‘Impactos profundos’: dados mostram que o calor recorde dos oceanos está intensificando os desastres climáticos

Os oceanos absorvem 90% do aquecimento global, tornando-se um indicador claro do avanço implacável da crise climática

Gaivotas voam acima das ondas quebrando na praia enquanto o sol nasce em um céu alaranjado.

O calor extra intensifica os furacões e tufões, provoca chuvas mais torrenciais e inundações maiores, e resulta em ondas de calor marinhas mais longas. Fotografia: Michael Probst/AP

Por Damian Carrington para “The Guardian”

Os oceanos do mundo absorveram quantidades colossais de calor em 2025, estabelecendo mais um novo recorde e alimentando eventos climáticos extremos, relataram cientistas.

Mais de 90% do calor retido pela poluição de carbono causada pela humanidade é absorvido pelos oceanos. Isso faz do calor oceânico um dos indicadores mais evidentes do avanço implacável da crise climática, que só terminará quando as emissões caírem a zero. Quase todos os anos, desde o início do milênio, foram registrados novos recordes de calor oceânico.

Esse calor extra intensifica os furacões e tufões que atingem as comunidades costeiras, provoca chuvas torrenciais mais intensas e inundações maiores , além de resultar em ondas de calor marinhas mais longas , que dizimam a vida nos mares. O aumento da temperatura também é um dos principais fatores que contribuem para a elevação do nível do mar por meio da expansão térmica da água do mar, ameaçando bilhões de pessoas.

Medições confiáveis ​​da temperatura dos oceanos remontam a meados do século XX, mas é provável que os oceanos estejam em seu nível de aquecimento mais alto em pelo menos 1.000 anos e aquecendo mais rapidamente do que em qualquer outro momento nos últimos 2.000 anos .

A atmosfera armazena menos calor e é mais afetada por variações climáticas naturais, como o ciclo El Niño-La Niña. A temperatura média do ar na superfície em 2025 deverá ser aproximadamente igual à de 2023, sendo o segundo ano mais quente desde o início dos registros em 1850, e 2024 o mais quente. No ano passado, o planeta entrou na fase mais fria de La Niña do ciclo do Oceano Pacífico.

“A cada ano o planeta aquece – bater um novo recorde tornou-se um disco riscado”, disse o professor John Abraham, da Universidade de St. Thomas, em Minnesota, EUA, e parte da equipe que produziu os novos dados.

“O aquecimento global é o aquecimento dos oceanos”, disse ele. “Se você quer saber o quanto a Terra já aqueceu ou a velocidade com que aquecerá no futuro, a resposta está nos oceanos.”

análise, publicada na revista Advances in Atmospheric Sciences , utilizou dados de temperatura coletados por diversos instrumentos nos oceanos e compilados por três equipes independentes. Esses dados foram usados ​​para determinar o conteúdo de calor dos 2.000 metros superiores dos oceanos, onde a maior parte do calor é absorvida.

A quantidade de calor absorvida pelo oceano é colossal, equivalente a mais de 200 vezes a quantidade total de eletricidade consumida pela humanidade em todo o mundo. “O aquecimento dos oceanos continua a exercer impactos profundos no sistema terrestre”, concluíram os cientistas.

O aquecimento dos oceanos não é uniforme, com algumas áreas aquecendo mais rapidamente do que outras. Em 2025, as áreas mais quentes incluíam os oceanos tropicais, o Atlântico Sul, o Pacífico Norte e o Oceano Antártico. Neste último, que circunda a Antártida, os cientistas estão profundamente preocupados com o colapso do gelo marinho no inverno nos últimos anos

O Atlântico Norte e o Mar Mediterrâneo também estão ficando mais quentes, além de mais salgados, mais ácidos e menos oxigenados devido à crise climática. Isso está causando “uma mudança profunda no estado dos oceanos, tornando os ecossistemas marinhos e a vida que eles sustentam mais frágeis”, disseram os pesquisadores.

 Enquanto a temperatura da Terra continuar aumentando, o conteúdo de calor dos oceanos continuará subindo e os recordes continuarão sendo quebrados”, disse Abraham. “A maior incerteza climática é o que os humanos decidirão fazer. Juntos, podemos reduzir as emissões e ajudar a salvaguardar um clima futuro onde os humanos possam prosperar.”


Fonte: The Guardian

TCE-MG suspende licenciamento de barragem da Anglo American

TCE-MG suspende licenciamento de barragem da Anglo AmericanFoto: Reprodução / TCE-MG 

Por Thyago Henrique para “Diário do Comércio”

O Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG) determinou a suspensão imediata do processo administrativo que trata do licenciamento ambiental do segundo alteamento da barragem de rejeitos do Sistema Minas-Rio, da mineradora Anglo American, no município de Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais.

A decisão impede atos que configurem “avanço, formalização, validação, ratificação, saneamento, conclusão parcial ou prosseguimento do referido procedimento”. O descumprimento acarreta multa diária de R$ 5 mil aos gestores da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) e da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

A suspensão foi determinada pelo presidente do órgão, o conselheiro Durval Ângelo, após o reconhecimento/autodefinição formal, como quilombola, da comunidade de São José do Arrudas, cujas famílias residem na Zona de Autossalvamento (ZAS) da estrutura.

Conforme ele, o autorreconhecimento “atrai um regime jurídico constitucionalmente qualificado e de proteção reforçada”. Entre outros pontos estão o direito fundamental, coletivo e originário ao território tradicional, regimes administrativos de proteção e convenções internacionais que garantem consulta livre e informada aos povos tradicionais “sempre que medidas administrativas ou projetos possam afetá-los diretamente, assegurando participação efetiva, transparência, boa-fé e adequação cultural”.

Ainda segundo Ângelo, o que se acrescenta, agora, é o surgimento de um fato novo, relevante do ponto de vista constitucional, capaz de mudar de forma significativa a avaliação sobre a legalidade da atuação administrativa. Esse novo contexto pode impactar, inclusive, decisões que envolvam deslocamento territorial, reassentamento, divisão de comunidades ou mudanças obrigatórias nos modos de vida tradicionais.

Ele tomou a decisão em caráter liminar, uma vez que o TCE-MG estava em recesso de fim de ano, mas o regimento interno do órgão autoriza o presidente a apreciar “medidas urgentes no recesso, para prevenir dano grave, assegurar a utilidade do processo e resguardar o interesse público”. De acordo com o órgão, o processo segue em análise no tribunal e será apreciado pelos conselheiros e pelo colegiado competente.

Mineradora diz que não foi notificada sobre a suspensão

Em nota, a Anglo American informou que não foi notificada acerca da suspensão do licenciamento pelo órgão ambiental responsável. A empresa afirmou que segue todos os ritos legais do processo de licença prévia (LP) do alteamento da barragem no Sistema Minas-Rio – que tem como objetivo analisar a viabilidade ambiental do projeto, considerando sua localização e possíveis impactos.

Ainda ressaltou que “permanece em diálogo constante com poder público, comunidades locais e demais partes interessadas para assegurar a conformidade de todas as exigências”.

Processo chegou a ser suspenso anteriormente, mas o TJMG derrubou a decisão

Essa não foi a primeira vez que o TCE-MG suspende o processo de licenciamento do segundo alteamento da estrutura em Conceição do Mato Dentro. Em agosto de 2025, o órgão também determinou a suspensão, apontando que a presença de famílias da comunidade de São José do Arrudas na ZAS tornava a concessão da licença ilegal.

Em uma reviravolta do caso, no mês passado, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) derrubou a decisão, autorizando a mineradora a retomar os trâmites para análise de viabilidade ambiental do projeto – o que será interrompido com a nova determinação.


Fonte: Diário do Comércio

8 de Janeiro de 2023: uma data que não pode ser esquecida sob risco de repetição da tentativa de golpe de Estado

Governo e STF realizam eventos para marcar três anos dos ataques de 8 de  janeiro

Dei uma olhada geral nas publicações e manchetes do dia de hoje tanto na mídia corporativa como na dita alternativa e notei uma espécie de silêncio geral sobre o que ocorreu em Brasília há 3 anos atrás.  Enquanto a mídia corporativa está colocando a questão do Banco Master como elemento principal, a alternativa preferiu as matérias sobre o ataque militar dos EUA à Venezuela.  Mas não podemos esquecer dos ataques ou atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, 8/01, também chamados de Intentona Bolsonarista, Festa da Selma, ou simplesmente de 8 de janeiro.

Mas eu diria que esse silêncio em torno da tentativa de impor um golpe de Estado para impedir a posse do presidente eleito em 2022 reflete alinhamentos que já estão sendo trabalhados para as eleições deste ano. Como ninguém quer espantar potenciais aliados ou atrapalhar alianças, a coisa está sendo jogada para debaixo do tapete.

O problema é que se analisarmos quem fez a tentativa fracassada de golpe de estado com as posições expressas sobre o ataque à Venezuela, teremos um alinhamento completo entre os dois episódios.  Afinal, a extrema-direita que tentou o golpe está apoiando abertamente o ataque estadunidense.

Aí a questão não é com a extrema-direita que está seguindo sua cartilha reacionária de forma clara e inequívoca, mas com aqueles que acham que é possível continuar tocando a vida sem considerar que acima das considerações eleitorais há que ficar o compromisso com a sobrevivência do que se convenciona chamar de Estado democrático de direito no Brasil.  Falo aqui dos partidos da esquerda institucional que estão se preparando para manter ou iniciar alianças com elementos que participaram direta ou indiretamente da tentativa de golpe.

E nos antentemos para a rápida degradação das relações geopolíticas que marca o início de 2026. Manter a prática de alianças espúrias que englobem até a extrema-direira nos deixa ainda mais fragilizados para responder quaisquer tentativas de interferir na soberania nacional do Brasil.  E está mais do que claro que essas tentativas irão ocorrer de forma aberta e clara.

Por isso, não há como escamotear ou esquecer o que aconteceu no dia 8 de janeiro de 2023 com a tentativa de tomada das sedes dos 3 poderes em Brasília.  Jogar isso para debaixo do tapete significará um convite aberto para que se tente isso novamente em 2027, caso o candidato da extrema-direita não for eleito.

Alerta para baixas taxas de vacinação contra doenças em animais de criação

vacinação de bovinosA cobertura vacinal do gado é muito limitada em todo o mundo, especialmente em países como Argentina e Brasil, que apresentam um número maior de animais doentes ou lacunas vacinais mais amplas para diversas doenças. Crédito da imagem: Johnny Salas Brochero/Pexels . A imagem foi recortada.

O relatório indica que investir na vacinação animal na região (especialmente na Argentina e no Brasil) não só reduziria as doenças animais e as perdas de produção, mas também o uso de antimicrobianos, fator crucial no combate à resistência aos antibióticos.

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences ( PNAS ), analisou a cobertura vacinal contra 104 doenças de bovinos, aves e suínos em 203 países, entre 2005 e 2025.

“Muitas dessas doenças não afetam apenas a produtividade, a economia e o abastecimento de alimentos, mas também têm implicações diretas para a saúde pública.”

Alejo Menchaca, diretor da Plataforma de Pesquisa em Saúde Animal do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INIA) do Uruguai.

Os autores detectaram cobertura limitada para a grande maioria dessas vacinas. Ao avaliar as 11 vacinas mais prevalentes em programas internacionais de vacinação, eles também observaram que a proteção real do gado é insuficiente.

No caso do gado, por exemplo, apenas 16,6% dos animais em risco foram vacinados contra a febre aftosa e menos de 8% contra a brucelose e a raiva.

A doença com o maior número estimado de casos em bovinos foi a dermatose nodular contagiosa, que pode reduzir a produção de leite e afetar a fertilidade dos animais. Com 3,5 milhões de casos detectados em 2025, a cobertura vacinal foi de apenas 33%, sendo a Índia o país com o maior número de casos.

A situação é ainda mais crítica em suínos, com menos de 7% de vacinação contra a peste suína clássica — altamente letal para esses animais — e antraz, e 8% contra a raiva.

Na avicultura, a vacinação não ultrapassa 18%, mesmo na patologia mais frequente, a Doença de Newcastle, que pode causar morte súbita, letargia e insuficiência respiratória, com 166 milhões de casos.

“Este é um estudo extremamente relevante porque destaca, com dados globais e comparáveis , a baixa cobertura vacinal em animais de produção contra doenças de alto impacto”, disse Alejo Menchaca, diretor da Plataforma de Pesquisa em Saúde Animal do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INIA) do Uruguai, à SciDev.Net .

“Muitas dessas doenças não afetam apenas a produtividade, a economia e o abastecimento de alimentos, mas também têm implicações diretas para a saúde pública ”, explica o veterinário, que não participou do estudo.

“A América Latina representa pouco mais de 25% do rebanho bovino mundial”, e se adicionarmos a África e a Índia, chegamos a “quase 70% do rebanho bovino mundial. É precisamente nessas regiões que a cobertura vacinal é mais baixa e, portanto, a situação é ainda mais crítica”, acrescenta Menchaca.

Argentina e Brasil

Especialistas constataram “lacunas e variações significativas na vacinação animal em todo o mundo”, mas recomendaram a intensificação dos esforços na Argentina e no Brasil, que figuram constantemente entre os dez países com o maior número de animais doentes ou com as maiores lacunas de vacinação para diversas doenças.

Para a Argentina, o estudo destaca a necessidade de fortalecer as campanhas de vacinação para o gado. Em 2025, o país registrou o maior número de casos de brucelose (52.000 infecções), uma doença debilitante em humanos. A cobertura vacinal é de 17%.

Eles também alertaram sobre doenças aviárias no Brasil, que apresentou as maiores taxas de laringotraqueíte infecciosa (LTI), uma doença altamente contagiosa. Enquanto o Brasil registrou 7,2 milhões de casos em 2025, com uma cobertura vacinal de apenas 0,2%, na Argentina (645 mil casos), a taxa foi de 6%.

Para explicar a baixa cobertura vacinal contra a laringotraqueíte infecciosa aviária (LTI), responsável por grande parte da carga global de doenças aviárias, Alec Gleason, um dos autores do artigo, sugere que “menos casos são relatados do que para outras doenças clássicas, o que poderia levar os programas a priorizar outras vacinas”.

Com base em números de 2025, os autores também chamaram a atenção para animais não vacinados contra peste suína clássica no Brasil (44 milhões) e na Colômbia (10 milhões); antraz na Argentina (53 milhões); e raiva no Brasil (233 milhões) e na Colômbia (11 milhões).

Causas e perspectivas

Apesar da disponibilidade de vacinas, o estudo alerta para uma estagnação na imunização global.

Em relação à América Latina, eles apontam que esta é uma das duas regiões (juntamente com o Mediterrâneo Oriental) onde se origina o maior aumento de doenças aviárias. Isso ocorre quando a densidade animal e a escala de produção das granjas aumentam, o que pode ampliar as oportunidades de transmissão. “Há mais contatos, mais produção e mais conectividade entre as granjas”, explicou Gleason à SciDev.Net .

Mas as doenças podem persistir mesmo quando são anunciadas campanhas de vacinação. Daniel Vilte, pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina, lembrou casos em que, diante de um surto repentino, governos ou indivíduos importaram rapidamente uma vacina estrangeira.

“Se não corresponder à estirpe exata que atua naquele local, a resposta para a controlar poderá ser insuficiente”, alerta o especialista, que também não participou no estudo e desenvolveu uma vacina contra a síndrome hemolítico-urémica no seu país.

“Problemas também podem surgir com a cadeia de frio, resultando na chegada da vacina com uma resposta imunológica fraca”, acrescenta. “Isso diminui a gravidade da doença, mas não impede o desenvolvimento da infecção.”

Para melhorar a eficácia, Gleason propõe comparar as taxas de cobertura entre países e aprimorar o monitoramento e a classificação das cepas das doenças mais prevalentes. “Selecionar aquelas com a resposta mais forte (e resolver as incompatibilidades) poderia aumentar substancialmente a proteção”, prevê ele.

Resistência a antibióticos

O estudo também aborda as vantagens da vacinação na redução do uso de antibióticos no gado, o que, por sua vez, diminui a disseminação de bactérias resistentes.

No entanto, prevê-se que o uso de antimicrobianos na pecuária aumentará 30% em 2040 em comparação com os níveis de 2019, e que a América do Sul será uma das regiões com maior crescimento no uso desses medicamentos em animais.

“No século passado, descobrimos os antibióticos; e neste século, precisamos aprender a lidar com o problema da resistência antimicrobiana. A vacinação é a ferramenta mais eficaz para reduzir o uso de antimicrobianos, porque previne a doença antes que seja necessário tratá-la com antibióticos”, reflete Menchaca.

Questionado sobre por que o setor agrícola parece relutante em investir em vacinas, mas não tanto em gastar com antibióticos, o especialista uruguaio opina que isso se deve, por vezes, à “falta de conhecimento” e destaca a necessidade de capacitar os tomadores de decisão para que estejam cientes da importância da adoção de vacinas.

Mas, em outras ocasiões, ele ressalta que existe uma lógica prática: “As vacinas sozinhas nem sempre são suficientes para resolver o problema e devem ser complementadas com outras medidas de saúde, o que pode diminuir o atrativo de sua implementação.”

“Além disso”, continua ele, “em regiões onde as taxas de vacinação são mais baixas, geralmente há menos investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), menos conhecimento da epidemiologia local e das variantes circulantes, menos desenvolvimento de vacinas locais de boa qualidade e menos conhecimento sobre a eficácia das vacinas desenvolvidas em outros contextos.”

“Fortalecer o investimento público em P&D, aprimorar as campanhas de saúde locais e coordená-las com o setor privado é fundamental para reverter essa situação e caminhar rumo a um benefício comum: animais mais saudáveis, sistemas de produção mais sustentáveis, alimentos mais saudáveis ​​e pessoas com melhor saúde”, conclui o especialista uruguaio.


Fonte: SciDev.Net

Vazamento na Foz do Amazonas não é um acidente — é um teste ético para o Brasil

O incidente na perfuração da Petrobras escancara uma pergunta incômoda: estamos preparados para explorar petróleo no último grande território vivo do planeta?

O vazamento registrado durante a perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas não é apenas um episódio técnico. É um teste de coerência – Imagem gerada por IA – Foto: Ilustrativa/Divulgação 

Por Oscar Lopes para o “Neomundo”

Não foi uma explosão.
Não houve óleo negro na superfície.
Não apareceu nenhuma imagem dramática de aves cobertas por piche.

E, ainda assim, o vazamento registrado durante a perfuração do poço FZA-M-59, na Foz do Amazonas, talvez seja um dos episódios ambientais mais simbólicos — e reveladores — dos últimos anos no Brasil.

Segundo documento interno da própria Petrobras, ao qual a imprensa internacional teve acesso, cerca de 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração vazaram para o mar a quase 2.700 metros de profundidade, em uma das regiões mais sensíveis e menos conhecidas do planeta. O incidente foi classificado como potencialmente capaz de causar danos ao meio ambiente ou à saúde humana. As atividades, por ora, estão suspensas.

A empresa afirma que o fluido é biodegradável, atende aos limites de toxicidade e que tudo está sob controle.

Mas talvez essa não seja a pergunta certa.

O vazamento não é o ponto final. É o ponto de partida

O debate público rapidamente se dividiu entre dois polos previsíveis:
de um lado, quem grita “tragédia ambiental”;
do outro, quem responde “foi contido, não há risco”.

Só que o episódio revela algo mais profundo — e mais desconfortável.

A Foz do Amazonas virou um laboratório de risco institucional

Ali, não se testa apenas tecnologia de perfuração em águas ultraprofundas. Testa-se a capacidade do Brasil de:

  • avaliar riscos reais em ecossistemas pouco mapeados;
  • ouvir comunidades tradicionais antes, e não depois;
  • alinhar discurso climático com decisões econômicas;
  • sustentar a própria credibilidade ambiental no cenário global.

Quando um vazamento acontece antes mesmo de qualquer descoberta comercial, o sinal de alerta não é técnico. É estratégico.

Um território invisível… até dar problema

A Bacia da Foz do Amazonas — também chamada de Margem Equatorial — abriga um sistema oceânico singular, com recifes profundos, alta biodiversidade e conexões diretas com o maior rio do planeta. É uma região onde ciência ainda está correndo atrás do básico: mapear, entender, descrever.

E é justamente aí que mora o paradoxo.

Como perfurar com segurança um território que ainda não conhecemos direito?

Organizações da sociedade civil questionam o licenciamento concedido pelo Ibama, apontando falhas graves:

  • ausência de consulta adequada a povos indígenas, quilombolas e pescadores;
  • uso de modelos de dispersão de impactos baseados em dados de 2013, quando já existem informações de 2024;
  • subestimação de cenários extremos em uma região de correntes marítimas complexas.

Nada disso é detalhe técnico. É governança ambiental.

O passado insiste em voltar

Este não é um capítulo isolado. Desde 1946, a Foz do Amazonas desperta interesse da indústria do petróleo. Entre 2001 e 2011, ao menos 11 poços foram perfurados. Em 2011, uma sonda da própria Petrobras chegou a ser arrastada por correntes marítimas intensas — um alerta ignorado por anos.

Depois de uma negativa em 2023, a autorização para o novo poço só veio em outubro de 2025, após recurso da estatal. Pouco depois, a empresa pediu licença para perfurar outros três poços contingentes: Manga, Maracujá e Marolo.

Em paralelo, no leilão da Agência Nacional do Petróleo, em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos disponíveis na região. Outras gigantes globais seguiram o mesmo caminho.

O recado é claro: a corrida pelo petróleo na Amazônia Azul começou.

O verdadeiro vazamento é de coerência

O Brasil já sediou a COP30, ocupou o centro do debate climático global e reforçou, nos discursos oficiais, seu compromisso com a biodiversidade, a transição energética e a liderança ambiental. Ao mesmo tempo, aposta alto na expansão da fronteira petrolífera mais sensível do país.

Esse vazamento não derramou apenas fluido de perfuração.
Ele derramou uma contradição.

Se tudo der certo, dirão que foi um incidente menor.
Se algo der errado, o custo será incalculável — ambiental, social e reputacional.

A pergunta que fica não é se o fluido era biodegradável.
É se a decisão política que levou até ali também é.

A Foz do Amazonas como espelho do Brasil

No fim das contas, a Foz do Amazonas não é só um território em disputa.
Ela virou um espelho.

Reflete quem somos quando crescimento econômico e proteção ambiental entram em conflito.
Reflete até onde vai, de fato, nosso compromisso com um futuro de baixo carbono.
E reflete se aprendemos algo com décadas de acidentes que sempre começam assim: pequenos, controlados, “dentro do previsto”.

Talvez o maior risco não esteja no fundo do mar.
Mas na superfície das decisões.

E esse, definitivamente, ainda não foi contido.


Fonte: Neomundo

A era dos fungos

Por Monica Piccnini para “The Ecologist” 

Profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes na enfermaria oncologista do Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, começaram a relatar doenças respiratórias em outubro de 2025: tosse, febre, fadiga, falta de ar.

Tratamentos que normalmente funcionavam falhavam, e a recuperação era lenta ou ausente. À medida que mais pessoas adoeciam, ficou claro que o problema não era individual, algo circulava pelo próprio hospital.

Após semanas de investigação, as autoridades estaduais de saúde confirmaram 33 casos de histoplasmose, uma infecção causada pelo fungo Histoplasma capsulatum. O organismo, comumente encontrado em solo enriquecido com fezes de aves e morcegos, havia entrado em um ambiente clínico considerado selado contra exposição ecológica.

Ecossistemas

Isso não foi só uma falha de higiene. Era um sinal de mudança ambiental que chegava a lugares feitos para mantê-las afastadas. Era um organismo mais antigo que a própria humanidade, um que aprendeu a sobreviver em um mundo que estamos mudando rapidamente, superaquecendo.

“Esse fungo faz parte do meio ambiente”, disse Tyago Hoffmann, secretário de saúde do Espírito Santo. “Mas a exposição ambiental pode alcançar lugares que acreditamos serem controlados.”

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Os fungos são essenciais para a vida em terra. Eles decompõem matéria orgânica, ciclam nutrientes e sustentam os ecossistemas vegetais. Sem eles, os solos falhariam e as florestas desavariam. Ainda assim, eles continuam entre os organismos menos estudados e menos compreendidos da Terra.

Cientistas estimam que pode haver entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies fúngicas e menos de 10% já foram formalmente descritas. Ainda menos são estudados quanto ao seu impacto na saúde humana.

Floreio

O que está mudando não é o comportamento fúngico, mas as condições ecológicas que antes o limitavam. A mudança climática não cria doenças fúngicas do nada. Ela remodela as condições em que os fungos vivem, se espalham e persistem.

Historicamente, essa lacuna de conhecimento não foi particularmente perigosa, pois nossos corpos foram protegidos pelo calor. A temperatura média humana, em torno de 37 graus centígrados, cria uma barreira biológica natural, que a maioria dos fungos simplesmente não conseguiria sobreviver.

À medida que a temperatura global sobe, essa barreira está enfraquecendo. Os fungos estão se adaptando, espécies antes restritas a ambientes mais frios agora evoluem para tolerar calor mais alto. Alguns agora são capazes de sobreviver em temperaturas mais próximas às do corpo humano.

“Patógenos fúngicos representam uma séria ameaça à saúde humana”, disse Viv Goosens, do Wellcome Trust. “As mudanças climáticas vão agravar esses riscos.”

Temperaturas mais quentes expandem a área geográfica de muitas espécies. Por exemplo, mudanças na chuva alteram a umidade do solo, ajudando os fungos a prosperar em lugares onde antes não podiam. Enchentes transportam esporos através das paisagens, e secas secam o solo, permitindo que partículas microscópicas entrem em edifícios que nunca foram projetados para mantê-los afastados.

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Surgimento

Os fungos são excepcionalmente bons sobreviventes, pois seus esporos são leves, duráveis e capazes de viajar longas distâncias. Em um clima desestabilizado, essas características de sobrevivência tornam-se um risco à saúde pública.

Pesquisadores médicos reconhecem cada vez mais a mudança climática como um fator que impulsiona o surgimento de doenças fúngicas. Uma revisão publicada na Therapeutic Advances in Infectious Disease alerta que o aumento das temperaturas e a perturbação ecológica estão redesenhando o mapa global das doenças.

Já vimos como isso se manifesta com Candida auris. Identificado pela primeira vez em 2009, o fungo multirresistente a medicamentos foi detectado em hospitais de mais de 50 países em seis continentes.

Muitos pesquisadores acreditam que o aumento das temperaturas ambientais pode ter ajudado a superar as barreiras térmicas que antes impediam os fungos de infectar os humanos.

O Dr. Norman van Rhijn, da Universidade de Manchester, disse: “Já vimos o surgimento do fungo Candida auris devido ao aumento das temperaturas, mas, até agora, tínhamos pouca informação sobre como outros fungos poderiam responder a essa mudança no ambiente.

Vulnerável

“Os fungos são relativamente pouco pesquisados em comparação com vírus e parasitas, mas esses mapas mostram que patógenos fúngicos provavelmente impactarão a maioria das regiões do mundo no futuro.”

Histoplasma capsulatum está presente há muito tempo em toda a América. A infecção ocorre quando esporos são inalados, muitas vezes após o solo ser perturbado por obras, vento ou mudanças na ventilação.

Em Vitória, os investigadores acreditam que esporos entraram no Hospital Santa Rita de Cássia através do sistema de ar-condicionado ou de outras vulnerabilidades estruturais. Uma vez dentro, encontraram pessoas menos capazes de resistir à infecção: pacientes imunocomprometidos com câncer e profissionais de saúde sobrecarregados.

A histoplasmose frequentemente se assemelha à gripe ou pneumonia, atrasando o diagnóstico. Em indivíduos saudáveis, pode se resolver sem tratamento, mas em pessoas vulneráveis, pode se espalhar além dos pulmões e se tornar fatal.

Resistência

Padrões semelhantes estão surgindo em outros lugares. Doenças fúngicas estão surgindo em novas regiões, ligadas ao aumento das temperaturas, perturbações ecológicas e infraestrutura falhante.

Os mais expostos raramente são os mais responsáveis. Profissionais de saúde, faxineiros, funcionários juniores e acompanhantes de pacientes são frequentemente os primeiros afetados e os últimos protegidos. Muitos vivem em bairros mais quentes, dependem de sistemas públicos de saúde subfinanciados e não têm acesso a diagnóstico precoce ou licença remunerada.

As comunidades menos responsáveis pelas emissões de combustíveis fósseis estão sendo forçadas a aceitar as consequências primeiro. Isso é injustiça climática, acontecendo no nível microbiano.

Apesar das evidências crescentes de risco, a doença fúngica permanece negligenciada. Existem poucos antifúngicos, resistência crescente e vigilância limitada. O financiamento para pesquisa e a atenção política continuam mínimos, especialmente quando comparados às ameaças virais que afetam populações mais ricas.

Isolado

O surto no Hospital Santa Rita de Cássia não é apenas uma história médica – é uma história ecológica. Isso mostra como a perturbação ambiental não fica fora dos muros do hospital. Ele entra nos edifícios por meio de sistemas de ar, fraquezas da infraestrutura e suposições de separação entre a saúde humana e o mundo natural.

As mudanças climáticas são frequentemente discutidas em termos distantes, como o derretimento das calotas polares, a queima de florestas e o aumento do mar, mas seus efeitos já estão presentes em hospitais, locais de trabalho e pulmões.

A saúde humana depende de ecossistemas estáveis e, quando esses sistemas se desestabilizam, os padrões das doenças mudam. Os esporos que circularam por um hospital no Brasil carregavam uma mensagem que não podemos ignorar.

As mudanças climáticas estão remodelando doenças, e as instituições criadas para nos proteger não estão mais protegidas das consequências.

Este Autor

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Republicando um texto de 2011 e refletindo sobre sua atualidade: os riscos da fragmentação identitária

France. Class Struggle vs. Identity Struggles? - <span lang="fr">Rafik  Chekkat </span>

Em junho de 2011 publiquei o artigo abaixo no número 200 da hoje extinta revista “Somos Assim” e decidi republicar hoje porque me parece que algumas questões apontadas nele continuam merecendo ser respondidas.  Lembro que eu já havia republicado este texto em 2018 aqui neste blog, mas percebo que a atualidade permanece após quase 15 anos. 

As novas múltiplas identidades e o seu papel na perpetuação da exploração

Em uma das minhas visitas a uma rede social na internet encontrei um adesivo apontando para uma nova utopia “por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”.  Em tese essa é uma utopia positiva, pois ninguém com uma visão democrática de vida iria querer viver ameaçado por alguma destas facetas opressivas. Mas uma coisa que me intriga é por que subitamente fomos tomados por uma consciência tão fracionada da violência cotidiana em que vivemos submetidos dentro do sistema capitalista. Aliás, pior, por que aceitamos tantas identidades para os oprimidos sem que ninguém se questione sobre quem foram seus criadores.

Uma primeira observação necessária é a de que, pelo menos no âmbito do Brasil, essas identidades foram introduzidas pela Fundação Ford em meados da década de 90 do Século XX.   Em uma visita que fiz à sede da Fundação Ford no Rio de Janeiro, após retornar do meu doutorado nos Estados Unidos, tive uma conversa com tintas de premonição dado que meu interlocutor me adiantou uma agenda de ações que se materializou dentro dos nossos discursos cotidianos na década seguinte.  Não devo ser o único a apontar a gênese norte-americana dessa multiplicidade de identidades que hoje conformam o discurso politicamente correto, usado por governantes e membros de organizações não-governamentais como se fosse um mantra da libertação social de supostas minorias oprimidas. Mas o fato é que esta gênese continua sendo meticulosamente escondida dos seus promotores.

Mas qual seria a razão da omissão da maternidade para os setores oprimidos pelo funcionamento das engrenagens sociais? A resposta para esta charada precisa ser buscada na utilidade que as mesmas tiveram no contexto da sociedade estadunidense. Se olharmos para o levante dos direitos civis a favor dos negros que ocorreu nos EUA ao longo da década de 60 do Século XX, veremos que a maioria das lideranças não possuía uma visão de questionamento da sociedade capitalista. Pelo contrário, buscava-se incluir os negros nos circuitos de consumo que historicamente estiveram reservados aos brancos. Ainda que num primeiro momento estas lideranças tenham sido perseguidas e algumas assassinadas (como no caso de Martin Luther King), esta agenda de inclusão progressiva acabou servindo para manter a maioria das estruturas sócio-econômicas e políticas basicamente intocadas.  Em suma, um movimento que nasceu com potenciais revolucionários, acabou sendo domesticado e assimilado.

 Ainda que os norte-americanos tenham tentado exportar o seu modelo de inclusão conservadora mesmo antes da queda do Muro de Berlim, foi justamente este evento que ofereceu a oportunidade que precisavam para fazê-lo.  O desmantelamento da URSS e a hegemonia neoliberal que se seguiram também contribuíram para a disseminação das tentativas de fragmentar a identidade dos oprimidos, coisa que acabou ocorrendo na década seguinte. Neste sentido, o aparecimento de múltiplas minorias como resultado do fracionamento das identidades que vigoraram desde quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista em 1848 (isto é burgueses e proletários) só foi possível devido ao desaparecimento de um dos contendores da Guerra Fria. Em outras palavras, estas múltiplas identidades são uma expressão direta do fracasso do socialismo real e da hegemonia, ainda que momentânea, da ideologia neoliberal. Por outro lado, o fato de que até partidos e movimentos sociais que se pretendem revolucionários tenham assimilado estas novas identidades expressa a força da ideologia neoliberal. Ainda que alguns desses partidos e movimentos tenham adotado o discurso politicamente correto e as identidades que o acompanham por motivos táticos (e até oportunistas), isto não diminui o fato de que a hegemonia neoliberal impôs uma nova e fragmentada visão dos oprimidos.  Essa fragmentação, aliás, implicou numa falácia muito eficaz que consiste em desviar a gênese da opressão das relações de classe para outros tipos de relação, como as raciais, étnicas, religiosas e de gênero.  É preciso reconhecer que esta é uma estratégia muito eficaz, pois agora chega a ser brega (senão coisa de dinossauros ideológicos) tentar explicar todas essas facetas da opressão como algo intrínseco ao próprio Capitalismo.

Mas em que pesem as dificuldades de se retomar um debate que privilegie a classe como categoria explicativa para as opressões de todos os tipos, a crise sistêmica que o sistema capitalista atravessa auxilia a sua retomada.  A verdade é que determinadas situações, como a que ocorreu recentemente na Praça Porta do Sol em Madri, demonstram de forma cabal que sem um entendimento de classe da realidade pouco adianta galvanizar as energias geradas pelo descontentamento social. E pior, o que começa com um potencial de impor transformações no status quo acaba servindo para alimentar aquelas facetas mais sombrias da sociedade contemporânea, já que em face da despolitização causada pela fragmentação identitária, a tendência sempre será de que o potencial de transformação seja anulado, resultando em frustração e raiva.

Finalmente, retornando ao inicio desta reflexão, eu me pergunto o que aconteceria se repentinamente o mundo acordasse sem racismo, machismo e homofobia. Será que estaria cessada toda a violência e opressão que vemos hoje pelo mundo afora?

Uso de agrotóxicos proibidos causa proibição de importação de frutas produzidas no Mercosul pela França

FRANCE TO SUSPEND IMPORTS OF CERTAIN FRUITS OVER BANNED PESTICIDE RESIDUES

A França suspenderá a importação de frutas que contenham resíduos de pesticidas proibidos na UE , anunciou no domingo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu  

Por Diário do Centro do Mundo

A França anunciou a suspensão da importação de frutas provenientes do Mercosul que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia. A decisão foi comunicada no início da noite deste domingo (4) pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu e tende a acirrar as negociações do acordo comercial entre os dois blocos.

Em “carta aberta aos agricultores da França”, Lecornu afirmou: “Portarias serão adotadas pelo governo esta semana para suspender a importação de gêneros alimentícios provenientes de países da América do Sul, como abacates e maçãs, contendo resíduos de cinco substâncias, no entanto, já proibidas na Europa”.

Em publicação na rede X, ele citou mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, além de indicar impacto sobre abacate, maçã, manga, goiaba, cítricos e uvas.

Segundo o premiê, “os controles sobre as importações serão maciçamente reforçados, nas fronteiras e dentro do território [francês]”. Ele acrescentou: “Acabo de endurecer as instruções a esse respeito. Cabe, doravante, à União Europeia amplificar rapidamente essas ações na escala de todo o mercado europeu”.

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Efeito nas negociações com o Mercosul

A França é a principal opositora do acordo de redução tarifária com o Mercosul, sob pressão de agricultores locais. Em dezembro, com apoio da Itália, Paris conseguiu adiar a assinatura final para janeiro, alegando a necessidade de salvaguardas e controles sanitários.

O adiamento irritou o presidente Lula (PT), que concordou em postergar a cerimônia após conversa com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.

O Brasil sinaliza que pode abandonar as negociações se houver nova postergação, enquanto a França atua para barrar a entrada em vigor do acordo, que ainda depende do Parlamento Europeu.


Fonte: Diário do Centro do Mundo

Organizações pedem que a Anvisa suspenda o uso de 3 agrotóxicos após novas descobertas científicas

Por Yudi Soares para “Terra Brasil Notícias”

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novo fôlego em 2025 após entidades da sociedade civil solicitarem oficialmente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspensão das vendas de três ingredientes ativos amplamente utilizados: glifosato, atrazina e alacloro, em um contexto de recordes sucessivos no consumo dessas substâncias e de questionamentos sobre a integridade científica de estudos que embasaram decisões regulatórias anteriores.

Por que o glifosato está no centro da discussão no Brasil?

Por mais de duas décadas, decisões regulatórias sobre sua segurança se apoiaram em um estudo publicado no ano 2000, cuja independência científica passou a ser fortemente questionada.

Em 2025, veio à tona que funcionários da empresa Monsanto teriam participado da elaboração do artigo de forma não transparente, levando à sua retratação pela revista científica. Como esse estudo serviu de base para pareceres da Anvisa que mantiveram o glifosato liberado em 2020, entidades passaram a exigir reavaliação urgente com critérios atualizados, transparência e maior escrutínio público.

Quais são os números mais recentes sobre agrotóxicos no Brasil?

A discussão sobre o glifosato se insere em um cenário mais amplo de crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil. Em 2024, o Ibama registrou aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados, um aumento superior a 20% em relação a 2023, o maior volume já registrado na série histórica.

Entre esses ingredientes, o glifosato segue na liderança, com mais de 230 mil toneladas vendidas em 2024, seguido de compostos como o mancozebe, que subiu de posição após forte crescimento. Embora os dados do Ibama sejam autodeclaratórios e passíveis de revisão, eles confirmam uma tendência de expansão em volume e faturamento, também apontada pelo Sindiveg.

Quais são os riscos de câncer associados à atrazina e ao alacloro?

Além do glifosato, a atrazina e o alacloro também foram incluídos no pedido de reavaliação apresentado à Anvisa. Em novembro de 2025, especialistas internacionais em saúde classificaram essas duas substâncias como prováveis causadoras de câncer em humanos, aumentando a pressão por medidas de precaução.

A atrazina ocupa lugar de destaque no mercado nacional, com dezenas de milhares de toneladas comercializadas anualmente, o que amplia o potencial de exposição populacional. Diante dessa classificação de risco, as entidades defendem a aplicação do princípio da precaução, com suspensão temporária do uso enquanto uma nova análise toxicológica abrangente é conduzida.

Quais fatores são considerados na reavaliação toxicológica de agrotóxicos?

As entidades que assinam o pedido à Anvisa argumentam que uma reavaliação séria deve considerar não apenas estudos laboratoriais, mas também evidências de campo e impactos cumulativos. Nessa perspectiva, o processo precisa analisar efeitos à saúde humana, ao meio ambiente e às condições de trabalho no campo, de forma integrada.

Para tornar essa análise mais robusta, costumam ser avaliados diversos aspectos científicos e regulatórios, que ajudam a orientar decisões sobre restrições, cancelamentos ou mudanças de uso autorizado:

  • Novas evidências científicas sobre efeitos à saúde humana, incluindo estudos epidemiológicos;
  • Impactos ambientais, como contaminação de solo, água e biodiversidade;
  • Exposição ocupacional de trabalhadores rurais e condições de aplicação;
  • Resíduos em alimentos consumidos pela população e padrões de consumo.

Como o aumento do uso de agrotóxicos impacta a sociedade brasileira?

O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil é acompanhado por preocupações com saúde pública e meio ambiente, como contaminação da água, do solo e dos alimentos. Casos de intoxicação aguda em trabalhadores expostos diretamente e suspeitas de efeitos crônicos na população em geral reforçam a necessidade de políticas de redução e controle mais rigoroso.

Paralelamente, o país registra número recorde de liberações de novos produtos: em 2025, de fevereiro ao início de dezembro, foram autorizados mais de 700 agrotóxicos para uso agrícola, superando 2024. Esse avanço coexiste com iniciativas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que busca estimular práticas agrícolas menos dependentes de químicos sintéticos e fortalecer a vigilância em saúde.

Quais caminhos vêm sendo discutidos para reduzir a dependência de agrotóxicos?

No contexto atual, o debate sobre políticas de redução de agrotóxicos envolve diferentes frentes de ação governamental, científica e social. Documentos técnicos e propostas oficiais costumam apontar a necessidade de combinar mudanças regulatórias com incentivos a alternativas produtivas mais sustentáveis.

De forma geral, são mencionadas três linhas de atuação que podem apoiar uma transição gradual para modelos de produção menos dependentes de pesticidas químicos, conciliando produtividade com proteção à saúde e ao meio ambiente:

  1. Revisão regulatória: reavaliar ingredientes ativos, atualizar monografias, restringir usos específicos ou cancelar registros de substâncias com evidências consistentes de risco;
  2. Estímulo a alternativas: incentivar o manejo integrado de pragas, a agroecologia e insumos biológicos, reduzindo a necessidade de produtos químicos tradicionais;
  3. Transparência e monitoramento: ampliar sistemas de vigilância em saúde, controle de resíduos em alimentos e divulgação de informações acessíveis sobre riscos e usos permitidos.

Fonte: Terra Brasil Notícias

A cobiça pelo petróleo venezuelano como fachada para os objetivos de retomada de hegemonia

Donald Trump está em busca da hegemonia perdida

Agora que ficou abertamente explícito que a retirada de Nicolás Maduro tem tudo a ver com o acesso às riqueza petrolífera venezuelana e nada com o que estabelecimento de uma dessas democracias de fachada que abundam no mundo, há quem corretamente esteja se preocupando com o que aconteceria com a crise climática se todo potencial de emissões de CO2 associado à exploração das vastas reservas ali existentes. 

Em sua página do Facebook, o professor do Departamento de Geografia da UFRJ Cláudio Egler apontou que “a queima integral das reservas provadas de petróleo da Venezuela — da ordem de 130 a 150 GtCO₂e — teria um impacto extremamente significativo no clima global, pois corresponderia sozinha a quase quatro anos das atuais emissões globais de CO₂ ou a uma fração substancial do orçamento de carbono restante compatível com as metas de 1,5°C ou mesmo 2°C estabelecidas pela IPCC“.  Egler acrescentou que “em termos físicos, a liberação dessa magnitude adicional de gases de efeito estufa intensificaria o forçamento radiativo global, acelerando o aquecimento médio do planeta, ampliando a frequência e a intensidade de eventos extremos (ondas de calor, secas e chuvas intensas) e agravando processos de longo prazo como a elevação do nível do mar e a acidificação dos oceanos“.

Embora legítimas e cientificamente ancoradas, eu diria que um dos problemas que Donald Trump, um negacionista climático convicto, teria se refere ao algo muito básico no capitalismo: a relação entre oferta e demanda.  A questão é que embora o consumo de combustíveis fósseis seja ainda o principal componente da matriz energética global, há uma tendência crescente de substituição por outras fontes, o que no tempo serviria para diminuir a pressão por demanda, inclusive naquelas áreas em que a exploração está se dando dentro de seus maiores potenciais.

Além disso, há que se levar em conta os interesses de outros países produtores de petróleo, visto que uma ampliação rápida da exploração do petróleo venezuelano colaboraria para uma queda no preço do barril, o que geraria uma espécie de efeito dominó nas economias que dependem dessa fonte de renda. Associado a isso ainda há a questão de que as próprias petroleiras estadunidenses tem seus interesses econômicos espalhados por todos os países produtores, e uma ênfase na exploração na Venezuela geraria desequilíbrios econômicos e principalmente políticos que iriam se chocar contra os interesses das petroleiras.  Talvez por isso a reação inicial ao anúncio de Donald Trump no sentido de que as petroleiras estadunidenses vão se ocupar diretamente do processo de saque das reservas venezuelanas tenha sido tão silenciosa.

Outro aspecto relacionado à oferta se refere ao lado da demanda. O principal comprador de petróleo atualmente é a China que mantém laços econômicos diretos com a Venezuela. Se de fato o cenário desenhado por Donald Trump viesse a se confirmar seria muito mais fácil e prático para a China investir na melhoria da capacidade de produção da Rússia e de países asiáticos.

Mas ainda há que se levar em conta a especificidade das reservas petrolíferas venezuelanas. O fato é que o petróleo venezuelano é majoritariamente pesado a extrapesado e frequentemente ácido, com alto teor de enxofre, características que o diferenciam do petróleo leve e doce produzido em países como os Estados Unidos. Concentrado sobretudo na Faixa Petrolífera do Orinoco, esse tipo de óleo apresenta alta densidade e viscosidade, o que dificulta sua extração, transporte e refino, exigindo processos mais caros e refinarias com tecnologia especializada. Além disso, seu refino gera maior proporção de derivados de menor valor agregado, como asfalto, e menor volume de combustíveis mais lucrativos, como gasolina e diesel. A necessidade de infraestrutura específica também limita o número de compradores, fazendo com que, historicamente, o petróleo venezuelano seja negociado a preços mais baixos no mercado internacional em comparação aos petróleos leves.

Em síntese, embora a disputa em torno da Venezuela seja apresentada sob o discurso da democracia, ela está profundamente ligada ao controle de suas vastas reservas de petróleo, cujo aproveitamento integral teria impactos climáticos severos e incompatíveis com as metas globais de redução de emissões. Ainda assim, fatores econômicos e geopolíticos relativizam a viabilidade de uma exploração acelerada: a tendência de redução da demanda por combustíveis fósseis, os interesses de outros países produtores preocupados com a queda do preço do barril, a atuação global das grandes petroleiras e o papel central da China como principal compradora limitam esse movimento. Soma-se a isso a própria especificidade do petróleo venezuelano — pesado, ácido e de difícil refino — que encarece sua exploração e reduz sua atratividade comercial, ajudando a explicar tanto o silêncio inicial do mercado quanto os obstáculos práticos a uma corrida imediata por essas reservas.

Moral da história: o lobo mau que já sabe que seus pulmões enfraqueceram e as garras já não são mais lá essas coisas (isto é, os EUA) pode estar soprando a casa dos três porquinhos (no caso a Venezuela) apenas para causar susto, pois sabe que não vai derrubar nada, e o negócio está mais para conseguir submissão sem muito esforço do que qualquer outra coisa.