Degradação da Mata Atlântica pela agricultura chega a 93% em áreas do Norte e Noroeste do estado do RJ

SOJA NORTE FLUMINENSEAgricultura é uma das principais causas de degradação da Mata Atlântica no estado do RJ; na foto, lavoura de soja no Norte Fluminense

bori conteudo

A perda da cobertura vegetal na Mata Atlântica no norte e noroeste do estado do Rio de Janeiro (RJ), ao longo de 35 anos, criou áreas isoladas de floresta que põem em risco a biodiversidade local. A área mais degradada teve uma redução de 93% de sua cobertura original até 1985, afetada, principalmente, pela agricultura e a pastagem. É o que aponta estudo da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) publicado na segunda (22) na revista científica “Ambiente e Sociedade”. 

A pesquisa examinou dados sobre a vegetação original e as transformações ocorridas entre 1985 e 2020 nas regiões norte e noroeste da Mata Atlântica fluminense. Os pesquisadores identificaram diferentes tipos de formações florestais da região, a partir de categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e analisaram as tendências de ganho e perda de cobertura florestal e suas possíveis causas ao longo do tempo.

A análise revelou que a Mata Atlântica traz um histórico de degradação em toda a área estudada, com a cobertura florestal reduzida para 13,16% da área original até 1985. Um dos principais impactos dessa diminuição é a fragmentação da floresta, ou seja, a sua divisão em pequenas áreas verdes isoladas, segundo explica Patrícia Marques, pesquisadora da UENF.

“Em uma floresta fragmentada, muitos animais ficam impossibilitados de transitar por áreas abertas. Até mesmo a dispersão de plantas é afetada, pois muitas delas dependem de animais para levar suas sementes para outras áreas”, observa. A pesquisadora ressalta, ainda, que a fragmentação pode causar alterações climáticas e eventos de extinção local, especialmente para espécies com distribuição restrita.

Embora a perda de vegetação afete toda a área estudada, o trabalho sugere que ela não é uniforme. A Floresta Estacional Semidecidual de Baixada foi a região mais afetada pelas mudanças no uso da terra, com redução de 93% de sua cobertura vegetal até 1985 e mantendo apenas 3% de sua vegetação original em 2020. Segundo o artigo, esse tipo de formação é dominado por áreas de regeneração efêmera – onde o processo de renovação natural começa, mas é interrompido por ciclos subsequentes de desmatamento.

A fisionomia florestal Floresta Ombrófila Densa Alto Montana foi a menos afetada pelas mudanças até 2020, com 88% de sua cobertura original remanescente. No entanto, Marques alerta que esse cenário pode estar prestes a mudar. “Mais recentemente, a perda de floresta nestas áreas está se intensificando devido ao crescimento urbano”. Ela também destaca que a ocupação irregular de encostas e topos de morros na região, associada aos deslizamentos de terra provocados pelas fortes chuvas, tem colaborado para perdas de vegetação, além de bens materiais e vidas humanas.

Segundo dados oficiais, o Rio de Janeiro é um dos estados com maior cobertura percentual relativa de Mata Atlântica. Os remanescentes da floresta cobriam 29,9% do seu território em 2018. Atualmente, menos de 8% da vegetação do noroeste e norte do estado está em áreas incluídas em alguma categoria de proteção prevista pela legislação. No entanto, mesmo nesses locais, o estudo identificou uma perda de 16% da vegetação em 35 anos.

De acordo com o artigo, é crucial estabelecer políticas públicas para proteger a vegetação que resta e recuperar a que foi perdida. “Isso envolve proteger os remanescentes de floresta primária por meio de unidades de conservação, incentivar a regeneração em áreas de floresta secundária e promover a restauração de áreas degradadas”, conclui Marques.


color compass

Fonte: Agência Bori

Orçamento-2025: onde está o “rombo”?

Mercados financeiros ameaçam romper lua de mel com Haddad e “exigem” corte de despesas públicas. Mas omitem a principal: os juros, com os quais se refestelam. Veja, em números e gráficos, a hipocrisia – e como o governo (ainda) a reforça

ricoes

Por Antonio Martins para o “Outras Palavras” 

Cria cuervos, y te sacarán los ojos, adverte um famoso ditado espanhol. Os “mercados financeiros” (leia-se, os rentistas, que ganham muito sem nada produzir) ensaiaram a partir desta segunda-feira (15/4) uma primeira investida contra o governo Lula 3. O dólar subiu 3,1% em dois dias e atingiu, na terça, o patamar mais alto (R$ 5,28) em um ano. A bolsa de São Paulo acumulou queda de 4,2% em cinco dias. O estopim foi uma entrevista coletiva em que o ministro Fernando Haddad anunciou, na mesma segunda, uma alteração mínima nas metas do arrocho (“ajuste”) fiscal que estabeleceu para os próximos anos.

Não houve complacência nos comentários. “Governo abala confiança fiscal”. “É tiro no pé e mostra que governo jogou a toalha. “Economia oscila entre o medíocre e o arriscado”. “O rombo [no Orçamento] pode chegar a R$ 31 bilhões”. disseram os jornais e TVs. A mensagem política foi ainda mais explícita. Os riscos de a dívida pública disparar estariam reacesos. E a tentativa de “equilíbrio das contas públicas” por meio de aumento de receitas teria se esgotado.

O governo Lula, cuja popularidade já caiu ao patamar do sofrível, por não ter sido capaz de melhor de forma nítida as condições de vida das maiorias, deveria agora submeter-se por completo e cortar na carne – ou seja, reduzir as despesas com Saúde, Educação e outras políticas públicas. Esta interpretação é um truque de mágica barata, ainda que feito em salão luxuoso. Ela projeta os holofotes sobre um fato corriqueiro, para escandalizá-lo – enquanto mergulha em sombras outro, essencial. A persistência desta trapaça é a causa central de quatro décadas de disparada das desigualdades e de declínio do Brasil.

As finanças públicas e seus números são apresentados ao público de maneira tão cifradam pelos mercados e maioria dos governos, que vale a pena submetê-los a um raio decifrador. Eis, traduzido em português, o que o ministro Haddad comunicou na entrevista de segunda-feira, e o que se deduz deste anúncio:

1. O “novo arcabouço fiscal” adotado em 2023 e aplaudido pelos “mercados” continua intacto. Num país muito empobrecido, o Estado permanecerá incapaz de reduzir as desigualdades por meio de um choque de serviços públicos de excelência e projetos de infraestrutura. O gasto estatal seguirá submetido a três trancas. Crecerá sempre menos que a arrecadação de impostos e, no máximo, 2,5% ao ano (contra 6%, em média, em Lula 2)

2. A mudança mínima, que atraiu os holofotes e desatou a gritaria, refere-se ao adiamento de uma espécie de bônus – em favor dos “mercados” e contra os serviços públicos, é claro. Além das trancas do arcabouço, o governo federal havia estabelecido como “meta” que em 2025 a União separaria parte da receita de impostos para destiná-la à amortização da dívida pública. Na linguagem hermética das finanças, haveria um “superávit primário” equivalente a 0,5% do PIB, ou cerca de R$ 62 bilhões. Agora, a meta para 2025 é zero e este bônus está adiado para 2027.

3. De onde vem, então, o “rombo” de R$ 31 bi? O “arcabouço” estabelece punições, caso a “meta fiscal” de um determinado ano não seja atingida. No exercício seguinte, os gastos com serviços públicos são comprimidos ainda mais severamente. Mas há uma tolerância, para acomodar pecados menores: 0,25% do PIB, para cima ou para baixo. É a mera hipótese de este suposto deslize se concretizar, em seu grau máximo, que leva o Valor a prever o possível “estouro” do orçamento.

4. A tabela a seguir, apresentada na coletiva de segunda-feira pelo governo, é um resumo destas contas. Vale a pena examiná-la, para afastar as mistificações. E é mais fácil do que às vezes parece. — basta fazer somas e subtrações. As receitas da União, resumidas, estão nas linhas 1 a 3. As despesas primárias (atenção: o conceito exclui os juros), na linha 4. Os resultados primários previstosna linha 7E a meta oficial, na linha 8.

5. Todo o a argumento do governo em favor do arrocho (“ajuste”) fiscal apoia-se na suposta necessidade de reduzir a dívida pública. Trata-se de um argumento precário, baseado em teorias monetárias obsoletas. Não é possível debater exaustivamente o tema aqui. Para saber mais a respeito, leia por exemplo este texto, ou assista à notável entrevista do economista André Lara Resende neste vídeo (versão integral destaques). Mas o central, para nossa análise é: apesar de todas as trancas impostas ao gasto público, e dos bônus suplementares, a dívida pública não cai! — mesmo nas previsões do governo. Ao contrário: ela sobe, durante todo Lula 3. Diminuiu muito lentamente a seguir, mas trata-se de mero pensamento positivo. Qualquer oscilação nas taxas de juro (como as que o Banco Central já passou a cogitar esta semana) pode inverter a tendência. As orelhas do coelho enroscam-se na cartola do mágico, como mostra o gráfico a seguir.

6. Motivo? Na tabela que você viu acima, e que foi apresentada na entrevista coletiva de segunda-feira, falta uma linha. Ela refere-se a uma classe especial de despesa do Estado brasileiro: os juros da dívida pública, há quatro décadas (exceto em brevíssimos intervalos) os maiores do mundo. São estas as despesas que beneficiam os rentistas, ampliam de forma obscena a desigualdade, engordam a opulência do 0,1% mais rico e… puxam a dívida para cima, em meio ao arrocho (“ajuste”?) dos gastos que deveriam socorrer os 99%…

7. Na tabela a seguir, a linha omitida na entrevista de segunda-feira está reinserida. Os dados são oficiais. Vêm de outro documento do ministério da Fazenda: o Relatório de Projeções Fiscais de março de 2024. Vamos colocá-los numa linha 9Veja como fica, sem omissão, a tabela das receitas e despesas do Estado.

8. E compare, agora, os R$ 31 bilhões do “rombo” suposto para 2025 pelo “mercado” (lembre-se: são os rentistas, que enriquecem sem nada produzir) com o rombo real, de R$ 749,6 bi representado pelo pagamento de juros ao 0,1% mais rico. Não há dúvida: os mercados financeiros dão escândalo por um possível déficit vinte e quatro vezes menor do que aquilo que, com toda certeza, capturarão da sociedade em 2025… — assim como fazem, ano após ano, há pelo menos quatro décadas.

O “déficit público” imaginário e o que existe de fato
(Previsões do ministério da Fazenda para 2025 – em bilhões de reais)

* * *

Como o Estado brasileiro transfere ao 0,1% mais rico, a cada ano, um volume de recursos que equivale a dois orçamentos da Saúde e um e meio da Educação? Por que este fato não emerge no debate público? De que forma os rentistas controlam as narrativas, a ponto de criminalizar – e tentar reprimir ainda mais — os gastos que poderiam tornar o país um pouco menos desigual e mais suportável? E, em especial: qual a relação entre todos estes fatos, a ausência de um horizonte político de esquerda e a emergência, neste vácuo, de um justo ressentimento, que se volta contra a democracia?

Um dos livros mais importantes do ano passado é A Ordem do Capitalde Clara Mattei. Na obra, a jovem autora italiana aponta como as políticas de “austeridade”, adotadas no Ocidente nos anos 1920 e 30, frustraram as maiorias e abriram caminho para a ultradireita. A História repete-se às vezes, como farsa. Há muito o que fazer, para salvar o governo Lula e evitar o pesadelo neofascista. Mas cada vez parece mais claro que tudo começa por reverter o longo flerte com os “mercados” (os rentistas!) e iniciar, enfim, um governo de reconstrução nacional em novas bases.


color compass

Fonte: Outras Palavras

Colonialismo hídrico: empresas “donas da água” no Brasil pagaram 5 centavos para cada 10 mil litros captados

Cobrança pelo uso da água, criada para promover uso racional do recurso, ainda engatinha no país

Bê Neviani on X: "Empresas "donas da água" no Brasil pagaram 5 centavos  para cada 10 mil litros captados @agenciapublica @brafajor  https://t.co/5pWXHbr6kG" / X

Por Rafael Oliveira para a Agência Pública 

Cinco centavos. Esse é o valor que um conjunto de 44 empresas que mais captam água no Brasil pagaram em 2022, em média, para cada 10 mil litros que são autorizadas a retirar de fontes de água federais. Muitas delas não pagaram nem um centavo sequer, mesmo sendo a água um recurso fundamental para o funcionamento de seus negócios bilionários. 

A cobrança pelo uso da água tem como principal finalidade promover o uso racional dos recursos hídricos e é um dos pilares da gestão da água. Passados 27 anos da lei que estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos, entretanto, o instrumento ainda engatinha no país, parte pela inação do Estado, parte por pressões econômicas contrárias ao pagamento.

Em outubro de 2023, a Agência Pública revelou quais são as 50 empresas “donas” da água no Brasil (entre elas havia seis com outorgas preventivas, instrumento que reserva água para grandes projetos em planejamento). O levantamento trouxe à tona uma série de problemas nas concessões de outorgas, que se baseiam em critérios desatualizados e não levam em conta a variação da quantidade de água disponível nos rios ao longo do ano. Agora, avaliamos se essas empresas fazem algum tipo de pagamento por esse uso. 

Entre as campeãs de captação de água estão gigantes do agronegócio, do setor sucroalcooleiro e de papel e celulose. Esse conjunto de grupos empresariais tem outorgas para captar 5,2 trilhões de litros por ano. Isso apenas em corpos hídricos de domínio da União, que são aqueles que banham mais de um estado, são limítrofes a territórios estrangeiros ou estão em área federal. É um volume equivalente ao consumo anual de 93,8 milhões de pessoas, quase metade da população do país, segundo o Censo 2022 do IBGE.

Considerando as 44 empresas que já captam a água na prática (juntas elas têm direito a 4 trilhões de litros), metade não pagou nenhum centavo pelo uso de água em 2022. É o que mostra levantamento feito pela reportagem a partir da análise de dados públicos e informações obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Essas empresas podem captar juntas 1,7 trilhão de litros por ano. Apenas as outras 22, que podem extrair 2,3 trilhões de litros/ano, pagaram algo pelo uso da água de fontes federais. O montante desembolsado por essas empresas no ano retrasado foi de R$ 20,9 milhões.

O total representa apenas 17% dos R$ 123,2 milhões arrecadados entre todas as empresas que pagaram pelo uso da água nos comitês de bacias interestaduais que já instituíram a cobrança. O valor se refere ao ano-exercício de 2022, o mais recente com dados completos, e considera o uso da água pelas empresas no ano anterior. 

Este slideshow necessita de JavaScript.

A gestão da água, avaliam os especialistas ouvidos pela Pública, se mostra ainda mais relevante com o avanço das mudanças climáticas, que podem tornar as grandes captações do agronegócio e da indústria insustentáveis. O aquecimento do planeta tem como uma das consequências a alteração do regime de chuvas, ora provocando escassez, como a que atingiu a Amazônia ano passado, ora provocando tempestades sem precedentes, como as enfrentadas pelo Rio Grande do Sul em 2023. 

Em terras brasileiras, a emergência climática se associa com o desmatamento, que agrava ainda mais as mudanças no padrão pluviométrico e na capacidade que o solo tem de reter a água. Demonstração disso é a redução de 15,7% da superfície coberta por água no Brasil entre 1985 e 2020, segundo dados do MapBiomas.

A despeito de ainda ser o país com maior quantidade de água doce no mundo, cerca de 12% do total, a tendência no Brasil é de aumento na disputa por recursos hídricos. Nos últimos dez anos, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) contabilizou 2.447 conflitos por água, com 20 assassinatos. 

“Os conflitos vão se avolumar ainda mais se os setores não colocarem a água como um componente estratégico para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do país”, aponta o secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas (OGA Brasil), Angelo Lima. 

Por que isso importa?

  • Empresas têm direito a captar trilhões de litros, mas pagam pouco ou quase nada pela água
  • Mudanças climáticas vão reduzir disponibilidade hídrica, aumentando conflitos pelo recurso, o que impõe maior controle sobre o uso

Maior parte do Brasil ainda não cobra pela água

A cobrança pelo uso dos recursos hídricos não se trata de um imposto e tampouco funciona na mesma lógica da conta de água doméstica, que serve para cobrir os gastos do serviço prestado pela empresa de abastecimento. Ela serve como uma remuneração pelo uso de um bem público e funciona como uma taxa de condomínio, em que os diferentes moradores pagam um valor mensal, utilizado na manutenção e em melhorias na estrutura do local.

Ainda que a finalidade seja diferente, a comparação entre o montante pago pelas grandes empresas e a conta que chega na casa das pessoas revela um abismo: as empresas pagam cerca de 1.420 vezes menos do que o consumidor. Em São Paulo, por exemplo, uma família que consuma os mesmos 10 mil litros mensalmente vai pagar pouco mais de R$ 71 em sua conta mensal.

Segundo a Lei 9.433/1997, que estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos, o objetivo primário da cobrança pelo uso dos recursos hídricos é promover o uso racional da água, um recurso finito, de maneira que os usuários reconheçam seu valor econômico. 

Além disso, o montante arrecadado é utilizado na própria bacia, financiando os organismos locais do sistema de gestão de recursos hídricos e projetos que garantam a perenidade da água, como a recuperação e preservação de mananciais.

Para que ela ocorra na prática, é preciso que seja estabelecido um comitê de bacia hidrográfica (CBH) naquela região. Os comitês são fóruns de composição mista, incluindo representantes do poder público, da sociedade civil e dos usuários de recursos hídricos. 

São os próprios CBHs que definem qual o valor e quem será cobrado pela utilização da água, e os recursos são geridos por uma agência de bacia, órgão executivo de apoio aos comitês. A cobrança é feita em cima do valor efetivamente captado no ano anterior e não do total autorizado. Há CBHs estaduais e interestaduais, sendo os últimos os responsáveis pela cobrança dos recursos hídricos federais.

Aqui se encontra a primeira lacuna que explica por que muitas das empresas que aparecem no levantamento da Pública não pagaram nenhum centavo sequer em 2022: não há comitê de bacia em boa parte do país. Considerando as águas federais, o Brasil tem atualmente dez comitês de bacia interestaduais, concentrados especialmente no Nordeste e no Sudeste. 

De acordo com Vicente Andreu, ex-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA – órgão federal que concede as outorgas de água), a instalação de um comitê de bacia depende de “uma organização social prévia para ser viabilizado”, com “um esforço político, principalmente do poder público, de convencimento dos usuários de água”. “Alguns grupos fazem movimento de não ter comitê, para não ter cobrança, não ter enquadramento dos corpos hídricos. Tem um movimento consciente e deliberado de impedir que o sistema se consolide e se fortaleça”, aponta.

Todos os comitês interestaduais são majoritariamente compostos pelo setor de usuários, que detém 40% das vagas em média – com o agronegócio ocupando de 5% a 20% e a indústria e a mineração juntas variando entre 6% e 15% do total de vagas. O poder público tem entre 30% e 40% das vagas, somando as esferas federal, estadual e municipal. A sociedade civil ocupa entre 20% e 30% das vagas nesses comitês.

Nesse contexto, acaba sempre ocorrendo pressão para se cobrar o menor valor possível pela água em qualquer das bacias brasileiras. “Alguns usuários altamente demandantes de água, como o setor agrícola, na maioria das bacias [estaduais] ainda não pagam ou pagam muito pouco. É um valor decidido no comitê pelos próprios usuários, mas as pessoas enxergam e vendem isso como se fosse mais um imposto”, diz Andreu.

Angelo Lima, da OGA Brasil, destaca também que há uma certa “inação” de alguns estados na instalação dos comitês por conta de “pressões do setor econômico”, especialmente nas regiões onde o agronegócio é forte. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a Assembleia Legislativa chegou a aprovar uma lei que isentava o setor agropecuário da cobrança pelo uso da água, o que foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O estado do Centro-Oeste não é abrangido por nenhum comitê de bacia interestadual – ou seja, as empresas instaladas por lá que captam águas de fontes federais não pagam nenhum centavo sequer pelo uso do recurso. O Mato Grosso do Sul concentra as outorgas das gigantes do setor de papel e celulose, com um volume anual de 334,2 bilhões de litros, considerando o levantamento feito pela reportagem. 

É o mesmo caso do Pará, sede de grandes projetos de energia termelétrica e de mineração, onde há outorgas para captação de 211,3 bilhões de litros, mas nenhum mililitro de água é cobrado por falta de um comitê de bacia. A região da bacia amazônica como um todo não possui comitê de bacia interestadual e tem uma quantidade ínfima de comitês estaduais, a despeito de concentrar 81% da água superficial do país.

Mas mesmo nos locais onde os comitês de bacia já foram instalados, nem todos estabeleceram a cobrança pelo uso da água. Nos interestaduais, três deles – Paranapanema, Piranhas-Açu e Parnaíba – ainda não instituíram a cobrança e um – Grande – vai começar a cobrar a partir deste ano. 

bacias

O cenário é ainda pior nas bacias estaduais: apenas cinco estados (CE, SP, RJ, MG e PB) já cobram pelo uso da água em todo o seu território, e mais três (GO, RN e SE) vão começar a cobrar em 2024. O Paraná faz a cobrança em duas de suas bacias, e o Espírito Santo vai iniciar a cobrança em uma bacia a partir deste ano. Em vários dos comitês estaduais, o setor do agronegócio é isento ou paga valores diferenciados. Em 17 estados, não há cobrança alguma, segundo informações da própria ANA. 

Para Andreu, apesar de os valores cobrados ainda serem baixos, os comitês que conseguiram vencer os obstáculos e instalaram a cobrança devem ser vistos de maneira positiva. 

“Nenhum prefeito, nenhum governador gosta de falar que vai implementar a cobrança do uso da água. [O político quando decide implementar a cobrança] não justifica pelas qualidades, pela manutenção de um sistema descentralizado e democrático de gestão de recursos hídricos. Eles normalmente justificam dizendo que a lei obriga. Ninguém quer pagar, tem efeitos políticos, pode refletir na opinião pública, é utilizado pela oposição, então é mais cômodo não fazer”, argumenta.

Valor pago pela água é apenas 0,07% dos lucros das grandes empresas

Em 2022, o preço médio de tabela cobrado de todos os usuários a cada 10 mil litros captados nas bacias interestaduais foi de 23 centavos. O valor, no entanto, cai para cinco centavos para o grupo de empresas “donas da água” porque boa parte do recurso a que elas têm acesso não passa por nenhum tipo de cobrança. Isso ocorre porque nem todo o território nacional é coberto por comitês e nem todos já estabelecidos implementaram esse instrumento de gestão.

É o caso, por exemplo, da Suzano, uma das maiores produtoras de celulose do mundo e uma das líderes globais no mercado de papel. A empresa, que lidera o ranking de maiores captadoras de água do país, foi a que mais pagou pelo uso da água de fontes federais em 2022. 

Contando todas as empresas da holding, a Suzano é autorizada a captar 469,8 bilhões de litros por ano, o suficiente para abastecer as populações das capitais Rio de Janeiro (RJ) e Manaus (AM) juntas. Em 2022, a companhia pagou cerca de R$ 10,3 milhões – apenas R$ 0,11 para cada 10 mil litros autorizados.]

Infográfico de barras mostra o volume de água autorizado para as empresas que pagaram pelo seu uso

Isso ocorre porque a empresa está distribuída em várias partes do país e apenas em algumas delas há comitês de bacia com cobrança instituída. O valor foi pago a três comitês. A maior fatia, R$ 8,3 milhões, foi para o comitê do rio Doce, corpo hídrico em que está localizada a maior outorga individual da Suzano, que pode captar 173,4 bilhões de litros em Linhares (ES). A bacia abrange o leste de Minas Gerais e o nordeste do Espírito Santo. 

O restante foi pago aos comitês do Paraíba do Sul (SP, MG e RJ) e do PCJ (que inclui os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, em SP e MG). 

Mas nada foi pago para os 142,6 bilhões de litros autorizados para captação em Três Lagoas (MS), onde está instalada a maior parte da produção da empresa. A falta de comitê faz com que a empresa não pague nada pelas autorizações de quase 71,8 bilhões de litros em Imperatriz (MA) e de 39,4 bilhões de litros em Belmonte (BA).

Em 2021, a empresa teve R$ 40,9 bilhões em receitas e R$ 8,6 bilhões de lucro líquido. O montante pago pela Suzano pelo uso da água, recurso-chave para uma empresa do setor de papel de celulose, representa 0,025% das receitas e 0,12% do lucro líquido.

Infográfico de barras mostra o valor pago pelas empresas autorizadas a captarem água em 2022

Se os 4 trilhões que as maiores captadoras de água do país podem extrair fossem cobrados em 23 centavos a cada 10 mil litros, valor médio definido pelos comitês de bacia interestaduais, a arrecadação seria de R$ 920 milhões em 2022. Mas foi de apenas R$ 20,9 milhões.

A cifra representa uma pequena fração das receitas desses grupos empresariais que dominam os recursos hídricos no país. Das 22 empresas que pagaram algum valor, a reportagem conseguiu acesso às demonstrações financeiras de 13 delas, responsáveis por 94% do valor pago no ano retrasado. Somadas, elas tiveram R$ 157,7 bilhões em receitas em 2021, com um lucro líquido de cerca de R$ 33,7 bilhões. 

O montante pago pelo uso da água representa 0,013% das receitas e 0,07% do lucro líquido dessas companhias somadas.

Entre as 22 empresas “donas da água” que não foram cobradas em 2022, uma das campeãs em captação é a Eldorado Brasil Celulose, que possui uma outorga de 148,9 bilhões de litros por ano, equivalente ao consumo de toda a população do Mato Grosso do Sul. A captação de água ocorre justamente no estado do Centro-Oeste, no município de Três Lagoas, a “capital da celulose”. 

Infográfico de barras mostra o volume de água autorizado para as empresas que não pagaram pelo seu uso
A empresa ganhou as manchetes nos últimos anos por estar no centro de uma disputa pelo controle acionário entre a indonésia Paper Excellence e a J&F Investimentos, dos irmãos Batista, donos da JBS e nacionalmente conhecidos por seu envolvimento na Operação Lava Jato. 

No Norte do país, a Mineração Rio do Norte é outra das grandes captadoras de água que não pagam pelo uso do recurso hídrico até o momento. Velha conhecida do Ibama, com mais de R$ 30 milhões em multas, a mineradora pode captar 50,7 bilhões de litros por ano, o que equivale ao consumo de toda a população do Acre.

A lista inclui também gigantes do setor sucroalcooleiro que atuam na região Sudeste, como a Vale do Paraná, que possui outorgas para captar 107,5 bilhões de litros/ano, e o grupo Raízen Energia, parceria da Shell com a brasileira Cosan, que pode captar 115,3 bilhões de litros anualmente. 

Apenas quatro empresas “donas da água” pagaram mais de R$ 1 milhão
Além da Suzano, apenas outras três empresas “donas da água” pagaram mais de R$ 1 milhão pelo uso da água em 2022: a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Celulose Nipo-Brasileira (Cenibra) e a Mosaic Fertilizantes. Somadas, essas empresas podem captar 239,2 bilhões de litros/ano e pagaram R$ 7 milhões pelo uso da água em 2022.

“Os valores cobrados ainda estão muito aquém de induzir um uso racional e muito aquém da capacidade de suporte de algumas empresas, ainda mais considerando que muitas delas têm uma captação de outorga bastante volumosa”, aponta Angelo Lima, da OGA Brasil. 

Para Lima, o avanço da gestão da água e a garantia de perenidade dos recursos hídricos dependem “de uma vontade do setor produtivo”. “Depende deles enxergarem para além do seu negócio, irem além das conformidades. É preciso ultrapassar os muros das fábricas. Diferente do que alguns setores pensam, ter gestão – incluindo a cobrança pelo uso dos recursos hídricos – é uma garantia de que vai ter água, dá maior segurança para quem investiu milhões em seu processo produtivo”, diz.

Outro lado
A Pública contatou a ANA e todas as empresas citadas nominalmente ao longo da reportagem. A autarquia não deu retorno até a publicação.

A Suzano afirmou que “que suas unidades operacionais captam volumes de água abaixo das outorgas concedidas” e que isso seria resultado do que a empresa chamou de “operação ecoeficiente de seus processos industriais”. Disse também que “está comprometida em seguir as melhores práticas de mercado para reduzir o consumo de água”. A companhia apontou que “possui representantes em todos os Comitês de Bacia existentes nas regiões onde opera, e cumpre integralmente todos os compromissos estabelecidos pelos Comitês, apoiando ativamente iniciativas determinadas, com ênfase na disponibilidade e qualidade dos recursos hídricos”.

Em nota, a Eldorado Brasil Celulose afirmou que “mais de 86% da água utilizada [na produção de celulose] retornou ao rio em condições ambientais adequadas após passar por tratamento” e nos dez anos de operação teve “24% na redução de consumo de água para produção de celulose e reutilização de mais de 1.664.980 m³ de água das caldeiras para uso na lavagem de toras de madeira”.

A Mineração Rio do Norte (MRN) afirmou utilizar 20 milhões de metros cúbicos (20 bilhões de litros) por ano “em estreita conformidade com as outorgas de uso de água emitidas”. Apontou que isso “representa menos de 1% do volume total outorgável nas bacias hidrográficas onde opera” e que “não existem pagamentos pendentes referentes ao uso de água na empresa”. A MRN negou ter passivo ambiental com o Ibama e destacou seus compromissos socioambientais, afirmando que “os valores cobrados estão em discussão e se, eventualmente, se tornarem devidos, serão prontamente pagos”.

A Raízen Energia apontou que realiza “constantes estudos de corpo hídrico para que a captação de água seja compatível com a disponibilidade do recurso e ocorra de forma sustentável” e que, “no ano-safra 23/24, os recursos efetivamente utilizados limitavam-se a cerca de 6% dos recursos outorgados”. A empresa afirmou ter reduzido a captação de água de fontes externas no período de moagem em 11% e que pretende reduzir em 15% até 2030 e destacou não ter nenhum débito com a ANA. A Raízen também afirmou ter reduzido sua dependência de água e economizado 13,3 bilhões de litros desde 2015

Já a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) afirmou captar 80 bilhões dos 120 bilhões de litros de água que está autorizada a extrair e que “mais de 90% retorna ao rio Paraíba do Sul nas mesmas características da água captada ou em qualidade superior”. A empresa apontou que “o montante pago pelo uso da água contempla não somente a água captada, mas também o volume de água descartada e a parcela consumida (água evaporada)” e que os recursos são pagos à ANA “utilizando a metodologia e o preço de cobrança” definido pelo comitê de bacia local. A nota enviada pela CSN também destaca a “redução espontânea e proativa” no volume de água utilizado pela Usina Presidente Vargas (UPV), maior consumidora de recursos hídricos da empresa, ao longo dos últimos anos.

A Mosaic Fertilizantes destacou que participa de diversos Comitês de Bacias Hidrográficas e que “segue aquilo que é determinado nesses fóruns, inclusive no que se refere ao pagamento das outorgas de água”. A nota aponta também que a empresa “atua com responsabilidade e respeito em toda sua cadeia de valor, especialmente considerando as comunidades, adotando as melhores práticas de sustentabilidade”.

A íntegra das respostas de todas as empresas pode ser lida aqui.

A Vale do Paraná (Companhia Melhoramentos Norte do Paraná) afirmou que não vai se manifestar. A Cenibra não se pronunciou até a publicação.

METODOLOGIA
Edição: Giovana Girardi | Infografista: Matheus Pigozzi


color compass

Fonte: Agência Pública

JBS: pecuarista multado por desmate com ‘agente laranja’ no Pantanal abasteceu frigorífico

Claudecy Oliveira Lemes é dono da Fazenda Monique Vale, fornecedora de duas unidades do frigorífico no Mato Grosso. A fazenda recebe gado para engorda de ao menos 4 das 11 propriedades onde 81,1 mil hectares foram desmatados quimicamente, no maior dano ambiental já registrado no estado

desmatamento-quimico-pantanal-sema-mt-2048x1152

Área no Pantanal atingida por desmatamento químico investigado pela Operação Cordilheira da Delegacia Especializada do Meio Ambiente do estado (Foto: Polícia Civil e Sema-MT)

Por André Campos e Poliana Dallabrida/ Edição Bruna Borges para a Repórter Brasil

O pecuarista Claudecy Oliveira Lemes foi alvo de uma operação da Polícia Civil do Mato Grosso pelo desmatamento ilegal de 81,2 mil hectares em onze propriedades no município de Barão de Melgaço (MT) na última semana. A devastação foi realizada com a pulverização aérea de 25 tipos de agrotóxicos e é descrita pelas autoridades estaduais como o maior dano ambiental já registrado no Mato Grosso.

Lemes é também proprietário da Fazenda Monique Vale, localizada em Pedra Preta (MT), a 232 km de onde o desmatamento químico foi registrado. Ao longo do último ano, a propriedade enviou gado para ser abatido nas unidades da JBS em Barra do Garças e Pedra Preta (MT), segundo dados de Guias de Trânsito Animal (GTAs) acessados pela Repórter Brasil. Parte dos envios foram registrados em nome do próprio Claudecy Lemes, e parte em nome de André de Moraes Zucato, parceiro rural de Lemes na criação de animais dentro da fazenda.  

A Fazenda Monique Vale recebe gado de outras propriedades de Lemes para a sua engorda final anterior ao abate. Entre as fornecedoras dos animais estão as fazendas Soberana, Santa Lúcia, Indiana e Reunidas São Jerônimo, 4 das 11 propriedades investigadas pelo desmatamento químico em Barão de Melgaço.

Pelo crime ambiental, Claudecy Lemes foi multado em mais de R$ 2,8 bilhões, a maior multa já registrada pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT). Segundo levantamento da Delegacia Especializada do Meio Ambiente (Dema) da Polícia Civil do estado, o produtor gastou mais de R$ 9,5 milhões em agrotóxicos para realizar a devastação.

A investigação aponta que entre os 25 agrotóxicos utilizados para desmatar a área está o herbicida 2,4-D, um dos compostos usados na fabricação do “agente laranja”, conhecido pelo potencial destruidor, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O caso foi noticiado em reportagem do programa Fantástico, no último domingo (14).

Onze propriedades onde ocorreu o desmatamento químico (Imagem: Polícia Civil e Sema-MT)
Onze propriedades são investigadas por desmatamento químico (Imagem: Polícia Civil e Sema-MT)

A reportagem entrou em contato com a defesa de Claudecy Lemes, que não respondeu os questionamentos enviados até o fechamento desta matéria. A Repórter Brasil também tentou contato com o produtor André Zucato por meio de suas empresas, mas não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.

A JBS respondeu àRepórter Brasil que seis fazendas cadastradas em nome de Claudecy Lemes estão bloqueadas pela empresa, sem esclarecer, contudo, quais propriedades e a data em que o bloqueio ocorreu. “Em todos os biomas, a Política de Compra Responsável de Matéria-Prima da Companhia impede a aquisição de animais em propriedades com desmatamento ilegal, terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação ambiental”, afirmou o frigorífico. Em relação ao produtor André Zucato, a empresa afirmou que o pecuarista está inserido na Plataforma Pecuária Transparente, sistema de monitoramento de compras da JBS, e que está “fazendo o acompanhamento de seus fornecedores”. Leia o posicionamento completo da empresa aqui.

Acordo descumprido

Entre 2015 e 2019, o Ministério Público do Mato Grosso identificou 1.370 hectares desmatados ilegalmente na Fazenda Soberana, uma das propriedades que fornecem gado para a Fazenda Monique Vale. A área foi embargada pela Sema-MT em 2020. O pecuarista assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público se comprometendo a não realizar novos desmatamentos na propriedade e a realizar o pagamento de uma multa de R$ 7 milhões em indenização pelo dano ambiental. O acordo, no entanto, foi descumprido de acordo com o órgão, e novos desmatamentos foram registrados na investigação da Polícia Civil que detectou o uso de agrotóxicos.

Ao todo, Lemes possui 6 fazendas com áreas embargadas pela Sema-MT. Além da Fazenda Soberana, 5.345 hectares foram desmatados ilegalmente nas fazendas Indiana e Santa Lúcia. Os embargos nas propriedades estão vigentes desde 2022. 

confirmando a autoria e causa entre o desfolhamento das espécies nas áreas das propriedades investigadas (Polícia Civil e Sema-MT)
Durante a investigação foram encontradas diversas embalagens dos produtos químicos e agrotóxicos, confirmando a causa para o desfolhamento das árvores nas áreas das propriedades investigadas (Foto: Polícia Civil e Sema-MT)

Desmate químico

Amostras da vegetação, solo, água e sedimentos coletadas durante a fiscalização na área devastada identificaram a presença de quatro herbicidas: além do 2,4-D, foram detectados os químicos imazamox; picloram e fluroxipir. Os agrotóxicos causam o desfolhamento das árvores. 

Um vídeo aéreo das propriedades de Claudecy Lemes mostra milhares de árvores sem folhas, com manchas cinzas, totalmente mortas. Depois do despejamento químico, o proprietário pretendia cultivar capim e expandir sua criação de gado na área.

O desmatamento de 81.223 hectares ocorreu no Pantanal, reconhecido como Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Unesco

A Repórter Brasil já mostrou que fazendeiros utilizam a pulverização aérea de grandes quantidades de agrotóxicos para acelerar o desmatamento.

Na última segunda (15), o Ministério Público recorreu da decisão judicial que negou a prisão do pecuarista. Até o momento, a Justiça proibiu o produtor de deixar o país, determinou a apreensão de animais e o sequestro dos bens do pecuarista, incluindo a administração das onze propriedades alvo do desmatamento químico.

Compromissos da JBS

Maior produtora de proteína do mundo, a JBS possui dois compromissos públicos antidesmatamento no Brasil.

O frigorífico anuncia que desde 2023 não compra gado de fornecedores diretos com desmatamento – legal ou ilegal – identificado após 2008 na Amazônia. Até 2025, a empresa afirma que aplicará a mesma regra para os fornecedores indiretos no bioma – ou seja, as fazendas que encaminham animais para engorda nas propriedades que abastecem diretamente a JBS. 

Já para o Cerrado, o frigorífico se compromete a zerar o desmatamento ilegal entre fornecedores até 2025, mas o desmatamento autorizado continuará sendo permitido. Ainda não há critérios específicos para outros biomas, como o Pantanal.

Monitoramento

Em relação ao desmatamento na Amazônia, a JBS é signatária de dois compromissos públicos: o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF), conhecido como TAC da Carne, e os Critérios Mínimos para Operação com Gado e Produtos Bovinos em Escala Industrial no Bioma Amazônia, coordenado pela organização não-governamental Greenpeace.

O TAC da Carne, criado em 2009, estabelece que os frigoríficos devem se comprometer a não adquirir gado de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia após 2008. Auditorias anuais são realizadas pelo MPF e organizações parceiras para avaliar o cumprimento do pacto. Na última auditoria, divulgada em outubro de 2023, 2% das compras da JBS no Mato Grosso apresentaram inconformidades. Em agosto, a Repórter Brasil mostrou que pecuaristas que arrendavam ilegalmente fazendas dentro da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso, escoaram o gado para outras propriedades em seu nome ou de familiares que, por sua vez, forneciam animais para a JBS. A situação é característica de uma manobra conhecida como “lavagem de gado”, quando produtores encobrem a origem ilegal de seu rebanho, registrando a passagem dos bois por uma fazenda que não tem impedimentos socioambientais para vender ao frigorífico.


color compass

Fonte: Repórter Brasil

Cientistas dizem que relatório da FAO sobre emissões da pecuária distorceu e minimizou emissões de gases estufa

Estudo divulgado na Cop28 fez uso indevido de pesquisas para subestimar o impacto do corte do consumo de carne, dizem acadêmicos

vacas

A agricultura é responsável por 23% das emissões globais de gases com efeito de estufa, a maioria das quais atribuíveis à pecuária. Fotografia: ClarkandCompany/Getty Images

Por Arthur Neslen para o “The Guardian” 

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) utilizou indevidamente a sua investigação para subestimar o potencial da redução do consumo de carne para reduzir as emissões agrícolas, de acordo com uma carta enviada à FAO pelos dois académicos , que o The Guardian teve acesso.

Paul Behrens, professor associado da Universidade de Leiden e Matthew Hayek, professor assistente da Universidade de Nova Iorque, acusam o estudo da FAO de erros sistemáticos, enquadramento deficiente e utilização altamente inadequada dos dados de origem.

Hayek disse ao Guardian: “Os erros da FAO foram múltiplos, flagrantes, conceptuais e todos tiveram como consequência a redução das possibilidades de mitigação de emissões resultantes de mudanças na dieta, muito abaixo do que deveriam ser. Nenhum dos erros teve o efeito oposto.”

A agricultura é responsável por 23% das emissões globais de gases com efeito de estufa, a maioria das quais atribuíveis à pecuária sob a forma de metano proveniente de arrotos e estrume, e à desflorestação para pastagens e culturas forrageiras. À medida que a produção mundial de carne aumentou 39% nas primeiras duas décadas deste século, as emissões agrícolas também aumentaram 14% .

Na cimeira climática Cop28, em Dezembro, a FAO publicou o terceiro de uma série de estudos sobre o problema das emissões do gado. Além de reduzir a estimativa da FAO sobre a contribuição da pecuária para o aquecimento global global pela terceira vez consecutiva , utilizou um artigo escrito por Behrens e outros em 2017 para argumentar que o abandono do consumo de carne só poderia reduzir as emissões agroalimentares globais em entre 2 e 5%.

O artigo de Behrens de 2017 avaliou os impactos ambientais das dietas nacionalmente recomendadas (NRDs) apoiadas pelo governo da época, que desde então se tornaram desatualizadas. Muitos países, como a China e a Dinamarca, reduziram drasticamente a ingestão recomendada de carne desde então, enquanto a Alemanha propõe agora uma dieta 75% baseada em vegetais na sua DNR.

“O consenso científico neste momento é que as mudanças na dieta são a maior alavanca que temos para reduzir as emissões e outros danos causados ​​pelo nosso sistema alimentar”, disse Behrens ao Guardian. “Mas a FAO escolheu a abordagem mais grosseira e inadequada para as suas estimativas e estruturou-as de uma forma que foi muito útil para grupos de interesse que procuravam mostrar que as dietas à base de plantas têm um pequeno potencial de mitigação em comparação com alternativas”.

Dos mais de 200 climatologistas entrevistados por Behrens e Hayek para um artigo recente , 78% disseram que era importante que o tamanho dos rebanhos pecuários atingisse o pico até 2025, se o mundo quisesse ter uma chance de evitar o perigoso aquecimento global.

Além de utilizarem NRD obsoletas, os cientistas dizem que o relatório da FAO “subestima sistematicamente” o potencial de redução de emissões das mudanças alimentares através do que a carta chama de “série de erros metodológicos”.

Os autores dizem que estas incluem: contabilizar duas vezes as emissões de carne até 2050, misturar diferentes anos de base nas análises e canalizar dados que favorecem inadequadamente dietas que permitem um aumento do consumo global de carne. O documento da FAO também ignora o custo de oportunidade do sequestro de carbono em terras não agrícolas.

Hayek disse que a FAO citou indevidamente um relatório de sua autoria que mediu todas as emissões agroalimentares e aplicou-o apenas às emissões da pecuária. “Não foi apenas como comparar maçãs com laranjas”, disse ele. “Foi como comparar maçãs muito pequenas com laranjas muito grandes.”

Da mesma forma, o potencial de mitigação da criação de menos gado foi subestimado por um factor entre 6 e 40, disse ele.

A FAO é a principal fonte mundial de dados agrícolas e os seus relatórios são regularmente utilizados por organismos competentes, como o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU. Mas a FAO também está mandatada para aumentar a produtividade pecuária , de modo a reforçar a nutrição e a segurança alimentar , criando possivelmente um conflito de interesses.

Antigos funcionários acusaram a FAO de censurar e sabotar o seu trabalho quando desafiou as posições da indústria pecuária. Um recente roteiro da FAO para tornar o sector sustentável também omitiu a opção de reduzir o consumo de carne de uma lista de 120 intervenções políticas.

Esse artigo recebeu elogios de lobistas da indústria da carne, um dos quais o chamou de “música para os nossos ouvidos” quando foi lançado na Cop28.

Um porta-voz da FAO afirmou: “Como organização baseada no conhecimento, a FAO está totalmente empenhada em garantir a precisão e a integridade nas publicações científicas, especialmente dadas as implicações significativas para a formulação de políticas e a compreensão pública.

“Gostaríamos de assegurar que o relatório em questão passou por um rigoroso processo de revisão com uma revisão dupla-cega interna e externa para garantir que a pesquisa atenda aos mais altos padrões de qualidade e precisão, e que possíveis preconceitos sejam minimizados. A FAO analisará as questões levantadas pelos cientistas e realizará uma troca técnica de pontos de vista com eles.”


compass black

Fonte: The Guardian

Evento na PUC-Rio discute resultado de pesquisa sobre impacto das mudanças climáticas e dos incêndios florestais no Alto Xingu

Seminário é extensão de projeto da Fiocruz com parceria dos laboratórios LQA e LabMAM do Departamento de Química

unnamed

Roda de conversa com mulheres da Aldeia Yawalapiti – Foto: Pirata Waura

Nesta tarde de 19 de abril, o Departamento de Química, do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio) promoveu o seminário Impactos e desafios das mudanças climáticas no Brasil, no Auditório Padre Anchieta – Pilotis do edifício Cardeal Leme, da universidade, na Gávea. No encontro, foram apresentados alguns resultados do projeto Avaliação de impacto à saúde decorrente das mudanças climáticas e dos incêndios florestais sobre os povos indígenas, realizado em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. O evento contou também com a participação de especialista do INPE e de professores de outros centros da PUC.

Entre fevereiro de 2023 e fevereiro de 2024, fizemos uma pesquisa de campo com 117 pessoas, entre elas 15 lideranças de aldeias Ulupuene, Topepeweke e Yawalapiti, localizadas no Alto Xingu sobre a percepção das mudanças climáticas na saúde. Entre os principais achados que podemos citar temos: a diminuição da quantidade de peixes, mudança de hábitos no plantio da mandioca, alteração no calendário tradicional de plantio, redução da jornada de trabalho em função do calor, fuga de animais e alteração da cadeia alimentar local. Essas foram as principais alterações apontada pelos indígenas”, explica Ana Schramm, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

Paralelo ao seminário, a PUC-Rio também exibe, até o dia 25 de abril, no bloco B do edifício Cardial Leme, a Mostra Fotográfica “Impacto à saúde das mudanças climáticas e dos incêndios florestais sobre os povos xinguanos”, que reúne fotografias de Henrique Santian e Pirata Waura, tiradas durante as viagens de campo às aldeias da região do Alto Xingu.

“Os indígenas percebem a natureza com mais intensidade e buscam estratégias de adaptação. Porém, algumas elevam o risco de doenças. Foram observados e relatados problemas alimentares causados por infecções, aumento de pedras no rim, de casos de hipertensão e diabetes. Com a alteração na disponibilidade dos alimentos naturais – principalmente peixes, pequi e mandioca – os indígenas passaram a consumir produtos processados das cidades. Há também o aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares associadas a poluentes como as partículas, devido a queima de lenha dentro das ocas”, afirma Adriana Gioda, professora do Departamento de Química do CTC/PUC-Rio, uma das responsáveis pelas análises químicas e organizadora do evento.

Mais informações sobre a programação no site do Centro Técnico Científico da PUC-Rio: Link

Níveis prejudiciais de agrotóxicos foram encontrados em 20% dos alimentos produzidos nos EUA – aqui está o que você precisa saber

A Consumer Reports conduziu recentemente a sua análise mais abrangente sobre pesticidas em 59 frutas e vegetais dos EUA. Aqui a organização compartilha o que encontrou

cr guardian

Por Catherine Roberts da Consumer Reports, com gráficos de Aliya Uteuova, para o “The Guardian” 

Quando se trata de alimentação saudável, frutas e vegetais reinam supremos. Mas juntamente com todas as suas vitaminas, minerais e outros nutrientes pode vir outra coisa: uma dose pouco saudável de pesticidas perigosos.

Embora a utilização de produtos químicos para controlar insetos, fungos e ervas daninhas ajude os agricultores a cultivar os alimentos de que necessitamos, está claro, pelo menos desde a década de 1960, que alguns produtos químicos também acarretam riscos inaceitáveis ​​para a saúde. E embora alguns agrotóxicos notórios , como o DDT, tenham sido proibidos nos EUA, os reguladores governamentais têm sido lentos a agir sobre outros. Mesmo quando um produto químico perigoso é retirado do mercado, as empresas e produtores químicos por vezes começam a utilizar outras opções que podem ser igualmente perigosas.

A Consumer Reports, que acompanha a utilização de agrotóxicos nos produtos há décadas, tem visto este padrão repetir-se continuamente. “São dois passos para frente e um para trás – e às vezes até dois passos para trás”, diz James E Rogers, que supervisiona a segurança alimentar na Consumer Reports.

Para ter uma ideia da situação actual, a Consumer Reports conduziu recentemente a nossa análise mais abrangente de sempre sobre agrotóxicos nos alimentos. Para o fazer, analisámos sete anos de dados do Departamento de Agricultura dos EUA, que todos os anos testa uma selecção de produtos convencionais e orgânicos cultivados ou importados para os EUA em busca de resíduos de agrotóxicos. Analisamos 59 frutas e vegetais comuns, incluindo, em alguns casos, não apenas versões frescas, mas também enlatadas, secas ou congeladas.

Nossos novos resultados continuam a levantar sinais de alerta.

Os agrotóxicos representaram riscos significativos em 20% dos alimentos que examinamos, incluindo escolhas populares como pimentões, mirtilos, feijão verde, batatas e morangos. Um alimento, o feijão verde, continha resíduos de um agrotóxico cujo uso em vegetais não era permitido nos EUA há mais de uma década. E os produtos importados, especialmente alguns do México, eram particularmente suscetíveis de conter níveis arriscados de resíduos de agrotóxicos.

Mas também houve boas notícias. Os agrotóxicos apresentavam poucos motivos de preocupação em quase dois terços dos alimentos, incluindo quase todos os orgânicos. Também encorajador: os maiores riscos são causados ​​por apenas alguns agrotóxicos, concentrados num punhado de alimentos, cultivados numa pequena fracção das terras agrícolas dos EUA. “Isso torna mais fácil identificar os problemas e desenvolver soluções específicas”, afirma Rogers – embora reconheça que será necessário tempo e esforço para que a Agência de Proteção Ambiental, que regula a utilização de agrotóxicos nas culturas, faça as mudanças necessárias.

Entretanto, a nossa análise oferece informações sobre passos simples que pode tomar para limitar a exposição a agrotóxicos nocivos, como utilizar as nossas classificações para identificar quais as frutas e vegetais em que se deve concentrar na sua dieta e quando comprar produtos biológicos pode fazer mais sentido.

O que é mais seguro, o que é arriscado e por quê

Dezesseis das 25 frutas e 21 dos 34 vegetais em nossa análise apresentavam baixos níveis de risco de agrotóxicos. Mesmo as crianças e as grávidas podem comer com segurança mais de três porções diárias desses alimentos, afirmam os especialistas em segurança alimentar da Consumer Reports. Dez alimentos eram de risco moderado; até três porções por dia deles estão OK.

O outro lado: 12 alimentos apresentaram maiores preocupações. Crianças e grávidas devem consumir menos de uma porção diária de frutas e vegetais de alto risco e menos de meia porção diária de frutas e vegetais de alto risco. Todos os outros também deveriam limitar o consumo desses alimentos.

Ilustração de uma pimenta, uma pimenta e uvas.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor

Para chegar a esse conselho, analisamos os resultados dos testes do USDA para 29.643 amostras individuais de alimentos. Avaliamos o risco de cada fruta ou vegetal levando em consideração quantos agrotóxicos apareceram nos alimentos , com que frequência foram encontrados, a quantidade de cada pesticida detectada e a toxicidade de cada produto químico.

A Alliance for Food and Farming , uma organização da indústria agrícola, apontou ao Consumer Reports que mais de 99% dos alimentos testados pelo USDA continham resíduos de agrotóxicos abaixo dos limites legais da Agência de Proteção Ambiental (referidos como tolerâncias).

Mas os cientistas da Consumer Reports acham que muitas tolerâncias da EPA são demasiado altas. É por isso que usamos limites mais baixos para pesticidas que podem prejudicar o sistema neurológico do corpo ou que são suspeitos de serem desreguladores endócrinos (o que significa que podem imitar ou interferir nos hormônios do corpo). A abordagem da Consumer Reports também leva em conta a possibilidade de que outros riscos para a saúde possam surgir à medida que aprendemos mais sobre estes produtos químicos.

“A forma como a EPA avalia o risco de agrotóxicos não reflecte a ciência de ponta e não pode ter em conta todas as formas como os produtos químicos podem afetar a saúde das pessoas, especialmente tendo em conta que as pessoas estão frequentemente expostas a vários agrotóxicos ao mesmo tempo”, afirma Consumer Reports. cientista sênior Michael Hansen. “Portanto, adotamos uma abordagem preventiva, para garantir que não subestimamos os riscos.”

Na nossa análise, uma fruta ou vegetal pode conter vários agrotóxicos, mas ainda assim ser considerada de baixo risco se a combinação do número, concentração e toxicidade dos mesmos for baixa. Por exemplo, os brócolos tiveram um bom desempenho não porque não tivessem resíduos de pesticidas, mas porque os produtos químicos de maior risco estavam em níveis baixos e em apenas algumas amostras.

Alguns dos alimentos mais problemáticos, por outro lado, tinham relativamente poucos resíduos, mas níveis preocupantes de alguns agrotóxicos de alto risco.

Caso em questão: melancia. É um risco muito alto, principalmente por causa de um agrotóxico chamado oxamil. Apenas 11 das 331 amostras de melancia doméstica convencional testaram positivo para oxamil. Mas está entre aqueles que os especialistas da Consumer Reports acreditam que requerem cautela extra devido ao seu potencial para riscos graves para a saúde.

O feijão verde é outro exemplo. Eles se qualificam como de alto risco principalmente por causa do acefato ou de um de seus produtos de decomposição, o metamidofos. Apenas 4% das amostras domésticas convencionais de feijão verde foram positivas para um ou ambos – mas os seus níveis de agrotóxicos eram muitas vezes alarmantes. Numa amostra de 2022 (o ano mais recente para o qual havia dados disponíveis), os níveis de metamidofos eram mais de 100 vezes superiores ao nível que os cientistas do Consumer Reports consideram seguro; em outro, os níveis de acefato eram sete vezes maiores. E em algumas amostras de 2021, os níveis foram ainda mais elevados.

Isto é especialmente preocupante porque dos produtos químicos deveria estar presente no feijão verde: os produtores nos EUA foram proibidos de aplicar acefato no feijão verde desde 2011, e metamidofós em todos os alimentos desde 2009.

“Quando você pega um punhado de feijão verde no supermercado ou escolhe uma melancia, sua chance de conseguir uma com níveis perigosos de agrotóxicos pode ser relativamente baixa”, diz Rogers. “Mas se você fizer isso, poderá receber uma dose muito maior do que deveria e, se comer a comida com frequência, as chances aumentam.”

Em alguns casos, um alimento é qualificado como de alto risco devido a vários fatores, tais como níveis elevados de um agrotóxico moderadamente perigoso em muitas amostras. Exemplo: clorprofame em batatas. Não é o pesticida mais tóxico – mas estava presente em mais de 90% das batatas testadas.

Como os pesticidas podem prejudicar você

Os agrotóxicos são uma das únicas categorias de produtos químicos que fabricamos “especificamente para matar organismos”, diz Chensheng (Alex) Lu, professor afiliado da Universidade de Washington, em Seattle, que pesquisa os efeitos da exposição deste tipo de substância na saúde. Portanto, não é surpresa, diz ele, que os agrotóxicos utilizados para controlar insetos, fungos e ervas daninhas também possam prejudicar as pessoas.

Embora ainda existam questões em aberto sobre como e até que ponto a exposição crônica aos agrotóxicos pode prejudicar a nossa saúde, os cientistas estão a reunir um argumento convincente de que alguns o podem fazer, com base numa combinação de investigação laboratorial, animal e humana.

Um tipo de evidência vem de estudos populacionais que analisam os resultados de saúde em pessoas que comem alimentos com níveis relativamente elevados de agrotóxicos. Uma revisão recente publicada na revista Environmental Health , que analisou seis desses estudos, encontrou evidências que ligam os agrotóxicos ao aumento dos riscos de câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.

Evidências mais fortes dos perigos dos agrotóxicos provêm de pesquisas que analisam pessoas que podem ser particularmente vulneráveis à exposição a estes produtos, incluindo trabalhadores agrícolas e suas famílias. Além dos milhares de trabalhadores que adoecem todos os anos devido a intoxicações por agrotóxicos, estudos associaram a utilização no trabalho de uma variedade de produtos ativos a um risco mais elevado de doença de Parkinson, câncer da mama, diabetes e muitos mais problemas de saúde.

Outra investigação descobriu que a exposição durante a gravidez a  agrotóxicos organofosforados estava associada a um menor desenvolvimento intelectual e à redução da função pulmonar nos filhos dos trabalhadores agrícolas.

A gravidez e a infância são períodos de particular vulnerabilidade aos agrotóxicos, em parte porque certos produtos podem ser desreguladores endócrinos. Esses são produtos químicos que interferem nos hormônios responsáveis ​​pelo desenvolvimento de uma variedade de sistemas do corpo, especialmente os sistemas reprodutivos, diz Tracey Woodruff, professora de ciências da saúde ambiental na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

Outra preocupação é que a exposição a longo prazo, mesmo a pequenas quantidades de agrotóxicos, pode ser especialmente prejudicial para pessoas com problemas crónicos de saúde, para aquelas que vivem em áreas onde estão expostas a muitas outras toxinas e para pessoas que enfrentam outros problemas de saúde sociais ou económicos, diz Jennifer Sass, cientista sênior do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

Ilustração de uma fileira de garfos com várias frutas e legumes.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor

Como parar de comer pesticidas

Embora a nossa análise dos dados de agrotóxicos do USDA tenha descoberto que alguns alimentos ainda apresentam níveis preocupantes de certos agrotóxicos perigosos, também oferece informações sobre como pode limitar a sua exposição agora e o que os reguladores governamentais devem fazer para resolver o problema a longo prazo.

Coma muitos produtos de baixo risco. Uma rápida varredura neste gráfico deixa uma coisa clara: há muitas opções boas para você escolher.

“Isso é ótimo”, diz Amy Keating, nutricionista registrada na Consumer Reports. “Você pode comer uma variedade de frutas e vegetais saudáveis ​​sem se preocupar muito com o risco de agrotóxicos, desde que tome algumas medidas simples em casa.” (Veja Você pode lavar os agrotóxicos da sua comida? Um guia para comer menos produtos químicos tóxicos .)

A sua melhor aposta é escolher produtos classificados como de baixo ou muito baixo risco em nossa análise e, quando possível, optar por alimentos orgânicos em vez de alimentos mais arriscados que você goste. Ou troque alternativas de menor risco por alternativas mais arriscadas. Por exemplo, experimente ervilhas em vez de feijão verde, melão no lugar da melancia, repolho ou alfaces verde-escuras no lugar da couve e, ocasionalmente, batata-doce em vez de branca.

Mas você não precisa eliminar alimentos de alto risco de sua dieta. Comê-los ocasionalmente é bom.

“Os danos, mesmo dos produtos mais problemáticos, advêm da exposição durante períodos vulneráveis, como a gravidez ou a primeira infância, ou da exposição repetida ao longo dos anos”, diz Rogers.

Mude para orgânico quando possível

 Uma forma comprovada de reduzir a exposição a pesticidas é comer frutas e vegetais orgânicos , especialmente os alimentos de maior risco. Tínhamos informações sobre versões cultivadas organicamente para 45 dos 59 alimentos em nossa análise. Quase todas apresentavam risco baixo ou muito baixo de agrotóxicos, e apenas duas variedades cultivadas internamente – espinafres frescos e batatas – representavam um risco moderado.

As classificações de baixo risco dos alimentos orgânicos indicam que o programa de certificação orgânica do USDA, em sua maior parte, está funcionando.

Os agrotóxicos não são totalmente proibidos nas fazendas orgânicas, mas são fortemente restringidos. Os produtores biológicos só podem utilizar agrotóxicos se outras práticas – como a rotação de culturas – não conseguirem resolver totalmente o problema das pragas. Mesmo assim, os agricultores só podem aplicar agrotóxicos de baixo risco derivados de fontes minerais ou biológicas naturais que tenham sido aprovados pelo Programa Orgânico Nacional do USDA.

Menos agrotóxicos nos alimentos significa menos no nosso corpo: vários estudos demonstraram que a mudança para uma dieta orgânica reduz rapidamente a exposição alimentar. A agricultura biológica também protege a saúde de outras formas, especialmente dos trabalhadores agrícolas e dos residentes rurais, porque é menos provável que os pesticidas cheguem às áreas onde vivem ou contaminem a água potável.

E a agricultura biológica protege outros organismos vivos, muitos dos quais são ainda mais vulneráveis ​​aos agrotóxicos do que nós. Por exemplo, os produtores biológicos não podem utilizar uma classe de insecticidas chamados neonicotinóides, um grupo de produtos químicos que podem causar problemas de desenvolvimento em crianças pequenas – e que são claramente perigosos para a vida aquática, aves e polinizadores importantes, incluindo abelhas melíferas, abelhas selvagens e borboletas.

“É por isso que, embora pensemos que vale sempre a pena considerar os produtos orgânicos, é mais importante para o punhado de frutas e vegetais que representam o maior risco de agrotóxicos”, diz Rogers. Ele também diz que optar pelos produtos orgânicos é mais importante para as crianças pequenas e durante a gravidez, quando as pessoas são mais vulneráveis ​​aos danos potenciais dos produtos químicos.

Cuidado com algumas importações

 No geral, as frutas e legumes importados e os cultivados internamente são bastante comparáveis, com aproximadamente um número igual deles apresentando um risco moderado ou pior de agrotóxicos. Mas as importações, especialmente do México, podem ser especialmente arriscadas.

Sete alimentos importados na nossa análise representam um risco muito elevado, em comparação com apenas quatro nacionais. E das 100 amostras individuais de frutas ou vegetais na nossa análise com os níveis mais elevados de risco de pesticidas, 65 foram importadas. A maioria deles – 52 – veio do México, e a maioria envolvia morangos (geralmente congelados) ou feijão verde (quase todos contaminados com acefato, o agrotóxico cujo uso é proibido em feijão verde destinado aos EUA).

Um porta-voz da Food and Drug Administration disse ao Consumer Reports que a agência está ciente do problema da contaminação por acefato no feijão verde do México. Entre 2017 e 2024, a agência emitiu alertas de importação para 14 empresas mexicanas por causa do acefato encontrado no feijão verde. Estes alertas permitem à FDA deter os carregamentos de alimentos das empresas até que possam provar que os alimentos não estão contaminados com os resíduos ilegais de pesticidas em questão.

A Associação de Produtos Frescos das Américas, que representa muitos dos principais importadores de frutas e vegetais do México, não respondeu a um pedido de comentário.

Rogers, da Consumer Reports, afirma: “É evidente que as salvaguardas não estão a funcionar como deveriam.” Como resultado, “os consumidores estão expostos a níveis muito mais elevados de pesticidas muito perigosos do que deveriam”. Por causa desses riscos, ele sugere verificar as embalagens do feijão verde e dos morangos do país de origem e considerar outras fontes, inclusive orgânicas.

Como resolver o problema dos pesticidas

Talvez a parte mais tranquilizadora e poderosa da análise do Consumer Reports seja o facto de demonstrar que os riscos dos pesticidas estão concentrados num pequeno número de alimentos e pesticidas.

Do total de quase 30.000 amostras de frutas e vegetais analisadas pelo Consumer Reports, apenas 2.400, ou cerca de 8%, foram qualificadas como de alto risco ou muito alto risco. E entre essas amostras, apenas duas grandes classes de produtos químicos, os organofosforados e carbamatos, foram responsáveis ​​pela maior parte do risco.

“Isso não significa apenas que a maior parte dos produtos que os americanos consomem tem baixos níveis de risco de agrotóxico, mas também torna a tentativa de resolver o problema muito mais fácil de gerir, permitindo que os reguladores e os produtores saibam exatamente no que precisam de se concentrar”, diz Brian Ronholm, chefe de política alimentar da Consumer Reports.

Vagens.
Ilustração: Sarah Anne Ward/Relatórios do Consumidor

Os organofosforados e carbamatos tornaram-se populares depois que o DDT e os pesticidas relacionados foram eliminados nas décadas de 1970 e 1980. Mas logo surgiram preocupações com esses pesticidas. Embora a EPA tenha retirado alguns deles do mercado e reduzido os limites de alguns alimentos para alguns outros, muitos organofosforados e carbamatos ainda são usados ​​em frutas e vegetais.

Vejamos, por exemplo, o fosmete, um organofosforado que é o principal culpado pela baixa pontuação dos mirtilos. Até recentemente, o fosmete raramente aparecia entre as amostras mais preocupantes de alimentos contaminados com pesticidas. Mas, nos últimos anos, tornou-se um dos principais contribuintes para o risco de pesticidas em algumas frutas e vegetais, de acordo com a nossa análise.

“Isso aconteceu em parte porque quando um agrotóxico de alto risco é proibido ou retirado do mercado, alguns agricultores mudam para um semelhante ainda no mercado, que muitas vezes acaba por causar danos comparáveis ​​ou até maiores”, diz Charles Benbrook, um especialista independente. especialista em uso e regulamentação de agrotóxicos, que consultou a Consumer Reports sobre nossa análise de pesticidas.

Os especialistas em segurança alimentar da Consumer Reports afirmam que a nossa análise atual identificou várias maneiras pelas quais a EPA, a FDA e o USDA poderiam proteger melhor os consumidores.

Isso inclui fazer um trabalho mais eficaz de trabalho com agências agrícolas de outros países e inspecionar alimentos importados, especialmente do México, e conduzir e apoiar pesquisas para elucidar mais completamente os riscos dos pesticidas. Além disso, o governo deveria prestar mais apoio aos agricultores biológicos e investir mais dólares federais para expandir a oferta de alimentos biológicos – o que, por sua vez, reduziria os preços para os consumidores.

Mas uma das medidas mais eficazes e simples que a EPA poderia tomar para reduzir o risco global de pesticidas seria proibir a utilização de qualquer organofosforado ou carbamato nas culturas alimentares.

A EPA disse à Consumer Reports que “cada produto químico é avaliado individualmente com base na sua toxicidade e perfil de exposição”, e que a agência exigiu medidas de segurança adicionais para vários organofosforados.

Mas Ronholm, da Consumer Reports, afirma que essa abordagem é insuficiente. “Já vimos repetidas vezes que isso não funciona. A indústria e os agricultores simplesmente optam por outro produto químico relacionado que pode representar riscos semelhantes.”

Cancelar duas classes inteiras de agrotóxicos pode parecer extremo. “Mas a grande maioria das frutas e vegetais consumidos nos EUA já são cultivados sem agrotóxicos perigosos”, diz Ronholm. “Nós simplesmente não precisamos deles. E os alimentos que os consumidores americanos comem todos os dias seriam muito, muito mais seguros sem eles.”


compass black

Fonte: The Guardian

Saudável ou de alto risco? Nova análise feita nos EUA alerta para resíduos de agrotóxicos em frutas e vegetais

saudávelounao

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Vários tipos de frutas e vegetais geralmente considerados saudáveis ​​podem conter níveis de resíduos de pesticidas potencialmente perigosos para consumo, de acordo com uma análise realizada pela Consumer Reports (CR) divulgada na quinta-feira.

O relatório , que se baseia em sete anos de dados recolhidos pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) como parte do seu programa anual de notificação de resíduos de agrotóxicos, concluiu que 20% das 59 categorias diferentes de frutas e vegetais incluídas na análise apresentavam níveis de resíduos que representavam “riscos significativos” para os consumidores desses alimentos.

Esses alimentos de alto risco incluíam pimentões, mirtilos, feijão verde, batatas e morangos, de acordo com CR. O grupo descobriu que alguns feijões verdes continham até resíduos do inseticida acefato, cujo uso foi proibido em feijões verdes pelos reguladores dos EUA desde 2011. Em uma amostra de 2022, os níveis de metamidofós (um produto da decomposição do acefato) eram elevados mais de 100 vezes do que o nível que os cientistas da CR consideram seguro. Em outra amostra, os níveis de acefato foram 7 vezes maiores do que o CR considera seguro.

No geral, do total de quase 30.000 amostras de frutas e vegetais para as quais o CR examinou os dados, cerca de 8% foram considerados como tendo resíduos de “alto risco ou muito alto risco”. Os produtos importados têm maior probabilidade de conter níveis elevados de resíduos de pesticidas do que os alimentos fornecidos internamente, afirma o relatório, observando que os níveis de resíduos podem variar amplamente de amostra para amostra.

Os resultados “levantam sinais de alerta”, segundo CR. O relatório aconselha que as crianças e as mulheres grávidas devem consumir menos de uma porção diária de frutas e vegetais de alto risco e menos de meia porção diária de “frutas de alto risco”.

“As pessoas precisam de se preocupar porque vemos que quanto mais dados recolhemos sobre pesticidas, mais percebemos que os níveis que anteriormente pensávamos serem seguros acabam por não o ser”, disse Michael Hansen, cientista sênior da CR que recentemente foi nomeado para um comitê consultivo de segurança alimentar do USDA.

A organização disse que a “boa notícia” é que os dados mostraram resíduos na maioria dos alimentos amostrados, incluindo 16 das 25 categorias de frutas e 21 dos 34 tipos de vegetais, apresentando “pouco com que se preocupar”. Quase todas as amostras orgânicas não apresentaram níveis preocupantes de resíduos de pesticidas.

O relatório sugere que os consumidores “experimentem ervilhas em vez de feijão verde, melão em vez de melancia, repolho ou alface verde-escura no lugar da couve e, ocasionalmente, batata-doce em vez de batata branca”.

Garantias de segurança defeituosas  

Ao chegar às suas conclusões, a CR disse que analisou os resultados dos testes de resíduos do USDA para 29.643 amostras individuais de alimentos e depois classificou o risco de cada fruta ou vegetal com base em quantos agrotóxicos diferentes foram encontrados em cada um, com que frequência e em que níveis os resíduos foram encontrados. , e a toxicidade para cada pesticida detectado.

Para agrotóxicos conhecidos por serem cancerígenos, neurotoxinas ou desreguladores endócrinos – produtos químicos que podem alterar as funções hormonais – a CR adicionou um requisito de margem de segurança extra aos níveis considerados seguros. 

O CR disse que seus níveis de segurança diferem daqueles definidos pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), que estabelece “ limites máximos de resíduos ” (LMRs) para o uso de um agrotóxico em cada cultura após desenvolver uma avaliação de risco que a agência diz considerar múltiplos fatores, incluindo exposição agregada, efeitos cumulativos e potencial aumento da suscetibilidade em crianças. 

Com base nos LMR da EPA, o USDA afirmou no seu mais recente relatório do programa de dados de agrotóxicos que 99% dos alimentos testados tinham resíduos dentro dos limites de segurança. Mas os limites da EPA são demasiado elevados para serem verdadeiramente protectores da saúde pública e não têm em conta adequadamente os riscos associados a alguns pesticidas, de acordo com CR.

“A EPA mantém o seu processo abrangente de avaliação e revisão de pesticidas para garantir a segurança do abastecimento alimentar dos EUA”, afirmou a agência num comunicado. “Desde que o programa de revisão do registo de  agrotóxicos começou em 2006, a EPA cancelou algumas ou todas as utilizações em quase 25% dos casos de produtos convencionais em que concluiu o trabalho, onde novos dados científicos indicam a necessidade de mitigações adicionais.” A EPA afirma que considera “todos os dados relevantes” ao fazer avaliações de risco para a saúde humana decorrentes do uso de pesticidas. 

É comum que muitos agricultores apliquem uma série de agrotóxicos, incluindo herbicidas, insecticidas e fungicidas, nos seus campos como forma de combater ervas daninhas, insetos e doenças de plantas. Em alguns casos, eles pulverizam os produtos químicos diretamente sobre as plantas em crescimento. Os resíduos destes produtos químicos são encontrados não apenas nos alimentos, mas também na água potável. 

Tanto a Food and Drug Administration como o USDA têm monitorizado os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos há décadas e têm assegurado repetidamente ao público que esses resíduos não constituem um risco para a saúde humana, desde que não excedam os LMR da EPA. 

Mas essas garantias provaram-se erradas no passado. Num exemplo, o governo afirmou há muito tempo que o inseticida clorpirifós era seguro para utilização em alimentos se os resíduos estivessem dentro dos limites estabelecidos pela EPA, apesar das fortes evidências científicas de que a exposição poderia prejudicar o cérebro e o sistema nervoso das crianças em desenvolvimento.

Em 2015, após décadas de utilização na agricultura, a EPA mudou a sua posição, afirmando que não conseguia determinar se o clorpirifós na dieta era realmente seguro, e propôs proibir a utilização do pesticida na agricultura. Demorou até 2021 para a agência emitir uma regra final proibindo o clorpirifós, mas uma contestação judicial da proibição manteve o produto químico em uso.

Para minar ainda mais a confiança na garantia do governo sobre os resíduos de agrotóxicos está o fato de a EPA consultar as empresas que vendem os produtos químicos para estabelecer níveis de resíduos permitidos, e esses níveis permitidos podem ser aumentados a pedido das empresas.  

A EPA aprovou vários aumentos permitidos para resíduos do glifosato, um produto químico que mata ervas daninhas, por exemplo. O glifosato, o ingrediente ativo dos herbicidas Roundup, é classificado como provável carcinógeno humano pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, mas a EPA considera que não é provável que cause câncer.

Influência da indústria

Lei de Proteção da Qualidade Alimentar (FQPA) exige que a EPA aplique uma margem de segurança adicional dez vezes maior aos níveis de exposição permitidos para levar em conta os efeitos em bebês e crianças vulneráveis, e permite que a agência ignore a adição da margem de segurança “somente se for seguro para bebês e crianças.” A agência recusou-se a aplicar essa margem adicional de dez vezes de segurança para bebés e crianças ao estabelecer os níveis legais para vários resíduos de pesticidas, no entanto, mesmo quando os cientistas afirmaram que isso era necessário .

Os fabricantes de agrotóxicos pressionaram com sucesso a EPA para não aplicar a margem de segurança extra a dezenas de produtos que têm “claro potencial para danificar o DNA ou perturbar o desenvolvimento”, disse Chuck Benbrook, especialista em resíduos de pesticidas e consultor do relatório CR. 

“A EPA sabe da existência de milhares de tolerâncias excessivamente altas desde os anos 2000”, disse Benbrook. “Apesar das novas ferramentas poderosas e do mandato do FQPA para reduzi-las ou revogá-las, a indústria de agrotóxicos torna muito difícil para a EPA reduzir as tolerâncias e o progresso desacelerou. Pior ainda, alguns agrotóxicos com níveis muito elevados estão regressando ao mercado e à alimentação infantil.”

As garantias do governo e da indústria sobre a segurança dos resíduos de agrotóxicos no abastecimento alimentar dos EUA baseiam-se no fato de que a maioria dos resíduos nos alimentos está abaixo dos níveis de tolerância aplicáveis, acrescentou Benbrook.

“Mas agora sabemos e podemos identificar especificamente centenas de amostras de alimentos todos os anos com resíduos abaixo da tolerância que apresentam riscos muito acima do que a EPA considera seguro”, disse ele.

“Ação precisa ser tomada”

O relatório da CR afirma que os perigos que espreitam nas prateleiras dos supermercados poderiam ser reduzidos pela eliminação de duas classes químicas – organofosforados e carbamatos. Embora os organofosforados sejam utilizados no fabrico de plásticos e solventes, bem como em agrotóxicos, também são constituintes de gases nervosos, e a exposição – aguda e de longo prazo – podendo ter uma série de impactos nocivos nas pessoas e nos animais.

Como explica o Departamento de Saúde Pública de Illinois : “Os organofosforados matam os insetos ao perturbar seus cérebros e sistemas nervosos. Infelizmente, esses produtos químicos também podem prejudicar o cérebro e o sistema nervoso de animais e humanos.”

Os carbamatos apresentam uma semelhança química com os agrotóxicos organofosforados.

O relatório CR surge num momento em que muitos cientistas questionam cada vez mais se uma dieta constante de resíduos de pesticidas pode ou não ser realmente segura para as pessoas e o que o consumo a longo prazo de vestígios de pesticidas nos alimentos pode estar a causar à saúde humana e animal.

“Os dados mostram cada vez mais que estes níveis mais baixos estão a ter impacto”, disse Hansen. “É por isso que algumas ações precisam ser tomadas.”  

(Foto em destaque de  Raul Gonzalez Escobar  no  Unsplash.)


compass black

Fonte: The New Lede

Hermanoteu se diverte na terra que não é a de Godah

ponte

Por Douglas Barreto da Mata

Muita gente já assistiu, no teatro ou no cinema, a engraçadíssima de Hermanoteu na Terra de Godah.

Eis a sinopse, disponível na Wikipedia:

 “A peça conta a história de Hermanoteu, um urbano típico, obediente e bom pastor do tempo do Antigo Testamento da Bíblia. Na trama, Hermanoteu é um hebreu da Pentescopéia, que recebe uma missão de Jeová para libertar a Terra de Godah.[1] Em sua viagem, várias coisas inusitadas acontecem, interligando inúmeros elementos e personagens de diferentes tempos e lugares da História.”

Diante da nova polêmica em que se meteu o presidente do IMTT, em Campos dos Goytacazes, quando, primeiro deu seguimento às políticas recentes de humanização e organização na mobilidade urbana (antes tarde do que nunca), e depois voltou atrás, se desdisse, e deu uma solução pior do que antes existia, não resistimos ao uso da personagem, devido a coincidência dos nomes.

A Terra de Godah parece algo inalcançável, e o nosso bravo Hermanoteu, o Prefeito, parece cada vez mais desesperado, como a personagem do filme, pois a cada momento que a coisa parece andar, como no roteiro, há uma reviravolta e tudo anda para trás.

Seria também uma comédia a questão da mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes, se não fosse trágica a situação.

Longe de nós falarmos em nome do prefeito, não cometeremos tal ousadia, nunca.

Mas eu tenho uma ligeira desconfiança de que se ele pudesse falar, para além da necessidade de manter o seu leque de alianças, e suportar os prejuízos de tamanha incompetência, ele diria:

Vá passear, Godah.

Na Terra de Godah não há transporte público de qualidade.

Sim, temos que concordar que a culpa não é só de Godah, mas já havia um caos anterior, provocado pelos filisteus da Cananéia…que antes se associaram aos vendilhões do templo.

Porém, governar é encaminhar soluções, e antes, indicar quais são os princípios que orientam tais soluções.

A Terra de Godah parece uma Torre de Babel, em se tratando de mobilidade urbana.

Há a tribo dos cabeças de biela, aqueles que entendem que a Terra de Godah deve se submeter a lógica dos motores, e há todos os demais, que entendem muito pouco do que acontece, mas só queriam ir e vir com segurança, conforto e certa eficiência.

Esses últimos, na sua enorme maioria, são desprovidos de quase tudo, pois não têm carros ou motocicletas, só andam em cima dos próprios pés, ou pedalam bicicletas.

Há os que fazem por opção “estética”, como aquelas propagandas do Itaú de lavagem socioambiental de imagem corporativa, os descolados, que usam as “bikes” (que às vezes custam o preço de um Fiat Palio 2016).

São esses, por incrível que pareça, que embora minoria, falam e pressionam Godah a agir com algum bom senso.

Enfim, o Prefeito Hermanoteu encontra-se em uma encruzilhada.

A cidade (a Urbe) está em disputa.

Já houve queima de pneus dos mercadores.

Agora, são os motociclistas, impulsionados pelas suas demandas econômicas, como empregados das empresas de aplicativos, porém se autodenominam “empreendedores ou autônomos”, que resolveram emparedar Godah.

Godah cedeu.

Não sabemos se com ou sem anuência do Prefeito Hermanoteu.

O fato é que o projeto de implantação das ciclofaixas subiu no telhado.

Como manter a mistura de bicicletas e motocicletas em fúria, desesperadas pela próxima entrega ou pelo próximo passageiro, compartilhando uma via de pouco mais de 2.80 m (se muito), com dois sentidos para os dois tipos de veículos?

Como multar infratores que invadirem as ciclofaixas, depois de misturar tudo em cima da ponte?

Em outras palavras:

Bicicletas indo e vindo, e motocicletas indo e vindo.

Como dissemos antes, não dá para saber qual a posição do Prefeito em uma hora dessas.

Há demandas eleitorais, há alianças políticas em jogo, há muita coisa.

No entanto, nós podemos dizer, em alto e bom som:

Afinal, quem manda na cidade?

Motociclistas?

Os comerciantes, que querem usar o espaço público como estacionamento privado para seus clientes?

As empresas falidas de ônibus, que nem “cagam, nem desocupam a moita”?

O morador de Campos dos Goytacazes, o visitante, enfim, qualquer pessoa que passe por aquela planície, tem ou não o direito de uma mobilidade urbana racionalizada e orientada pelos mais modernos conceitos de diminuição do uso do carro particular, da ampliação de transportes públicos, e o uso das calçadas pelos pedestres e das ciclofaixas pelos ciclistas?

Afinal, de quem é a Terra de Godah?

É só de Godah?

Hermanoteu vai conseguir libertar a Terra de Godah?

Aquecimento do oceano impacta distribuição de corais e ameaça espécies exclusivas da costa brasileira

mussi braziliensisAquecimento do oceano deve impactar sobrevivência de espécie tropical Mussismilia braziliensis, ou coral-cérebro

bori conteudo

O aquecimento do oceano deve provocar mudanças drásticas na distribuição de importantes corais na costa brasileira. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Instituto Espanhol de Oceanografia preveem que, até 2050, o litoral do Norte e Nordeste se tornará menos favorável à sobrevivência dos corais, enquanto o contrário ocorrerá nas águas do Sul e Sudeste. As conclusões foram publicadas nesta terça (16) em artigo na revista científica “Diversity and Distributions”.

A pesquisa alerta que espécies limitadas às regiões tropicais, como Mussismilia braziliensis, ou coral-cérebro, e Mussismilia harttii, podem ter dificuldades em migrar para o sul.

Os cientistas analisaram doze espécies de corais, predizendo suas distribuições para os anos de 2050 e 2100 diante um cenário intermediário de emissões de gases causadores do efeito estufa — os quais resultam nas mudanças climáticas que levam ao aquecimento do oceano. Os resultados permitem propor ações de conservação específicas para cada espécie, levando em consideração as tendências observadas nas populações de corais.

Espécies de maior abrangência encontram maior probabilidade de expandir sua presença ao litoral subtropical. Por outro lado, “o resultado que mais nos impressionou foi o grande declínio que previmos para duas espécies de coral-cérebro que só ocorrem na costa brasileira, e que são importantes construtoras do maior complexo recifal do Atlântico Sudoeste, o Banco dos Abrolhos”, explica a primeira autora do estudo, a pesquisadora Melina Martello. “Com a perda dessas espécies, o ambiente deve reduzir a complexidade e biodiversidade associadas”, completa.

Segundo o trabalho, serão os corredores ecológicos que conectam as regiões tropical e subtropical do litoral brasileiro que, se preservados, aumentarão as chances de uma possível expansão e persistência dos corais. A criação de novas áreas de proteção marinhas – e fortalecimento das já existentes – na porção subtropical, por exemplo, podem assegurar a transferência de espécies para locais com clima mais favorável.

Agora, os pesquisadores pretendem investigar até que ponto a expansão dos corais é possível, conforme explica o chefe do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, Guilherme Longo, também autor do estudo. “O coral é um animal que fica fixo no recife. Ele joga larvas na água, que derivam pelas correntes e atingem outro lugar. Então, o próximo passo é justamente incorporar ao modelo a capacidade biológica dos corais se dispersarem como estamos prevendo, e verificar se isso é favorecido pelos sistemas de correntes vigentes na costa brasileira. Assim, poderemos ter uma ideia mais precisa da probabilidade desse cenário, que o estudo prevê, ocorrer ou não”, analisa o cientista.


color compass

Fonte: Agência Bori