Proibição do paraquat permanece viva e avança na Califórnia

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Por Carey Gillamo

Uma proposta para proibir o paraquat, um produto químico que mata ervas daninhas, foi aprovada na Assembleia do Estado da Califórnia na semana passada e agora enfrenta uma briga no Senado Estadual sobre o que seria a primeira proibição desse tipo no país.  

A proibição  entraria em vigor em 1º de janeiro de 2026, proibindo o “uso  fabricação, venda, entrega, detenção ou oferta para venda no comércio” de qualquer produto pesticida que contenha paraquat. O projeto de lei prevê um processo que permite aos reguladores estaduais reavaliar o paraquat e potencialmente reaprová-lo com ou sem novas restrições.

A principal preocupação citada pelos defensores do projeto de lei é a pesquisa que liga a exposição crônica ao paraquat à doença de Parkinson, uma doença cerebral incurável e debilitante considerada uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

A votação final na Assembleia foi de 46-16 a favor do projeto, mas espera-se que a oposição seja mais forte no Senado, de acordo com funcionários do gabinete da deputada Laura Friedman, que introduziu a medida. Espera-se que o Comitê de Política do Senado da Califórnia aborde o assunto antes de 4 de julho, disseram eles.

Friedman fez parceria com o  Grupo de Trabalho Ambiental  (EWG) para introduzir a proibição proposta. Uma análise do EWG  descobriu que o paraquat é pulverizado desproporcionalmente em áreas da Califórnia habitadas em grande parte por trabalhadores rurais latinos e suas famílias.

A ação para proibir o paraquat na Califórnia ocorre no momento em que vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquat Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquat.

O paraquat é um dos produtos químicos para matar ervas daninhas mais amplamente utilizados no mundo. Os agricultores utilizam-no tanto para controlar ervas daninhas antes de plantar as suas culturas como para secar as culturas para a colheita. Nos EUA, o produto químico é usado em pomares, campos de trigo, pastagens onde o gado pasta, campos de algodão e outros lugares.

A Syngenta fabrica e vende paraquat há mais de 50 anos e afirma em seu site que se os usuários seguirem as instruções e usarem roupas de proteção adequadas “não há risco para a segurança humana”. O paraquat “não representa um risco de neurotoxicidade” e “ não causa a doença de Parkinson ”, afirma a empresa.

O paraquat foi proibido na União Europeia em 2007 depois que um tribunal concluiu que os reguladores erraram ao descartar preocupações de segurança, incluindo evidências científicas que ligavam o Parkinson ao paraquat. Também é proibido no Reino Unido, embora seja fabricado lá. O produto químico foi proibido na Suíça, país de origem da Syngenta, em 1989. E é proibido na China, sede da ChemChina, que  comprou a Syngenta há vários anos.

A Agência de Proteção Ambiental assumiu a posição  de que as evidências são “insuficientes para vincular a exposição ao paraquat proveniente do uso de pesticidas de produtos de paraquat registrados nos EUA à DP em humanos”.


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Fonte: The New Lede

Não há necessidade de os países emitirem novas licenças de petróleo, gás ou carvão, conclui estudo

Pesquisadores dizem que o mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para atender às previsões de demanda até 2050 se o carbono zero for alcançado

oil rigEspera-se que o artigo reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionar a indústria do Mar do Norte. Fotografia: Russ Bishop/Alamy 

Por Jillian Ambrose para o “The Guardian”

O mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para satisfazer as previsões da procura global de energia até 2050 e os governos devem parar de emitir novas licenças de petróleo, gás e carvão, de acordo com um grande estudo dirigido a líderes políticos.

Se os governos concretizarem as mudanças prometidas, a fim de impedir que o mundo infrinja as suas metas climáticas, não serão necessários novos projetos de combustíveis fósseis, afirmaram na quinta-feira investigadores da University College London e do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD).

Os dados ofereceram o que disseram ser “uma base científica rigorosa” para os governos globais proibirem novos projectos de combustíveis fósseis e iniciarem um declínio controlado da indústria de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que encorajavam o investimento em alternativas de energia limpa.

Ao estabelecer uma “demanda clara e imediata”, os líderes políticos seriam capazes de estabelecer uma nova norma em torno do futuro dos combustíveis fósseis, contra a qual a indústria poderia ser responsabilizada “imediatamente”, disseram os pesquisadores.

Publicado na revista Science, o artigo analisou as previsões da procura global de energia para o petróleo e o gás, bem como para a electricidade proveniente do carvão e do gás, utilizando uma vasta gama de cenários compilados para o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que limitaram o aquecimento global a dentro de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

O estudo concluiu que, além de não necessitar de nova extração de combustíveis fósseis, não seria necessária nova geração de energia a carvão e gás num futuro líquido zero.

Espera-se que o jornal reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu oferecer centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionara indústria do Mar do Norte , uma política que emergiu como uma importante linha divisória com o Partido Trabalhista, da oposição, antes do 4º ano. Eleições gerais de julho.

Os trabalhistas prometeram pôr fim às novas licenças do Mar do Norte se chegarem ao poder, e também planeiam aumentar os impostos sobre os lucros obtidos pelos campos de petróleo e gás existentes para ajudar a financiar investimentos em projectos de energia verde através de uma nova empresa estatal, Grande Energia Britânica.

Dr. Steve Pye, coautor do relatório do UCL Energy Institute, disse: “É importante ressaltar que nossa pesquisa estabelece que existe uma base científica rigorosa para a norma proposta, mostrando que não há necessidade de novos projetos de combustíveis fósseis”.

“A clareza que esta norma traz deve ajudar a concentrar a política na ambiciosa expansão necessária do investimento em energias renováveis ​​e limpas, ao mesmo tempo que se gere o declínio da infra-estrutura de combustíveis fósseis de uma forma equitativa e justa”, disse Pye.

O relatório expandiu o trabalho da Agência Internacional de Energia (AIE), que alertou nos últimos anos que nenhum novo projeto de combustíveis fósseis era compatívelcom o objectivo global de construir um sistema energético líquido zero.

A AIE descartou qualquer novo investimento em projectos de combustíveis fósseis de longo prazo, mas reconheceu que seria necessário investimento contínuo em activos de petróleo e gás existentes e em projectos já aprovados.

Dr Fergus Green, do departamento de ciência política da UCL, disse: “Nossa pesquisa tira lições de mudanças passadas nas normas éticas globais, como a escravidão e os testes de armas nucleares. Estes casos mostram que as normas têm ressonância quando contêm exigências simples pelas quais os actores poderosos podem ser imediatamente responsabilizados.

“Objetivos complexos e de longo prazo, como ‘emissões líquidas zero até 2050’, não possuem essas características, mas ‘nenhum novo projeto de combustíveis fósseis’ é uma demanda clara e imediata, contra a qual todos os governos atuais e a indústria de combustíveis fósseis podem ser corretamente avaliados. .”

O chefe cessante do Comité das Alterações Climáticas do Reino Unido, Chris Stark, disse no mês passado que o conceito de emissões líquidas zero setornou um slogan político usado para iniciar uma guerra cultural “perigosa” sobre o clima, e que pode ser melhor abandoná-lo.

“Se for apenas um slogan, se for visto como uma espécie de caneta para uma série de questões culturais, então estou extremamente tranquilo quanto a abandoná-lo”, disse Stark. “Mantemos isso como uma meta científica, mas não precisamos usá-lo como um distintivo que mantemos em todos os programas.”

Green disse que uma posição política sobre o apoio a novos projetos de combustíveis fósseis deveria “servir como um teste decisivo” para saber se um governo estava a levar a sério o combate à crise climática. “Se estão a permitir novos projetos de combustíveis fósseis, então não são sérios”, acrescentou.


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Fonte: The Guardian

Em Campos, a aposta no conflito continuado resultou em um tremendo risco de se tornar um “bloco do eu sozinho” à beira do precipício

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Por Douglas Barreto da Mata

O ser humano é um animal gregário, ao mesmo tempo que age com fortes inclinações individualistas.  É esse paradoxo, ou é esse dilema que orienta nossa interação com outros humanos e o ambiente.  Esta contradição nos permitiu alcançar o topo da cadeia evolutiva, dominando outras espécies, desenvolvendo sistemas sociais complexos que, ao mesmo tempo, são diariamente ameaçados por nossa tendência a esquecer o valor dos princípios de vida em coletividade.

Nossa inteligência é nossa salvação e perdição cotidiana.  Na ação política, traço exclusivamente humano em sua natureza e objetivos, o isolamento sempre foi um sinal de iminente derrota.

Vejam o caso de Campos dos Goytacazes. A história recente revela que todas as dinastias políticas locais e regionais chegaram ao auge, quase sempre personificadas em personagens mais relevantes, outros menos, e que conheceram o declínio quando acreditaram que poderiam seguir sozinhos ou fazer com que todos os seus interesses prevalecessem sobre todos os demais.

No plano nacional não foi diferente. Grandes figuras conheceram o ápice, enquanto foram capazes de agregar pessoas e esperanças ao seus redores, e caíram em desgraça quando esqueceram essa lição, e imaginaram que tudo podiam, como Vargas, Jânio Quadros, Collor, etc.

Na planície foi assim com Zezé Barbosa, com o ex-governador Garotinho, com o médico Arnaldo Vianna, e ao que nos parece, em tempo muito precoce, com o Presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, Marquinhos Bacellar, e seu irmão, o Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar.

O alardeado poder imenso conferido ao clã dos Bacellar nos parece grande demais para eles. Hoje, os irmãos se encontram encurralados, sem saída, resumidos a uma agenda que pode ser definida em não ser cassado no plano estadual, para o mais velho, e sobreviver politicamente ao domínio do Prefeito e seu grupo, no caso do mais novo. É muito pouco para quem sonhou ir bem mais longe.

A imagem de um plenário esvaziado, no início dessa semana, na Casa de Leis municipal, quando se discutiu em audiência pública os problemas e soluções orçamentárias da mobilidade urbana da cidade, é um recado importante de que algo está muito mal para o grupo político representado pelos dois.

Todos na planície concordam que a mobilidade urbana é um dos graves problemas a serem resolvidos e debatidos pela comunidade.  Um olhar mais pragmático diria que seria a grande chance de mobilizar forças oposicionistas contra o favoritismo inconteste do atual Prefeito Wladimir Garotinho, de encher galerias, ampliando a ressonância das demandas reprimidas pela gestão do IMTT, porém, o que se ouviu foi um silêncio ensurdecedor.

A Presidência da Mesa Diretora da Câmara Municipal pareceu incapaz de reunir os afetados e interessados no tema.  É flagrante a impossibilidade da Câmara Municipal, na pessoa do seu Presidente, de superar divergências pessoais e estratégias eleitorais que se mostraram inadequadas. A legislatura atual pode ser definida por três momentos, a eleição conturbada para a Presidência da Mesa Diretora, o caso da LOA 2024, e o da CPI da Educação.

Os casos mais graves para a vida municipal foram o risco da não votação do orçamento de 2024, e uma CPI que foi instaurada sem uma justa causa definida, e que acabou morta por inanição, haja vista a absoluta falta de elementos probatórios.

O tom mais elevado do Prefeito, nominando o relatório final de vergonhoso, não está muito distante da realidade, embora alguns possam ter entendido o desabafo com um exagero.

Assim, sem os conflitos citados, nada mais houve que desse foco à atuação desta legislatura, personificada em seu Presidente.  Nenhum tema de interesse coletivo, nada de alcance e profundidade para o debate institucional e para a elaboração de políticas públicas necessárias, nada. Essa postura individualista da Mesa Diretora impôs ao colegiado de vereadores um confinamento político, que se materializa no afastamento daquela Casa dos cidadãos e cidadãs, com prejuízo óbvio para todos.  A fracassada audiência pública sobre mobilidade é a prova cabal dessa circunstância.

Apesar das reclamações do Presidente da Câmara sobre o desinteresse geral, o fato dele não entender, ou pior, desejar desviar a atenção sobre os reais motivos da situação, mostram a inexistência de um espírito público, próprio aos ocupantes das cadeiras de presentação dos poderes, principalmente na atividade parlamentar, que requer, sim, a firmeza na defesa de posições, mas a flexibilidade para buscar e estabelecer consensos possíveis, evitando assim, rupturas institucionais.

Dizem os analistas que o atual Presidente se reelegerá com uma votação grande, talvez seja o mais votado. É bem possível.  Usando a metáfora do futebol, vai ser artilheiro de um campeonato que seu time (a Câmara) foi rebaixado para a quinta divisão. De que adianta? Para a cidade, nada. Talvez seja a hora de aprender com os erros e péssimos resultados recentes, e quem sabem dar um passo atrás para dar dois à frente?

Aos Bacellar, se optarem pelo isolamento no qual se encontram, só restará o precipício político. Ensina a sabedoria dos povos das estepes africanas: Elefante longe da manada vira brinco de marfim.

Tudo indica, porém, que a depender da Presidência da Mesa Diretora, vamos ouvir um samba de uma nota só tocado pelo bloco do eu sozinho.

Agência de Proteção Ambiental dos EUA é acusada de má conduta “flagrante” nos testes de PFAS em agrotóxicos

pfasUm caminhão de controle de mosquitos pulveriza inseticida em 2017. Fotografia: Edwin Remsberg/VW Pics/Universal Images Group via Getty Images

Por Carey Gillamo para o “The New Lede”

Documentos obtidos da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) indicam que a agência pode ter apresentado informações falsas ao público sobre testes de contaminantes nocivos em pesticidas, de acordo com alegações feitas por um grupo de vigilância e um antigo pesquisador da EPA.  

As alegações surgem quase um ano depois de a EPA emitir um comunicado de imprensa de maio de 2023 que afirmava que a agência não encontrou substâncias per e polifluoroalquil (PFAS) em testes de amostras de certos inseticidas. O comunicado de imprensa contradiz um estudo publicado pelo ex-pesquisador da EPA que relatou ter encontrado PFAS nos mesmos agrotóxicos.

A contaminação por PFAS é um tema quente nos círculos ambientais e de saúde pública porque certos tipos de PFAS são conhecidos por serem muito perigosos para a saúde humana, e os governos de diferentes países e os defensores da saúde pública estão pressionando para limitar drasticamente a exposição a estes tipos de produtos químicos. Testes precisos para contaminação por PFAS são fundamentais para regular a exposição, tornando a precisão e a transparência dos testes da EPA uma questão crítica.

As alegações de que a EPA relatou incorretamente alguns resultados de testes PFAS foram feitas na terça-feira pelo grupo sem fins lucrativos Funcionários Públicos para Responsabilidade Ambiental (PEER), liderado por ex-funcionários da EPA.

A Diretora de Política Científica da PEER, Kyla Bennett, disse que a organização obteve dados de testes de agrotóxicos da EPA por meio de uma solicitação da Lei de Liberdade de Informação (FOIA). Os documentos recebidos da EPA mostraram que a agência tinha de fato encontrado PFAS nos produtos testados, contradizendo diretamente o comunicado de imprensa que a agência tinha emitido.

“É muito ultrajante”, disse Bennett. “Você não pode simplesmente ignorar as coisas que não apoiam sua hipótese. Isso não é ciência. Isso é corrupção. Só posso pensar que eles estavam sendo pressionados pelas empresas fabricantes de agrotóxicos.”

Steven Lasee é consultor de agências governamentais estaduais e federais em projetos de contaminação de PFAS.

Juntando-se às alegações está o toxicologista ambiental Steven Lasee , autor do estudo de 2022 que a EPA contestou. Lasee é consultor de agências governamentais estaduais e federais em projetos de contaminação de PFAS e participou como pesquisador do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento da EPA de fevereiro de 2021 a fevereiro de 2023.

Solicitação de retratação

A EPA recusou-se a comentar as alegações, dizendo que “ como estas questões estão relacionadas com um processo de reclamação formal pendente, a EPA não tem mais informações para fornecer”.  Mas em declarações anteriores, a agência apresentou-se como uma posição dura em relação à contaminação por PFAS. A agência finalizou recentemente os limites de água potável para PFAS e está classificando dois tipos de PFAS como substâncias perigosas. E o administrador da EPA, Michael Regan, declarou publicamente que os efeitos adversos do PFAS para a saúde “podem devastar as famílias”.

A EPA também reconheceu o potencial de contaminação de agrotóxicos por PFAS, concentrando-se em pesticidas armazenados em recipientes de plástico fluorado de polietileno de alta densidade (HDPE). No ano passado, a agência ordenou que um fabricante proeminente parasse de usar produtos químicos PFAS na produção de recipientes plásticos para pesticidas e outros produtos.

Os produtos químicos PFAS têm sido usados ​​por diversas indústrias desde a década de 1940 para fabricação de eletrônicos, recuperação de petróleo, tintas, espumas de combate a incêndio, produtos de limpeza e utensílios de cozinha antiaderentes. Alguns tipos de PFAS têm sido associados ao cancro, danos ao sistema imunitário, defeitos congénitos, atraso no desenvolvimento em crianças e outros problemas de saúde.

Ao contestar a EPA sobre a questão dos testes, a PEER apresentou uma carta à agência exigindo uma correção da declaração pública da EPA sobre as análises de produtos pesticidas e uma retratação do memorando de pesquisa da agência sobre o assunto.

A PEER alega que, enquanto a EPA procurava refutar as conclusões do estudo de Lasee, a agência envolveu-se numa má conduta “flagrante” e é “culpada de numerosos desvios de práticas científicas e éticas aceites”.

A agência “forneceu informações erradas a um público nacional e prejudicou intencionalmente o Dr. Lasee”, alega a denúncia PEER.

Perguntas sobre as principais descobertas

estudo de Lasee que deu início à briga com a EPA foi publicado em novembro de 2022 no Journal of Hazardous Materials Letters. O estudo disse que uma descoberta importante foi a detecção de um tipo muito prejudicial de PFAS conhecido como  ácido perfluorooctano sulfônico (PFOS) em 6 de 10 inseticidas usados ​​no cultivo de algodão e outras culturas, representando uma ameaça de contaminação para áreas agrícolas.

A resposta da EPA ao estudo, divulgada seis meses depois, dizia que a agência obteve amostras dos mesmos agrotóxicos de Lasee e também comprou produtos adicionais com os mesmos números de registo para analisar. A agência disse que, ao contrário dos resultados de Lasee, os cientistas da EPA não encontraram níveis detectáveis ​​de PFOS, nem nenhum dos 28 PFAS adicionais que foram examinados, e disseram que o seu equipamento e metodologia eram melhores do que os utilizados por Lasee.

Essas descobertas levantaram imediatamente questões sobre a validade dos testes, de acordo com Lasee e com a PEER. Uma preocupação foi que o relatório da EPA não identificou nenhum “pico de matriz” de PFOS, que foi adicionado intencionalmente às amostras antes de serem analisadas.

É comum em química analítica usar um pico de matriz como um tipo de controle de qualidade para avaliar o desempenho de um método analítico. Lasee não havia informado a agência sobre o pico da matriz, mas se seus métodos fossem precisos, os cientistas da agência teriam encontrado o pico, disse ele.

Inúmeras outras falhas e desvios das normas científicas foram observados nas análises de testes da EPA, de acordo com a denúncia do PEER.

Outra preocupação significativa era que, embora a EPA divulgasse publicamente os resultados de dois testes realizados nas amostras de produtos pesticidas, os documentos internos da agência entregues à PEER em resposta ao pedido FOIA mostravam que a agência tinha efectivamente realizado quatro testes.

Os documentos mostram que um dos testes encontrou evidências de PFOS, bem como de outros tipos de PFAS, que não foram introduzidos como pico de matriz, disse PEER.

A PEER disse que não está claro por que a EPA não relatou os resultados positivos do PFAS em pesticidas. Independentemente disso, a “presença de PFAS em pesticidas aponta para um terrível colapso regulatório por parte da EPA”, afirma a PEER na sua queixa.  

Numa carta à PEER em resposta a algumas das preocupações levantadas, a diretora da divisão da EPA, Anne Overstreet, disse que a agência “continua confiante nas nossas descobertas” e disse que a agência “manteve a integridade científica e está em conformidade com as boas práticas laboratoriais estabelecidas”.

Em meio ao alvoroço sobre seu artigo e os testes subsequentes da EPA, Lasee tentou reproduzir seus resultados iniciais, mas não conseguiu. Isso criou dúvidas suficientes sobre sua própria metodologia que ele procurou retratar seu artigo.

Agora, depois de ver os dados de testes internos da EPA mostrando que a agência encontrou PFOS e outros tipos de PFAS em pesticidas, mas não divulgou esses resultados, ele tem um novo nível de dúvida – sobre a credibilidade da agência.

“Quando você escolhe os dados, você pode fazer com que eles digam o que quiser”, disse Lasee.

(Este artigo foi co-publicado com o The Guardian .)


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FONTE: The New Lede

Campos dos Goytacazes está incluída entre Brasil cidades brasileiras com risco de desastre ambiental

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Por Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Com a intensificação das mudanças climáticas provocadas pela ação humana no meio ambiente, têm aumentado os desastres ambientais e climáticos em todo o mundo, a exemplo do que ocorre no Rio Grande do Sul.

No Brasil, o governo federal mapeou 1.942 municípios suscetíveis a desastres associados a deslizamentos de terras, alagamentos, enxurradas e inundações, o que representa quase 35% do total dos municípios brasileiros. 

“O aumento na frequência e na intensidade dos eventos extremos de chuvas vêm criando um cenário desafiador para todos os países, em especial para aqueles em desenvolvimento e de grande extensão territorial, como o Brasil”, diz o estudo do governo federal.

As áreas dentro dessas 1,9 mil cidades consideradas em risco concentram mais de 8,9 milhões de brasileiros, o que representa 6% da população nacional.

O levantamento publicado em abril deste ano refez a metodologia até então adotada, adicionando mais critérios e novas bases de dados, o que ampliou em 136% o número dos municípios considerados suscetíveis a desastres. Em 2012, o governo havia mapeado 821 cidades em risco desse tipo.

Com os novos dados, sistematizados até 2022, os estados com a maior proporção da população em áreas de risco são Bahia (17,3%), Espírito Santo (13,8%), Pernambuco (11,6%), Minas Gerais (10,6%) e Acre (9,7%). Já as unidades da federação com a população mais protegida contra desastres são Distrito Federal (0,1%); Goiás (0,2%), Mato Grosso (0,3%) e Paraná (1%).

O estudo foi coordenado pela Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento, ligada à Casa Civil da Presidência da República. O levantamento foi solicitado pelo governo em razão das obras previstas para o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que prevê investimentos em infraestrutura em todo o país. 

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Municípios em risco de desastre ambiental  (2012 e 2022) – Arte/Agência Brasil

Populações pobres

As populações pobres são as mais prováveis de sofrerem com os desastres ambientais no Brasil, de acordo com a nota técnica do estudo.

“A urbanização rápida e muitas vezes desordenada, assim como a segregação sócio-territorial, têm levado as populações mais carentes a ocuparem locais inadequados, sujeitos a inundações, deslizamentos de terra e outras ameaças correlatas. Essas áreas são habitadas, de forma geral, por comunidades de baixa renda e que têm poucos recursos para se adaptarem ou se recuperarem dos impactos desses eventos, tornando-as mais vulneráveis a tais processos”, aponta o documento.

O levantamento ainda identificou os desastres ambientais no Brasil entre 1991 e 2022, quando foram registrados 23.611 eventos, 3.890 óbitos e 8,2 milhões de desalojados ou desabrigados decorrentes de inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

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Recomendações

A nota técnica do estudo faz uma série de recomendações ao Poder Público para minimizar os danos dos desastres futuros, como a ampliação do monitoramento e sistemas de alertas para risco relativos a inundações, a atualização anual desses dados e a divulgação dessas informações para todas as instituições e órgãos que podem lidar com o tema.  

“É fundamental promover ações governamentais coordenadas voltadas à gestão de riscos e prevenção de desastres”, diz o estudo, acrescentando que o Novo PAC pode ser uma oportunidade para melhorar a gestão de riscos e desastres no Brasil.

“[A nota técnica deve] subsidiar as listas dos municípios elegíveis para as seleções do Novo PAC em prevenção de risco: contenção de encostas, macrodrenagem, barragens de regularização de vazões e controle de cheias, e intervenções em cursos d’água”.

Confira se seu município está na lista, a partir da página 12 da nota técnica.

Edição Fernando Braga


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Fonte: Agência Brasil

Revista Reoriente lança novo número: estudos sobre marxismo, dependência e sistemas-mundo

reoriente capa jun 24 Nesta edição da Reoriente apresentamos o dossiê imperialismo, geopolítica e guerra e temas livres. As guerras no Afeganistão (2001-2021) e no Iraque (2003-2011) produziram grandes debates e elaborações teóricas acerca do imperialismo, da guerra e da geopolítica. O mesmo ocorreu em 2014, quando ganhou força o debate sobre uma possível Nova Guerra Fria, Terceira Guerra Mundial e/ou Guerra Mundial Híbrida para analisar o desenvolvimento de conflitos pontuais em relação à disputa do poder mundial. Sem dúvida, está em curso uma nova escalada bélica, e a agudização das tensõe s entre polos de poder exige a retomada e ampliação do conceito. Compõem o dossiê em tela os artigos, Del G7 a los BRICS+: la transición del sistema mundial y el escenario geopolítico, de Gabriel Merino; Os limites estruturais do capital de Mészáros e os limites da guerra à China, de Samuel Spellman; El triángulo geoestratégico China, Rusia e Irán cuestiona el poder de l a Tríada, de, Martín Alejandro Martinelli; Imperialismo ‘soft’: asistencia de Estados Unidos y lawfare en América Latina, de Silvina Maria Romano, Tamara Lajtman e Anibal García Fernández; Estados Unidos y el proceso de militarización de Améric a Latina, de Loreta Telleria; e Pontos de contato, fontes de conflito: a experiência imperialista em Cuba, de Maria do Carmo Luiz Caldas Leite. Na sessão de artigos livres, Sebastian Link Chaparro recupera a teoria marxista da dependência e a articula com as análises do sistema-mundo para interpretar os ciclos de lutas sociais e políticas no Chile. Na seção de homenagens, Abdiel Rodriguez Reyes analisa a vida e obra de Enrique Dussel, Caio Bugiato discorre sobre as contribuições de Leo Panitch para a teoria do imperialismo contemporâneo. Eurico de Lima Figueiredo e Fernando Vieira recuperam a importância da obra de René Armand Dreyfuss, e Eguimar Felício Chaveiro analisa o pensamento de Carlos Walter Porto Gonçalves. Ricardo Gomes fecha este número com a resenha sobre o livro de Claudio Katz, La Crisis del Sistema Imperial. A edição corrente da Reoriente pode ser acessada no link abaixo, boa leitura:  https://revistas.ufrj.br/index.php/reoriente/issue/view/2784  

MPF e Ouvidoria Agrária promovem audiência pública em Campos (RJ) sobre reforma agrária e prevenção da violência no campo

Evento será realizado no auditório da sede da UFF em Campos dos Goytacazes no dia 6 de junho

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O Ministério Público Federal (MPF) vai realizar, em parceria com a Ouvidoria Agrária Nacional, no próximo dia 6, às 9h, no auditório da sede da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes (RJ), uma audiência pública para tratar de políticas de reforma agrária e prevenção da violência no norte fluminense.

O objetivo do evento é consolidar as discussões sobre o tema e estabelecer uma agenda conjunta entre as instituições participantes. Foram convidados representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário, do instituto de Colonização e Reforma Agrária, da Secretaria de Segurança Pública e da Secretaria de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, da Defensoria Pública Estadual e da União, da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes e da Prefeitura do Município de Campos dos Goytacaze.

A realização da audiência é um desdobramento da atuação da Procuradoria da República em Campos em parceria com a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) no Rio de Janeiro. Em abril deste ano, o MPF solicitou providências da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado sobre denúncias de intimidação policial contra assentados rurais.

De acordo com documento enviado pelo MPF à SSP e à Secretaria de Polícia Militar, ações policiais desproporcionais teriam ocorrido durante projeto da Defensoria Pública estadual, realizado no assentamento Dandara dos Palmares, no dia 6 de abril. Os relatos que chegaram ao MPF falam de abordagens policiais agressivas e tentativas de intimidação contra membros de movimentos sociais, que estavam conduzindo atividade de conscientização agrária durante a atividade da Defensoria Pública.

Serviço

  • O quê: audiência pública sobre políticas de reforma agrária e prevenção da violência no norte fluminense
    Quando: 6 de junho, às 9h
  • Onde: auditório da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes (RJ) – Rua José do Patrocínio, nº 71

Karoline vai à luta e desvela situação vexaminosa em relação ao saneamento urbano em Campos

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Conheço a agora psicóloga e ativista política Karoline Barbosa há mais de duas décadas, e sempre achei que ela seria uma pessoa de opinião forte, pois desde criança mostrava a capacidade de ser pró-ativa e eloquente. Eu só não esperava que a Karoline crescesse para se tornar a pessoa corajosa que iria desvelar o estado lamentável em que se encontra parte do serviço de coleta e tratamento de esgotos em Campos dos Goytacazes.

É que munida de ferramentas que a tecnologia de sensoriamento desenvolveu, Karoline resolveu fazer algo que muita raposa política felpuda já poderia ou deveria ter feito. Falo aqui da documentação áerea do despejo de esgoto in natura em corpos hídricos no Distrito de Guarus (ver vídeo abaixo).

Mas mais do que documentar, Karoline foi até a justiça para exigir algo que me parece minimamente justo: que a concessionária Águas do Paraiba não possa mais cobrar por um serviço que efetivamente não presta aos campista em troca de uma tarifa para lá de salgada.

O curioso é que não tenho visto nenhum tipo de reação por parte dos vereadores campistas em relação ao minucioso processo de levantamento dos problemas ambientais que estão sendo causados pelo despejo de esgoto sem tratamento em corpos hídricos. Aliás, ao silêncio dos vereadores também se soma o silêncio de outros segmentos que deveriam estar se aproveitando do trabalho de Karoline Barbosa, a exemplo da silenciosa mídia corporativa local.

De minha parte cabe desejar que Karoline continue sendo a pessoa que me acostumei a ver, e que continue desvelando o que não pode mais continuar sendo encoberto.

Preparando o desastre: Como o Brasil se tornou um laboratório de agroinvestimentos financeiros

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Por Grain

“Agro é pop, agro é tech, agro é tudo” é um popular slogan transmitido desde 2016 em anúncios veiculados pela maior emissora de TV no Brasil. Financiadas pelo agronegócio, as peças mostram, de um lado, imagens de trabalhadores rurais felizes em plantações de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, e, de outro, famílias satisfeitas nas cidades por poderem comer, vestir-se e abastecer seus carros graças à agroindústria, sugerindo uma espécie de ciclo virtuoso.

Como parte do marketing, a grande mídia repete como mantra que o setor responderia por cerca de 25% do PIB brasileiro e, portanto, seria a grande fonte da riqueza nacional.

Essa imagem triunfalista do agronegócio combina perfeitamente com a estratégia dos relativamente novos Fundos de Investimentos nas Cadeias do Agronegócio, os Fiagros, que prometem que qualquer um poderia ficar com parte da riqueza do setor, tornando-se “sócio” do agronegócio. Criados em 2021, os Fiagros oferecem cotas de participação a partir de apenas R$ 10 (US$ 2), dando ao investidor uma rentabilidade, no geral, acima dos juros exercidos no país (em média 12% ao ano) e isenta de impostos[1].

O fenômeno não se restringe ao Brasil. No México, as Agritechs, que prestam assessoria de investimentos agrícolas, principalmente na produção de frutas vermelhas, agave e abacate para exportação, multiplicaram-se nos últimos anos. Através de aplicativos de celular, muitos jovens investidores nas cidades entram em pools de semeadura para se converterem “em donos de seu próprio lote de ouro verde” ou em “coproprietários de ativos, beneficiando-se dos rendimentos gerados”, mas se mantendo bem distantes das consequências desse lucro fácil, como a captura ilegal de terras, água e exploração de mão de obra análoga à escravidão[2] [3].

Embora ainda sem o atual esforço pela popularização dos investimentos financeiros, nos anos 2000 a Argentina introduziu milhares de hectares para produção, principalmente, de soja transgênica, cotada em dólar nos mercados de capitais, para garantir a rentabilidade dos investidores dos pools de siembra, que chegava 38% ao ano em 2008[4].

Com o sistema, uma nova figura, a de “gestor agrícola”, passa a organizar a produção argentina desde escritórios em qualquer parte do mundo, a partir de recursos levantados por meio de fundos comuns de investidores. Esses tipos de fundos aumentaram em 270% entre 2004 e 2008, contribuindo para colocar um quarto da superfície agricultável do país nas mãos de sociedades anônimas[5] [6]. A partir de 2008, a grave crise Argentina afugentou os rentistas, reduzindo significativamente a atuação dos pools de siembra. E, embora as atuais políticas ultraliberais do recém-eleito presidente Javier Milei prometam “Todo poder a los pools”, e ao capital financeiro, o país assiste a manifestações contundentes de amplos setores da população – de setores do agronegócio nacional a camponeses, de indígenas a parte das forças armadas-, contra a venda das riquezas nacionais e a estrangeirização das terras[7].

Nos Estados Unidos, uma estrutura muito parecida aos atuais Fiagros no Brasil foi proposta em fins dos 1970, o AG-Land Trust. Um fundo especializado na compra de terras com objetivo de inflacionar seu valor para vendê-las com lucro, para distribuição de ganhos de capital isentos de impostos aos cotistas – nesse caso, apenas investidores institucionais. A iniciativa encontrou forte oposição dos agricultores e logo foi bloqueada no Congresso americano – e posteriormente por várias leis agrícolas estaduais anticorporativas -, já que foi vista como uma estratégia de Wall Street para gerar bolhas financeiras sobre o preço das terras, e resultar em uma maioria de agricultores expropriados, submetidos a pagar altos arrendamentos para uma pequena elite financeira rentista[8].

Mas, a partir dos anos 1980, vários instrumentos passaram a facilitar a aquisição de terras por investidores institucionais nos EUA, como os fundos de investimentos em terras florestais e agrícolas, os chamados REITs (Real Estate Investments Trust). Até março de 2023, o valor das terras agrícolas controladas ou de propriedade de investidores institucionais no país era de mais de US$ 15 bilhões, um aumento em 66% em relação a 2008, quando estas terras passam a funcionar mais como um ativo financeiro destinado à rentabilidade dos investidores, rendendo, em 2022, 9,64%[9]. Já o valor total de mercado das propriedades de terras florestais até março de 2023 foi de mais US$ 24 bilhões, com rentabilidade de 12,9%[10]. Enquanto isso, o número de fazendas familiares em 2023 nos EUA é quase quatro vezes menor que em 1935, de 6,8 milhões de fazendas para 1,8 milhões[11].

O Brasil pode estar seguindo o mesmo caminho. Três anos depois de lançados os primeiros Fiagros no país, especialistas apontam que o resultado dessa operação pode ser catastrófico[12]. E que, sob o slogan do “agro é pop, agro é tech, agro é tudo”, agentes financeiros e do agronegócio tentam vender gato por lebre para encobrir o estado de falência econômica, ecológica e social do setor, além do alto risco desses investimentos.

Ao lançar um mecanismo de empréstimo privado para atrair amplos setores da população, o tal pujante setor, em realidade, mostra que só se sustenta através da emissão de dívida sobre dívida, de subsídios estatais e do constante achatamento dos custos de produção, o que significa exploração de trabalho, expropriação de terras, água e outros recursos naturais[13].

Com a ideia de que todos podem ser “sócios do Agro”, esses fundos tentam abocanhar a poupança popular para socializar os riscos e as dívidas do setor e financiar a expansão da agroindústria e tudo que a acompanha historicamente. Capturar as economias da população para financiar mais cercamentos de terras, exploração do trabalho e expropriação de recursos naturais, pode ser uma das mais perversas consequências desta nova estratégia financeira do agronegócio.

Sócios de dívidas

Atualmente, o Brasil possui três tipos de Fiagros: 1) o Fiagro Participação (Fiagro-FIP), que investe principalmente em ações de empresas do agronegócio; 2) o Fiagro-FIDC, constituído por direitos creditórios, ou seja, pelos instrumentos de dívidas do setor (“títulos do agronegócio”);e 3) o Fiagro Imobiliário (Fiagro-FII), que investe em imóveis rurais, direitos de crédito imobiliários até os direitos creditórios do agronegócio.

Enquanto o Fiagro de partipações e o Fiagro de terras são fechados à investidores milionários, o Fiagro de dívidas é aberto a todos. O Fiagro Imobiliário, por ter um leque maior de tipos de ativos, são os mais procurados, contando com 60 fundos, 69 mil contas, e representando quase metade do total do patrimônio dos Fiagros (R$ 17,1 bilhões). Até setembro de 2023, 66% dos seus investimentos eram em títulos de dívida e 20% em bens imóveis, segundo Boletim CVM agronegócio de setembro de 2023.

Desde a alteração da lei dos títulos do agronegócio em 2020 e a criação dos Fiagros em 2021, o volume do mercado de dívida e instrumentos de captação do agronegócio no mercado financeiro mais que duplicou, segundo Boletim de Finanças Privadas do Agronegócio do Ministério da Agricultura.

Os títulos de dívida do agronegócio dominam as carteiras dos Fiagros. O principal deles, o Certificado de Recebível do Agronegócio (CRA), emitido apenas por securitizadoras, representa 55% do total do patrimônio dos Fundos, segundo a CVM. Com rentabilidade atrelada aos altos juros exercidos no país, resgate do valor investido em curto prazo e pagamentos de dividendo mensais sem impostos, vem sendo a opção mais procurada. Mas também a que envolve maior risco, já que depende dos pagamentos dos produtores que, com os preços da soja e milho em baixa e os custos dos insumos em alta, começam a atrasar pagamentos e anunciar calotes contra os Fundos, ou melhor, contra os novos ‘sócios” (de dívidas) do Agro.[14]

Em maio de 2023, por exemplo, uma das Usinas de açúcar emissoras de CRA que compõe parte do portfólio dos Fiagros XPAG1 e XPCA11 administrados pela XP investimentos, a Usina Ester S.A, requereu recuperação judicial por um endividamento de mais R$ 650 milhões (US$ 130 milhões), comprometendo o pagamento mensal dos CRAs, que compõem os patrimônios dos fundos[15]. Mesmo os Fundos ajuizando pedido de apreensão de parte da produção armazenada pela Usina e com acordo judicial para o pagamento, a rentabilidade das cotas foi afetada. O XPCA11, com mais de 100 mil investidores, que pagava rentabilidade 176% do índice vinculado aos juros em fevereiro de 2023, em junho de 2023 entregou 127%[16].

Democratização das finanças ou captura das poupanças populares?

Até março de 2024, 98 Fiagros estavam registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil, acumulando um patrimônio líquido de R$ 34 bilhões (US$ 6,8 bilhões), distribuídos por 690 mil contas, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima)[17]. Desse total, apenas 43 fundos, que somam um patrimônio de R$ 20,5 bilhões (US$ 4,1 bilhões), estão listados na Bolsa de Valores B3, reunindo 490 mil investidores. Desses investidores na bolsa, 94% são pessoas físicas, participando com 83% do volume dos investimentos[18].

Isto significa que mais da metade destes Fundos, com 60% de seu patrimônio total, não estão listados em bolsa, e estão concentrados nas mãos de apenas 29% de investidores, sobre os quais nada se sabe, já que não têm obrigação de divulgar relatórios mensais. O único tipo de Fiagro que não está listado em Bolsa é o que investe na compra de ações para participação em empresas do agronegócio (Fiagro-FIP), que, embora representem quase 40% do patrimônio total dos Fiagros (R$ 13,5 bilhões, ou US$ 2,7 bilhões) contam com apenas 73 investidores. Como esse tipo de Fundo pode investir até 20% de seu capital em ativos no exterior, este Fiagro, longe dos holofotes, pode constituir um relevante mecanismo de remessa dos lucros e dividendos, sem pagamento de impostos, para fora do país.

Se de um lado esses Fundos fechados beneficiam especialmente famílias super ricas, que podem formar um fundo apenas para escapar do pagamento de impostos, por outro, a oferta pública de cotas com alta rentabilidade a todos os tipos de investidores, livre de impostos, também torna os Fiagros uma opção de investimento atrativa e acessível à população[19].

Mas a elevada rentabilidade está sempre associada a um alto risco. Os Fiagros são considerados um investimento arriscado, já que têm seu patrimônio lastreado em ativos suscetíveis a fatores externos, como o clima, pragas, quebras de safra, crédito e seguro, direitos de propriedade das terras, problemas com infraestrutura logística e de transportes. Por isso, a “democratização” dos investimentos visa atrair as economias de pessoas físicas de todas as classes para fazer os Fundos ganharem musculatura e criarem um patrimônio suficiente para dissipar desconfianças de investidores mais graúdos, como fundos de pensão e de investimentos.

Os Fiagros vêm pagando dividendos expressivos, uma média de 1,13% ao mês, segundo relatório de novembro de 2023 [20][21]. Tal rentabilidade se deve porque a maior parte do patrimônio desses fundos é composta por títulos de dívida que remuneram segundo os juros exercidos no país, hoje em 11,25% anuais[22]. Até agora, portanto, os Fiagros surfaram na onda dos maiores juros reais do mundo, enquanto produtores rurais rolam suas dívidas a um custo estratosférico, ampliando o ciclo vicioso de endividamento do setor.

Embora o mercado de capitais e os investimentos financeiros sejam concentrados pela fatia mais rica da população, o número de investidores no Brasil vem aumentando. Seriam hoje 60 milhões de pessoas, com aumento de investidores em todas as classes sociais, com destaque para a classe C – domicílios que ganham entre R$ 2,9 mil e R$ 7,1 mil – (aumento de 29% para 36%)[23]. A chamada financeirização da economia aposta nesta transferência gradual das economias populares da caderneta de poupança (que lidera as aplicações hoje no país) e da previdência pública (fonte de renda de 90% da população aposentada) para mecanismos financeiros como os fundos de investimentos.

O marketing pesado do “Agro é tudo” vem funcionando como um dos principais mecanismos de popularização do mercado de capitais, e que conta com influencers nas redes sociais e YouTube que ensinam a identificar o tipo de aplicação e investir de forma simples e rápida através de poucos cliques em aplicativos de celular[24]. Entre aplicar suas economias na previdência pública, na poupança ou mesmo em negócios próprios, muitos trabalhadores vêm caindo na tentação de buscar retornos rápidos através destes mecanismos financeiros.

O maior aumento do número de investidores ocorreu entre a população que vive no Cerrado brasileiro, de 33% para 43% do total da população, justamente onde estão situadas as principais “cidades do agronegócio”[25]. Os que hoje podem estar aplicando suas economias em títulos de dívida do agronegócio e em cotas dos Fiagros, podem ser filhos e netos dos 30% da população rural que, entre 1980 e 2010, tiveram de migrar para as cidades ou outras áreas, em grande medida devido aos deslocamentos forçados gerados pela massiva tomada de terras da região para expansão dos monocultivos de soja[26].

“Fiagros de terras”: financeirizar para concentrar

Embora os imóveis rurais representem apenas 17% dos ativos investidos pelos Fiagros, o volume de investimentos em terras quase dobrou de junho para setembro de 2023, passando de R$ 1,8 bilhões para R$ 3 bilhões[27]. Os chamados “Fiagros de terras” que têm 100% dos investimentos em terras agrícolas são, no geral, fechados a investidores profissionais (com investimentos acima de R$ 10 milhões/US$2 milhões) e qualificados (acima de e R$ 1 milhão/US$ 200 mil), com o objetivo de valorização da terra a médio e longo prazo – de 8 a 10 anos-, e pagamento de dividendos anuais.

Além da isenção fiscal sobre os rendimentos, a lei também prevê o não pagamento de impostos no momento da venda de um imóvel rural para esses fundos. O pagamento se dá apenas sobre o lucro com a revenda de cada cota no mercado de capitais, e não sobre toda a propriedade no ato da venda. Grandes proprietários podem constituir esses Fundos como estratégia de transferência de herança sem pagar os impostos ou mesmo para simular negócios com as terras para fraudar dívidas.

Mas mais grave: essa renúncia fiscal na negociação de terras através dos Fiagros tem o potencial de concentrar a propriedade nas mãos desses fundos, alterando a própria lógica de composição do preço da terra. Além da avaliação sobre fatores concretos como a qualidade do solo, o relevo, a presença de água e de infraestrutura, o preço também passa a ser influenciado pelos interesses desta nova classe de rentistas da terra e a dinâmica de compra e venda das cotas.

Para perseguir maior rentabilidade, os fundos passam a arrendar as terras a produtores e empresas especializadas em perseguir uma produção com maior valor de mercado e retornos rápidos, geralmente commodities negociadas em dólar em mercados futuros (e não comida), e agora não só agropecuárias, mas também “agroambientais”. Os arrendamentos visam a valorização das terras até o momento da venda, com direitos de preferência de compra para o arrendatário, e a distribuição dos lucros aos investidores. Os Fiagros, portanto, podem ser usados como mecanismos para se criar bolhas especulativas sobre os preços, como através da compra e venda de terras entre si. (Ver Box 2 Fiagro Verde: especialização financeira na inflação das terras).

Fiagro Verde lucra com recuperação questionável de pastagens

Em 2023, foi criado o primeiro Fiagro Verde, o fundo AGBI III Carbon Fiagro FIP, administrado pela gestora AGBI real assets, com status de “fundo verde” ou “fundo art.9” do Acordo de Paris (certificação acima de fundos ESG), seguindo os critérios da Climate Bonds Iniciative (CBI) e da Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR), utilizados como padrão na União Europeia[28].

O objetivo do fundo é a recuperação de pastagens, com aplicação de questionáveis técnicas e tecnologias para fixação de carbono no solo (carbon farming), a fim de gerar a emissão e comercialização de créditos de carbono, certificados pela Verra – uma das mais conhecidas no mundo, mas também por seu envolvimento com projetos de carbono altamente controversos[29] [30].

A estratégia de regeneração do solo de áreas de pastos degradados parte de uma conta muito mais econômica que ambiental, já que acaba por intensificar a degradação dos solos e o desmatamento, enquanto inflaciona o preço das terras. Por um lado, a expansão dos monocultivos agrícolas ou de árvores plantadas sobre áreas de pastos já “limpas” é bem mais econômica do que desmatar e destocar florestas[31]. Por outro, pressiona a pecuária para que avance sobre as florestas e vegetação nativa. Além de quadruplicar o valor das terras ao converter pastos de baixo rendimento em terras agrícolas (ver gráfico preços das terras aumentam no Brasil), essa especialização na “modernização verde” das terras agrícolas feita pelos Fundos pretende inflacionar ainda mais o preço das terras com seu histórico de “descarbonização”.

Outros dois Fundos da gestora que realizaram recuperação de pastagens venderam duas fazendas com valorização de 451% em oito anos e de 517% em sete anos[32]Mesmo com a cotação da arroba do boi para baixo e os negócios com terras estagnados frente aos anos anteriores, as terras de pastagens se valorizaram quatro vezes mais que as terras agrícolas no Brasil em 2023[33].

É de se esperar um aumento do número da compra de terras degradadas pelos Fiagros verdes sobre os 30 milhões de hectares que o Brasil se comprometeu a “recuperar” entre 2020-2030, através do Plano Agricultura de Baixo Carbono+.

Dentre as cotas mais rentáveis dos Fiagros estão justamente as de terras agrícolas. A remuneração dessas cotas depende do valor dos arrendamentos, no geral, vinculados ao valor da saca de soja por hectare, que também varia conforme a disponibilidade de água para irrigação[34]. O que demonstra tanto a alta vinculação entre o preço das terras e das commodities agrícolas nas regiões produtoras, como também a precificação indireta da água pelos agentes financeiros, o que também impacta, por sua vez, no valor dos arrendamentos, da terra e agora também das cotas dos fundos.

Dentre esses “Fiagros de terras” estão os três administrados pela XP investimentos, que juntos somam 35 mil hectares, na região do Matopiba, arrendados para a SLC Agrícola para produção principalmente de soja, mas também milho, algodão e braquiária[35]. A empresa é a maior produtora de soja do país, e não por acaso, também responsável pelo desmatamento de pelo menos 30 mil hectares de vegetação nativa no Cerrado[36] [37]. Duas destas fazendas estão situadas em Correntina na Bahia, palco dos conflitos mais intensos por água da história do país, cada vez mais capturada por corporações e projetos de irrigação[38].

Se a rentabilidade das cotas é rapidamente impactada com a expectativa de calote nos pagamentos das dívidas, o mesmo não ocorre com a violência extraeconômica. Mesmo em tempos de “finanças verdes”, na prática, o mercado de capitais e os investidores perseguem a maior rentabilidade, e isso geralmente vem acompanhado por negócios com terras griladas, desmatadas, com extração ilegal de água ou com presença de trabalho escravo. (Ver Tabela: “Fiagros de terras”: captura de terras agrícolas, água e desmatamento).

Os agentes do mercado de terras avaliam que o atual período traz grande oportunidade para compras de terras baratas. Após uma intensa valorização nos últimos três anos, com preços médios das terras para a produção de grãos subindo 128%, em 2023 essa curva estagnou[39]. A perda de rentabilidade dos produtores com a queda das commodities e aumento dos custos de produção pode inserir um bom estoque de terras com descontos no mercado. Contexto que pode levar a um próximo período de concentração da propriedade das terras nas mãos dos Fiagros e de seus investidores milionários, retirando-as das mãos de produtores endividados ou sem capital para manter suas terras.

Fonte: Colussi J., G. Schnitkey, N. Paulson, and J. Baltz. “Farmland Prices in Brazil More than Doubled in the Last Three Years.” farmdoc daily (13): 79, Department of Agricultural and Consumer Economics, University of Illinois at Urbana-Champaign, April 28, 2023.

O próprio governo brasileiro estuda a criação de “Fiagros de terra de dívida”, em que de um lado os credores – revendas, fornecedores, bancos, tradings – se tornam sócios do Fundo, e de outro o produtor, que transfere a fazenda tornando-se arrendatário do Fiagro. O pagamento das dívidas seria feito com a produção até que ao final do prazo, o produtor teria direito de recomprar as cotas e recuperar o imóvel. Algo pouco provável se o período de concentração de terras se confirmar, facilitando a criação de bolhas especulativas sobre seu preço[40].

Por trás do véu da “democratização” das finanças e da propriedade, esta financeirização das terras tende a gerar justamente seu contrário: mais concentração de capital e de terras como propriedade de elites financeiras.

Grilagem e blindagem para investidores, inclusive estrangeiros

Para conferir segurança aos investidores, os instrumentos de dívida do agronegócio e os Fiagros contam com garantias privilegiadas para o seu pagamento. Com a criação do chamado “patrimônio de afetação”, a Lei do Agro permite separar o todo ou partes de imóveis rurais proporcionais à dívida, como garantia para pagar especificamente as obrigações das empresas do agronegócio. Caso não haja pagamento, as terras afetadas pela dívida devem ser transferidas para o nome do credor diretamente no cartório de registro de imóveis, não sendo necessário acionar a justiça. E se o credor for um investidor estrangeiro, a Lei dos títulos do Agro passa a autorizar a transferência das terras para estrangeiros em caso de execução de dívida, independentemente dos limites de acesso à terra por estrangeiros. Uma burla à Lei que limita o controle das terras por estrangeiros no país[41].

Essas terras afetadas para o pagamento específico do mercado de dívidas do agronegócio não podem ser objeto de compra e venda, doação, recuperação judicial ou falência, e tampouco servir para pagar outras dívidas, a não ser as dívidas fiscais, previdenciárias e trabalhistas do produtor ou empresa devedora. Portanto, embora haja esse mecanismo de blindagem das terras em favor do pagamento aos investidores, o Estado e os trabalhadores mantêm a preferência na fila dos credores, podendo deixar os novos rentistas a ver a navios.

Cabe ainda ressaltar que essas terras afetadas como garantia de dívidas podem ser, na realidade, terras públicas e coletivas griladas[42]. Como denunciado por diversas organizações, o Brasil vem permitindo uma legalização massiva da grilagem histórica de terras públicas, principalmente após golpe institucional de 2016, com a chamada Lei da grilagem, e que vem sendo replicada nos estados, inclusive no Matopiba.[43] Isso significa que a inadimplência de muitos produtores pode levar não à expropriação do patrimônio privado de produtores, mas de terras públicas – de toda a população- e das comunidades locais griladas, e que podem parar nas mãos desses fundos.

Maquiagem verde das dívidas e serviços ambientais como “produto rural”

A nova tendência entre os Fiagros é a de ampliar o portfólio para atividades tidas como de baixo impacto ambiental, com a compra de ativos ou dívidas de empresas de bioenergia ou que utilizam práticas agrícolas “regenerativas”, como a recuperação de pastagens ou o plantio industrial de árvores[44].

Esse interesse nos chamados “títulos verdes” (green bonds) acompanha o movimento global de “limpeza” da imagem das corporações e agentes financeiros, como também aproveita a tendência de crescente valorização desses ativos “baseados na natureza”. Está em franca disputa legal nos países a definição da titularidade, ou seja, quem são os donos dos créditos de carbono florestais e do solo e de outros serviços ambientais, como de conservação das águas.

A lei dos títulos do agronegócio, alterada em 2022, passou a considerar a prestação de serviços ambientais nas fazendas como um novo tipo de “produto rural”, autorizando a emissão de título de dívida sobre bens até então comuns- que não poderiam ser apropriados, negociados ou executados por dívidas, como qualquer outra mercadoria[45]. Passam a ser considerados “produto rural”: os “serviços” de conservação e recuperação de florestas nativas, redução do desmatamento, conservação das águas e solos, e redução de emissões ou manutenção e aumento dos estoques de carbono florestal, entre outros benefícios ecossistêmicos, quando certificados por terceira parte[46].

Isto significa a exclusão das maiorias da presente e futuras gerações do acesso à integridade ambiental necessária à qualidade de vida, e a introdução dos serviços ambientais como garantia de dívidas dos produtores rurais. Precedente que pode influenciar as legislações em outros países para inserir o agronegócio como setor fornecedor de créditos de carbono e de outros serviços ambientais.

Além disso, o compromisso social e ambiental do agronegócio é um desastre, e os Fundos – e quem investe neles – são importantes mecanismos para maquiar de verde este histórico. E pior, passa a vincular, de modo perverso, a expectativa de renda desses novos inventores desavisados à expansão da fronteira agrícola e tudo que a acompanha [47].

O maior Fiagro em patrimônio (R$ 1,6 bilhões de reais, ou US$ 337 milhões), o Fundo Kinea Agro, com 37 mil cotistas, tem 37% de seu patrimônio em CRAs de usinas de açúcar e etanol. Um desses CRAs foi emitido pela Usina Itamarati, no Estado do Mato Grosso, que mesmo com o nome incluído na lista suja de trabalho análogo ao de escravo em 2008, além de várias infrações ambientais, alavancou R$ 150 milhões na emissão de “CRAs verdes”[48]. O Fundo também investiu na compra de três CRAs da Usina Rio Amambai Agroenergia, no Mato Grosso do Sul, da gestora americana Amerra, que teve 2.000 hectares embargados pelo órgão ambiental em 2022 e é investigada por despejos de resíduos de cana em uma lagoa. O que não impediu a emissão e captação de R$ 60 milhões (US$ 12,6 milhões) em CRAs “verdes”[49].

Já o Fiagro XPAC11, administrado pela XP investimentos, com 62 mil cotistas, tem em seu portfólio uma debênture “verde” emitida pela Aço Verde Brasil (AVB), do grupo Ferroeste, que teria 100% de carvão vegetal oriundos de florestas plantadas. A perda de diversidade, esgotamento hídrico, grilagem de terras e expulsões de comunidades locais em todo o mundo, gerados pela expansão dos monocultivos industriais de florestas, não retira a qualidade de “verde” do investimento. Além disso, o XPAC11 tem investimentos nas maiores produtoras de carnes do mundo, como Minerva, Mafrig e BRF, grandes responsáveis pelo avanço do desmatamento, grilagem de terras públicas e também maior setor responsável por manutenção de trabalhadores em situação análoga a de escravos no Brasil[50].

Furando a bolha financeira: revalorização dos comuns para barrar futura geração de expropriados

Não é difícil concluir que o “Agro é dívida!”, dívida histórica econômica, social e ecológica, no Brasil.

Mesmo se considerarmos como verdadeira a conta dos inflacionados 25% do PIB produzidos pelo Agronegócio, o povo não come PIB! O saldo das exportações – e das exportações de soja – é irrelevante para analisar o desenvolvimento social, ou seja, a redução da pobreza, das desigualdades, da fome, do dano ecológico. Mesmo se o PIB fosse algum indicador útil, nessa conta do PIB do agronegócio entram, por exemplo, os ganhos de corporações transnacionais de sementes, agrotóxicos, fertilizantes, maquinário, além dos serviços financeiros que, em grande medida, são remetidos aos países sede, e, portanto, não ficam no país[51].

Além disso, desse número não é deduzida a enorme dívida do setor, da ordem de trilhões de reais, tampouco o que se deixa de arrecadar com isenções fiscais[52] [53]. Só a soja, por exemplo, que representa metade do valor da produção do agronegócio no país, custa quase R$ 60 bilhões (US$ 12 bilhões) ao ano em renúncia fiscal, o dobro do custo da desoneração da cesta básica.[54] Se ainda forem incluídos na balança os custos dos danos irreversíveis ao meio ambiente com contaminação dos territórios e dos corpos doentes, a poluição e erosão genética e dos solos causados pela cadeia industrial do agronegócio, a dívida é impagável.

Mas é importante nos atentar de que não se trata de Fiagros ou apenas da financeirização do agronegócio, das terras e dos sistemas alimentares. Essa aliança entre capital financeiro, bens imobiliários – urbanos e rurais – e seguradoras, faz com que uma cada vez mais restrita e violenta classe de rentistas transformem direitos em propriedade privada e mercadoria, assumindo um peso determinante para a composição do preço da moradia, das terras, dos alimentos, dos transportes, da previdência, da energia, da água e do esgoto.

Barrar a privatização de bens até então comuns e sua posterior valorização financeira, recuperando o significado do que sejam os chamados bens públicos e os âmbitos comuns das economias comunitárias, nas cidades e no campo, que devem ser voltados para a produção de uma vida digna para as pessoas, pode dar boas pistas para se evitar uma futura geração de expropriados: sem tetos, sem terras, sem acesso. Maiorias com direito a apenas uma renda, e isso se financiarem quem os expropriou.

Tabela “Fiagro de terras”: captura de terra agrícolas, água e desmatamento

Fundo/Administradora
Descrição
Fiagro GRWA11 (Greenwich Agro)
Banco Daycoval S.A
(taxa de administração de 1,15% sobre o patrimônio líquido e de 10% de participação nos lucros)
2.590 cotistas pessoas físicas, 2 pessoas jurídicas não financeiras, 2 fundos de investimentos.
Patrimônio líquido: R$ 24,8 milhões (US$ 5 milhões), 55% em bens imóveis
40% em CRAs.
Cota valorizou 15% desde seu lançamento até novembro de 2023. Valor da cota R$ 10 reais (US$2).
*O Fundo não fornece informações sobre os R$ 13 milhões (US$ 2,6 milhões) aplicados em bens imóveis.
Fiagro FZDB11
XP Investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio liquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
75 investidores com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro de 2024 o fundo era fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimônio líquido: R$ 357,7 milhões (US$ 72 milhões) em 13,5 mil ha da Fazenda Tabuleiro I, Correntina/Bahia.
Arrendamento de 9,3 mil há para soja, milho e pouco de algodão até safra 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em saca de soja por hectare (sc/há), em média, R$ 120 (U$$ 24) a saca. Para área não irrigada: R$ 13 sc/ha.; Área irrigada R$ 22,75 sc/ha e Área de expansão da irrigação R$ 14 sc/ha.
Cota valorizou 10% de seu lançamento até novembro 2023. Valor da cota R$ 100,00 (US$ 20).
Fiagro FLEM1
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
14 investidores profissionais com patrimônio acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimonio liquido de R$ 283,5 milhões (US$57 milhões) em 12,4 mil há da Fazenda Tabuleiro II, também em Correntina na Bahia, divididas em 13 matrículas.
Arrendamento de 9,3 mil ha com 4 mil ha de soja, 4 mil ha de algodão e 1,3 mil brachiaria semente até safra de 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em sacas de soja negociadas em média a R$ 120 a saca. Area não irrigada por R$ 13 a sc/ha.
Cotas permanecem com os valores de lançamento de R$ 96,00 (US$ 19), sem valorização.
Fiagro FZDA11
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
477 cotistas qualificados com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro 2024 fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões).
Patrimônio liíquido de R$ 345,4 milhões (US$ 69,4) com 9 mil ha de
6 Fazendas Xingu em Balsas /Maranhão
Arrendamento de 5,5 mil ha para soja e pouco de milho para SLC Agrícola.
Valores em sacas negociadas a R$ 159 (US$ 32) a saca. 5 sc/ha até 2023/2024 e 13 sc/há até 2035/2036.
Cota se valorizou 22% do lançamento a janeiro 2024. Cota no valor de R$ 96,00 (US$ 19).
Fonte: Relatórios financeiros dos fundos e Boletins mensais dos Fiagros da B3.
IIustração: Matheus Ribs
Designer de infografia: Kartine Ribeiro Gomes
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[1] Conversão 1 U$ = R$ 4,97, utilizando conversor de moeda Oanda em 11 de março de 2024.
[3] GRAIN, “Avocados de la Ira”, 26 de Abril de 2023. https://grain.org/e/6983
[4] Gastón Caligaris, “Acumulación de capital y sujetos sociales en la producción agraria pampeana (1996-2013)”, capítulo El caso de los “grandes pooles de siembra”, Buenos Aires: UbaSociales, 2017. https://www.teseopress.com/produccionagraria/
[5] A lei 24.083/1992 e a Lei 24.441/94 regulamentam os fundos comuns de investimento e os fideicomissos, viabilizando os pools de semeadura como nicho privilegiado do capital financeiro. Frederico y C. Gras. “Globalização financeira e land grabbing: constituição e translatinização das megraempresas argentinas”. In: Bernardes et al. (coord), 2017, p. 11-32.
[6] Censo Nacional Agrário, 2018. Disponível em: https://cna2018.indec.gob.ar/informe-de-resultados.html
[7] Pedro Pereti, “Todo el poder a los pools”, 12 de Dezembro de 2023. https://www.pagina12.com.ar/694385-todo-el-poder-a-los-pools
[8] Madeleine Fairbairn, “Fields of Gold: financing the global land rush”, Ithaca [New York]: Cornell University Press, 2020, p. 30-32.
[9] NCREIF Farmland Index. https://user.ncreif.org/data-products/farmland/ . O retorno acumulado das terras agrícolas entre 1983 e 2010 foi acima de 15% em alguns mercados, ver em: Andrew Gunnoe, “The Political Economy of Institutional Landownership: Neorentier Society and the Financialization of Land”, Rural Sociology, 79 (4); 2014. P. 478–504, 2014: p. 492 e 493.
[10] NCREF Timberland Property Index. https://user.ncreif.org/data-products/timberland/.Estas terras chegaram a taxas de retorno cumulativas de 26.75% ao ano. Ver em Andrew Gunnoe. Ibid.
[12] Lei 14.130/2021 altera Lei 8.668 dos Fundos de investimentos para criar os Fiagros. Ver: Larissa Vitória, “Primeiro Fiagro do Brasil e outros credores de CRA decretam vencimento do título após calote parcial e podem executar garantias”, Seu dinheiro, 7 de março de 2024. https://www.seudinheiro.com/2024/bolsa-dolar/primeiro-fiagro-do-brasil-e-outros-credores-de-cra-decretam-vencimento-do-titulo-apos-calote-parcial-lvit/
[13] Governos militares nos anos 80 e depois na crise cambial dos anos 90, realizaram a securitização das dívidas do agronegócio e de agentes financeiros por meio da substituição dos títulos privados impagáveis por títulos da dívida pública do Tesouro, o que colocou o Estado brasileiro como garantidor das dívidas do agronegócio. Guilherme Delgado, “Do Capital Financeiro na Agricultura à Economia do Agronegócio”, Porto Alegre, UFRGS editora, 2012, p.86-87.
[15] O Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) é um título de crédito que representa promessa de pagamento em dinheiro ou ainda em produção ou imóvel rural, emitidos exclusivamente por companhias securitizadoras. O estoque de CRAs tiveram um aumento de 92% entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024, segundo o Boletim do Ministérios da Agricultura.
[16] Luiz Henrique, “Usina Ester fa acordo com detentores de CRAs”, The AgriBiz, 06 Junho de 2023 https://www.theagribiz.com/agribuzz/usina-ester-faz-acordo-com-detentores-de-cras/ e Relatório XPCA11 Janeiro 2024. https://fnet.bmfbovespa.com.br/fnet/publico/visualizarDocumento?id=609370&flnk
[17] Conta é distinto de CPF. O mesmo investidor pode ter mais de uma conta, resultando em concentração dos investimentos.
[19] Investidores pessoas físicas não pagam imposto sobre a rentabilidade das cotas desde que os Fiagros tenham mais de 100 cotistas e detenham até 10% das cotas emitidas ou dos rendimentos distribuídos pelo fundo. A partir de 2024, para isenção de impostos, o cotista não pode acumular junto com outros parentes mais de 30% das cotas do fundo ou de 30% dos rendimentos auferidos.
[20] Dividendos são parte dos lucros distribuídos para os cotistas do fundo ou sócios de uma empresa, que podem ser pagos anualmente ou mesmo mensalmente, a depender da regulamentação. Já os dividend yield seriam a divisão do dividendo anual pelo valor atual da ação, o que dá a taxa de retorno do investimento no mês.
[22] De agosto de 2022 até agosto de 2023 a taxa Selic, referência para os juros no país, estava em 13,75% ao ano.
[23] Anbima, “Raio X do investidor Brasileiro 6º edição”, 2023. https://www.anbima.com.br/pt_br/especial/raio-x-do-investidor-2023.htm
[24] Bruna Bronoski, “Boom de pessoas físicas no mercado financeiro vira alvo de capitalização do agronegócio”, O Joio e o Trigo, 03 de março de 2023. https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/boom-de-pessoas-fisicas-mercado-financeiro-agronegocio/
[26] Carlos Walter Porto-Gonçalves. “Dos Cerrados e de suas riquezas: De saberes vernaculares e de conhecimento científico”, FASE, 2019: p.26-27. https://fase.org.br/wp-content/uploads/2019/12/PUBLICACAO_CERRADO-2.pdf
[28] Nayara Figueiredo, “AGBI busca R$ 150 milhões para Fiagro “verde” e áreas para comprar”, Valor Econômico, 23 de junho de 2023. https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2023/06/23/agbi-busca-r-150-milhoes-para-fiagro-verde-e-areas-para-comprar.ghtml
[29] GRAIN, “From land grab to soil grab – the new business of carbon farming”, 24 de fevereiro de 2022. https://grain.org/e/6804
[30] “Uber utilizo créditos de carbono generados en una granja que empleaba mano de obra esclava”, Timis, 19 de fevereiro de 2024. https://timis.es/uber-utilizo-creditos-de-carbono-generados-en-granja-mano-de-obra-esclava/e Carolina Bataier, “Projeto Jari de créditos de carbono engana comunidades e invade terras públicas no Pará”, De Olho nos Ruralistas, 19 de fevereiro de 2024.

[31]Thimothy Killeen, “¿Qué es más conveniente en la distribución de tierras? | LIBRO”, Mongabay, 4 de Março de 2024.

[32] Relatório AGBI Real Assets Agronegóciohttps://agbi.com.br/agronegocio/
[33] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta. Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[34] Top 10 Variação do preço de fechamento desde a data de lançamento do Boletim Mensal de Fundo de Investimento em cadeias agroindustriais (FIAGRO) da B3 de Novembro de 2023 e Janeiro de 2024.
[35] Matopiba é acrônimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, região definida como uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo, o que já resultou no desmatamento de 50% do bioma.
[36] Entre agosto de 2022 e julho de 2023, 11 mil Km² foram desmatados no Cerrado, maior taxa dos últimos 8 anos, 75% na região do Matopiba. A Bahia teve o maior incremento de 38% do desmatamento. Dados Prodes Cerrado: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/noticias/2023/mma-divulga-prodes-cerrado-e-plano-para-o-bioma#:~:text=No%20per%C3%ADodo%20Prodes%20(agosto%20de,de%2026%25%20e%2027%25
[37] GRAIN, “A Aliança suja entre agronegócio e grande capital financeira é tudo, menos verde”, 07 de Outubro de 2021. https://grain.org/e/6748
[38] Em 2017 uma multidão de 12 mil pessoas – de um total de 12.600 habitantes (Censo 2010) – saíram às ruas de Correntina com o lema “Ninguém morrerá de sede às margens do Rio Arrojado” contra a captura excessiva de água pelas grandes fazendas. Lu Sodré, “Águas cercadas: como o agronegócio e a mineração secam rios no Brasil”. Brasil de Fato, 30 de julho de 2020.https://www.brasildefato.com.br/2020/07/30/aguas-cercadas-como-o-agronegocio-e-a-mineracao-secam-rios-no-brasil
[39] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta”, Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[40] Leandro Gottems, “Ministério da Agricultura dá sinal verde a Fiagros”. Agrolink, 01 de março de 2024. https://www.agrolink.com.br/noticias/ministerio-da-agricultura-da–sinal-verde–a-fiagros_488754.html
[41] Alteração da Lei 13.986/2020 dos títulos do Agro na Lei 5.709/71, que impõe limites de aquisição de terras por estrangeiros.
[42] O termo grilagem surgiu de uma prática de fraude de documentos de terras, inserindo os papéis dentro de uma caixa fechada com grilos, que corroíam e amarelavam os papéis, dando a aparência de envelhecimento. É o grilo ou grilagem das terras públicas e coletivas roubadas.
[43] GRAIN, CPT, AATR, ABRA. “Do golpe político ao golpe fundiário no Brasil”, 26 de dezembro de 2020.
[44] GRAIN, “Regenerative agriculture was a good idea, until corporations got hold of it”. 1 de dezembro de 2023. https://grain.org/e/7067
[45] Lei nº 13.986/2020, posteriormente alterada pela Lei 14.421/22.
[46] A Cédula do Produto Rural (CPR), primeiro título do agronegócio criado em 1994 (Lei 8929), é título que representa a produção rural exigível em produto ou liquidação financeira na data do seu vencimento. A Lei foi alterada tanto para ampliar o rol de quem pode emitir os títulos (passando a incluir além do produtor rural, também as empresas de insumos, comercializadoras, processadores), como ampliar o conceito de “produto rural”, com a regulamentação da CPR verde pelo Decreto 10.828/2021. A CPR alcançou os R$ 309 bilhões, aumento de 144% entre janeiro de 2022 e janeiro 2024. Boletim Finanças Privadas do Agro, fevereiro 2024. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/boletim-de-financas-privadas-do-agro/boletim-de-financas-privadas-do-agro-fev-2024.pdf/view
[47] GRAIN, “An agribusiness greenwashing glossary”, 7 de setembro de 2022. https://grain.org/e/6877
[48] João Peres, “Fundos do agro impulsionam empresas com histórico de destamatamento, escravidão e grilagem”, O Joio e o Trigo, 20 de julho de 2023.https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/fundo-do-agro-impulsiona-desmatamento
[49]Camila Ramos, “Usina Rio Amambaí capta R$ 60 milhões com “CRA verde”, Valor Economico, 15 de março 2021.https://valor.globo.com/um-so-planeta/noticia/2021/03/15/usina-rio-amambai-capta-r-60-milhoes-com-cra-verde.ghtml
[50]Pecuária industrial foi responsável por 46% dos 63 mil trabalhadores resgatados em situação análoga ao de escravos desde 1995. Environmental Justice Fundation, “Trabalho escravo no setor pecuarista: o caso de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, novembro, 2023https://ejfoundation.org/resources/downloads/Trabalho-escravo-no-setor-pecuarista-o-caso-de-Mato-Grosso-e-Mato-Grosso-do-Sul.pdf
[51] Os dados do PIB do Agronegócio são produzidos pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), financiado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) – maior entidade de classe do setor. É possível ver a metodologia empregada aqui: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx
[52] Em 2016, a dívida do setor somava R$ 1,2 trilhões de reais (ao redor de 310,8 bilhões de dólares), segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Oxfam, Brasil. “Terrenos da desigualdade: Terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, São Paulo, novembro de 2016. p. 18 e 19https://oxfam.org.br/wp-content/uploads/2019/08/relatorio-terrenos_desigualdade-brasil.pdf
[53] A chamada Lei Kandir (Lei complementar 87/1996) veda a tributação de imposto sobre a circulação da produção agrícola e minerária para exportação. O agronegócio pagou menos de R$ 16 mil reais (US$ 3,2 mil) em imposto de exportação em 2019. Apenas com os agrotóxicos, cerca de R$ 6.8 bilhões (US$ 1,3 bilhões) deixaram de entrar nos cofres públicos entre 2011 e 2016. Maurício Angelo, “Uma sugestão para Paulo Guedes: acabar com a mamata das isenções fiscais bilionárias para agrotóxicos”. The Intercept, 7 janeiro 2019. https://www.intercept.com.br/2019/01/07/agrotoxicos-isencoes-fiscais-bilionarias

Custo ambiental do desmatamento e da soja no leste da Amazônia chega a R$ 10 bilhões, revela estudo

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Bacia do Gurupi, entre o Pará e o Maranhão, aumentou 92% da área agrícola em 36 anos; na foto, vista áerea de área desmatada no Pará. Foto: Vinicius Mendonça/IBAMA 

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O desmatamento na Amazônia e o aumento de áreas agrícolas têm diminuído a capacidade da floresta de oferecer benefícios à população, como produtividade da terra e melhor qualidade do clima, do ar e da água. Em artigo publicado nesta segunda (27) na revista científica “Ambiente & Sociedade”, pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Universidade Federal do Pará (UFPA) estimam que, em 36 anos, houve uma perda de cerca de R$ 10 bilhões em serviços ecossistêmicos na região da bacia do Gurupi, leste da Amazônia, devido ao aumento de áreas de plantio de soja. O valor foi corrigido para o ano corrente.

O grupo quantificou perdas econômicas geradas pelo desmatamento de 1985 a 2021 na bacia do Gurupi, que fica entre os estados do Pará e do Maranhão. O cálculo foi feito a partir de levantamento de uso de terras na área de 35 mil km2, usando a base de dados MapBiomas, que mantém um registro anual de mudanças da região desde 1984. Para facilitar o trabalho, os pesquisadores classificaram o uso da terra em cinco categorias: florestas, formações naturais não florestais, agricultura, áreas sem vegetação e região de águas. A valoração dos serviços ecossistêmicos foi feita a partir de base de dados global que mapeia a economia dos ecossistemas e da biodiversidade. Foram selecionados 210 valores para 15 tipos de serviços ecossistêmicos.

A partir do cruzamento de dados levantados, os pesquisadores observaram que, em 36 anos, houve perda de 25% de área florestal e aumento de 92% de áreas agrícolas. O plantio de soja corresponde a 84% do terreno destinado à agricultura na região. “Toda essa produção vai para exportação, pois a soja não alimenta pessoas”, comenta Ima Vieira, coautora do estudo e pesquisadora do Museu Goeldi.

De acordo com a especialista, a redução do plantio de produtos voltados para a alimentação humana provocado pelo aumento de áreas de soja pode aumentar o risco de insegurança alimentar na região, além de prejudicar o ecossistema. “Todo esse plantio enfraquece as funções dos ecossistemas naturais, como a regulação do clima, a qualidade da água e a polinização, que são serviços importantes prestados pela floresta. Se a área de floresta é reduzida, esses serviços também se reduzem”, explica.

A maior parte da produção agrícola no Pará, segundo os autores do artigo, depende de serviços ecossistêmicos como a polinização – e, por isso, é considerado um serviço valioso. Além da vida humana, outras espécies de animais podem ser ameaçadas pelas mudanças no uso da terra na região, assim como a regulação do clima.

Os pesquisadores esperam que esse tipo de estudo de valoração dos serviços ecossistêmicos possa ser útil não apenas para informar a população e os tomadores de decisão, mas também possa mobilizar políticas públicas de conservação e estímulo a atividades econômicas mais aderentes à manutenção biodiversidade dos biomas tropicais. “Comunidades locais, como as populações quilombolas que vivem na região do Gurupi, podem se beneficiar de políticas nacionais de pagamentos por serviços ambientais”, comenta Vieira, salientando que incentivos financeiros podem promover atividades produtivas mais sustentáveis e com maior capacidade de geração de benefícios econômicos e socias às comunidades.

Após a publicação do artigo, que fez parte da tese de doutorado da pesquisadora Fabiana da Silva Pereira no Programa de Ciências Ambientais, parceria entre o Museu Goeldi, a UFPA e a Embrapa, o grupo está trabalhando em pesquisas qualitativas sobre a percepção dos, quilombolas, sobre as mudanças do uso da terra e dos serviços ecossistêmicos e as ameaças aos seus territórios.


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Fonte: Agência Bori