Tirando o chapéu para Pedro Castillo, professor e presidente eleito do Peru

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Ainda que o resultado final da apuração das eleições presidenciais realizadas no Peru ainda dependa da contagem de 0,112% votos já se pode dizer que o professor primário e líder sindical Pedro Castillo será o próximo presidente do país andino, pois a diferença que ele ostenta de vantagem é de 0,30% dos votos apurados.  Nessa vitória histórica, Castillo não derrotou apenas a oponente direitista Keiko Fujimori, mas um amplo arco de alianças dos partidos da direita peruana que resolveram que era melhor ter uma herdeira da ditadura fujimorista do que um professor na presidência da república. 

É que na contradição de projetos, a direita decidiu que as diferenças pontuais com Keiko Fujimori eram imensamente desprezíveis em relação aos perigos oferecidos por Castillo, um professor que vem de uma das áreas mais pobres de um país que, como o Brasil, é cheio de riquezas, mas mantém a maioria do seu povo na mais imensa miséria.

Opera Mundi: Peru: Boca de urna indica esquerda no 2º turno com Pedro  Castillo; cinco candidatos disputam a outra vaga

A vitória de Castillo é também importante porque sua plataforma se centrou em elementos que apontam para mudanças estruturais na forma com que funciona a produção e distribuição da riqueza no Peru, sendo seu lema de campanha “no más pobres en un país rico” (ou seja, “sem mais pobres em um país rico”). Além disso, Castillo anunciou a realização de uma assembleia nacional constituinte e a nacionalização do gás natural (ver vídeo abaixo).

Por outro lado, a vitória de um partido que possui uma plataforma claramente de esquerda e que venceu as eleições graças ao apoio massivo dos segmentos mais pobres da população peruano deveria ser recebido com um claro sinal por aqueles que no Brasil insistem nas alianças amplas que deverão incluir até os participantes do golpe de estado “light” contra Dilma Rousseff.  A vitória de Pedro Castillo evidencia que o caminho a ser perseguido é aquele que dialoga com as amplas camadas da população que são tratadas como invisíveis no momento em que essas alianças amplas são gestadas e impostas como a única saída para os trabalhadores e a juventude.

Internacional - Castillo se declara vencedor, mas apuração no Peru continua  apertada

Alguns irão dizer que por ter vencido sem um apoio do “centro”, Castillo terá muitos problemas para governar, pois não obteve a maioria do congresso. Entretanto, ele já sinaliza que não irá se circunscrever ao interior do parlamento para tentar aplicar suas propostas. Essa é outra lição que a esquerda brasileira deveria aprender com o “maestro” peruano.

Em tempo: acampanhei pelas redes sociais a manifestação dos apoiadores de Keiko Fujimori e seus ataques a Pedro Castillo e eleitores. A semelhança no uso de linguagem e de imagens é incrivelmente semelhante ao que se assiste no Brasil. E isso não pode ser mera coincidência, indicando para mim que existe um movimento articulado a partir das redes sociais de toda a direita latino-americana para impedir que os partidos de esquerda possam ocupar o espaço político e vencer eleições. 

Finalmente, há que se lembrar que defrontada com a escolha entre um professor e uma herdeira de uma ditadura sangrenta, a maioria da população peruana optou pelo “maestro”. Enquanto isso no Brasil vivemos as consequências da maioria ter optado pelo defensor da ditadura e não pelo professor. 

 

Relatório de 2020 do Mapbiomas mostra avanço acelerado do desmatamento na Amazônia

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As imagens da floresta amazônica sob ataque do garimpo ilegal do ouro são uma pequena amostra dos efeitos da paralisação dos instrumentos de controle ambiental pelo governo Bolsonaro

O projeto Mapbiomas lançou hoje o seu relatório anual sobre o desmatamento nos diferentes florestais brasileiros relativo ao ano de 2020, e os resultados apresentados demonstram o avanço da perda da cobertura florestal como via de regra, ainda que as maiores perdas tenham ocorrido na Amazônia e no Cerrado (ver gráfico abaixo).

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No tocante à distribuição do desmatamento na Amazônia, os estados responsáveis pelas maiores taxas continuam sendo aqueles que compõe o chamado “Arco do Desmatamento”, com uma liderança clara do Pará cuja taxa de desmatamento chegou a dramáticos  24.49%, sendo seguido pelo Mato Grosso (12,86%), Maranhão  (12,08%) e Rondônia (10,05%) (ver figura abaixo).

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Um dos detalhes mais significativos do avanço do desmatamento nos biomas brasileiros é que a velocidade da perda diária florestas chegou a igualmente dramáticos 3.209 hectares. Se considerarmos que o Mapbiomas está se referindo apenas a corte raso da floresta (i.e., desmatamento),  há ainda que se levar em conta que a alteração dos biomas é ainda mais grave, na medida em que também deve estar ocorrendo, de forma também acelerada, o processo de degradação de florestal cujos efeitos sobre serviços ambientais e perda da biodiversidade são igualmente significativos.

A gravidade dos números verificados para Mapbiomas para 2020 é ainda maior quando se verifica que nos primeiros meses de 2021, quando historicamente ocorre uma desaceleração da mudança na cobertura florestal da Amazônia, os valores encontrados estão os maiores da última década e em aceleração. Com isso, o que teremos em 2021 não será apenas ainda mais desmatamento e degradação via atividades como garimpo e extração seletiva de madeira, e, obviamente, um aumento no número de incêndios florestais (que também são uma forma particularmente eficiente de degradação florestal).

Curiosamente, as consequências econômicas desta destruição em larga escala da biodiversidade e dos serviços ambientais fornecidos pelos biomas amazônicos e do Cerrado já estão sendo medidas e os números são tão devastadores quanto os associados ao desmatamento e à degradação florestal. O problema é que neste momento a dinâmica imposta pelo governo Bolsonaro é de paralisar toda a estrutura de comando e controle em nome de uma forma tosca de geração de receita.

Quem desejar baixar o relatório de 2020 do Mapbiomas, basta clicar [Aqui!].

Diminuição da chuva causada pelo desmatamento na Amazônia pode levar a quase US$200 bilhões em perdas para pecuaristas e sojeiros

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As indústrias de carne bovina e soja na região sul da Amazônia brasileira correm o risco de quase US $ 200 bilhões de perdas de produtividade devido ao desmatamento na Amazônia, de acordo com um novo estudo científico . O estudo, publicado na Nature Communications em maio de 2021, examinou a relação entre o desmatamento e as chuvas. Também avaliou o impacto dos cenários de política de desmatamento sobre as receitas agrícolas, descobrindo que a perda de floresta em áreas de fronteira no norte da Amazônia pode resultar em reduções alarmantes de chuvas no sul da Amazônia. O sul da Amazônia é uma região agrícola altamente desenvolvida que responde pela maior parte das áreas de cultivo e pastagens no Brasil. A maior parte da produção agrícola na área é alimentada pela chuva.

Em um cenário de “governança ambiental fraca”, os cientistas projetam perdas de receita associadas à produtividade de US$5,6 bilhões para o cultivo da soja e US $ 180,8 bilhões para a produção de carne bovina. De acordo com os autores, “o Brasil pode ter ultrapassado um limite no qual mais desmatamento na Amazônia se traduz em dano econômico direto”. Conclui que a atual trajetória de expansão para áreas florestadas coloca em risco a produtividade agrícola de todo o país. Em entrevista à Thomson Reuters, um coautor do estudo, Argemiro Teixeira, disse que a proteção florestal pode apoiar o setor agrícola do Brasil. “[É] possível e necessário melhorar a indústria preservando o meio ambiente”, afirmou.

O estudo quantificou o risco financeiro em um dos mais prementes riscos físicos crônicos de desmatamento para os setores de commodities agrícolas. Conforme descrito em janeiro 2021 da CRR papel em seu quadro TCFD alinhado para avaliar os riscos de desmatamento, perda de floresta é a maior risco de mudanças climáticas da agricultura. Com as altas taxas atuais de desmatamento do Brasil e o papel substancial do país nos mercados globais de commodities leves, as mudanças no padrão de chuvas podem ter um efeito cascata nos sistemas globais de alimentos.

As partes interessadas em todas as cadeias de abastecimento de carne bovina e soja são as que correm maior risco. Os produtores agrícolas serão os mais diretamente afetados pelas perdas de produtividade quantificadas neste estudo. Mas a oferta reduzida e os preços flutuantes também podem afetar as empresas mais abaixo na cadeia de abastecimento. Por exemplo, os preços do gado no Brasil já aumentaram 60 por cento no último ano. Isso resultou na paralisação temporária da produção nos frigoríficos para ajustar a oferta à demanda , com supostas consequências financeiras para os frigoríficos do Brasil. A redução da produtividade do gado, desencadeada por desmatamento futuro, pode exacerbar muito esses impactos.

Da mesma forma, as instituições financeiras com participações nesses setores enfrentam maior exposição ao risco e podem ter que mitigar os riscos climáticos físicos decorrentes do desmatamento. Empresas como o UBS, que recentemente formou uma joint venture com o Banco do Brasil com foco no agronegócio, afirmam que “é possível lidar com o agronegócio brasileiro sem se envolver em problemas ambientais”. No entanto, qualquer cliente UBS localizado no sul da Amazônia brasileira pode enfrentar tais problemas ambientais, mesmo sem estar diretamente envolvido no desmatamento da floresta.

O risco físico de mudanças no padrão de chuvas aumenta os riscos de transição decorrentes da mudança global em direção a uma economia de baixo carbono. Os setores de carne bovina e soja do Brasil enfrentam uma série de riscos de transição:

  • Os avanços tecnológicos permitem que fontes alternativas de proteína vegetal, como hambúrgueres vegetarianos, concorram com o preço da carne bovina ;
  • A preferência do consumidor por opções vegetarianas está crescendo no Brasil , China , UE e em outros lugares;
  • Empresas downstream, incluindo Nestlé , H&M , VF Corporation , Grieg Seafood , Bremnes Seafood Gårdsand , excluíram o Brasil ou fornecedores brasileiros específicos de suas compras em resposta a preocupações com o desmatamento.
  • Os investidores têm pressionado por políticas corporativas de desmatamento zero mais rigorosas, arquivando resoluções dos acionistas (por exemplo, na Bunge , JP Morgan e Procter & Gamble), emitindo cartas públicas e iniciando processos de engajamento colaborativo .
  • Os estados estão colocando requisitos de due diligence de desmatamento mais rigorosos para suas empresas domiciliadas (por exemplo , França , Alemanha e Reino Unido) ou estão endurecendo as restrições de importação de mercado (por exemplo, União Europeia). Nos Estados Unidos, os esforços diplomáticos do presidente Biden podem ser complementados pela expansão da Lei Lacey para incluir a proibição da importação de commodities cultivadas em terras desmatadas ilegalmente. Os Estados Unidos também podem exigir que as empresas informem sobre o desmatamento em sua cadeia de suprimentos ou banir as importações relacionadas ao desmatamento.

Apesar dessas tendências notáveis, os riscos de transição relacionados ao desmatamento até agora não impactaram os resultados das principais empresas nas cadeias de abastecimento de carne bovina e soja. O lucro líquido, os preços das ações e as margens de lucro dos principais frigoríficos e comerciantes de soja no Brasil não viram mudanças significativas. Ao contrário do setor de óleo de palma, as evidências da materialidade financeira dos riscos de desmatamento permanecem teóricas nas indústrias de carne e soja. Apesar de tais perdas financeiras não se materializarem no curto prazo, impactos climáticos e naturais sobre a produtividade agrícola são esperados nos próximos anos.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Adeus Freixo, longa vida ao PSOL

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Após um período de idas e vindas e pressões, o deputado federal Marcelo Freixo decidiu trocar o PSOL por uma aposta eleitoral aparentemente costurada pelo ex-presidente Lula. A partir dessa costura, Freixo vai de mala e cuia para o PSB, um partido que se notabilizou por ser o receptáculo de uma ampla gama de opções políticas, o que se reflete nas votações pró-governo Bolsonaro de parte de sua bancada no congresso nacional.

Não posso dizer que estou surpreso nem triste com a saída de Marcelo Freixo do PSOL. A palavra certa talvez seja “decepalívio”, uma mistura de decepção com alívio. A decepção fica por conta de ver que mais um militante social trocou a luta árdua do trabalho de base por alianças que juntam gregos e troianos e acabam beneficiando os romanos, e alívio por ver que o PSOL fluminense é maior que qualquer um dos seus parlamentares, incluindo Freixo.

Conheço Marcelo Freixo desde a sua primeira campanha para deputado estadual, onde com outras pessoas o apoiei e chamei votos em sua candidatura, quando ele era basicamente um desconhecido. Ao longo dos anos, reconheço que que ele foi um aliado importante dos servidores públicos, especialmente os das universidades estaduais, na luta por seus direitos constantemente sob ameaça. Na Comissão de Educação, enquanto membro ativo, Freixo possibilitou que várias demandas da Universidade Estadual do Norte Fluminense, incluindo a construção do bandejão, fossem atendidas. 

Mas não é de hoje que não reconheço mais o deputado do primeiro mandato, pois ao longo dos anos presenciei uma transformação na postura de Marcelo Freixo, inclusive no trato com as questões relacionadas à defesa das universidades estaduais.  Essa mudança me pareceu claramente vinculada às ambições eleitorais que foram viabilizadas justamente por sua proximidade da luta dos trabalhadores. Por essa mudança de postura é que nas últimas eleições estaduais e nacionais, optei por outros candidatos do PSOL e de outros partidos de esquerda. É que a estas alturas do campeonato, parafraseando Jean Wyllys, eu estou propenso a apostar apenas naquilo que pode dar certo. 

Minha expectativa é que livre das pressões e chantagens de Marcelo Freixo, o PSOL fluminense aproveite da ocasião para se comprometer com um tipo de trabalho de base que o aproxime da classe trabalhadora e da juventude periférica. É desse tipo de trabalho de base que nascerão as reais transformações que o Rio de Janeiro realmente necessita, e de cima de palanques que incluirão aqueles que ajudaram a nos colocar no buraco em que estamos metidos neste momento. Aliás, essa é a lição que a pujante candidatura presencial do professor Pedro Castillo acaba de mostrar nas eleições peruanas.  Por isso, a saída para o imbróglio político que vivemos me parece ser por mais Pedros, e menos Marcelos.

Por isso tudo, adeus Marcelo Freixo, longa vida ao PSOL.

Relatório expõe falsos planos de compromissos climáticos de grandes corporações

Promessa “net zero” da JBS prevê apoio ao desmatamento por mais 14 anos

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Após um ano repleto de anúncios recordes de promessas de emissões zero líquidas (net-zero) de corporações e governos, um novo relatório revela que os planos climáticos de algumas das principais indústrias poluidoras são baseados em medidas falsas, inalcançáveis ou insuficientes. O documento destaca a atuação de grandes poluidores para influenciar a metodologia de pesquisas sobre “net zero” em universidades de prestígio, incluindo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Universidade de Princeton, Universidade de Stanford e Imperial College London.

O documento intitulado “The Big Con: How Big Polluters are advance a “net zeroclimate agenda to delay, deceive and deny” também afirma que as grandes corporações estão agindo para que suas interpretações de “net zero” se tornem o principal dogma da resposta global à crise climática. 

A publicação foi escrita por Corporate Accountability, The Global Forest Coalition e Friends of the Earth International, e endossada por mais de sessenta organizações, incluindo ActionAid Internacional, OilWatch, Third World Network e o Institute for Policy Studies.

“É difícil não ver o fervor recente sobre o termo ‘net zero’ como qualquer coisa além de um esquema apoiado por Grandes Poluidores que é muito pouco, muito tarde”, afirma Rachel Rose Jackson Diretora de Política e Pesquisa Climática da Corporate Accountability e uma das autoras do estudo. “Estes jogadores empilharam o baralho para garantir que o mundo se concentrasse em planos que nada mais são do que lavagem verde.”

Táticas

Um exemplo de como os maiores poluidores têm moldado e influenciado pesquisas acadêmicas sobre “net zero” vem da Exxon Mobil, que reteve o direito de revisar formalmente o Projeto Global de Clima e Energia de Stanford antes que ele seja concluído. Como financiadora, a empresa também pode colocar seu próprio pessoal nas equipes de desenvolvimento do projeto.

Todas as universidades citadas têm projetos climáticos financiados por grandes produtores de petróleo, com destaque para a cooperação de longa data entre Shell e o Imperial College London. A publicação mostra ainda que as instituições acadêmicas abrigam pesquisadores de clima que são ou já foram funcionários dessas empresas, além de promover eventos sobre clima patrocinados por petroleiras ou com funcionários destas entre os palestrantes.

Além de cooptar setores acadêmicos, os maiores poluidores têm influenciado legislações com objetivos climáticos para que sejam ineficazes ou que acabem por beneficiá-las. Nos EUA, indústrias de aviação e de combustíveis fósseis pressionaram massivamente para ajudar a assegurar um crédito fiscal, chamado 45Q, que subsidia a captura e o armazenamento de carbono. Segundo o documento, é provável que essas empresas tenham lucrado milhões com a manobra, apesar de não terem uma atuação que as qualifiquem para obter o crédito.

O estudo também destaca o papel da Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA). Fundada e controlada por grandes produtores de petróleo, a organização tem trabalhado para fortalecer suas concepções de “net-zero”, influenciar o mercado de créditos de carbono e enfraquecer medidas para redução de emissões nas negociações internacionais pelo clima.

“Estamos profundamente preocupados com a captura corporativa das políticas climáticas e o crescente nexo entre governos e corporações para promover falsas soluções usando o “Net Zero” e outros conceitos ambíguos como o de Soluções Baseadas na Natureza”, diz Coraina De la Plaza, Campaigner de Clima para a Global Forest Coalition. “Eles continuam a perseguir esquemas ‘verdes’ de compensação neocolonial para colher mais lucros e poluir. Este circo de Net Zero tem que parar, o planeta e as pessoas precisam de cortes reais de emissões e metas-zero reais.”

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Planos de faz de conta

De acordo com o estudo, o compromisso da JBS, feito em março deste ano, de eliminar o desmatamento em sua cadeia de suprimentos até 2035 significa, na prática, que a empresa continuará contribuindo para o desmatamento pelos próximos 14 anos. Erradicar imediatamente o desmatamento associado à sua cadeia de suprimentos seria a maneira mais eficaz e rápida para a JBS diminuir suas emissões, afirma o texto.

Já a Shell planeja comprar mais créditos de carbono para compensar suas emissões até 2030 do que estavam disponíveis em todo o mercado global de compensação voluntária no ano de 2019. Em seu plano, a empresa também promete reflorestar 700 milhões de hectares, uma área quase do tamanho do Brasil. O plano fantasioso da companhia rendeu uma condenação em maio em um tribunal da Holanda.

O plano climático do Walmart negligencia totalmente suas emissões da cadeia de valor, o que, estima-se, responde por 95% da pegada de carbono da corporação. Enquanto isso, a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, se comprometeu em 2020 a vender a maior parte de suas emissões fósseis no ‘futuro próximo’, mas ainda possui US﹩85 bilhões em ativos de carvão, devido a uma ‘lacuna’ em sua política.

“Este relatório mostra que planos ‘net zero’ de grandes poluidores nada mais são do que um grande golpe”, afirma Sara Shaw, coordenadora do programa Justiça Climática e Energia da Friends of the Earth International. Para ela, empresas como a Shell não têm interesse em agir genuinamente para resolver a crise climática. “Em vez disso, elas planejam continuar os negócios como de costume, ao mesmo tempo em que falam de plantio de árvores em esquemas de compensação que nunca poderão anular a escavação e a queima de combustíveis fósseis. Devemos acordar rapidamente para o fato de que estamos caindo em um truque. O “net zero” corre o risco de ocultar a falta de ação até que seja tarde demais.”

Quem desejar baixar o relatório completo, basta clicar [Aqui!]

Cientistas cobram de líderes mundiais enfrentamento conjunto de mudança climática e perda de biodiversidade

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O Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) e o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC )lançaram hoje (10/06) o relatório do workshop sobre biodiversidade e mudança climática. O workshop foi realizado em dezembro de 2020, em formato virtual, durante quatro dias e reuniu 50 dos principais especialistas mundiais em biodiversidade e clima, selecionados por um Comitê Científico Diretor de 12 pessoas criado pelos dois órgãos intergovernamentais.

A primeira colaboração desse tipo apela aos líderes para enfrentarem de maneira conjunta a mudança climática e a perda da biodiversidade, oferecendo caminhos para resolver essas crises inter-relacionadas.

O relatório, criado pelos 50 dos maiores especialistas mundiais em biodiversidade e clima , conclui que as políticas anteriores enfrentaram a perda de biodiversidade e a mudança climática de forma independente uma da outra. O documento argumenta que abordar as sinergias entre mitigar a perda da biodiversidade e a mudança climática, ao mesmo tempo em que considera seus impactos sociais, oferece a oportunidade de maximizar os benefícios e atingir as metas de desenvolvimento global.

A natureza oferece maneiras eficazes de ajudar a mitigar a mudança climática, mas estas soluções só podem ser eficazes se forem construídas com base em reduções ambiciosas em todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem. Uma agenda integrada de mudanças climáticas e biodiversidade, diz o relatório, não deixaria nenhuma pessoa ou ecossistema para trás.

As recomendações do relatório do workshop incluem:
• Parar a perda e degradação de ecossistemas ricos em carbono e espécies em terra e no oceano;

• Restauração de ecossistemas ricos em carbono e espécies;

• Aumentar as práticas agrícolas e florestais sustentáveis;

• Eliminação de subsídios que apóiam atividades locais e nacionais prejudiciais à biodiversidade;

• Orientar melhor as ações de conservação, coordenadas com e apoiadas por uma forte adaptação e inovação climática;

• Assegurar que os programas e políticas de conservação sejam multifuncionais, abordando as paisagens de terra, água doce e oceano em vez de se concentrar apenas em alguns elementos da natureza. Essas iniciativas também precisam beneficiar as comunidades locais;

• Quando soluções baseadas na natureza são utilizadas como compensações de carbono, elas são mais eficazes quando sujeitas a condicionantes rigorosos, e não devem ser utilizadas para retardar ações de mitigação em outros setores. Isto é particularmente importante dado que as soluções baseadas na natureza são provavelmente menos eficazes sob a crescente mudança climática e seus impactos.

Os autores também afirmam que as seguintes medidas de mitigação e adaptação climática seriam prejudiciais à biodiversidade:
• Plantio de monoculturas bioenergéticas sobre grandes extensões de terra;

• Plantio de árvores em ecossistemas que historicamente não foram florestas e reflorestamento com monoculturas – especialmente com espécies de árvores exóticas;

• Aumentar a capacidade de irrigação para a agricultura em resposta às pressões da seca;

• Alertam ainda: quaisquer medidas que se concentrem muito na mitigação da mudança climática devem ser avaliadas em termos de seus benefícios e riscos gerais.

Algumas das principais estatísticas são:
• 77% das terras (excluindo a Antártica) e 87% da área do oceano foram modificadas pelos efeitos diretos das atividades humanas;

• Estimativas globais das necessidades exatas de áreas efetivamente protegidas e conservadas para garantir um clima habitável, biodiversidade autossustentável e uma boa qualidade de vida ainda não estão bem estabelecidas, mas variam de 30% a 50% das áreas de superfície oceânica e terrestre.

• Há 12.983 compensações de biodiversidade listadas implementadas em 37 países, porém apenas um terço das compensações de biodiversidade atende comprovadamente ao princípio de “nenhuma perda líquida” (NNL).

• Globalmente, foi estimado que o sistema alimentar é responsável por 21-37% do total das emissões líquidas antropogênicas de gases de efeito estufa ao incluir as atividades de pré e pós-produção.

• Manter ou restaurar 20% do habitat nativo em “paisagens habitadas/alteradas pelo homem pode contribuir para as metas globais de clima e biodiversidade, ao mesmo tempo em que gera múltiplos benefícios, através de soluções baseadas na natureza e outras abordagens baseadas em ecossistemas.

Os autores do relatório ressaltam que, embora a natureza ofereça formas eficazes de ajudar a mitigar a mudança climática, essas soluções só podem ser eficazes se forem baseadas em reduções ambiciosas em todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem.

Ana María Hernández Salgar, presidente do IPBES, diz: “A terra e o oceano já estão fazendo muito – absorvendo quase 50% do CO2 das emissões humanas -, mas a natureza não pode fazer tudo. Uma mudança transformadora em todas as partes da sociedade e de nossa economia é necessária para estabilizar nosso clima, deter a perda da biodiversidade e traçar um caminho para o futuro sustentável que desejamos. Isto também exigirá que enfrentemos ambas as crises em conjunto, de formas complementares”.

Hans-OttoPörtner, co-presidente do Comitê Científico Diretor, diz: “A evidência é clara: um futuro global sustentável para as pessoas e para a natureza ainda é alcançável, mas requer uma mudança transformadora com ações rápidas e de longo alcance de um tipo nunca antes tentado, com base em reduções ambiciosas de emissões. A solução de alguns dos fortes e aparentemente inevitáveis compromissos entre clima e biodiversidade implicará uma profunda mudança coletiva de valores individuais e compartilhados relativos à natureza – como o afastamento da concepção de progresso econômico baseado unicamente no crescimento do PIB, para um que equilibre o desenvolvimento humano com múltiplos valores da natureza para uma boa qualidade de vida, sem ultrapassar os limites biofísicos e sociais”.

Especialistas não envolvidos no relatório reagiram dizendo:
Lucy Almond, Presidente da Nature4Climate: “Este relatório conjunto é um acréscimo bem-vindo à pesquisa que mostra que não podemos resolver a crise climática sem investir na natureza. Precisamos de uma ação política que reconheça que, para atingir os objetivos do Acordo de Paris, precisamos tanto de uma transição energética quanto de um investimento muito maior em soluções baseadas na natureza. Qualquer recuperação econômica deve ser à prova de futuro também para a natureza. Não podemos mais agir em nichos; investir na natureza é investir no clima e na prosperidade econômica.”

Beatriz Luraschi – Diretora de Políticas – Política Global – RSPB: “O Relatório do Workshop IPBES-IPCC reafirma o que já sabemos: que sem proteger e restaurar a natureza, não podemos enfrentar a mudança climática. Não há espaço para complacência – o relatório faz importantes advertências sobre “soluções climáticas” mal concebidas que minam diretamente a natureza, tais como o uso de bioenergia em larga escala. Sabemos que precisamos proteger, restaurar, criar ecossistemas naturais e gerenciar melhor as terras agrícolas, a fim de reduzir as emissões e proteger a vida selvagem. Os líderes globais, que se reunirão para a Cúpula do G7 na Cornualha neste fim de semana, devem estar atentos à ciência para lidar com as emergências da natureza e do clima.”

Brian O’Donnell, Campanha pela Natureza: “A era do enfrentamento isolado das crises da natureza e do clima deve chegar ao fim. Os principais cientistas mundiais da natureza e do clima nos mostraram um caminho a seguir onde priorizamos ações climáticas que beneficiem a natureza. Se os líderes mundiais concordarem em proteger pelo menos 30% das terras e oceanos do planeta e garantir os direitos de posse da terra dos povos indígenas e comunidades locais, podemos fazer um enorme progresso para o clima e a natureza.”

Dr. Enric Sala, National Geographic Explorer in Residence, Diretor Executivo da Pristine Seas, autor de “The Nature of Nature: Por que precisamos da natureza selvagem”: “Não podemos pensar no aquecimento global e na perda da natureza como crises diferentes. Elas são uma e a mesma coisa. A causa de nossa crise global é nosso abuso de nosso sistema de suporte de vida, nossa crescente destruição e poluição do mundo natural em prol de um crescimento econômico sem restrições. Este importante relatório nos lembra que as principais soluções incluem proteger pelo menos 30% do planeta até 2030, mudar a maneira como produzimos alimentos e reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa a quase zero até 2050.”

Dr. Simon Zadek – Presidente de Finanças para a Biodiversidade: “Cada dólar, emprego e produto na economia global de 80 trilhões de dólares depende da natureza. E ainda assim, embora as instituições financeiras tenham reconhecido cada vez mais o clima como um importante motor de riscos e oportunidades, a natureza ainda é largamente ignorada. O relatório científico do IPCC e do IPBES fornece mais evidências de que esta negligência representa um perigo existencial e reforça a necessidade de aumentar a ambição e acelerar o progresso de iniciativas como a Task Force sobre Divulgação Financeira Relacionada à Natureza.”

Dra. Pamela McElwee, professora associada do Departamento de Ecologia Humana da Rutgers: “O relatório do Workshop do IPCC-IPBES chega quando os líderes do G7 se reúnem para discutir – entre outras questões vitais – a necessidade de maior financiamento climático. 50 importantes especialistas afirmaram que as medidas que tomamos para deter a mudança climática também devem ter como objetivo deter a perda da biodiversidade. Há um risco real de financiar as chamadas soluções climáticas que podem exacerbar a crise da biodiversidade, como o reflorestamento rápido e em larga escala sem a proteção da biodiversidade. Os países precisam cumprir suas promessas climáticas para reduzir rapidamente as emissões de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, melhorar a gestão e a conservação de nossas preciosas terras e oceanos. O fato de muitos dos pacotes de recuperação econômica pós-COVID no G7 e em outros lugares não apenas não conseguirem enfrentar a enormidade da crise climática, mas que praticamente ignoram a biodiversidade, mostra que este problema continua difícil de ser superado”.

Você pode encontrar mais informações e o relatório completo aqui 

Ciclo do veneno: frutas exportadas pelo Brasil levam agrotóxicos proibidos na Europa à mesa dos alemães

Teste realizado a pedido do Greenpeace com alimentos brasileiros vendidos em quatro cidades alemãs encontrou 35 substâncias, 11 delas proibidas na Europa. Brasil minimiza e diz que produção agrícola atende a regras internacionais

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Figo, mamão, manga, melão e limão brasileiros dentre as frutas analisadas pelos laboratórios alemães.BENTE STACHOWSKE / © BENTE STACHOWSKE / GREENPEACE

Por Marina Rossi para o jornal “El País”

A Alemanha está consumindo agrotóxicos que são proibidos ali por meio de alimentos importados do Brasil. Testes realizados por laboratórios independentes alemães, a pedido do Greenpeace, com 70 frutas brasileiras, detectaram ao menos 11 substâncias cujo uso é banido em toda a União Europeia. No total, foram encontrados 35 agrotóxicos diferentes em frutas brasileiras, como manga, mamão, limão e figo, comercializadas nas cidades alemãs de Hamburgo, Colônia, Leipzig e Stuttgart. Dessas, 21 pertencem ao grupo de Pesticidas Altamente Perigosos, uma classificação criada pela agência da ONU para a alimentação e agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da proibição do uso em solo europeu, muitos desses agrotóxicos são produzidos por empresas sediadas em países da Europa, como as alemãs BASF e Bayer, e depois exportados para o Brasil. Segundo o Greenpeace, no início de 2020 essas duas empresas detinham a produção de 12% dos pesticidas aprovados no Brasil. Marina Lacôrte, porta-voz da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil, defende, portanto, que não só o uso mas também a produção dessas substâncias sejam proibidas no território europeu. “Se o governo estabelece que os alemães não podem ingerir essa substância, por que não ter uma legislação proibindo a produção delas?”, questiona. “Por que uma criança europeia não pode consumir determinados agrotóxicos e as crianças brasileiras podem?.”

Os questionamentos de Lacôrte são levantados em um momento crucial tanto para o Brasil quanto para países europeus, já que a exportação agrícola é uma das peças-chave do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O tratado ainda precisa ser ratificado por todos os países envolvidos, mas a França em especial tem se mostrado resistente, exigindo cláusulas de proteção aos seus produtos agrícolas e um compromisso do Governo brasileiro com o desmatamento, um dos pontos nevrálgicos do Governo Bolsonaro. Por outro lado, a mesma França encabeça o ranking dos países europeus exportadores de agrotóxicos para o Mercosul, seguida pela Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica e Espanha, segundo a ONG ambiental. Diante do impasse, os ambientalistas pedem que a União Europeia seja “consistente” e não ratifique o acordo, que pode deixar inclusive os agrotóxicos mais baratos, por meio de isenções fiscais, e “aumentar significativamente a venda e o uso de venenos agrícolas europeus.”

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, responsável por fazer o controle de resíduos de agrotóxicos acima do limite e nos alimentos para exportação, afirmou por meio de nota que “assim como o Brasil permite o uso de alguns pesticidas não registrados na Europa, o oposto também é verdadeiro. Há agrotóxicos registrados na Europa que não são permitidos em território brasileiro”, diz, sem mencionar quais. Segundo o órgão, “essa diferença decorre das diferenças de cultivos, clima e pragas que infestam as plantações em cada parte do globo”, afirma a pasta. “Os pesticidas são, portanto, registrados e utilizados conforme as necessidades nacionais.”

No estudo, foi detectado que 64% das frutas brasileiras estavam com algum resíduo de pesticida. O mamão foi campeão, chegando a apresentar até nove substâncias diferentes em uma única fruta, no que a ONG classifica como um “verdadeiro coquetel de pesticidas”. Entre 2017 e 2020, o Brasil foi responsável por 77% dos mamões importados pela Alemanha. O Greenpeace afirma ter comunicado o Governo alemão sobre os resultados.

O teste foi realizado entre a segunda quinzena de abril e início de maio deste ano. Segundo o laudo, apenas 11 das 70 amostras de frutas não continham agrotóxicos. O Ministério da Agricultura afirma que o fato desses alimentos terem ingressado em território estrangeiro “demonstra que os limites encontrados estão abaixo daqueles internacionalmente considerados como seguros pelas autoridades do país importador ou pelo CODEX Alimentarius [coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente sobre segurança alimentar] (FAO/OMS)”. Ainda por meio de nota, o Governo brasileiro diz que “os produtos produzidos e comercializados pelo Brasil são seguros para consumo humano.

Frutas sendo examinadas durante o teste pelo laboratório alemão.

Frutas sendo examinadas durante o teste pelo laboratório alemão. BENTE STACHOWSKE / © BENTE STACHOWSKE / GREENPEACE

No ano passado, o Brasil bateu recorde na aprovação de novos agrotóxicos. Somente em 2020 foram aprovadas 321 substâncias, segundo o Ministério da Agricultura, 59% a mais que em 2019, quando foram liberados 202 pesticidas de acordo com o órgão. Esses registros vêm crescendo ano após ano, mas o Governo minimiza o aumento da aprovação e diz que “97% dos produtos registrados são genéricos, ou seja, já estavam disponíveis no mercado com outros nomes comerciais.”

Para ser registrado no Brasil, um pesticida precisa passar por três instâncias: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avalia e classifica toxicologicamente os agrotóxicos. A avaliação da agência considera tanto o impacto da exposição dos aplicadores quanto os riscos dos resíduos que eventualmente podem ser encontrados nos alimentos tratados. Em seguida, o Ibama realiza a avaliação ambiental das substâncias, estabelecendo suas classificações quanto ao potencial de periculosidade para o meio ambiente. E, então, o Ministério da Agricultura avalia a eficiência agronômica dos agrotóxicos. É também a pasta que concede o registro do químico, após receber os pareceres favoráveis dos órgãos de saúde e do meio ambiente.

O ministério, chefiado pela ministra Tereza Cristina, ainda esclareceu à reportagem que “há tendência de queda no volume médio de defensivos agrícolas aplicados por área tratada”. De acordo com a nota, em 2020 houve redução de 0,1% na quantidade de quilos por hectare. Em 2019 e 2018, sempre na comparação com os anos anteriores, também havia registro de queda, na média, de 1,1% e 0,5%, respectivamente.

Veneno no pacote

Os resíduos de agrotóxicos perigosos para a saúde não estão somente nos alimentos naturais, como frutas, verduras e legumes. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) divulgou recentemente um estudo apontando para a presença dessas substâncias em alimentos ultraprocessados. Cereais, salgadinhos, biscoitos, bebidas de soja, pães e bolos de diferentes marcas apresentaram as substâncias em sua composição. Até mesmo o controverso glifosato, um dos herbicidas mais usados no Brasil ―e um dos proibidos na Europa― e classificado como “provavelmente carcinogênico” pela OMS, foi encontrado em alguns alimentos.

Ao todo, 27 produtos foram analisados pelo Idec, divididos em oito categorias. Dessas, seis apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os alimentos onde foram identificados agrotóxicos são: a bebida de soja Naturis (Batavo); o cereal matinal Nesfit (Nestlé); os salgadinhos Baconzitos e Torcida (ambos da Pepsico); os pães bisnaguinha Pullman (Bimbo), Wickbold, Panco e Seven Boys (da Wickbold); os biscoitos de água e sal Marilan, Triunfo (Arcor), Vitarela e Zabet (ambos da M Dias Branco); as bolachas recheadas Bono e Negresco (Nestlé), Oreo e Trakinas (Mondeléz).

O Idec afirma que comunicou aos fabricantes sobre os resíduos encontrados em seus produtos. As empresas que responderam ao Instituto afirmaram que seguem boas práticas dos fornecedores de matéria-prima, ou que a quantidade de substâncias está dentro dos limites. Não há, no entanto, regulação sobre os limites máximos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados, já que a Anvisa monitora essas substâncias apenas nos alimentos naturais.

A Lactails, responsável pela Batavo, informou, após a publicação desta reportagem, que não foi comunicada sobre o estudo do Idec. Por meio de nota, a empresa também afirma que todos seus insumos “são controlados e monitorados através de laudos externos e atendem rigorosamente à legislação brasileira”, e que “a empresa tem uma política rígida na escolha de seus fornecedores de insumos, homologando apenas aqueles que cumprem com todas as exigências legais e de segurança alimentar”.

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Este texto foi publicado originalmente pelo jornal “El País” [Aqui!].

JBS diz que pagou o equivalente a US $ 11 milhões em ataque de ransomware nos EUA

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A JBS USA pagou um resgate equivalente a US $ 11 milhões após um ataque cibernético que interrompeu suas operações na América do Norte e Austrália, disse o CEO da empresa em um comunicado na quarta-feira.

A subsidiária da empresa brasileira JBS SA (JBSS3.SA) suspendeu o abate de gado em todas as suas fábricas nos EUA por um dia na semana passada em resposta ao ataque cibernético, que ameaçava interromper as cadeias de abastecimento de alimentos e inflacionar ainda mais os já altos preços dos alimentos.

O ataque cibernético ocorreu no mês passado em Colonial Pipeline, o maior gasoduto de combustível dos Estados Unidos. Ele interrompeu a entrega de combustível por vários dias no sudeste dos EUA.

O software Ransom funciona criptografando os dados das vítimas . Normalmente, os hackers oferecem à vítima uma chave em troca de pagamentos de criptomoedas que podem chegar a centenas de milhares ou até milhões de dólares. O FBI disse no início deste mês que a agência estava investigando cerca de 100 tipos diferentes de ransomware.

As fábricas de carnes da JBS, que produzem quase um quarto da carne bovina da América, se recuperaram mais rápido do que alguns compradores de carne e analistas esperavam.

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Uma visão geral da fábrica de suínos Worthington da JBS USA em Minnesota, EUA, 28 de outubro de 2020. REUTERS / Bing Guan

“Foi uma decisão muito difícil de tomar para nossa empresa e para mim pessoalmente”, disse André Nogueira, CEO da JBS USA sobre o pagamento do resgate. “No entanto, sentimos que essa decisão deveria ser tomada para evitar qualquer risco potencial para nossos clientes.”

O braço do frigorífico brasileiro nos Estados Unidos e a Pilgrims Pride Corp (PPC.O) , empresa norte-americana de frangos em sua maioria de propriedade da JBS, perderam menos de um dia de produção de alimentos. A JBS é a maior produtora de carnes do mundo.

Terceiros estão realizando investigações forenses e nenhuma determinação final foi feita, disse a JBS. Os resultados preliminares da investigação mostram que nenhum dado da empresa, cliente ou funcionário foi comprometido no ataque, disse.

Um grupo de hackers ligado à Rússia está por trás do ataque cibernético contra a JBS, disse uma fonte familiarizada com o assunto na semana passada. A gangue cibernética ligada à Rússia atende pelo nome de REvil e Sodinokibi, disse a fonte.

O jornal de Wall Street noticiou na quarta-feira que o pagamento do resgate da JBS foi feito em bitcoin.

O Departamento de Justiça recuperou na segunda-feira cerca de US $ 2,3 milhões em resgate de criptomoeda pago pela Colonial Pipeline Co, reprimindo os hackers que lançaram o ataque.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Uma eulogia para Kathlen Romeu

Kathlen-Romeu-gravida-tiroteiro-Rio-2Kathlen Romeu,  que morreu assassinada durante investida de forças policiais na comunidade do Lins na cidade do Rio de Janeiro

Ao longo de pouco mais de uma década da existência deste espaço, escrevi várias eulogias para pessoas com quem convivi, aprendi e admirei a partir do meu convívio pessoal. Além dos textos refletirem o meu esforço para reconhecer o impacto que as pessoas retratadas tiveram na minha vida e na de outros, escrever eulogias é um esforço pessoal para conviver com a perda de pessoas que foram e continuam sendo importantes na forma com que toco a minha vida.

Hoje decidi escrever uma eulogia para Kathlen Romeu, jovem mulher negra assassinada muito provavelmente por uma arma empunhada por uma agente das forças policiais do Rio de Janeiro. Ao contrário das outras pessoas a quem dediquei minhas eulogias, nunca encontrei pessoalmente com Kathlen, mas conheço pelo menos uma pessoa que teve a oportunidade de ser seu professor. Kathlen, como mostram suas fotos que estão aparecendo nas redes sociais, era uma jovem que tinha sonhos e, mais importante, trabalhava para torná-los realidade.  Os relatos que surgem é de que era uma pessoa de bem com a vida, ainda que preocupada com o espectro da violência que se abate diariamente sobre os negros brasileiros, especialmente aqueles que nascem e vivem em áreas impactadas pela pobreza e pela constante ação do aparato repressivo do Estado brasileiro.

Um detalhe que me impactou particularmente no caso de Kathlen foi o fato de que ela estava grávida em uma gestação que deveria estar no seu quarto mês de duração. Assim, o seu assassino não ceifou apenas a vida de uma jovem mulher negra, mas também do ser humano em formação que ela carregava dentro de si. Mais chocante ainda é saber que esse duplo assassinato é apenas mais um de uma série de extermínios de mulheres, a maioria negra, grávidas no chamado “Grande Rio“. Isso me leva a crer que o extermínio de Kathlen Romeu não foi um mero “acidente de trabalho”, mas faz parte de uma ação orquestrada para intimidar ainda mais aqueles que já vivem eternamente em contato direto com o medo.

A morte de Kathlen Romeu deveria deixar qualquer um que se preza como ser humano com o sangue fervendo, pois não há como aceitar que alguém que passou pela vida realizando coisas boas para quem se aproximava dela se torne apenas mais uma estatística nos malfeitos cometidos pelo Estado. Aliás, o silêncio das autoridades constituídas, a começar pelo governador acidente Cláudio Castro, revela que os culpados pela morte de Kathlen e de tantas outras pessoas não são apenas aqueles que disparam suas armas em condições de pouquíssima transparência e controle por parte da sociedade fluminense.

Se esse texto chegar até quem conviveu com Kathlen Romeu, quero apenas dizer que o mero contato com as narrativas de quem ela foi, e mais importante, o que ainda poderia ser como mãe e como cidadã, me motivou a expressar meu sentimento de senso de perda pessoal que sua morte me causou.  Por isso, me somo à todas as vozes que estão se levantando para exigir que seu assassinato seja exemplarmente apurado e os responsáveis punidos de forma rigorosa.

O que fazer com Jair Bolsonaro, o negacionista climático mais perigoso do mundo, pergunta a Rolling Stone

Qualquer esperança de alcançar as metas climáticas globais depende de conter o desmatamento no Brasil. Mas qualquer esperança de conter o desmatamento depende de Bolsonaro

Brazil Amazon Fires

Em seus dois anos como presidente, Bolsonaro presidiu a destruição de cerca de 16.000 km2 da floresta tropical brasileira, um dos ecossistemas mais preciosos do planeta. Andre Penner / AP

Por Jeff Goodell para a revista “Rolling Stone”

rolling

Não há (ainda) prisão para criminosos climáticos, mas se houvesse, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro teria uma cela infestada de aranha só para ele. Agora que Trump se foi, Bolsonaro – também conhecido como “O Trunfo dos Trópicos” ou “Capitão Serra Elétrica” – é o negador climático mais perigoso do mundo. Em seus dois anos como presidente, Bolsonaro presidiu a destruição de cerca de 10.000 milhas quadradas da floresta tropical brasileira , um dos ecossistemas mais preciosos do planeta. E como Trump, Bolsonaro se orgulha de seus esforços para foder o planeta. Se as pessoas estivessem tão preocupadas com as mudanças climáticas, ele sugeriu uma vez, eles poderiam comer menos e “fazer cocô todos os dias” para salvar a Terra. Quando o Papa Francisco convocou a “mentalidade cega e destrutiva” por trás da destruição da floresta tropical, Bolsonaro respondeu dizendo aos jornalistas: “O Brasil é a virgem que todo pervertido estrangeiro deseja colocar em suas mãos”.

Se a crise climática não fosse tão urgente, o Bolsonaro seria um problema apenas para o Brasil e seus vizinhos. Mas o Brasil é um jogador-chave no esforço para eliminar a poluição global de carbono. As florestas tropicais absorvem cerca de 10% das emissões de CO2. Com cada milha quadrada de floresta tropical cortada, a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 C torna-se cada vez mais inatingível. “Se não podemos fazer algo sobre o desmatamento no Brasil, então a meta de 1,5 C provavelmente está fora de alcance”, diz Jake Schmidt, diretor estratégico sênior para o clima do Conselho de Defesa de Recursos Naturais.

Na cúpula do clima de Joe Biden em abril, Bolsonaro fez um bom jogo, comprometendo-se a acabar com o desmatamento ilegal até 2030. Ele também adiou a data para se tornar neutro em carbono de 2060 para 2050 e prometeu dobrar o orçamento para fazer cumprir as proteções da floresta. Mas, de acordo com várias fontes e relatos publicados, o ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, deixou o acordo mais explícito nas negociações de bastidores com os EUA e outros países: Pague-nos US $ 1 bilhão e vamos reduzir o desmatamento em 40% por um ano.

“É extorsão”, argumenta Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório Brasileiro do Clima, aliança de 63 organizações da sociedade civil. “Bolsonaro e sua equipe estão dizendo: ‘Se você não nos der o dinheiro, não sabemos o que acontecerá com a Amazônia.’ Todo mundo sabe que Bolsonaro não está interessado no clima. Ele só está interessado em usar o clima para extorquir dinheiro para usar para si e para seus amigos. ”

A floresta amazônica existe há 55 milhões de anos e é uma das regiões mais complexas biologicamente do mundo, abrigando um décimo de todas as espécies de plantas e animais vivas. Toda a bacia amazônica inclui oito países sul-americanos, mas o Brasil detém cerca de dois terços dela.

Globalmente, cerca de 480.000 km2 de florestas tropicais foram perdidas entre 2013 e 2019 – isso é o equivalente a derrubar mais de cinco Manhattans todos os dias durante sete anos. Cerca de um quarto dessa destruição aconteceu no Brasil, e foi quase inteiramente impulsionado pela agricultura comercial, que no Brasil é principalmente gado e plantações de soja.

Mas chamá-la de “agricultura comercial” é um exagero. No Brasil, quase todo esse desmatamento acontece ilegalmente, por colonos com motosserras e tratores que apenas desmatam, vendem a madeira e passam a criar gado ou soja. Como afirma Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, instituto brasileiro de pesquisas que promove o desenvolvimento sustentável, “O desmatamento não tem relação com o crescimento econômico. É apenas crime organizado. ”

E é um crime com implicações cada vez mais terríveis não só para os brasileiros, mas para todo o planeta. Por um lado, as florestas tropicais, com sua biodiversidade impressionante, são um provável berço de novos patógenos perigosos. Cortar as florestas tropicais é uma boa maneira de liberar esses patógenos e, talvez, desencadear uma nova pandemia.

Por outro lado, o desmatamento desenfreado corre o risco de transformar a floresta tropical de um sumidouro de carbono em uma fonte de carbono (conforme as árvores crescem, elas absorvem CO2 e armazenam carbono; quando morrem, esse carbono armazenado é liberado). Também pode desencadear um colapso maior de todo o ecossistema da floresta tropical. As florestas tropicais criam seus próprios sistemas climáticos, incluindo a precipitação. À medida que o tamanho da floresta tropical diminui, ela prolonga a estação seca da floresta, provocando um aquecimento e secagem ainda maiores, matando árvores na floresta próxima ainda intacta e, eventualmente, fazendo com que todo o ecossistema passe da floresta tropical para a savana. Tal colapso alteraria drasticamente os padrões climáticos em todo o hemisfério sul e aceleraria o caos climático de maneiras que mesmo os ativistas climáticos mais condenados prefeririam não imaginar.

O ponto crítico para tal colapso na Amazônia é entre 20 e 25 por cento do desmatamento, de acordo com um estudo. No momento, 15 a 17 por cento da floresta já foi derrubada. “Se você exceder o limite”, disse Carlos Nobre, um especialista brasileiro em clima e florestas tropicais, “50 a 60 por cento da floresta poderia ser extirpada em três a cinco décadas”.

O desmatamento em grande escala começou no Brasil na década de 1970 com políticas governamentais que encorajaram o assentamento e continuou desimpedido pelos próximos 20 anos. Entre 1978 e 2001, a quantidade de terras desmatadas quadruplicou. No geral, a população da Amazônia aumentou de 2,9 milhões em 1960 para 25,5 milhões em 2010. A extração de madeira também prosperou, à medida que a demanda por mogno e outras madeiras nobres na Ásia e na Europa disparou na década de 1990.

Em 2000, os danos do desmatamento estavam causando protestos entre os ativistas, e as autoridades brasileiras entraram em ação. Parques nacionais e reservas indígenas foram criados, e essas proteções foram rigorosamente aplicadas com um serviço florestal robusto e orçamento. Entre 2002 e 2016, a taxa de desmatamento caiu drasticamente. “Estávamos controlando tudo”, diz Astrini. Em seu pico, o Brasil provavelmente reduziu as emissões em mais de 1,3 gigatoneladas de CO2 por ano. Em comparação, em seu melhor ano, os EUA, o Japão e a UE juntos reduziram as emissões em menos de um quarto disso.

Mas quando Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, esse progresso terminou. Sua coalizão vencedora de nacionalistas de direita e centristas pró-desenvolvimento não deu a mínima para a mudança climática. Ele imediatamente cortou orçamentos para monitoramento e fiscalização na Amazônia. “Bolsonaro disse basicamente: ‘Estamos abertos para negócios’”, diz Schmidt do NRDC. “’Se vocês querem desmatar, não vamos fazer qualquer fiscalização sobre isso.’ ”

Menos de um ano após a posse de Bolsonaro, a Amazônia explodiu em chamas. Mais de 3.500 milhas quadradas da floresta tropical queimadas, escurecendo os céus em São Paulo e chamando a atenção internacional para a destruição da floresta tropical sob a supervisão de Bolsonaro. Bolsonaro culpou as ONGs, que estavam tentando “trazer problemas para o Brasil”. O presidente francês Emmanuel Macron chamou as políticas de desmatamento de Bolsonaro de “ecocídio” e tuitou: “Nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. ”

Bolsonaro não se arrependeu, dizendo a Macron e a todos os outros que se esquivassem: “A Amazônia é nossa, não sua”.

Presidente do Brasil Jair Bolsonaro fala durante o lançamento do Programa "Adote 1 Parque", no Palácio do Planalto, em Brasília, em 9 de fevereiro de 2021. - O programa visa a contribuição de empresas privadas para a manutenção de parques nacionais de preservação ambiental.  (Foto de EVARISTO SA / AFP) (Foto de EVARISTO SA / AFP via Getty Images)

Depois de assumir o cargo, Bolsonaro cortou orçamentos para monitorar a fiscalização da preservação na Amazônia.. Evaristo Sa / AFP / Getty Images

Agora, com tanto em jogo na próxima reunião da COP26, ou seja, as negociações sobre mudança climática da ONU programadas para novembro deste ano, a questão é o que fazer com as demandas de extorsão da floresta tropical de Bolsonaro. Qualquer esperança de atingir a meta de 1,5 C depende de frear drasticamente o desmatamento no Brasil. Mas qualquer esperança de frear drasticamente o desmatamento depende da ação de Bolsonaro. E por ser bandido, a única maneira de fazer isso é pagando-lhe (ou, se preferir, pagando à nação do Brasil, o que dá no mesmo).

Esta não é uma ideia nova. O Fundo Verde para o Clima, por exemplo, que as nações ricas do mundo prometeram financiar a um nível de US $ 100 bilhões por ano, é expressamente projetado para pagar às nações mais pobres para que façam coisas que evitarão as emissões de CO2. O Fundo Amazônia, que nações desenvolvidas criaram para salvar a floresta tropical, gastou mais de US $ 500 milhões em projetos para prevenir e combater o desmatamento (a Noruega foi o maior contribuinte até cortar o financiamento em resposta à política de corte e queima de Bolsonaro). Na campanha eleitoral no ano passado, Biden chegou ao ponto de prometer que mobilizaria as nações para pagar ao Brasil US $ 20 bilhões para impedir que o país sul-americano destruísse a floresta tropical.

Do ponto de vista do Bolsonaro, o problema é que todo esse dinheiro vem com restrições. Requer supervisão, envolvimento do cidadão, transparência na contabilidade. Bolsonaro quer usá-lo para o que quiser, diz Astrini, “incluindo pagar seus amigos e apoiadores”.

Portanto, este é o dilema agora. Biden e os líderes da UE estão fazendo um grande esforço em direção à COP26, na esperança de demonstrar que o fantasma de Trump se foi e que o mundo está finalmente levando a sério a crise climática. Será impossível fazer isso se o Brasil não estiver a bordo – e Bolsonaro, é claro, sabe disso, o que lhe dá muita margem de manobra nas negociações.

ONGs brasileiras e outros têm escrito cartas à Casa Branca, dizendo a Biden para não confiar em uma palavra que Bolsonaro diz. “Estamos sendo informados de que os EUA estão basicamente caindo em uma armadilha com o Brasil”, diz Alden Meyer, um analista de política climática de longa data que agora trabalha no E3G, um grupo de estudos sobre mudança climática. “Estamos sendo informados de que ele está assumindo compromissos que não tem intenção de cumprir, e que eles não teriam os tipos de estruturas para garantir o bom uso dos fundos, mesmo que fossem comprometidos.”

Em vez de ceder ao Bolsonaro, a Casa Branca e outros que estão envolvidos nas negociações climáticas estão tentando essencialmente cortar Bolsonaro e sua equipe fora das negociações. Ou pelo menos neutralize-os. Isso significa tentar criar incentivos para os governos estaduais no Brasil que estão empenhados em limitar o desmatamento, bem como encontrar novas maneiras de aplicar pressão econômica.

Uma ferramenta é a ação do consumidor. “Os produtos associados ao desmatamento estão se tornando diamantes de sangue”, diz Schmidt. “Cada vez mais, as pessoas não querem ter nada a ver com eles.” A UE propôs uma série de restrições à importação de produtos derivados do desmatamento, e restrições semelhantes estão em andamento em vários estados, incluindo Nova York e Califórnia.

Outra nova proposta é uma iniciativa de parceria público-privada de US $ 1 bilhão chamada de Coalizão de Redução de Emissões pela Aceleração de Financiamento Florestal, ou LEAF. O esforço, que foi anunciado na cúpula do clima de Biden, envolveria grandes empresas como Amazon, Salesforce e GlaxoSmithKline. Eles comprariam créditos de redução de emissões de projetos florestais em países ao redor do mundo – essencialmente pagando aos países para manter suas florestas saudáveis.

“Nosso kit de ferramentas nas últimas duas décadas tem sido investir muito dinheiro em problemas climáticos e tentar convencer os governos a seguir em frente”, disse Schmidt. “Agora, nosso kit de ferramentas consiste em cenouras e palitos. Temos atores corporativos, atores subnacionais. Existem muito mais opções para tentar impulsionar a mudança do que há alguns anos atrás. ”

A dinâmica política no Brasil também está mudando rapidamente. O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Salles, está sendo investigado por uma série de crimes relacionados à exportação de milhares de carregamentos de madeira ilegal. O filho mais velho de Bolsonaro, Flavio, eleito para o Senado no mesmo ano em que seu pai conquistou a presidência, foi acusado de corrupção e lavagem de dinheiro por roubo de dinheiro público. Outros membros da família, incluindo a esposa de Bolsonaro, também foram implicados em vários negócios financeiros desagradáveis.

A popularidade de Bolsonaro também está em rápido declínio, impulsionada por seu tratamento desastroso da pandemia de Covid (ele a chamou de “uma pequena gripe”), que contribuiu para a morte de quase meio milhão de brasileiros. A raiva e as divisões políticas estão crescendo. Em maio, mineiros selvagens abriram fogo com armas automáticas contra uma reserva indígena Yanomami na Amazônia (cinco pessoas morreram, incluindo duas crianças que se afogaram ao tentar fugir). A fome está aumentando. No final de maio, dezenas de milhares de brasileiros foram às ruas para exigir o impeachment de Bolsonaro.

Com a eleição presidencial se aproximando em 2022, muitos ativistas brasileiros do clima abandonaram a esperança de influenciar Bolsonaro e já estão olhando para uma nova liderança. “Estamos tentando trabalhar com a sociedade civil – bancos, agronegócios, lideranças indígenas, universidades – para saber como fazer o Brasil passar de pária a líder”, diz Astrini. “Estamos cruzando o deserto agora – mas os desertos têm um fim.”

Mas, como o reinado criminoso de Bolsonaro deixou tudo muito claro, as florestas tropicais também o fazem.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “Rolling Stone” [Aqui!]