Garimpo ilegal provocou aumento nos casos de malária na Amazônia, afirma estudo

garimpoGarimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku e Yanomami colaborou para aumento de 108% nos casos de malária entre 2018 e 2021

A malária avança na região Amazônica principalmente devido ao garimpo ilegal associado ao desmatamento. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) reúne constatações científicas anteriores e aponta que a área de garimpo em terras indígenas aumentou 102% entre 2018 e 2021. Esse fato impactou, possivelmente, no aumento de casos de malária nas terras indígenas Yanomami, em Roraima, e Munduruku, e no Pará, de acordo com a análise publicada na segunda (24) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

O trabalho traça o cenário epidemiológico da malária em áreas de garimpo no Norte do país em um período maior de tempo, de 2011 a 2023, e propõe estratégias para o controle da incidência da doença na região, a partir da revisão da literatura dos principais estudos sobre o tema. Foram usados dados de casos da doença registrados nestes 13 anos no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Malária) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

Segundo o pesquisador Pablo Sebastian Tavares Amaral, de 2018 a 2021, foi registrado um aumento de 108% nos casos de malária em pacientes das áreas de garimpo da região Amazônica. “Esses números podem ser subestimados, uma vez que, devido à atividade do garimpo ser ilegal, muitos omitem a informação de que são garimpeiros”, salienta Amaral, que é coautor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da UnB.

Em 13 anos, mais de 253 mil casos de malária foram registrados em áreas de garimpo. Os registros começam a subir, principalmente, a partir de 2020. Dentre as regiões mais afetadas, estão os estados do Mato Grosso e de Roraima, com aumento de casos entre 2017 e 2022, principalmente em áreas de garimpo ilegal. Em 2020, 59% dos garimpos brasileiros eram ilegais, segundo dados da pesquisa.

Ao mapear as áreas de garimpo impactadas pela malária, a pesquisa traz resultados que podem orientar ações de vigilância e de controle da doença na Amazônia. “Conhecer as áreas prioritárias e a dinâmica da doença é essencial para direcionar melhor as ações”, explica Amaral. Ele ressalta que, por serem ilegais, as áreas de garimpo têm pouca estrutura de saúde, o que dificulta o tratamento para a doença.

O grande número de garimpos ilegais impõe desafios para o seu monitoramento, segundo o trabalho. Essas áreas acabam virando criadouros de mosquitos que transmitem a malária. Por isso, como estratégia, o estudo identifica a necessidade de revisar a legislação para aumentar o controle sobre o desmatamento e as atividades de garimpo, principalmente em terras indígenas.

Além dela, outras estratégias citadas são expandir a vigilância da malária, por meio da ação de agentes comunitários, e de ações multissetoriais para fornecer assistência imediata às populações indígenas. Outra proposição do estudo é de conectar dados de desmatamento e malária, inserindo alertas sobre desmatamento no Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária. Essas ações podem ter impacto na melhoria do diagnóstico e do tratamento da malária nas terras indígenas e outras regiões mais afetadas pela doença.

O grupo de pesquisa continua a fazer estudos sobre malária na Amazônia, procurando entender o impacto das grandes obras hidrelétricas na dispersão da doença. “Esses empreendimentos passam por um processo de licenciamento ambiental que insere a malária em um plano específico, diferente dos garimpos ilegais”, explica Amaral. O pesquisador procura entender se essas ações direcionadas podem ter efeito no controle da doença na região.


Fonte: Agência Bori

“O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno”. Entrevista com Vandana Shiva

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Vandana Shiva, ativista e intelectual ecofeminista 

Vandana Shiva (Dehradun, 1952) é uma das ativistas e intelectuais ecofeministas mais reconhecidas de nosso tempo. Doutora em física quântica, foi uma das fundadoras do Fórum Social Mundial, pioneira na abertura do debate agroecológico e sobre o controle de sementes e é autora de mais de 15 livros. Desde 1987, lidera o sítio agroecológico e o banco de sementes Navdanya, no norte da Índia, e contribui para organizar as lutas camponesas em todo o mundo.

CTXT se encontrou com Shiva no antigo complexo industrial Fabra i Coats de Barcelona, onde foi participar da Feira Literária de Barcelona, um encontro de editoras críticas. Lá, a ativista e intelectual indiana participou de um debate com Yayo Herrero, diante de um público de quase 700 pessoas.

A entrevista é de Pablo Castaño e Adrià Rodríguez, publicada por CTXT.  A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Com Yayo Herrero, compartilha um diagnóstico sobre a crise ecológica. Como o descreveria?

O primeiro elemento para compreender a crise ecológica é que acontece devido a uma extração sem limites. Isto acontece porque foram concedidos direitos corporativos e coloniais e são recompensados com um poder absoluto. Ao apresentar uma atividade extrativa como progresso, oculta-se a exploração, oculta-se a violação da auto-organização dos sistemas, como as árvores estão ligadas aos rios, como o solo está ligado à agricultura, como a biodiversidade das plantas está ligada à dos insetos. Todas estas relações são fundamentais.

Francisco Varela e Humberto Maturana falaram da autopoiese e propuseram uma mudança total de paradigma ao nos fazer ver que os sistemas vivos são auto-organizados. O extrativismo destrói a organização interna dos organismos vivos e as relações desses organismos com tudo o mais que está vivo. É assim que toda destruição passa a ser considerada uma externalidade. Você destrói, mas oculta a destruição.

Parte disso vem do pensamento cartesiano e do pensamento mecânico de Francis Bacon. O pensamento mecânico desmonta as coisas e dá vida a cada parte em separado. Para as pessoas que foram educadas nesse pensamento mecânico é difícil ver as relações. As relações foram destruídas em uma economia de morte.

Como você definiria a perspectiva ecofeminista em concordância com Yayo Herrero e outras pensadoras, como Maria Mies?

Ecofeminismo é dizer que a Terra está viva, que a Terra sustenta e mantém a vida. E é dizer que as mulheres não são um segundo sexo passivo. Não são um objeto a ser possuído, nem controlado. As mulheres sustentam a sociedade. Os seus cuidados e o seu trabalho invisibilizado são a verdadeira economia, porque se ocupam da reprodução e da regeneração da sociedade.

Também são as cuidadoras da Terra, porque a elas se conferiu fazer o verdadeiro trabalho [de cuidados], que não conta como trabalho, precisam trabalhar com a natureza. Por exemplo, na Índia, as mulheres são as principais provedoras de água. Elas sabem quando um poço está secando, quando um rio está secando, pois trabalham com a natureza, são as primeiras a responder à crise ecológica.

Um dos debates sobre a relação entre tecnologia e transição verde é o das energias renováveis. O IPCC e outras organizações dizem que uma das ações necessárias para enfrentar a mudança climática é promover as energias renováveis, mas estas exigem grandes quantidades de minerais e de terra. Como podemos promover as energias renováveis sem criar outra nova onda de extrativismo e colonialismo?

Minha primeira crítica ao reducionismo das energias renováveis tem a ver com o esquecimento de que há muitos tipos de energia no mundo. Todo sistema vivo é um gerador de energia. Schrödinger, físico quântico, escreveu que a diferença entre as máquinas e os sistemas vivos é que as máquinas requerem energia externa e geram entropia, que é energia desperdiçada na forma de emissões, ao passo os sistemas vivos não requerem energia externa. Uma semente se torna uma árvore com a sua própria energia e a energia do sol, e isso é entropia negativa. Ocultou-se toda a questão da entropia positiva e negativa, mas este é o cerne do debate sobre a energia e sobre o clima.

Olhar apenas para o consumo de energia e dizer que continuaremos consumindo o mesmo, por meio de energias renováveis, é não abordar o debate sobre a geração de energia e ocultar a demanda por recursos e terras. Isto é reducionista em todos os sentidos. É problemático como o tema climático foi reduzido ao consumo de energia, a buscar energias renováveis e a uma questão de temperatura.

Pensar que os fenômenos climáticos provêm da atmosfera sem ver o que está sendo feito com a terra é separar o que está conectado. Não podemos resolver um problema ecológico, que é um problema de como a vida está sendo desmantelada, mantendo a mentalidade industrial, de engenharia e mecânica. Como disse Einstein, não é possível resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou.

Outro dos eixos de seu trabalho, também ligado à questão da tecnologia, são os agrotóxicos. Nos últimos meses, houve muitos protestos de agricultores na Europa. Um dos motivos do protesto foi a regulamentação europeia que restringia o uso de agrotóxicos na agricultura. Em resposta, a Comissão Europeia diminuiu o nível de exigência desta regulamentação. Como proteger as economias agrícolas e familiares e ao mesmo tempo a ecologia?

Os protestos começaram por uma questão econômica, começaram contra o acordo de livre comércio com o Mercosul. O livre comércio acaba destruindo todas as economias, ao passo que permite que as corporações prosperem. O livre comércio não opõe a Europa ao Sul Global, são os trabalhadores da Europa e do Sul Global que sofrem com ele.

O sistema agroindustrial globalizado é uma receita para aumentar os custos de produção e derrubar os ingressos agrícolas. É uma economia negativa. Por isso, os agricultores estão em crise. Em todo o mundo, onde quer que se incentive o livre comércio e uma maior industrialização, os agricultores respondem.

Os protestos acontecem porque os agricultores compreendem que há uma tentativa de se desfazer deles, que se tornaram uma entidade dispensável: tendemos para uma agricultura sem agricultores. A indústria aproveitou estes protestos como uma oportunidade, porque distribui os produtos fitoquímicos através dos grandes sindicatos de agricultores. Fizeram com que alguns deles falassem a respeito da retirada das regulamentações sobre os agrotóxicos, mas essa é a voz das corporações, o cartel do veneno. Não é a voz dos pequenos agricultores independentes.

A questão dos agrotóxicos tem muito a ver com o controle das sementes, uma luta na qual você está envolvida desde 1987. Como o assunto evoluiu nos últimos 30 anos? Permanece sendo tão relevante?

A vida sempre será relevante. A renovação dos sistemas vivos pelos seus próprios meios será sempre a base da liberdade na natureza e na sociedade. Por que me envolvi no tema das sementes? Porque em 1987 me convidaram para uma reunião em que se debatia as novas biotecnologias. Naquele momento, ainda não havia transgênicos no mundo. O primeiro organismo geneticamente modificado foi comercializado em 1992.

A indústria havia traçado seu caminho e disse que o seu principal objetivo era gerar patentes para as sementes. Ora, uma patente é um monopólio obtido porque se inventou algo novo. Então, a primeira coisa necessária era mudar a natureza da semente na mente das pessoas. A semente tinha que deixar de ser algo que gerava a si mesma e passar a ser um produto inventado pela Monsanto.

Uma mercadoria?

Mais do que uma mercadoria: uma criação. Uma mercadoria reconhece que o agricultor tem um papel, que a terra tem um papel. Quando falamos de propriedade intelectual sobre as sementes, a Monsanto é Deus. Assumiram o papel da criação e transformaram algo que se renova e se multiplica por si só em algo que foi feito por eles. Contudo, uma semente não é uma máquina.

Por isso, decidi começar a criar bancos comunitários de sementes, como Navdanya. Em segundo lugar, decidi começar a trabalhar com o governo e o parlamento indianos para redigir leis que respeitem a integridade da vida na Terra. Escrevemos leis que dizem que plantas, animais e sementes não são entidades criadas por seres humanos e, portanto, não podem ser patenteadas.

Essas leis permanecem vigentes na Índia. A terceira coisa que decidi foi processar as empresas de sementes nos tribunais por estar roubando-as. Foi o que eu chamo de “a segunda chegada de Colombo”. Simplesmente, roubam e dizem: “é minha propriedade intelectual”. E nós dizemos: “não, vocês roubaram e, portanto, é biopirataria”.

Outra questão fundamental na crise ecológica é a água. Neste momento, a região mediterrânea onde estamos está sofrendo uma seca e se prevê mais escassez de água no futuro. Trata-se de uma questão transversal que abrange dimensões sociais, ecológicas e políticas. Como podemos olhar para o problema da água a partir de todos estes diferentes pontos de vista?

Não precisamos apenas unir as múltiplas dimensões da água, precisamos unir as múltiplas dimensões de um planeta interligado. A crise climática e de biodiversidade são uma crise única. Quando esquecemos da biodiversidade e a destruímos, o clima se desestabiliza, porque a biodiversidade gere o clima. No movimentoChipko, as mulheres perceberam que se você destrói a floresta, ocorre uma seca, uma inundação.

Sendo assim, gerir a água significa gerir a regeneração da biodiversidade, das florestas, das plantas, da terra, das relvas. Todos são sistemas de gestão da água, assim como a questão climática. Os estragos climáticos têm a ver com os sistemas hidrológicos desestabilizados, que são os verdadeiros assassinos no Sul Global. Cada desastre na Índia em que pessoas morreram é um desastre hídrico. Quando vem um ciclone, as pessoas morrem. Quando um lago glacial derrete e há uma inundação, as pessoas morrem.

É necessário interligar todas as dimensões da água. Quando o governo constrói uma barragem para os agricultores ricos do vale, todos os outros perderão o acesso à água. Como todos os recursos estão interligados, devem ser geridos como bens comuns e para o bem de toda a comunidade. Não podem ser divididos para o seu uso extrativo pelos mais poderosos. Neste momento, a privatização da água e o mercado futuro da água são questões de grande relevância às quais as pessoas resistem. A água de Delhi ia ser privatizada e conseguimos evitar.

O ultranacionalista Narendra Modi, do partido BJP, provavelmente será reeleito primeiro-ministro da Índia, enquanto a extrema-direita tem perspectivas de crescer na Europa. Estes partidos têm em comum o fato de combinarem nacionalismo e neoliberalismo. Como podemos explicar a sua ascensão no contexto da crise ecológica?

Em 1991, escrevi o Manifesto por uma Democracia na Terra. Em 1999, bloqueamos a cúpula da OMC, em Seattle. Durante este período, desenvolveu-se o neoliberalismo, a desregulamentação do comércio e da economia e a morte da democracia. Também começou esta nova cultura de morte e destruição. O livro de Samuel Huntington, O choque das civilizações, é fundamental para este momento. Vem dizer que só posso saber quem sou quando sei quem odeio. Criou-se o ódio como moeda de identidade.

Ora, todas as tradições espirituais dizem algo diferente: saber quem você é tem a ver com a forma como você se relaciona com a terra e com a sua comunidade. Você existe na comunidade e, como comunidade, você faz parte da natureza e produz junto com a natureza. Passou-se disso para uma identidade negativa, uma cultura de destruição, violência e morte. O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno: “Saiba a quem deve exterminar”. Essa agenda, saber quem é o seu inimigo, tornou-se a agenda nacional.

Contudo, uma nação tem a ver com a forma como correm os riachos, qual é a saúde das florestas, qual é o estado de saúde dos cidadãos, até que ponto estão organizados para cuidar dos bens comuns, Essas são as questões que definem uma comunidade. No entanto, hoje, as culturas, as economias e as democracias foram esvaziadas de comunidade e se tornaram propriedade das corporações. É assim que o nacionalismo cultural se tornou sócio do neoliberalismo corporativo.

Em algum momento, falou sobre a necessidade de criar um G-7 bilhões. Quais tipos de instituições democráticas precisamos para defender uma democracia da Terra?

A verdadeira democracia é possível junto com outros seres que habitam o planeta Terra. Cultivar alimentos de forma ecológica é uma prática de democracia da Terra, tem a ver com a liberdade de todas as formas de vida e suas interconexões. Salvar as sementes, por exemplo, não é apenas salvar os humanos, mas também os polinizadores. Devemos reivindicar isso.


Fonte: Contraosagrotóxicos

A postura agressiva de Lula contra a greve nas universidades federais mostra a sua real opção de futuro para o Brasil

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Lula fez diversas manifestações contra a greve realizada por professores e servidores de universidades e institutos federais

Em mais uma manifestação irritada contra a greve realizada por professores e técnicos de universidades e institutos federais, o presidente Lula declarou que não teria medo de reitores porque não que teriam sido eles que teriam “mordido” o seu dedo mindinho (aquele que ele perdeu em uma prensa mecânica nos tempos em que era metalúrgico).

Governo Lula nega reajuste a servidores e convoca mesa para acabar com a  greve

Essa é mais uma manifestação reveladora da postura do governo Lula curiosamente contra um segmento que o apoiou de forma majoritária durante o período em que ficou preso em Curitiba e também no duro embate eleitoral travado em 2022 contra Jair Bolsonaro.  É que ao negar algo minimamente próximo ao mesmo tipo de reposição salarial concedida à policiais federais e a policiais rodoviários federais (categorias que claramente formaram a linha de frente de apoio a Bolsonaro),  Lula mostra algo mais profundo que é o descompromisso com o fortalecimento das universidades e institutos federais cujos orçamentos estão muito aquém do que seria preciso para recuperar as perdas ocorridas sob Bolsonaro.

Ao negar o fortalecimento não apenas dos salários de professores e técnicos, mas principalmente a recomposição da condição orçamentária das universidades federais, Lula apenas confirma seu descompromisso com o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.  É que até as emas do Palácio do Planalto sabem que é nas universidades federais que se produz mais de 90% da ciência nacional. Assim, ao se negar a recompor as perdas salariais acumuladas ao longo dos últimos anos e manter as universidades em condição de penúria,  Lula literalmente mantém as linhas gerais adotadas por Bolsonaro.

Biden Cracks Down on Chinese Tech Investment

Enquanto o Brasil investe em uma agricultura altamente predatória, a China faz investimentos massivos em desenvolvimento científico e tecnológico

Apenas por comparação, a China que está se tornando a principal potência científica do mundo vem aumentando de forma consistente o orçamento investido em desenvolvimento científico e tecnológico.  Enquanto isso, a opção brasileira é por investir em torno de R$ 360 bilhões para apoiar principalmente o latifúndio agro-exportador que não precisa de muita tecnologia para produzir commodities que serão compradas majoritariamente pelos chineses que cada vez mais nos vendem produtos com alto valor agregado (curiosamente quase o mesmo valor investido pela China em desenvolvimento científico e tecnológico).  O resultado deste tipo de troca altamente desigual nós já sabemos: alto nível de desenvolvimento para os chineses, enquanto que para o Brasil sobra poluição de águas e solos pelo uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, desmatamento e diminuição de recursos hídricos.

A questão que me parece clara é que os seguidos ataques de Lula ao movimento grevista nas universidades federais reflete mais a sua opção de país que ele quer que o Brasil seja do que qualquer preocupação com a falta de aulas para os estudantes. E no caso, o país que se desenha a partir dessas declarações que continuará atrasado tecnologicamente e cada vez mais dependente e controlado pelas oliquarquias agrárias que sempre controlaram os rumos da sociedade brasileira.

A produção de alimentos se tornou uma fonte de problemas climáticos

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Os fertilizantes são uma das principais fontes de emissões de óxido nitroso, um gás de efeito estufa que aquece o planeta. pixdeluxe/E+ via Getty Images
Por Hanqin Tian, Eric Davidson, Pep Canadell e Rona Louise Thompson para o “The Conversation”

O papel dos alimentos nas alterações climáticas emergiu como um dos desafios definidores do nosso tempo. A viagem de um bife, fruta ou salada desde as vastas extensões de terras agrícolas até aos pratos nas nossas mesas deixa uma pegada significativa no ambiente.

Como cientistas da Terra , do clima e da atmosfera , rastreamos as emissões globais de gases de efeito estufa e acabamos de publicar a avaliação mais abrangente até agora de um poderoso gás de efeito estufa proveniente da produção de alimentos: o óxido nitroso, ou N₂O.

Depois do dióxido de carbono e do metano, o N₂O é o gás de efeito estufa mais importante que os humanos estão liberando na atmosfera. Embora haja menos N₂O do que dióxido de carbono na atmosfera, este é 300 vezes mais poderoso no aquecimento do planeta e permanece na atmosfera, retendo o calor, durante mais de um século. Hoje, os níveis atmosféricos de N₂O são cerca de 25% mais elevados do que antes da Revolução Industrial e continuam a aumentar a um ritmo acelerado.

Um gráfico com uma linha de pontos de dados que remonta a quase 200 anos mostra que os níveis atmosféricos de N2O permaneceram bastante estáveis ​​até 1800, quando começaram a subir rapidamente e continuam a subir
A concentração atmosférica de N₂O permaneceu bastante estável até 1800, quando começou a aumentar rapidamente. Medido em núcleos de gelo da Antártida (verde) e através de medições modernas (vermelho). BoM/CSIRO/AAD

Descobrimos que, globalmente, os fertilizantes e a gestão do estrume animal estão a liderar o aumento das emissões de N₂O e a sua rápida acumulação na atmosfera. Isto é mais do que um problema climático. O N₂O também destrói a camada de ozônio , que protege os humanos da radiação solar prejudicial. E o escoamento de nitrogênio dos campos polui os cursos de água , aumentando a proliferação de algas nocivas e criando zonas mortas com falta de oxigênio.

O crescimento das emissões de N₂O é alarmante, mas hoje as pessoas têm o conhecimento e muitas das tecnologias necessárias para inverter a tendência.

De onde vêm as emissões de N₂O?

Antes da Revolução Industrial, as fontes naturais de N₂O provenientes de micróbios que viviam nos solos florestais e nos oceanos eram aproximadamente iguais aos sumidouros naturais que consumiam N₂O no ar, pelo que as concentrações atmosféricas de N₂O eram relativamente constantes.

No entanto, a população humana e a sua procura de alimentos cresceram rapidamente, desequilibrando esse equilíbrio natural.

Descobrimos que as atividades humanas por si só aumentaram as emissões de N₂O em 40% nas últimas quatro décadas, com a agricultura contribuindo com aproximadamente 74% do total das emissões antropogênicas de N₂O.

As maiores fontes humanas de N₂O são a agricultura, a indústria e a queima de florestas ou resíduos agrícolas.

Ilustração do orçamento global de N2O mostra fontes de emissões
Fontes anuais de emissões de N₂O e mudanças ao longo da década de 2010-2019. Medido em milhões de toneladas métricas. Projeto Global de Carbono , CC BY

Os fertilizantes nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura, são um dos maiores contribuintes. Os fertilizantes são responsáveis ​​por 70% do total das emissões agrícolas de N₂O em todo o mundo. O esterco animal proveniente da pecuária intensiva contribui com cerca de 30%. Uma fonte menor, mas que está em rápido crescimento, é a aquicultura, como a piscicultura , particularmente na China, onde aumentou vinte e cinco vezes nos últimos 40 anos.

Além da agricultura, os processos industriais como a produção de náilon , explosivos e fertilizantes, e a combustão de combustíveis fósseis também contribuem para as emissões de N₂O, mas em menor grau do que a agricultura.

Emissões de N₂O por país

As emissões variam muito de país para país por uma série de razões sociais, económicas, agrícolas e políticas.

As economias emergentes, como a China e a Índia, registaram fortes tendências de aumento de N₂O nas últimas quatro décadas, à medida que aumentavam a produtividade agrícola para satisfazer a crescente procura alimentar das suas populações .

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A China é o maior produtor e usuário de fertilizantes químicos. O seu Plano de Acção para o Crescimento Zero na Utilização de Fertilizantes até 2020, publicado em 2015, ajudou a reduzir essas emissões de N₂O . No entanto, as suas emissões industriais de N₂O continuaram a aumentar .

No Brasil e na Indonésia, o corte e a queima de florestas para dar lugar às culturas e à pecuária, juntamente com práticas agrícolas cada vez mais intensivas, exacerbaram as perdas de nitrogênio provenientes de fontes naturais e ampliaram as emissões de gases com efeito de estufa.

África tem oportunidades para aumentar a produção alimentar sem aumentar a fertilização com azoto. No entanto, os países do Norte de África mais do que triplicaram o crescimento das suas emissões nas últimas duas décadas, principalmente devido a um crescimento substancial da população pecuária em África.

Algumas regiões, no entanto, conseguiram reduzir algumas das suas emissões de N₂O com práticas mais sustentáveis.

fontes de emissão

A União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul reduziram com sucesso as emissões antropogênicas de N₂O nos últimos 40 anos, embora continuem a ser grandes emissores à escala global; as reduções vieram em grande parte da indústria química na década de 1990. A sua utilização de azoto na agricultura também se tornou mais eficiente; no entanto, eles ainda têm trabalho a fazer. As suas emissões provenientes da aplicação direta de fertilizantes e de estrume diminuíram apenas ligeiramente e estabilizaram recentemente.

Nos EUA, as emissões agrícolas continuam a aumentar, enquanto as emissões industriais diminuíram ligeiramente, deixando as emissões globais bastante estáveis .

Como reduzir as emissões de N₂O

Enfrentar o desafio de reduzir as emissões de N₂O requer uma combinação de intervenções políticas, inovação tecnológica e ações individuais. Por exemplo:

A traseira de um trator jogando fora pequenas bolinhas de fertilizante, do tamanho de ervilhas.
Um trator espalha fertilizante em um campo. As técnicas de agricultura de precisão podem reduzir o uso de fertilizantes e o potencial de escoamento para os cursos de água. fotokostic/iStock/Getty Images Plus
  • Da mesma forma, as inovações na gestão pecuária , tais como suplementos dietéticos e melhores práticas de gestão de resíduos, podem reduzir a quantidade de N₂O do gado.
  • As indústrias, especialmente a produção de náilon e de fertilizantes, podem instalar tecnologias existentes e acessíveis para reduzir quase todas as suas emissões de N₂O. Essa é uma vitória fácil para a implementação e para o clima. A maior parte do mundo já o fez, deixando a China e os EUA responsáveis ​​pela maior parte das restantes emissões industriais de N₂O.
  • Os consumidores também podem tornar os alimentos vegetais uma fração maior de suas dietas. Você não precisa se tornar vegano a menos que queira, mas reduzir a frequência e o tamanho das porções de consumo de carne e laticínios pode ser saudável para você e para o meio ambiente. Práticas ecológicas, como a compostagem de resíduos alimentares e a redução do uso de fertilizantes nos gramados, também ajudam.

Globalmente, é necessária uma abordagem holística que combine políticas, tecnologia e ações individuais para abordar as emissões de N₂O e combater as alterações climáticas. Com governos, indústrias e cidadãos a trabalhar em prol de um futuro sustentável, estas estratégias podem ajudar a garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental para as gerações futuras.


Fonte: The Conversation

Saúde da Mama é tema central de Simpósio Internacional no Rio de Janeiro

Especialistas de todo o país discutem avanços científicos no combate ao câncer de mama e avaliam políticas públicas para melhorar acesso da população à prevenção e tratamento

Abertura Simpósio Internacional RJ_ 20Jun2024

O Rio de Janeiro volta a ser palco de debate de novas soluções e técnicas no tratamento do câncer de mama, além de medidas efetivas que possam potencializar a estrutura já existente no atendimento público às mulheres. Trata-se do SIM Rio – Simpósio Internacional de Mastologia, evento tradicional na Cidade e no país e que chega a sua 13ª edição, a partir desta quinta-feira, 20/06.

De acordo com a Dra. Maria Julia Calas, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – regional Rio de Janeiro, a entidade tem um olhar contínuo na busca por melhorias para o acesso das mulheres à prevenção do câncer de mama e, principalmente, ao tratamento para quem já recebeu o diagnóstico. Por isso, neste ano o evento contará com o “Fórum para todos”, no qual mulheres da sociedade civil poderão discutir com os médicos o tema central de tratamento e qualidade de vida. “Devido a limitação de espaço, abrimos 50 vagas para que diferentes mulheres com histórias distintas, diagnosticadas ou não, possam obter mais informações, e, fundamentalmente, compartilhar as suas histórias, mostrando suas dificuldades de acesso a exames e tratamento. Essa troca é enriquecedora e nos ajuda na identificação da realidade vivida por elas e, consequentemente, na necessidade de novas diretrizes em termos de políticas públicas”, afirma a presidente.

A especialista destaca também alguns temas polêmicos na sociedade, mas que é de suma importância para quem está no tratamento do câncer de mama, como o uso da cannabis no tratamento oncológico, os efeitos da hormonioterapia e, sobretudo, como as pacientes são fundamentais como agentes de mudança, ou seja, no impacto das políticas de saúde. “Nosso objetivo no Fórum é proporcionar para elas e com elas reflexões e entendimentos sobre esse tema complexo. Se de um lado o nosso SUS é uma referência mundial, por outro sabemos que há muitos gargalos, como o acesso não tão ágil aos exames preventivos, como a mamografia, e, principalmente, no tratamento das mulheres diagnosticadas”, esclarece, lembrando que há lei em vigor no Brasil que garante as mulheres o início do tratamento do câncer em até 60 dias após o diagnóstico, o que nem sempre acontece.

O SIM Rio acontece entre os dias 20 e 22, no Prodigy Hotel, no Aeroporto Santos Dumont, e reunirá cerca de 500 especialistas, entre mastologistas, oncologistas, ginecologistas, radiologistas, entre outros, abordando também temas relevantes do conteúdo científico e novos estudos, inclusive com palestrantes internacionais.

“Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar milhões de brasileiros”

Em entrevista, o agrônomo e membro do Movimento Ciência Cidadã, Leonardo Melgarejo, explica como as enchentes no RS resultam de um modelo predatório de agricultura e incentivos fiscais à destruição ambiental

eldorado do sul

Vista aérea de Eldorado do Sul, cidade foi destruída pela enchente. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Solange Engelmann, da Página do MST

As mudanças climáticas já se tornaram um problema ambiental e social no Brasil, que necessita de medidas urgentes por parte dos Estados brasileiros e do governo federal para amenizar o sofrimento de milhares de pessoas que vem perdendo a vida, a moradia, lavouras e destruindo sonhos e perspectivas de vida, construídos em décadas. A exemplo temos a tragédia com temporais e enchentes que atravessa o Rio Grande do Sul, desde o mês de maio.

Até o momento o número de pessoas mortas devidos às enchentes no estado já chega a 177, além de 37 pessoas que estão desaparecidas. Ao todo, mais 2 milhões de pessoas foram afetadas pela inundações no RS. Conforme o balanço da Defesa Civil, o estado ainda conta com 478 municípios afetados pelas fortes chuvas e cerca de 10 mil pessoas continuam em abrigos. Porém, no último fim de semana, pelo menos 19 municípios gaúchos sofreram novos danos em razão de mais enchentes, e nesta segunda (17), a Defesa Civil emitiu novo alerta de chuvas intensas e rajadas de vento no estado.

Entre os dez assentamentos do MST no estado, dois tiveram todas as casas destruídas e perderam as plantações e animais, sendo obrigados a se deslocarem para outros assentamentos. E e outros dois assentamentos tiveram metade de suas casas destruídas, além de outros dois assentamentos com perdas devidos as inundações. Entre as várias perdas das famílias assentadas estão casas, a produção de alimentos plantados e estocados, animais e ferramentas, além de estruturas coletivas, maquinários, matéria prima, produtos para venda das cooperativas e agroindústrias localizadas nesses assentamentos, como por exemplo, toda a produção de Arroz Agroecológico e a área plantada.

Engenheiro agrônomo, doutor em Engenharia de Produção, membro do Movimento Ciência Cidadã e colunista do Brasil de Fato RS, Leonardo Melgarejo explica que as enchentes no RS não surgem do nada, mas são fruto do modelo predatório do agronegócio e da desregulamentação das políticas de fiscalização e de preservação ambiental, entre outros fatores.

“Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo. Os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, que estão nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais.”

Confira mais na primeira parte da entrevista exclusiva para a Página do MST

Quais os principais prejuízos e dificuldades que as mudanças climáticas tem causado na vida das famílias assentadas e do campo, atingidas pelas enchentes no RS?

O primeiro elemento que chama a atenção é a desestruturação da base física em que se apoiam essas famílias para viver. Na quase totalidade dos assentamentos, as áreas ocupadas pelas famílias eram áreas exploradas por um modelo predatório, e isso leva à degradação dos solos, à degradação das formas de vida estabelecidas naquele território. E a vida das famílias é iniciada no assentamento pautada por uma espécie de recolonização, com vida, com a incorporação de muito trabalho pra agregar matéria orgânica, pra devolver a cobertura vegetal, devolver aquilo que nós não enxergamos que é a micro vida do solo. E, ao mesmo tempo, essas famílias têm que realizar um enorme investimento de tempo e de trabalho para estruturação de mercados, para destinar sua produção, para a construção de relações de confiança com os consumidores nesses mercados.

Nesse sentido, a destruição das bases produtivas, o rompimento das cadeias de mercado afetam a vida daquelas famílias de uma maneira muito concreta. Isso tem uma enorme repercussão sobre o psicológico, sobre o que sentem as famílias e como elas veem o mundo. Felizmente, os assentados da Reforma Agrária fazem parte de uma articulação que é comprometida com uma espécie de visão de família ampliada, que não permite que as pessoas se sintam abandonadas. E o Rio Grande do Sul passa pela destruição objetiva de estruturas físicas que carregam histórias e possibilidades de vida, e que jogam as pessoas numa ideia de isolamento, porque essa família estendida não é uma realidade pra todos os grupos. As destruições físicas crescem pela pressão psicológica, pelo desânimo, pela ameaça iminente de miséria, de fome, de doenças, e até por isso, o desastre nos assentamentos ganha um vulto maior, porque é dali, dos assentamentos que estão vindo esforços muito evidentes para o acolhimento não só dos assentados, mas principalmente dos não assentados.

Que esforços são esses?

A produção e a distribuição de alimentos é uma evidência de exemplo concreto de solidariedade que deixa claro que juntos podemos fazer milagres. E por isso, o MST e outros movimentos, o MTST, o Levante Popular, as cozinhas solidárias, hoje se colocam no Rio Grande do Sul como principal elemento de ligação entre os flagelados dos campos e das cidades, entre o presente dramático do Estado e o futuro que vai emergir depois dessa coisa. E essa conexão estabelecida pelo MST tem que ser reconhecida e fortalecida, porque isso é do interesse de todos. Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar de uma maneira cada vez mais brutal, milhões de brasileiros em todos os territórios, nos campos, nas matas e nas cidades.

Cozinha Solidária do MST, em Viamão. Foto: Tiago Giannichini

Quais os verdadeiros responsáveis pelas tragédias e crimes ambientais e sociais, como do RS e como responsabiliza-los e cobrar soluções?

Existem fundamentações dessa crise e podem ser diluídas em função da estrutura geográfica do Rio Grande do Sul, que dá as condições de base pra que ocorra o que tenha ocorrido. Existem as implicações do capitalismo, da ideia de crescimento infinito sobre a depredação de recursos e serviços e das implicações dessa degradação de recursos e serviços ambientais sobre o aquecimento global, em função do modelo de desenvolvimento capitalista, onde tudo é mercadoria. E as implicações, agora bem objetivas, de dimensão destrutiva de eventos ambientais que vão se suceder com maior frequência e com maior dimensão catastrófica. Chuvas cada vez mais intensas, secas cada vez mais prolongadas. E isso decorre do metabolismo planetário, que tem ciclos bem definidos.

Nós estamos num período de El Niño com essa chuvarada, mas antes dele houve um La Niña com secas que afetaram muito a economia do estado do Rio Grande do Sul, e a partir desse período de enxurradas, nós esperamos já a partir do próximo ano a volta do La Niña com secas. E no Rio Grande do Sul, essa sequência se agrava por conta da posição do Estado em relação ao globo terrestre. No caso das enchentes, elas são extremamente graves, porque sobre o Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina se chocam umas frentes frias que sobem lá da Antártida com umas frentes quentes que descem do norte e que descem do litoral. Nesse choque, as massas de vapor de água se condensam e despencam. E como o aquecimento global está fazendo com que exista menos água retida de forma congelada nos pólos, e a maior parte dos rios estão sendo assoreado pelo mau uso dos solos, estão secando, então, o volume da água na forma de vapor e na forma de chuva é muito maior. Isso vem num crescente.

E o que fazer diante disso?

Nós temos que pensar no que que nós fazemos como população, como sociedade, gerenciando o território onde essa água vai despencar. Como no Rio Grande do Sul, nós temos um desnível de até 800 metros entre as áreas altas da Serra do Planalto e as áreas baixas para onde escorrem as chuvas que caem lá em cima. Essas várzeas são invadidas por volumes de água com grande força, pela diferença de altitude, pela força da gravidade, empurrando essas águas e grande poder de destruição. E tudo chega no rio Guaíba, que está praticamente ao nível do mar, está colado na Lagoa dos Patos e se espalha em torno da lagoa e em torno das várzeas desses rios. Porque o canal de ligação da lagoa com o mar é muito estreito para um volume de água tão gigante. Como os rios estão assoreado essa água chega com maior volume naquela boca de saída e com maré alta essa água é represada com os ventos vindos do sul. E as inundações que eram previstas e que, em condições normais, seriam também inevitáveis, elas só adquirem essa dimensão causando esses danos, assim do tipo nunca visto, porque, o nunca visto é algo sequencial. O próximo nunca visto vai ser pior do que este.

Então as enchentes no RS poderiam ter causado danos menores?

Com certeza. Com solos protegidos, rios não assoreados, com medidas de proteção, via a legislação protetiva ao ambiente e fiscalização dos crimes ambientais, as coisas seriam diferentes e, principalmente, se nós tivéssemos orientações políticas e de mecanismos de educação que se encaminhasse para conscientização social numa linha não negacionista. Poderíamos ter evitado esse drama na dimensão que esteve. Porto Alegre, por exemplo, estava preparada para conter a elevação do rio Guaíba até seis metros e o rio Guaíba não subiu seis metros, a água não passou dos 5,5. E ela não teria entrado na cidade, não teria provocado o que vimos se a sucessão de administrações que estiveram na Prefeitura de Porto Alegre, que controlaram a cidade nos últimos 20 anos, não tivessem desmontado o sistema de proteção criado por administrações anteriores, não tivessem descuidado de fazer o básico.

E como fica a responsabilidade dos culpados pela tragédia?

A responsabilização é parte do serviço de educação que nós precisamos, de desalienação, que nós precisamos. Nós precisamos que os erros sejam identificados para que eles não se repitam. Precisamos que os promotores dos erros sejam desmascarados. Isso é necessário para que os grupos políticos de que fazem parte os promotores dos erros, não sejam protegidos pela cumplicidade do silêncio. E nós temos muitos exemplos negativos já na nossa história, relacionados a perdões, anistias, esquecimentos, que se repetirem nesse caso vão alimentar a crise e os dramas futuros que estão por vir. É inegável a volta dessa roda.

Como o modelo do agronegócio, através do uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento vem contribuindo para agravar os efeitos das mudanças climáticas para os povos do campo?

O solo, com diferentes níveis de cobertura é o maior reservatório de água. Os volumes de água que os diferentes tipos de solo vão conseguir segurar dependem da composição do solo, da profundidade e das plantas que estão sobre o solo. Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e, portanto, dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo, talvez mais facilmente pela invisibilidade, os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas. Os mecanismos de descompactação do solo que são realizados por insetos e pelas raízes, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e vem estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais. E também não dá para esquecer, que uma ocultação da realidade que ilude a sociedade. Há uma publicidade, campanhas de marketing que promovem a destruição dos ecossistemas e que são veiculadas nas grandes redes.

Então, como o desmatamento contribui para o encharcamento do solo e o aumento das enchentes?

Quando eliminamos as árvores, não estamos descartando apenas os serviços que as árvores realizam, quando impedem a força do choque das gotas de chuva sobre o solo que desagregam o solo ou o serviço que as árvores realizam, absorvendo e devolvendo pela respiração para o ambiente, parte da água que chega até elas. É muito grave e pouco comentado o fato de que nós, cortando os canais profundos que são abertos pelas raízes, reduzimos de uma maneira muito significativa a capacidade de absorção e de retenção das águas da chuva pelo solo. E o que não é retido, escorre.

Em resumo, nós precisamos reflorestar, e não basta ser iludido por plantio de eucalipto. Nós precisamos reflorestar com diversidade, a diversidade da cobertura viva do solo e da vida subterrânea dos solos, é que define esse serviço de retenção de água que o agronegócio desfaz. A substituição daquelas composições bio diversas por um único tipo de planta, por exemplo, a soja, semeada ano após ano nos mesmos locais acaba retirando a capacidade de absorção e retenção da água do solo e, além disso, isso também gera uma camada impermeabilizada na linha de corte dos discos dos arados, e faz com que mais água escorra. E aquela camada superficial do solo pulverizada, acaba sendo carregada, vai parar nos rios, nos lagos e reduz a capacidade dos rios de escoamento das águas. E isso aumenta o volume da inundação, a velocidade e a violência das enchentes. E tudo isso aconteceu no Rio Grande do Sul, que enganado pela mídia, vinha se orgulhando de um modelo de produção ecocídio. Consolidado esse modelo dependente de isenções fiscais, que estimula o uso de veneno. Tudo que foi destruído pela força das águas escorreu em direção às áreas baixas, carregando os problemas.

E como essas enchentes geram mais problemas para os agricultores agroecológicos e assentados da Reforma Agrária no estado?

Lavoura de arroz alagada. Foto: MST-RS

Os agricultores ecológicos que, com as suas áreas de cultivo, onde produziam alimentos orgânicos, também foram inundadas pelo escorrimento das áreas degradadas pelo agronegócio. Isso estabeleceu um paradoxo, por que esses agricultores de áreas orgânicas vão precisar recuperar a fertilidade e retirar o veneno dos seus solos. E essa é uma dificuldade que tende a se estender no tempo e com o período de seca que está por vir.

E os lagos associados por essa última enchente, com a seca vão ter níveis mais baixos, maior concentração proporcional de resíduos dos venenos, que ali foram depositados. Os animais que buscarem matar a sede nesses locais vão ser contaminados. E nos próximos períodos, mais chuva e o drama vai se repetir.

O corolário é que se não mudarmos o modelo de produção, se a gente continuar jogando veneno no Rio acima, nós vamos continuar reduzindo a capacidade de retenção de água pelos solos. E a diferença, ano após ano, só vai se observar na dimensão dos estragos. É esse o drama está posto.

*Editado por Fernanda Alcântara


Fonte: MST

O PT e sua singularidade

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 Não há Lula sem PT, mas haverá PT sem Lula?

Por Douglas Barreto da Mata

Não é desejável, mas é aceitável que nos tornemos mais ranzinzas com o avançar da idade.  Seja o desconforto com as inovações tecnológicas, que parecem alterar nossa percepção, nos dando a impressão de que falta ainda muito menos tempo que nos resta, seja com a descoberta de que tudo aquilo que acreditamos por décadas não era, exatamente, o que pensávamos (nunca é, ainda bem), ou enfim, porque tudo fica mais difícil mesmo.

Voltar ou começar a fazer exercícios físicos, abandonar velhos vícios (ou criar novos), cortar pêlos que insistem em nascer em locais horríveis, tudo é muito mais difícil pelo simples fato de que tudo acelera lá fora, enquanto ficamos mais e mais lentos.

No entanto, o tempo vivido (e vívido, parafraseando Back in Bahia de Gilberto Gil) traz uma vantagem (para alguns, não todos) de poder olhar esse período de uma perspectiva bem mais ampla, simplesmente porque você tem esse passado, que antes, era apenas uma expectativa (futuro). É o que ando fazendo com minhas crenças políticas.

Falo da militância orgânica por mais de 20 anos no Partido do s Trabalhadores, o PT, desde 1986 até meados de 2007/2008, quando passei a ser um simpatizante/militante, mais afastado, sem deixar de acreditar que aquela legenda seria a ferramenta de transformação social que o país precisava. Olhando hoje, após 38 anos, posso dizer que tenho tempo suficiente para acreditar que não é mais, e pior, pode nunca ter sido como eu acreditei.

Tenho escrito muita coisa ácida e deselegante sobre o PT nesses últimos tempos, e mais sobre Lula, cuja imagem abraçado comigo, capturada no jantar do Hotel Palace, na campanha presidencial de 1998, senão me engano, mantenho em minha sala de estar, em um porta retratos que minha filha mandou fazer para mim.

É um sentimento ambíguo, que mistura memórias afetivas com decepções, as quais me impedem de guardar o quadro, talvez para a sua exposição faça com que me recorde sempre que aquilo que eram esperanças nunca se concretizaram.

Vejam bem, decepção nem sempre é melancolia, e neste caso, é remédio amargo para os sentidos, que aguça a razão.  Em algum momento, o PT, eu corrijo, nós do PT deixamos de cuidar daquilo que deveria ser a coisa mais importante.

Explico.  O espectro político brasileiro, por suas injunções históricas, nunca contou com partidos políticos que materializassem a noção básica de um ajuntamento desta natureza.

Talvez o PTB de Getúlio Vargas, os partidos comunistas, os demais sempre foram agrupamentos de individualidades políticas, de personagens, onde a grande massa de filiados e militantes corressem atrás de lideranças carismáticas, com maior propensão à reunião em tempos eleitorais, e com pouca ou nenhuma densidade e penetração em movimentos sociais.

Para sermos justos, em todos os cantos do mundo, é mais ou menos assim, e o debate político mais robusto fica a cargo de poucos grupos e partidos.

O PT, nesse sentido, veio como uma novidade, apesar de contar com uma liderança de calibre, Lula.  Podemos dizer que durante anos, o PT reivindicava ser o único partido cuja sigla fazia sentido, que combinava com sua trajetória política, era um partido dos trabalhadores, isto é, para os trabalhadores e feito por trabalhadores.

Esse corte de classe parecia claro.  Ao contrário dos demais partidos, que levam sempre “democrático”, “social”, “progressista”, mas que nunca agiam como tais, o PT dizia guardar essa coerência como um diferencial.

Para nós, a compreensão da luta para a melhoria de vida dos trabalhadores percorria muitas vias, e também isso era a grandeza do partido, sua vida interna, pulsante, intensa, e às vezes, extremada, mas nunca omissa ou cúmplice do crime histórico praticado pelas elites, no processo que chamávamos de democracia interna.

Bem, era nisso que eu acreditava.  De certa forma, não quero crer que, em algum momento, que essa visão do PT ingênua não tenha correlação com alguma porção de verdade, mesmo pequena, que seja.

É essa a questão.  Era verdade, ou melhor, havia a  busca por essa verdade?

Dói dizer, de onde me encontro, que o PT, a meu ver, olhando para trás, nunca foi, ou em algum momento deixou de ser um instrumento de luta da classe trabalhadora contra as elites.

Observando mais de perto a sua principal liderança, Lula, podemos afirmar que, na verdade, Lula nunca pretendeu ser esse veículo da luta de classes.  Simplesmente porque Lula é, dito por ele mesmo, uma pessoa que acredita que há conciliação entre esses segmentos da sociedade, e que o Estado, através do governo representativo, pode dar conta de cimentar esse pacto através de ações políticas nessa direção, sempre equilibrando os lados em conflito. Ele, portanto, nunca negou essa condição de “amortecedor” destas disputas.

Talvez nossa ingenuidade, ou melhor dizendo, a minha, tenha sido acreditar que pudéssemos estar à sombra do líder popular, para em alguma forma de gradualismo reformista, fizéssemos a ruptura com o sistema que gera enormes desigualdades, o capitalismo.

Imaginamos (será?) que dava para “melhorar” as desumanas condições dos trabalhadores no capitalismo, enquanto lutamos para acabar com ele?  Ou sequer lutamos para isso?

Ou pior, quem sabe esperávamos que algum conforto econômico proporcionado por alguns anos de consumo (churrasco de picanha, e viagens de avião, como brada o presidente) fizessem os trabalhadores, por milagre, entenderem a sua posição na luta de classes, e tomando consciência dessa condição subordinada, dedicassem o apoio político irrestrito ao PT e seu governo, para atacar a causa de seus infortúnios, a desigualdade e o sistema que a gera?

Não.  O que aconteceu foi a simbiose de um partido com seu líder, que maior que a legenda, a engoliu, e sim, o matou.  Como um ser político antropófago, Lula deglutiu o partido e tomou para si a sua essência, como acreditavam os povos originários, que dedicados ao ritual, quando apenas comiam aqueles que admiravam e respeitavam.

Pode ter sido tudo isso.  Pode ter sido tudo isso, e algo mais. Aprendemos que é pouco provável que mudemos o passado, e o futuro que nos resta é tão escasso que nossa atenção acaba se diluindo em menos futuro, para termos mais presente.

Lula tem pouco tempo, e sabe disso também.  No fim, “olhando em perspectiva”, como disse lá em cima, não tinha como dar certo, porque já nasceu errado.  A sigla PT hoje não significa o que as letras dizem, e bem dizendo, não querem dizer mais nada. Lula não assusta mais ninguém, domesticado pelas elites nacionais, incensado como um bem arqueológico nas reuniões internacionais, como este porta-retratos que tenho na minha sala.

Uma lembrança incômoda de derrota. Sorte que ainda restou algum afeto.  Mas de que serve afeto a esta altura das coisas?

Esperando por Godot, o PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado

ovelhas

Por Douglas Barreto da Mata

O PT esperou Godot, e Godot não veio.

A tática do partido, em sua seção local de Campos dos Goytacazes, em emplacar a candidatura da Deputada Estadual Carla Machado, ex-prefeita de SJB, não deu certo. Deu a lógica, e o TSE confirmou o que todos sabiam, que um prefeito de município vizinho (limítrofe) não pode concorrer a um terceiro mandato na cidade ao lado, mesmo que tenha renunciado ao cargo no meio do segundo mandato.

Defendi essa tese no programa da Rádio Aurora, com meus amigos Léo Puglia e José Alves, e disse na ocasião que mesmo que houvesse uma mudança de entendimento da jurisprudência, ela não poderia valer neste pleito, dada sua natureza normativa e de amplo espectro, isto é, o novo entendimento alteraria, significativamente, a situação jurídica de vários interessados.

Ressalte-se que tais renovações têm se tornado tão comuns na Justiça brasileira, que já são chamadas de F5 (aquele comando do computador para atualização da página). É certo, como já apontou o juiz Nunes Marques, acompanhado de outro, que há chance de reexame do tema. Não é esse o assunto aqui, que merece até outro texto. Quero falar de outra questão.

O fato de que o PT se transformou em um partido-ônibus ou partido hospedeiro. Incapaz de elaborar uma estratégia política de médio e longo prazos, carente de quadros e de renovações destes quadros, a legenda repete os mesmos erro, enquanto espera resultados diferentes. Impossível.

O PT optou sempre por ser rabo de elefante, a ser cabeça de mosquito, e agora não faz diferente.  Em lugar de traçar um caminho próprio, ainda que modesto, o PT de Campos prefere embarcar nos projetos do anti-garotismo local, sem perceber que esse garotismo se alterou, com a atual administração do prefeito Wladimir Garotinho, mas mesmo assim, mantém sua indiscutível hegemonia.

Seria o momento de manter alguma interlocução com o atual prefeito?  Os petistas podem argumentar, com certa razão, que o atual prefeito simboliza hábitos políticos da direita, e ele mesmo admite isso, e que tal circunstância tornaria qualquer conversa um incômodo.

Há também cicatrizes históricas no embate do PT com a família Garotinho, certamente, com culpas para todos.  Porém, o fato é que parte dos antagonistas que o PT escolheu para se associar, como um partido auxiliar, agora retornam ao ninho garotista, como a família Vianna, dentre outros, todos recrutados pela extrema habilidade do atual prefeito Wladimir, que transita com facilidade nas esferas superiores de comando do próprio PT.

Para levar adiante esse plano equivocado, a nosso ver, o PT foi procurar aconchego nos rivais do atual prefeito, que nem de longe podem ser identificados como progressistas, os Bacellar, ele mesmo presidente estadual do União Brasil, aliado do governador bolsonarista, que administra o estado onde essa facção política joga quase todas as suas fichas, junto com SP.

Então, vamos combinar, a questão não é ideológica ou apego ao histórico de lutas do partido.  No campo do cálculo eleitoral, há ainda a constatação de que os aliados que o PT procurou, os Bacellar, apesar de terem uma dimensão estadual considerável e nada desprezível, na cidade de Campos dos Goytacazes carecem de maior densidade, o que pode ser comprovado na ausência de um nome de peso do grupo para concorrer com o prefeito que tenta reeleição.

Se fosse, com certeza, a candidata não seria Carla Machado, que entrou e saiu do partido como se ali houvesse uma “catraca livre”, servindo-se da legenda sem trazer nada em troca, ou quase nada. Na trajetória da deputada, nada que se identifique com o PT, ao contrário, ela foi a patrocinadora de primeira hora de um dos maiores escândalos financeiros e da política nacional, protagonizado por Eike Batista e sua “grilagem” do V Distrito de SJB, onde até hoje as populações locais sofrem os efeitos do desterro, da salinização da água e do solo, e das violências praticadas em nome da propriedade portuária instalada ali.

Como se não bastasse, mesmo SJB sendo uma das cidades com maior orçamento per capita do país, com quase 1 bi para 2025 e 36 mil habitantes, o que dá R$ 27.777,00 por habitante, a cidade ostenta o maior nível de pessoas abaixo da linha da pobreza do Estado, e claro, do país.

O PT desperdiçou, novamente, um belo quadro, Jefferson Azevedo, ex reitor do IFF, ou sequer fez um debate de alianças, partindo para um adesismo barato, uma espécie de prostituição chamada, eufemisticamente, de “pragmatismo”.  Não!  Pragmatismo é quando se cede para ganhar algo.  E o PT não ganhou nada com Carla Machado, nem com os Bacellar, ou se ganhou, ninguém quis contar, e não ousamos dizer a razão do segredo.

Agora, o partido espera eleger ao menos um vereador. Pouco provável. Sem uma cabeça de chapa digna desse nome, que pelo menos mantivesse a densidade nos estratos eleitorais que já votaram no PT, ou da esquerda, é muito difícil.

Ao mesmo tempo, o ressurgimento das lutas campesinas poderia oferecer ao PT uma base de apoio social, mas o partido parece anêmico.  Agarra-se no SindiPetro/NF, um sindicato que parece atônito com a gestão privatista que foi colocada pelo Governo Lula na Petrobrás, cujo plano de ação em nada parece resgatar o aspecto crucial da estatal, ao contrário, domesticado pelo mercado, Lula, o seu governo, o PT e a Petrobrás adernam para o naufrágio iminente.

Agora, Inês está morta.  O PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado.

E Godot? Será que vem?

Microplásticos e nanoplásticos foram encontrados em todo o corpo humano – até que ponto deveríamos estar preocupados?

microplastico

Por Michael Richardson e Meiru Wang para o “The Conversation”

O mundo está ficando entupido de plástico. Partículas de plástico tão pequenas que não podem ser vistas a olho nu foram encontradas em quase todos os lugares, desde as profundezas dos oceanos até o topo das montanhas . Estão no solo, nas plantas, nos animais e estão dentro de nós. A questão é: que danos, se houver, eles estão causando?

Quando o lixo plástico é despejado em aterros sanitários ou no mar, ele se decompõe muito lentamente. A luz solar e as ondas fazem com que a superfície do plástico se torne quebradiça e as partículas sejam lançadas no meio ambiente. Conhecidas coletivamente como “pequenas partículas de plástico”, elas variam em tamanho de cinco milímetros ou menos (microplásticos) a menos de um milésimo de milímetro (nanoplásticos). Os menores só podem ser detectados com instrumentos científicos especiais.

Ainda não está claro como os microplásticos e nanoplásticos entram nos seres vivos, mas vários pontos de entrada foram sugeridos. Por exemplo, podem passar através do intestino através de alimentos ou bebidas contaminados com pequenas partículas de plástico. Ou podem ser inalados ou absorvidos pela pele.

Uma pesquisa que publicamos na revista científica Environmental International sugere que, pelo menos para alguns animais, os nanoplásticos são uma má notícia. Injetamos nanopartículas de plástico em embriões de galinha, os pesquisadores descobriram que as partículas viajavam rapidamente no sangue para todos os tecidos, especialmente coração, fígado e rins. Eles também foram excretados pelos rins embrionários. Nós também que as nanopartículas de plástico tendem a aderir a um certo tipo de célula-tronco no embrião. Estas células são essenciais para o desenvolvimento normal do sistema nervoso e de outras estruturas. Qualquer dano às células-tronco pode colocar em risco o desenvolvimento do embrião.

Suspeitamos que as células-tronco do embrião de galinha tenham substâncias em sua superfície, chamadas “moléculas de adesão celular”, que aderem às nanopartículas de poliestireno que usamos. Estamos a acompanhar esta descoberta, porque quando os nanoplásticos aderem às células e entram nelas, podem causar a morte celular e até defeitos congênitos graves em galinhas e ratos.

É claro que estudos semelhantes não podem ser realizados em seres humanos, pelo que ainda não é possível dizer quais são as implicações da nossa investigação animal para os seres humanos. O que sabemos é que os nanoplásticos são encontrados no sangue dos seres humanos, em outros fluidos corporais e em vários órgãos importantes e tecidos essenciais do corpo.

Nos últimos anos, microplásticos e nanoplásticos foram encontrados no cérebro , coração e pulmões de humanos. Eles foram descobertos nas artérias de pessoas com doenças arteriais, sugerindo que podem ser um fator de risco potencial para doenças cardiovasculares. E foram detectados no leite materno , na placenta e, mais recentemente, no pênis .

Mãe amamentando bebê
Nanoplásticos foram encontrados até no leite materno. Dzmitry Kliapitski / Alamy Banco de Imagem

Pesquisadores chineses relataram no início deste ano que encontraram microplásticos em testículos humanos e de cães . Mais recentemente, outra equipa chinesa encontrou microplásticos em todas as 40 amostras de sêmen humano testadas. Isto segue-se a um estudo italiano que encontrou microplásticos em seis em cada dez amostras de sémen humano.

O nosso receio é que os microplásticos e os nanoplásticos possam agir de forma semelhante às fibras mortais de amianto. Tal como o amianto, não são decompostos no corpo e podem ser absorvidos pelas células, matando-as e depois sendo libertados para danificar ainda mais células.

Tranquilizador, por enquanto

Mas há necessidade de cautela aqui. Não há evidências de que os nanoplásticos possam atravessar a placenta e entrar no embrião humano.

Além disso, mesmo que os nanoplásticos atravessem a placenta, e em número suficiente para danificar o embrião, esperaríamos ter visto um grande aumento nas gravidezes anormais nos últimos anos. Isso porque o problema dos resíduos plásticos no meio ambiente tem crescido enormemente ao longo dos anos. Mas não temos conhecimento de qualquer evidência de um grande aumento correspondente de defeitos congênitos ou abortos espontâneos.

Isso, por enquanto, é reconfortante.

Pode ser que os microplásticos e os nanoplásticos, se causarem danos aos nossos corpos, o façam de uma forma subtil que ainda não detectámos. Seja qual for o caso, os cientistas estão trabalhando arduamente para descobrir quais podem ser os riscos.

Uma via promissora de pesquisa envolveria o uso de tecido placentário humano cultivado em laboratório. Tecidos especiais de placenta artificial , chamados “organóides trofoblásticos”, foram desenvolvidos para estudar como as substâncias nocivas atravessam a placenta.

Os pesquisadores também estão investigando usos potencialmente benéficos para os nanoplásticos. Embora ainda não estejam licenciados para uso clínico, a ideia é que possam ser usados ​​para fornecer medicamentos a tecidos específicos do corpo que deles necessitam. As células cancerígenas poderiam, desta forma, ser alvo de destruição sem danificar outros tecidos saudáveis.

Qualquer que seja o resultado da investigação sobre nanoplásticos, nós e muitos outros cientistas continuaremos a tentar descobrir o que os nanoplásticos estão a fazer a nós próprios e ao ambiente.


Brasil: importação de agrotóxicos banidos na União Europeia segue em alta

Brasil aparece como o principal importador das substâncias proibidas, segundo dados mais recentes. Especialistas denunciam “colonialismo químico”. “A Europa segue enriquecendo às custas da saúde de países mais pobres”

agrotoxicos aspersaoAtualmente, a proibição das exportações já existe em alguns estados-membros da UE, mas o avanço nacional também é alvo de disputas, como no caso da Alemanha. Foto: Countrypixel/IMAGO

Por Matheus Gouvea de Andrade para a Deutsche Welle 

Mesmo após a Comissão Europeia ter prometido em 2020 banir os envios a outros países de agrotóxicos que são proibidos no bloco, as exportações seguem ocorrendo.

Ambientalistas europeus buscam proibir as exportações a outros países, mas o movimento esbarra em dificuldades diante do quadro político do bloco.

Em 2018, o Brasil apareceu como o principal receptor das substâncias banidas na União Europeia, seguido pela Ucrânia e Marrocos. Lançado em abril deste ano, o estudo Pesticidas da UE proibição de exportação: quais podem ser consequências?, apontou que  36% do volume total de agrotóxicos importados da UE pelo Brasil são consituídos por substâncias proibidas para uso no no bloco europeu, segundo os dados mais atualizados disponíveis. Em casos como Peru e México, o porcentual ultrapassou os 50%.

Por outro lado, para o ano de 2022, a pesquisa mostrou que 8,2% das exportações de agrotóxicos da Alemanha foram de substâncias banidas na União Europeia (UE).

O pesquisador da Corporate Europe João Camargo é um dos coautores do estudo, e afirma que a publicação ocorreu justamente no final do ciclo política em Bruxelas, já que o tema “ficou esquecido” ao final do mandato da última Comissão e do Parlamento Europeu. Em sua visão, “não faz sentido” permitir as exportações de produtos que foram proibidos no bloco justamente pelos perigos que representam à saúde. O grupo apela também pelo fim da produção destes materiais na UE.

Uma investigação conduzida pela ONG Public Eye mostra que um total de 81.615 toneladas de 41 pesticidas proibidos foi exportado pela UE para uso agrícola em 2018. A liderança neste quesito ficou com a Itália, com a Alemanha na segunda colocação. Em seguida, vieram Holanda, França, Espanha e Bélgica.

Márcia Montanari, pesquisadora do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/IST/UFMT), afirma que uma pesquisa recente com amostras de alimentos consumidos com frequência no Brasil mostrou a presença de 40 substancias perigosas, destas, 11 são proibidas na UE.

“A Europa segue produzindo estes agrotóxicos e enriquecendo às custas da saúde da população de países mais pobres”, afirma. Especialistas na área cunharam o termo “colonialismo químico” para descrever este cenário. Atualmente, cerca de 30% dos agrotóxicos usados no Brasil não são permitidos em outros países, aponta Montanari.

No bloco, há temores com o chamado “efeito bumerangue”, já que há consumo de produtos de importantes fontes de alimentos que podem contar com substâncias perigosas. No caso das amostras do Neast, agrotóxicos banidos na UE foram encontrados em commodities típicas do Brasil, como na soja.

Processo de contaminação múltipla

De acordo com Montanari, está em curso um processo de “contaminação múltipla”, no qual tanto a água quanto os alimentos estão fortemente afetados pelas substâncias perigosas. Além disso, outro efeito colateral está nos animais, com destaque para as abelhas, que tanto na Europa quanto no Brasil vem sofrendo processos de contaminações que levam à dizimação de comunidades, o que pode repercutir de diversas maneiras nos processos de polinização.

Entre as muitas substâncias em circulação, está a atrazina, que Montanari diz ser “sempre encontrada nas amostras”. O produto está ligado a disrupções endócrinas e neurológicas, além do adoecimento hepático. Somente em 2019, o Brasil importou 200 toneladas do produto da UE, onde ele é banido desde 2004, por sua “extensiva contaminação da água”.

Outra importação de destaque foi do paraquat, um herbicida que foi proibido no Brasil recentemente, mas que teve sua comercialização permitida até o final dos estoques no país. Em 2018, houve a chegada de 9.000 toneladas do produto – que é banido na UE desde 2007 – com origem do bloco. O paraquat está associado a doenças graves, incluindo Parkinson e fibrose pulmonar.

O Atlas de Agrotóxicos do Escritório Brasil da Fundação Heinrich Böll – instituição ligada ao Partido Verde alemão -, a partir de uma revisão sistemática de análises realizadas e publicadas no Brasil entre 2012 e 2019, mostrou que 77 poluentes diferentes foram encontrados nas amostras de água, incluindo agrotóxicos. Foram detectados 21, entre eles flutriafol, alfa e beta endosulfan, metolacloro e atrazina.

Segundo Montanari, o Brasil costuma ser prejudicado pelas diferentes legislações ainda de outra forma. De acordo com a pesquisadora, quando um produto do país chega à UE com substâncias perigosas medidas acima do permitido no bloco, a tendência é que não haja descarte, mas sim a de que a produção volte ao mercado nacional, onde os parâmetros são mais flexíveis.

Especialistas convergem na visão de que, nos últimos anos, especialmente durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve grande flexibilização sobre a permissão de substâncias potencialmente danosas à saúde. O Legislativo seguiu aprovando novas propostas, como o projeto de Lei que ficou conhecido como “PL do veneno”, sancionado em dezembro de 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Montanari avalia que, nos anos de Bolsonaro, havia uma “mobilização maior, e uma pressão mais forte” contra os agrotóxicos, inclusive do exterior, e que, atualmente, há a impressão de que “tudo foi amenizado”, o que não corresponde às tramitações. “A pasta da Agricultura segue tomada pelas grandes indústrias do setor da mesma maneira”, avalia.

pesticidas
Uma investigação conduzida pela ONG Public Eye mostra que um total de 81.615 toneladas de 41 pesticidas proibidos foi exportado pela UE para uso agrícola em 2018Foto: Ohde/Bildagentur-online/picture alliance

Cenário europeu travado

Camargo espera que o tema da proibição em nível europeu das exportações volte à tona em Bruxelas, mas reconhece que o cenário é complicado. Levando em conta os resultados das eleições para o Parlamento Europeu, ele afirma que avançar uma legislação será difícil dentro da configuração dos próximos anos. “Dependerá das alianças que serão construídas. A extrema-direita vem tentando descrever as questões agrícolas como algo cultural”, afirma.

“Houve uma aliança entre a extrema-direita e os agricultores”, aponta Camargo. Segundo o pesquisador, ao final, o cenário atual é contraproducente até mesmo para os produtores europeus, já que cria uma concorrência desleal, uma vez que as contrapartes podem seguir utilizando os agrotóxicos proibidos na UE, que são mais baratos. Para Camargo, “houve muito oportunismo da indústria, que mudou a narrativa, e passou a atacar qualquer proposta de sustentabilidade”.

Atualmente, a proibição das exportações já existe em alguns estados-membros, mas o avanço nacional também é alvo de disputas, como no caso da Alemanha. Segundo Camargo, atuação dos Partido Verde na atual coalizão de governo alemã foi decepcionante, já que, segundo ele, o partido também acabou seguindo o interesse da indústria, o que travou os projetos para banimento dos envios. Em 2022, o país exportou 18.360 toneladas de agrotóxicos proibidos na UE.

Um dos grandes argumentos para não proibir as exportações é o de um eventual efeito nos postos de trabalho. Camargo aponta que o estudo, usando como comparação o banimento em estados membros, mostrou que os efeitos nos rendimentos e nos empregos seriam mínimos. No caso francês, a pesquisa mostra que, na verdade, uma grande parte dos empregadores foi simplesmente realocada para outras funções após o banimento das exportações.


Fonte : Deutsche Welle