COP28 será mais um evento para o Brasil passar vergonha

Lula deve levar à COP28 proposta para "proteger floresta em pé"

Com Lula e Marina Silva, o Brasil se prepara para cumprir mais um papelão na COP28

Começa amanhã em Dubai, Emirados Árabes Unidos, a 28a. edição da Conferência das Partes (COP). Essa edição já começa com area de que irá dar tudo errado já que o presidente-executivo da empresa petrolífera estatal dos EAU, Sultan Al Jaber, como presidente das negociações. É como colocar o açougueiro para cuidar de um curral cheio de bois prontos para o abate. Simplesmente não tem como dar certo.

Mas e o Brasil? Será que fará um papel menos bizarro do que fez nas edições em que Jair Bolsonaro comandava o executivo federal? Será que agora com Lula e Marina Silva, o nosso país vai fazer um papel mais alinhado com o que se espera de um estado-nacional que detém a maior floresta tropical do planeta?

Os últimos pronunciamentos de Marina Silva indicam que não. Primeiro a ministra do Meio Ambiente tem insistido na alegação pouco crível de que o desmatamento de nossas florestas entrou em um patamar, digamos, mais controlado.  O problema é que o desmatamento pode ter até diminuído, mas continua muito alto na Amazônia. No bioma Cerrado, a coisa não tem nem como disfarçar, pois os números indicam um forte viés de alta.

Além disso, como venho insistindo aqui, o problema da Amazônia não é só desmatamento, pois o processo de degradação florestal via extração predatória de madeira e incêndios florestais vem emitindo a mesma quantidade de CO2. Com isso, a insistência em se falar apenas de desmatamento serve apenas para mascarar o tamanho gigantesco do problema representado pelo tamanho da destruição em curso na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

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Marina Silva aponta para o desmatamento enquanto esconde a degradação florestal

Agrotóxicos como contribuintes do aquecimento global e das mudanças climáticas

Outro elemento para aumentar o descrédito nas negociações da COP28 é a aprovação no dia de ontem do Pacote do Veneno. É que, apesar de pouco comentado, o aumento excessivo no uso de agrotóxicos também contribue para as mudanças climáticas.  O fato é qu os agrotóxicos também podem liberar emissões dos efeitos do efeito estufa (GEE) após a sua aplicação.

Pesquisas científicas já demonstraram que os agrotóxicos podem aumentar significativamente a produção de óxido nitroso nos solos. Além disso, muitos agrotóxicos levam à produção de ozônio troposférico, um gás com efeito de estufa prejudicial tanto para os seres humanos como para as plantas.

A falta de atenção para com a contribuição dos agrotóxicos se deve, entre outras coisas, ao fato de que existe um foco maior nas emissões urbano-industriais, mas certamente o peso dos agrotóxicos nas emissões de GEE ainda será futuramente colocado no seu devido lugar, e o Brasil com responsável por 25% do uso total dos agrotóxicos no planeta vai acabar ficando no centro do debate.

Curiosamente, nunca ouvi nada de substancial de Marina Silva sobre a relação entre agrotóxicos com o desmatamento e o aquecimento global.  Aliás, enquato no cargo de ministra do Meio Ambiente, a postura de Marina Silva tem sido de uma ausência óbvia no debate sobre a aprovação do PL do Veneno que passou ontem em brancas nuvens pelo Senado Federal.

Então é forçoso apontar para aqueles que apontavam ou esperavam que a participação brasileira na COP28 fosse qualitativamente diferente do que foi entre as COP 24 e 27, melhor repensar.  Poderemos não fazer o mesmo papelão, mas estaremos quase lá.

Com o aval de Lula, bancada ruralista “passa o rodo” e aprova com facilidade o PL do Veneno no Senado Federal

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Ao lado do ruralista e ministro da Agricultura Carlos Fávaro, Lula se tornou uma espécie de avalista do PL do Veneno

Desprezando todas as evidências científicas já recolhidas sobre os graves impactos associados ao uso intensivo de agrotóxicos sobre o ambiente e a saúde humana, a bancada ruralista do Senado Federal aprovou com grande facilidade na tarde desta 3a. feira o famigerado PL do Veneno. Com isso, o Brasil vai vivenciar um grande afrouxamento das regras existentes para pesquisa, experimentação, produção, comercialização, importação, exportação, embalagens e destinação final de agrotóxicos.

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Algo que não foi ainda aprofundado devidamente será a provável transformação do Brasil em uma espécie de parque industrial dos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo por causa da capacidade de causar doenças graves, incluindo diversos tipos de câncer.  Essa facilitação para a produção de agrotóxicos com conhecido potencial cancerígeno está alinhada com o esforço de aprovação do acordo comercial Mercosul-União Europeia. É preciso lembrar que as multinacionais europeias como a Bayer e a Basf enfrentam uma oposição crescente em relação a alguns de seus “campeões de venda”  como é o caso do Glifosato, e agora poderão transferir a produção desses venenos para território brasileiro, especialmente se o acordo comercial for assinado.

Antes que se transfira a responsabilidade toda para a bancada ruralista é preciso lembrar que o governo Lula tem tido uma postura para lá de leniente com a explosiva situação representada pelo uso de venenos agrícolas causadores de doenças graves.  O problema é que em seu terceiro mandato, Lula decidiu claramente aprofundar a aposta no latifúndio agro-exportador e no seu modelo de grandes monoculturas que dependem de grandes doses de agrotóxicos e fertilizantes químicos para terem um mínimo de viabilidade.

Além disso, a busca de assinatura do acordo com a União Europeia mostra que a aposta do presidente Lula é na agricultura de grande extensão onde as empresas europeias que vendem implementos químicos, agrotóxicos, sementes geneticamente modificadas e fertilizantes químicos geram margens fabulosas de lucros. E aquele discurso que seu governo iria apostar na adoção de um modelo agroecológico de produção de alimentos? Aparentemente, um discurso destinado a convencer eleitores indecisos.

Quem acompanha com um mínimo de cuidado o problema dos agrotóxicos sabe que atualmente as áreas que concentram a produção de soja, por exemplo, também se caracterizam por terem taxas extraordinárias de câncer (ver vídeo abaixo).  O problema é que com a aprovação do PL do Veneno, este modelo de agricultura dependente de agrotóxicos vai ser aprofundada em todos os sentidos, incluindo o aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. De certa forma, os agrotóxicos servem como uma espécie de bússola da destruição ambiental no Brasil.

Como já venho observando ao longo de 2023, os agrotóxicos são uma espécie de ponto de combustão que ameaça consumir o governo Lula. A questão é que depois de abraçar o latifúndio agro-exportador, a decisão de assistir de camarote a aprovação do PL do Veneno é apenas uma consequência natural.

Apicultores denunciam a mortandade de abelhas por agrotóxicos e cobram banimento imediato do Fipronil

Produto já teve o uso restrito e está sendo reavaliado pela Anvisa

Apicultores querem o banimento imediato do Fipronil e de outros agrotóxicos responsáveis por variados casos de mortandade de abelhas no Brasil. O apelo foi apresentado em audiência da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados. O governo admitiu atraso em medidas concretas e os parlamentares sugeriram a criação de um grupo de trabalho interministerial para superar entraves burocráticos.

Produtoras de mel, as abelhas desempenham o fundamental serviço ambiental de polinização, que tem papel importante na biodiversidade das plantas e na produtividade agrícola. Porém, também têm sido alvo das mudanças climáticas e, sobretudo, de agrotóxicos que enfraquecem o sistema imunológico, atrofiam as glândulas produtoras de proteína da geleia real e destroem colônias inteiras.

O presidente da comissão técnico-científica da Confederação Nacional de Apicultores, Ricardo Orsi, descreveu o poder destrutivo do Fipronil. Em dose normal, esse agrotóxico mata as abelhas imediatamente. Mesmo muito diluído, o Fipronil vai gradativamente minando as colônias, segundo Orsi.

“Fizemos várias diluições para chegar àquilo que queríamos (0,4 nanograma por abelha). Realmente, não matou nenhuma abelha imediatamente. Mas, em oito semanas, não tinha mais uma colônia dentro da colmeia: em quatro semanas, já não havia mais postura da rainha; em seis semanas em área de cria fechada, pré-pupa e pupa reduziram significativamente; e, em oito semanas, perdemos todas”, explicou.

Ricardo Orsi disse ainda que o glifosato, agrotóxico mais usado no Brasil, não mata abelhas, mas desorienta o voo, altera as glândulas e dificulta a criação de novas rainhas. Apicultor e meliponicultor em Minas Gerais, Marcelo Ribeiro perdeu 80 colmeias devido à contaminação. As análises encontraram 40 princípios ativos de agrotóxicos, principalmente Fipronil, que, segundo ele, deve ser banido imediatamente do mercado. O coordenador geral de agrotóxicos do Ministério da Agricultura, José Victor Costa, informou que o Fipronil está em reavaliação pela Anvisa e pelo Ibama e já teve o uso restrito.

“Desde março de 2023, está proibida a pulverização foliar do produto. O que ainda está sendo permitido é o tratamento de semente, que ocorre no início, não é na época de floração. E, se a gente tirar isso da agricultura hoje, vão colapsar a apicultura e a agricultura, porque 37% do mercado de tratamento de semente usa hoje a molécula Fipronil”, justificou.

André Borges/Agência Brasília
Agropecuária - geral - apicultura mel própolis abelhas
Abelhas são responsáveis pela polinização de diversas plantas, além de produzirem mel

Atraso
O secretário de biodiversidade e florestas do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias, admitiu o atraso dos governos em solucionar o caso.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, temos tido situações de 500 milhões de abelhas mortas em um ano só, como no Rio Grande do Sul. Recentemente, houve vários casos em São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia. Nos casos em que os pesquisadores foram chamados, foi comprovado que a causa era agrotóxico, não era doença. Então, é evidente que o governo – tanto a União quanto os estados – está muito lento em responder essas demandas. Temos que acelerar esse processo”.

Transição
Os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) vão sugerir à Casa Civil a criação de um grupo de trabalho interministerial para aparar arestas internas e efetivamente resolver a questão. Organizador do debate, Padre João também defendeu concurso público para os órgãos de fiscalização e a retomada do Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara) .

“O extermínio das abelhas é contra a criatura humana também. Nós temos a maior empresa de pesquisa do mundo, que é a Embrapa, e as melhores universidades. Então, temos que avançar nas pesquisas dessa linha de transição e de como o próprio agronegócio pode avançar em harmonia com a biodiversidade”.

A chefe da divisão de pesquisa e inovação do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Adalgisa Ferreira, defendeu a transição agroecológica e o fortalecimento da agricultura familiar. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) aposta em maior eficácia do controle fitossanitário.

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Ana Chalub


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Câmara de Notícias [Aqui!   ].

Pesquisadores espanhóis altamente citados retiram sua afiliação primária de universidades da Arábia Saudita

A lista de investigadores mais citados para 2023 inclui 114 cientistas com afiliação primária em instituições espanholas

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Cientistas em ação dentro de um laboratório de pesquisa

Pesquisadores espanhóis altamente citados, que no ano passado tinham uma universidade da Arábia Saudita como afiliação principal e uma instituição espanhola como afiliação secundária, retiraram a sua afiliação principal dos centros sauditas.

Isso se reflete na lista de Pesquisadores Altamente Citados do Clarivate Analytics 2023 , coletada pela Europa Press, que inclui os pesquisadores mais influentes do mundo. A lista inclui os 7.125 nomes dos investigadores mais relevantes do mundo de 67 países, 114 deles com afiliação primária a instituições espanholas .

A lista do ano passado incluía onze pesquisadores altamente citados com afiliações primárias em universidades da Arábia Saudita e que indicaram instituições espanholas como afiliações secundárias. A lista de 2023 da Clarivate apresenta apenas dois pesquisadores espanhóis altamente citados com afiliação primária a uma universidade saudita, mas nenhum deles tem uma instituição espanhola entre suas afiliações secundárias.

Além disso, a lista revela que este ano há menos 31 investigadores altamente citados com afiliação primária a instituições sauditas , já que em 2022 o ranking incluía 112 investigadores da Arábia Saudita e este ano o número caiu para 81 investigadores.

Em abril passado, o relatório ‘ O jogo de afiliação entre instituições de ensino superior e de pesquisa espanholas e sauditas ‘, realizado pela consultoria Siris, revelou que mais de uma dezena de pesquisadores entraram na lista de Pesquisadores Altamente Citados (HRC) da Clarivete com afiliação primária a uma instituição espanhola, mas, a maioria deles, um ano depois, mudaram sua afiliação principal para uma universidade na Arábia Saudita.

Este artigo, que analisa a lista de Pesquisadores Altamente Citados da Clarivate, explica que, para as universidades, ter pesquisadores altamente citados “é importante porque é considerado uma marca de qualidade e aumenta sua atratividade”. Além disso, esta lista é um “indicador chave” do Ranking Acadêmico de Universidades Mundiais de Xangai.

A pesquisa destacou que um único pesquisador altamente citado pode permitir que uma universidade ganhe até 200 posições no Ranking de Xangai . Em 2019, o pesquisador espanhol Rafael Luque indicou que a Universidade de Córdoba era sua afiliação secundária e colocou a Universidade Rei Saud como sua afiliação principal. O Ranking de Xangai leva em consideração apenas as principais afiliações.

O CSIC apresentou acusações contra cinco pesquisadores

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Os EUA e a China lideram a lista dos investigadores mais influentes, onde a Espanha tem 104 (EFE/EPA/YAHYA ARHAB)

Perante esta situação, o Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC) abriu processos disciplinares contra cinco investigadores que mudaram a sua filiação principal para uma universidade na Arábia Saudita.

A Presidência do CSIC decidiu iniciar um procedimento de Informação Reservada que já foi concluído afirmando que talvez possa haver indícios de uma suposta infração administrativa da qual possam surgir eventuais responsabilidades e que, portanto, é necessária a instauração de um Processo Disciplinar contra os pesquisadores .

O CSIC já iniciou este novo procedimento que deve ser desenvolvido com todas as garantias e sob os princípios essenciais da contradição e, como não poderia deixar de ser, da presunção de inocência, segundo informaram fontes da instituição à Europa Press.

Juntamente com os procedimentos, o CSIC desenvolveu uma norma para esclarecer aos investigadores como devem refletir as suas afiliações. Esta é a Resolução de 3 de julho de 2023 do Presidente da Agência Estadual Conselho Superior de Investigação Científica, MP (CSIC) que aprova a Instrução que regulamenta a menção em resultados de investigação de filiações a instituições terceiras derivadas de situações de mobilidade de pessoal de investigação previsto na Lei de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Por fim, o CSIC acertou com a empresa Clarivate que enviará anualmente a lista dos pesquisadores que aparecem no Índice de Pesquisadores Altamente Citados (HCR) antes de sua publicação para verificar se a primeira afiliação dos pesquisadores é a do CSIC.

Coloque primeiro a universidade principal onde eles trabalham

Por seu lado, o Comitê de Ética em Investigação espanhol publicou o seu primeiro relatório sobre a autoria e afiliações de trabalhos científicos e técnicos , na sequência da comissão do Ministério da Ciência e Inovação.

No relatório, o órgão consultivo destaca que, quando os autores declaram mais de uma afiliação, “ é importante a ordem ou prioridade com que essas afiliações são declaradas, que deve corresponder à relação contratual do autor”.

O documento explica que a autoria científica é sempre indicada associada à filiação e especifica que ambas as informações “são indissociáveis ​​e devem ser expressas em todos os tipos de produção científica (publicações, comunicações em conferências…)”. A afiliação, segundo o documento, indica as entidades, instituições ou empresas às quais está vinculado cada um dos autores de uma publicação científica.

“Um suborno para fazer algo fraudulento”

A química analítica Mira Petrovic , uma das investigadoras mais citadas que figura na lista Clarivate, que serve de indicador do Ranking de Xangai, rejeitou uma oferta de 70 mil euros da Arábia Saudita para colocar a sua primeira filiação na Universidade King Saud para um ânus.

“ Eu não deveria ter investigado nada, foi um suborno para fazer algo fraudulento . Não é ético dizer que sou daquela instituição”, Petrovic, que trabalha na Espanha desde 1999 e atualmente é pesquisadora do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados (ICREA) afiliado ao Instituto Catalão de Pesquisa, afirmou em entrevista à Europa Press.Water Research (ICRA), onde é Chefe de Departamento.

Para as universidades, ter afiliados com pesquisadores altamente citados que aparecem no Clarivate é uma marca de qualidade que impacta o Ranking de Xangai. “Recebi uma oferta da Arábia Saudita para minha primeira afiliação na Universidade King Saud e o fato de aparecer na lista da Clarivate seria atribuído à Arábia Saudita”, disse o cientista.

“ A oferta foi direta, cobrando 70 mil euros diretamente para mim e não para investigação. Depois poderia haver a opção de falar de investigação, mas era algo secundário que viria depois do facto ”, sublinhou Petrovic, que recebeu por email a oferta, que seria anual e poderia ser renovada: “Há investigadores que fazem isso. Ano após ano.”

(Informações da Europa Press)


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela Infobae [Aqui!].

MAPA com indicações de cargos ditadas pela Frente Parlamentar da Agricultura segue sendo um ministério bolsonarista

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Graças à intervenção poderosa da FPA, o MAPA continua sendo bolsonarista no governo Lula

Muita gente me pergunta como é possível que o governo Lula continue aplicando a mesma política de aprovação de agrotóxicos desenvolvida pela equipe de Jair Bolsonaro.  A resposta mais simples é que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem no seu comando o senador ruralista Carlos Fávaro (PSD/MT) que possui vínculos com Aprosoja que foi um dos principais sustentáculos do governo Bolsonaro nas entidades de classe dos ruralistas.

Entretanto, o buraco parece ser mais embaixo já que obtive informações que cargos importantes no MAPA são de indicação direta da chamada Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) que teria conseguido, entre outros coisas, promover ao cargo de Secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, o diretor da área responsável pela coordenação da área de avaliação de agrotóxicos do MAPA. Com isso, não é nenhuma surpresa que tenhamos tido a promulgação das portarias 02 e 03 que flexibilizaram ainda mais o processo de liberação de agrotóxicos no Brasil. 

Na prática, o que alguns observadores de indicações políticas feitas no governo Lula, mas especial no MAPA, é que quadros indicados pelo Bolsonarismo não apenas foram mantidos, mas, também, promovidos dentro da equipe ministerial do presidente Lula.

Alguns poderão dizer que esse tipo de procedimento é um dos custos da governabilidade, na medida em que a FPA saiu fortalecida nas eleições realizadas em 2022, não restando assim outra alternativa senão entregar a ela o controle da indicações de cargos importantes.

Particularmente não compro a tese da necessidade de se garantir a governabilidade. É que nos mandatos anteriores,  Lula já estabeleceu vínculos claros com o chamado agronegócio, ainda que isso jamais tenha lhe garantido alguma garantia de gratidão política. Tanto isso é verdade que o agronegócio foi um dos garantidores o gole parlamentar que tirou a presidente Dilma Rousseff da presidência da república.

Lamentavelmente tudo indica que essa hegemonia da FPA no MAPA vai resultar em ainda mais desmatamento na Amzônia e no Cerrado, e liberações de agrotóxicos altamente perigosos.  Para faze fremte a essa situação só resta apostar na ação organizada dos movimentos socais, comunidade científica e da população.  Do contrário, a boiada irá continuar passando.

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

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Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

A questão da oferta de água potável no V Distrito e a sombra da outorga dada ao Porto do Açu sobre o Aquífero Emboré

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O site “Parahybano” publicou ontem uma matéria sobre uma ação da Prefeitura Municipal de São João da Barra para resolver o gritante e urgente problema do abastecimento de água potável no V Distrito de São João da Barra, área que foi alvo de um incidente ambiental causado pelo despejo de água salgada vinda dos aterros hidráulicos do Porto do Açu.

A matéria do Parahybano informa que a “prefeita Carla Caputi assinou na tarde de sexta-feira, 24/11, a ordem de serviço para perfuração de poço tubular profundo na localidade de Bajuru, no quinto distrito de São João da Barra, e interligação na rede existente na RJ-240“. A nota informa ainda que a “previsão é que a obra, no valor de R$ 1.144.136, com recurso próprios, seja concluída em um prazo de quatro meses, beneficiando mais de 5 mil famílias das localidades de Bajuru, Azeitona, Campo de Areia, Corrego Fundo, Água Preta, Mato Escuro, Cazumbá, Sabonete e Concha“. 

Por outro lado, o que a nota não nos informa é se foram realizados estudos prévios sobre a qualidade da água que se pretende utilizar para o resolver o problema crônico que tem sido o abastecimento nas localidades apontadas, especialmente porque uma das reclamaçõesdos habitantes do V Distrito é que a água servida a eles seria salgada ou, na melhor das hipóteses, salobra. Sem um estudo prévio que ateste que a água que será retirada de uma profundidade estimada de 240 metros estará livre do excesso de sal, esta obra será uma espécie de trocar “seis por meia dúzia”. Uma questão que levantei neste espaço faz pouco tempo se relaciona ao maior usuário de água de V Distrito  (e certamente do município de Sâo João da Barra) que é o Porto do Açu.

Segundo dados levantados pela Agência Pública e publicados na matéria “Os donos da água“, o Porto do Açu possui uma outorga para o uso de 142,4 bilhões de litros de água anualmente, colocando o empreendimento como o sétimo maior consumidor de água do Brasil. Desde fiquei pensando de ontem o porto estaria retirando este mega volume de água. 

Agora após ler a mesma matéria do Parahybano, um leitor deste blog  me perguntou o que estaria ocorrendo em termos de uso da água contida no chamado “Aquífero Emboré“, pois há a preocupação de que a grande outorga dada ao Porto do Açu esteja sendo obtida desta reserva hídrica (ver imagem abaixo).

A possibilidade de que o Porto do Açu esteja obtendo seu abastecimento anual do Emboré não me parece algo despropositado, na medida em que a planejada transposição do Rio Paraíba do Sul que iria ser feita para abastecer o empreendimento iniciado pelo ex-bilionário nunca saiu do papel, até porque houve a devida reação por parte do Ministério Público Federal.

A questão é que não se ouviu nada por parte de autoridades municipais do entorno do Porto do Açu após a veiculação da matéria produzida pela Agência Pública. E agora vem a Prefeitura de São João da Barra com essa solução para um problema que foi, ao menos em parte, causado pelo Porto do Açu.  Com isso, cresce a necessidade de que haja a devida publicidade sobre a qualidade da água que vai ser fornecida à população do V Distrito, mas também sobre a mineração da água contida no Aquífero Emboré por parte do enclave comandado pelo fundo de private equity EIG Global Partners. Afinal, o usufruto da riqueza hídrica do Emboré deve ser primeiro da população dos municípios de Campos e de São João da Barra.

 

Estudo mostra que oferta de orgânicos produzidos no Brasil falha em suprir demanda, apesar do mercado crescente

organicosConsumo de orgânicos tem procura, mas produção no país não supre a demanda; levantamento mostra que muitos itens são importados de outros países

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Vasto em terras cultiváveis, o Brasil tem um dos principais mercados agrícolas do mundo, inclusive, de produtos orgânicos. A oferta, no entanto, ainda é inferior à demanda, de acordo com dados analisados por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). A pesquisa publicada na sexta (24) na revista científica “Desenvolvimento e Meio Ambiente” aponta, ainda, que há falhas no levantamento de dados referente ao cultivo de orgânicos no país.

O trabalho traçou um panorama sobre a produção e a demanda de orgânicos no Brasil, a partir de dados do Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO), realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e dados de consumo de pesquisas da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis) e do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

As vendas de produtos orgânicos quadruplicaram entre 2003 e 2017 e tiveram um crescimento de 30% em 2020, movimentando cerca de R$ 5,8 bilhões, revela a pesquisa. O mercado brasileiro se abastece, também, de importações — o que demonstra que a produção de orgânicos não supre a demanda: há 953 certificações de orgânicos para produtos importados, provenientes de 23 países, segundo dados do Mapa. Os alimentos vão desde produtos provenientes de espécies características de outros países, como amaranto, quinua, damasco, azeite de oliva, até alimentos também produzidos em território nacional como amendoim, arroz, soja, tomate, milho e feijão.

O número de cadastros de produtores de orgânicos realizados via Mapa aumentou 75% entre 2017 e 2022. Estes números, no entanto, não devem ser comparados com os dados do IBGE, já que as metodologias são diferentes. “As informações do Mapa consideram o produtor orgânico, mas não o estabelecimento, enquanto o IBGE trabalha com estabelecimentos”, explica a pesquisadora Andréia Lourenço, da UFRGS, co-autora do estudo.

As propriedades com agricultura orgânica correspondem a 1,28% do total no país, e cerca de 30% estão concentradas na região Sudeste. Estimativas apontam que esse tipo de cultivo ocupa 0,6% das áreas agrícolas do país, com predomínio da produção vegetal em 36.689 estabelecimentos. Os outros 17.612 estabelecimentos dedicam-se à produção animal, enquanto uma parcela menor de 10.389 estabelecimentos têm produção animal e produção vegetal orgânicas.

“Existe uma tendência de expansão da oferta, já que as áreas cultivadas podem ser maiores, mas há um descompasso em relação ao consumo”, explica Lourenço. Uma das hipóteses é de que uma parte dos orgânicos produzidos no país seja enviada para Europa e Estados Unidos, enquanto uma boa quantidade é destinada para a agroindústria.

A agrônoma destaca que as bases de dados utilizadas pelo estudo são limitadas. “Precisamos de ferramentas mais aprimoradas para ter um panorama mais preciso da cadeia produtiva de orgânicos do país”, avalia. O avanço na captação de informações pode favorecer a criação e a aplicação de políticas públicas para os produtores, além de mapear melhor onde está a demanda por esse tipo de produto e ampliar a sua oferta para o mercado consumidor interno.

Face à intensificação dos furacões, é urgente proteger os ecossistemas costeiros

huracanes-ecosistemas-996x567Os ecossistemas costeiros, como os mangais, reduzem os efeitos dos furacões, pelo que a sua proteção ajuda a reduzir a vulnerabilidade a este tipo de eventos climáticos. Crédito da imagem: Gildardo Sánchez/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY 2.0 Deed

De acordo com um estudo recente de Andra J. Garner, pesquisadora da Rowan University, nos Estados Unidos, publicado na Scientific Reports , a possibilidade de uma tempestade tropical fraca se tornar um furacão de alta intensidade em um curto espaço de tempo (12 horas) é de três vezes mais provável de acontecer agora do que antes de 2000.

“Já estamos a assistir a um aumento global na taxa de intensificação dos furacões no Atlântico, o que significa que provavelmente já estamos a assistir a um aumento do risco de perigos para as nossas comunidades costeiras”, disse Garner ao SciDev.Net, depois de analisar dados de 1970 a 2020 .

Mas os furacões não afetam apenas pessoas e estruturas. Também danificam florestas, praias e recifes de coral, reduzem a quantidade e a diversidade de espécies que dependem destes habitats e afetam a qualidade do solo e da água na área onde impactam.

“Os ecossistemas costeiros naturais são essenciais para reduzir eventos extremos como furacões. Em primeiro lugar, porque muitos deles, como as turfeiras costeiras, são grandes captadores de CO2 e podem ajudar a reduzir as emissões das alterações climáticas.”

Luis Zambrano, pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Nacional Autônoma do México

Para Naxhelli Ruíz Rivera, coordenadora do Seminário Universitário sobre Riscos Socioambientais do Instituto de Geografia da Universidade Nacional Autônoma do México, é urgente considerar os ecossistemas costeiros porque se eles se perderem, a integridade da costa também muda quando ocorrem furacões.

“Os ecossistemas costeiros naturais são essenciais para reduzir eventos extremos como furacões. Em primeiro lugar, porque muitos deles, como as turfeiras costeiras, são grandes coletores de CO 2 e podem ajudar a reduzir as emissões das alterações climáticas”, disse Luis Zambrano, investigador do Instituto de Biologia da UNAM, ao SciDev.Net .

Da mesma forma, os ecossistemas, como os manguezais, reduzem os efeitos dos furacões. “Quando o furacão passa sobre um mangue, os efeitos das ondas e dos ventos são reduzidos”, disse Zambrano.

A preocupação com a perda de ecossistemas costeiros é cada vez maior, especialmente devido à possibilidade de os furacões se tornarem mais intensos em menos tempo.

De acordo com o trabalho de Garner, estes fenômenos serão mais desafiantes no sudoeste do Mar do Caribe, pois “têm o potencial de criar impactos devastadores em muitas nações

Foi o que aconteceu na costa da Nicarágua em 2020, quando os furacões Eta e Iota se intensificaram em questão de horas.

Algo semelhante também acontece no Pacífico. No final de outubro, a fraca tempestade Otis que atingiu o estado de Guerrero, no México, tornou-se em poucas horas um furacão de categoria 5, tornando-se assim o mais forte da história daquele estado. Até agora, deixou 48 mortos, 26 desaparecidos e milhares de perdas de infra-estruturas, segundo o relatório mais recente do governo mexicano.

O furacão Otis, em outubro de 2023, tornou-se a tempestade mais forte a impactar o estado de Guerrero. Crédito da imagem: Secretaria de Gestão Integral de Riscos e Proteção Civil de Guerrero

Vários investigadores acreditam que para prevenir este tipo de danos não devemos focar apenas nas pessoas e nas cidades, mas também nos ecossistemas costeiros.

Num artigo de março de 2023 ,  pesquisadores dos Estados Unidos e da Dominica descrevem como os furacões podem ser devastadores para a cobertura florestal ao “remover partes significativas da copa das árvores e quebrar caules. “O aumento das chuvas, combinado com ventos fortes, faz com que as árvores sejam arrancadas, tornando as florestas em encostas íngremes cada vez mais propensas a deslizamentos de terra.”

Embora seja claro que os furacões podem afetar os habitats e os seus serviços ecossistêmicos de muitas maneiras, alguns especialistas salientam que também podem ser oportunidades para mudar o ambiente e reduzir os riscos.

“Todas as cidades do mundo, costeiras ou não, precisam de considerar as suas condições geofísicas, geológicas, hidrológicas, meteorológicas e ambientais, porque esta configuração conduz a certas vulnerabilidades físicas “intrínsecas” (…) Então, se quisermos recuperar de um desastre, o primeiro passo “É pensar em como integrar este tipo de visão no planeamento da cidade e nas estratégias de reconstrução e intervenção nas comunidades, para que os benefícios dos espaços verdes e das infraestruturas verdes e azuis reduzam as vulnerabilidades físicas e sociais”, afirma Ruíz Rivera.

No caso de Otis, no México, devastou a costa de Guerrero porque foi “construída nas ravinas que são peça fundamental para escoar o excesso de água do furacão, nos deltas que fazem parte da interação água-terra e em as praias que são uma peça importante na redução dos efeitos do furacão e da perda de areia”, disse Zambrano.

Por esta razão, “há agora uma grande oportunidade de reconstruir uma cidade, deixando os ecossistemas fluírem com o mar e, assim, torná-los mais resilientes e tornar a cidade mais resiliente face a outro evento extremo. (…) deve gerar corredores nas ravinas, manguezais próximos ao mar e nos deltas e recuperar dunas e gramíneas costeiras. Isso perderia espaço para hotéis e campos de golfe, mas o próximo evento extremo não devastaria tudo”, concluiu.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado [Aqui!].

Pesquisadores verificam maior recorrência de eventos climáticos extremos no Acre a partir de 2010

acre floodingFoto: Gleison Miranda/ Agência de Notícias do Acre 

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O ano de 2010 pode ter sido um ponto de virada para a ocorrência de eventos climáticos extremos no estado do Acre, no Norte do Brasil. É o que aponta artigo publicado nesta terça (21) na revista “Perspectives in Ecology and Conservation”. O estudo, uma parceria entre a Universidade Federal do Acre (UFAC), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o centro de pesquisas americano Woodwell Climate, sugere que o estado pode ser uma das regiões brasileiras mais afetadas pelos eventos climáticos extremos.

A fim de quantificar a frequência de inundações, secas, crises hídricas e incêndios florestais no estado do Acre, além de identificar suas causas e impactos, os pesquisadores examinaram uma série de estudos publicados entre 1987 e 2023, bem como decretos estaduais e municipais relacionados a alertas climáticos e ambientais emitidos no mesmo período. Os dados mostram que a região enfrentou 254 eventos climáticos extremos nos últimos 36 anos e que, desde 2010, há uma tendência constante de aumento na frequência e na intensidade dessas ocorrências.

“A partir de 2010, vemos uma quebra, uma ruptura do padrão que se mostrava até então”, destaca Sonaira Silva, pesquisadora da UFAC e autora do estudo. Até 2004, os registros indicavam a ocorrência de, em média, um evento extremo por ano nas cidades acreanas. No entanto, desde então e, principalmente, após 2010, dois ou mais eventos têm sido registrados com frequência no mesmo ano em um mesmo município. “Esse é o padrão que está se mostrando para o futuro; o ambiente não está conseguindo se regenerar depois de cada evento e, a cada ano, está mais frágil”, explica a autora.

Segundo o artigo, 60% das ocorrências enfrentadas pelos cidadãos acreanos no período analisado foram caracterizadas como incêndios florestais ou queimadas em áreas desmatadas, enquanto 33% foram inundações e 6% crises hídricas. “Geralmente as pessoas mais afetadas são aquelas que estão em áreas de risco, pessoas mais pobres e com menos estrutura”, destaca Silva. As perdas econômicas em larga escala também são alarmantes: registros do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Brasil mostram que, entre 2000 e 2015, de todos os 27 estados brasileiros, o Acre teve o maior custo financeiro por evento: o prejuízo estimado é de mais de 15 milhões de reais a cada crise.

A equipe também identificou tendências e semelhanças nas áreas mais atingidas pelos eventos. A capital Rio Branco e o município de Cruzeiro do Sul, duas das áreas mais populosas do estado, são os principais locais afetados. “As regiões que têm menos floresta são aquelas em que os eventos climáticos mais ocorrem, mas o prejuízo está por todos os lados”, diz Silva.

Para a pesquisadora, as alternativas para mitigar a situação são recompor a vegetação nativa, adaptar as cidades para modelos mais sustentáveis e inteligentes, criar políticas e cumprir legislações ambientais. “Ao que tudo indica, os eventos extremos vão continuar não só ocorrendo, mas aumentando. Pretendemos continuar olhando isso muito de perto para tentar ajudar na tomada de decisões que podem mudar esse cenário”, conclui a autora.