O Porto do Açu e seus mitos: uma narrativa nada heróica

mitos

Pastore (2012) lembra ser a palavra mito originária do termo grego mythos, derivado dos verbos mytheio — contar, narrar — e mytheo — contar, conversar. Na Grécia Antiga (do séc. VIII ao séc. VI a. C.), o sentido primordial de mythos era palavra ou discurso, configurados particularmente como narrativas das desventuras de deuses e heróis. Pois bem, em conversa recente, tive acesso ao que considero alguns dos muitos mitos difundidos pelos gestores do Porto do Açu, e que incrivelmente são assimilados de forma acrítica por quem se esperaria um mínimo de criticidade.

Nesta postagem abordarei 3 desses mitos, até para não me alongar muito: a salinização das águas continentais, o processo de erosão costeira na Praia do Açu, e a situação envolvendo as desapropriações realizadas para dar terra para a criação de um natimorto Distristo Industrial de São João da Barra.

mito ou verdade

1) A salinização causada pelos aterros hidráulicos do Porto do Açu

Diante do fato inegável de que os aterros hidráulicos do Porto do Açu causaram um grande desastre ambiental em dezembro de 2012,  foi construído o mito de que o episódio foi pontual e restrito ao Canal de Quitingute. Dois estudos orientados por mim no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais mostram que não apenas a salinização não se restringiu ao Canal de Quitingute, como ela teve consequências que persistem até hoje nas áreas que foram alagadas por água salinas que foram jogadas dentro do continente por causa na folha ocorrida no sistema de bombas que foi instalado pela LLX de Eike Batista.   

Em suma, mito número 1 não se sustenta à luz do que se tem de dados coletados segundo critérios científicos estritos.

Set of colored stamps.

2) A erosão da face sul da Praia do Açu

Como já mencionado em diversos artigos científicos, a construção de estruturas perpendiculares à costa, como é o caso dos molhes e quebra-mares instalados pelo Porto do Açu é indutora de processos erosivos nas áreas de influência direta como é o caso da Praia do Açu. Mas ainda há quem creia na alegação de que as estruturas portuárias estão isentas também nesse caso. Aliás,  não precisaria ler artigos científicos ou livros especializados para saber que as estruturas portuárias estão afetando não apenas a Praia do Açu, mas também a vida dos moradores da localidade de Barra do Açu.  Para constatar esse processo, basta ir até a praia e conversar com os moradores. Ali há gente que sabe muito bem como era a dinâmica praial antes e sabe como ela mudou drasticamente após a construção do Porto do Açu.

Em suma, mito número 2 também é insustentável.

Set of colored stamps.

3) As desapropriações de terras agrícolas

Certamente a questão das desapropriações é o principal espinho que os donos do Porto do Açu tentam se livrar, enquanto cobram aluguéis milionários das terras que foram tomadas pelo governo de Sérgio Cabral de centenas de famílias pobres.  Um mito que se difunde é que todas as famílias que tiveram suas terras tomadas por Sérgio Cabral e entregues para Eike Batista já foram ressarcidas.

Se olharmos apenas as desapropriações realizadas nas áreas que eram consideradas agrícolas até dezembro de 2008, conversando com dois advogados que juntos representam  120 proprietários rurais, a informação que eu obtive é de que até hoje apenas 1 processo de desapropriação foi concluído (ou seja menos de 1%).  

Enquanto isso, o restante dos processos vivem em um constante cabo de guerra em que o Porto do Açu tenta diminuir os preços das indenizações, enquanto segue cobra seus aluguéis milionários das empresas que decidem se instalar nas terras que foram expropriadas pelo governo de Sérgio Cabral. 

A coisa fica ainda pior, pois todas as semanas falece um dos proprietários das terras tomadas, o que complica o processo judicial de ressarcimento. Isto sem falar no fato de que muitos dos herdeiros não possuem recursos financeiros para se tornarem partes dos processos que se arrastam desde 2010 no Fórum de São João da Barra.

Em suma, o mito de que as famílias desapropriadas já foram ressarcidas pela perda de suas terras tampouco se sustenta.

Set of colored stamps.

Se tudo é mito, por que alguns acreditam tão fácilmente nessa mitologia que justifica e legitima as expulsões?

A principal causa da assimilação da mitologia de que tudo está certo no Porto do Açu tem a ver com uma poderosa estrutura midiática que os donos do empreendimento impulsionam, seja por vias próprias ou alugando espaços na mídia corporativa local, regional e nacional. É a famosa história do “quem paga o baile, escolhe a música”.

Mas eu diria que há um elemento adicional que se relaciona à existência de personagens que. por crença no mito de que o porto trouxe ou trará desenvolvimento ou simplesmente por serem adesistas convictos, se dispõe a darem credibilidade aos mitos que foram criados para isentar o empreendimento de suas responsabilidades locais. É óbvio que possuir faces locais que dão sustentabilidade aos mitos de responsabilidade corporativa propalados pelo porto é algo que seus donos adoram, até porque custa barato. Basta chamar para um tour guiado ou um “coffee break” que a propaganda de empresa socialmente responsável estará garantido. Se rolar um acordo de cooperação institucional, aí nem se fala.

Por outro lado, dá para ver que com o lançamento de documentários como é o caso do “Açu dos Desgostos” fica demonstrado que, por detrás dessa mitologia, o que ocorreu e ocorre no entorno do Porto do Açu é um processo de tomada de terras que ocorreu de forma violenta, e que o funcionamento dessa unidade portuária traz significativos impactos sobre as comunidades e os ambientes locais, especialmente porque antes da invasão e das expulsões, ali existia um notável equilíbrio dinâmico.

Assim, adere aos mitos disseminados pelo Porto do Açu quem quiser. Mas quem aderir a essa mitologia terá que saber que tudo na vida tem consequências. Tal como ter reputações que desmancham no ar.

Uenf sofre com chuvas torrenciais, apesar de obras milionárias

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Chuvas estão levando caos ao interior do campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Apesar de um pacote de obras milionárias em curso há pelo menos dois anos, as chuvas torrenciais que caem na cidade de Campos dos Goytacazes estão deixando muitos grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com o coração na boca. É que cenas sendo circuladas em grupos de Whatsapp estão mostrando situações muito problemáticas que colocam equipamentos científicos sob risco de perda total (ver imagem abaixo).

Como não se faz pesquisa sem equipamentos ou com laboratórios inundados, a pergunta que muitos professores da Uenf estão se fazendo neste sábado é de porque obras relativamente simples como a troca de telhados se arrastam por tanto tempo, em que pese as placas de obras que mostram gastos milionários. É simplesmente um descompasso que precisa ser explicado. Nesse caso, a palavra está com a reitoria da Uenf.

Ah, sim, talvez essa situação no campus Leonel Brizola explique aos vereadores e ao prefeito Wladimir Garotinho o porquê de tanta demora em se iniciar as obras no prédio do Solar do Colégio.  É a velha história, se até em casa o espeto é de pau, imaginem como pode ser no churrasco na casa dos outros.

Açu dos Desgostos: documentário mostra desafios de famílias expulsas para construção do Porto do Açu

“Açu dos Desgostos” expõe impactos sociais e ambientais gerados pelo Porto de Açu, construído no interior do Rio de Janeiro

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Cena do documentário ‘Açu dos Desgostos’. Créditos: Reprodução/YouTube/Observatório Socioambiental TerraPuri

Por Júlia Motta para a Fórum

Na região do Açu,  no município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, mulheres, crianças, idosos e famílias expulsos de seus territórios enfrentam uma série de desafios após terem suas casas derrubadas e plantações destruídas para a construção do Porto do Açu, o maior porto privado do país.

Essa é a história contada pelo novo documentário “Açu dos Desgostos”. A produção foi dirigida por Pablo Vergara e lançada pelo Observatório Socioambiental TerraPuri, com o apoio da EarthWorks.

O drama dessas famílias começou em 2008, quando a então prefeita de São João da Barra, Carla Machado, fez um decreto transformando as terras rurais em industriais. Em seguida, o  governador do Rio de Janeiro na época, Sérgio Cabral, decretou a desapropriação dessas terras. Foram desapropriados aproximadamente 72 km² de área para implantação do Porto do Açu e de um condomínio industrial e mais de 3 mil famílias atingidas indiretamente, sem qualquer audiência prévia para a implementação do complexo industrial.

Referência de luta

“Eles faziam em volta da propriedade um valão de mais ou menos dois ou três metros de profundidade, com uns dois metros de largura, para que a pessoa não tentasse, depois de expropriado, acessar novamente a sua terra e tomar posse de novo”, lembrou Noêmia Magalhães, ativista do Movimento de Pequenos Agricultores, referência da luta pela em defesa da comunidade do Açu. Dona Noêmia, como todos a conhecem, é uma das atingidas pela desapropriação das terra

Além do depoimento de dona Noêmia, o documentário conta com relatos de outras pessoas atingidas, além de estudiosos e ativistas ambientais, que expõem os desafios socioambientais causados pela construção do Porto do Açu, desde a perda de suas casas e de suas fontes de subsistência até a degradação dos ecossistemas locais.

O documentário pode ser assistido na página do Observatório Ambiental Terrapuri ou no canal do YouTube da organização.

 


Fonte: Fórum

A Amazônia está morrendo de sede por causa das mudanças climáticas

Segundo a UNICEF, mais de 420 mil crianças são afetadas por uma seca recorde na região da floresta tropical sul-americana. Enquanto isso, uma tempestade tropical segue a outra

201862Crianças brincam em uma banco de areia no Rio Madeira, setembro de 2024. Foto: Bruno Kelly/Reuters

Por Wolfgang Pomrehn para o JungeWelt 

O fundo da ONU para a infância, UNICEF, está soando o alarme. Mais de 420 mil crianças no Brasil, na Colômbia e no Peru sofrem com uma grave seca que atinge a bacia amazônica pelo segundo ano consecutivo. Nunca antes os níveis de água no Rio Amazonas e seus afluentes estiveram tão baixos como agora. Na Colômbia, os níveis caíram 80%. Isto tem consequências dramáticas para os povos indígenas da região. Os rios fornecem-lhes peixe, água de irrigação para os seus pequenos campos, são fonte de água potável e uma via de transporte indispensável. Só no Brasil, 1.700 escolas e 760 centros de saúde tiveram que fechar ou ficaram pelo menos inacessíveis para a maioria das crianças. Num inquérito recente realizado pela UNICEF na parte brasileira da floresta tropical, metade das famílias afirmou que os seus filhos não podiam ir à escola por causa da seca.

A UNICEF também informa sobre o fechamento de postos de saúde no Peru. Além disso, o risco de desnutrição está aumentando significativamente em toda a região. As comunidades indígenas que já estão em risco são particularmente afetadas. Na preparação para a 29ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que começa na segunda-feira em Baku, no Azerbaijão, a UNICEF apela à disponibilização de um montante significativamente maior para as necessidades das crianças particularmente afectadas em tempos de alterações climáticas. Esta questão deve ser incluída nos processos de tomada de decisão relativos à protecção do clima a todos os níveis.

Vários estudos demonstraram nos últimos anos que o ecossistema da floresta amazónica já está à beira do colapso e poderá transformar-se em uma savana seca. Na sexta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou no jornal britânico The Guardian , tendo em vista a conferência sobre o clima, que o mundo está caminhando para vários pontos de viragem e cujos perigos ainda estão sendo subestimados.

Entretanto, duas semanas depois da primeira tempestade tropical atingir a ilha, Cuba sofria novamente a passagem de um furacão que agora ameaça a costa mexicana. Tufão após tufão também continuam passando nas Filipinas. A tempestade tropical “Yinxing” passou por ali na quinta-feira, a 13 deste ano e a terceira em menos de um mês. Em média, oito a nove deles passam sobre a ilha todos os anos, de acordo com o serviço meteorológico de Manila. Tufões e furacões – dois termos para o mesmo fenômeno em diferentes regiões do mundo – desenvolvem-se nos mares subtropicais quentes. As águas em torno das Filipinas e de Cuba registam atualmente temperaturas muito acima da média devido às alterações climáticas.

Na Alemanha o Serviço Meteorológico Alemão informou na sexta-feira que os últimos dez anos foram em média 2,3 graus Celsius mais quentes do que nas décadas de 1881 a 1910. Na Áustria e na Suíça foram até 2,9 e 2,8 graus Celsius, respetivamente, mais quentes. As consequências incluem um aumento drástico do stress térmico, menos neve a baixas altitudes, mais chuvas fortes e um maior risco de secas. Através de uma protecção climática global consistente, as temperaturas médias na Europa Central poderão situar-se ligeiramente acima dos níveis actuais. Caso contrário, poderão subir mais 1,5 a 4,5 graus Celsius.


Fonte: JungeWelt

Elnur Soltanov, CEO da Cop29, é filmado concordando em facilitar acordos sobre combustíveis fósseis

Elnur Soltanov gravou uma conversa com um grupo falso de petróleo e gás que pediu acordos em troca de patrocínio de negociações

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Helena Horton, repórter de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

O presidente-executivo da Cop29 foi filmado aparentemente concordando em facilitar acordos sobre combustíveis fósseis na cúpula do clima.

A gravação intensificou os apelos de ativistas que querem que a indústria de combustíveis fósseis e seus lobistas sejam banidos de futuras negociações da Cop.

O grupo de campanha Global Witness se passou por um falso grupo de petróleo e gás, pedindo que acordos fossem facilitados em troca do patrocínio do evento.

Nas ligações, Elnur Soltanov, vice-ministro de energia do Azerbaijão e chefe executivo da Cop29, concordou com isso e falou sobre um futuro que inclui combustíveis fósseis “talvez para sempre”. Os oficiais da Cop também apresentaram o falso investidor a um executivo sênior da empresa nacional de petróleo e gás Socar para discutir oportunidades de investimento.

Soltanov disse ao falso grupo de investimento: “Eu ficaria feliz em criar um contato entre sua equipe e a equipe deles [Socar] para que eles possam iniciar as discussões.” Pouco depois, eles receberam um e-mail da Socar.

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CQNUAC), o órgão da ONU que supervisiona a COP, diz que os funcionários não devem usar suas funções “para buscar ganhos privados” e espera que eles ajam “sem interesse próprio”.

Na gravação, Soltanov diz ao falso grupo de petróleo e gás: “Há muitas joint ventures que poderiam ser estabelecidas. A Socar está negociando petróleo e gás em todo o mundo, incluindo na Ásia.”

Ele então descreveu o gás natural como um “combustível de transição”, acrescentando: “Teremos uma certa quantidade de petróleo e gás natural sendo produzidos, talvez para sempre.” Na Cop28 do ano passado, os países envolvidos concordaram em fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis, e o órgão da ONU, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, deixou claro que o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás é incompatível com as metas climáticas assinadas no acordo de Paris.

A equipe da Cop29 também pareceu disposta a abrir mão dos requisitos climáticos para a empresa se ela patrocinasse o evento. Os patrocinadores do evento da Cop devem se comprometer a cortar suas emissões e devem assinar um “compromisso nacional”, prometendo apresentar um “plano de transição net zero confiável” em algum momento nos próximos dois anos.

No entanto, durante as negociações, esses requisitos foram dispensados ​​e uma nova cláusula foi adicionada para dar ao falso grupo de investimento  oportunidades de reunião com as principais partes interessadas locais do setor de energia na Cop29”.

Houve um escândalo semelhante nas negociações da Cop28 no ano passado nos Emirados Árabes Unidos, quando documentos vazados revelaram que o anfitrião planejava usar reuniões climáticas com outros países para promover acordos para suas empresas nacionais de petróleo e gás. As negociações foram presididas pelo sultão Al Jaber, o presidente-executivo da empresa nacional de petróleo Adnoc e enviado climático dos Emirados Árabes Unidos.

Um porta-voz da Global Witness disse: “A UNFCCC precisa agir urgentemente para limpar as negociações climáticas da COP, começando por proibir a indústria de combustíveis fósseis de patrociná-las e expulsando seus lobistas para sempre.

“Tivemos 29 conversas com uma multidão cada vez maior de poluidores e vendedores de óleo de cobra presentes. Vamos tentar a próxima sem.”

A UNFCCC disse à BBC, que foi a primeira a relatar a história , que “o secretariado [da UNFCCC] tem os mesmos padrões rigorosos todos os anos, refletindo a importância da imparcialidade por parte de todos os oficiais presidentes. Dados os crescentes custos humanos e econômicos da crise climática global em todos os países, estamos muito focados na Cop29, entregando resultados ambiciosos e concretos.”

O Guardian entrou em contato com a UNFCCC, a Socar e a equipe da Cop29 no Azerbaijão para mais comentários.

A Cop29 começa em Baku na segunda-feira.


Ilha de calor gigante na cidade de São Paulo abrange bairros como Tucuruvi, Mooca, Freguesia do Ó e Jabaquara

Vista-do-Pico-do-Jaragua_Foto-Marcos-Santos_U0Y9926-1536x1024-Medio-1152x648Ilhas de calor na Grande São Paulo estão relacionadas à presença de edificações e menor número de áreas verdes 

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Um artigo publicado na “Revista Brasileira de Meteorologia” nesta sexta (1°) verifica as características relacionadas à formação de ilhas de calor na região metropolitana de São Paulo. Segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), bairros como Tucuruvi, Mooca, Freguesia do Ó e Jabaquara têm maior média de temperatura e menor umidade do que localidades como Capela do Socorro e Riacho Grande, próximas à zona rural. A diferença de temperatura média entre ambos os grupos pode chegar a 4ºC. A área mais quente é caracterizada por menor presença de áreas verdes e pela maior ocupação do solo por construções residenciais e comerciais.

Para identificar padrões climáticos entre bairros com características semelhantes, os cientistas dividiram essas localidades em quatro agrupamentos considerando padrões climáticos – temperatura do ar, umidade e precipitação – e o uso do solo em um raio de 500 metros. Os dados do estudo foram obtidos em 30 estações meteorológicas da Região Metropolitana, monitoradas pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura de São Paulo, entre janeiro de 2009 e fevereiro de 2019. As informações de uso do solo foram coletadas na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Também fazem parte do grupo mais afetado as localidades de Vila Mariana, Sé, Pinheiros, Butantã, Lapa, Pirituba, Tremembé, Penha, Vila Formosa, Anhembi e Vila Prudente. Na primavera, em especial, a umidade relativa do ar diminui enquanto aumentam a temperatura e a formação de ilhas de calor. Já o grupo que inclui Capela do Socorro e Riacho Grande teve a menor variação de temperatura e precipitação, além de maior umidade relativa. Essas características estão associadas a um maior conforto térmico para os moradores.

O estudo ainda analisa outros dois agrupamentos: o que abrange Perus, Santana do Parnaíba, Itaquera, Itaim Paulista, Ipiranga, Vila Maria, Cidade Ademar e Campo Limpo e o que engloba Santo Amaro, M. Boi Mirim, Mauá, São Mateus e São Miguel Paulista. O primeiro apresentou alta média de ocupação de solo por edificações, superior a 75%, mas teve menor variação nas características climáticas em relação aos demais grupos. Já o último apresentou maior variação na temperatura, com desvio padrão de 0,67°C, e maior média de áreas verdes, mas teve menos pontos de observação.

Pedro Almeida, pesquisador da USP e principal autor do artigo, destaca que “aumentar a cobertura de áreas verdes é uma solução necessária para mitigar a intensidade da ilha de calor urbano”. Segundo o pesquisador, “outras estratégias incluem o uso de telhados verdes e superfícies reflexivas para reduzir a absorção de calor, além de políticas de planejamento urbano que promovam um equilíbrio entre edificações, arborização e áreas verdes”.

Almeida acrescenta que análises futuras podem incorporar fatores adicionais como dados socioeconômicos. Além disso, expandir o estudo para outras regiões urbanas do Brasil e do mundo pode aprimorar as comparações e contribuir para o debate sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas em áreas urbanas, avalia.


Fonte: Agência Bori

O imbróglio da reforma do Solar do Colégio tem novo capítulo: reitora da Uenf se reúne com vereadores

A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicou ontem uma nota dando conta da visita de três vereadores à reitora Rosana Rodrigues para tratar do imbróglio envolvendo o atraso na reforma do prédio histórico que abriga o Arquivo Público Municipal. A comissão de vereadores incluiu  os vereadores Fabio Ribeiro, Kassiano Tavares e Juninho Virgílio (ver imagem abaixo).

reuniao

Como a nota só deu espaço para as falas da reitora da Uenf, vamos esperar para ver o que dizem os vereadores sobre o que transpirou nesse encontro. 

Ainda sem saber se o que foi narrado acalmou os corações dos três vereadores, eu teria a dizer a eles, especialmente o meu colega de universidade Fábio Ribeiro, que sem a devida pressão, desse mato continuará não saindo coelho. 

E a meteorologia prevê chuvas com alguma intensidade para os próximos, nunca é demais lembrar.

O que vamos colocar no lugar do Qualis?

 Gabriela Trindade Perry, docente do Programa de Pós-graduação em Informática na Educação DA UFRGS, faz ponderações a respeito de ofício da Capes com propostas de mudanças na avaliação de periódicos

ILUSTRACAO-qualis-POR-Kezia-Mausolf1*Ilustração: Kezia Mausolf/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Por Gabriela Trindade Perry

O  Ofício Circular n.º 46/2024-DAV/CAPES, de 03 de outubro, mudou a forma como avaliamos a produção científica nacional. No 2.° parágrafo, lemos que a nova classificação não usará o Qualis, mas, sim, “indicadores bibliométricos” do artigo e do periódico, além de uma “análise qualitativa”.  

Eu não me surpreenderia se essa medida fosse bem recebida. Acredito que todos os envolvidos com produção científica tenham críticas ao Qualis na ponta da língua – por exemplo: periódicos cuja classificação em estratos elevados é injustificada e a inclusão no Qualis de revistas claramente predatórias. Meu ponto é que admitir que o Qualis tem problemas e limitações não implica que deveríamos abrir mão de um sistema nacional de avaliação quantitativa de qualidade da pesquisa, em favor dos tais “indicadores bibliométricos” que o ofício menciona. 

Esses “indicadores bibliométricos” parecem neutros, isonômicos e de fácil obtenção, pois o conceito por trás deles é muito simples: um artigo citado muitas vezes é melhor que um artigo citado poucas vezes. Certamente é preciso fazer ajustes, considerando a data de publicação, o histórico de publicações de cada pesquisador e a área na qual o artigo é classificado. Existem métricas que ajustam estes e outros parâmetros, tais como: atribuir uma janela de n anos para a contagem de citações, o índice-H e métricas da iniciativa Snowball, como Field-Weighted Citation Impact. Mas só é possível obter essas métricas se conseguirmos fazer a contagem das citações – e isso é absurdamente complexo e caro. 

Em primeiro lugar, a contagem só é feita considerando os documentos indexados pela plataforma fornecedora da métrica – vou falar das três que conheço: RELX (Scopus e Elsevier), Clarivate (JCR e Web of Science) e Google. Por esse motivo, a quantidade de citações de um mesmo artigo é diferente, já que essas plataformas não indexam os mesmos periódicos e têm procedimentos diferentes para fazer a contagem. O Google conta até mesmo citações feitas em pôsteres de feira de ciências, e por isso a quantidade de citações reportada é muito maior. Da mesma forma, o índice-H de um pesquisador é muito maior no Google do que na Scopus ou na Web of Science. Sendo assim, caso a Capes passe a usar “indicadores bibliométricos”, quem escolherá o fornecedor do indicador? Se a contagem for a do Google, talvez estivéssemos mais bem amparados pelo Qualis, que, bem ou mal, tem algum controle de qualidade. Contudo, como no currículo Lattes (integrado à plataforma Sucupira) constam as quantidades de citação da Scopus e da Web of Science, provavelmente serão estes os indicadores utilizados.  

Uma vez esclarecido o que são “indicadores bibliométricos”, vamos a um dos argumentos em favor da mudança na metodologia de avaliação: o fortalecimento dos periódicos nacionais e o acesso aberto à ciência.

Em relação a esse ponto, faço duas observações: (1) periódicos publicados por grandes editoras (tais como Springer, Taylor & Francis, Elsevier e Wiley) costumam cobrar dos leitores pelo acesso, ou dos autores pela publicação, e, em algumas áreas, o usual é que os periódicos de acesso aberto cobrem taxas de publicação; e (2) poucos periódicos nacionais estão indexados na Scopus e na Web of Science.  

Em relação à cobrança de taxas, podemos usar a tabela de APC (Article Processing Charges) da Elsevier para ver que a APC média é $2.500,00. É importante lembrar que, antes de pagar a taxa de publicação, a maioria dos autores precisará gastar com tradução, pois revistas com alto fator de impacto costumam exigir inglês impecável. Convém lembrar que a Portaria n.º 120, de 26 de abril de 2024, prevê a possibilidade de custear as taxas de publicação e que a Capes empenhou mais de $820.000,00 a Elsevier pelo acesso aos seus periódicos, de 2023 a 2025, além de diversos empenhos de objetivo semelhante com diversas outras empresas. 

Finalmente, em relação à indexação dos periódicos brasileiros nas plataformas da Scopus e Web of Science, não foi possível obter a lista de periódicos brasileiros – nem mesmo usando a Lei de Acesso à Informação. É possível, contudo, estimar a quantidade de periódicos brasileiros indexados cruzando os periódicos indexados pelo Qualis e a lista de periódicos indexados pela Scopus – dados disponíveis publicamente na internet.

A Scopus indexa pouco mais de 46.500 periódicos, e o Qualis 2017-2020 lista pouco mais de 31.300 títulos únicos. Supus que todos os periódicos brasileiros estavam listados no Qualis; logo, ao mesclar os ISSN do Qualis e da Scopus, obtive uma lista que contém pelo menos todos os periódicos brasileiros indexados pela Scopus (além de muitos outros periódicos estrangeiros nos quais pesquisadores brasileiros publicaram nesse quadriênio). Removi os periódicos que não estavam ativos em 2024 da Scopus e os que estavam classificados como “Trade jornal”. Por último, listei manualmente os nomes de editoras que indicavam ser estrangeiras (por exemplo “University of Coimbra” e “El Colegio Mexiquense”), e removi os periódicos por elas editados. Ao final do processo, restaram apenas 244 periódicos.

De forma semelhante, a classificação dos periódicos nas áreas do conhecimento também não é um processo objetivo, já que essa classificação não está presente na planilha do Qualis. Muitos dos títulos e sites dos periódicos não informam claramente a área, de modo que a classificação também pode ter equívocos. Mesmo admitindo algum erro, fica claro que muitas áreas estão sub-representadas. Treze áreas têm menos de 5 periódicos brasileiros indexados, sete têm entre 10 e 19 e apenas uma tem mais de 20. É preciso considerar que algumas áreas têm subdivisões, como Medicina, Ciências Agrárias, Ciências Biológicas e Engenharias. Os periódicos não indexados deixarão de ser vistos como veículos interessantes e, a menos que sejam resgatados pela “análise qualitativa” mencionada no ofício da Capes, podem desaparecer.

Finalmente, é necessário refletir se vale a pena delegar a empresas privadas estrangeiras a avaliação da nossa produção científica, pois isso nos deixa sujeitos aos interesses de empresas e à legislação de outro país em um assunto sensível e estratégico.

Se, por um lado, o rigor na obtenção das métricas baseadas em contagem é fundamental para o sucesso do modelo de negócio dessas empresas, o monopólio também é. RELX e Clarivate detêm um oligopólio da avaliação científica mundial, e não há motivo para supor que deixarão de usar isso para aumentar seus lucros. Algumas possibilidades são a venda de palavras-chave, de espaço de anúncio e criação de lista de tópicos mais buscados. Não é difícil, por exemplo, imaginar empresas de fertilizantes pagando por impulsionamento de artigos para que eles sejam listados nas primeiras páginas de buscas que incluírem tais-e-tais palavras-chave. Também não é difícil imaginar como o acesso de um país inteiro à produção científica poderia ser interrompido em caso de embargos – mesmo que esse país seja um colaborador ativo. Em resumo, a mesma estratégia usada pelo Google e pelas redes sociais para promover engajamento pode ser aplicável a essas plataformas. 

Encerro manifestando a certeza de que a Capes levou esses dados em consideração – além de muitos outros que pessoas (como eu) fora dos círculos de decisão não têm acesso –, bem como a esperança de estar enganada em relação aos meus prognósticos. 


Fonte: UFRGS

Estudo inédito mostra que 22 agrotóxicos de uso abundante estão associados ao câncer de próstata

prostate cancer pesticides

Por Douglas Main para o The New Lede

Uma nova pesquisa acrescenta evidências de que vários tipos de agrotóxicos— incluindo os herbicidas amplamente utilizados 2,4-D e glifosato — podem aumentar o risco de câncer de próstata.

Um estudo publicado em 4 de novembro no periódico Cancer examinou a relação entre a quantidade de agrotóxicos usados ​​em condados dos EUA em certos períodos de tempo e as taxas de câncer de próstata 14 anos depois. Quase duas dúzias desses produtos químicos foram consistentemente associados a um risco elevado da doença, que é o câncer mais comum em homens e é considerado o segundo mais mortal .

Os resultados sugerem que mais pesquisas são necessárias urgentemente para entender melhor o papel que agrotóxicos podem desempenhar no desenvolvimento deste e de outros tipos de câncer, escreveram os autores.

“Muitos agrotóxicos não foram suficientemente estudados quanto aos seus potenciais efeitos cancerígenos, particularmente em relação ao câncer de próstata”, disse o coautor do estudo Simon Soerensen , pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Stanford.

As descobertas aumentam as preocupações sobre os impactos à saúde da exposição crônica a agrotóxicos e são apenas as mais recentes em anos de pesquisa que relacionam produtos químicos usados ​​na agricultura a diferentes tipos de câncer e outras doenças.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o 2,4-D como “possivelmente” cancerígeno para humanos, por exemplo. E seis outros agrotóxicos analisados ​​no estudo são atualmente classificados como “potenciais cancerígenos humanos” pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A EPA classifica o herbicida diuron em particular como um cancerígeno conhecido/provável.

O estudo também identificou quatro produtos químicos que estavam ligados não apenas à incidência de câncer de próstata, mas também à morte por ele. Entre eles estão três herbicidas, conhecidos como cloransulam-metil, diflufenzopir e trifluralina, e um inseticida chamado tiametoxam, que foi proibido para uso externo na União Europeia devido à sua toxicidade para abelhas.

Um dos herbicidas consistentemente associados ao câncer de próstata no artigo foi o 2,4-D. Essa descoberta se destaca por ser amplamente usada, disse John Leppert , urologista e pesquisador, também em Stanford.

O uso de 2,4-D em fazendas aumentou nos últimos anos, à medida que espécies de ervas daninhas desenvolveram resistência crescente a outros herbicidas, como o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup e outras marcas desenvolvidas pela antiga Monsanto Co., levando os agricultores a aplicar alternativas ao glifosato.

O desenvolvimento de culturas que toleram ser pulverizadas com 2,4-D acelerou o uso nos últimos anos. Existem agora milhões de hectares de milho e soja plantados nos EUA que são geneticamente modificados para serem resistentes ao 2,4-D. O produto químico também é encontrado em produtos herbicidas comuns de quintal.

Um estudo de 2022 descobriu que quase um terço dos 14.395 participantes tinham níveis mensuráveis ​​de herbicida 2,4-D na urina.

No artigo sobre o câncer , os pesquisadores analisaram o uso de dezenas de agrotóxicos em nível de condado de 1997 a 2001 e, então, procuraram ver, para cada produto químico, se parecia haver uma ligação com casos de câncer no condado 14 anos depois, de 2011 a 2015. Eles fizeram a mesma coisa por um segundo período de tempo, analisando o uso de 2002 a 2006 e casos de câncer e mortes de 2016 a 2020.

Todos os 22 pagrotóxicos foram consistentemente associados ao câncer de próstata ao longo do tempo e do espaço. O artigo tentou quantificar essas ligações observando o quanto um aumento discreto no uso de qualquer produto químico dado em um condado comparado ao aumento da incidência de câncer de próstata lá.

Ele encontrou as ligações mais fortes para os herbicidas trifluralina, cloransulam-metil e tribenuronm; o fungicida propiconazol; e o inseticida paration. (Paration é um inseticida organofosforado altamente tóxico que foi proibido em muitos, se não na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos .)

O estudo mostra que um aumento no desvio padrão do uso do herbicida trifluralina em condados, por exemplo, foi associado a sete casos adicionais de câncer de próstata por 100.000 indivíduos.

Como o câncer de próstata é tão comum e pode ser agressivo, é uma “tremenda preocupação de saúde” cujos fatores de risco ambientais subjacentes ainda são pouco compreendidos, disse Leppert.

“Acho que precisamos estar mais conscientes de que o que está no ambiente pode contribuir para o risco de câncer em um homem”, acrescentou.

Agrotóxicos associados ao câncer de próstata

Os 22agrotóxicos identificados incluem herbicidas (2,4-D, glifosato, trifluralina, cloransulam-metil, tribenuron, diflufenzopir, diuron, hexazinona, linuron, pendimetalina, sulfosato, tifensulfuron), inseticidas (paration, tiametoxam, acefato, bifentrina, carbaril, cialotrina-lambda), fungicidas (propiconazol, azoxistrobina, trifloxistrobina) e fumigantes de solo (cloropicrina).


Fonte: The New Lede

O tombamento da Usina Cambahyba pela Alerj é apenas o primeiro passo para a preservação da memória histórica

claudio guerra

O ex-delegado Cláudio Guerra mostrando como os corpos de oposicionistas ao regime militar de 1964  eram incinerados nos fornos da Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes 

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou ontem o Projeto de Lei 2360/2023 que “dispõe sobre o tombamento, por interesse histórico do estado do Rio de Janeiro, do parque industrial situado na Companhia Usina Cambahyba e dá outras providências”, de autoria, dentre outros, da deputa Marina do MST (PT) e do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil).

Essa aprovação é apenas o primeiro passo para um esforço de preservação da memória histórica em relação aos crimes ali cometidos durante o período do regime de 1964 que teriam incluído a incineração ilegal dos corpos de militantes de esquerda que faziam oposição armada ou não ao governo militar instalado com o golpe contra o presidente João Goulart.

Os crimes ocorridos na Usina Cambahyha foram descritos com riqueza de detalhes no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, publicado em 2012,   a partir do trabalho de dois jornalistas, Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que, ao colherem o depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra.

Curiosamente no período de lançamento do “Memórias da Guerra Suja” houve em Campos dos Goytacazes todo um esforço para negar os detalhes descritos por Cláudio Guerra sobre o uso dos fornos da Usina Cambahyba para incinerar os corpos de oposicionistas do regime militar.  Agora, com esse tombamento, há um reconhecimento de que os crimes que Guerra confessou ter cometido enquanto era delegado do temido DOPS realmente ocorreram, justificando assim o tombamento dos prédios que ainda restam de pé na Usina Cambahyba.

Importante lembrar que as terras no entorno da usina foram desapropriadas pelo governo federal para a criação de um assentamento de reforma agrária que deverá o nome de Cícero Guedes, liderança do MST que foi assassinada no dia 26 de janeiro de 2013 enquanto apoiava a luta de acampados no terreno da Cambahyba.