Nota de falecimento: aos 94 anos faleceu Peter Higgs

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LONDRES – O físico vencedor do prêmio Nobel Peter Higgs, que propôs a existência da chamada “partícula de Deus” que ajudou a explicar como a matéria se formou após o Big Bang, morreu aos 94 anos, informou a Universidade de Edimburgo na terça-feira.

A universidade, onde Higgs era professor emérito, disse que ele morreu na segunda-feira após uma curta doença.

Higgs previu a existência de uma nova partícula, que veio a ser conhecida como bóson de Higgs, em 1964. Ele teorizou que deveria haver uma partícula subatômica de certa dimensão que explicaria como outras partículas – e, portanto, todas as estrelas e planetas no universo – massa adquirida. Sem algo como esta partícula, o conjunto de equações que os físicos usam para descrever o mundo, conhecido como modelo padrão, não se manteria coeso.

O trabalho de Higgs ajuda os cientistas a compreender um dos enigmas mais fundamentais do universo: como o Big Bang criou algo do nada há 13,8 mil milhões de anos. Sem a massa do Higgs, as partículas não poderiam se agregar na matéria com a qual interagimos todos os dias.

Mas seriam necessários quase 50 anos até que a existência da partícula pudesse ser confirmada. Em 2012, num dos maiores avanços na física em décadas, cientistas do CERN, a Organização Europeia para a Investigação Nuclear, anunciaram que tinham finalmente encontrado um bóson de Higgs utilizando o Large Hardron Collider, o destruidor de átomos de 10 mil milhões de dólares num percurso de 27 quilómetros. (27 quilômetros) túnel sob a fronteira entre a Suíça e a França.

O colisor foi projetado em grande parte para encontrar a partícula de Higgs. Produz colisões com energias extraordinariamente altas para imitar algumas das condições que estavam presentes nos trilionésimos de segundos após o Big Bang.

Higgs ganhou o Prémio Nobel da Física de 2013 pelo seu trabalho, ao lado de François Englert, da Bélgica, que apresentou de forma independente a mesma teoria.

O vice-chanceler da Universidade de Edimburgo, Peter Mathieson, disse que Higgs, que nasceu em Newcastle, era “um indivíduo notável – um cientista verdadeiramente talentoso cuja visão e imaginação enriqueceram o nosso conhecimento do mundo que nos rodeia”.

“Seu trabalho pioneiro motivou milhares de cientistas e seu legado continuará a inspirar muitos mais nas gerações vindouras.”

Nascido em Newcastle, nordeste da Inglaterra, em 29 de maio de 1929, Higgs estudou no King’s College, Universidade de Londres, e obteve o doutorado em 1954. Ele passou grande parte de sua carreira em Edimburgo, tornando-se Presidente Pessoal de Física Teórica na universidade escocesa. em 1980. Aposentou-se em 1996.

Um ponto alto da carreira de Higgs ocorreu na apresentação de 2013 no CERN, em Genebra, onde os cientistas apresentaram em termos complexos — com base em análises estatísticas incompreensíveis para a maioria dos leigos — que o bóson tinha sido confirmado. Ele começou a chorar, enxugando os óculos nas arquibancadas de uma sala de aula do CERN.

“Havia uma emoção – uma espécie de vibração – circulando no auditório”, disse Fabiola Gianotti, diretora-geral do CERN, à Associated Press. “Foi um momento único, uma experiência única na vida profissional.”

“Peter era uma pessoa muito comovente. Ele era tão doce e tão caloroso ao mesmo tempo. E sempre interessado no que as outras pessoas têm a dizer”, disse ela. “Capaz de ouvir outras pessoas… abertas, interessantes e interessadas.”

Joel Goldstein, da Escola de Física da Universidade de Bristol, disse: “Peter Higgs era um homem quieto e modesto, que nunca pareceu confortável com a fama que alcançou, embora este trabalho sustente toda a estrutura teórica moderna da física de partículas”.

Gianotti lembrou como Higgs muitas vezes se irritou com o termo “partícula de Deus” para a sua descoberta: “Não creio que ele tenha gostado deste tipo de definição”, disse ela. “Não estava no estilo dele.”


Fonte:  ABC News

Contrabando de produtos falsos ou adulterados agrava riscos ambientais e sanitários causados por agrotóxicos no Brasil

China é a principal fonte de agrotóxicos ilegais que inundam a agricultura brasileira com produtos falsos ou adulterados

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Embalagens, lacres e rótulos apreendidos poderiam produzir 120 toneladas de defensivos agrícolas fraudulentos. Foto: MAPA/Divulgação

Por Aline Merladete para o Agrolink

O contrabando de agrotóxicos ilegais para serem usados na produção agrícola brasileira tornou-se um crime de grandes proporções. O Brasil, que tem uma legislação rigorosa para regular a compra e o uso desses produtos, está enfrentando um aumento preocupante no contrabando de agrotóxicos de países vizinhos com leis menos restritivas, como o Uruguai. A prática ilegal tem consequências para a saúde pública, o meio ambiente e a economia do país.

Aproximadamente 20% do mercado de agrotóxicos no Brasil é composto por produtos contrabandeados. Essa prática ilegal não apenas representa um risco para a saúde humana e o meio ambiente, mas também prejudica a reputação dos produtos agrícolas brasileiros no mercado global. No Uruguai, apenas os produtos mais perigosos requerem receita agronômica, ao contrário do Brasil, onde todas as compras exigem prescrição. Essa diferença na legislação e preço tem levado muitos produtores brasileiros a optarem por adquirir agrotóxicos no país vizinho, mesmo que isso constitua um crime. 

Problemas do uso de agrotóxicos / defensivos falsos ou contrabandeados

Um estudo baseado em laudos periciais da Polícia Federal destacou que os ingredientes ativos mais apreendidos incluem substâncias como Imidacloprido, Metsulfurom-metílico e Fipronil. A China é apontada como o principal país de origem dos agrotóxicos contrabandeados, seguida pelo Paraguai e Uruguai. Embora muitos desses produtos contrabandeados possuam o ingrediente ativo e a concentração informados nos rótulos, há casos de falsificação ou concentrações diferentes, representando um sério risco para a saúde e a agricultura.

O uso desses agrotóxicos ilegais pode levar a consequências desastrosas na lavoura e representar sérios riscos à saúde dos produtores e consumidores. Produtos adulterados podem conter concentrações tóxicas prejudiciais, enquanto aqueles proibidos no Brasil podem causar danos irreversíveis.

Apesar dos esforços das autoridades brasileiras para combater o contrabando de agrotóxicos, a prática persiste, muitas vezes associada à corrupção e à violência. A diferença de preços em relação a outros países continua a impulsionar esse comércio ilegal, alimentando uma cadeia de eventos prejudiciais para a sociedade e a economia.

O contrabando de agrotóxicos é uma realidade preocupante que afeta negativamente diversos aspectos da sociedade brasileira e além disso, o uso desses produtos pelo produtor é considerado crime. 


Fonte: Agrolink

Incêndios em áreas de florestas maduras cresceram 152% na Amazônia em 2023, aponta estudo

Análises de imagens de satélite mostram que o aumento vai na contramão das quedas do desmatamento e do total de focos de calor no bioma; Ibama/Prevfogo diz que atua em conjunto com outras instituições em ações de prevenção e combate

fogo fapespIncêndio registrado em Boca do Acre no ano de 2023 (foto: Débora Dutra/Cemaden)

Luciana Constantino | Agência FAPESP 

Mesmo com a redução do desmatamento na Amazônia em 2023, o bioma vem enfrentando outro desafio: os incêndios em áreas de vegetação nativa ainda não afetadas pelo desmatamento. Estudo publicado na revista científica Global Change Biology alerta que os incêndios em áreas das chamadas “florestas maduras” cresceram 152% no ano passado em comparação a 2022, enquanto houve uma queda de 16% no total de focos no bioma e redução de 22% no desmatamento.

Ao destrinchar as imagens de satélite, os pesquisadores detectaram que os focos em áreas florestais subiram de 13.477 para 34.012 no período. A principal causa são as secas na Amazônia, cada vez mais frequentes e intensas. Além dos eventos prolongados registrados em 2010 e 2015-2016, que deixam a floresta mais inflamável e provocam a fragmentação da vegetação, o bioma passa por uma nova estiagem no biênio 2023-2024, o que agrava ainda mais a situação.

Tanto que o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que o total de focos de calor no primeiro trimestre de 2024 em toda a Amazônia foi o maior dos últimos oito anos – 7.861 registros entre janeiro e março, representando mais de 50% das notificações no país (o Cerrado vem em seguida, com 25%). O mais alto número até então havia sido no primeiro trimestre de 2016 – 8.240 para o total do bioma.

“É importante entender onde os incêndios estão ocorrendo porque cada uma dessas áreas afetadas demanda uma resposta diferente. Quando analisamos os dados, vimos que as florestas maduras queimaram mais do que nos anos anteriores. Isso é particularmente preocupante não só pela perda de vegetação e desmatamento na sequência, mas também pela emissão do carbono estocado”, afirma o especialista em sensoriamento remoto e autor correspondente do artigo Guilherme Augusto Verola Mataveli, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe.

Mataveli está atualmente no Tyndall Centre for Climate Change Research, no Reino Unido, onde desenvolve parte de seu pós-doutorado sobre emissão de gases de efeito estufa por queimadas com o apoio da FAPESP (projetos 19/25701-8 e 23/03206-0), que também financia o trabalho por meio de outros quatro projetos (20/15230-520/08916-821/04019-4 e 21/07382-2).

No ano passado, alguns pesquisadores do grupo publicaram outro trabalho já mostrando o aumento de incêndios em uma fronteira emergente de desmatamento no sudoeste do Amazonas, na região de Boca do Acre, entre 2003 e 2019 (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

“Além da gravidade dos incêndios em áreas de florestas maduras atingirem, por exemplo, árvores mais antigas, com maior potencial de estoque de carbono, contribuindo para o aumento do impacto das mudanças climáticas, há o prejuízo para as populações locais. Manaus é um desses casos, que foi a segunda cidade com a pior qualidade do ar no mundo em outubro do ano passado”, completa Mataveli.

Outros Estados registraram situação semelhante, incluindo o Pará, onde a contagem de focos de calor em florestas maduras em 2023 foi de 13.804 – contra 4.217 em 2022.

Neste ano de 2024, uma das piores situações está em Roraima, que concentra mais da metade dos registros do bioma. Com a quinta maior população indígena do país – 97.320 pessoas –, o Estado viu 14 dos seus 15 municípios decretarem emergência em março por causa do fogo. A fumaça levou à suspensão de aulas e a seca severa tem afetado comunidades indígenas, deixando-as sem acesso a alimentos e expostas a doenças respiratórias, entre outros impactos.

O Ibama/Prevfogo diz que tem atuado, desde novembro do ano passado, em conjunto com outras instituições nas ações de prevenção e no combate aos incêndios, atualmente concentrados em diferentes regiões de Roraima. Segundo o órgão, desde janeiro, são mais de 300 combatentes, além de quatro aeronaves que dão apoio ao trabalho.

“As mudanças climáticas são apontadas como um fator crítico para o aumento de episódios de incêndios, tendo o El Niño como fator agregador de risco devido à sua relação com a estiagem prolongada na região. Ressaltamos a importância da atuação dos órgãos ambientais estaduais e municipais no combate aos incêndios, em colaboração com os entes federais. Essa parceria é fundamental para permitir uma ação mais estratégica e eficaz na prevenção e no combate aos incêndios florestais”, informa o Ibama/Prevfogo em resposta à Agência FAPESP.

Procurado pela reportagem, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) reforçou em nota os pontos destacados pelo Ibama.

Resiliência

A mortalidade de árvores induzida pelo fogo em áreas de floresta excede frequentemente 50% da biomassa acima do solo, ou seja, os incêndios têm potencial para reduzir significativamente os estoques de carbono principalmente no longo prazo.

Neste ano, esse efeito já foi sentido. Em fevereiro, as emissões por queimadas no Brasil bateram recorde, atingindo o mais alto índice em 20 anos – 4,1 megatoneladas (cada megatonelada equivale a 1 milhão de toneladas) de carbono, alavancadas por Roraima, segundo o observatório climático e atmosférico europeu Copernicus.

Além disso, a resiliência da floresta fica comprometida, afetando, entre outros, sua capacidade de criar um microclima úmido abaixo do dossel das árvores para conter e reciclar a umidade dentro do ecossistema.

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que a crescente inflamabilidade da floresta torna-se um desafio para os agricultores tradicionais – eles normalmente usam o fogo controlado como forma de manejo de áreas de subsistência. Isso demanda incentivo a cadeias de produção para que sejam livres dessa prática.

Líder do grupo e coautor do artigo, o pesquisador Luiz Aragão ressalta que, “à medida que o tempo passa sem soluções efetivas para o problema do fogo na região amazônica, o bioma se torna mais vulnerável, com impactos ambientais, sociais e econômicos”. Aragão explica que, mesmo reduzindo as taxas de desmatamento, a área impactada por esse processo continua crescendo.

“Já havíamos previsto isso em 2010 em uma publicação de nosso grupo no periódico Science. Tanto as áreas já desmatadas quanto aquelas em processo de remoção da floresta constituem fontes ativas de ignição do fogo pelo homem. Como o desmatamento fragmenta a paisagem, criando mais bordas entre as florestas e as áreas abertas, as florestas maduras ficam mais permeáveis ao fogo. Somando as secas extremas, como a atual, à configuração da paisagem fragmentada, o uso contínuo do fogo na região e a presença de áreas florestais mais degradadas, por incêndios passados, extração ilegal de madeira e efeito de borda, espera-se uma floresta cada vez mais inflamável. Medidas urgentes são necessárias para mitigar os incêndios e manter a Amazônia como o maior bem do país para alcançar o desenvolvimento nacional sustentável”, avalia Aragão.

O grupo sugere ainda o aumento de operações de comando e controle e a expansão de brigadas de incêndio, além do desenvolvimento constante de sistemas de monitoramento. “Com o uso de inteligência artificial, podemos tentar desenvolver sistemas que, além de mostrar onde ocorreram os incêndios, façam uma predição dos locais com mais propensão de ocorrer e assim ter áreas mais específicas como foco de prevenção”, complementa Mataveli.

O artigo Deforestation falls but rise of wildfires continues degrading Brazilian Amazon forests pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.17202.


Fonte: Agência Fapesp

Amazônia: degradação afeta área três vezes maior que desmatamento

Governo federal vem monitorando a situação, diz secretário

pasto desmatado

Colniza, MT, Brasil: Área degradada no município de Colniza, noroeste do Mato Grosso. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Fabíola Sinimbu – Repórter da Agência Brasil – Brasília

O número é três vezes maior do que os quase 58,5 km² alcançados por alertas de desmatamento registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na plataforma Terra Brasilis, até março deste ano.

No período de março de 2023 ao mesmo mês deste ano, houve aviso de degradação para mais 20,4 mil km² e, na contramão da redução dos alertas de desmatamento para esse período, os números registraram crescimento quando comparados aos aletas para quase 18 mil km², no mesmo período do ano anterior.

Segundo o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), André Lima, a degradação florestal é um problema que vem sendo acompanhado pelo governo federal e tem recebido atenção dentro das políticas públicas de enfrentamento. “O combate à ilegalidade gera o sentimento de fim da impunidade e isso desestimula o processo de degradação, sobretudo aquele ligado ao corte seletivo de floresta”, explica.

10/08/2023, Ambientalistas denunciam desmatamento às margens de rodovia amazônica. Foto: Cristie Sicsú
Degradação é mais complexa que o desmatamento, diz pesquisador. Foto: Cristie Sicsú

De acordo com o pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), David Lapola, a degradação florestal é mais complexa que o próprio desmatamento, representa uma ameaça grave ao cumprimento das metas brasileiras estabelecidas em acordos internacionais para a manutenção da estabilidade climática. Camuflados por frágeis vegetações, distúrbios ambientais causados pelo homem avançam sobre a biodiversidade, longe do alcance das imagens de satélite e do monitoramento governamental.

Diferença

O pesquisador explica que o desmatamento e a degradação são fenômenos diferentes, decorrentes de perturbações que podem ser causadas tanto pela ação humana, como fogo, efeito de borda (florestas limítrofes de áreas degradadas) e corte seletivo de madeira, como por distúrbios como a seca, que pode ser natural ou, em frequência maior, decorrente da mudança climática causada pelo homem.

Lapola, que coordenou o estudo The drivers and impacts of Amazon forest degradation, publicado na revista Science em 2023 , afirma que, diferente do desmatamento, que faz com que a floresta deixe de existir e dê lugar a outras paisagens como o pasto, a degradação afeta os serviços ecossistêmicos da floresta de forma mais sutil e em prazo mais longo. Na prática, transforma a floresta por dentro com a substituição de espécies tanto da flora, quanto da fauna. Árvores maiores dão lugar a árvores com estruturas menores, menos biomassa e menor capacidade de cumprir os serviços ecossistêmicos.

Na publicação, Lapola analisa dados do período de 2001 a 2018 e antecipa que a degradação avança mais rápido e já atinge mais que o desmatamento, na Floresta Amazônica. “O problema é que os efeitos da degradação são iguais ao do desmatamento. Em algumas pesquisas, há autores que apontem danos maiores até”, afirma. São consequências como menor capacidade de reter o CO2, interferência no ciclo hidrológico com menos chuvas e aumento da temperatura, por exemplo.

Monitoramento

Além do diagnóstico, a pesquisa também indicou necessidade de aprofundamento na forma de monitorar a floresta. Atualmente, o governo federal apoia suas políticas públicas principalmente nos dados gerados por duas ferramentas: o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), que reúne informações anuais do que já foi desmatado, e o Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter), com alertas diários, mas com menor precisão.

Apoiado em imagens de satélites, o Deter é capaz de gerar alertas de degradação com base em eventos associados principalmente ao fogo e à extração ilegal de madeira. “Esses dois eventos principais modificam a copa das árvores. Quando você olha pelo satélite, verifica que as copas das árvores têm uma assinatura espectral diferente da floresta não perturbada, só que a área não é convertida em uma área de solo exposto”, explica Luiz Aragão, pesquisador do Inpe, especialista em ecossistemas tropicais com ênfase em sensoriamento remoto.

Para Lapola, embora esse suporte seja efetivo para enfrentar o desmatamento, é ineficaz em alcançar todos os fatores que causam a degradação, o que pode indicar que os dados atuais são subestimados.

“É bem possível que no ano que passou tenha havido um aumento sensível de degradação, principalmente devido à seca, porque tivemos um El Niño, relativamente severo, e teve redução bem drástica dos níveis dos rios, principalmente na Amazônia Central. Então, é de se esperar que a seca tenha levado, também, a uma degradação, mas não temos números ainda, e o correto seria a gente ter um sistema contínuo de acompanhamento disso.”

O pesquisador afirma ainda que distúrbios como fogo e corte seletivo de árvores são mais observáveis por imagens de satélite, mas o efeito de borda – que também gera degradação em áreas próximas às florestas – é mais complexo e precisaria de outras metodologias de monitoramento.

“Podemos observar os cálculos e entender que determinada área é borda, mas tem que ter um cálculo de quantos anos tem aquela borda, porque quanto mais velha, vai perdendo mais carbono. As árvores vão morrendo lentamente, não é um processo instantâneo”, afirma.

Políticas públicas

André Lima diz que o ministério reconhece a necessidade de aprimoramento dos métodos oficiais de monitoramento de degradação e que o assunto tem sido tema de debates tanto para políticas de controle, quanto para a contabilização das emissões de carbono no Sistema de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD).

“Podemos ter taxas anuais, com um sistema mais preciso. Isso está sendo discutido com o Inpe, inclusive a possibilidade de um novo projeto para o Fundo Amazônia que avance no desenvolvimento de metodologias e do sistema de contabilidade de taxa de degradação”

De acordo com Luiz Aragão, essas limitações foram levadas em consideração na elaboração da última atualização do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), lançado em junho de 2023, mas é preciso ir além.

“É necessário elaborar novas políticas e ações que sejam voltadas diretamente para a degradação florestal em adição às que já existem relação ao desmatamento”, diz.

10/08/2023, Ambientalistas denunciam desmatamento às margens de rodovia amazônica. Foto: Orlando K Júnior
Novas políticas públicas devem se voltar para a degradação, diz secretário. Foto: Orlando K Júnior

Segundo André Lima, esse trabalho tem avançado, mas é preciso considerar que a interrupção das políticas públicas ambientais por um período no Brasil gerou um retrocesso que precisa ser primordialmente enfrentado “A gente vem de quatro anos, antes ao ano de 2023, de baixíssima qualidade e intensidade de fiscalização. Isso gerou um sentimento de impunidade muito alto e a degradação, sobretudo sobre a via do corte irregular de madeira.”

O secretário destaca que a degradação ambiental está inserida nos programas de enfrentamento ao desmatamento, a exemplo dos municípios que foram considerados prioritários para iniciativas como o Programa União com Municípios pela Redução de Desmatamento e Incêndios Florestais, que destinará recursos do Fundo Amazônia para ações locais de controle e monitoramento, regularização fundiária e ambiental, recuperação de vegetação nativa e apoio à produção sustentável.

“Tem vários municípios que entraram na lista definida este ano, mas não por conta de desmatamento. Entraram por conta da degradação, portanto, passarão a ser foco de maior intensidade de fiscalização e também de ações relevantes e incentivos positivos”, afirma.

Aragão considera que o avanço precisa acontecer com base em uma visão real dos problemas. O pesquisador aponta como exemplo o uso do fogo, que necessariamente precisa ser substituído por outras formas de manejo viabilizadas pelas novas tecnologias, mas também não se pode ignorar o uso dele nas formas tradicionais de subsistência.

“Para esse grupo você tem que ter uma outra política alternativa onde haja uma educação para a maneira mais adequada e o período mais adequado de utilizar o fogo, com o mínimo de impacto e protegendo a floresta.”

Diante dos desafios, os pesquisadores são unânimes em considerar que é necessário unir esforços no enfrentamento dos distúrbios que afetam as florestas e se potencializam em um processo degenerativo.

“É importantíssimo que nós paremos com os desmatamentos e a degradação florestal para que a gente possa usufruir dos recursos naturais no seu todo potencial, com provimento de soluções bioeconômicas, manutenção da estabilidade climática e bem-estar para as populações locais e o próprio desenvolvimento socioeconômico da região”, conclui Aragão.

Edição: Maria Claudia


Fonte: Agência Brasil

A greve nas universidades e institutos federais e o papel de quinta coluna dos “intelectuais consentidos”

greve federai

As universidades e institutos federais estão neste momento em meio a um processo de greve que deve paralisar a maioria dessas instituições. As demandas são muitas e incluem não apenas a necessária recomposição de salários corroídos por anos sem recomposição sequer das perdas inflacionárias, mas também de orçamentos que hoje ameaçam inviabilizar essas instituições estratégicas para o desenvolvimento nacional.

O governo Lula, ao contrário do que prometeu na campanha eleitoral, vem impondo também na educação federal a sua agenda neoliberal e, com isso, não apenas se recusa a negociar com os sindicatos, mas continua asfixiando financeiramente as instituições.  Desta forma, restou aos servidores de universidades e institutos federais o caminho da mobilização.  Assim, o Brasil assiste neste momento o nascimento de um movimento grevista que busca o cumprimento das promessas desprezadas em nome da obediência ao “novo teto de gastos” que apenas serve aos interesses dos agentes do rentismo, a começar pelas grandes instituições financeiras que hoje controlam a economia brasileira.

Curiosamente tenho lido uma série de manifestações nas redes sociais vindas daquilo que pode se chamar de “intelectuais consentidos” que não apenas condenam o movimento de greve, mas que imputam a ele a chance de que a dita reforma administrativa seja mais facilmente aprovada pelo congresso nacional.  É preciso que se esclareça que essa reforma administrativa que visa solapar o caráter público do funcionalismo estatal vem avançando sob os olhares plácidos do governo Lula em um misto de tolerância e cumplicidade.

Um dos argumentos que são usados pelo que eu estou chamando de “intelectuais consentidos”  é de que este não é o momento de fazer greve, pois o governo Lula estaria, digamos, encurralado pela extrema-direita no congresso nacional.  Além disso, se diz que se não houve greve no governo Bolsonaro, por que se fazer no de Lula? Ora, essa me parece uma questão óbvia, pois nem sempre as condições materiais são suficientes para que haja uma greve, há que existir as condições políticas.  Curiosamente, o abandono do governo Lula de seus compromissos de campanha foi quem criou as condições políticas para que um movimento grevista pudesse ocorrer.

Como alguém que já está em uma universidade pública desde 1998, já muita coisa, inclusive a ação de docentes que negavam a necessidade do confronto para se obter melhorias orçamentárias e salariais. No caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense, os grandes avanços que tivemos sempre resultaram de greves, nunca se dando chance a uma súbita disposição dos governantes para conceder o óbvio. Mas o que assisto hoje me parece estar diretamente alinhado com a hegemonia neoliberal na sociedade brasileira, inclusive dentro dos segmentos que se dizem de esquerda dentro das universidades públicas. É a supremacia das ideias de empreendedorismo e do mérito pessoal sobre as demandas coletivas e de natureza universalista. 

E antes que eu me esqueça, uma definição sobre o que seriam intelectuais consentidos. Eles seguem o figurino daquilo que eu identifiquei como “menudos neoliberais” no governo desastroso de Rafael Diniz em Campos dos Goytacazes. A maioria deles aparece sempre usando os melhores figurinos da moda, seguem um perfil estético engomadinho, e são aqueles que sempre aparecem como figurinhas carimbadas em programas de TV e rádio da mídia corporativa.  Por isso tudo, eles são consentidos.

Finalmente, de minha parte deixo clara a minha posição de apoio à greve nas universidades e institutos federais. Essa mobilização mostra o caminho que precisamos seguir para defender o ensino público superior. Na Uenf já tarda a hora de começarmos um movimento que faça o governo de Cláudio Castro a cumprir seus compromissos, a começar pelo pagamento da recomposição das perdas inflacionárias.

Transparência de contratos para obras na BR-319 é baixa em quase todas as etapas

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A avaliação dos contratos celebrados para obras na rodovia BR-319 indica baixos níveis de transparência em quase todas as fases da contratação. Foram identificadas ausência de consultas livres, prévias e informadas à população impactada; fragilidade de informações sobre a execução dos contratos; e falta de informação ampla sobre o licenciamento ambiental.

Essa vulnerabilidade se torna ainda mais preocupante num momento em que o Congresso Nacional discute flexibilizar as regras para o licenciamento ambiental de obras da rodovia, construída nos anos 1970 e causa de inúmeros casos de desmatamento e danos socioambientais até hoje.

Foram analisados os 21 contratos que vigoravam em outubro do ano passado, sendo que 18 deles ainda estão vigentes. Os resultados constam da nota técnica “Transparência dos Contratos Vigentes da BR-319”, produzida pela Transparência Internacional – Brasil e pelo Observatório BR-319, lançada nesta sexta-feira, dia 5 de abril, no site observatoriobr319.org.br.

O estudo foi feito com base na metodologia do “Guia Infraestrutura Aberta”, desenvolvida pela Transparência Internacional – Brasil. A ferramenta permite a avaliação dos níveis de transparência de grandes projetos de infraestrutura, considerando as diferentes fases do ciclo de vida das obras, incluindo avaliações sobre os formatos das informações, os riscos socioambientais da infraestrutura e a existência de oportunidades de participação social no processo decisório.

Para a avaliação, foram acessados diversos portais do governo federal com informações sobre os contratos da BR-319, sendo que o mais usado para o diagnóstico foi o contratos.gov. A nota técnica vai além da avaliação dos contratos e busca outros mecanismos capazes de garantir mais transparência e aprimorar a governança das obras da rodovia BR-319.

A avaliação mostrou que o pior desempenho (que recebeu a nota 0, numa escala de 0 a 100) foi em relação às consultas livres, prévias e informadas aos povos da floresta e a todos os grupos e comunidades potencialmente afetados pela construção da BR-319, principalmente aqueles que residem em territórios na área de influência da estrada. Apesar de essas consultas serem previstas pela Convenção n.º 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, isso nunca foi cumprido no caso da BR-319.

A segunda pior nota foi atribuída à fase de execução contratual (nota 5,5, na escala de 0 a 100). A avaliação demonstrou que não há transparência sobre relatórios de auditoria de fiscalizações efetuadas, informações sobre programas de integridade existentes nas empresas vencedoras das licitações, e sobre possíveis sanções ou multas já aplicadas. Além disso, viu-se que não é possível tomar conhecimento, por transparência ativa – isto é, aqueles dados e informações publicados proativamente pelos órgãos do governo – de informações mais específicas sobre as obras contratadas, como fotos, localizações e cronogramas, e nem dos registros de reuniões com grupos e comunidades impactadas pela obra após a fase de contratação. Não foi possível identificar agências financiadoras, nem se há salvaguardas ambientais impostas pelos financiadores.

Também foi considerada baixa a nota da fase preliminar dos contratos e riscos socioambientais (nota 23,3). Nesse quesito, foram encontradas apenas as informações mais básicas buscadas, como avaliação sobre os riscos da contratação, a designação do local do empreendimento, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) – que estão entre os instrumentos mais importantes para o processo prévio de licenciamento ambiental – e o chamamento para realização de audiências públicas sobre o licenciamento ambiental prévio. Faltavam, no entanto, estudos prévios de viabilidade e informações sobre os estudos do componente indígena ou quilombola realizados, o termo de referência para contratação do EIA e RIMA, e a ata e relatório de devolutiva da audiência pública sobre o licenciamento prévio.

Outro aspecto que recebeu classificação baixa foi em relação a diretrizes para a publicação de dados e informações (nota de 38,9). O portal analisado (contratos.gov) cumpriu apenas diretrizes mais gerais de centralização e acessibilidade aos contratos, e falhou em ampliar acesso à informação via transparência passiva e permitir que cidadãos façam denúncias ou sugestões.

Único quesito a receber a classificação “média” foi a transparência na fase externa da licitação. Tanto no portal do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) quanto no contratos.gov foi possível identificar informações como homologações das licitações, atas das reuniões das comissões de licitações, licenças de instalação, propostas vencedoras e nomes das empresas contratadas. Em contrapartida, não estão disponíveis informações como o parecer técnico dos órgãos envolvidos quanto ao licenciamento ambiental e extrato do contrato. 

Nenhum dos itens avaliados recebeu a classificação de alta transparência. “A ausência de transparência em obras que possuem grande relevância para o país, como é o caso da rodovia BR-319, evidencia as dificuldades para os órgãos de controle, a população em geral e a sociedade civil realizarem o controle social dessas obras e, ao mesmo tempo, uma dificuldade dos órgãos governamentais em organizar e publicar as informações sobre todo o ciclo de vida de uma obra dessa magnitude. Para garantirmos a realização íntegra, transparente e sustentável das obras na rodovia, é urgente a organização e oferta de informações sobre as decisões relativas às obras na BR-319, além da ampliação do diálogo e consulta aos povos e comunidades afetados pela rodovia”, diz Amanda Faria Lima, analista de integridade e governança pública da Transparência Internacional – Brasil.

Esta é a primeira vez que uma organização da sociedade civil realiza um levantamento sobre transparência na BR-319. “Esta nota técnica representa um marco importante para o Observatório BR-319, pois a transparência contribui bastante para o fortalecimento da governança na área de influência da rodovia. Além disso, a publicação reafirma o que já estamos dizendo há anos: que as consultas livres, prévias e informadas são essenciais para a tomada de decisões a respeito do empreendimento”, destaca Fernanda Meirelles, secretária-executiva do Observatório BR-319.

Sobre o Observatório BR-319

O Observatório BR-319 é uma rede criada em 2017 e formada por organizações da sociedade civil que atuam na área de influência da rodovia, que compreende 13 municípios, 42 Unidades de Conservação e 69 Terras Indígenas entre os Estados do Amazonas e de Rondônia. As atividades desenvolvidas pela rede têm o objetivo de produzir informações sobre a rodovia e os processos necessários para um desenvolvimento inclusivo, com respeito aos direitos legais constituídos dos povos da floresta e de conservação dos recursos naturais. O OBR-319 também tem o objetivo de fomentar o protagonismo, a governança e a autonomia dos moradores dos territórios locais, sendo uma rede comprometida com o fortalecimento da sustentabilidade da região do interflúvio Purus-Madeira.

Desde 2018, o Observatório BR-319 já publicou oito notas técnicas e três retrospectivas anuais de desmatamento e focos de calor com recorte para a rodovia. É importante destacar que estas produções são realizadas com base na expertise técnica de cada organização membro como forma de contribuir para o fortalecimento do debate sobre assuntos a respeito da rodovia e contribuir com órgãos de controle e da administração pública, munindo-os com informações resultantes dos monitoramentos e pesquisas realizados pelas organizações membro, visando resguardar o bem-estar e o modo de vida das populações indígenas, extrativistas e tradicionais que vivem no local.

Sobre a Transparência Internacional – Brasil

A Transparência Internacional é um movimento global com um mesmo propósito: construir um mundo em que governos, empresas e o cotidiano das pessoas estejam livres da corrupção. Atuamos no Brasil no apoio e mobilização de grupos locais de combate à corrupção, produção de conhecimento, conscientização e comprometimento de empresas e governos com as melhores práticas globais de transparência e integridade, entre outras atividades. A presença global da TI nos permite defender iniciativas e legislações contra a corrupção e que governos e empresas efetivamente se submetam a elas. Nossa rede também significa colaboração e inovação, o que nos dá condições privilegiadas para desenvolver e testar novas soluções anticorrupção.

Agrotóxicos usados na monocultura da cana causam a morte de tilápias

tilapia

Por Rafael J. Gonçalves Rubira para o “The Conversation”

A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) está entre os peixes mais consumidos no Brasil e no mundo. Espécie originária da África, ela tem boa capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais e apresenta crescimento rápido em cativeiro, a principal forma de abastecimento do mercado brasileiro.

Por sua presença à mesa, foi esse o peixe que escolhemos para um estudo realizado na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) que investigou os efeitos de resíduos dos pesticidas parationa-metílica (MP) e imazapique (IMZ) sobre esse animal.

MP e IMZ são borrifados nas plantações de cana-de-açúcar na região de Presidente Prudente, interior de São Paulo. Devido à sua toxicidade, há uma preocupação crescente com os resíduos desses produtos no solo e na água, que podem afetar diretamente os ecossistemas aquáticos.

O IMZ é um herbicida seletivo autorizado para uso no Brasil no plantio do amendoim, arroz, cana-de-açúcar, milho, pastagem, soja, sorgo e trigo. Porém, é considerado altamente tóxico e pode causar danos ao meio ambiente e à saúde humana.

O uso da parationa-metílica (MP), do grupo dos organofosforados, é permitido até o limite de concentração de 9,3 microgramas por litro (µg/L) nos Estados Unidos, mas proibido no Brasilpor seus efeitos tóxicos aos seres vivos.

No estudo que fizemos, utilizamos técnicas avançadas de microscopia para examinar alterações celulares nas brânquias das tilápias expostas a esses pesticidas em condições controladas de laboratório. O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP).

Desenho criativo do pesquisador Rafael Rubira exibe, no destaque, a localização das brânquias. A ação dos pesticidas degrada essas estruturas e mata os peixes por asfixia. Arquivo do autor

Brânquiasou guelras são órgãos respiratórios compostos por lamelas altamente vascularizadas que estão localizados na parte lateral da cabeça dos peixes. As lamelas absorvem oxigênio da água e eliminam dióxido de carbono, permitindo a respiração dos peixes em ambiente aquático.

A microscopia de fluorescência confocal é um tipo de microscópio óptico avançado que permite visualizar estruturas celulares ou subcelulares com alta resolução e sensibilidade. Ele utiliza luz fluorescente para destacar estruturas específicas dentro de uma amostra biológica. A técnica confocal elimina a luz dispersa fora do foco, resultando em imagens mais nítidas e contrastadas.

Isso é possível através de um sistema (pin hole) que permite a detecção de fluorescência apenas de uma pequena área focalizada da amostra e cria imagens tridimensionais de alta resolução.

Lesões e morte

O resultado dos testes feitos com tilápias em tanques de água no laboratório com diluição de pesticidas (em quantidades abaixo dos limites) revelou que os animais sofreram lesões significativas.

As análises microscópicas revelaram danos à integridade e funções das lamelas, comprometendo a capacidade dos peixes de absorver oxigênio da água.

Essas alterações nas brânquias levaram os peixes à morte por asfixia, evidenciando a sensibilidade das tilápias a esses pesticidas e os sérios impactos que podem causar na vida aquática.

O próximo passo será investigar as interações químicas nas moléculas de gordura desses órgãos. Usaremos um espectrômetro Raman, que permite estudar a resposta das células a estímulos com luz laser. As variações podem indicar possíveis alterações associadas a processos cancerígenos.

Os achados que fizemos até o momento com este estudo sugerem que a exposição prolongada das tilápias do Nilo estudadas aos pesticidas aumenta o risco de malformações, de problemas de desenvolvimento e reprodutivos.

As implicações para o meio ambiente do uso indiscriminado de pesticidas como o MP e o IMZ são vastas e profundas. A contaminação da água encabeça a lista de perigos, pois os pesticidas se infiltram no solo e podem alcançar corpos d’água, comprometendo fontes de água potável e ecossistemas aquáticos. O impacto recai sobre toda a cadeia alimentar aquática, incluindo organismos microscópicos, insetos e plantas.

A toxicidade dos pesticidas sobre organismos não-alvo é mais uma questão grave, atingindo insetos polinizadores, como as abelhas, e predadores naturais que desempenham um papel fundamental no equilíbrio ecológico. Isso pode levar a um aumento das populações de pragas e a uma diminuição da diversidade biológica.

Além disso, há riscos diretos à saúde dos trabalhadores e outras pessoas expostas aos resíduos de pesticidas, cujo efeito já foi relacionado por diversos estudos a alterações que vão desde distúrbios hormonais e no crescimento das crianças a problemas neurológicos e diversos tipos de câncer.

Não restam dúvidas de que medidas mais rigorosas são necessárias para fiscalizar e punir o uso e a aplicação dos pesticidas já proibidos no Brasil. Também são imprescindíveis os investimentos contínuos para a realização de mais estudos e monitoramento dos efeitos dessas substâncias no ambiente e na saúde coletiva.

Rafael J. Gonçalves Rubira  é Físico, Ph.D pela Universidade de Málaga (com foco na análise dos efeitos de agrotóxicos em sistemas biológicos) e pesquisador da Faculdade de Ciência e Tecnologia , Universidade Estadual Paulista (Unesp)


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “The Conversation” [Aqui!].

A política centrada na pré-impressão da Fundação Gates ajudará o acesso aberto?

A política revisada diz que os beneficiários dos subsídios devem compartilhar os manuscritos como pré-impressões – e remove o suporte para taxas de processamento de artigos

FGatesA Fundação Bill & Melinda Gates é um dos primeiros financiadores a exigir o uso de preprints. Crédito: David Ryder/Getty 

Por Mariana Lenharo para a Nature

A Fundação Bill & Melinda Gates, um dos principais financiadores de investigação biomédica do mundo, exigirá a partir do próximo ano que os seus bolsistas disponibilizem publicamente as suas investigações sob a forma de preprints, artigos que ainda não foram aceites por uma revista ou passaram por revisão por pares. A fundação também disse que deixaria de pagar taxas de processamento de artigos (APCs) – taxas impostas por alguns editores de periódicos para disponibilizar artigos científicos gratuitamente on-line para todos os leitores, um sistema conhecido como acesso aberto (OA) .

A Fundação Gates é o primeiro grande financiador científico a adotar essa abordagem com pré-impressões, diz Lisa Hinchliffe, bibliotecária e acadêmica da Universidade de Illinois Urbana – Champaign. As políticas — que entram em vigor em 1 de janeiro de 2025 — elevam o papel dos preprints e visam reduzir o dinheiro que a Fundação Gates gasta em APCs, ao mesmo tempo que garantem que a investigação seja de leitura gratuita.

Mas as ramificações da política não são claras. “Se isso vai ajudar ou não o movimento de acesso aberto, é difícil saber”, diz Hinchliffe. Por um lado, mais pesquisas estarão disponíveis gratuitamente em formato pré-impresso, observa ela. Por outro lado, as versões finais publicadas dos artigos, conhecidas como versão de registro, podem se tornar mais difíceis de acessar. De acordo com as regras revisadas, após compartilhar seu manuscrito como preprint, os autores poderão submetê-lo ao periódico de sua escolha e não serão mais obrigados a selecionar a opção OA.

“A nossa decisão é motivada pelos nossos objetivos de acesso imediato à investigação, reutilização global e ação equitativa”, afirma Ashley Farley, responsável pelo programa de conhecimento e serviços de investigação da Fundação Gates em Seattle, Washington. Os beneficiários das subvenções ainda serão obrigados a publicar as suas pré-impressões sob uma licença que permite a reutilização do seu conteúdo, diz ela. A fundação planeja publicar a política completa nas próximas semanas.

Esforços de acesso aberto

A Fundação Gates anunciou em 2015 que exigiria que os seus beneficiários disponibilizassem gratuitamente os seus artigos de investigação no momento da publicação, colocando-os em repositórios abertos. Mais tarde, juntou-se à coAlition S – um grupo de financiadores e organizações de investigação principalmente europeus que apoiam a publicação académica AA – e endossou o Plano S do grupo , pelo qual os financiadores determinam que os bolseiros publiquem o seu trabalho através de uma via AA.

Mas a mais recente política da Fundação Gates coloca-a no caminho de divergir do grupo. Não está “inteiramente alinhado com a CoAlition S”, afirma Johan Rooryck, diretor executivo da coligação, com sede em Leiden, na Holanda. Embora a cOAlition S exija que um manuscrito aceito ou a versão do registro esteja disponível em OA, ele diz, “a Fundação Gates é claramente da opinião de que a pré-impressão é suficiente”. Ele observa que o grupo permite “muita margem de manobra nas políticas” entre os seus membros, acrescentando que a política de Gates continua a defender aspectos-chave do Plano S, como a promoção da retenção dos direitos dos autores sobre os seus manuscritos aceites.

A coligação tem examinado o papel dos preprints no acesso aberto, mas ainda está muito longe de adoptar quaisquer mudanças políticas relacionadas, diz Rooryck. Um documento divulgado pelo grupo no ano passado discutiu a questão, e a coligação está a recolher feedback da comunidade de investigação através de um inquérito aberto até 22 de Abril. Nenhuma decisão será tomada sobre a adoção de qualquer proposta antes do final do ano.

Outra diferença entre o Plano S e a política de Gates é a sua posição em relação às APCs. “Acabar com o apoio aos pagamentos da APC não é a política da CoAlition S, posso ser muito claro sobre isso”, diz Rooryck. “Essa é uma decisão que Gates tomou. Não é uma decisão que nós, como CoAlition S, estejamos prontos para tomar até 1º de janeiro de 2025.”

Acabar com o apoio aos APCs é um “plano muito sensato”, dado o aumento insustentável de tais encargos nos últimos anos, diz Lynn Kamerlin, biofísica computacional do Instituto de Tecnologia da Geórgia, em Atlanta. “O plano da Fundação Gates é o plano de acesso aberto que eu gostaria de ver quando o Plano S foi anunciado.”

Juan Pablo Alperin, pesquisador de comunicações acadêmicas da Universidade Simon Fraser em Vancouver, Canadá, observa que as APCs são “inerentemente uma forma injusta” de apoiar o acesso aberto. “Interromper o apoio às APCs envia um sinal à comunidade em geral, incluindo a comunidade de financiadores, de que este mecanismo não é um caminho a seguir”, diz ele.

Efeitos na publicação

É difícil prever os efeitos da política de Gates na publicação científica, diz Hinchliffe. Alguns bolsistas podem ter mais dificuldade em publicar em revistas de acesso aberto e confiar mais em preprints para divulgar o seu trabalho. Mas outros poderão continuar a publicar através de periódicos de acesso aberto, especialmente se tiverem outras fontes de financiamento para cobrir as APCs, ou se as bibliotecas das suas instituições tiverem acordos com editores para reduzir os custos de publicação de acesso aberto.

Embora a Fundação Gates seja um grande financiador — com um orçamento de 8,6 bilhões de dólares em 2024 — ainda financia apenas uma percentagem modesta da investigação mundial, observa Hinchliffe, e não está claro se outros financiadores seguirão o exemplo. Alguns, mesmo entre aqueles que exigem publicação AA, já se recusam a cobrir APCs.

Outra consequência potencial da política é que pode haver uma diferença na qualidade de um manuscrito disponível gratuitamente como pré-impressão e sua versão final atrás de um acesso pago. Em certos casos, as pessoas com acesso à versão final estarão em melhor posição para evitar determinados tipos de erros do que aquelas que dependem apenas da pré-impressão, diz Hinchliffe. Kamerlin observa que um número crescente de editores de preprints permite que os autores atualizem seus preprints quantas vezes forem necessárias, o que poderia aliviar essa preocupação.

Farley diz que há evidências crescentes de que os erros nas primeiras versões dos preprints são resolvidos rapidamente, “já que há um grupo muito mais amplo de pesquisadores para ler e avaliar o preprint”. A fundação fornecerá aos beneficiários uma lista de servidores de pré-impressão recomendados “que demonstraram um nível de verificações que garantem a validade científica da investigação”, acrescenta ela. Também investiu num novo serviço de pré-impressão chamado VeriXiv, “que estabelecerá novos padrões para verificação de pré-impressão”.

Alguns autores podem optar por não publicar formalmente em periódicos, decidindo que a pré-impressão é suficiente, diz Alperin. “Não vejo isso como um problema em si”, diz ele. “Às vezes, o objetivo da publicação de um periódico tem sido uma força negativa na ciência, encorajando as pessoas a se concentrarem na publicação em um determinado periódico, quando o objetivo deveria ser realmente fazer pesquisa de alta qualidade e garantir que ela seja comunicada e alcance o público certo.”

Os editores contactados pela equipa de notícias da Nature disseram que ainda estão a avaliar a política de Gates. ( A equipe de notícias da Nature é editorialmente independente de sua editora, Springer Nature.) “Estamos analisando as implicações da nova política de acesso aberto da Fundação Bill e Melinda Gates e o que isso significa para a forma como apoiamos seus pesquisadores”, disse um porta-voz. para a editora Elsevier em comunicado.

Roheena Anand, diretora executiva de desenvolvimento editorial global e vendas da editora PLOS, com sede em São Francisco, Califórnia, disse em um comunicado que a PLOS já reconheceu que o modelo APC de publicação AA cria desigualdades. “Estamos comprometidos em encontrar alternativas sustentáveis ​​e equitativas. É por isso que lançamos vários modelos não-APC e também estamos a trabalhar com um grupo de trabalho multilateral”, diz ela, “para identificar caminhos mais equitativos para a partilha de conhecimento, para além das cobranças baseadas em artigos”. Ela acrescentou que existe o risco de que, sem alternativas estabelecidas, os investigadores financiados pela Fundação Gates voltem a publicar o seu trabalho através de acesso pago. “Os modelos de negócios mais recentes da PLOS oferecem uma alternativa possível.”

Em um artigo anunciando as mudanças , Estee Torok, oficial sênior de programa da Fundação Gates, escreveu que a organização pagou cerca de US$ 6 milhões em APCs por ano desde 2015. “Estamos convencidos de que esse dinheiro poderia ser melhor gasto em outro lugar para acelerar o progresso das pessoas”, escreveu ela. Farley diz que a fundação planeia investir em modelos de acesso aberto mais equitativos, como o ‘diamond OA’, um sistema em que os editores não cobram taxas aos autores ou leitores, bem como servidores de pré-impressão e outras plataformas e tecnologias para divulgação de investigação.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Porto do Açu e a ilusão do desenvolvimento: farsas e tragédias de um tigre de papel

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Lendo duas postagens do sempre certeiro professor e pesquisador Roberto Moraes sobre a falta de, digamos, publicidade em torno dos valores astronômicos que estariam sendo gerados pelo Porto do Açu, vi que ele levantou a hipótese de que a parca divulgação em torno dos R$ 21 bilhões de cargas movimentadas em 2023 se deve ao fato de que os operadores estrangeiros do empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista não querem chamar atenção sobre a disparidade entre a riqueza gerada e os desastrosos impactos que ocorrem no V Distrito de São João da Barra, sejam sociais, econômicos ou ambientais.

Eu diria que Roberto Moraes aponta para a questão correta, mas eu acrescentaria que a experiência do Porto do Açu e a reafirmação de que esse tipo de empreendimento “enclave” funciona como uma bomba sugadora de recursos e gera efeitos devastadores que nunca são compensados acaba servindo para que haja uma quebra da ilusão de que essas megaestruturas possam alavancar o desenvolvimento econômico de regiões historicamente deprimidas, como é o caso do Norte Fluminense e tantas áreas em que elas estão sendo impostas na América Latina.

A verdade é que graças a todo o conhecimento gerado em torno da desastrosa experiência do Porto do Açu, as tentativas de implantar estruturas semelhantes estão sendo recebidas com a devida resistência pelas comunidades que habitam os locais que estão sendo escolhidos para a construção de homônimas da megaestrutura instalada em São João da Barra.

Esse conhecimento decorre da circulação não apenas de todas as violências cometidas contra agricultores familiares e pescadores artesanais que viviam do que podiam plantar e coletar as suas fontes de sustento nas terras e águas do V Distrito, mas também da incontável quantidade de pesquisas acadêmicas que documentaram e continuam documentando as implicações de se ter esse tipo de empreendimento que se fecha para o entorno para maximizar os lucros dos seus gestores e financiadores.  Essa combinação de resistência de raiz em conjunção com a pesquisa está gerando fortes resistências em outros locais, como bem os casos do Porto Central (ES) e do Porto de Jaconé (RJ).  

Nesse sentido, o Porto do Açu tem um sentido pedagógico, pois ficou evidente que as promessas de desenvolvimento e geração de empregos não passaram de uma ilusão destinada a embaçar consciências e impedir a resistência.

Finalmente, li hoje uma nota apontando que o Porto do Açu contratou um grande escritório de advocacia para reestruturar dívidas no valor de 5,8 bilhões de reais (US$ 1,1 bilhão), lançando duas emissões separadas de debêntures. Essa é outra faceta que é pouco noticiada, provavelmente por mostrar que o gigante pode ser um tigre de papel.

A perda global de florestas tropicais continua a uma taxa de 10 campos de futebol por minuto

Apesar dos grandes progressos no Brasil e na Colômbia, o desmatamento liderado pela agricultura ainda desmatou uma área quase igual à da Suíça

desmatamentoFloresta queimada na área de conservação Ñembi Guasu em Charagua, Bolívia. A expansão do cultivo da soja levou a um aumento na perda florestal pelo terceiro ano na Bolívia. Fotografia: David Mercado/Reuters

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

A destruição das florestas tropicais mais preservadas do mundo continuou a um ritmo implacável em 2023, apesar das quedas dramáticas na perda de florestas na Amazónia brasileira e colombiana, mostram novos números.

Uma área quase do tamanho da Suíça foi desmatada de florestas tropicais anteriormente intactas no ano passado, totalizando 37 mil quilómetros quadrados (14.200 milhas quadradas), de acordo com números compilados pelo World Resources Institute (WRI) e pela Universidade de Maryland. Esta é uma taxa de 10 campos de futebol por minuto, muitas vezes impulsionada pelo aumento de terras cultivadas em todo o mundo.

Embora o Brasil e a Colômbia tenham registado grandes quedas na perda florestal de 36% e 49%, respectivamente, sob as políticas ambientais dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, essas quedas foram compensadas por grandes aumentos na Bolívia, Laos, Nicarágua e outros países.

O Canadá também sofreu uma perda recorde de floresta devido ao fogo, perdendo mais de 8 milhões de hectares (20 milhões de acres).

Mikaela Weisse, diretora do Global Forest Watch do WRI, disse: “O mundo deu dois passos para frente e dois para trás no que diz respeito à perda florestal do ano passado.

“Os declínios acentuados na Amazônia brasileira e na Colômbia mostram que o progresso é possível, mas o aumento da perda florestal em outras áreas contrabalançou em grande parte esse progresso”, disse ela. “Temos de aprender com os países que estão a abrandar com sucesso a desflorestação.”

As alterações na utilização dos solos – das quais a desflorestação é uma componente central – são a segunda maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa e um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade. Preservar as florestas tropicais é essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C (2,7°F) acima dos níveis pré-industriais, segundo os investigadores.

Uma rodovia atravessa trilhos de trem perto de Phonhong, no Laos

Uma ferrovia que liga Kunming, na China, a Vientiane, no Laos, passa por baixo de uma rodovia perto de Phonhong, no Laos, onde a demanda chinesa alimentou a expansão agrícola. Fotografia: Reuters

Especialistas alertaram que a desflorestação contínua significa que os governos estão perigosamente desviados no que diz respeito ao cumprimento dos seus compromissos climáticos e de biodiversidade. Na conferência climática Cop28, no Dubai, os governos concordaram sobre a necessidade de travar e reverter a perda e a degradação das florestas até 2030, após o compromisso dos líderes mundiais na Cop26, em Glasgow, de pôr fim à sua destruição nesta década.

Mas os novos números mostram que o mundo está muito longe de atingir esta meta, com poucas alterações na perda global de florestas durante vários anos.

Embora o Brasil tenha diminuído significativamente a sua taxa de perda florestal, o país continuou a ser um dos três países com maior perda de floresta tropical primária, ao lado da República Democrática do Congo e da Bolívia. Juntos, foram responsáveis ​​por mais de metade da destruição global total.

A Bolívia registou um grande aumento na perda de florestas pelo terceiro ano consecutivo – apesar de ter menos de metade da floresta de outros grandes países com florestas tropicais, como a RDC e a Indonésia – impulsionado em grande parte pela expansão do cultivo da soja.

O Laos e a Nicarágua perderam grandes pedaços da sua floresta tropical intocada em 2023, desmatando 1,9% e 4,2%, respetivamente, num único ano, o que os investigadores afirmam ser porque florestas altamente fragmentadas em países que já tinham sido desmatadas extensivamente podem muitas vezes ser apagadas mais rapidamente.

No Laos, a expansão agrícola está a ser alimentada pela procura de mercadorias por parte da China, enquanto na Nicarágua a culpa é da pecuária e da agricultura em expansão.

Gado pasta em Chikova, Zimbábue
‘Não sabemos para onde vai o dinheiro’: os ‘cowboys do carbono’ que ganham milhões com esquemas de crédito

Apesar da falta de progresso geral nos números para 2023, os investigadores disseram que o mundo poderia aprender com os exemplos do Brasil e da Colômbia para cumprir as metas de desflorestação.

O professor Matthew Hansen, especialista em sensoriamento remoto do departamento de geografia da Universidade de Maryland, disse: “Eu realmente acredito que a única maneira de manter as florestas em pé é um fundo de compensação para a conservação das florestas tropicais em pé.

“A Alemanha lançou o Acordo Justo ‘, que pretende pagar desta forma aos países com florestas tropicais. A Noruega envolveu-se com o Gabão de forma semelhante, utilizando o sequestro de carbono como medida. Junte essa abordagem a uma governação robusta e ao envolvimento da sociedade civil e poderá funcionar”, disse ele.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].