Há algum tempo, escrevi que a eleição de Campos dos Goytacazes seria decidida não pelo embate governo e oposição, mas por completa ausência desse último segmento, como você pode relembrar aqui. Hoje, li o texto do Professor Marcos Pedlowski, tecendo considerações sobre o governo Wladimir Garotinho e suas respectivas a falhas.
Pois bem, é preciso fazer um pouco de justiça, a partir de algumas constatações. É fato que encontrar a cidade após a desastrosa administração de Rafael Diniz já seria algo difícil de reconstruir. Agora imagine essa condição, acrescentada pela pandemia da COVID-19. O que se viu, literalmente, foi terra arrasada. Boa parte do tempo da administração foi dedicado à reversão desse quadro.
Aquilo que o neto do oligarca Zezé Barbosa disse que seria impossível, a repactuação da cessão de direitos dos royalties, foi costurada pelo atual governo com certa rapidez, assim como uma intensa negociação com o Governo do Estado, que alocou uma gama considerável de recursos na cidade, e deu alívio de caixa ao município. Também na esfera federal, a atual administração circulou com boa capacidade de interlocução, e conseguiu recursos para melhora da frota urbana de ônibus e outras verbas.
Tudo isso deu chance à recuperação da pontualidade dos pagamentos dos servidores, para posterior recomposição parcial de perdas salariais, restituição dos programas sociais interrompidos, como o Cartão Goytacá, Restaurante Popular, e outros programas menores.
A rede municipal de educação e saúde pareciam uma zona pós guerra, tanto do ponto de vista físico desses equipamentos, quanto do funcionalismo. Uma grande parte foi reconstruída, e a parte gerencial é prometida como próxima etapa.
Com a entrada de recursos públicos, a economia gerou empregos, e aqui uma outra observação: sempre creditam o fracasso ou estagnação da economia local, um tipo de Doença Holandesa, a hiper dependência dos royalties. 30 bilhões em royalties, dizem.
Sim, é verdade, o que não dizem é outra coisa. Apesar de concordar com a tese do desperdício, boa parte desse dinheiro foi destinado ao pagamento de inúmeros serviços públicos, além da indução da economia local, seja com obras públicas, seja com pagamento de servidores. Se não fosse esse gasto, quem geraria empregos? A iniciativa privada? Onde?
Com saldo positivo de geração de empregos nestes quatro últimos anos, nenhum empreendimento gerador de emprego foi iniciado nesta cidade. Nada. Os parasitas continuam onde sempre estiveram, esperando vagar uma teta no orçamento público. Então, temos que rever alguns conceitos sobre esses valores, diante de uma elite tão preguiçosa e mau caráter como a nossa, legatária do tempo da escravidão, e que ainda não entrou no Século XX.
Assim, o Professor Pedlowski sabe muito mais que eu, que por tudo isso, o que foi realizado teve lugar dentro de um ambiente hostil, da maioria da mídia e dos chamados setores “intelectuais”, ao contrário do silêncio cúmplice na administração de Rafael Diniz.
E se governar também é disputar espaço dia-a-dia, uma parte do esforço deste governo foi empenhada na tarefa de construção, senão de um consenso, pelo menos de alguma boa vontade destes, digamos, leões contra a família Garotinho, e gatinhos quando se trata de outros grupos políticos.
Pois bem, há, ainda, grandes problemas? Certamente. Mas como os governos se orientam em um processo democrático? Sem uma oposição forte, com capacidade de debate propositivo, estruturado em dados, os governos tendem a perder a referência de si mesmos.
Quando menciono oposição relevante, não falo apenas do aspecto do incômodo, como fez o grupo local de vereadores, que tentou barrar a votação da lei orçamentária, deixando a cidade em suspenso até o início deste ano.
Querem um exemplo? Eu me recordo que no início do governo Wladimir Garotinho, diante da possibilidade de restrições orçamentárias, o prefeito enviou à Câmara Municipal um projeto de reforma tributária, bem tímido, diga-se, exortando os mais ricos a pagarem na proporção de suas riquezas, a conta do funcionamento da cidade.
Foi o caos, e pior, raro caso de unanimidade dos edis, governistas e oposicionistas, e de todos os setores da cidade, inclusive da esquerda. Aquilo que seria o início de uma importante discussão para reconfiguração da estrutura urbana, e que reside na assertiva de que paga mais quem pode mais, e por tal razão, têm os melhores serviços da cidade, foi abortada no útero legislativo.
Outro estranho consenso? Águas do Parahyba, uma das chagas da vergonha da cidade, uma concessão que age quase na ilegalidade. Como o prefeito enfrentará essa corporação sem uma base sólida de apoio de todos os vereadores, ou ao menos, a maioria deles?
O caminho da justiça, tentado pela Procuradoria do Município trouxe alguns ganhos, mas que são poucos, diante do que precisa ser feito como regulação dessa concessão nefasta. Eu acho que o compromisso das pessoas que desejam uma Campos dos Goytacazes melhor, em todos seus aspectos, é estabelecer uma disputa política concreta e honesta, trazendo para a pauta aquilo que realmente importa: a cidade e seus serviços devem atender aos que mais precisam, e quem deve custear tudo isso são aqueles que têm mais grana.
É preciso dar aos bairros mais periféricos o mesmo conforto, limpeza, mobilidade, e segurança dos bairros mais ricos.
É preciso diminuir a quantidade de carros nas ruas, as cidades devem respirar, e a gente andando é que faz a cidade respirar.
É preciso disciplinar, fiscalizar, multar e diminuir a velocidade dos veículos, dizer aos motoristas que eles não são os senhores da vida e da morte.
É preciso praças arborizadas, nos bairros, equipamentos públicos de convivência, mas também com grandes parques, como o Parque Ecológico em construção.
É preciso levar as instalações da administração para as áreas degradadas (centro e etc), fazendo com que funcionários vejam e sejam vistos pela gente que eles servem.
É preciso interromper o ciclo de apropriação da cidade por uma minoria, e devolvê-la à maioria.
Esta tarefa não é só do prefeito, é da comunidade, que deve cobrá-lo, permanentemente.
É preciso, terminada a eleição, sentarem todas estas partes envolvidas, governo, vereadores eleitos, os setores menos delirantes da oposição, e construírem um pacto pela governança da cidade.
Não com nostalgias de um passado horroroso e escravocrata, uma suposta opulência excludente e provinciana, que alguns bobocas de classe média, lacaios de uma elite arcaica, verbalizam por aí, com ares de academicismo.
Uma cidade plural, viva e pulsante. Uma cidade cidadã.
Rafael Diniz com Frederico Paes e Wladimir Garotinho no processo de transição de um governo que faz o atual parecer muito melhor do que realmente é
Passadas as primeiras semanas da propaganda eleitoral para as eleições municipais de outubro, tenho visto um deserto de ideias aflorando nas ondas de rádio e nas telas de TV. É como se a maioria dos candidatos a prefeito e vereador não vivessem na mesma Campos dos Goytacazes que eu vivo, tamanha é a superficialidade das propostas. No plano das candidaturas a prefeito, o que se vê é um arremedo de programas misturado com ataques e contra-ataques. No geral, o que se vê é apenas o esquentamento de velhas temáticas sem que se reflita sobre o que aconteceu desde a posse do atual prefeito que, convenhamos, faz um governo muito melhor do que seu antecessor cujo mandato é visto como um excelente exemplo de desencontro entre a propaganda eleitoral e aquilo que nos entregue o que for eventualmente eleito.
O prefeito Wladimir Garotinho com toda esperteza surfa na péssima memória do seu antecessor, o hoje pouco notável Rafael Diniz, e colhe os saldos de ter seu governo visto como melhor do que o anterior. Mas para começo de conversa, o que significa ter um governo melhor do que o de Rafael Diniz? Convenhamos que é muito pouco ou quase nada.
Como alguém que vive a cidade o ano todo e converso com muitos pelas ruas, cada vez mais sujas e abandonadas, me preocupa muito verificar que a administração municipal continua, apesar de um verniz modernizador, mantendo práticas que nos mantém na mesma toada daquela que eu encontrei em 1997 quando transportei meus poucos pertences para cá. E é preciso notar que nesse período os royalties do petróleo fizeram aportar muitos bilhões de reais nos cofres públicos, sem que houvesse melhoria perceptível em áreas estratégicas para o bem estar da população.
As áreas de educação e saúde continuam sem possibilitar o acesso digno a milhares de cidadãos e seus filhos, essa é a verdade. Quando se conversa com cidadãos pobres que precisam acessar escolas e unidades de saúde municipais, o que se ouve é um show de horrores. Alguém poderá aparecer com o argumento de que a nota do IDEB foi histórica. Mas e daí? Quem já conversou com algum professor da rede municipal certamente ouviu histórias de horror sobre a condição das salas de aula, e de como a maioria dos que labutam no chão das escolas não é concursada, dependendo de contratos precários que não garantem nem renda digna ou tranquilidade para enfrentar a tarefa dura de educar crianças que muitas vezes só comparecem na escola para se alimentar. E obviamente da devida obediência e alinhamento ao que demanda o governo municipal.
No caso da saúde, posso narrar uma experiência pessoal com mulheres trabalhadoras que compartilham a característica de estarem hipertensas. Uma delas me confidenciou que tendo recebido apenas um determinado medicamento, desconfiava que o mesmo era pouco apropriado para sua condição, mas que o médico que a havia atendido teria informado que era o que se tinha para entregar. A partir da minha própria condição de saúde e de um medicamento que uso diariamente, pude logo notar que realmente o remédio entregue é daqueles que não se receitam mais para quem pode pagar pelo que há de mais recente no mercado. Como os pobres não tem como comprar remédios mais modernos ou sequer pagar por consultas particulares, resta-lhes continuar vivendo cada dia como se não houvesse amanhã.
Mas não é só educação e saúde que sofrem, apesar de orçamentos milionários. Vejamos a condição do transporte público que continua indigno do nome. A população hoje padece de uma estrutura que torna os menores deslocamentos penosos, com um custo relativamente alto para os mais pobres. Com isso, viagens que deveriam durar 20 minutos se transformam em epopeias no interior de veículos velhos e perigosos. Aliás, se o IMTT resolvesse sair da condição de hibernação eterna em que se encontra, quantos dos ônibus e vans que sacolejam com campistas assustados por diferentes partes do município não teriam de ser recolhidos? Sugiro aos mais céticos que tentem uma viagem desde a rodoviária velha até, por exemplo, Morro do Coco. Se não se desejarem ir tão longe, uma viagem até Guandu já daria conta da experiência.
Para compor esse cenário de dificuldade, temos ainda ruas inteiras que receberam melhoras cosméticas sem a devida sinalização. Com isso, transitar pelas ruas de noite é quase um exercício de coragem. Essa coragem tem de ser maior porque vivemos em uma cidade média cujo sistema de monitoramento e controle de cumprimento das regras de um trânsito que parece congelado na Vila de São Salvador. Com isso, se estabelece um clima do salve-se quem puder e o resultado são acidentes diários com feridos e mortos. Tudo isso sob os olhares lânguidos das autoridades municipais, a começar pelos dirigentes do IMTT.
E a situação do contrato com as concessionárias de serviços públicos, o da Águas do Paraíba para começar? Nem o prefeito ou vereadores se dão ao trabalho de explicar à população como se pode gastar tanto e ter em troca serviços de tão baixa qualidade. A questão do abastecimento de água e do tratamento de esgotos já deveria ter tido por parte de Wladimir Garotinho algo a mais do que a encenação de se vetar aumentos anuais que serão garantidos pela concessionária no Tribunal de Justiça, como se tudo fosse apenas um jogo combinado para manter as aparências. Enquanto isso, os aditivos continuam, como continua a baixa qualidade dos serviços prestados.
Algo que cobro desde o início do governo Wladimir Garotinho é o restabelecimento de uma secretaria municipal de Meio Ambiente e um plano mínimo de adaptação climática para Campos dos Goytacazes. Como pode ser possível que em uma cidade tão pressionada por fatores climáticos, estejamos sem uma secretária específica? A recente crise da proliferação de cianobactérias no Rio Paraíba do Sul já deveria ter acendido um alerta gigante por causas dos riscos existentes para a saúde da população, mas tudo continuou literalmente como dantes no quartel de Wladimir. Enquanto isso, as queimadas dos campos de cana afundam a cidade em espessas camadas de fumaça que trazem de volta compostos mercuriais presos nos solos desde os anos de 1970, os quais representam grave ameaça à saúde. Qual a reação do governo municipal a isso? Nenhuma, pois sendo o vice-prefeito um dos que seguram a caixa de fósforo até seria ingenuidade esperar o contrário. E tome gente (a maioria crianças e idosos) correndo atrás de farmácias e postos de saúde atrás de tratamentos.
Há ainda que se lembrar que não vivemos em um município desprovido de orçamento. Com as idas e vindas dos últimos anos, temos consistentemente orçamentos bilionários os quais são devidamente gastos sem que veja onde e com o quê exatamente. E não se trata de falta de dinheiro, mas de disposição para democratizar o acesso ao orçamento. Em outras palavras, trata-se de uma opção política no sentido de quem ganha e de quem perde na alocação dos recursos públicos.
Finalmente, não pretendo ter exaurido todas as áreas em que vejo problemas na administração de Wladimir Garotinho, pois escolhi apenas as mais salientes. Aqui é preciso que se diga que Wladimir segue uma cartilha que é puro suco de neoliberalismo, e isso explica porque seu governo tem os contornos que tem, com os pobres segurando a parte podre da corda. O problema é que os seus concorrentes na atual rodada eleitoral parecem não ter problema algum com a cartilha em si, apenas com o fato de querem ser aqueles que a aplicam. Com isso, não chega a ser surpresa que as chances de Wladimir se reeleger em primeiro turno estejam tão altas. É que pelo menos com sua aplicação da cartilha, uma parte mínima do orçamento municipal ainda chega aos pobres na forma de políticas sociais pontuais. Essa, aliás, me parece ser a principal razão por suas expectativas de voto estarem tão altas, apesar do sofrimento todo que os pobres experimentam em seus bairros. Os pobres sabem que o atual governo é ruim, mas que a coisa sempre piorar, como bem mostrou o governo que prometeu mudanças e removeu impiedosamente os pobres do orçamento.
Agora, se reeleito, Wladimir vai ter que lembrar que não será mais comprado com Rafael Diniz, mas com ele próprio. E aí poderão começar os problemas para claramente sonha em concorrer com o Palácio Guanabara em 2026.
Um cientista que revisava um estudo identificou figuras que pareciam idênticas às suas, o que levou a uma campanha frustrante para impedir sua publicação
O bioinformático Sam Payne tropeçou em um artigo em março que incluía figuras que, segundo ele, pareciam idênticas às de um artigo que ele publicou em 2021. Crédito: Getty
Por Dan Garisto para a Nature
Quando o bioinformático Sam Payne foi convidado a revisar um manuscrito sobre um tópico relevante para seu próprio trabalho, ele concordou — sem prever o quão relevante seria.
O manuscrito, que foi enviado a Payne em março, era sobre um estudo sobre o efeito de tamanhos de amostras de células para análise de proteínas. “Eu o reconheci imediatamente”, diz Payne, que está na Brigham Young University em Provo, Utah. O texto, ele diz, era semelhante ao de um artigo1que ele havia escrito três anos antes, mas a característica mais marcante eram os gráficos: vários eram idênticos até o último ponto de dados. Ele disparou um e-mail para o periódico, BioSystems , que prontamente rejeitou o manuscrito.
Em julho, Payne descobriu que o manuscrito havia sido publicado2no periódico Proteomics e alertou os editores. Em 15 de agosto, o periódico retratou o artigo. Uma declaração que o acompanhava citava “grande sobreposição não atribuída entre as figuras” nele e o trabalho de Payne. Em resposta a perguntas da Nature , um porta-voz da Wiley, que publica a Proteomics , disse: “Este artigo foi submetido simultaneamente a vários periódicos e incluía imagens plagiadas”.
A declaração de retratação também afirmou que quatro dos autores disseram que “não participaram da redação e submissão do artigo e não deram consentimento para publicação”, e que o quinto autor não respondeu. No entanto, a equipe de notícias da Nature encontrou links entre vários dos autores e a International Publisher, uma fábrica de artigossediada em Moscou. Nem os autores nem a International Publisher responderam aos pedidos de comentários da Nature .
O suposto plágio do artigo de Payne destaca vulnerabilidades sistêmicas na comunidade global de pesquisa, diz Lisa Rasmussen, editora-chefe do periódico Accountability in Research . De acordo com uma análise, cerca de 70.000 artigoscom características comuns ao trabalho produzido por fábricas de papel foram publicados somente em 2022.
Apesar da escala do problema, não há um equivalente da Interpol para periódicos, nem uma autoridade oficial para fornecer alertas para toda a indústria sobre manuscritos suspeitos. “Foi apenas um golpe de sorte que a pessoa solicitada para revisá-lo fosse o autor”, diz Rasmussen. “Obviamente, nosso sistema não deve depender desse tipo de serendipidade.”
Cópia carbono
Embora algumas figuras no manuscrito do BioSystems fossem cópias diretas daquelas no artigo de Payne, outras foram simplesmente refeitas usando seus dados, que estão disponíveis publicamente, ele diz. Elecompartilhoua experiência desconcertante no X, anteriormente conhecido como Twitter. “Bem, aconteceu”, ele escreveu. Ele estava revisando um artigo, ele escreveu em um post, que incluía “uma cópia direta das figuras” em um de seus próprios artigos.
Fonte: Ref. 1 e Ref. 2
Quando, meses depois, ele descobriu o artigo da Proteomics , ele postou um acompanhamento. “Bem. REALMENTE aconteceu” — o artigo que ele havia sido solicitado a revisar havia sido publicado. Duas semanas depois, a Proteomics retirou o artigo, citando plágio de imagens.
Diferentemente das figuras, o texto principal do artigo Proteomics é similar ao de Payne, mas não idêntico. Por exemplo, Payne e seus colegas escreveram:
“Da grande população de 10.000 células, subamostramos um determinado número de células n_sample ∈ [7, 16, 20, 30, 100] e calculamos S/V est .”
O parágrafo correspondente do artigo sobre Proteômica apresenta os mesmos números e muitas das mesmas palavras:
“Os autores calcularam S/Vest usando a amostra n = [7, 16, 20, 30, 100] células de uma população de 10.000 células.”
No decorrer da reportagem, a Nature encontrou ligações entre autores do artigo Proteomics e uma fábrica de artigos científicos. Dois autores, Dmitrii Babaskin e Tatyana Degtyarevskaya, ambos da IM Sechenov First Moscow State Medical University, tiveram artigos separados 3 , 4 retratados do International Journal of Emerging Technologies in Learning . Ambas as declarações de retratação, emitidas em julho de 2022, usam a mesma linguagem: “O trabalho pode estar vinculado a uma fábrica de papel criminosa que vende autorias e artigos para publicação.”
Como evidência, as declarações citaram o trabalho de Brian Perron — que estuda serviço social na Universidade de Michigan em Ann Arbor e também trabalha como detetive de má conduta — e seus colegas, que encontraram ligações entre ambos os artigos retratados e a International Publisher. Nem Babaskin nem Degtyarevskaya responderam aos pedidos da Nature para comentar sobre as retratações.
O site da International Publisher anuncia uma seleção de mais de 10.000 manuscritos, sobre tópicos tão diversos quanto ametalurgia da soldagem de liga de alumínio e as características biológicas das codornas . Os compradores em potencial podem ver o título do artigo e, às vezes, seu resumo, bem como a classificação esperada no banco de dados de citações Scopus do periódico de publicação. Eles então selecionam um slot de autor, com custos variando de cerca de US$ 500 a US$ 3.000. A empresa promete que os títulos e resumos exibidos online serão “completamente alterados” para publicação. “Ninguém jamais conseguirá encontrar o manuscrito em lugar nenhum”, declara o site.
No entanto, em 2021, Perron e seus colegas relataram no site de vigilância de fraudes científicas Retraction Watch que eles identificaram quase 200 artigos publicados que provavelmente se originaram da International Publisher. Vários dos títulos publicados “eram quase palavra por palavra” os mesmos que os listados para venda, diz Perron. Muitos dos artigos listados no relatório do Retraction Watch foram posteriormente retratados . Solicitada a comentar as alegações de que é uma fábrica de papel, a International Publisher não respondeu.
Limpando o catálogo
A International Publisher remove listagens de artigos de seu catálogo on-line após os artigos serem comprados. Para contornar isso, a Nature examinou um banco de dados de listagens de artigos anteriores da International Publisher, criado por Perron, e vasculhou capturas de tela do site da fábrica de papel tiradas pela organização sem fins lucrativos Internet Archive, sediada em São Francisco, Califórnia. A busca mostrou que os títulos de vários artigos publicados por quatro dos cinco autores do estudo Proteomics correspondiam aos títulos de artigos listados anteriormente para venda pela International Publisher.
Essas listagens de artigos não incluem o texto completo do artigo, mas fortes evidências circunstanciais conectam as listagens da fábrica de papel a estudos publicados. Por exemplo, uma captura de tela do site da fábrica de papel tirada em setembro de 2021 mostra que entre os artigos à venda estava o nº 1584, “A estrutura da vegetação florestal em lixões industriais de diferentes idades”. Degtyarevskaya foi autora de um artigo publicado na Ecology and Evolution5 em julho de 2023 com um título quase idêntico e resumo correspondente. Em resposta a uma consulta da equipe de notícias, a Ecology and Evolution disse que agora está investigando o assunto.
Embora a equipe de notícias da Nature não tenha conseguido localizar uma listagem de vendas no site da International Publisher para o artigo da Proteomics , Perron diz que o artigo tem váriascaracterísticas de artigos de fábricas de papel . A Nature não conseguiu encontrar nenhum outro estudo publicado pelos autores sobre o assunto do artigo, análise de proteínas. Além disso, o manuscrito foi enviado à BioSystems enquanto ainda estava sob revisão na Proteomics . Perron diz que enviar um manuscrito para mais de um periódico simultaneamente é uma tática clássica de pesquisadores que tentam publicar produtos de fábricas de artigos científicos.
Um porta-voz da Wiley não especificou se o artigo supostamente plagiado da Proteomics veio de uma fábrica de papel, mas disse: “Nossa investigação confirmou que houve manipulação sistemática do processo de publicação”.
Verifique e verifique novamente
Nos últimos anos, algumas editoras e periódicos tomaram medidas extras contra plágio e fábricas de papel. Um desses esforços, desenvolvido pela International Association of Scientific, Technical and Medical Publishers (STM), uma organização comercial em Haia, Holanda, é o STM Integrity Hub, um recurso para editoras científicasque inclui uma ‘ferramenta de verificação de fábrica de papel’ e uma ‘ferramenta de verificação de envio duplicado’. Este último está em uso em mais de 150 periódicos e verifica mais de 20.000 artigos por mês. Mais de 1% são identificados como duplicados.
Não há métricas sobre a frequência com que os pesquisadores detectam plágio em seus próprios trabalhos, mas vários pesquisadores responderam às postagens de Payne nas redes sociais compartilhando que se encontraram em uma situação semelhante.
Para Payne, a perspectiva defábricas de artigos tirando vantagem da IAé assustadora. “Isso, eu acho, é um golpe muito bom”, ele diz. “Eu acho que isso vai acontecer mais.”
O Brasil é neste momento um dos principais pontos de confirmação de que os cenários climáticos estão sendo confirmados na pior condição possível. Com boa parte dos rios brasileiros secando e com espessas camadas de fumaça cobrindo parte do país (ver abaixo cenas de Rio Branco no Acre), o que se tem é a combinação de fatores associados ao uso da terra para o plantio de grandes monoculturas com o processo de mudanças climáticas.
Mas não é isso o que se vê nem no plano imediato, nem no ataque aos efeitos de médio e longo prazo da crise climática. Se olharmos a reação do governo Lula, especialmente da ministra Marina Silva, a situação é de completa inação. Culpa-se entes genéricos pelo espalhamento de queimadas ilegais em terras privadas e públicas, enquanto se faz alianças eleitorais com os representantes políticos de quem está ateando fogo no país. No plano municipal, vive-se as consequências das práticas que agridem o clima como se nada estivesse acontecendo. Enquanto isso, se vivencia a escassez hídrica e crescem as ameaças sobre a garantia de acesso. No caso de Campos dos Goytacazes, ainda temos que conviver com uma tarifa caríssima que é outro de inviabilização de acesso para os pobres.
Quando colocadas juntas todas essas inações apenas refletem um alinhamento com um modelo de reprimarização econômica que depende da persistência de práticas anti-ambientais. Não é à toa que enquanto o Brasil experimenta os efeitos da pior seca já registrada desde o início das medições em 1950, o governo Lula festeja o crescimento do PIB, mesmo que isto se dê em função dos rendimentos associados a um setor primário que está literalmente colocando fogo em boa parte do país.
O que me parece evidente é que a luta pela retomada da primazia política dos trabalhadores terá que passar pela resistência a um modelo produtivo que aposta na catástrofe ambiental. Se isso não for compreendido e aplicada rapidamente, ainda iremos passar por grandes apertos e aflições em um futuro próximo. O fato é que a crise climática chegou e não há mais como separá-la da luta por uma sociedade efetivamente democrática e voltada para os interesses da maioria pobre da população.
Por Davi Carlos Acácio e Ludmila Zeger para o Sputnik
O Brasil foi o país que mais consumiu agrotóxicos em 2022, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Além do mais, o Brasil tornou-se famoso nos últimos anos por ser o principal importador de agrotóxicos proibidos na União Europeia (UE).
Os especialistas entrevistados pela Sputnik explicam porque é que os agrotóxicos proibidos na UE são vendidos para a América Latina, quais os riscos que isso acarreta e como o Governo está a tentar resolver o problema.
De acordo com um estudo encomendado pela Pesticides Action Network (PAN-Europe), uma coalizão de organizações da sociedade civil de países europeus, intitulado ” Agrotóxicos da UE, proibições de exportação: quais poderiam ser as consequências?”, o Brasil foi eleito o maior importador de produtos proibido na Europa, entre os países em desenvolvimento em 2018.
A investigação mostra que o Brasil importou 10.080.462 quilos de agrotóxicos proibidos na União Europeia, o que equivale a 36%. Entre os 18 países que mais realizaram transações desse tipo, seis são sul-americanos. Além do Brasil, a lista inclui Chile, Peru, Argentina, Colômbia e Equador .
“A Europa está ficando mais rica às custas dos países sul-americanos. Vou dar dois números muito claros. O primeiro é que nos últimos dez anos o uso de agrotóxicos na UE diminuiu cerca de 3% e no Brasil , no mesmo período, aumentou 78% ”, argumenta a professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora associada do Centro de Estudos sobre América, Ásia e África (CESSMA) da Universidade de Paris e autora de “Agroquímicos e colonialismo químico” (2023), Larissa Mies Bombardi. A professora revela ainda que a América Latina é o local onde mais cresce o uso de agrotóxicos. “Nos últimos 20 anos, o uso de agrotóxicos na América Latina aumentou 143%”, destaca.
Ela acrescenta que em nenhum outro lugar do mundo o uso de agrotóxicos aumentou tanto e, dessa forma, a Europa enriquece às custas dos países sul-americanos, dos quais o Brasil é o principal. O relatório PAN-Europa mostra que a UE foi o principal exportador de agrotóxicos em 2022. No total, foram exportadas 714 mil toneladas de agrotóxicos em um valor estimado em 6,6 bilhões de euros . Desse montante, 81.615 toneladas de 41 agrotóxicos proibidos foram exportados para uso agrícola em outros países.
Nova lei sobre agrotóxicos ou “Pacote do Veneno”?
No final de 2023, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou com vetos a Lei 14.785 de 2023, conhecida como Nova Lei dos Agrotóxicos , que tem origem no Projeto de Lei 1.459/2022, proposto inicialmente em 1999. Porém, em maio de 2024, o Congresso Nacional derrubou parte dos vetos do presidente e a lei entrou em vigor.
A questão dos agrotóxicos também está diretamente ligada à reforma tributária, uma vez que não foram incluídos no Imposto Seletivo pelo Governo federal e pela Câmara dos Deputados. Além disso, uma reportagem publicada por O Joio e O Trigo , em colaboração com Fiquem Sabendo (organização sem fins lucrativos especializada no acesso à informação pública), mostraque a reforma prevê que os agrotóxicos recebam um desconto de 60% no Imposto sobre o Valor Acrescentado (CUBA).
A diretora-executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Fitossanitários (Sindiveg), Eliane Kay , considera que a lei, fruto de um projeto que está no Congresso há mais de 20 anos, “foi amplamente debatida junto à sociedade civil organizada”.
“O texto aprovado reflete o desejo do setor por uma regulamentação mais moderna, sem prejuízo do rigor técnico e da segurança para os trabalhadores rurais, para a população e para o meio ambiente. O uso de agrotóxicos e o sistema regulatório brasileiro são rígidos e seguem as normas dos organismos internacionais”, ele diz.
Por outro lado, na opinião de Bombardi, o projeto, que já foi apelidado de Pacote do Veneno , “destrói o princípio da precaução que existia na Lei dos Agrotóxicos de 1989”.
A especialista comenta que embora a Lei de 1989 diga que se “uma substância tiver evidências de que pode ser cancerígena, de que pode ter efeitos na formação dos fetos, de que pode causar problemas hormonais, essa substância pode ser revista e pode ser proibida”. , a nova Lei de Agrotóxicos, por outro lado, afirma que “se uma determinada substância apresenta um risco inaceitável de câncer ”.
Para ela, a ideia de risco inaceitável pode abrir precedentes para o que pode ou não ser considerado aceitável. “O que é um risco inaceitável de câncer? Do que estamos falando? Cria uma enorme janela legal”, argumenta.
Além disso, a professora e pesquisadora destaca outra mudança: se antes os ministérios da Saúde, da Agricultura e do Meio Ambiente tinham equivalência para decidir se aprovavam ou não o uso de determinada substância no Brasil, agora, com a nova lei, a competência dos registros dos agrotóxicos caberá exclusivamente ao Ministério da Agricultura e Pecuária .
“Isso também coloca em risco, obviamente, que substâncias nocivas ao meio ambiente e à saúde humana possam ser aprovadas”, enfatiza.
Lobistas na corrida?
O assunto é resultado de discussões entre os setores político, econômico e de saúde. Uma reportagem publicada pelo Fiquem Sabendo mostra que o Governo Federal, durante o período de tramitação e aprovação do Projeto de Lei e da Reforma Tributária, recebeu agentes privados identificados como lobistas.
Segundo a investigação, entre 18 de outubro de 2022 e 5 de agosto de 2024, o governo federal teve 752 reuniões com a presença de pelo menos um lobista ou empresa de defesa ou produção de agroquímicos.
Segundo a própria organização, a análise visa problematizar “o papel e a influência exercida pelos lobistas dos
O Brasil foi o país que mais consumiu agrotóxicos em 2022, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Além do mais, o Brasil tornou-se famoso nos últimos anos por ser o principal importador de agrotóxicos proibidos na União Europeia (UE).
Os especialistas entrevistados pela Sputnik explicam porque é que os agrotóxicos proibidos na UE são vendidos para a América Latina, quais os riscos que isso acarreta e como o Governo está a tentar resolver o problema.
De acordo com um estudo encomendado pela Pesticides Action Network (PAN-Europe), uma coalizão de organizações da sociedade civil de países europeus, intitulado ” Agrotóxicos da UE, proibições de exportação: quais poderiam ser as consequências?”, o Brasil foi eleito o maior importador de produtos proibido na Europa, entre os países em desenvolvimento em 2018.
A investigação mostra que o Brasil importou 10.080.462 quilos de agrotóxicos proibidos na União Europeia, o que equivale a 36%. Entre os 18 países que mais realizaram transações desse tipo, seis são sul-americanos. Além do Brasil, a lista inclui Chile, Peru, Argentina, Colômbia e Equador .
“A Europa está ficando mais rica às custas dos países sul-americanos. Vou dar dois números muito claros. O primeiro é que nos últimos dez anos o uso de agrotóxicos na UE diminuiu cerca de 3% e no Brasil , no mesmo período, aumentou 78% ”, argumenta a professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora associada do Centro de Estudos sobre América, Ásia e África (CESSMA) da Universidade de Paris e autora de “Agroquímicos e colonialismo químico” (2023), Larissa Mies Bombardi. A professora revela ainda que a América Latina é o local onde mais cresce o uso de agrotóxicos. “Nos últimos 20 anos, o uso de agrotóxicos na América Latina aumentou 143%”, destaca.
Ela acrescenta que em nenhum outro lugar do mundo o uso de agrotóxicos aumentou tanto e, dessa forma, a Europa enriquece às custas dos países sul-americanos, dos quais o Brasil é o principal. O relatório PAN-Europa mostra que a UE foi o principal exportador de agrotóxicos em 2022. No total, foram exportadas 714 mil toneladas de agrotóxicos em um valor estimado em 6,6 bilhões de euros . Desse montante, 81.615 toneladas de 41 agrotóxicos proibidos foram exportados para uso agrícola em outros países.
Uso de agrotóxicos no Brasil
Os dados fornecidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ao relatório Fiquem Sabendo mostram um aumento considerável na aprovação de agrotóxicos no Brasil desde 2000. Em 2017, foi a primeira vez que o país registrou mais de 400 substâncias autorizadas. Entre 2021 e 2023 foram autorizados 1.769 produtos .
A CEO do Sindiveg, Eliane Kay, destaca que “todo produto utilizado no Brasil foi avaliado pelas autoridades reguladoras nacionais e atende às exigências legais vigentes, que são tão rigorosas quanto as de qualquer outro grande país agrícola do mundo”.
Ou seja, quando são avaliados e colocados à venda, passam por uma série de estudos, como “análises toxicológicas e ecotoxicológicas realizadas sob boas práticas laboratoriais e avaliadas pelos órgãos reguladores, de acordo com os critérios estabelecidos na legislação”, ele explica.
Apesar dos processos legais, os pesquisadores questionam algumas regulamentações brasileiras. Citando o livro Agrotóxicos e o colonialismo químico , a professora associada do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Evelize Folly das Chagas , ressalta que o tebuconazol, proibido na Europa, no Brasil “é permitido estar presente na água potável cerca de 1.800 vezes mais do que o estabelecido na UE “e já está comprovado que isso causa problemas de malformações e do aparelho reprodutor.
“ O glifosato , considerado potencialmente cancerígeno para humanos em 2015 pela Organização Mundial da Saúde, autorizamos um resíduo dessa substância 5 mil vezes maior na água, na água potável do Brasil, do que na União Europeia”, diz Bombardi.
Quando a nova Lei dos Agrotóxicos foi aprovada pelo Senado e enviada ao presidente para aprovação, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) publicou um comunicado contrário ao projeto, alegando que o Senado havia ignorado uma consulta pública em que 80% dos entrevistados votaram contra o projeto .
Além de se opor ao projeto, o INCA enfatizou “os impactos nocivos à saúde humana e ambiental decorrentes da exposição a esse contaminante químico”, afirmando que “cerca de 80% a 85% dos casos de câncer são consequência da exposição a substâncias químicas, físicas ou biológicas”. agentes presentes no ambiente .”
Como cada país segue sua própria legislação, Bombardi indica que a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas 2025) tem papel central nesses debates e que ela, como coordenadora da Aliança Internacional de Padrões de Pesticidas, tem intenção de propor um debate sobre a necessidade para um quadro regulamentar internacional para pesticidas .
“Hoje temos três convenções globais sobre substâncias tóxicas, mas nenhuma delas trata diretamente de pesticidas”, argumenta.
Também destaca as diferenças entre o que se aplica na Europa e o que a Europa acredita que se aplica no resto do mundo.
Da mesma forma que durante o período histórico colonial na Europa não era tolerada a escravatura de pessoas [uma actividade económica lucrativa nas colónias americanas], hoje na Europa, algumas substâncias, como a atrazina, que está relacionada com vários tipos de cancro , a doença de Parkinson, a infertilidade, a malformação fetal, estão proibidas na UE há 20 anos, e estas substâncias continuam a ser vendidas pela União Europeia aos países do sul [global] e o Brasil é um dos principais consumidores”, conclui.
O PT de Campos dos Goytacazes encaminha, ao que tudo indica, uma das campanhas mais vergonhosas da sua história, que já não é lá grande coisa. É indisfarçável a inclinação dos petistas a servirem de muleta da candidata delegada, em uma estranha simbiose com a extrema-direita. Pois bem, quem não escuta cuidado, escuta coitado.
É o caso do PT de Campos dos Goytacazes, e seu ingênuo (ou cínico?) candidato a prefeito. Quem assistiu ao programa eleitoral ontem, por completo, tem a nítida impressão que o redator dos textos e dos roteiros da candidata delegada e do candidato professor são a mesma pessoa. A tática é idêntica.
Certamente, a candidata e o candidato detêm informações sobre o desempenho após início de propaganda, e internamente sabem que os esforços têm sido inúteis, por isso o redirecionamento dos discursos. A mudança de chave do professor e da delegada, ao mesmo tempo, e com o mesmo conteúdo, revela que o PT é uma linha auxiliar da delegada. Eu não tenho problemas com isso, se não fosse um detalhe.
O diabo, como sabemos, mora nos detalhes. A delegada é a manifestação da extrema-direita na cidade, um tipo de KKKampos, que sai na primeira defesa daquele que é tido como “cão-chupando-manga”, o infame “influencer” goiano que mais parece uma mistura de curandeiro religioso, treinador de RH e “terapeuta” do Love School da TV Record. Ainda pesam sobre o moço suspeitas de envolvimento com pessoas ligadas ao PCC.
É a esse tipo de gente que o PT de Campos dos Goytacazes resolveu alugar seu candidato. Onde espera chegar o PT de Campos dos Goytacazes? O que lhe foi oferecido e quem ofereceu? Qual é o cálculo dessa equação política?
Qualquer que seja o ângulo da análise, parece que os petistas celebraram um acordo que se pode chamar de Caracu. O partido conseguiria eleger um vereador, de qualquer forma, nesse pleito, já que alterações na lei impõem que o beneficiado com “a sobra” não necessite de fazer votos de legenda para alcançar o coeficiente eleitoral, como me ensinou uma raposa petista. É consenso que o PT terá a maior “sobra”.
Então, se não foi para eleger um vereador, qual a razão do PT de Campos se misturar com a extrema-direita? Por mais que o perfil do candidato Jefferson sugira um viés “coxinha-classe-média”, mais próximo das lunáticas vivandeiras de quarteis do que das classes menos afortunadas, o fato é que essa inclinação para a KKKampos não é coisa só dele.
Vai ver, tem alguém infiltrado na legenda, quem sabe?
Pelo menos 1.389 propriedades que obtiveram financiamento registraram fogo dentro de seus limites entre julho e agosto deste ano. Algumas delas se sobrepõem a unidades de conservação e já estavam embargadas por infrações ambientais. Normas federais permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas.
Parte da fumaça que se espalhou pelo Brasil em agosto deste ano teve origem em queimadas dentro de áreas na Amazônia financiadas por crédito rural, modalidade de financiamento bancário dedicada à produção agropecuária. Pelo menos 1.389 propriedades que receberam os recursos registraram fogo dentro dos seus limites de 1º de julho a 26 de agosto, segundo levantamento da InfoAmazonia com base nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e nos registros do Banco Central. A análise considerou áreas com crédito ativo em 2024.
Essas fazendas receberam, ao todo, R$ 2,6 bilhões em crédito rural, incluindo imóveis que sofreram queimadas e possuem áreas sobrepostas a seis unidades de conservação, entre elas o Parque Estadual de Guajará-Mirim, a Floresta Nacional do Jamanxim e a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu. Dessas, 86 propriedades com registros de fogo nos últimos dois meses já tinham áreas embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por infrações ambientais.
Em meio à intensa fumaça produzida pelo fogo, a InfoAmazoniaflagrou alguns desses casosdurante sobrevoos realizados nos dias 20 e 21 de agosto, no sul do Amazonas e norte de Rondônia, em parceria com a equipe de monitoramento da organização Greenpeace.
Em um trecho de 100 km entre os municípios de Cujubim e Porto Velho, em Rondônia, mais de uma dezena de fazendas embargadas queimavam. Todas têm crédito rural ativo e estão sobre uma área de floresta pública não destinada.
As florestas públicas não destinadas são áreas da União e recebem esse nome justamente por não terem uma destinação oficial definida pelo Estado. Elas ainda não foram transformadas em unidades de conservação, destinadas para reforma agrária ou demarcadas como terras indígenas ou quilombolas, nem foram transferidas para proprietários privados, apesar de estarem sob a responsabilidade e posse do poder público.
Região que chegou a ser destinada para unidade de conservação, entre Porto Velho e Cujubim, em Rondônia, concentra fazendas embargadas com crédito rural ativo. Fonte: CAR/Ibama/BC/Inpe. Análise e visualização: InfoAmazonia.
“Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal”, afirma Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil, sobre as fazendas na extinta ESEC Soldado da Borracha.
Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal.
Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil
Fogo em floresta nativa na extinta ESEC Soldado da Borracha. Fábio Bispo/InfoAmazonia
Norma do Banco Central ignora queimadas ilegais
As normas do Banco Central do Brasil e do governo federal para o financiamento do agronegócio na Amazônia permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas ilegais.
Essas linhas de financiamento são subsidiadas por recursos dos correntistas, dos próprios bancos e do orçamento público. As condições para a concessão do crédito são definidas pelo Manual de Crédito Rural (MCR 2-9),do Banco Central do Brasil, que estabelece quais são as normas socioambientais e climáticas que as instituições financeiras devem seguir para concessão do crédito.
O MCR proíbe o financiamento de áreas em unidades de conservação, em florestas públicas não destinadas e para propriedades embargadas, mas se limita à ocorrência de embargo por desmatamento. Ou seja, há uma brecha: outros crimes ambientais, como o uso ilegal de fogo, não entram na lista de impeditivos para que um fazendeiro tenha acesso ao dinheiro.
“Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural”, afirma a porta-voz do Greenpeace.
Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural.
Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), há limitações para o embargo de áreas queimadas, pois a legislação exige nexo causal para identificação da autoria — podem haver casos de fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso é diferente no caso de desmatamento e degradação, que geram uma responsabilização direta para o proprietário ou ocupante de uma área.
“A legislação atual exige que seja estabelecido nexo causal no caso dos incêndios, ou seja, que o proprietário de fato pôs fogo e não foi um fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso dificulta muito uma ação remota, por imagens de satélite, e que portanto acaba tendo uma atuação mais limitada”, explica o MMA.
Em Lábrea, no sul do Amazonas, a reportagem flagrou o fogo se alastrando pela floresta ao lado de pastagens recém-abertas, já com gado, em áreas próximas a fazendas financiadas com crédito rural. Nessa região, também foram observadas queimadas em propriedades localizadas na divisa do Parque Nacional Mapinguari.
Focos de incêndio próximo de reserva ecológica do Mapinguari, no Amazonas. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia
“É importante frisar que todas essas queimadas são provocadas por ação humana, seja no manejo inadequado das pastagens ou colocando fogo diretamente na floresta, que, em umasituação de seca dessas que enfrentamos, rapidamente se espalha. Cerca de 90% do desmatamento e queimadas na Amazônia é para abrir áreas de pastagens”, destaca Bannwart.
Em agosto, foram registrados 38,2 mil focos de fogo na Amazônia, segundo o satélite de referência (Aqua) monitorado pelo Inpe, o maior número para o mês em 14 anos. O estado do Amazonas contabilizou 10.328 focos, a pior quantidade da série histórica, que reúne os dados de queimadas desde 1998. O recorde anterior era de 2022, quando o estado atingiu, pela primeira vez, 8.659 registros.
Já em Rondônia, agosto encerrou com 4.522 focos de fogo, o maior registro em cinco anos. Em 28 de agosto,o governo estadual proibiu o uso de fogo por 90 dias. No Pará, foram registrados 13.803 focos, também o maior número em 14 anos.
Cicatriz de queimadas no norte de Rondônia. Fábio Bispo/InfoAmazonia
Áreas embargadas na Amazônia por queimadas receberam R$ 54,6 milhões
Um outrolevantamento, divulgado pelo Greenpeace Brasil, mostrou que 2.261 áreas embargadas na Amazônia e Cerrado, entre 2018 e 2023, conseguiram obter crédito rural no país. Em 748 casos (33%), os embargos são por desmatamento e, mesmo com a proibição legal para este tipo de crime, os financiamentos foram liberados.
A organização identificou 1.728 propriedades na Amazônia que foram penalizadas pelo Ibama, mas ainda assim receberam o benefício. Em 122 desses casos (7%), elas foram embargadas pelo uso ilegal do fogo, mas receberam, ao todo, R$ 54,6 milhões de bancos públicos e privados.
Essas mesmas 122 propriedades, que já haviam sido embargadas, geraram uma dívida de R$ 57 milhões em multas ambientais ao Estado. Segundo o Greenpeace, os proprietários dessas áreas embargadas por fogo com crédito rural ativo também são responsáveis por outras infrações que somam R$ 145,5 milhões.
O Banco do Brasil é a instituição que mais investiu dinheiro na produção rural em áreas com embargos por uso ilegal do fogo, segundo o Greenpeace, com 266 operações de crédito entre 353 financiamentos destinados para áreas embargadas por fogo na Amazônia e Cerrado. Em segundo lugar, está o Banco da Amazônia, que destinou recursos para 61 financiamentos. As demais operações foram realizadas por cooperativas e bancos privados.
Em 51 das operações mapeadas, os financiamentos ocorreram antes dos embargos, mas permanecem ativos. No entanto, em 302 casos (85,56%), os financiamentos foram liberados quando as áreas já estavam embargadas.
BB financiou gado em fazenda incendiária no Parque de Guajará-Mirim
Em 2021 e 2022, propriedades sobrepostas ao parque e à reserva obtiveram crédito rural. Uma delas é uma fazenda no interior do Parque de Guajará-Mirim, que recebeu R$ 976 mil do Banco do Brasil para recria e engorda de gado.
A área foi praticamente toda desmatada em 2021, mas não foi alvo de fiscalização. Em janeiro de 2022, a fazenda obteve o financiamento, que foi encerrado em janeiro deste ano. Nos últimos dias 11 e 12 de agosto, essa área registrou focos de queimada, segundo os dados do Inpe.
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Fazenda financiada com crédito rural no Parque Estadual de Guajará-Mirim
Área no interior da unidade de conservação, em branco, começou a ser desmatada em 2021, um ano anos de receber recurso do Banco do Brasil.
A fazenda fica na localidade conhecida como Bico do Parque, que faz divisa com a Terra Indígena Karipuna, justamente onde os indígenas têm denunciado as invasões.
Pelo menos 854 propriedades num raio de até 10 quilômetros do território foram beneficiadas com o crédito rural, considerando créditos ativos e encerrados. Em 174 imóveis, há sobreposições com embargos do Ibama por infrações ambientais. Em seis áreas com financiamento ativo, incluindo áreas embargadas, houve registro de fogo nos últimos dois meses.
A pressão já reflete em prejuízos “sociais, culturais e econômicos para a comunidade local”, de acordo com o líder indígena Adriano Karipuna. Ele diz que o gado avança pela área homologada do território “à base de desmatamento ilegal e queimadas”.
“Nós temos sofrido muito com as queimadas e as invasões em nosso território. É algo que não viamos com tanta frequência, mas que agora se tornou constante. Nós já temos fazendas ilegais de gado dentro do território”, afirma o indígena. No mês passado, o governo federal cumpriu a recomendação do STF para retirada de invasores da Terra Indígena Karipuna.
Banco do Brasil inclui queimadas em proibições
Em resposta à InfoAmazonia, o Banco do Brasil informou, em nota, que “adota medidas proativas e voluntárias” em suas linhas de financiamento para o crédito rural. O banco afirma que não financia empreendimentos rurais localizados em áreas embargadas por desmatamento ilegal e que utiliza ferramentas automatizadas para verificar restrições legais.
“Todas as operações de crédito contam com cláusulas que permitem a decretação do vencimento antecipado e a suspensão imediata dos desembolsos em caso de ocorrência de infringências socioambientais; e o Banco faz valer essa cláusula sempre que qualquer irregularidade é constatada”, diz a nota (leia aqui a íntegra do posicionamento do Banco do Brasil).
Apesar de não constar entre as práticas vedadas pelo manual do BC (MCR-29), o Banco do Brasil disse que incluiu recentemente “a verificação de sobreposição do imóvel com áreas embargadas por uso de fogo”.
O banco não comentou sobre os casos identificados pela organização ambiental para áreas com embargos do Ibama financiadas com crédito rural, nem informou se fará uma revisão destes casos ou de outros casos.
A InfoAmazonia também perguntou ao Banco Central sobre a concessão de crédito rural para propriedades envolvidas em crimes ambientais e queimadas ilegais na Amazônia, mas a instituição financeira não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Já o Banco da Amazônia afirmou que adota uma “rígida Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática”, e que todas as operações de crédito são analisadas com base nos critérios estabelecidos pelo Banco Central.
“Toda a operação recebe tratamento de análise socioambiental, realizada em ferramenta digital contratada para auxiliar a este fim, com exceção das operações dispensadas pelo próprio Manual de Crédito Rural – MCR”, afirmou, em nota, a instituição.
O MMA informou que o órgão tem atuado junto com o Banco Central para ampliar restrições do crédito rural para áreas que causem a destruição da floresta. A pedido da pasta, no ano passado, a norma do Banco Central “ampliou os embargos para todos os biomas e incluiu as notificações estaduais”, segundo o órgão.
O presidente Lula (PT) e a ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, pediram abertura de investigação para ações criminosas nos incêndios recentes no Brasil. A partir do pedido, a Polícia Federal instaurou 31 inquéritos, sendo 29 para investigar incêndios na Amazônia e no Pantanal, e dois em São Paulo.
Procurada para comentar os casos de queimadas registradas em áreas beneficiadas com crédito rural, a Presidência encaminhou a solicitação da reportagem aos ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e da Agricultura e Pecuária. Mas até o momento não obtivemos retorno.
Como analisamos áreas incendiadas com financiamento ativo
A InfoAmazoniaidentificou as áreas beneficiadas com crédito rural, disponibilizadas pelo Banco Central, a partir do Cadastro Ambiental Rural (CAR) indicados nas operações de financiamentos. Para esta análise, a reportagem considerou somente as operações bancárias com vencimentos a partir de 2024, para considerar os financiamentos ativos. Esses dados foram cruzados com os registros de focos de calor detectados pelosatélite NOAA-21e disponibilizados pelo Inpe (registros entre 1º de julho e 26 de agosto). As mesmas áreas do CAR foram cruzadas com os registros de embargos do Ibama.
Por Silvia Lisboa e Carla Russo para o InfoAmazonia
Análise aponta que risco dessas condições graves aumenta em cidades com 5% ou mais da área dedicada a plantações. MT apresentou os piores índices entre os estados do Brasil com maior parte do território voltado à produção de commodities.
Uma criança em Lucas do Rio Verde, município da região central de Mato Grosso, tem um risco 20% maior de nascer com anomalias congênitas — alterações estruturais ou funcionais que ocorrem durante o desenvolvimento fetal — do que uma criança nascida em Juruena, 670 quilômetros distante em direção noroeste, no mesmo estado.
Esse risco também se eleva para mortes fetais. Mulheres que vivem em Lucas do Rio Verde têm até 30% mais chances de perder o bebê após a 28ª semana de gestação do que as moradoras de Juruena.
A explicação está conectada à ocupação do território dessas duas cidades: enquanto Lucas do Rio Verde tem mais de 50% de sua área coberta por lavouras, Juruena tem menos de 5%. Essa configuração impacta a saúde da população porque eleva o risco dessas duas condições graves, segundo uma análise da InfoAmazonia em parceria com Tatiane Moraes, pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP).
Moraes, que atua na área de saúde ambiental e também integra o Observatório Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), primeiramente analisou todos os estados brasileiros para identificar os maiores produtores de commodities do país. O critério adotado foi selecionar aqueles com mais da metade dos municípios com ao menos 5% de sua área dedicada à agricultura. São eles: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em seguida, foi verificada a existência de uma associação entre anomalias congênitas e mortes fetais e o tamanho da área agrícola nos municípios desses estados.
Mato Grosso foi o que apresentou o maior risco de anomalias e mortes fetais entre todos os analisados. Já São Paulo e Paraná não apresentaram associação entre o aumento da área agrícola e um maior risco dessas condições.
No caso das anomalias, o estado da Amazônia Legal apresenta uma chance 20% maior em municípios com pelo menos 5% de lavouras em comparação àqueles que não alcançam esse percentual. Cerca de 60% do estado, isto é, 85 municípios, têm mais de 5% do seu território dedicado à agricultura.
Nos municípios mais agrícolas de Mato Grosso do Sul, por exemplo, o risco aumenta em 12%; em Goiás, em 4%. Na Região Sul, tanto o Rio Grande do Sul quanto Santa Catarina registraram um aumento no risco de anomalias, variando entre 2% e 4% em municípios com pelo menos 30% da área plantada.
Uso de agrotóxicos e a saúde
Os mesmos estados também estão entre os que mais comercializam agrotóxicos no país, segundodadosdo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mato Grosso também está no topo desse ranking, enquanto Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão entre os dez primeiros colocados.
O glifosato,o mais utilizado no país, e outros produtos, como o 2,4-D, a atrazina, o mancozebe, o clorotalonil e o acefato são fatores de risco ambiental para uma série de doenças, como as anomalias e as mortes fetais. Exceto o glifosato e o 2,4-D – um dos componentes do agente laranja, usado como arma de guerra –, os demais são proibidos na União Europeia.
Para chegar aos resultados, Moraes observou o avanço das áreas agrícolas entre 2013 e 2021, com dados extraídos da plataforma MapBiomas. Em seguida, analisou os registros do sistema nacional de saúde do DATASUS no mesmo período e verificou se havia aumento na taxa de anomalias congênitas e mortes fetais, condições já associadas à exposição a agrotóxicos. O objetivo era comparar os dados de saúde de municípios com mais de 5%, 30% e 50% da área dedicada a plantações de grãos com outros sem lavouras.
“Mensuramos o risco de viver em um município agrícola com foco na saúde das crianças”, disse Tatiane Moraes, que foi bolsista do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Os resultados reforçam a necessidade de reavaliar o uso massivo de agrotóxicos na agricultura brasileira”, disse.
Em 2011, quando Lucas do Rio Verde tinha metade da população atual, mas já despontava como um dos polos do agronegócio, uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) já haviaidentificado a presença de agrotóxicos em amostras de leite materno de 62 mulheres. Em todas, havia algum resíduo de pesticida; em outras, até seis tipos de agrotóxicos. O estudo foi orientado por Wanderlei Pignati, líder de um grupo de pesquisadores da universidade que há décadas se dedica a avaliar os diferentes impactos do agronegócio na saúde coletiva.
De lá para cá, o setor agrícola em Lucas do Rio Verde só cresceu. Sua localização às margens da BR-163, a principal via de escoamento das commodities até os portos do Pará ou do Rio Grande do Sul, selou seu destino. O município abriu seu território para as produções de milho, soja, arroz, algodão, que hoje ocupam mais de 120 mil hectares. A populaçãoquase dobrouna última década.
Sinop, conhecida como a Capital do Nortão, expressão cunhada por ser referência a outros 30 municípios da região, e Colíder, ambas situadas no trajeto da BR-163 em direção ao norte, também seguem o mesmo caminho: destinam 30% a 50% do seu território a lavouras, respectivamente. Mato Grosso deve plantar na safra 2024-2025mais de 12,6 milhões de hectares só de soja, uma área superior a do território de Portugal.
Juruena e Lucas, paisagens distintas
A paisagem de Juruena, um município com pouco mais de 10 mil habitantes, é oposta à de Lucas do Rio Verde. Em vez de uma rodovia, está situada à beira do rio homônimo, uma das nascentes do rio Tapajós. As áreas protegidas da floresta amazônica, que dominam a região noroeste do estado, ofereceram mais resistência ao avanço agrícola. A conversão do solo para a agricultura em Juruena não alcança 5%.
Ali a presença de terras indígenas e unidades de conservação serviu como um freio ante o desmatamento, que começou em Mato Grosso por Cuiabá em direção ao norte. “A ocupação da região noroeste de Mato Grosso é bem mais recente, data do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, incentivada pela ditadura”, explica o biólogo Eduardo Darvin, coordenador do programa de Economias Sociais do Instituto Centro de Vida (ICV). “Como toda a ocupação na Amazônia, ocorreu de forma desordenada, incentivando o desmatamento e teve vários ciclos, entre eles o da madeira e o do garimpo”, detalha.
Área de plantação de soja próxima ao município de Brasnorte, no noroeste do Mato Grosso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Nos últimos anos, as áreas de pecuária estão sendo substituídas pela plantação da soja. Com a commodity, veio toda uma cadeia que antes não existia, como máquinas agrícolas e aviões usados na pulverização aérea de pesticidas. “Está ocorrendo muito arrendamento e concentração de terras para expansão das lavouras, uma mudança na economia regional que começa a trazer desemprego e agrotóxicos”, preocupa-se Darvin.
A pulverização aérea de agrotóxicos já chegou a abalar a rede de produtores agroecológicos coordenada pelo ICV na região. “Alguns agricultores perderam toda a produção e tiveram problemas de saúde”, disse. “Outros não conseguem ingressar na rede porque estão cercados de lavouras que usam esses produtos”. O projeto do ICV foi criado para fortalecer a agricultura familiar e fazer frente ao avanço do desmatamento da região norte e noroeste, ocasionado primeiro pela pecuária e, agora, pela soja.
Efeito sobre as crianças
Embora as pesquisas científicas apontem uma relação entre os agrotóxicos e o desenvolvimento de doenças, ainda é um desafio quantificar a exata influência dos pesticidas. “Mas o fato de ser complexo não significa que não haja impacto, isto é, que os riscos não existam”, disse a geneticista Lavinia Schuler-Faccini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Eles (os riscos) existem e estão sendo cada vez mais demonstrados por estudos ecológicos, que comparam populações diretamente expostas com as não expostas, por pesquisas em animais e com células in vitro”.
Uma das maiores autoridades em anomalias congênitas, Schuler-Faccini lidera um serviço de vigilância no sul do Brasil, outra região agrícola importante. O grupo trabalha para identificar as causas evitáveis de defeitos físicos e neurológicos em bebês – e os pesticidas, é claro, entram na mira. Alguns deles funcionam como desreguladores endócrinos, resultando em problemas de fertilidade; outros modificam a expressão de genes, um efeito que vem sendo estudado pela epigenética.
“A presença do pesticida no organismo, até mesmo em pequenas doses, pode alterar o funcionamento das sinalizações produzidas por genes. Desligam a expressão de determinado gene, ou o acende de modo fraco, ou muito forte. É um efeito a longo prazo, que ocorre muito antes de uma gestação”, explica.
Orientando de doutorado de Schuler-Faccini, o bioquímico Ricardo Rohweder assina um estudo de revisão que avaliou 80 pesquisas observacionais realizadas em 13 países da América Latina e do Caribe sobre os efeitos da exposição pré-natal a pesticidas na saúde de gestantes e seus filhos. Publicada no Journal Health and Pollution, a pesquisa identificou uma associação dos agrotóxicos a uma série de efeitos adversos à saúde dos bebês. “Além de anomalia congênita, encontramos outros desfechos obstétricos, como prematuridade, perda gestacional, baixo peso, leucemia infantil, alergias e problemas de neurodesenvolvimento”, detalhou. Chamou a atenção de Rohweder a pouca quantidade de estudos sobre o glifosato, o mais usado no Brasil e no mundo.
Uma das pesquisadoras do Núcleo de Estudos Ambientais e em Saúde do Trabalhador (Neast), coordenado por Pignati, da UFMT, a enfermeira Mariana Soares tambémidentificou uma associação entre a exposição parental aos agrotóxicos e risco de câncer em crianças e adolescentes no mundo.
Máquinas colheitadeiras em plantação de soja no norte do Mato Grosso. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real
O estudo de revisão mostrou que herbicidas, como o glifosato, e os inseticidas organofosforados foram os mais relacionados com o câncer infanto-juvenil, especialmente a leucemia infantil. “Estamos cada vez mais demonstrando quais são os fatores que adoecem as pessoas em uma região onde o agronegócio domina”, explicou Soares.
Agrotóxicos e a chegada da soja
No Brasil, os agrotóxicos foram introduzidos com a soja transgênica na década de 1990, e o seu uso só aumentou à medida que essa commodity ganhou espaço. Atualmente, a soja domina a produção agrícola brasileira, atingindo 154,6 milhões de toneladas na safra 2022/23, quase toda geneticamente modificada. Enquanto isso, o Brasil aplicou um recorde de 800,6 mil toneladas de agrotóxicos em 2022, quantidade maior do que em qualquer outro país no mundo.
A tendência é que o uso desses produtos químicos aumente, já que o caminho para os agrotóxicos está cada vez mais livre. Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)reavaliou o glifosato e considerou não haver evidências científicas que o produto da Monsanto cause danos à saúde humana que tornem proibitivo seu uso.
Em maio deste ano, o pacote de leis chamado PL do Veneno afrouxou ainda mais o controle de novos agrotóxicos no país, apesar de duras críticasda comunidade científica. Entidades e partidos políticos da oposição protocolaram no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação direta de inconstitucionalidade para derrubar a lei, em parte porque viola os direitos das crianças e adolescentes.
Para Larissa Bombardi, autora do livro “Colonialismo e Agrotóxicos” publicado em 2023, um dos principais argumentos que impulsiona os agrotóxicos é o fato que eles aumentam a produção de comida, o que ajuda a acabar com a fome. A pesquisadora do Departamento de Geografia da USP explica, no entanto, que esse raciocínio não funciona, já que as culturas que mais crescem no país não servem para a alimentação, como a soja.
Segundo Bombardi, o debate dos agrotóxicos tem de ocorrer sob outra perspectiva.“Temos que pensar se queremos produzir commodities sem limites ou se queremos preservar nossa biodiversidade e a qualidade da água,” afirma a pesquisadora. “Será que produzir mais é importante para o conjunto da sociedade brasileira?”.
Antes mesmo do PL do Veneno, a legislação já permitia níveis muito elevados de resíduos de agrotóxicos em água potável. A União Europeia aceita, para a maioria dos agrotóxicos comercializados, o valor máximo de 0,1 de microgramas por litro (μg/L). Considerando os produtos mais vendidos no Brasil, o valor tolerado por aqui é 20 vezes maior para a atrazina, 300 vezes maior para o clorpirifós e 2,4-D, 900 vezes maior para o Diuron, 1.800 vezes maior para o mancozebe, e para o acefato sequer existe um limite.
O glifosato, agrotóxico mais vendido do Brasil e no mundo, tem o valor limite de 500 μg/L no Brasil, o que representa 5.000 vezes mais do que os países europeus. O limite nos Estados Unidos é maior:aproximadamente 700 μg/L.
“Temos dois problemas: os limites tolerados da nossa legislação estão desatualizados, e não temos estudos sobre as misturas de agrotóxicos”, disse a farmacêutica Solange Garcia, professora da UFRGS especializada em toxicologia. “Não estamos expostos a uma única substância naquela concentração determinada. Isso não existe.”
Garcia chamou atenção para outro aspecto pouco falado: agrotóxicos contêm metais pesados. “Ninguém fala sobre isso”, observou. O mancozebe, por exemplo, o segundo agrotóxico mais usado no Mato Grosso, conforme dados do Ibama, tem manganês na composição.
Uma pesquisa orientada por Garcia descobriu doses elevadas de manganês no sangue de crianças em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul – os estudantes desenvolveram alterações endócrinas e cognitivas em função da contaminação. “Os metais se acumulam no organismo, na planta, no solo. É muito grave”.
No exterior, o glifosato e outros produtos considerados perigosos também seguem sem grandes restrições. No ano passado, a Comissão Europeia autorizou o uso do herbicida por mais 10 anos, apesar de permitir que cada país-membro possa controlar o uso por conta própria.
Nas cortes norte-americanas, porém, a Monsanto-Bayer, fabricante do Roundup, marca que tem o glifosato como principal ativo, tem contabilizado derrotas. Vítimas de câncer têm conseguido provar na Justiça a associação entre as suas doenças e a exposição ao produto.
No Mato Grosso, o Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso (MPT-MT) lidera uma das frentes contra o uso intensivo dos pesticidas. Em 2019, uma ação civil pública movida pelo MPT pediu a proibição do uso de glifosato nas lavouras do estado, incluindo a difundida pulverização aérea, para proteger a saúde dos trabalhadores rurais. A ação não prosperou, mas foi encaminhada para o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), órgão mediador da justiça. A estratégia agora é tentar a redução do uso do herbicida com a conscientização junto a entidades como a Aprosoja, que representa sojicultores.
Mais recentemente o MPT-MT entrou com uma outra ação, ainda em curso, pedindo o cancelamento do registro da atrazina, o terceiro agrotóxico mais usado no Mato Grosso. A atrazina é proibida na Europa há mais de duas décadas, após estudos mostraram sua ação sobrehormônios sexuais dos animais. Segundo o procurador do trabalho Bruno Choary Cunha de Lima, a ação observa o princípio da precaução: não se pode expor um trabalhador a um produto reconhecidamente perigoso.
Na Câmara dos Deputados, um projeto de lei do deputado Padre João (PT-MG) também pede o banimento da atrazina. No texto do PL, o deputado destaca que a substância pode trazer danos à saúde em doses muito pequenas e de não haver controle sobre a quantidade usada nas lavouras.
Além deameaçarespécies de plantas eanimaisem extinção por desregular a ação hormonal, a atrazina também está relacionada a anomalias genitais congênitas em meninos. Seus efeitos sobre as crianças se assemelham ao que ocorre nos animais, como redução da produção da testosterona, hipospádia (abertura anormal da uretra) e micropênis.
COMO ANALISAMOS O IMPACTO DOS AGROTÓXICOS NA SAÚDE DA POPULAÇÃO DO MATO GROSSO?
. A partir do cruzamento desses dados, foi mensurado o risco da ocorrência dessas condições por município, conforme a área agrícola.
. Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dadosnesta pasta.
Esta reportagem foi apoiada pelo Fundo Howard G. Buffett para Jornalistas Mulheres da International Women’s Media Foundation; e as visualizações de dados foram produzidas naUnidade de GeojornalismoInfoAmazonia, apoiada pelo Instituto Serrapilheira.
Texto: Sílvia Lisboa e Carla Ruas Análise de dados: Tatiane Moraes Visualização de dados: Carolina Passos Edição: Carolina Dantas Coordenação de dados: Thays Lavor Direção editorial: Juliana Mori
Grande explosão de foguete SpaceX destruiu a atmosfera superior. As observações destacam ameaças ao GPS e sistemas similares, tanto por distúrbios naturais quanto causados pelo homem
O foguete Starship da SpaceX é o veículo de lançamento mais poderoso já construído. Crédito: Joe Marino/UPI/Shutterstock
Por Davide Castelvecchi para a Nature
Asenormes explosões que destruíram o mega-foguete Starship da SpaceX no ano passado também abriram um dos maiores “buracos” já detectados na ionosfera, uma camada de ar rarefeito na atmosfera superior. O buraco se estendeu por milhares de quilômetros e persistiu por quase uma hora, descobriu um estudo 1 .
O coautor do estudo Yury Yasyukevich, um físico atmosférico do Instituto de Física Solar-Terrestre em Irkutsk, Rússia, diz que a extensão da perturbação pegou sua equipe de surpresa: “Isso significa que não entendemos os processos que ocorrem na atmosfera”. Ele acrescenta que tais fenômenos podem ter implicações para futuros veículos autônomosque podem exigir navegação por satélite de precisão. Os resultados foram publicados em 26 de agosto na Geophysical Research Letters .
Foguete recordista
Em 18 de novembro do ano passado, a SpaceX lançou seu foguete Starship — o maior e mais poderoso foguete já construído — de uma plataforma de lançamento em Boca Chica, Texas. O primeiro estágio da Starship foi projetado para retornar com segurança à superfície para reutilização, mas explodiu logo após se separar do estágio superior, aproximadamente 90 km acima do Golfo do México. Minutos depois, o mecanismo de autodestruição no estágio superior disparou, desencadeando uma segunda explosão a uma altitude de cerca de 150 quilômetros.
Yasyukevich e seus colaboradores estavam curiosos para descobrir como tais explosões massivas poderiam afetar a ionosfera, uma zona da atmosfera que se estende de cerca de 50 a 1.000 quilômetros acima do nível do mar, na qual a radiação do Sol pode retirar elétrons de algumas moléculas de ar. O resultado é que uma pequena porcentagem da massa da ionosfera consiste em elétrons e íons carregados positivamente, enquanto o resto das moléculas de ar permanece neutro. A proporção exata de moléculas ionizadas para neutras varia com fatores como altitude e latitude.
Essa proporção afeta a velocidade com que as ondas de rádio transmitidas por satélites de navegação globais se propagam na ionosfera. Crucialmente, mudanças na proporção têm efeitos diferentes em diferentes frequências de rádio. Isso permite que os pesquisadores meçam a quantidade de ionização em tempo real, comparando as velocidades das ondas de rádio de duas frequências diferentes, explica Yasyukevich.
Esses dados têm sido usados há décadas para revelar como eventos que vão deterremotosa testes nucleares subterrâneos afetam a ionosfera. Essas perturbações naturais e causadas pelo homem podem anular temporariamente os efeitos da radiação solar, fazendo com que elétrons e íons se recombinem em moléculas neutras.
Neutralizando o ar
A equipe examinou dados disponíveis publicamente de mais de 2.500 estações terrestres na América do Norte e no Caribe que recebem sinais de navegação por satélite. Eles descobriram que as explosões da Starship produziram ondas de choque que viajaram mais rápido do que a velocidade do som, transformando a ionosfera em uma região de atmosfera neutra — um “buraco” — por quase uma hora sobre uma região que se estende da península de Yucatán, no México, até o sudeste dos Estados Unidos. O escapamento do foguete pode desencadear reações químicas que produzem buracos temporários na ionosfera, mesmo na ausência de uma explosão, mas, neste caso, as próprias ondas de choque tiveram de longe o efeito maior, diz Yasyukevich.
“Fiquei impressionado com este estudo de caso”, diz Kosuke Heki, um geofísico da Universidade de Hokkaido em Sapporo, Japão, que foi um revisor aberto do artigo. Mas ele acha que os efeitos químicos da grande conflagração foram a causa dominante do buraco.
Perturbações ionosféricas podem afetar não apenas a navegação por satélite, mas também as comunicações ea radioastronomia . Conforme as frequências de lançamento aumentam, esses efeitos podem se tornar um problema maior.
Com a continuação das chuvas intermitentes, paleontólogos do sul do Brasil estão trabalhando para extrair ossos de dinossauros e outros antes que sejam danificados
Uma equipe de pesquisa do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, no sul do Brasil, escava um sítio fóssil. Crédito: Janaína Brand Dillmann
Por Meghie Rodrigues para a Nature
A chuva pode ser uma amiga ou inimiga para os paleontólogos. Ela pode lavar o solo ou erodir rochas, potencialmente revelando fósseis emocionantes , ou pode fazer com que espécimes delicados já expostos se desintegrem.
Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro agora do que no sul do Brasil. Em maio, enchentes devastadoras no estado do Rio Grande do Sul revelaram pedaços de ossos de pelo menos 35 animais antigos, incluindo um esqueleto de 233 milhões de anos que está entre os fósseis de dinossauros mais antigos do mundo. Mas chuvas intermitentes e condições úmidas desde então têm feito pesquisadores correrem para recuperar outros espécimes menores e mais vulneráveis que também são preciosos.
Somando-se à urgência está a natureza sem precedentes das enchentes. Entre 27 de abril e 27 de maio, a capital do estado, Porto Alegre, viu cerca de 66 centímetros de chuva — quase metade do que normalmente acontece em um ano, e muitas outras cidades em todo o estado também foram inundadas. Alguns sítios paleontológicos ainda estão debaixo d’água.
“Se os paleontólogos não estiverem presentes para coletar o material quando ele começar a aparecer, corremos o risco de perder parte dele para sempre”, afirma Leonardo Kerber, coordenador do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica Quarta Colônia (CAPPA) da Universidade Federal de Santa Maria, em São João do Polêsine.
Superando expectativas
Desde as chuvas de maio, o paleontólogo Rodrigo Temp Müller e seus colegas do CAPPA intensificaram o monitoramento dos locais de escavação perto de São João do Polêsine, que fica cerca de 280 km a oeste de Porto Alegre.
Paleontólogos descobriram esses ossos, pertencentes a um dinossauro carnívoro de 2,5 metros de comprimento chamado herrerassaurídeo, depois que enchentes devastaram o sul do Brasil. Crédito: Rodrigo Temp Müller
Em 15 de maio, cerca de duas semanas após chuvas torrenciais terem causado o transbordamento das margens do sistema fluvial do Rio Grande do Sul, Müller e a equipe descobriram um fóssil de 2,5 metros de comprimento de um dinossauro carnívoro e bípede pertencente à família Herrerasauridae. “Tínhamos certeza de que encontraríamos algo depois das fortes chuvas”, diz Müller, mas o espécime ainda superou as expectativas.
Os herrerassaurídeos surgiram e desapareceram durante o período Triássico (cerca de 250 milhões a 200 milhões de anos atrás) e foram os “primeiros predadores de topo a aparecer entre os dinossauros”, diz Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Natal, Brasil. Eles acabariam sendo substituídos durante o período Jurássico (200 milhões a 145 milhões de anos atrás) por dinossauros maiores chamados terópodes, que incluem carnívoros bípedes e de três dedos, como o Tyrannosaurus rex .
Alguns pesquisadores argumentam que os herrerassaurídeos foram os primeiros terópodes, mas essa designação ainda é controversa. “É por isso que as descobertas do CAPPA são tão importantes — elas podem nos ajudar a resolver questões em aberto como essa”, diz Ghilardi.
Trabalhando contra o clima
Mas tem sido difícil comemorar a descoberta, diz Müller. As enchentes afetaram quase 2,4 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, incluindo 183 indivíduos que morreram e 27 que ainda estão desaparecidos, de acordo com autoridades locais. “Pessoas perto do local da escavação perderam suas casas”, ele acrescenta.
Desde a descoberta do fóssil, Müller e seus colegas levaram pedaços de rocha e solo contendo o espécime Herrerasauridae de volta ao laboratório para extrair cuidadosamente os ossos. Eles removeram material suficiente até agora para ficarem cautelosamente animados: eles acham que pode ser o segundo fóssil mais completo desse tipo já encontrado.
Inundações recordes submergiram partes da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, no início de maio. Crédito: Carlos Macedo/Bloomberg/Getty
Mas a equipe não pode relaxar ainda. Com a chuva continuando a cair intermitentemente, os pesquisadores ainda estão correndo para salvar fósseis de muitos animais menores — aqueles que geralmente não fazem manchetes, mas que ainda são importantes. “Todo mundo gosta de dinossauros grandes”, diz Kerber. Mas “a maior diversidade de espécies está sempre entre os animais menores”. Esses fósseis ajudam os paleontólogos a reconstruir como as espécies evoluíram e a descobrir detalhes sobre os ambientes em que viveram.
Os menores ossos de animais, grandes e pequenos, também são uma preocupação. Eles são os primeiros a desaparecer quando a chuva atinge um local de escavação, diz Juan Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí em Teresina, Brasil. “Eles são raros e mais difíceis de encontrar.” Ossos do ouvido em pequenos répteis, por exemplo, podem ter apenas milímetros de comprimento, mas eles revelam muito sobre o cérebro de um animal e quão inteligente ele pode ter sido.
Tesouro
Cerca de uma semana atrás, os pesquisadores do CAPPA descobriram o crânio de um bebê rincossauro — um réptil herbívoro com bico de papagaio que podia crescer em média até cerca de 1 metro de comprimento e dominou a Terra durante o Triássico médio ao final (247 milhões a 200 milhões de anos atrás). Embora esses fósseis de rincossauros sejam abundantes, Müller diz, “eles são importantes exatamente porque são abundantes”. Em particular, eles desempenham um papel estratigráfico na pesquisa porque marcam locais do Triássico, ele acrescenta. “Onde há um rincossauro, provavelmente haverá um herrerassaurídeo.”
Agora, a equipe está escavando um fóssil de cinodonte— os restos esqueléticos de um réptil semelhante a um mamífero que viveu de cerca de 260 milhões a 100 milhões de anos atrás e variou do tamanho de um coelho a um cachorro grande. Esses répteis são os ancestrais antigos dos mamíferos, que são os únicos cinodontes restantes, diz Kerber.
A região rica em fósseis onde os paleontólogos estão trabalhando abriga 29 sítios de escavação, 21 dos quais a equipe do CAPPA conseguiu acessar desde as enchentes, de acordo com Müller e Kerber. Quatro ainda estão quase completamente submersos.
Uma coisa que funciona a seu favor é que o CAPPA é muito próximo. “Não precisamos planejar longas viagens de escavação, mas podemos estar no campo toda semana”, diz Müller. O próximo desafio que os pesquisadores enfrentarão é o que fazer com todos os fósseis que estão recuperando — o centro não tem um museu. “Seria importante ter um, não apenas para armazenar os fósseis que encontramos”, diz Kerber, “mas também para educar a população local sobre o quão rica é sua região”.