há mais de 130 dias sem chuvas e teve episódios de 7% de umidade do ar, pior que o deserto do Saara. Essa conjuntura mostra que temos que agir, e isso não deve ser protelado, pois pontos de não retorno de biomas e regiões podem nos colocar em circunstâncias ainda piores. Portanto, devemos associar novas políticas públicas e ações do setor privado e da sociedade para agir em prol de um objetivo principal: manter nossa existência e a dos biomas.

A população compreende a crise hídrica iminente?

Infelizmente, acredito que não. Sou conselheiro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) e cientista em riscos e emergências ambientais. O que assisto é um conjunto de desinformações e pessoas acreditarem que estamos com a mesma abundância de água que o Brasil tinha 30 anos atrás. Nesse curto período, eliminamos 7,5% de todos nossos recursos hídricos — isso é o equivalente ao que a França tem de água. As projeções não são boas, o que significará o encarecimento da água, de alimentos e de todas as atividades que demandam esse elemento central na vida humana.


Fonte: Correio Braziliense