O CCH como canário da mina: incêndio é alerta para a Uenf adotar medidas de segurança básicas

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Incêndio em sala de secretaria causou pânico e danos materiais no CCH/Uenf

Passei quase 7 anos em espaços de ensino e pesquisa nos EUA onde os cuidados com a segurança dos prédios era muito forte. No Laboratório Nacional de Oak Ridge que realizava pesquisas até com radiação nuclear tinhamos que passar por treinamentos rotineiros de saída organizada dos prédios para casos de incêndios e acidentes químicos.  Na Virginia Tech onde realizei o meu doutorado havia uma brigada de incêndio que tinha capacidade superior à da cidade de Blacksburg onde fica o campus principal da universidade.

Passados mais de 26 anos desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), eis que ao longo do tempo cumpri o papel de Cassandra, oferecendo avisos que na maioria dos casos são solenemente ignorados, pois tal como a Cassandra original sou visto com um profeta das coisas em que ninguém acredita.

Pois bem, uma das coisas que sempre me vem à cabeça é que na Uenf somos todos muito sortudos porque vivemos riscos diários como se eles não existissem, nos tornando naquele violanista que insistia em tocar seu instrumento enquanto o Titanic afundava. Por exemplo, a instituição, ao contrário da Virginia Tech, não possui nem uma brigada de incêndios ou uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Além disso, há alguns anos, após o roubo de algumas mangueiras de incêndio, algum sábio dirigente decidiu que o problema seria resolvido retirando todas as que sobraram dos locais em que deveriam estar.  Além disso, há alguns atrás constatei que a maioria dos extintores estava vencida e que ninguém havia sido treinado para fazer uso daqueles que ainda estivessem funcionais.

Não posso esquecer da instalação de grades de ferro após alguns furtos pontuais de computadores em que um diretor do Centro de Ciências do Homem (CCH) decidiu instalar grades de ferro nos dois andares para impedir que os computadores roubados pudessem ser movidos sem que isso fosse percebido. Na época disse ao emérito dirigente que ele estava nos condenando a não estar vias de escapa caso um incêndio acontecesse no prédio.  Como uma boa Cassandra, fui ignorado e as grades permaneceram e acabaram normalizadas como se não oferecessem qualquer risco para a segurança de professores, estudantes, servidores técnicos e trabalhadores terceirizados.

O problema é que na mitologia grega, como na vida real, algumas profecias funestas acaba trazendo um quê de acerto. E eis que na noite de ontem, um incêndio destruiu completamente a sala que abriga a secretaria do Laboratório de Estudos da Educação e Linguagem (LEEL), responsável principal pelo funcionamento do curso de Pedagogia, cujas aulas são majoritariamente oferecidas no período norturno.  A falta de alarmes e a inexistência de sinalização para a evacuação do prédio acabou resultando em um cenário caótico em que professores estudantes acabaram saindo de forma completamente desorganizada do andar onde o incêndio ocorreu, mostrando um despreparo que poderia ter sido fatal (ver vídeo abaixo).

Uma rápida visita à sala incendiada me deixou com a impressão de que a Uenf ontem passou muito perto de uma tragédia, pois felizmente o fogo não se espalhou e a ação do Corpo de Bombeiros foi rápida e eficiente, contendo o incêndio no seu ponto de origem. Mas uma rápida olhada no que sobrou do que estava na sala incendiada indica que realmente passamos muito perto de algo muito sério, especialmente em função do despreparo institucional com o quesito segurança (ver imagens abaixo).

Há ainda que se observar que o CCH é o prédio de menor risco, pois não possuímos produtos químicos capazes de gerar explosões, como é o caso de diversos prédios que abrigam laboratórios que utilizam esses insumos em suas pesquisas Nesse sentido, esse incêndio tornou o CCH uma espécie de canário na mina, pois mostra que a possibilidade de grandes incêndios não se trata apenas de uma profecia de Cassandra.

E agora, o que fazer?

Certos acontecimentos servem como alertas para que medidas procrastinadas por uma mensuração equivocada dos riscos sejam finalmente adotadas.  Como já conversei informalmente com a reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, esse incêndio coloca a instituição diante da necessidade de ações emergenciais, a começar pela criação de uma brigada de incêndios devidamente equipada e treinada.  Além disso, há que se retomar o funcionamento efeito de uma CIPA, de forma a que se identifiquem as áreas de maior necessidade para ações preventivas.

Mas há também que se instalar sistemas de alarme e orientação para todos os prédios, de modo a que na repetição do que aconteceu no CCH, a resposta seja mais rápida e efetiva, de modo a que se evite o pior cenário que envolveria grande destruição de estruturas e mortes de membros da comunidade universitária.

Recentemente, a Assessoria de Comunicou divulgou e a mídia corporativa campista repercutiu uma nota em que a reitoria da Uenf divulgava gastos de R$ 30 milhões com equipamentos de pesquisa. Se tivéssemos veículos de imprensa de verdade, a pergunta que teria sido feita à reitora da Uenf é de qual teria sido o investimento em medidas de segurança que haviam sido adotadas para proteger esse patrimônio e aqueles que realizam suas pesquisas neles. A resposta mais provável é que o gasto na área de segurança teria sido zero, o que explicitaria o desequilíbrio de investimentos. Afinal, como dizia Darcy Ribeiro, o que faz uma universidade ser grande não são prédios novos ou equipamentos caros, mas as pessoas que trabalham nela. Nesse sentido, a proteção das pessoas deveria ser, e claramente não tem sido, a prioridade máxima.

A minha expectativa é que as ações necessárias recebam o grau de urgência que elas exigem. Do contrário, não me restará nada a mais a fazer a não ser continuar cumprindo o papel de Cassandra. Pelo menos assim, ninguém poderia fingir ignorância.

Para tristeza da Syngenta, Califórnia avança com planos para proibir o Paraquat

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Por Carey Gillamo para o “The New Lede”

A Califórnia deu um passo mais perto de proibir o polêmico paraquat, uma grotóxico que mata ervas daninhas, depois que um importante comitê legislativo estadual permitiu na quinta-feira que a medida prosseguisse.

A proibição entraria em vigor em 1º de janeiro de 2026, proibindo o “uso , fabricação, venda, entrega, detenção ou oferta para venda no comércio” de qualquer agrotóxico que contenha paraquat. O projeto de lei prevê um processo que permite aos reguladores estaduais reavaliar o paraquat e potencialmente reaprová-lo com ou sem novas restrições.

A principal preocupação citada pelos defensores do projeto de lei é a pesquisa que liga a exposição crônica ao paraquat à doença de Parkinson, uma doença cerebral incurável e debilitante considerada uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquat Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquat.

“A Califórnia é o celeiro da nação. Os trabalhadores agrícolas colocam comida na nossa mesa e devemos fazer tudo o que pudermos para tornar os seus empregos mais seguros”, disse Laura Friedman, deputada da Califórnia. “Ninguém deve correr o risco de exposição química no trabalho, levando à contração da doença de Parkinson.”

Friedman, que fez parceria com o Grupo de Trabalho Ambiental (EWG) para introduzir a medida, disse que ela foi aprovada “não apenas porque proibir o paraquat é a coisa certa a fazer”, mas também porque existem “alternativas prontamente disponíveis, mais seguras e acessíveis”.

A retirada do projeto de lei do comitê de dotações esta semana agora o prepara para votação pelo plenário da Assembleia na próxima semana. A votação deve ser concluída até sexta-feira, 24 de maio, para que a medida seja encaminhada ao Senado estadual para apreciação. É necessária uma maioria de 80 membros da Assembleia para manter o projeto de lei vivo.

Registros secretos da Syngenta  

O paraquat é um dos herbicidas mais amplamente utilizados no mundo. Os agricultores utilizam-no tanto para controlar ervas daninhas antes de plantar as suas culturas como para secar as culturas para a colheita. Nos EUA, o paraquat é usado em pomares, campos de trigo, pastagens onde o gado pasta, campos de algodão e outros lugares.

A Syngenta fabrica e vende paraquat há mais de 50 anos e afirma que as evidências científicas não apoiam uma ligação causal entre o paraquat e a doença de Parkinson.

A Syngenta afirma em seu site que se os usuários seguirem as instruções e usarem roupas de proteção adequadas, incluindo luvas e botas, “não há risco para a segurança humana”. O paraquat “não representa um risco de neurotoxicidade” e “ não causa a doença de Parkinson ”, afirma a empresa.

Ao defender o projeto de lei, no entanto, o gabinete de Friedman citou documentos internos da Syngenta descobertos pelo The New Lede em colaboração com  o The Guardian, mostrando que a Syngenta tem conhecimento há muito tempo de pesquisas científicas que mostram ligações entre o paraquat e a doença de Parkinson. Esses documentos, relatados numa série de artigos, revelaram anos de esforços empresariais para encobrir provas de que o paraquat pode causar a doença de Parkinson. 

Os  documentos  obtidos pelo The New Lede também mostraram evidências de esforços para manipular e influenciar a EPA, bem como a publicação de literatura científica que apoia a segurança do paraquat. Os documentos também mostram como a empresa trabalhou para enganar o público sobre os perigos do paraquat, entre outras estratégias secretas.

Taxas de Mal de Parkinson estão subindo

Aproximadamente 60.000 americanos são diagnosticados todos os anos com o Mal de Parkinson e, nos últimos anos, esta doença  foi classificada  entre as 15 principais causas de morte nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Além disso, a taxa de mortalidade por Mal de Parkinson aumentou mais de 60% nos Estados Unidos nas últimas duas décadas,  segundo pesquisas . 

Apesar das alegações de segurança da empresa, dezenas de países proibiram o paraquat, tanto por causa dos perigos agudos como devido às evidências crescentes de ligações a riscos para a saúde, como o Mal de Parkinson, decorrentes da exposição crónica a longo prazo. Atualmente, a Syngenta ainda vende produtos de paraquat em mais de duas dúzias de países 

O paraquat foi proibido na União Europeia em 2007 depois que um tribunal concluiu que os reguladores erraram ao descartar preocupações de segurança, incluindo evidências científicas que ligavam o Mal de Parkinson ao paraquat.  O paraquat também é proibido no Reino Unido, embora seja fabricado lá. O produto químico foi proibido na Suíça, país de origem da Syngenta, em 1989. E é proibido na China, sede da ChemChina, que  comprou a Syngenta há vários anos.

O especialista em neurologia Timothy Greenamyre , que dirige o Instituto de Doenças Neurodegenerativas de Pittsburgh, disse acreditar que “não há dúvida” de que o paraquat causa Parkinson e que o paraquat deveria “ser absolutamente banido” nos Estados Unidos.

Existem fortes dados de estudos em animais e fortes evidências epidemiológicas que apoiam a associação causal, bem como o mecanismo de ação relevante, disse ele.

“O paraquat causa degeneração seletiva precisamente daqueles neurônios que degeneram no Mal de Parkinson (dentre bilhões de outros neurônios); não causa neurodegeneração aleatória ou não seletiva”, disse Greenamyre. “Da mesma forma, a exposição ao paraquat causa acúmulo e agregação da proteína exata (entre milhares de outras), a alfa-sinucleína, que define a patologia do Mal de Parkinson. Neste contexto, a capacidade do paraquat, em qualquer dose, de modelar estas características da doença fornece um apoio convincente para o seu papel na ocorrência do Mal de Parkinson

A Califórnia tem um histórico de agir mais rapidamente do que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) na restrição de agrotóxicos que têm sido associados a sérios problemas de saúde no processo de investigação científica.

Depois que a EPA não conseguiu seguir os planos de proibir o inseticida clorpirifós em 2017, por exemplo, a Califórnia anunciou sua própria proibição em 2019. O estado citou evidências de que o clorpirifós “está associado a graves efeitos à saúde em crianças e outras populações sensíveis em níveis mais baixos”. de exposição do que o anteriormente compreendido, incluindo comprometimento do desenvolvimento cerebral e neurológico”.

A EPA assumiu a posição de que as evidências são “insuficientes para vincular a exposição ao paraquat proveniente do uso de agrotóxicos aprovados nos EUA ao Mal de Parkinson em humanos”.


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Fonte: The New Lede

Entrevistas com funcionários da fábrica refutam as promessas de Shein de fazer melhorias

Dois anos após a nossa investigação pioneira sobre as fábricas da Shein no sul da China, uma investigação de acompanhamento destaca o valor da retórica de sustentabilidade do gigante da moda online. As horas de trabalho ilegais e os salários por peça continuam a ser uma característica típica da vida quotidiana dos trabalhadores entrevistados. Daí a dúvida lançada sobre uma auditoria de fábrica encomendada por Shein. A empresa de moda ultrarrápida, que tem estado sob pressão, também levanta suspeitas devido às suas finanças opacas e porque o seu fundador desapareceu de cena.
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“Trabalho todos os dias das 8 da manhã às 10h30 da noite e tiro um dia de folga por mês. Não posso me permitir mais dias de folga porque custa muito caro.” Esta afirmação foi feita por um homem que trabalha com máquinas de costura há mais de 20 anos e, no momento das entrevistas, fazia as costuras dobradas particularmente visíveis para os produtos Shein por peça. Os nossos parceiros de investigação conversaram com ele e com outros 12 trabalhadores têxteis que trabalham para fornecedores do grupo de moda chinês no final do verão de 2023. As entrevistas foram realizadas em instalações de produção localizadas a oeste da vila de Nancun, mas ainda na área metropolitana de Guangzhou, no sul da China.

Visão geral da investigação de acompanhamento

Período da pesquisa: final do verão de 2023.
Entrevistados: 13 funcionários (7 mulheres, 6 homens) com idades entre 23 e 60 anos.

Seis fábricas: Parque Industrial Chen Bian Garment, Parque Industrial Yuangang, Li Village, Zhi Village e Parque Industrial Tangxi. Todos eles estão localizados no distrito de Panyu, em Guangzhou, na província de Guangdong, China.

Ao contrário de algumas outras empresas de moda, a Shein não revela seus fornecedores. Os processos de produção da Shein foram estabelecidos com base nas respostas dos entrevistados e nos produtos Shein visíveis durante a fabricação.

Na própria Nancun, onde está localizada a sede da Shein e onde as entrevistas para o nosso relatório “ Trabalhando para a Shein ” ocorreram dois anos antes, a atmosfera era muito arriscada para realizar quaisquer entrevistas de acompanhamento significativas . Os meios de comunicação acompanharam nossa investigação e se aprofundaram neste assunto, o que colocou o lado negro do brilhante mundo digital de Shein no centro das atenções em todo o mundo, exercendo assim forte pressão sobre a empresa em rápida expansão para se justificar.

Trabalhadores costurando roupas para Shein. 2023, Cantão. ©anônimo

Semana de 75 horas ainda é a norma

Os seis locais de produção visitados nesta ocasião incluíam, na sua maioria, pequenas oficinas que empregavam entre 40 e 80 trabalhadores, mas também incluíam duas fábricas maiores com até 200 trabalhadores. Em ambos os casos, os entrevistados afirmaram trabalhar em média 12 horas por dia – sem intervalos para almoço e jantar – pelo menos seis, mas geralmente até sete dias por semana. Descobriu-se que uma empresa fechava oficialmente à noite – mas apenas às 23 horas. A horrenda carga de trabalho mencionada pelo trabalhador citado acima parece continuar a ser a norma. Em outras palavras, as semanas de 75 horas que descobrimos há cerca de dois anos ainda parecem ser comuns na Shein. Na sua resposta detalhada* a esta descoberta e às nossas perguntas, a empresa afirmou que “as longas horas de trabalho são um problema bem conhecido e de longo prazo”. De acordo com o seu Código de Conduta para fornecedores, estes não devem trabalhar mais de 60 horas semanais (incluindo horas extras). Sem falar que os funcionários deveriam ter pelo menos um dia de folga por semana.

Em relação aos salários, também quase não houve alterações, segundo os entrevistados. Eles forneceram números de ganhos semelhantes aos do relatório de 2021. Dependendo da fábrica, da estação e do nível de especialização (e incluindo apenas horas extras excessivas!), os salários dos trabalhadores comuns flutuam entre 6.000 e 10.000 yuans por mês (equivalente a CHF  4.260,00-7.100,00), embora haja fortes flutuações sazonais e o salário ainda depende do número de itens produzidos.

Qualquer pessoa com quase 30 anos ainda é considerada jovem para trabalhar na produção desses fornecedores da Shein. Isso ocorre porque eles precisam ter bastante experiência profissional para lidar com pequenas quantidades e padrões em constante mudança. É por isso que especialistas como o mencionado anteriormente, especializados em pontos de cobertura, às vezes recebem mais de R$ 7.100,00 por mês. Outros costureiros relataram salários entre R$ 4.260,00 e  R$5.700,00 yuans, enquanto os verificadores de qualidade relataram cerca de R$ 4.970,00

Céu noturno acima de Guangzhou. ©panoramas

Auditoria obscura e “que tal” flagrante

Após a nossa investigação pioneira publicada em meados de novembro de 2021, o recém-contratado gestor de sustentabilidade de Shein garantiu aos meios de comunicação que a sua empresa estava a levar a sério as terríveis descobertas. No entanto, a empresa reagiu explicitamente somente depois que “ Inside the Shein Machine ” foi transmitido pelo Canal 4, um ano depois. A resposta da empresa a esta reportagem investigativa da TV também mencionou uma auditoria destacando que tudo era completamente diferente e muito melhor nas fábricas da Shein em Guangzhou. Isto despertou a nossa curiosidade e deu o ímpeto para estas entrevistas de acompanhamento. Especificamente, a “Auditoria de investigação salarial de fábrica de fornecedores” encomendada no início de 2022 afirmou que os salários pagos pelos fornecedores Shein no sul da China estavam acima da média. Isto é o que diz o conciso  resumo online do relatório. Para nos permitir compreender como se chegou a esta conclusão, pedimos primeiro a Shein e depois às três organizações de auditoria SGS, TÜV Rheinland e Intertek, que realizaram a auditoria em conjunto, que nos permitissem ver o relatório completo – mas sem sucesso.

O resumo online parece mais uma mensagem reativa de relações públicas do que uma análise profissional. Isto não se deve apenas à escassez de detalhes, mas principalmente à falta de dois elementos-chave, sem os quais uma auditoria salarial simplesmente não faz sentido. Em primeiro lugar, não há menção ao horário de trabalho. Quando indagamos mais, Shein confirmou que os salários cotados eram os valores totais pagos. No entanto, avaliar o rendimento auferido sem ter em conta as horas trabalhadas é tão significativo como medir a velocidade numa corrida com cronómetro, mas sem referência à extensão do percurso. E, no entanto, o que foi criticado foi e é precisamente o horário de trabalho excessivamente longo e – também segundo a lei chinesa – ilegal suportado. Ignorar completamente esta questão principal e referir-se, em vez disso, a níveis salariais supostamente acima da média é “que tal” na sua forma mais pura.

A segunda deficiência da auditoria é a falta de menção ou ocultação dos salários mais baixos. No entanto, eles – e não, por exemplo, o salário médio – seriam o indicador mais relevante de potenciais violações de direitos e da ameaça de pobreza. O fato de esses dados terem sido coletados é sugerido pela primeira, mas agora excluída, versão do resumo online de Shein. Esta versão mencionava montantes salariais específicos, mas em cada caso apenas os mais elevados, não os mais baixos.

Uma investigação salarial posterior, que também foi publicada apenas como  resumo , destaca, entre outros pontos, que o pagamento de horas extras representa em média 37 por cento dos salários pagos, o que é uma proporção enorme.

Cotações e relatórios de CSR excluídos

Isto pode explicar por que as três empresas de auditoria retiraram do site mencionado os elogios que faziam ao seu cliente. Afirmou: “A Shein assume claramente a sua responsabilidade em garantir que os trabalhadores empregados pelas fábricas dos seus fornecedores recebam salários justos pelo trabalho concluído”. 

Esta suposta citação foi excluída do site de Shein. (Captura de tela do site de Shein)

Desde o início de 2023, resta apenas uma captura de tela desta citação. Durante a investigação, Shein não conseguiu explicar por que o documento desapareceu do site. Enquanto isso, a TÜV Rheinland disse que “nunca emitiu ou aprovou tal declaração”. Tal como a SGS e a Intertek, esta empresa realiza milhares de auditorias deste tipo todos os anos para todos os tipos de clientes e é um dos fornecedores líderes nesta indústria controversa. É controverso porque as auditorias sociais não são transparentes e muitas vezes não detectam adequadamente problemas genuínos que afetam os locais de trabalho. É por isso que são frequentemente utilizados como folha de figueira para encobrir, especialmente pelas empresas têxteis.

Os dois relatórios de sustentabilidade anteriores também foram removidos do site da Shein. O primeiro parecia ser uma reacção precipitada ao escândalo das 75 horas, enquanto o segundo, publicado em meados de 2023, era mais detalhado, mas não reconheceu o enorme problema das horas extraordinárias – muito menos forneceu detalhes de medidas específicas para o remediar. Segundo Shein, uma “redesenho” da seção relevante de seu site causou essa exclusão.

Mas voltando a Guangzhou. Alguns entrevistados observaram um aumento significativo no número de câmeras de vigilância instaladas dentro e no entorno dos fornecedores. Eles acreditavam que as imagens são encaminhadas à Shein em tempo real para permitir que a empresa faça cumprir seus regulamentos. Uma delas é a proibição do trabalho infantil. Estávamos em férias de verão quando realizávamos as nossas entrevistas e também podíamos ver crianças e jovens nas oficinas. A babá costumava ser realizada no local de trabalho, especialmente nas pequenas empresas não regulamentadas. Os adolescentes, que tinham 14 ou 15 anos, segundo estimativas dos investigadores, realizavam tarefas simples, como embalar, ou sentavam-se eles próprios nas máquinas de costura, instruídos pelos pais, presumivelmente para aprenderem o seu ofício. Ainda não está claro se eles foram pagos para isso. Shein sublinha a sua “estrita tolerância zero” para o uso de trabalho infantil e promete financiar 25 creches neste ano. Em 2023 já montaram 10 desses locais. Shein também nega qualquer acesso às imagens da câmera de vigilância.

Grande risco de incêndio e alterações não pagas

Com base nas observações feitas durante a investigação, a proibição oficial de fumar também não é aplicada. Os investigadores encontraram trabalhadores com cigarros acesos nas escadas e até nas entradas dos armazéns de tecidos. O fato de a maior parte dos produtos e restos de tecido terem sido simplesmente empilhados no chão aumenta o risco de incêndio. Segundo os entrevistados, apenas os equipamentos de trabalho e as rotas de fuga são verificados durante as inspeções esporádicas nas fábricas, mas não o cumprimento da proibição de fumar.

Mais temidos entre os costureiros do que estas inspeções são os controles de qualidade aparentemente rígidos, o que é bastante surpreendente para um fabricante de moda de baixo custo como a Shein. Se a qualidade não corresponder às expectativas da empresa, pode custar caro. Um supervisor de verificação de qualidade afirmou que sua empresa seria “punida” com o cancelamento de um pedido para cada lote defeituoso. E qualquer costureiro cujo trabalho não esteja à altura (e que possa ser facilmente identificado pelas pequenas encomendas) tem que fazer alterações sem remuneração, segundo os entrevistados. “Quem comete o erro é responsável por corrigi-lo. Você tem que resolver o problema no seu horário de trabalho”, explica um supervisor de 50 anos. Uma pessoa mencionou que controladores de qualidade descuidados teriam até que pagar uma multa entre 300 e 1.000 yuans, dependendo da condição do lote defeituoso. Esta prática provavelmente aumentará significativamente a pressão sobre a força de trabalho, que já é remunerada apenas de acordo com a quantidade de itens produzidos.

O modelo de fornecimento da Shein em Guangzhou parece ser voltado para empresas menores, que tradicionalmente produzem mais para o mercado chinês. O grupo anuncia essas empresas em feiras e em um site especial, mencionando que não é necessária experiência em exportação.

Fast fashion de avião. Shein recruta novos fornecedores em seu site. (Captura de tela do site de Shein)

Embora as expectativas de moda de baixo custo em termos de qualidade no mercado interno correspondam ao preço, a Shein aparentemente quer impor padrões mais elevados para o mercado internacional – provavelmente para se livrar da má reputação dos seus produtos . Mas se você espera que o trabalho seja executado com cuidado, você precisa reservar tempo para isso e pagar preços correspondentemente mais altos aos fornecedores. A Shein impõe exigências rigorosas não apenas aos seus costureiros, mas também a outros  prestadores de serviços . Por exemplo: os fotógrafos devem ser capazes de capturar de 70 a 80 estilos em uma sessão fotográfica de oito horas, quatro a cinco vezes por semana; os modelistas devem entregar mais de 20 rascunhos exclusivos por mês; e os editores de retoque de imagens devem recolorir 90 fotos por dia. Então, se você está se perguntando como a Shein pode lançar tantos produtos novos: tudo se resume a um trabalho por peça em todos os níveis.

Fundador desaparecido e vendas misteriosas

Shein também continua a mostrar falta de transparência sobre sua estrutura, lucros e proprietários. Tem presença no mercado em mais de 150 países, 19 escritórios com 11.000 funcionários e parcerias com 4.600 designers e mais de 5.000 fornecedores: estes são os escassos números da empresa que aparecem no seu site. Para uma empresa global que supostamente se prepara para um  IPO e que, segundo a  Bloomberg , valeu 45 mil milhões de dólares em Janeiro deste ano, estes são poucos factos preciosos.

É por isso que também atualizamos a nossa  análise de 2021 da complexa estrutura do Grupo. Como já ficou evidente na época, a Roadget Business em Cingapura tornou-se agora a sede global.  

A estrutura de grupo atualizada de Shein em 2024.

Segundo dados do registo comercial, este ainda é propriedade da Beauty of Fashion Investment. Mas ainda não está claro quem é o dono desta empresa, que está registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. De acordo com o registro de lobby dos Estados Unidos  , o fundador da Shein, Xu Yangtian, tem uma participação de 37 por cento no grupo, mas também não está claro se esta é detida na Beauty of Fashion ou em outra empresa offshore.

E depois a surpresa: Xu, que ainda atua como CEO de acordo com vários  relatos da mídia , deixou o Conselho de Administração da Roadget já em março de 2023. Isso é confirmado por documentos do Registro Comercial de Cingapura. No entanto, Shein nunca deu publicamente qualquer razão para a retirada de uma figura estratégica importante. Leonard Lin Zhiming e o cofundador Gu Xiaoqing agora gerenciam as principais subsidiárias no lugar do lendário patrono Shein. E há novas subsidiárias surgindo o tempo todo. Uma delas é a Fashion Choice, que foi fundada em outubro de 2021 e também realiza vendas na Suíça.

Os números do volume de negócios do grupo aninhado de empresas são igualmente vagos. Os relatórios anuais das subsidiárias à nossa disposição mostram que, em 2022, a Shein gerou vendas combinadas de 13,8 mil milhões de dólares nos três principais mercados da União Europeia, dos EUA e do Reino Unido. Este valor é significativamente inferior à estimativa de receitas totais fornecida pelo  Financial Times para esse ano (22,7 mil milhões de dólares), com base numa apresentação confidencial aos investidores. A Shein realmente gera um volume de negócios tão grande no resto do mercado global? Ou será que os números elevados que têm circulado têm algo a ver com o planeado IPO? Segundo  relatos do final de Fevereiro, isto poderá não acontecer em Wall Street, mas sim em Londres, ao contrário do que foi originalmente planeado.

Os políticos estão alarmados, mas (ainda) não tomaram nenhuma atitude

A falta de mudança em termos de horas extraordinárias excessivas e outras conclusões das nossas investigações indicam: Shein só assumirá mais responsabilidade social quando sujeita a pressão externa. Um IPO forçaria a empresa de moda descartável a tornar-se mais sustentável? Dificilmente. Os recentes investimentos de milhares de milhões de dólares mostram que ainda há apoiantes suficientes que vêem o modelo de negócio da Shein como uma oportunidade de lucro e que não consideram o greenwashing como um risco de investimento.

Contudo, os parlamentos e os governos dispõem da alavanca mais eficaz para remediar as queixas acima destacadas. Na altura da nossa investigação pioneira em 2021, Shein ainda era uma estrela relativamente nova e muito brilhante neste setor. Três anos depois, os políticos já não podem ignorar os problemas causados ​​por este grupo – também porque Temu seguiu agora os passos online de Shein, oferecendo uma gama ainda mais ampla de produtos de baixo custo. Na verdade, várias iniciativas introduzidas na França , na UE, nos Estados Unidos e também  na Suíça reflectem o alarme sentido pelos legisladores. Mas será que eles também têm coragem de finalmente colocar as empresas de fast fashion em seu lugar? E não apenas aprovando uma fraca “Lex Shein” para manter afastado o concorrente de baixo custo da China para proteger a indústria da moda, que está sob pressão, mas tomando medidas eficazes. Porque o que precisamos é de uma indústria da moda onde ninguém tenha mais que costurar roupas 12 horas por dia – roupas que primeiro voam ao redor do mundo e depois acabam no lixo, quase sem serem usadas.

* Para garantir transparência e boa legibilidade, fornecemos o e-mail de resposta completo de Shein em um documento separado .

Imagem 1: A imagem da capa foi tirada da pesquisa Public Eye de 2021 sobre Shein ©panos

Imagem 2: A imagem dos trabalhadores em Guangzhou foi tirada secretamente durante a nossa visita em 2023.

Imagem 3: A imagem do céu noturno sobre Guangzhou foi tirada da pesquisa Public Eye de 2021 sobre Shein ©panos


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Pequenos microplásticos inundam a costa nordeste da Venezuela

O estudo também encontrou microplásticos menores que cinco micrômetros do Caribe ao Ártico, Esses materiais afetam a nutrição correta dos peixes para consumo humano. .Polímeros minúsculos resultam da fragmentação de plásticos maiores

microplasticos-Venezuela-996x567Os resíduos plásticos prejudicam corpos d’água em todo o mundo, mas há um risco maior: microplásticos menores que 5 micrômetros, invisíveis aos olhos. Crédito da imagem: rorozoa/Freepik .

Um estudo publicado este mês na revista Marine Pollution Bulletin revela que 60% do plástico encontrado em amostras de água são partículas menores que cinco micrômetros, uma unidade de medida mil vezes menor que um milímetro.

Em aproximadamente onze a quinze litros de três locais – perto do rio Manzanares, na costa nordeste da Venezuela, do Mar Chukchi, no Oceano Pacífico Ártico, e da Corrente do Golfo entre a Flórida e Nova Iorque – foram encontradas 304 partículas.

Nenhum deles tinha mais de 53 micrômetros, e o material da Venezuela revelou-se aproximadamente dez vezes mais numeroso do que nas outras regiões. Segundo o estudo, muito provavelmente por se tratar de uma região costeira com maior atividade humana.

“ “[…] pedaços maiores de plástico provavelmente estão se decompondo e se degradando no meio ambiente, produzindo partículas menores que também se decompõem .”

Luis Medina Faull, Escola de Ciências Marinhas e Atmosféricas, Stony Brook University, Estados Unidos

Essa constatação contrasta com pesquisas anteriores que conseguiram capturar partículas maiores que 300 micrômetros com mais facilidade, devido às técnicas de análise utilizadas.

“Os polímeros mais abundantes foram o polipropileno (PP), o poliestireno (PS) e o tereftalato de polietileno (PET), em linha com a composição dos resíduos plásticos gerados em todo o mundo”, destaca a equipe.

Segundo o biólogo marinho Luis Medina Faull, primeiro autor do trabalho que é vinculado à Universidade Stony Brook de Nova York, Estados Unidos, a hipótese principal é que este material muito pequeno seja resultado da fragmentação de plásticos maiores que tenha estado na natureza durante mais tempo.

“Após análise, é mais provável que pedaços maiores de plástico estejam se fragmentando e se degradando no meio ambiente , produzindo partículas menores que também se decompõem”, explica Faull.

Geralmente, as técnicas disponíveis filtram a água e utilizam reações químicas para identificar os elementos, que não são perceptíveis ao olho humano. Isso geralmente funciona com partículas maiores de plástico.

Porém, plásticos menores que 300 micrômetros se misturam a outros elementos, como a matéria orgânica, o que dificulta muito sua identificação. Os cientistas também utilizaram uma metodologia específica de laser para fazer o material reagir à luz e assim conseguir identificá-lo.

“Do ponto de vista biológico, essas partículas menores representam um risco maior que as maiores, porque podem aderir, por exemplo, a bactérias patogênicas, transportando-as pelo caminho. Pedaços maiores de plástico se acumulam e bloqueiam os órgãos dos peixes, citando outra situação, mas partículas menores podem passar pelos tecidos”, alerta Faull.

Na Venezuela, um estudo de 2023 publicado na Revista de Biologia Tropical já havia encontrado no estado de Sucre – mesmo local de coleta do estudo do Boletim de Poluição Marinha – microplásticos menores que um milímetro em cerca de 600 de um total de 800 espécimes analisados ​​de um espécie de peixe amplamente comercializada para consumo humano, Sardinella aurita .

“Provavelmente, a maior parte dos materiais plásticos que inundam os ambientes marinhos são esses muito pequenos, mais difíceis de filtrar em amostras. O animal ingere muitas dessas partículas pela água, e estas dão a impressão de que o peixe está satisfeito. Ou seja, leva à má nutrição do animal”, alerta Ivis Fermín, autor do estudo sobre a Sardinella e investigador do Instituto Oceanográfico Venezuelano da Universidade de Oriente.

Com a investigação de 2024 a alertar que os plásticos maiores estão a fragmentar-se, é provável que vários países latino-americanos também enfrentem a mesma situação. Na Corrente do Golfo, por exemplo, a água é transportada para norte, o que contribui para a dispersão de materiais.

Um relatório de 2023 do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estima que até 2021, Brasil, México, Argentina, Venezuela e Colômbia foram os países que mais produziram materiais sólidos por ano, incluindo plásticos. Muitos deles desembocam em rios que deságuam no mar, como o Manzanares.

O engenheiro Joaquín Benítez Maal, diretor de Sustentabilidade Ambiental da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, que não participou do estudo de 2024, alerta que é preciso reduzir o uso de plásticos de descarte rápido e melhorar a coleta de lixo urbano .

“É necessário um grande investimento para que esse material chegue a aterros bem administrados. E, claro, a reciclagem deve se tornar um hábito diário nas cidades ”, enfatiza.

Embora a reciclagem deva ser uma atividade rotineira, apenas 2% do lixo venezuelano é separado e reciclado corretamente, segundo dados de 2022 da ONG Transparência Venezuela.

“Se encontrarmos tantas partículas pequenas em quase quinze litros de água, encontrando entre cinco e seis vezes mais elementos do que em estudos anteriores, é possível estimar a quantidade em volumes maiores. Educar as pessoas é importante, mas a indústria do plástico deve ser a principal responsável”, alerta Faull.

Link para o estudo no  Marina Pollution Bulletin


Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Apocalipse anunciado: Syngenta volta a vender o Tiametoxam, conhecido por exterminar abelhas

tiametoxam

Ibama havia proibido a pulverização do tiametoxam por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores — Foto: Divulgação

Graças a uma decisão obtida no dia 24 de abril na justiça do Rio Grande do Sul, a multinacional suiço/chinesa Syngenta voltou a comercializar o agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam que é conhecido por exterminações massivas de polinizadores, incluindo as abelhas.

Lembremos que a Syngenta conseguiu reverter na justiça as restrições que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impôs, em fevereiro, sobre a produção, a venda e a aplicação do Tiametoxam no Brasil. O IBAMA havia proibido a pulverização do insumo por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores. O processo de reavaliação do defensivo no Ibama estendeu-se por quase dez anos quando, finalmente, houve a proibição para o uso de Tiametoxam.

O caso do Tiametoxam é apenas o primeiro exemplo dos efeitos danosos da aprovação do Pacote do Veneno que foi sancionado pelo presidente Lula no dia 28 de dezembro. Com isso, a Syngenta poderá continuar vendendo esse assassino de abelhas.

Quem paga pelas apostas do Lula?

lula dança

Por Douglas Barreto da Mata

Apesar de todas as minhas críticas, algumas com tom até deselegante, reconheço, uma coisa não se pode subtrair da biografia de Lula:

Sua incrível capacidade de perceber o ambiente ao seu redor, e de tomar decisões para influir nesse ambiente.

A despeito dos chavões e lugares comuns acerca da sua origem, e o quão inédito seria um migrante de pau de arara possuir tais “dons”, como se inteligência e sabedoria para viver fossem qualidades exclusivas dos ricos e letrados (mito despedaçado na ótima obra de Suassuna, O Auto da Compadecida), o fato é que o “baiano” (como era pejorativamente apelidado nos tempos de ABC) é um cabra arretado, quando se trata de sobreviver e mudar a realidade.

Talvez por isso, justamente por isso, que eu seja tão ríspido com ele, porque se ele fosse um imbecil qualquer, eu diria: “está dentro do previsto”.

Se fosse um FHC estava tudo certo, não dava para esperar muito daquele sujeito mesmo.

Mesmo toda essa genialidade política de Lula não o salvou de si mesmo.

Explico:  Lula, como todo líder genial e carismático, é ameaçado constantemente pela sua própria figura, e Lula sendo Lula, com sua origem e sua carreira política, tende a ser massacrado pelas elites, e cobrado por sua base social.

O assédio das elites é auto explicativo, ainda que Lula tenha passado boa parte de seus anos e anos de vida pública tentando convencê-los de que é “confiável”.

Já o descontentamento da sua base social é diretamente ligado ao cumprimento ou a frustração das expectativas que ele mesmo, Lula, criou em torno de si.

Então, aqui um momento de pausa dramática:

Lula não é vítima, não é um coitado incompreendido que sofre por ser rejeitado pelos ricos, e acossado pelos mais à esquerda que ele, e/ou pelos pobres e classe média ingratos, como alguns querem acreditar.

Nem tampouco, é um refém da “governabilidade” ou de um tipo de fatalismo que o coloca como um boneco imóvel no cargo que ocupa.

Seu incômodo é resultante da conta política que ele fez, ao pretender ser o eterno conciliador, e com o seu sonho de ser um JK mais contundente, ou um Vargas menos autoritário. Não deu, não foi nem uma coisa, nem outra.

Por certo, não dá para colocar a culpa só nele, sim, há contingentes históricos poderosos, mas o fato que ele é a variável principal dessa equação, inclusive para alterar a realidade que o cerca.

Nesse quesito, Lula falhou ao se adequar a esta realidade, sem ao menos tentar propor um debate de desconstrução, de ineditismo institucional, e limitou-se a fazer o permitido, e mesmo assim, teve sua sucessora golpeada, com a mão de Obama que lhe deu tapas nas costas, e que cuja administração cevou e treinou os golpistas de togas e anéis de doutores que o prenderam.

Lula renunciou ao seu fazer histórico, que pode ser (mal) definido como a nossa capacidade de entender que há coisas que nos cercam, e nos empurram para uma direção, mas que há espaço para que assumamos certo controle para mudar estas coisas.

Ceder (sempre) à “governabilidade” é uma postura cretina, porque Lula sabe que a “governabilidade” é um saco sem fundo, que se alimenta do medo dos que não querem perdê-la, enquanto ela pede mais e mais concessões.  Lula é assim, um desperdício, um desperdício calculado, porém.

Agora, nesse triste episódio no Rio Grande do Sul (RS), que era mais previsível e certo que a morte e os impostos, Lula faz uma aposta.

Como não conseguiu definir no seu terceiro mandato qualquer agenda política viável, nem mesmo a defesa de seu mandato, quando bárbaros assistidos, carinhosamente, por militares vandalizaram Brasília, Lula “entregou” a pauta à uma “defesa da democracia” para o judiciário.

O judiciário que anos antes alimentou esse mesmo pessoal, quando se omitiu na cassação de Dilma, e o sequestrou na sede da Polícia Federal no Paraná

Os militares? Bem, os militares acolheram de volta dos vândalos, logo depois dos crimes, em flagrante associação ou bando (Artigo 288 do Código Penal), e mesmo assim, nada. A cena de blindados das forças armadas impedindo os policiais de efetuarem prisões dos acampados (em frente ao Comando Militar) é o retrato trágico do governo Lula, que desde ali seria marcado para sempre, como está.

Dúbio, fraco, acovardado, acossado.

No RS, Lula enxergou a sua possibilidade de recuperar terreno.  No Rio de Janeiro também.

Está em andamento uma estratégia que passa pela cassação do governador e dos seus aliados, e Lula imagina que o PT seria maior beneficiado, ao mesmo tempo que força Eduardo Paes a “convidar” um petista para a vice na chapa à prefeitura neste ano, pois desse modo, o PT herdaria a prefeitura em 2026, quando Paes renunciaria para concorrer ao governo do estado.

Como uma parte das grandes forças não sobreviverá no RJ para concorrer ao cargo de governador tampão nestas eleições extraordinárias, com a cassação do governador, vice e presidente da Alerj, o PT apresentaria um candidato em condições de se eleger, e tentar a reeleição em 2026, ou ceder a vaga para Paes, em uma acordo que garantiria a vice-governadoria para o PT (e espaço no governo), além de uma vaga na chapa de senador.

Pois bem, no Sul a jogada de Lula parece ser outra.  É emotiva, é a pieguice com a qual Lula imagina dominar a cena. Os vídeos de Lula beijando e abraçando as pessoas no abrigo, com o fotógrafo onipresente Stuckert ensaiando os desabrigados para o melhor “take” destruíram até essa coisa cafona, porém genuína de Lula, o seu trato com os mais pobres. Ficou feio.

Esta mesma pieguice cafona, que contaminou a todos, que parece ser um fetiche do Brasil caboclo pelos seus compatriotas de sangue europeu e olhos azuis, se materializou em uma “semi intervenção” federal, com a criação de um ministério da reconstrução. Como assim? O resto do país perguntará? Está tudo certo nas terras da Amazônia? No Cerrado? No Nordeste?

Será que essas regiões precisam se auto imolar para que tenham tamanha atenção? Ué, não é o “agro” a solução de tudo?

Por que um estado que se orgulha de sua incansável capacidade de gerar riquezas, dentro da narrativa da herança de organização rigorosa alemã e italiana, de uma ética de perfeição, frente a um país de mamelucos preguiçosos e corruptos, não conseguiu impedir o cataclisma, e pior, não conseguiu planejar como sair do lamaçal onde eles mesmos se meteram?

Por que um dos estados mais “agro” do país não consegue se reerguer com as suas próprias pernas, sendo certo que os estragos foram muito mais violentos, justamente, por causa da devastação causada por essa atividade econômica?

Não seria justo debater que este setor ajude a pagar a conta com impostos de reparação?

Não seria papel do líder máximo do país ajudar, principalmente os mais pobres, e simultaneamente cobrar responsabilidades dos ricos que causaram a tragédia, ou ao menos, concorreram fortemente para que ela acontecesse?

Lula tenta suprir sua carência de afeto, alimento principal dos líderes carismáticos, com a exploração rasteira de um fenômeno que um governo chamado de esquerda, ou progressista, ou vá lá, responsável, deveria estudar, debater e propor saídas, sem repetir as velhas fórmulas popularescas de crianças no colo, algum dinheiro nas contas, e bilhões para empresas e contratos.

Até quando Lula vai seguir matando Lula?

Silêncio sepulcral nos Pampas, onde até o Minuano virou tornado.

Queda na locomoção e falhas no sistema imune: estudo mostra como agrotóxicos afetam abelhas nativas

Após 48 horas de exposição aos agrotóxicos imidacloprido, piraclostrobina e glifosato, insetos da espécie Melipona scutellaris apresentaram alterações morfológicas e comportamentais que podem levar ao enfraquecimento das colmeias, comprometendo a polinização e a produção de alimentos

51678O grupo de abelhas alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso (foto: Graziele Luna)

Julia Moióli | Agência FAPESP 

Estudo conduzido por pesquisadores das universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Carlos (UFSCar) e Federal de Viçosa (UFV) revelou como três agrotóxicos comumente utilizados na agricultura – imidacloprido, piraclostrobina e glifosato – afetam a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona scutellaris: sozinhos ou em combinação, os compostos modificam a atividade locomotora dos animais e reduzem suas defesas. Os resultados do trabalho foram publicados recentemente na revista científica Environmental Pollution.

O uso indiscriminado de agrotóxicos e suas consequências para a sobrevivência das abelhas são um tema cada vez mais debatido e estudado em todo o mundo. No entanto, a maioria dos trabalhos científicos relacionados envolve espécies europeias e norte-americanas. Aqui no Brasil, o foco tem sido espécies nativas sem ferrão, como a Melipona scutellaris, que desempenham papel vital na polinização de diversas plantas silvestres e culturas com relevância econômica.

Neste trabalho, conduzido no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP e apoiado por meio de dois projetos (17/21097-3 e 21/09996-8), um grupo de pesquisadores avaliou os efeitos subletais – ou seja, que não causam a morte – dos pesticidas imidacloprido, piraclostrobina e glifosato no comportamento, na morfologia e na fisiologia da espécie. Para isso, em laboratório, expuseram oralmente os animais às substâncias de forma isolada e em combinação por 48 horas e, em seguida, compararam os resultados aos de um grupo-controle.

O perigo desses agrotóxicos para as abelhas ficou claro: o grupo alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso, órgão relacionado ao sistema imunológico desses insetos.

“Observamos que, tanto em combinação quanto isolados, os agrotóxicos interferiram seriamente no comportamento das abelhas, causaram danos no corpo gorduroso e comprometeram as atividades tanto de proteínas importantes para o sistema imune quanto para a sobrevivência celular”, conta Cliver Fernandes Farder-Gomes, pesquisador do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSCar e primeiro autor do estudo.

Segundo Farder-Gomes, tais resultados indicam que, mesmo que essas abelhas sobrevivam à exposição, elas passarão a ter sistemas imunes deprimidos, que não funcionam adequadamente no combate a bactérias, o que pode aumentar a propensão a infecções.

“A mortalidade das abelhas sempre causa um choque, mas é importante lembrar que, muitas vezes, sobreviver aos agrotóxicos pode ser ainda mais problemático porque enfraquece e diminui as colmeias, impactando não só a produção de mel como a de frutas e legumes, por conta do déficit de polinização”, destaca Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, professora do CCA-UFSCar, coordenadora do grupo de trabalho para o desenvolvimento de métodos para testes de toxicidade em abelhas nativas brasileiras junto à Comissão Internacional para as Relações Planta-Polinizador (ICPPR, na sigla em inglês) e coautora do trabalho.

Políticas públicas

Para complementar esses resultados e estabelecer um panorama completo dos malefícios dos três pesticidas, os pesquisadores pretendem agora analisar sua influência na expressão de outras proteínas e também testar a ação das substâncias em espécies distintas de abelhas nativas.

De acordo com Osmar Malaspina, professor do Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, a ideia é que, por revelar impactos com consequências de longo prazo tanto na biodiversidade quanto na segurança alimentar, o estudo realizado por Farder-Gomes dê suporte aos órgãos públicos para o estabelecimento de políticas mais restritivas, como tem acontecido nas últimas décadas com outras pesquisas do Grupo de Pesquisa em Ecotoxicologia e Conservação de Abelhas (Leca) e o Grupo de Pesquisa Abelhas e os Serviços Ambientais (ASAs), liderados por ele e por Nocelli.

“Nossos mais de 80 artigos e livros, entre outros trabalhos, têm sido utilizados ao longo dos anos, principalmente pelo Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], para restringir o uso de agrotóxicos – foi o caso, por exemplo, do inseticida fipronil, que tem sido o maior responsável pela mortalidade de abelhas”, diz Malaspina.

Nocelli faz questão de destacar que não se trata de comprometer a agricultura brasileira – pelo contrário, a função dos estudos científicos é melhorá-la. “Nosso objetivo é sempre pensar em uma produção agrícola mais sustentável, harmonizando agricultura e conservação, pois só assim teremos segurança alimentar no futuro”, finaliza.

O artigo Exposure of the stingless bee Melipona scutellaris to imidacloprid, pyraclostrobin, and glyphosate, alone and in combination, impair its walking activity and fat body morphology and physiology pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0269749124004974?dgcid=rss_sd_all.


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Fonte: Agência Fapesp

Estará Campos preparada para a próxima grande inundação? Tudo indica que não!

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Enquanto assistia a cenas estarrecedoras de cidades inteiras sendo engolidas pelas águas dos rios no RS, me coloquei a pensar o que acontecerá aqui em Campos dos Goytacazes se tivermos uma combinação semelhantes de fortes chuvas nas bacias do Paraíba do Sul e do Muriaé nos próximos anos.  Como já se ensaiou em anos recentes com a elevação do nível dos rios e a entrada de suas águas em partes da cidade, também pudemos ver diferentes prefeitos ostentando impecavelmente limpos jalecos da Defesa Civil como se fossem uma criança indo pela primeira a um desfile de Sete de Setembro.

Mas e o orçamento destinado à Defesa Civil? E os investimentos na manutenção de diques e barragens? E a limpeza de canais com a necessária recomposição das matas ciliares? E, mais ainda, os planos para iniciar o urgente processo de adaptação climática, começando por Santo Eduardo?

Cerca de 90% da população de Santo Eduardo foi atingida pelas fortes chuvas  Folha1 - Geral

Quem assiste hoje de forma aliviada e condescendente às cenas que mostram a desgraça do povo pobre do Rio Grande do Sul deveria estar tomado com o mesmo de alarde e urgência daqueles que hoje estão com água até o pescoço ou abrigados em ginásios de esportes sabendo que não terão mais casas para onde voltar quando as enchentes finalmente retrocederem porque elas foram levadas pelas águas?

Uma coisa é certa: a desgraça dos gaúchos não é algo natural, mas foi produzido por um sistema que despreza os conhecimentos científicos e os alertas sobre a necessidade de se mudar as formas de usar a paisagem natural e de se investir na conservação ou construção de estruturas de adaptação climática.

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05/09/2023, Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

E sim, quem hoje acha que está fora de perigo precisa saber que esse é um sentimento ilusório e que nas próximas chuvas o Rio Grande do Sul poderá ser aqui.

Adaptação climática não é gestão de desastres

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Por Ima Vieira para “Liberal Amazon”

Quando abordamos as mudanças climáticas, inevitavelmente nos deparamos com dois conceitos interligados: mitigação e adaptação. Mitigação das mudanças climáticas implica em evitar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera prevenindo assim, o aumento das temperaturas do planeta para níveis mais extremos. 

Por sua vez, adaptação às mudanças climáticas requer a modificação de comportamentos, sistemas e até mesmo, estilos de vida visando proteger nossas famílias, economias e o ambiente em que vivemos dos impactos adversos das alterações climáticas. 

Em um mundo em aquecimento, a experiência de um clima diferente não exige necessariamente uma mudança geográfica; o clima está se transformando em nosso próprio ambiente. Na Amazônia por exemplo, já tiveram aumentos extremos de temperatura de mais de 3° C em relação a década de 1960 na parte noroeste do bioma (nos estados de Amazonas e Roraima) e no interior do Pará.

As mudanças climáticas impactam a segurança alimentar, a disponibilidade de água e localização para construção de moradias. Além disso, nos deparamos com desafios emergentes, como a necessidade de combater temporadas de incêndios florestais mais prolongadas e intensas, gerenciar potenciais surtos de doenças até então inexistentes e incentivar o desenvolvimento urbano longe de áreas onde gostamos de viver, como nas áreas costeiras e nas margens dos rios.

As soluções de adaptação variam de lugar para lugar, sendo difíceis de prever e envolvem múltiplos compromissos. Compreender os riscos locais e elaborar estratégias para gerenciá-los devem ser os primeiros passos seguidos da implementação de sistemas de resposta aos impactos imediatos. 

A adaptação climática não se resume à gestão de desastres, mas sim a um investimento significativo na prevenção dos efeitos das mudanças climáticas nos territórios. Desde 2017, a cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, vem realizando um trabalho preventivo; o que a tem poupado dos problemas ainda maiores com as fortes chuvas que tanto têm afetado o estado, como acompanhamos nos noticiários.

Na Amazônia, o desafio da adaptação climática assume proporções urgentes e complexas. As secas e enchentes extremas e os incêndios florestais são efeitos da crise climática e demandam respostas coordenadas em diversos níveis da federação por meio de políticas públicas abrangentes. 

Isso inclui desde a integração de iniciativas de monitoramento e prevenção de desastres, até a organização e capacitação de especialistas em crises (defesa civil, brigadistas, bombeiros e outros) e contratação de equipamentos nos municípios. Além disso, é crucial estabelecer estruturas nos municípios com maior propensão a serem afetados, atribuindo-lhes responsabilidades específicas e condições para implementação de medidas preventivas e, neste caso, os governos precisam desenvolver novas estratégias de gestão, especialmente no que diz respeito às finanças públicas.

Mas qual é a capacidade institucional dos municípios brasileiros, especialmente aqueles da Amazônia, para implementar programas de adaptação? Os municípios enfrentam outras necessidades urgentes de desenvolvimento o que os torna ainda mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Isso ressalta a necessidade de incluir os planos de adaptação no planejamento municipal. É crucial incorporar essas discussões nos debates das eleições municipais no Brasil com urgência! Não podemos permanecer à mercê de tragédias iminentes sem que medidas sejam tomadas de forma planejada e preventiva.


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Fonte: Liberal Amazon

Destino da Bayer: tudo depende do glifosato

Dados trimestrais da Bayer: os preços dos herbicidas caíram. Menos, apesar da destruição de empregos. Iniciativa legislativa da multinacional alemã visa acabar com processos judiciais nos EUA

194915O grupo sediado em Leverkusen ainda enfrenta 57 mil ações judiciais de vítimas do glifosato (aplicação de glifosato no Brasil), Foto: Adriano Machado/Reuters

Por Jan Pehrke para o “JungeWelt”

Na terça-feira, o Grupo Bayer apresentou o seu balanço financeiro do primeiro trimestre de 2024. As vendas caíram 0,6%, para 13,7bilhões de euros, e os lucros caíram de 2,17 bilhõess de euros para apenas dois bilhões de euros. O CEO Bill Anderson viu isso como uma prova de sucesso. “Só em março abordei a necessidade de ação em quatro áreas. Dois meses depois fizemos progressos em todos os lados”, explicou o norte-americano. Ele havia implementado um programa de destruição de empregos na Bayer, “o novo modelo organizacional Dynamic Shared Ownership (DSO)”, e orgulhosamente apresentou números concretos pela primeira vez. “Só no primeiro trimestre cortamos 1.500 empregos, cerca de dois terços deles em níveis gerenciais”, disse o presidente da Bayer.

O declínio nas vendas se deve em grande parte aos preços mais baixos do glifosato. O lucro foi afetado principalmente pelo aumento das taxas de juro – as dívidas da empresa ascendem a 37,5 mil milhões de euros – e “em particular pelos efeitos da hiperinflação” na Argentina”. Como houve menos pagamentos de responsabilidade de produto por danos causados ​​pelos produtos químicos “Glifosato”, “PCB”, “Dicamba” e “Essure” no primeiro trimestre de 2024,  a corporação global tem novamente mais dinheiro.

De acordo com o relatório trimestral, a Bayer ainda enfrenta 57 mil ações judiciais movidas por vítimas do glifosato. No entanto, introduziu medidas para minimizar os encargos financeiros. A Bayer nomeou Lori Schechter, uma advogada, para o conselho de supervisão que limitou com sucesso os danos da crise dos opiáceos para a empresa farmacêutica McKesson. Além disso, de acordo com relatos da mídia, a multinacional sediada em Leverkusen está examinando a proposta do novo colega do conselho de supervisão de Schechter, Jeffrey Ubben, para evitar elevados custos legais através do pedido de falência parcial no estado do Texas. A legislação societária permite tal operação; nos círculos corporativos, ela é conhecida como “Texas Two-Step”.

Como se não bastasse, o gigante agrícola também desenvolve atividades legislativas.  A Bayer quer introduzir uma lei nos EUA que tornaria a classificação do glifosato como não cancerígeno pela agência ambiental estatal EPA vinculativa para os tribunais de cada estado e, desta forma, evitar futuras decisões contra ele. A Anderson & Co. já conseguiu conquistar mais de 80 associações agrícolas como organizações preliminares. “Queremos que os legisladores ouçam a voz dos agricultores americanos”, observou hipocritamente o CEO no seu discurso de terça-feira. Trata-se de “que a agricultura dos EUA é regulada por leis baseadas na ciência – e não pela indústria dos processos judiciais”.

O trabalho na Lex Bayer consumiu a maior parte do orçamento de lobby de US$ 7,35 milhões para os EUA em 2023, como disse o CFO Wolfgang Nickl à Coordenação Contra os Perigos da Bayer em 26 de abril, na assembleia geral anual da empresa. Nickl não teve problemas com tais investimentos. “A legislação e a política moldam as condições estruturais do nosso negócio. Como empresa global, temos a responsabilidade perante a sociedade como um todo de disponibilizar ativamente as nossas competências e conhecimentos e de apoiar os processos de tomada de decisão política com os nossos especialistas”, afirmou.


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Fonte: JungeWelt