Com algum atraso e uma leve discrepância com o que foi apurado pelo Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski, o jornal Folha de São Paulo publicou hoje uma matériaassinada pela jornalista Alexa Salomão que aponta para o ritmo relativamente alto de aprovações de agrotóxicos do governo Lula que se equivale ao que ocorreu durante o período de Jair Bolsonaro.
Mas segundo a matéria da Folha de São Paulo, mais do que o número de agrotóxicos liberados (ver figura abaixo), o que marca até aqui o processo de aprovação de agrotóxicos pelo ministério da Agricultura comandado pelo ruralista Carlos Fávaro é a manutenção dos ditames do Decreto 10.833/2021 pelo meio do qual o governo Bolsonaro rebaixou gravamente os critérios de liberação destes venenos agrícolas.
Alexão Salomão notou ainda em sua matéria algo que já vem sendo observado por mim que é a predominância de produtos genéricos ou formulações adaptadas com genéricos, muitos deles já banidos em outras partes do mundo por causa da sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.
Nesse sentido, Salomão explicitou ainda a flagrante contradição resultante das novas definições de risco adotadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) durante o governo Bolsonaro. É que dos 232 agrotóxicos liberados em 2023 pelo governo Lula, apenas cinco produtos foram destacados com gradações diferentes dentro de “altamente tóxico” para saúde humana, enquanto que em relação ao meio ambiente apenas dois foram catalogados como”altamente perigoso”, e 47, “muito perigoso”. É preciso lembrar que se os mesmos princípios ativos fossem classificados de acordo com a legislação anterior, tais números seriam muito mais altos.
O fato explicitado de forma objetiva por esta matéria é que o governo Lula, ao contrário do que havia sido prometido, está mantendo o nível de aprovações de agrotóxicos semelhante ao que foi praticado por Jair Bolsonaro e, pior, muito acima do que foi praticado nas gestões anteriores de Lula e e Dilma Rousseff. O pior é que estando o Pacote do Veneno em análise no Senado Federal, mantida a posição atual do governo Lula de tacitamente apoiar a entrada de mais agrotóxicos no já inflacionado mercado brasileiro, a chance é de que padrões ainda mais flexíveis sejam transformados em lei.
E tudo isso para quê? À primeira vista para favorecer o despejo de produtos indesejados na Europa e favorecer as demandas cada vez mais intensas pelo uso de agrotóxicos nas monoculturas de exportação como desejam os grandes latifundiários que controlam a produção de grãos no Brasil. Para o resto de nós, o que fica é o aumento exponencial dos riscos decorrentes da exposição direta ou indireta a estes potentes venenos agrícolas.
Países da região investem em óleo e gás, na contramão da meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius. Mas pelo menos há alguma resistência: sociedade do Equador conseguiu um plebiscito sobre exploração na Amazônia
Plataforma petrolífera no parque do Yasuni, na Amazônia equatoriana. País terá plebiscito sobre seguir explorando ou não um dos blocos da região. Foto: Rodrigo Buendia/AFP
Por Priscila Pacheco para o Observatório do Clima
Os equatorianos vão às urnas no dia 20 de agosto para votar em presidente, vice-presidente e parlamentares. As eleições antecipadas foram convocadas em maio após Guillermo Lasso, o atual mandatário, dissolver a Assembleia Nacional diante de um processo de impeachment. Na mesma data, os eleitores também vão votar em um plebiscito inédito, que decidirá se a exploração de petróleo numa zona ambientalmente sensível da Amazônia deve ser paralisada.
A realização do plebiscito põe fim a uma reivindicação judicial da sociedade civil que já dura dez anos sobre o Parque Nacional Yasuní, uma joia da biodiversidade amazônica, ocupado por povos indígenas. O caso do parque é apenas um exemplo de como países da América Latina ainda resistem a abrir mão dos combustíveis fósseis. Um argumento recorrente é que a exploração é importante para as economias e a independência energética. Só se esqueceram de combinar com o planeta.
De acordo com aAgência Internacional de Energia (AIE), o mundo não poderá autorizar mais nenhum projeto fóssil se quiser ter a chance de manter o aquecimento global em 1,5 graus Celsius, como preconiza o Acordo de Paris. Dos EUA ao mundo árabe, da Noruega à Rússia, todos os grandes produtores de óleo e gás estão ignorando solenemente a agência e aumentando sua produção. Os países da América Latina, com uma exceção, estão mergulhando no mesmo poço.
A região tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo (19,5%) e só fica atrás do Oriente Médio (47,8%), de acordo com relatório do Sistema de Informação Energética da América Latina e Caribe (sieLAC). Brasil, Argentina e Guiana são apontados como os países que vão liderar a produção na região. O Brasil, por exemplo, apresenta uma taxa de crescimento de 3,9% entre 2012 e 2022 na produção de óleo cru, segundo o relatórioWorld Energy 2023. A Argentina tem uma taxa de 0,6% no mesmo período. Já a Guiana teve reservas de petróleo descobertas recentemente.
Chantagem
O Equador explora combustíveis fósseis há 51 anos, e a maioria de suas reservas está na Amazônia. O Parque Nacional Yasuní, com 10 mil quilômetros quadrados, fica na região e abriga milhares de espécies de árvores e animais.
No ano 2000, ambientalistas denunciaram petroleiras por estarem causando danos ambientais ao parque. Anos depois, organizações sociaismanifestaram preocupaçãopelo fato de a brasileira Petrobras ter obtido uma licença para explorar um bloco no local – a autorização foi posteriormente suspensa pelo próprio Equador. Em 2019, o povo Waorani conseguiu barrar na Justiçaa exploração de um dos blocos de petróleo.
Em 2007, o então presidente, Rafael Correa, apresentou um plano para evitar a extração de petróleo nos campos do Yasuní. A iniciativa consistia em criar um fundo, com o auxílio dos países ricos, no valor de 3,6 milhões de dólares para compensar o país por não explorar a área. O movimento foi visto como chantagem do Equador na COP-13, a Conferência do Clima de Bali, naquele mesmo ano, e a quantia estabelecida não foi alcançada. Em 2013, Correaencerrou o programacom o argumento de que o mundo havia falhado com o país.
A manobra seguinte do presidente foi conseguir uma autorização do Congresso Nacional equatoriano para a exploração na área. “AConstituição[do Equador] proíbe a exploração em parques nacionais, a não ser que seja declarada de interesse nacional. Para isso tem que passar pelo Parlamento, e, no Parlamento, Correa tinha a maioria”, explica Juan Crespo, coordenador de pesquisas na aliança de organizações indígenas Cuencas Sagradas Amazónicas.
Povo Waorani e Membros do Grupo Yasunidos em uma manifestação em Quito contrária à exploração petrolífera no Parque Yasuní. Foto: Rodrigo Buendia/AFP
Diante da reviravolta, surgiu o coletivo Yasunidos, que iniciou uma campanha de assinaturas ainda em 2013 para convocar uma consulta à população a fim de que ela decidisse se um dos blocos do parque poderia ou não ser explorado. Depois de uma série de problemas, entre eles a rejeição das assinaturas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a disputa foi parar na Corte Constitucional do Equador. Somente em maio deste ano foi reconhecido o direito de realizar o plebiscito. No meio desse conflito, a extração de petróleo começou em um dos campos do chamado Bloco 43, o Tiputini, em 2016.
Se a maioria dos eleitores responder “sim” para o fim da exploração, a estatal Petroecuador terá um ano para sair do bloco – o quarto maior do país em extração de petróleo e cuja produção representa 15% do total nacional. O Equador, porém, ainda continuará extraindo petróleo de outros blocos. Mesmo assim, Crespo acredita que a suspensão da exploração será uma grande vitória. “O fato de haver um país, por menor que seja, que pode conseguir isso em um processo democrático, o que para mim é muito simbólico, acho que pode estimular a replicação de alguma forma em outros países”, diz.
Ilan Zugman, diretor para a América Latina da organização ambiental 350.org, ressalta a força de um movimento popular para conseguir realizar o plebiscito, mas observa que uma mudança mais robusta em relação aos combustíveis fósseis vai depender de quem for eleito presidente do Equador.
A Amazônia brasileira em risco
A saga da Amazônia não está restrita ao Equador. No Brasil, a carioca Eneva, uma operadora privada de gás natural, inaugurou, em setembro de 2021, a Unidade de Tratamento de Gás Azulão, entre as cidades de Silves e Itapiranga, no Amazonas. A área está próxima de terras do povo Mura. O cacique Jonas Mura relatou ao siteInfoAmazoniaque os animais para caça e peixes começaram a fugir após o início das atividades da empresa.
O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão do governo estadual, liberou a licença de instalação para a Eneva em 2019. A de operação veio em 2021. No entanto, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), documento essencial para o processo de licenciamento, é de 2013 e foi feito pela Petrobras, antiga dona do campo. Em maio último, a Justiça Federaldo Amazonas havia suspendido as licenças por causa de denúncias sobre falhas no licenciamento e falta de consulta a indígenas. Poucos dias depois, porém, a empresa conseguiu reverter a liminar para voltar a operar.
Longe dali, mas ainda na Amazônia, a encrenca é com a Petrobras. Em maio, o Ibama negou uma licença ambientalà empresa para procurar petróleo na bacia da foz do Amazonas, no litoral do Amapá. O parecer técnicoque embasou a decisão da entidade mostra que o estudo apresentado pela Petrobras não constatou todos os impactos ambientais do empreendimento, não contemplou a mitigação adequada de possíveis consequências do vazamento de óleo sobre a fauna marinha e não previu ações de monitoramento da costa. A chamada margem equatorial, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte e é vista como uma nova fronteira para a exploração de petróleo, tem atiçado a ambição do Brasil de elevar sua posição no ranking dos maiores produtores de combustíveis fósseis do mundo – o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), quer que o país salte da nona para a quarta posição. No Plano Estratégico 2023-2027 da Petrobras estão previstos 64 bilhões de dólares para exploração e produção, dos quais 3 bilhões de dólares se destinam à margem equatorial. Silveira diz que a região pode ser o novo pré-sal e que não tem sentido a Guiana estar atraindo investimentos e riquezas enquanto o Brasil fica parado.
A Guiana, citada pelo ministro de Minas e Energia, teve, em 2015, reservas descobertas pela americana ExxonMobil que contam com 11 bilhões de barris e podem colocar o país entre os maiores produtores do mundo. A exploração ainda é exclusiva da Exxon, mas em junho a canadense CGX Energy anunciou ter descoberto mais petróleo em águas profundas guianenses. Além disso, a Guiana vai leiloar blocos exploratórios, o que deve aumentar o número de empresas na região. APetrobras não descartaa possibilidade de participar do leilão caso não consiga a licença para explorar o bloco 59 da margem equatorial.
De olho na vizinhança, a Petrobras estuda retomar investimentos na Venezuela, dona das maiores reservas de gás e petróleo da América Latina. A estatal brasileira também tem a intenção de voltar a investir na Bolíviapara obter gás natural, já que a produção do país tem caído tanto que em 2015 o então presidente, Evo Morales, aprovou um decreto que permite sua exploração em áreas de proteção ambiental. Em abril, sob o comando do presidente Luís Arce, aBolívia anunciou um plano de investimento para a execução de 18 projetos de exploração de combustíveis fósseis, o que inclui a extração de petróleo em áreas que estão localizadas na Amazônia.
“A Bolívia tem decidido ampliar a sua fronteira petroleira e flexibilizar normas ambientais e sociais. Além disso, tem incluído a Amazônia como zona de exploração”, lamenta Jorge Campanini, pesquisador do Centro de Documentação e Informação da Bolívia (Cedib), que destaca o fato de o país não ter projetos efetivos para a transição energética. Campanini lembra que a Bolívia deve perder mais mercado por causa das grandes reservas em Vaca Muerta, na vizinha Argentina.
Fraturando a Patagônia
Argentina: área de resíduos tóxicos derivados de fracking, técnica que injeta químicos no solo para a retirada de combustível. Foto: Greenpeace
Vaca Muerta é uma formação geológica que ocupa áreas nas províncias de La Pampa, Mendoza, Rio Negro e Neuquén, na Patagônia. Conforme o governo argentino,é a segunda maior reserva do mundo de gás e a quarta de petróleo não convencionais, chamados assim porque o combustível está alojado em pequenos poros de rochas, em vez de em um reservatório, o que impede que a extração seja feita por perfuração. O governo diz que o gás fóssil dessa região garantirá aos argentinos “energia abundante e limpa”, além de afirmar que está mudando a realidade energética do país.
Para explorar as reservas de Vaca Muerta, é preciso recorrer ao fraturamento hidráulico, ou fracking, técnica que consiste na injeção de grandes quantidades de água, areia e químicos para romper a rocha e fazer com que o combustível chegue à superfície. “O fracking precisa de mais energia que o método de extração convencional”, explica Juan Antonio Acacio, pesquisador no Instituto de Pesquisas em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade Nacional de La Plata.
O maior esforço do governo argentino, diz Acacio, tem sido promover a ideia de que o gás natural é importante para a transição. O Plano Nacional de Transição Energética para 2030, publicado em maio pelo governo, reforça o uso do gás natural como fonte de energia. Decretosde 2020 e 2022 também são favoráveis a esse combustível.
O Peru usa o mesmo argumento para finalizar as obras do Sistema Integrado de Transporte de Gás. Umrelatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) publicado em 2021, porém, mostra que é falha a tese segundo a qual o gás natural poderia ser uma ponte para a transição porque sua combustão emite menos gás carbônico que a do carvão. A expansão do fornecimento de gás pode atrasar a descarbonização, segundo o relatório, já que o vazamento de metanodurante sua produção costuma ser subestimado. Apesar de sua quantidade na atmosfera ser pequena em comparação com a de CO2, o metano é 28 vezes mais poderoso na retenção de calor.
Em julho de 2023, a Argentina inaugurou o primeiro trecho de um gasoduto para transportar a produção de Vaca Muerta – o Brasil pode vir a ser um financiador do segundo trecho. “Mais do que pensar em gasoduto, seria bom pensar em políticas regionais para a transição energética”, opina Acacio. Outro país interessado em bancar o projeto é a China.
‘Autossuficiência’ para poluir
O México é outro país que trabalha para a manutenção da indústria de combustíveis fósseis. “Não há plano de médio e longo prazo para reduzir e retirar os combustíveis da economia. A prioridade do governo tem sido reduzir as importações de combustíveis fósseis”, comenta o mexicano José Maria Valenzuela, pesquisador no Instituto de Ciência, Inovação e Sociedade, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
O presidente Andrés Manuel López Obrador exaltou, numaentrevista em março, o “resgate da indústria petroleira” para a construção de um caminho para a autossuficiência energética. O México é o segundo maior produtor de petróleo da América Latina, mas importa quase 80% do combustível. O plano da gestão de López Obrador é aumentar a produção e transformá-la em gasolina e diesel dentro do próprio país até 2024. Para cumprir o projeto, o governo reabilitou seis refinarias, comprou a Deer Park, nos Estados Unidos, e construiu uma refinaria em Dos Bocas, no estado de Tabasco.
Perfuração de petróleo em águas profundas no México, a 100 Quilômetros da costa do estado de Veracruz. Foto: Prometeo Lucero/Greenpeace
Para Sandra Letícia Guzmán Luna, fundadora e diretora do Grupo de Financiamento Climático para América Latina e Caribe (GFLAC), o país poderia investir em uma transição energética, mas prefere manter uma fonte contaminante. “Há possibilidade de investimento, mas isso só acontecerá quando tivermos uma visão de longo prazo e entendermos a complexidade da crise climática, que esse governo simplesmente não entende”, diz.
A empresa que lidera os projetos do governo é a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), uma instituição suscetível a acidentes. A última tragédia ocorreu em 7 de julho, quando uma plataforma de gás natural onde havia mais de 300 trabalhadores explodiu em Campeche. Ao menos dois morreram e cinco foram feridos.
Apesar de o governo investir para que a Pemex domine a indústria de combustíveis fósseis, petroleiras internacionais continuam comcontratos no país. Aitaliana Eni, por exemplo, que está no México desde 2006, anunciou em março a descoberta de uma reserva em águas profundas da bacia do Sureste com estimativa de ter 200 milhões de barris de petróleo.
Já a canadense TC Energy está planejando aconstrução de um gasoduto com 770 quilômetros que irá do Texas, nos EUA, a Veracruz, no México. O país é omaior importador de gás natural dos Estados Unidos e com esse novo gasoduto a expectativa é que as importações aumentem 40%.
Outra aposta do México é o carvão mineral, o combustível fóssil mais poluente. Apesar de não ser o maior produtor de carvão da América Latina, o México foi o maior emissor de CO2 no ano passado pelo fato de usá-lo, segundo o relatório World Energy 2023. Em 2020, a Comissão Federal de Eletricidade (CFE)anunciouque até o fim de 2021 compraria 2 milhões de toneladas de carvão principalmente de micro e pequenos produtores. Em 2022, a CFE disseque a aquisição de carvão havia sido um sucesso e que ampliaria o programa até 2024.
A CFE exalta o sucesso do programa, mas não relata os problemas. Em agosto do ano passado, deztrabalhadores morreram ao ficar presos em uma mina localizada em Sabinas, no estado de Coahuila. Eles trabalhavam em um poço a 60 metros de profundidade quando um jato de água subterrânea amoleceu as paredes. Outros cinco foram resgatados e sobreviveram.
Familiares dos dez trabalhadores que morreram presos em uma mina localizada em Sabinas, no México. Foto: Pedro Pardo/AFP
O México é o14º maior emissor do planeta, com 1,35% do total. No entanto, isso não isenta o país de mudar sua matriz energética. Para Valenzuela, o México precisa ter uma política efetiva para não expandir o setor de combustíveis fósseis e o carvão poderia ser o primeiro a ser eliminado por responder por menos de 10% da matriz energética. “Priorizar os investimentos em outros setores faz com que esse vá ficando menor”, afirma.
Petro na contramão do negacionismo
Gustavo Petro assumiu a Presidência da Colômbia em agosto de 2022 com um discurso ambientalista. Em fevereiro, opresidente apresentou um Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) com destaque para o meio ambiente em que uma das propostas era não permitir novas concessões para a exploração de carvão em grande escala e a céu aberto. A medida, entretanto, foi considerada frágil por ambientalistas porque manteria as concessões em vigor. Mesmo aguada, ela foi derrubada pelo Congresso. Apesar das críticas, o plano tem artigos que incentivam o desenvolvimento da bioeconomia, a diversificação produtiva em distritos mineiros e investimentos em hidrogênio verde, além de outras ações para diminuir as emissões de gases poluentes.
O presidente colombiano também conseguiu que oSenado aprovasse umprojeto de leicontra o fracking, mas enfrenta aoposiçãode senadores. O uso da técnica foi paralisado pela Ecopetrol, empresa colombiana cujo maior acionista é o governo, ainda em setembro do ano passado por causa da discussão sobre o projeto de lei. A empresa também não está extraindo combustível com fracking em operações fora do país.
Mina de carvão na Colômbia; país é dos poucos no subcontinente em que o presidente, Gustavo Petro, tem discurso ambientalista e em defesa da transição energética. Foto: Tenenhaus
Petro continua crítico ao carvão e ressaltou em um discurso em junho que a expansão desse combustível fóssil não tem sentido econômico nem ambiental. Álvaro Pardo, presidente da Agência Nacional de Mineração, já havia destacado que a Colômbia quer superar a dependência econômica dos combustíveis fósseis e fazer uma transição energética socialmente justa, cobrando ajuda internacional.
Cobrança essa que vem sendo repetida por Petro: no início do ano, ele provocou os países ricos ao propor que dívidas externas fossem trocadas por serviços ambientais efetivos para enfrentar a emergência climática e em junho elesugeriu a criação de um fundo financeiro internacional para o combate às mudanças climáticas. Há ainda o plano de a Colômbia participar de uma aliançaem que países fazem doações ou empréstimos para que outros avancem na transição energética.
“Ainda não há muitas coisas concretas, mas estamos vendo o esforço [da Colômbia]. Está indo além do discurso. Tem coisas que estão acontecendo, mas no tempo do país”, diz Ilan Zugman, o diretor para a América Latina da 350.org, destacando que o desafio da Colômbia é grande, pois a economia do país ainda é muito dependente dos combustíveis fósseis. Por fim, Petro pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que refletisse sobre a exploração de combustíveis fósseis naAmazôniaem um encontro no início de julho de 2023 em Leticia, cidade colombiana na fronteira com o Brasil. “Vamos deixar que os hidrocarbonetos sejam explorados na selva amazônica?”, perguntou. Lula desconversou.
Revisão ortográfica (português): Elvira Gago Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson Edição de fotografia: Mariana Greif Montagem da página: Érica Saboya
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal Sumaúma [Aqui!].
Conversamos com o professor do Departamento de Química da UFPR sobre os estudos que coordena com o objetivo de entender pontos de encontro e desencontro entre o ciclo do ferro e o combate da crise climática
Marco Tadeu Grassi adiantou na SBPC informações sobre os estudos do ciclo biogeoquímico no mar da Baía do Almirantado, na Antártica. Foto: Leo Bettinelli/Sucom-UFPR
Por Camile Bropp para o Ciência UFPR
Entre os ciclos biogeoquímicos essenciais para o meio ambiente, o do ferro talvez seja o menos conhecido. Apesar disso, é um tema relevante entre as questões relacionadas à emergência climática desde o fim da década de 1990. Isso porque a quantidade de ferro nos mares é um fator determinante na população de fitoplâncton, o conjunto de microalgas e cianobactérias que, por fazerem fotossíntese, ajudam a retirar dióxido de carbono da atmosfera, para a qual liberam oxigênio. Por conta dessa dinâmica, muitas teses têm sido formuladas — algumas polêmicas — a respeito de qual papel o ferro poderia ter em planos de mitigação da crise climática.
Uma das linhas de pesquisa do Grupo de Química Ambiental (GQA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) trata de investigar aspectos do ciclo biogeoquímico do ferro nos mares da Antártica. A escolha tem sua razão de ser, isto é, o fato de o antártico ser ainda um ecossistema com poucas interferências — apesar dos pesares.
“Como estamos falando de uma região bastante remota, é pouco provável que o ferro disponível no oceano austral venha de outras regiões do planeta, sendo ele próprio a principal fonte de ferro, majoritariamente”, afirma o professor Marco Tadeu Grassi, coordenador do grupo no Departamento de Química da UFPR.
Grassi coordena outro projeto de pesquisa que busca estudar o comportamento biogeoquímico do ferro no Complexo Estuarino de Paranaguá, região no litoral do Paraná com áreas de Mata Atlântica, baías e manguezais. O objetivo é avaliar a influência das mudanças climáticas sobre os sistemas naturais por meio do que se percebe nos ciclos do ferro e do cobre.
Agora, a intenção é entender o que ocorre na Baía do Almirantado, localidade onde estão a maioria das estações de pesquisa na Antártica.
Nesta quarta-feira (26), das 9h30 às 11 horas, Grassi adianta informações sobre os estudos na Antártica na sua conferência pela 75ª Reunião Anual da SBPC no Anfiteatro 12 do Setor de Ciências Biológicas da UFPR, no Centro Politécnico, em Curitiba (veja aquia programação científica completa).
O que a Antártica significa para estudos do meio ambiente? Cientificamente, ela representa mais do que um continente inóspito e distante?
A Antártica é muito importante para estudos sobre o meio ambiente. Pelas suas características peculiares, que incluem condições climáticas extremas e baixíssimas temperaturas, toda a região permanece bastante preservada, uma vez que o território é o único continente não habitado do nosso planeta.
Fitoplâncton é a comunidade de microalgas e cianobactérias que fazem fotossíntese nos mares e oceanos. Na foto, colônia de diatomáceas do gênero Thalassiosira registradas no mar da Antártica. Foto: Luca Santangeli/EMBL Heidelberg/Commons
Por conta destas características o continente tem uma importância enorme na compreensão de toda a história do planeta, assim como de inúmeros fenômenos que ocorrem na natureza.
Por exemplo, sabemos hoje que a região funciona como um “refrigerador” que ajuda a regular a temperatura da Terra. Foi na Antártica que se detectou pela primeira vez o buraco na camada de ozônio. Além disso, o espesso manto de gelo que existe sobre a placa continental aprisiona microbolhas de ar que guardam um registro histórico sobre a composição e as características da atmosfera terrestre.
A região da Baía do Almirantado tem alguma particularidade que a faz ser tão pesquisada?
A Península Antártica, onde se encontra a Baía do Almirantado, abriga uma variedade de pássaros e mamíferos. Como dito antes, a região pode ser considerada uma das poucas áreas relativamente preservadas do nosso planeta.
Ela é constituída de sistemas ecológicos sensíveis a mudanças ambientais ocorridas tanto em escala local quanto global, principalmente aquelas relacionadas às mudanças climáticas.
Nesse sentido, alterações na quantidade de gelo marinho, no aporte de material proveniente das áreas continentais, decorrentes do aquecimento global, podem provocar mudanças envolvendo constituintes importantes de todo este ecossistema subantártico.
Na baía encontram-se cinco estações científicas de diferentes países, incluindo a estação de pesquisa brasileira. Nas proximidades localizam-se também quase uma dezena de outras estações de pesquisa.
Devido a estes aspectos, entre outros, a Baía do Almirantado desperta um grande interesse na comunidade científica que trabalha na Antártica, representando praticamente um laboratório onde diferentes projetos acabam sendo desenvolvidos.
O que a biogeoquímica do ferro é capaz de apontar sobre a situação ambiental de um lugar? Existe diferença, em termos de conclusões a que se pode chegar, entre medir esse ciclo na água e no solo?
Apesar de ser um dos elementos mais abundantes na crosta terrestre e de ser encontrado em grandes quantidades nos constituintes minerais do solo, o ferro é o micronutriente limitante da fotossíntese em águas marinhas, onde suas concentrações são extremamente baixas.
É sua disponibilidade que determina a extensão da produção e do crescimento de microalgas, que representam a base de toda a cadeia alimentar nos oceanos. A fotossíntese também é importante na fixação de dióxido de carbono, um dos principais gases do chamado efeito estufa.
Como estamos falando de uma região bastante remota, é pouco provável que o ferro disponível no oceano austral venha de outras regiões do planeta, sendo ele próprio a principal fonte de ferro, majoritariamente.
No caso do mar da Antártica, por quais mudanças ele tem passado quanto ao ciclo biogeoquímico estudado? O que isso significa?
Como o mar se congela durante o inverno, acredita-se que este oceano congelado possa ser a fonte dominante de ferro para as águas polares quando ocorre o derretimento do gelo, nos períodos mais quentes. Este processo contribui com a fertilização das águas da região, impulsionando a chamada “bomba biológica”, a partir da fotossíntese.
Nesse contexto, nossos estudos têm como objetivo aprofundar o conhecimento sobre como todo esse processo ocorre, de forma a elucidar questões relacionadas com as fontes de ferro, assim como seu comportamento e papel no crescimento da comunidade fitoplanctônica, na medida em que estes organismos acabam contribuindo com a presença de outras substâncias químicas que são essenciais para todo o ecossistema antártico.
Este registro é importante também dado que toda a região subantártica tem se mostrado bastante sensível ao aumento de temperatura global, fator que pode gerar um desequilíbrio nos ecossistemas da região.
Ficará algum alerta da sua conferência?
O principal alerta da conferência está relacionado à necessidade urgente da adoção de medidas que visem a mitigação dos efeitos provocados pelo aquecimento global.
Nesse sentido, está mais do que evidente que alterações provocadas pelas mudanças climáticas podem ter consequência bastante graves não apenas para os ecossistemas subantárticos, como também para outras regiões, em especial para os países do Atlântico Sul, como é o caso do Brasil.
Esta entrevista faz parte de uma série de conversas da Ciência UFPR com conferencistas da Universidade Federal do Paraná que estão na programação da 75ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Curitiba.
O site especializado Agrolink divulgou hoje o resultado de uma pesquisa indicando que os gastos com agrotóxicos nas monoculturas de soja na safra 2022-2023 teriam alcançado estratosféricos US$ 11,4 bilhões (algo em torno de R$ 54,84 bilhões na cotação de hoje). Esse valor representaria uma elevação de 50% em relação à safra 2021-2022.
O Agrolink confirmou ainda algo conhecido que é o fato de que a parte substancial dos gastos com agrotóxicos no Brasil está concentrada em três monoculturas de exportação que são, respectivamente, soja, milho e cana-de-açúcar. Tal informação apenas reafirma o impacto das monoculturas de exportação sobre o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil.
Por outro lado, os dados indicam que os maiores gastos estão concentrados nos herbicidas, sendo que este tipo de agrotóxicos representa 60% dos gastos realizados pelos agricultores, com forte participação de diferentes formulações de glifosato. Esse é um fato particularmente significativo, na medida em que o glifosato tem sido associado ao desenvolvimento de um tipo específico de câncer pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (IARC), o chamado Linfoma de Non-Hodgkin.
O fato é que para além do enorme custo financeiro dos agrotóxicos, haveria que se considerar os impactos sociais e ambientais causados pela forte dependência das monoculturas de exportação em relação a este tipo de venenos agrícolas.
Dez pessoas foram mortas em favela do Rio e 19 pessoas morreram na Bahia, enquanto o número de mortos subiu para 16 na região de São Paulo
Policiais militares realizam operação contra o tráfico de drogas em favelas da zona norte da cidade, em outubro de 2022. Foto: Agência Anadolu/Getty Images
Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”
Pelo menos 45 pessoas foram mortas em uma série de operações policiais em três estados brasileiros, em uma semana particularmente sangrenta até mesmo para o Brasil – um paísnotório por sua violência policial.
Dez pessoas foram mortas durante uma operação das polícias civil e militar contra traficantes de drogas na favela do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro , na manhã desta quarta-feira, com moradores afirmando que os tiros começaram às 3h.
No estado da Bahia,19 pessoas morreram entre sexta e segunda-feira em confrontos com a polícia militar na capital do estado, Salvador, e nas cidades vizinhas de Camaçari e Itatim.
A Bahia e o Rio de Janeiro abrigam a segunda e terceira forças policiais mais letais do Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Enquanto isso, as autoridades estaduais de São Paulo confirmaram na quarta-feira que o número de mortos em uma operação policial em andamento na região da Baixada Santistasubiu para 16, tornando esta uma das operações mais mortais já realizadas pela polícia de São Paulo.
Batizada de Operação Escudo, a mobilização de cerca de 600 policiais foi motivada pelo assassinato, na última quinta-feira, de um policial no Guarujá. Um último suspeito de envolvimento na morte de Patrick Bastos Reis, integrante da unidade tática Rota da Polícia Militar, foi preso na madrugada desta quarta-feira. A polícia diz ter prendido 58 pessoas até agora e apreendido 400 quilos de entorpecentes, além de 18 armas.
Organizações de direitos humanos denunciaram as ações da polícia na Baixada Santista como um massacre motivado por vingança, enquanto moradores relataram ameaças e casos de tortura.
“O que aconteceu no Guarujá foi um massacre. As mortes foram deliberadas. […] O estado de São Paulo precisa conter essa onda de violência”, disse Dimitri Sales, presidente do conselho estadual de defesa dos direitos humanos (Condepe), à emissora GloboNews.
O governador do estado, Tarcísio de Freitas, defendeu a polícia, dizendo que agiu em resposta a ataques de criminosos e descartando relatos de abusos como uma “narrativa”. A Operação Escudo, supostamente um esforço para combater o narcotráfico na região, deve durar até o final de agosto.
A alegação das autoridades de que todas as vítimas são supostos criminosos que morreram em confrontos com a polícia foi contestada por especialistas em direitos humanos e segurança, que exigem que as ações da polícia sejam cuidadosamente examinadas.
“É extremamente preocupante que o governador e o secretário de segurança declarem que não houve abusos [dos direitos humanos] antes mesmo de uma investigação ser realizada … [Isso] é efetivamente um endosso de práticas arbitrárias”, disse Oscar Vilhena, advogado e membro do Comissão Arns, uma organização de direitos humanos.
As forças policiais militares estaduais do Brasil são notoriamente violentas e muito mais mortais do que suas contrapartes civis. A volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em janeiro despertou a esperança de uma reforma, mas especialistas em segurança pública dizem queum projeto de lei recentemente aprovado por uma comissão do Senado não tratará de questões cruciais de segurança pública, como câmeras corporais policiais.
Em São Paulo, o uso de câmeras corporais pela polícia militar tem sido amplamente creditado por ajudar a reduzir a violência cometida por e contra a força. Mas os assassinatos cometidos pela polícia de São Paulo aumentaram sob Tarcísio Freitas , um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro que adota um discurso de segurança linha-dura e questionou a política de câmeras corporais.
Os últimos assassinatos podem marcar um “ponto de inflexão” para a segurança pública no maior estado do Brasil, de acordo com David Marques, coordenador do projeto no Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Essa mudança está ligada a um discurso político que valoriza [a violência], que diz que a polícia deve usar a violência para controlar a violência e o crime organizado”, afirmou.
Este artigo escrito originalmenteem inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Os presidentes que se reunirão nos dias 8 e 9 de agosto em Belém (PA) na Cúpula Amazônica – 4a Reunião dos Chefes de Estado das Partes do Tratado de Cooperação Amazônica – têm por missão chegar a uma visão comum de desenvolvimento sustentável para os povos que habitam o bioma. Para quase 300 líderes e especialistas de mais de 100 organizações dos nove países da Pan Amazônia, isso não é possível sem colocar a bioeconomia no centro de um novo modelo de desenvolvimento para a região.
“A floresta amazônica está perigosamente perto de seu ponto de colapso. Em algumas regiões, ela já se degradou. Ainda estamos em tempo de impedir a imensa perda de biodiversidade que isso acarretaria e promover as economias lideradas pelas comunidades, que são os atores principais de sua conservação. A próxima década será crucial para a sobrevivência – ou não – da floresta e do modo de vida e cultura de seus povos”, alerta Rachel Biderman, Vice-presidente Sênior para as Américas da Conservation International.
A rota para a implementação e fortalecimento da bioeconomia na Pan-Amazônia foi desenvolvida por um grupo de mais de 300 especialistas, que se reuniram em Belém no final de junho. Eles chegaram a um roteiro com nove eixos de ação, subdivididos em 31 recomendações, que foram entregues aos ministros presentes no encontro preparatório realizado em Letícia, na Colômbia. A expectativa agora é que a bioeconomia faça parte das metas estabelecidas pelo documento da Cúpula de Belém e venha a ser fortalecida com investimentos concretos dos nove países do bioma, onde vivem mais de 47 milhões de pessoas.
“A bioeconomia é a chave para desbloquear o potencial econômico da região, preservando seu patrimônio ecológico e, como tal, precisa estar no centro de qualquer plano de desenvolvimento sustentável e inclusivo da Amazônia. Precisamos preservar a Amazônia não só pelas consequências de uma eventual perda, mas também pelo que ela pode oferecer permanecendo viva”, explica Vanessa Pérez, Diretora Global de Economia do World Resources Institute.
O programa de trabalho proposto engloba uma série de elementos essenciais destinados a aproveitar o potencial da bioeconomia para salvaguardar a Amazônia e seus povos:
Estabelecer um compromisso conjunto para conservar a floresta amazônica: a declaração insta os governos participantes a se unirem e se comprometerem a conservar pelo menos 80% da floresta amazônica, reconhecendo sua importância para a estabilidade climática global e suas contribuições vitais para o bem-estar das comunidades.
Promover a bioeconomia como forma de proteger a Amazônia: evidências recentes destacam o potencial da economia como uma ferramenta poderosa para salvar a Amazônia e, ao mesmo tempo, fortalecer os meios de subsistência A conferência pede a priorização de práticas bioeconômicas sustentáveis como a pedra angular dos esforços de conservação ambiental.
Combater atividades ilícitas e aplicação do Estado de Direito: para garantir a viabilidade da bioeconomia, a conferência enfatiza a necessidade de os governos intensificarem os esforços para erradicar todas as atividades ilícitas na Amazônia. Fortalecer a repressão aos crimes contra a natureza e defender o estado de direito são passos cruciais para alcançar esse objetivo.
Proteger as terras dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: preservar a rica biodiversidade da Amazônia e as áreas ricas em carbono depende da proteção e respeito às terras dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A salvaguarda destes territórios é essencial para o património ecológico único da região.
Mudar as finanças públicas para incentivar uma bioeconomia próspera: os participantes da conferência pedem aos governos que redirecionem as finanças públicas para longe dos subsídios nocivos e priorizem incentivos que promovam cadeias de valor de bioeconomia prósperas e Essa transformação é vista como essencial para o crescimento sustentável do setor bioeconômico.
Reduzir requisitos legais desnecessários para as cadeias de suprimento da bioeconomia local: para facilitar o crescimento das cadeias de suprimento da bioeconomia local, a conferência pede que os governos adaptem e reduzam os requisitos legais desnecessários. Isso criará um ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo na região.
Tornar obrigatórias a transparência e a rastreabilidade de commodities para garantir que sejam livres de desmatamento: para combater o desmatamento, a conferência defende a implementação de medidas de transparência e rastreabilidade na produção e comércio de commodities. Isso ajudará a identificar e mitigar práticas que contribuem para a destruição da Amazônia.
Estabelecer uma plataforma de financiamento da bioeconomia Pan-Amazônica: os especialistas propõem a criação de uma Plataforma Ad-hoc de Financiamento da Bioeconomia Pan-Amazônica que priorize investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Essa plataforma impulsionará a pesquisa, o desenvolvimento e a implementação de iniciativas bioeconômicas sustentáveis.
Investir em infraestrutura sustentável e revitalizar rios: ao investir em infraestrutura sustentável, a conferência visa transformar as cidades da Amazônia em polos de inovação para a bioeconomia. Além disso, a restauração dos rios contribuirá para o equilíbrio ecológico e apoiará o desenvolvimento sustentável.
“A floresta amazônica está perigosamente perto de seu ponto de colapso. Em algumas regiões, ela já se degradou. Ainda estamos em tempo de impedir a imensa perda de biodiversidade que isso acarretaria e promover as economias lideradas pelas comunidades que são os atores principais de sua conservação. A próxima década será crucial para a sobrevivência – ou não – da floresta e do modo de vida e cultura de seus povos”, alerta Rachel Biderman, da Conservation International.
Os organizadores e participantes da conferência defendem que os diversos setores da sociedade, em especial as populações da Amazônia, sejam ouvidas e tenham suas necessidades contempladas na
Declaração da Cúpula da Amazônia. “O Programa de Trabalho sobre a Bioeconomia que Queremos não é apenas um slogan: é um chamado à ação para que todas as partes interessadas se unam e abracem um futuro que assegure uma bioeconomia próspera, preservando o inestimável patrimônio natural da floresta amazônica”, declara Vanessa Pérez.]
Sobre a Conferência de Bioeconomia da Panamazônia
A Conferência de Bioeconomia da Panamazônia reúne especialistas, formuladores de políticas e partes interessadas da região amazônica para promover práticas bioeconômicas sustentáveis e inclusivas. A conferência é uma plataforma para troca de conhecimento, discussão de desafios e formulação de soluções acionáveis para proteger a floresta amazônica e seu povo. Para o conjunto completo de recomendações transformadoras apresentadas na Conferência de Bioeconomia da Panamazônia, visite: https://amzbio.org/
Os estados do Pará e do Mato Grosso já concentram mais focos de calor este ano do que em 2022, o que torna o cenário preocupante. O fenômeno provoca alterações na temperatura da superfície do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região(Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real/2020).
Por Wérica Lima para a Amazônia Real
Manaus (AM) – O cenário de queimadas e devastação na Amazônia pode ser mais crítico este ano devido à potência do fenômeno climático El Niño, que provoca alterações na temperatura do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região, dizem cientistas consultados pela Amazônia Real. O momento é preocupante porque os focos de calor de 2023, que somam 12.124 registros até o momento, já superam os de 2022, com uma diferença de 772. Uma das ações de prevenção para grandes desastres naturais é o relançamento do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) pelo governo Lula.
Em julho, começa a estiagem em grande parte da região Norte (com exceção de Roraima), estação conhecida como “verão amazônico”. Até outubro, o volume de chuvas cai drasticamente, resultando em tempo seco, que pode ser agravado com o aquecimento do Pacífico.
O Mato Grosso, um dos Estados mais devastados pelas queimadas desde 2019, continua liderando o primeiro lugar no ranking do Satélite de Referência do BDQueimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde o início do ano até o mês de julho. A região concentra quase metade de todos os focos de calor do ano na Amazônia Legal, com 43,8% de todas as queimadas e um aumento de 20% com relação ao ano passado.
Em segundo lugar no ranking está o Pará, com 25,3% dos focos e, em terceiro, Roraima, um Estado que ganhou destaque nos últimos anos pela grilagem e garimpo e compõe 10,5% de toda a destruição, tomando a posição de anos anteriores do Amazonas, com uma diferença de 0,5%.
“Os Estados da Amazônia onde o número de focos de calor aumentou foram o Pará e o Mato Grosso. No Mato Grosso pode ser que haja uma relação mais próxima entre o desmatamento recente e as queimadas, visto que o estado foi o único onde o desmatamento aumentou comparado com o período anterior. Já no Pará houve uma redução do desmatamento e a área que tem apresentado focos de calor é uma área que aparentemente está queimando mais cedo do que o normal, o que pode indicar um efeito ainda precoce do El Niño”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora da rede colaborativa Mapbiomas Fogo.
O mês de junho registrou 3.075 focos, o que não se via havia 16 anos, desde 2007, no satélite do Inpe. O número representa 20% a mais do que o ano passado e também acende o alerta para estratégias que podem estar sendo desenvolvidas para driblar o governo Lula nas ações de fiscalização.
Conforme os especialistas entrevistados pela Amazônia Real, ainda não há uma explicação exata para que as queimadas estejam maiores do que em 2022 em determinados meses considerados fora do período do fogo, como abril e junho.
Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) (Foto: Ivan Canabrava/ Ipam)
“As queimadas voltaram a preocupar na Amazônia. As causas desse aumento ainda são um pouco inconclusivas, pois um dos principais tipos de queimadas são aquelas utilizadas para finalizar o processo de desmatamento, entretanto, o desmatamento sofreu uma redução importante no primeiro semestre deste ano”, ressalta Ane Alencar.
A redução citada pela pesquisadora, em número, chega a 33,6% nos seis primeiros meses de 2023 em comparação com o mesmo período de 2022, um resultado significativo.
“Pode ser que uma parte dessas queimadas estejam relacionadas com o desmatamento que ocorreu no ano anterior, ou seja, pode ser ainda um legado do governo anterior. Por outro lado, o clima é um fator importante para o alastramento dessas queimadas, gerando incêndios. E no mês de junho foi confirmada a instalação do fenômeno El Niño, que causa seca na Amazônia, principalmente na Amazônia oriental”, afirma a pesquisadora.
Os Estados que Ane Alencar cita como os mais afetados pelo El Niño da Amazônia oriental são Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso. Sem muita surpresa, todos eles estão no ranking com os maiores focos de calor neste mês de julho. Liderando, o Pará encontra-se com 42,1 % dos 3.780 focos da Amazônia Legal somente do mês de julho; em segundo lugar está o Amazonas, com 21,8%; em terceiro, Mato Grosso (19,7%). Nos demais lugares do ranking encontram-se Rondônia (8%), Acre (4%), Maranhão (3,1%), Tocantins (0,8%), Roraima (0,3%) e Amapá (0,1%).
Alberto Setzer, pesquisador titular do Inpe, que atua na Coordenação-geral de Ciências da Terra (CGCT) e já coordenou diversos projetos de monitoramento de queimadas, analisa o aumento.
“Desde o início do ano a Amazônia Legal apresentou 1% a mais de focos do que no ano passado. Para o bioma Amazônia o aumento foi de 10%, já significativo mas não exagerado. Mato Grosso foi o Estado com mais focos em junho, talvez reflexo do período proibitivo de queima, cujo início foi marcado para 1º de julho de 2023, ou seja, uma antecipação das queimas para ficar menos exposto”, ressalta.
Há uma intensa preocupação com os possíveis impactos que o El Niño pode promover. “Anos de El Niño costumam apresentar períodos mais longos sem precipitação e com temperaturas mais altas no sul da Amazônia brasileira, o que facilita o uso e a propagação do fogo na região. A expectativa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, é de 56% de probabilidade de um El Niño forte neste semestre”, explica Setzer.
O grande El Niño
Em 2016, comunidades afetadas pelo El Niño “Godzilla” sofreram com a estiagem no município de Presidente Figueiredo, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).
O cenário para 2023 na Amazônia não é um dos mais favoráveis. A região encontra-se sobre um fenômeno que prolonga o verão e aumenta a temperatura, favorecendo os crimes ambientais e as queimadas. Em 2016, quando o El Niño Godzilla pairou sobre a Amazônia, as taxas de desmatamento e queimadas cresceram em 125% comparadas a anos anteriores, conforme publicado na época pela Amazônia Real. Agora, uma nova onda de calor promovida pelo El Niño, principalmente na região Norte, pode trazer seca e um verão prolongado.
Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o segundo cientista mais citado na área de aquecimento global, fez uma avaliação à reportagemda intensidade do fenômeno este ano.
“O aquecimento no Oceano Pacífico é forte e também está ocorrendo cedo no ano, indicando um grande impacto. A temperatura da superfície do mar está bem acima do normal em uma faixa que se estende praticamente de um lado ao outro do Pacífico na região equatorial. As grandes ondas de calor ocorrendo neste momento na Europa e na América do Norte são consistentes com um El Niño forte”, afirmou.
Conforme o cientista, apesar do El Niño ser um fenômeno natural, que ocorre há milhares de anos e resulta no aquecimento da superfície da água do Oceano Pacífico perto da linha do Equador, ele está aumentando em frequência devido às emissões de gases acima da média emitida pelos humanos.
Na Europa, as ondas de calor estão se espalhando, fazendo as temperaturas chegarem a 40 graus. Um gráfico da Noaa publicado nos últimos dias revela que a mais alta temperatura já registrada no Atlântico Norte em 41 anos, entre 1982 a 2023, é a deste mês de julho de 2023.
Ao ouvir especialistas, o jornal The Guardiannoticiouque “mais de 90% do calor extra causado pela adição de gases de efeito estufa à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento foi absorvido pelo oceano”, o que tem ocasionado altas temperaturas.
Referente aos impactos no Brasil, Fearnside prevê que o fenômeno deve impactar toda a Amazônia. “A Amazônia fica mais quente e mais seca. Isto leva a morte de árvores em pé pela combinação seca e calor, sendo que qualquer planta precisa de mais água se a temperatura aumenta. Também leva a incêndios florestais, que matam mais árvores. As secas de El Niño normalmente afetam mais a parte norte da Amazônia, Roraima sendo o lugar mais famoso para incêndios florestais. No entanto, às vezes as secas se estendem até a parte sudoeste da região, como ocorreu em 2015, quando houve grandes incêndios no Acre”.
Cadastro rural e o fogoBrigadista combate chamas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/2020)
O equivalente a 60% do desmatamento de junho de 2023 ocorreu nas áreas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), o que aponta para uma temporada de fogo conduzida não por grileiros, mas por fazendeiros. Os dados são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).
Para Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, o governo federal está debruçado na análise do aumento de queimadas e ainda não conseguiu achar uma resposta. Ele ressalta, porém, o papel da matéria orgânica das áreas desmatadas anteriormente por fazendeiros.
Além disso, Astrini afirma que existem situações facilitadoras para que as queimadas estejam crescendo, principalmente o curto tempo que o governo Lula tem para que haja implementação das ações de combate e governança na região da Amazônia.
“Até agora eles [órgãos federais] têm tentado restabelecer essa governança, estão com problemas porque as agências de fiscalização sofreram sabotagem nos últimos anos, mas estão sendo recuperadas, estão atuando. Portanto, o que a gente pode esperar é que o governo, com as forças que tem, com as possibilidades que tem hoje, faça uma atuação para diminuir as queimadas e o desmatamento”, acrescenta.
Ele demonstra preocupação com as ações dos governos estaduais da Amazônia, que ao longo dos últimos anos adotaram agendas antiambientais. Astrini cita como exemplo o governador de Roraima, Antônio Denarium, que contribuiu com a situação do garimpo no estado ao autorizar o uso do mercúrio e as situações políticas vividas no estado de Rondônia, onde houve tentativa de acabar com as unidades de conservação.
“Os governadores precisam agora mostrar na prática que desejam mudar e realmente atuar contra as queimadas e a favor da floresta, mas infelizmente a gente não vê isso de forma clara, ostensiva ou tendo esperanças aí de que esses governadores vão se mobilizar, o que é torna ainda mais difícil qualquer batalha para proteção da Amazônia, porque o aparato dos Estados, principalmente a força policial, é fundamental para complementar a força do governo federal no combate ao crime”, complementa.
Fumaça das queimadasFumaça provocada pelas queimadas encobre a cidade de Novo Progresso, Pará, em 2022 (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2022)
Anualmente, os incêndios e impacto das fumaças chegam até as cidades. A temporada do fogo é um cenário que se repete, aumenta o número de doenças respiratórias, mas ainda não tem ação concreta de mitigação por parte dos estados da Amazônia. Como exemplo, no último ano a fumaça chegou nas áreas urbanas de Novo Progresso e Altamira, no Pará, e Manaus, no Amazonas.
Ane Alencar acredita que com o relançamento do PPCDam, os governos têm incentivos para trabalharem seus planos de controle do desmatamento e queimadas, ou, no mínimo, para reativar os planos nesta temporada.
Criado em 2004, o PPCDAm foi o principal responsável pela queda de 83% do desmatamento até 2012, segundo dados do Inpe. Com a revogação do PPCDAm em 2019 e o desmonte dos órgãos ambientais no governo Bolsonaro, o desmatamento atingiu a marca de 13 mil km² em 2021, o que não ocorria desde 2006. Isso afastou o país das metas estabelecidas em acordos internacionais.
A quinta fase do plano estabelece a meta de desmatamento zero até 2030, a partir de quatro eixos temáticos: atividades produtivas sustentáveis; monitoramento e controle ambiental; ordenamento fundiário e territorial; e instrumentos normativos e econômicos voltados à redução do desmatamento e à efetivação das ações abrangidas pelos demais eixos.
“Entretanto, a temporada do fogo está aí, no mínimo tanto o governo federal quanto os governos estaduais já deveriam estar com campanhas prontas para a redução do uso do fogo e para prevenção, porque eu acho que isso ajuda bastante, principalmente num contexto onde o clima está bastante favorável para ocorrência de incêndios”, ressalta a pesquisadora, que também frisa o papel do engajamento da sociedade no tema.
A respeito da governança e fogo nos estados, A Amazônia Real procurou todas as secretarias de meio ambiente dos nove estados da Amazônia Legal para coletar informações sobre preparo para a temporada de fogo e monitoramento, mas obteve baixo retorno, indicando uma possível falta de organização e preparo nos estados.
Apenas quatro estados retornaram até a publicação desta reportagem. No Mato Grosso (MT), a secretaria respondeu que o investimento para combater e prevenir queimadas chegou a R$ 38 milhões e que o Plano de Operações da Temporada de Incêndios Florestais (POTIF) prevê a implantação de 81 instrumentos de resposta, composto por 25 unidades do Corpo de Bombeiros, 29 Brigadas Estaduais Mistas, 17 Brigadas Municipais Mistas, sete bases descentralizadas de Bombeiro Militar e quatro equipes de intervenção e apoio operacional.
A respeito do monitoramento, a Secretaria de Meio Ambiente informou que possui quatro equipamentos para monitorar a qualidade do ar na capital Cuiabá. Elas são responsáveis por avaliar a concentração de gases poluentes e material particulado na atmosfera.
No Amazonas, a secretaria informou apenas que a primeira fase da Operação Aceiro 2023 começou para combater incêndios florestais no sul do Amazonas. É composta por 74 bombeiros militares e 10 viaturas com destino aos municípios de Humaitá, Apuí, Boca do Acre, Lábrea e Manicoré. Não houve respostas às demais perguntas sobre monitoramento da qualidade do ar, que até 2022 não possuía equipamentos.
Já no Maranhão, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais informou que 25 municípios estão dentro do plano de combate às queimadas com foco nos municípios mais atingidos e tem feito monitoramento de queimadas e emissão de boletins de monitoramento de focos de calor.
Com relação ao monitoramento da qualidade do ar, afirmou que possui seis estações de monitoramento em São Luís e nos demais municípios o controle da qualidade do ar é realizado através de relatórios de automonitoramento enviados por empreendimentos licenciados pelas secretarias locais.
À Amazônia Real, a Secretaria do Meio Ambiente de Rondônia, umestado devastado pelo agronegócio, não respondeu aos questionamentos sobre monitoramento, mas informou que “vem desenvolvendo atividades como campanhas de educação ambiental nas escolas, pit stop de educação e conscientização ambiental, intensificação na fiscalização, divulgação nas redes sociais, palestras com o tema risco de queimadas, além do WhatsApp de denúncias”.
As secretarias dos Estados do Pará, Tocantins, Acre, Amapá e Roraima não responderam às perguntas enviadas pela Amazônia Real.
Este texto foi publicado originalmente pela Amazônia Real [Aqui!].
Parar a perda de empregos e conhecimento de pequenos produtores requer investir na sustentabilidade rural, abordar a pobreza e a desigualdade e garantir que os ganhos econômicos permaneçam locais. Os benefícios seriam compartilhados globalmente
O manejo comunitário da pesca do pirarucu ( Arapaima gigas ) na Amazônia salvou a espécie da beira da extinção. Crédito: Ricardo Oliveira/AFP via Getty
Por Eduardo S. Brondizio , Stacey A. Giroux , Júlia CD Valliant , Jordan Blekking , Stephanie Dickinson e Beate Henschel para Nature
Avançar nas metas acordadas internacionalmente para o desenvolvimento sustentável, mudança climática e biodiversidade exigirá grandes mudanças na forma como os alimentos do mundo são produzidos e distribuídos 1 . Em 2021, o Banco Mundial estimou que os atuais sistemas alimentares representam US$ 12 trilhões em custos sociais, econômicos e ambientais ocultos 2 .
Nas últimas décadas, surgiram iniciativas globais para começar a fazer essas mudanças. E estão surgindo oportunidades para enfrentar a pobreza, a desigualdade e outros problemas sociais juntamente com as crises do clima e da biodiversidade, em parte graças ao aumento do interesse em tornar a produção de alimentos menos destrutiva do meio ambiente e mais sustentável. Os avanços tecnológicos também podem melhorar as condições de trabalho e aumentar a produção e o acesso ao mercado para pequenos e médios produtores de alimentos.
No entanto, fazer com que essas iniciativas funcionem em escala significa reverter uma tendência que muitas pessoas veem como uma consequência inevitável da modernidade e do progresso: o movimento de milhões de pessoas das regiões rurais para as cidades ou suas periferias.
Dados de emprego da Organização Internacional do Trabalho, uma agência das Nações Unidas, mostram que, nos últimos 30 anos, cerca de 200 milhões de empregos na produção de alimentos foram perdidos globalmente (consulte ‘O declínio dos empregos na produção de alimentos’). De acordo com nossa análise, o ritmo atual pode acelerar, resultando na perda de pelo menos mais 120 milhões de empregos até 2030 — principalmente em países de baixa e média renda (LMICs; consulte informações complementares). Esse declínio global maciço no emprego contribuiu para a destruição de famílias e comunidades em todos os países de baixa e média renda, à medida que milhões de pessoas se mudam para áreas urbanas 3 , um processo que está sendo intensificado pelas mudanças climáticas 4. Após a migração dentro e entre os países, muitas pessoas que acabam em ambientes urbanos ou periurbanos vivem de forma mais precária do que antes — sem emprego e sem serviços básicos, como moradia5 . Eo conhecimento intergeracional está desaparecendo : sobre a biodiversidade usada por agricultores, pescadores, pastores, administradores florestais e de espécies selvagens; das tecnologias de produção de alimentos; e sobre como gerenciar o ambiente 6 .
Fonte: OIT
Parar essa tendência requer três grandes mudanças. Primeiro, governos e organizações não-governamentais precisam investir em infraestrutura básica e serviços públicos (escolas, transporte, tecnologias digitais e assim por diante) nas áreas rurais e indígenas. Eles também devem ajudar a reformular as narrativas amplamente difundidas que consideram os produtores de alimentos de pequena e média escala como tendo valor limitado. Em segundo lugar, mais iniciativas internacionais e nacionais para tornar a produção de alimentos mais resiliente e biodiversa devem abordar os problemas sociais ao lado dos ambientais. Em terceiro lugar, os benefícios econômicos da produção de alimentos devem ser trazidos para mais perto de onde esses alimentos são cultivados.
Para serem eficazes, as iniciativas precisam considerar os direitos inerentes de diversas comunidades indígenas e rurais, respeitar e aproveitar os conhecimentos e tecnologias indígenas e locais e ser lideradas por essas comunidades. Eles também precisam reconhecer o papel e as aspirações dos jovens como agentes ativos na promoção de oportunidades atraentes de emprego na economia alimentar 7 , 8. Talvez de forma mais crucial, suposições arraigadas decorrentes de teorias acadêmicas desenvolvidas nos séculos XIX e XX e mantidas em todo o mundo devem ser desafiadas. Isso inclui as ideias de que a produção de alimentos indígenas e de pequena escala e os sistemas de gerenciamento de recursos não são importantes para alimentar a população mundial e que a perda de empregos nas áreas rurais e indígenas é uma consequência inevitável e necessária de países que se tornam modernos e eficientes.
Pequeno mas poderoso
Embora a maioria dos estudiosos, formuladores de políticas e governos concentrem sua atenção quase inteiramente em operações que produzem commodities para exportação, ascontribuições dos sistemas de produção de alimentos indígenas, de pequenos proprietários e familiares são consideráveis. Mais de 866 milhões de pessoas apoiam famílias e comunidades trabalhando na agricultura, pesca, pecuária, manejo florestal e outros sistemas de produção de alimentos de pequena a média escala. Isso representa 26% da força de trabalho globalmente e mais de 80% disso em alguns países, como Burundi. Cerca de 89% dessas pessoas vivem em áreas rurais e territórios indígenas, e quase 500 milhões de indígenas administram mais de um quarto da superfície terrestre global.
As pequenas fazendas (aquelas com menos de 2 hectares) sozinhas fornecem cerca de 35% do suprimento global de alimentos e uma parcela muito maior na América Latina, África subsaariana e sul e leste da Ásia9. Enquanto isso, a pesca artesanal gera até 110 milhões de empregos, segundo algumas estimativas (consulte go.nature.com/478xt9g ). Isso é mais do que o total combinado da pesca industrial, produção de petróleo e gás, navegação e turismo10 .
Um pequeno proprietário colhe uma safra de pimentas no sul do Egito. Crédito: Khaled Desouki/AFP via Getty
Apesar de sua importância, milhões de pequenos e médios produtores de alimentos em todo o mundo enfrentam imensos desafios. Dificuldades em obter empréstimos bancários ou acessar mercados criam obstáculos financeiros significativos, e muitas vezes carecem de assistência técnica e acesso a maquinário básico, tecnologia e infraestrutura logística. Seus conhecimentos, práticas e técnicas são muitas vezes desconsiderados e estigmatizados em políticas e programas de desenvolvimento. Onde as pessoas estão tentando produzir alimentos ao lado de vastas fazendas de commodities, até mesmo o acesso a recursos básicos, como água e ar limpos, pode não ser confiável .
Pequenos e médios produtores de alimentos estão entre os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas 11; além disso, este grupo inclui 65% das pessoas do mundo que vivem em extrema pobreza. Pequenos agricultores e grupos indígenas, em particular, são frequentemente pressionados pelas indústrias de commodities a vender suas terras e podem ser expostos à violência em seus esforços para proteger seus territórios e recursos contra grilagem de terras e água, extração ilegal de madeira, mineração, pesca ou caça. Eles sãovulneráveis aos preços dos alimentos ditados por atores poderosos em cadeias de abastecimento altamente consolidadas. Eles também carecem da proteção da legislação trabalhista e de direitos sociais, como benefícios previdenciários e seguro-saúde.
Em muitas regiões, o trabalho dos produtores rurais e indígenas e a propriedade da terra ou das águas que utilizam não são formalmente reconhecidos. Mesmo localmente, o trabalho de produção de alimentos não é respeitado ou valorizado, principalmente para mulheres e meninas 12. Essa invisibilidade se reflete em muitas estatísticas nacionais, embora avaliações mais abrangentes estejam começando a surgir. No Brasil, por exemplo, os censos agropecuários contabilizando a contribuição da produção agrícola familiar de alimentos começaram em 2006.
Mudando mentalidades e narrativas
Desde o final do século XIX, as teorias acadêmicas sobre a evolução social e as transformações estruturais econômicas previram o desaparecimento inexorável dos pequenos proprietários, trabalhadores agrícolas e povos indígenas do mundo, e sua eventual incorporação às sociedades urbanas. Essas ideias continuam a informar políticas e atitudes sociais negativas em relação às áreas rurais e indígenas. No entanto, a narrativa dominante – de que as pessoas deixam as áreas rurais para adotar a vida urbana moderna e que a produção de alimentos indígenas e de pequena escala inevitavelmente desaparecerá à medida que os funcionários se mudarem para empregos na indústria – não resiste ao escrutínio.
Sem surpresa, os desafios que descrevemos desencorajam muitos de se envolverem na produção de alimentos nas áreas rurais, principalmente os jovens. Mas em muitos lugares, a maioria dos empregos perdidos na produção de alimentos não está sendo substituída por empregos na indústria ou nos serviços. O emprego na indústria permaneceu constante nas últimas três décadas, e as oportunidades em serviços variam significativamente por região, deixando centenas de milhares de jovens desempregados e dependentes do trabalho informal, principalmente nos países de baixa e média renda 3, 8 , 13.
No entanto, as opiniões dos pequenos e médios produtores de alimentos contam uma história diferente.
Quatro de nós (ESB, SAG, JCDV e JB) trabalhamos com pequenos produtores de alimentos no Brasil, Estados Unidos, Zâmbia, Quênia e Itália, e com comunidades rurais e organizações indígenas na Amazônia 14e internacionalmente1. Nosso trabalho — junto com as avaliações de outros — nos convenceu de que o que leva as pessoas a deixar as regiões rurais não é a atração da vida na cidade em si, mas a falta de oportunidade de melhorar a situação onde vivem. Muitas pessoas querem voltar para suas terras indígenas e rurais ou não querem sair. Muitas vezes, eles precisam se mudar, porque não conseguem acesso à tecnologia, infraestrutura, educação e serviços básicos que lhes permitiriam produzir alimentos de forma mais criativa e lucrativa, com menos mão de obra e com melhor qualidade da vida.
Produtores locais vendem suas colheitas em um mercado de vegetais em Mandalay, Myanmar. Crédito: Gavriel Jecan/VWPics/Redux/eyevine
Em um estudo de 2019 com quase 600 pessoas na zona rural da África do Sul com idades entre 15 e 35 anos, 64% das respostas coletadas foram negativas em relação à agricultura. As pessoas viam isso como um meio de sobrevivência ou um trampolim para algo melhor. Apesar de uma taxa de desemprego de 60%, eles não foram atraídos pelos empregos de baixa qualificação e baixa remuneração disponíveis na agricultura, percebendo um estigma social em relação a esse trabalho. No entanto, 36% viam a agricultura como um caminho potencial e achavam que a agricultura de pequena escala revitalizada poderia ajudar sua comunidade a florescer15 .
Um estudo de 2021 de mais de 100 comunidades ribeirinhas rurais no oeste da Amazônia talvez seja ainda mais revelador. Mostrou que apenas 5% das pessoas engajadas na pesca comunitária lucrativa e socialmente valorizada e no manejo florestal (em reservas de uso sustentável) queriam se mudar para a cidade. Por outro lado, nas comunidades vizinhas que não estavam envolvidas em sistemas de cogestão nessas reservas, 58% expressaram esse desejo 16 . Embora os pescadores lutem contra as pressões dos mercados ilegais e dos preços injustos pagos pelos intermediários, os sistemas comunitários de gestão pesqueira resgataram a maior pesca regional — composta pelo pirarucuespécies – à beira da extinção. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, esses sistemas de gestão atualmente envolvem e apoiam mais de 5.500 pescadores individuais em comunidades ribeirinhas e indígenas.
Poder para as pessoas
Não estamos propondo que a produção de alimentos em pequena escala por si só seja uma solução para os males sociais e ambientais da agricultura e da pesca em grande escala. Mas muitos desses problemas e suas interconexões poderiam ser resolvidos capacitando as pessoas que já estão produzindo uma parcela significativa dos alimentos do mundo para produzi-los de forma mais sustentável, lucrativa e criativa.
Nas últimas duas décadas, as campanhas de comunicação tentaram mudar as narrativas sobre a produção de alimentos, classificando os empregos na agricultura e na pesca como justos, envolventes e recompensadores. Os exemplos incluem a campanha de mídia da França em 2009, ‘Agricultura: trabalho na moda’ e a campanha de Ruanda em 2023 ‘Compre da juventude‘. Mas para conter ou reverter a migração global de pessoas de áreas rurais, essas campanhas devem ser acompanhadas de investimentos governamentais e não governamentais. Estes precisam aumentar o acesso das pessoas ao crédito, tecnologia e mercados, e melhorar os serviços básicos como escolas, saúde, transporte e acesso à água potável. Talvez o mais importante seja que haja uma mudança de mentalidade, de modo que priorizar as necessidades das comunidades produtoras de alimentos – e reconhecer e valorizar suas contribuições – seja normalizado no planejamento nacional e global para o desenvolvimento econômico.
Da mesma forma, um número crescente de mecanismos e compromissos financeiros – de fontes intergovernamentais, governamentais e privadas – estão sendo direcionados para mudar as práticas agrícolas, florestais e pesqueiras. Seu objetivo é tornar a produção de alimentos mais amigável ao clima, resiliente e biodiversa, e promover novas oportunidades econômicas 2. Esses mecanismos somam-se a centenas de esquemas existentespara conservação, restauração, adaptação climática e mitigação. Mas até agora, pouca atenção tem sido dada ao emprego em sistemas alimentares ricos em biodiversidade e resilientes ao clima, ou à importância de também abordar problemas sociais em áreas indígenas e rurais.
Um agricultor carrega uma cesta de açaí colhido na floresta tropical no estado do Pará, Brasil. Crédito: Tarso Sarraf/AFP via Getty
Em princípio, muitos subsídios existentes na agricultura e pesca – estimados em US$ 540 bilhões e US$ 35 bilhões por ano, respectivamente – poderiam ser reconfigurados para encorajar uma produção de alimentos mais sustentável e ajudar a revitalizar comunidades rurais e indígenas 17 ,18 . Pegue a Amazônia. Décadas de subsídios à pecuária no Brasil para impulsionar as exportações de carne bovina continuam a impulsionar a degradação ambiental, a desigualdade e a exploração dos trabalhadores19. Em vez disso, os subsídios poderiam ser direcionados para aumentar o emprego e apoiar as comunidades rurais – com crédito para agricultores, pescadores e gestores florestais vinculados a transições para práticas sustentáveis de produção de alimentos, digamos.
Por fim, os benefícios da produção de alimentos devem ser levados para mais perto dos locais onde esses alimentos são produzidos. Isso pode ser alcançado por meio de acordos de comércio justo, garantindo que os alimentos sejam comprados a um preço justo, permitindo que os produtores vendam diretamente aos consumidores ou fornecendo suporte de crédito para que a indústria local de pequena e média escala possa processar alimentos localmente 20( ver Informações complementares). Todas essas intervenções ajudam a trazer mais benefícios econômicos da produção de alimentos para as comunidades, incluindo a receita de impostos municipais e diversas oportunidades de emprego na fabricação e varejo de alimentos.
Muitos exemplos mostram os possíveis ganhos dessa abordagem. Por exemplo, durante a década de 1950, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) ajudou o Brasil a se tornar um dos maiores exportadores mundiais de pimenta-do-reino (ver http://www.camta.com.br ) . Mas depois que doenças fúngicas dizimaram as monoculturas de pimenta nas décadas de 1970 e 1980, a cooperativa ampliou sua gama de produtos adotando e adaptando sistemas agroflorestais ricos em biodiversidade usados por agricultores indígenas e ribeirinhos da Amazônia e criando uma indústria de processamento local.
A CAMTA fez parceria com organizações governamentais e não governamentais e com a indústria privada para desenvolver produtos, incluindo polpas e óleos de frutas, que são vendidos a clientes que variam de escolas locais a compradores corporativos internacionais. Hoje, a indústria de processamento de alimentos da CAMTA emprega 172 pessoas e produz 5.000 toneladas de frutas tropicais por ano, cultivadas por cerca de 2.000 pequenos e médios agricultores. A CAMTA estima que sua agroindústria gere cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos.
Os consumidores em todo o mundo querem cada vez mais saber mais sobre seus alimentos e as pessoas que os produzem – se os produtos são orgânicos ou de comércio justo, de onde vêm, se estão ligados ao desmatamento e à violação dos direitos indígenas e se envolvem práticas trabalhistas injustas . Permitir a certificação de produtos alimentícios e cadeias de abastecimento de alimentos pode ajudar a aumentar e diversificar o emprego, tornando os produtores mais visíveis para os consumidores e incentivando a produção, processamento, manufatura e varejo locais. Enquanto isso, novas tecnologias que reduzem o trabalho pesado ou fornecem comunicações digitais estão tornando mais fácil para pequenos e médios produtores trazer os benefícios de seus esforços para mais perto de casa17 , 18.
Conter a maré de perda de empregos na produção de alimentos e apoiar sistemas alimentares diversificados e inclusivos não é apenas uma questão econômica. Com 1,2 bilhão de pessoas chegando à idade de trabalhar nesta década, principalmente nos países de baixa e média renda, a falta de oportunidades de emprego ameaça as metas sociais e ambientais acordadas internacionalmente (consulte Informações complementares). Isso inclui os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU acordados internacionalmente e a meta ’30 × 30′ da Convenção sobre Diversidade Biológica para proteger 30% das terras e oceanos da Terra até 2030.
Abordar o problema da perda de empregos na produção de alimentos alcançaria múltiplos objetivos. Mas fazer isso requer melhorar os meios de subsistência das populações rurais e indígenas e reconhecer suas bases de conhecimento e diversas necessidades. Significa limitar a consolidação empresarial e a homogeneização dos sistemas alimentares, revitalizar as economias regionais e avançar no clima, na biodiversidade e nos ODS. Talvez o mais importante, significa garantir que as pessoas tenham um trabalho digno e esperança para o futuro, e que isso se torne uma prioridade para todos.
OIT. Destaque para as estatísticas do trabalho nº 11. Mercados de trabalho rurais e urbanos: diferentes desafios para a promoção do trabalho decente (Organização Internacional do Trabalho, 2020).
Painel de Alto Nível de Especialistas em Segurança Alimentar e Nutrição do Comitê de Segurança Alimentar Mundial. Promover o envolvimento e o emprego dos jovens nos sistemas agrícolas e alimentares (HLPE CFS, 2021).
FIDA. Relatório de Desenvolvimento Rural de 2019: Criando oportunidades para a juventude rural (Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, 2019).
Bezner Kerr, R. et ai . Em Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade. Contribuição do Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (eds Pörtner, H.-O. et al .) 713–906 (Cambridge Univ. Press, 2022).
FAO, PNUD e PNUMA. Uma oportunidade multibilionária: redirecionar o apoio agrícola para transformar os sistemas alimentares (Food & Agriculture Organization, 2021).
Vídeos em que jovens exibem suas compras da gigante chinesa de roupas Shein são populares no TikTok. O varejista levou apenas alguns anos para se tornar um concorrente sério de marcas de fast fashion como Zara e H&M no Ocidente. A Shein copiou seu modelo de negócios e o tornou ainda mais rápido ao produzir roupas ‘sob demanda’. Isso tem ramificações para trabalhadores têxteis, consumidores e meio ambiente.
Por Yara Van Heugten para o “Follow the Money”
‘Na verdade, eu deveria estar muito envergonhada’, Elena disse a seus 29 mil seguidores no TikTok no início de junho. ‘Como você pode ver, eu pedi algumas coisas na Shein.’ Ela diz isso rindo e mostra duas sacolas plásticas brancas da loja virtual chinesa. ‘Vou sair de férias em breve’, explica Elena. Ela comprou seis pares de sandálias, 16 tops, dois macacões, uma saia, dois sutiãs, três colares e um par de brincos. O custo: 400 euros.
O vídeo já foi visto mais de 570 mil vezes e curtido 25 mil vezes. A seção de comentários mostra que o comportamento de compra de Elena não é incomum entre os adolescentes e jovens de 20 e poucos anos que a seguem. ‘Oh meu deus, eu fiz a mesma coisa hoje.’ ‘Se encomendar um valor superior a 180 euros, tem de pagar taxas de serviço, por isso peço sempre em vários lotes.’ ‘Eu pensei que eu era ruim, haha.’
Vídeos em que os jovens desempacotam, personalizam e comentam seus pedidos de Shein (pronuncia-se She-in) são populares no TikTok (#sheinhaul). As centenas de milhares de vídeos de influenciadores formam um fluxo contínuo de publicidade para a marca que foi vista mais de 11,3 bilhões de vezes em todo o mundo. Isso transformou Shein namarca de moda mais pesquisada no Google em 2022 e uma séria concorrente dos titãs da moda rápida H&M e Zara.
Milhares de jovens compartilham suas compras da loja virtual Shein no TikTok (#sheinhaul)
Porque a Shein é ainda mais barata: você compra camisetas e vestidos lá pelo preço de um cappuccino. É mais rápido: a Zara já foi elogiada por seu ciclo de produção de três semanas, mas a Shein inventa, fabrica e vende produtos em menos de uma semana. E produz muito mais. Segundo Sheng Lu, professor associado da Universidade de Delaware, a H&M oferece cerca de 25 mil produtos diferentes anualmente, e a Zara cerca de 35 mil. A Shein vende 1,3 milhão de produtos diferentes no mesmo período. Isso é 40 a 50 vezes mais.
E o modelo ultrarrápido da Shein está funcionando. A varejista chinesa está crescendo rapidamente. Em uma rodada de investimentos em maio de 2023, os investidores avaliaram a Shein em 66 bilhões de dólares – três vezes mais do que o Grupo H&M.
Como funciona a Shein? Como ficou tão grande tão rapidamente? E como o método operacional do varejista afeta as pessoas que fazem as roupas, os consumidores e o meio ambiente?
Um modelo revolucionário
Em 2009, Wang Xiaohu descobriu que seu parceiro de negócios havia desaparecido. Eles administravam um negócio de comércio eletrônico de roupas, eletrônicos, louças e muito mais. Xu Yangtian, mais tarde chamado de Chris Xu, não estava no escritório nem em casa. No ano passado, Wang disse àrevista norte-americana Wired que Xu não atendia o telefone e havia alterado as senhas de suas contas comerciais.
Wang não falou com ele desde então.
Em 2011, ele descobriu que Xu havia aberto uma nova loja virtual de roupas: She Inside , que ele encurtou para Shein em 2015. Xu usou o modelo que eles testaram juntos. Ele não desenhava as roupas sozinho – revolucionário para uma empresa de moda – mas as comprava diretamente dos fornecedores. Apenas pequenas quantidades por item: 100 a 200 peças. A quantidade de compra só era aumentada se um produto vendesse bem.
A empresadisse ao The Wall Street Journal que a Shein ainda usa esse modelo: produzir uma quantidade mínima de itens, aumentar a escala se um produto se mostrar popular. Essa é a razão dos preços extremamente baixos, explicou Shein . ‘Muito pouco de nossa mercadoria não é vendido. É assim que podemos ser tão econômicos.’
Shein evita responsabilidades usando um ‘jogo bizantino de estrutura corporativa’
Há outro motivo, porém: a Shein sabe exatamente o que seu público-alvo deseja. Seja uma tendência circulando no TikTok – como as roupas rosa choque de #bimbocore – ou roupas caras de grife usadas por uma celebridade em uma nova postagem no Instagram, você pode encontrar quase instantaneamente algo semelhante na Shein.
Quando um entrevistador da revista Time perguntou ao vice-presidente David Wang no início de julho como a Shein sabe o que os clientes querem, ele respondeu : ‘Se você é um consumidor que passa muito tempo navegando, descobrindo e refletindo, basicamente você está projetando. É basicamente análise de comportamento, e então você agrega, e isso se torna um padrão.’
Em outras palavras: a Shein acompanha de perto o que seus usuários fazem no aplicativo e na web e deduz disso o que deve fazer. De acordo com os blogueiros de tecnologia Packy McCormick e Matthew Brennan, a empresa combina os dados do aplicativo com os dados de pesquisa do Google e a inspiração que reúne navegando pelos sites concorrentes.
Roubo de design
Enquanto isso, centenas de marcas e artistas afirmam nas redes sociais que a Shein está produzindo cópias idênticas de seus trabalhos e vendendo-as por uma fração do preço. Na semana passada, surgiram as notícias de que a H&M está processando a Shein por roubo de design. A empresa já foi processada pela marca de jeans Levi’s, pela empresa de moda Ralph Lauren e pela marca de calçados Dr Martens.
No início de julho, três estilistas americanos de quem a Shein roubou designs anunciaram um processo contra a empresa. Eles argumentamque, devido ao processo de design baseado em dados da Shein, um padrão de infração criminosa sistemática de propriedade intelectual está embutido no modelo de negócios.
De acordo com os designers, a empresa conseguiu evitar qualquer responsabilidade até agora usando um ‘jogo bizantino de estrutura corporativa’. ‘Como mencionado, a Shein argumenta regularmente que qualquer entidade que está sendo processada não tem acesso às informações mantidas pela empresa responsável pelo design.’
Portanto, os demandantes estão invocando uma lei originalmente projetada para combater o crime organizado (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act, RICO). “Isso pode fornecer os remédios necessários para combater esses erros bem organizados distribuídos por uma série de atores e entidades relacionados”, explicam.
Esta lei permite processar conjuntamente crimes de empresas aparentemente independentes.
Uma série de empresas
De fato, quem tenta desvendar a empresa Shein não pode ignorar o fato de que ela envolve uma série de empresas e que a inter-relação entre elas não é transparente, de modo que nunca fica totalmente claro quem é o responsável.
Quando Xu fundou a She Inside em 2011, ele nomeou a empresa por trás dela como Nanjing Diangshang Information Technology. Em 2015, ele também iniciou a Zoetop Business em Hong Kong, para a qual transferiu os direitos da marca Shein. Em 2017, ele abriu uma nova empresa, Guangzhou Xiyin International Import & Export, para enviar roupas para o exterior.
Há também uma empresa em Cingapura (Roadget Business), uma sede europeia em Dublin (Infinite Styles Ecommerce) e uma empresa de investimentos nas Ilhas Virgens Britânicas: Beauty of Fashion Investment.
A julgar pela página da Shein no LinkedIn, a empresa agora considera a Roadget Business como sua sede. O proprietário final da rede de empresas é uma empresa de investimentos com sede nas Ilhas Cayman chamada Elite Depot.
Isso é conveniente: as empresas chinesas que se registram no exterior evitam o escrutínio rigoroso do governo chinês se quiserem abrir o capital no exterior. E é isso que Shein quer, segundo a agência de notícias Reuters: a empresa quer abrir o capital nos Estados Unidos. Uma vantagem adicional das Ilhas Cayman é que as empresas não precisam pagar impostos sobre seus lucros.
O nome do fundador Xu não aparece em nenhum dos relatórios anuais e estatutos encontrados pela Follow the Money, nem mesmo no relatório anual da sede de Cingapura. Não está claro quem é o dono do Elite Depot.
As pessoas que acessam o app diariamente recebem pontos que podem ser trocados por descontos
A Shein não divulga dados financeiros, mas de acordo com o último relatório anual da Roadget Business, a empresa faturou mais de 5 bilhões de dólares em 2021 e obteve lucro de 220 milhões de dólares. Fontes anônimas disseram ao The Wall Street Journal que um ano depois, em 2022, Shein obteve quase cinco vezes mais receita (23 bilhões de dólares) e quatro vezes mais lucro (800 milhões de dólares). Comparativamente, a Inditex, controladora da H&M e da Zara, faturou 21 e 35 bilhões de dólares em vendas, respectivamente.
Outra coisa chama a atenção no relatório anual europeu. A diferença entre o valor total que a Shein paga a seus fornecedores e a receita que obtém de seus consumidores é de apenas 20%. Isso é surpreendente, já que essa margem é de 53% na H&M e de 57% na Inditex. Isso não apenas explica por que os preços da Shein são tão baixos, mas também por que ela vende seus produtos de forma tão agressiva: para obter um pouco mais de lucro, a empresa precisa vender grandes quantidades adicionais.
Loja virtual x Candy Crush x TikTok
Influenciadores como Elena desempenham um papel importante nesse processo. Eles atraem novos usuários para o aplicativo Shein em troca de roupas grátis e 10 a 20 por cento de comissão. Enquanto estiver nele, o lojista faz de tudo para prender a atenção do usuário. Para pessoas com mais de 30 anos, o aplicativo parece confuso e intrusivo: a loja virtual encontra o Candy Crush e o TikTok.
Há transmissões ao vivo e um canal de vídeo que lembra o TikTok, com um fluxo interminável de videoclipes, e os usuários podem postar fotos de si mesmos usando seus itens favoritos em uma página pessoal.
A Shein entende que quanto mais tempo as pessoas gastam em seu aplicativo, maior a probabilidade de encontrarem algo que desejam. Assim, as pessoas que acessam o app diariamente recebem pontos que podem ser trocados por descontos. ‘Jogar fora’ é impossível, pois Shein adiciona de 5 a 10 mil novos produtos todos os dias.
E se a usuária estiver hesitante, o app a ajuda a tirar suas dúvidas.
Por exemplo, sempre há uma oferta especial que expira em pouco tempo, comentários positivos aparecem abaixo de quase todos os produtos (você ganha pontos por deixar um comentário) e, no checkout, você é incentivado a adicionar um pouco mais às suas compras carrinho: ‘Mais dois euros por um brinde’, ‘Peça mais 20 euros e ganhe 30 por cento de desconto’.
‘Parece que a Shein está encorajando ativamente os jovens a comprar o máximo de merda possível’
Shein não é o único a usar esses truques de sedução. Mas a escala em que a empresa os aplica é. Em setembro de 2022, a ONG suíça Public Eye pesquiou quais truques de sedução quinze varejistas de moda aplicam em suas lojas online. A Shein provouser o líder absoluto: seu aplicativo usa dezoito táticas diferentes. H&M e Zara usam respectivamente seis e quatro.
Marijn Sax, que obteve seu PhD pela Universidade de Amsterdã em um estudo sobre ambientes on-line manipuladores, acha que o aplicativo Shein é muito sofisticado. ‘É sujeira sobre sujeira sobre sujeira. Muitos truques usados por Shein não são explicitamente proibidos, mas como um estudioso da ética, acho a estrutura como um todo muito problemática.’
Sax pesa suas palavras e depois acrescenta: ‘Vamos contar como é: parece que a Shein está encorajando ativamente os jovens a comprar o máximo de merda possível. A influência é permitida, mas torna-se manipulação se os consumidores começarem a fazer escolhas que não fariam de outra forma. A Autoridade para Consumidores e Mercados proíbe isso. Mas judicialmente, algo assim é difícil de comprovar. A Shein alegará que vende produtos que os consumidores provavelmente desejam de qualquer maneira.’
Hotéis caros, champanhe e selfies com funcionários
Em junho deste ano, Shein levou seis influenciadores americanos para a China e Cingapura para uma viagem com todas as despesas pagas. “Muitos de vocês perguntaram mais sobre a Shein, e criamos [a viagem] como uma forma de dar aos nossos clientes uma visão dos bastidores de nossas operações e modelo de negócios sob demanda”, explicou a empresa no Instagram.
As influenciadoras, mulheres de cor ou mulheres de tamanho grande, vlog sobre isso em abundância. Nós as vemos bebendo champanhe na frente do espelho em luxuosos quartos de hotel e em um jantar de dez pratos com os principais executivos da empresa. Em vídeos editados em T, eles compartilham suas opiniões sobre o centro de inovação, sede e fábrica de reluzentes que puderam visitar, localizado a duas horas de Guangzhou.
‘Eu esperava que esta instalação estivesse tão cheia de pessoas trabalhando como escravos’, disse Destene Sudduth a seus 4 milhões de seguidores no Instagram. ‘Mas, na verdade, fiquei agradavelmente surpreso […] Honestamente, todo mundo estava trabalhando normalmente, relaxado, sentado. Eles nem estavam suando. Éramos nós que suamos andando por toda a instalação.
No total, a Shein tem impressionantes 5.400 fornecedores, escreveua empresa em seu primeiro relatório de sustentabilidade no início de 2023. O varejista não divulgou quem são.
Mesmo assim, a influenciadora plus size Dani Carbonari (478 mil seguidores) acreditou em tudo o que a equipe de marketing de Shein estava mostrando para ela: ‘Consegui entrevistar uma mulher que trabalhava no departamento de corte de tecidos, e vocês me conhecem, [sou] uma jornalista investigativa, então fiz a ela todas as nossas perguntas. Ela ficou muito surpresa com todos os rumores que estavam sendo espalhados nos Estados Unidos. Ela me contou sobre sua família, seu estilo de vida, seu trajeto, seus horários. [..] Acho que minha maior lição desta viagem é: seja um pensador independente, obtenha os fatos e veja com seus próprios olhos.’
‘Não quero pensar no que aconteceria se um incêndio começasse lá’
Os ‘rumores’ que Carbonari se refere a se originarem de uma investigação da ONG suíça Public Eye e de um documentário do canal de televisão britânico Channel 4. No final de 2021, a Public Eye localizou dezessete fornecedores Shein nas regiões de Guangdong e Jiangsu. Com a ajuda de um investigador local, eles descobriram que os trabalhadores da Shein trabalham em turnos de até 14 horas por dia. De acordo com a lei chinesa, uma semana de trabalho não pode exceder 40 horas, mas uma semana de trabalho padrão em um fornecedor da Shein é de 75 horas. Não há prêmio de horas extras.
O relatório da investigação inclui fotos das fábricas. Depois de inúmeros acidentes fatais em fábricas de roupas, é impressionante que as fábricas de Shein ainda tenham uma configuração tão insegura. As janelas estão trancadas, não há saídas de emergência e grandes sacolas de roupas e rolos de tecido bloqueiam corredores e escadas. ‘Eu não quero pensar sobre o que aconteceria se um incêndio começasse lá’,disse o investigador que visitou a fábrica ao Public Eye.
Untold , o documentário feito pelo Channel 4 em outubro de 2022, também pintaum quadro diferente das páginas do Instagram dos influenciadores.
Em uma fábrica apertada e escura, um jornalista disfarçado como funcionário corta tecidos em alta velocidade no formato necessário. Se ela for muito devagar, o supervisor grita para ela se apressar. Ela ganha cerca de cinco centavos por hora; se ela cometer um erro, dois terços de seu salário serão descontados.
Uma noite, ela visita a fábrica às três horas. Seus colegas ainda estão no trabalho. ‘Pessoas de classe baixa, que não têm um diploma adequado, não têm escolha a não ser trocar tempo por dinheiro’, explica o trabalhador da produção.
Acredita-se que as pessoas mais abaixo na cadeia de produção da Shein estejam trabalhando em condições ainda piores. A Bloomberg News teve roupas de algodão da Shein testadas em laboratório. A conclusão foi que, com base nas características genéticas, o algodão usado provavelmente veio da região chinesa de Xinjiang. O governo chinês está detendo mais de 1 milhão de uigures em campos de detenção e os forçando a trabalhar, inclusive em plantações de algodão.
Segundo a Shein, a empresa não tem fornecedores em Xinjiang, tem “tolerância zero para trabalho forçado” e respeita os direitos humanos.
As violações dos direitos humanos são uma consequência lógica do modelo de negócios ultrafast fashion de Shein, argumenta Nynke Eggen – sua consultoria, The Sustainability Club, aconselha marcas sobre empreendedorismo responsável. ‘Quando grandes volumes de roupas devem estar prontos alguns dias após serem encomendados, isso leva a grandes cargas de trabalho e horas extras excessivas nas fábricas.’
Ela diz que isso também se aplica ao fornecimento de materiais como o algodão. ‘Uma marca deve fazer pesquisas para saber de onde vêm os materiais e em que condições eles são adquiridos. Você dificilmente pode fazer essa pesquisa com prazos de entrega tão curtos.’
‘Cometi um grande erro’, disse a influenciadora Carbonari em um vídeo ao vivo em seu canal do Instagram uma semana depois de voltar da China. Após a viagem, ela enfrentou duras críticas de seguidores e completos desconhecidos. ‘Eu deveria ter feito mais pesquisas.’ Ela encerrou sua colaboração com Shein.
Encomendas de avião
“Como todas as empresas, estamos em uma jornada de sustentabilidade”, escreveu o fundador da Shein, Xu, no prefácio do relatório de sustentabilidade de sua empresa. Embora ele não desempenhe formalmente nenhum papel nas várias empresas por trás de Shein, ele continua sendo o CEO para declarações públicas. Ele assina como ‘Sky Xu’, um nome que não apareceu em fontes públicas antes.
‘No entanto, o que nos diferencia é nossa ambição de liderança’, continua ele, ‘sustentado pelo uso de tecnologia inovadora para reduzir o desperdício de estoque e fornecer produtos a preços acessíveis para clientes em todo o mundo.’
Shein costumava se gabar da sustentabilidade de seu modelo sob demanda. Durante uma entrevista à Time Magazine no início de julho, o vice-presidente Wang disse : ‘Somos moda sob demanda. Nós tentamos descobrir o que você quer. E então nós fazemos isso para você. Portanto, sempre temos números de estoque de um dígito muito, muito baixos. Considerando que [outros varejistas] têm que projetar coisas e, em seguida, armazená-las, comercializá-las e depois vendê-las. E então eles têm sobras. ‘Temos muito, muito poucas sobras’, afirma Wang.
O consultor de sustentabilidade Eggen considera o modelo de Shein ‘perfeito como tal’. ‘Ficarei muito entusiasmado se outras empresas usarem esse modelo para reduzir estoques desnecessários. Mas, no caso deles, não faz sentido pelos volumes e pela forma como produzem.’
Shein usa essas alegações para desviar a atenção de onde está o verdadeiro impacto ambiental de seu modelo de negócios. A empresaafirmou que até 2022, a Shein foi responsável por mais de 9 milhões de toneladas de emissões de carbono. Quase metade de todos os países do mundo emite menos, incluindo Luxemburgo, Moçambique e Costa Rica.
Mais da metade das emissões da Shein vêm de materiais e produção. Suas roupas são feitas principalmente de poliéster (64 por cento), um material derivado do petróleo. Menos de 1% das roupas de Shein vem de materiais reciclados.
Um terço das emissões de carbono da Shein vem do envio de pacotes para os consumidores. A empresa faz isso de avião, conforme revela seu portal de rastreamento. Aqueles que encomendarem algo receberão uma atualização quando o voo com a encomenda deixar a China.
‘Um terço é muito’, diz Eggen. ‘Outras empresas geralmente enviam produtos para um centro de distribuição na Europa primeiro. De lá, os produtos são transportados até os clientes em caminhões”.
Além disso, você também tem problemas ambientais causados pela Shein, pois os consumidores descartam as roupas depois de usá-las poucas vezes por estarem com defeito ou fora de moda. Shein não fala uma palavra sobre isso em seu relatório de sustentabilidade.
O que acontece com esses produtos depois? ‘Em princípio, reciclamos itens defeituosos em novos materiais. Nesse caso, não podemos porque os tecidos da Shein são de qualidade muito baixa para serem usados em novos fios’, diz Sympany, um dos maiores colecionadores de tecidos da Holanda. ‘Então a reciclagem de baixo teor é a única opção que resta, por isso é transformada em um material isolante, por exemplo.’
A Sympany revende roupas sem nenhum defeito. Isso acaba em outros lugares na Europa, Oriente Médio, Ásia e África por meio de intermediários. E essa não é a única maneira pela qual as roupas de Shein chegam aos países de baixa renda.
Revendedores em países de baixa renda mostram seus produtos Shein no TikTok
250 peças por 40 euros
Em 14 de março de 2023, Xiongjie Zhang da China fez um apelo no Facebook: ‘Sou um fornecedor da Shein com sede em Guangzhou, China. Tenho 200 mil peças em estoque. Estou procurando um revendedor.’ De preferência nas Filipinas, Malásia ou Vietnã.
Shein exige que façamos entregas rápidas. Se as vendas não forem boas, o estoque de tecidos ficará por sua conta
O modelo sob demanda da Shein pode resultar em estoques pequenos na própria empresa, mas certamente não nos fornecedores. Um fornecedor da Sheinreclamou sobre isso em um artigo de notícias chinês.
“A Shein exige que façamos entregas rápidas, o que significa que os fornecedores precisam preparar os acessórios com antecedência antes de poderem produzir. […] Se as vendas não forem boas, o estoque de tecidos e acessórios ficará por sua conta.’
Dezenas de vídeos do TikTok e páginas do Facebook mostram as enormes quantidades de sobras de roupas de Shein que acabam em países de baixa renda.
Em um dos vídeos, um homem filipino abre um fardo de roupas com uma faca Stanley. Sacos de plástico com ‘SHEIN’ impresso em letras pretas saem do buraco. O vídeo é parecido com o da holandesa Elena, mas esse fardo é dez vezes maior. ‘Somos um revendedor oficial da Shein’, diz a legenda. Ele vende os fardos por 2.500 pesos filipinos (41 euros) por 250 peças: cerca de 20 centavos cada.
‘Você não pode estar falando sério’, Eggen exclamou quando ouviu isso. ‘Isso prova que este modelo não pode funcionar com preços tão baixos. E isso faz sentido. Uma pequena produção significa relativamente muito tempo de preparação. Essa linha de produção deve ser configurada com as linhas de cores corretas e as instruções corretas. Só então a velocidade de produção aumenta. Para uma peça de roupa de 3 euros, você precisa de cada segundo para ser eficiente. É aí que está a margem da fábrica. Portanto, se você precisa fazer 100 peças, mas sabe que outras 3.000 podem chegar, é melhor fazer isso de uma só vez. É lógico que os fornecedores façam essa aposta.’
Ela ri. ‘Merda. Mesmo esta parte do Shein não é sustentável. Isso é algo que o mundo precisa saber.
Follow the Money escreveu para Shein fazendo perguntas durante esta investigação, mas não recebeu resposta.
Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Follow the Money” [Aqui!].
A “Folha de São Paulo” publicou hojeum artigo assinado pela jornalista pela Alexa Gusmãoque, apesar de ser contraditória em aspectos chaves, mostra que o Brasil tem menos servidores públicos do que outros países considerados mais desenvolvidos (no caso da OCDE a média é de 23,48% contra 12,45% do Brasil na relação trabalhadores/por servidores públicos), mas também do que em países da América do Sul (Argentina e Chile, por exemplo) (ver figura abaixo).
Em primeiro lugar, os dados mostrados na matéria servem para desmentir a fábula neoliberal de que o Brasil tem servidores públicos demais, pois o correto é justamente o contrário. Além disso, há o fato de que se ter quase 3 vezes menos servidores públicos do que um país rico como a Dinamarca implica na precarização da qualidade dos serviços prestados a uma população que depende majoritariamente da ação do Estado para minimizar problemas sociais criados pela profunda desigualdade social existente no Brasil.
O pior é que apesar desses dados concretos, o congresso nacional se prepara para voltar a debater a reforma administrativa preparada pelo governo Bolsonaro que, se aprovada, irá piorar não apenas a condição laboral e salarial dos servidores públicos, mas também representará um enfraquecimento na capacidade das diferentes de governo (i.e., municípios, estados e União) de ofereceram serviços públicos de qualidade.
Será interessante ver como se comportará o presidente Lula e seus ministros diante do seguimento da discussão da reforma administrativa no interior do congresso nacional. Até aqui, no caso de outras heranças malditas deixadas pela dupla Michel Temer/Jair Bolsonaro, o comportamento do governo Lula tem sido deixar intacta a maioria das medidas draconianas que foram impostas contra os trabalhadores e a juventude brasileira (vide o chamado Novo Ensino Médio).