Alegria e desafio reinaram em encontro liderado pelo cacique Raoni Metuktire

Preocupações climáticas proeminentes enquanto centenas participam da celebração do 91º aniversário de Raoni

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Raoni subiu ao palco para discursar na reunião que convocou para pensar novas estratégias diante das ameaças políticas e climáticas. Fotografia: Kamikia Kisedje

Por Jonathan Watts para o  “The Guardian”

Durante o mês mais quente do mundo em mais de 100.000 anos , homens, mulheres e crianças indígenas de todo o Brasil chegaram a um dos últimos grandes redutos da floresta amazônica para uma celebração marcada pela tristeza e desafio.

Em meio a crescentes preocupações com a seca e crescentes evidências de que as maiores árvores da floresta estão começando a morrer, eles vieram ao Parque Nacional do Xingu para prestar homenagem ao mais eficaz protetor da Amazônia de todos, o cacique Raoni Metukire, que indicou ele pode estar chegando ao fim de seus dias de ativista.

Homenagens vieram do rei Charles III, patriarca da igreja ortodoxa e realeza do rock em Sting, enquanto mais de 800 pessoas compareceram pessoalmente. Estavam presentes os Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará, além de conservacionistas brasileiros, cientistas, um ministro do governo, um juiz e dezenas de apoiadores estrangeiros. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não compareceu, alegando a necessidade de um procedimento médico em seu quadril.

O motivo aparente da reunião em Piaraçu, vila do Mato Grosso, foi o aniversário nominal de 91 anos de Raoni, mas, na verdade, como as árvores mais poderosas da Amazônia, ninguém sabe ao certo quantos anos ele tem. Raoni existe há mais tempo do que a maioria, fez mais campanhas, viajou mais, sem dúvida conquistou mais e definitivamente é mais visível globalmente, graças à sua placa labial inconfundível.

Muitos observaram que o evento parecia um último suspiro para um líder que parece fisicamente forte e politicamente astuto, mas diz publicamente que seus dias como ativista estão acabando, gerando especulações sobre quem poderia ocupar seu papel como chefe do povo Kayapó.

Uma liderança forte é vital neste momento extraordinário de oportunidade política nacional e preocupação climática global que tornou o mundo exterior mais disposto do que nunca a ouvir as vozes indígenas, mas aparentemente ainda despreparado para se sentar ao lado deles nas negociações ou agir em seus melhores interesses.

Isso é uma fonte de frustração antes de duas reuniões de importância crucial na cidade amazônica de Belém que ajudarão a decidir o destino da floresta tropical: uma cúpula amazônica no próximo mês que reunirá os líderes do Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname, e a cúpula do clima Cop30 da ONU em 2025.

Raoni e outros líderes acreditam que os povos indígenas merecem mais do que seu status de observador habitual nesses eventos, porque eles provaram ser os guardiões da floresta mais bem preservada do mundo. “Estou esperando uma chance de participar”, disse Raoni. “Quando os líderes nacionais prometem discutir esse assunto, nós, indígenas, os ouvimos. Mas também discutimos essas coisas entre nós e temos ideias sobre como impedir a destruição da floresta.”

As esperanças entre os quase 1 milhão de indígenas do país aumentaram desde que Lula se tornou presidente: ele já nomeou o primeiro chefe indígena de assuntos indígenas da história do país, criou um novo ministério indígena e prometeu que seu governo demarcaria mais territórios indígenas e colocaria um deter as invasões de garimpeiros ilegais e grileiros. 

A primeira ministra dos assuntos indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, (segunda da esquerda) caminha de braço dado com outras lideranças indígenas em direção à reunião convocada pelo reverenciado cacique Raoni Mekutire

A primeira ministra dos assuntos indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, (segunda da esquerda) caminha de braço dado com outras lideranças indígenas em direção ao encontro convocado pelo reverenciado cacique Raoni Mekutire. Fotografia: Kamikia Kisedje

Desde então, como observou a nova ministra do índio, Sônia Guajajara, no encontro de Piaraçu, houve ganhos significativos. Seis territórios indígenas foram demarcados, o desmatamento caiu em mais de um terço e o governo lançou campanhas paramilitares para expulsar alguns garimpeiros do território Yanomami.

Mas o progresso tem sido mais lento do que muitos aqui esperavam, enquanto novas ameaças políticas e climáticas surgiram, como uma ação do poderoso lobby ruralista do Brasil para limitar as demarcações a áreas ocupadas por povos indígenas em 1988. Esse estratagema, que é objeto de uma feroz batalha no senado e na suprema corte, poderia impedir e até reverter o reconhecimento oficial dos territórios.

Os participantes também notaram como o clima ficou conturbado, com os indígenas shamen observando que os rios estavam “tristes”, esgotados além dos níveis normais. Paulo Moutinho, chefe do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, observou que a temperatura em Piaraçu esta semana subiu para 46°C, muito acima do normal em uma área onde as árvores geralmente ajudam a manter o calor baixo em comparação com as planícies agrícolas desmatadas. Registros anteriores sugerem que o El Niño deste ano trará mais secas e uma estação seca mais longa, o que enfraquecerá a floresta.

“As grandes árvores estão morrendo na Amazônia porque os El Niños estão se tornando mais frequentes e de maior duração, tornando mais difícil para o solo repor a umidade. Isso resulta em estresse hídrico para as árvores. A Bacia do Xingu já está em uma situação ruim e esperamos uma seca longa e forte nos próximos anos”, alertou Moutinho.

Davi Kopenawa Yanomami, um dos grandes líderes espirituais do maior território indígena do Brasil, expressou preocupação com as mudanças climáticas e raiva pela falta de apoio do Estado para seu povo, cuja terra ainda é atormentada por garimpeiros ilegais e pelas doenças que eles trazem. “Se o governo não conseguir resolver isso, estamos preparados para entrar em guerra”, disse ele.

Ele queria falar cara a cara com os líderes mundiais. “Não quero apenas enviar-lhes uma mensagem. Eu preciso olhar nos olhos deles”, disse ele. “Meu papel é cuidar do meu povo. A responsabilidade deles é cuidar do nosso planeta.”

Ele elogiou Raoni por ter convocado a reunião. “Isso é histórico. Não vai nascer outro Raoni. Isso me preocupa muito, mas a luta vai continuar”. 

Participantes da celebração de Raoni Metuktire
Mais de 800 pessoas compareceram à celebração de Raoni Metuktire, incluindo representantes das tribos Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará. Fotografia: Kamikia Kisedje

Alessandra Munduruku, que liderou a batalha contra o garimpo ilegal nas terras de seu povo na bacia do rio Tapajós, apesar das ameaças à sua vida, enfatizou diplomaticamente, mas com firmeza, a mudança de papéis. “As mulheres também devem estar envolvidas na tomada de decisões porque lembramos que temos filhos. Dizemos aos líderes da aldeia que vocês não precisam decidir sozinhos, podemos assumir parte da responsabilidade. Agora estamos na linha de frente.”

Raoni expressou sua frustração com o não comparecimento de Lula. “Você me disse que iríamos conversar sobre os territórios que não foram demarcados. Eu não esqueci isso,” ele disse. “Eu não sou uma criança. Somos da mesma geração. Somos adultos. Antes que fiquemos velhos, temos que falar de terras indígenas para que nosso povo viva em paz”.

Uma declaração de toda a reunião ecoou esse pedido, conclamando o estado a expulsar os garimpeiros ilegais , anular os acordos de crédito de carbono e impedir o arrendamento de terras indígenas para a agricultura industrial.

No último dia do encontro, depois de dias de discursos e noites de dança, o velho cacique apareceu formidavelmente forte, permanecendo no palco por horas no calor intenso, andando sem ajuda, fazendo um discurso de 20 minutos e demonstrando sua capacidade única de unificar com um momento de mãos dadas que reuniu rivais políticos indígenas, um juiz, um prefeito local que representa principalmente agricultores brancos, altos funcionários da saúde e líderes femininas.

O único gemido da multidão foi quando Raoni deu a entender que não tinha muito tempo para terminar seu trabalho. Mais característica foi a explosão de alegria da multidão quando foi anunciado que, após uma espera de 20 anos, o governo havia concordado em passar para a próxima etapa de demarcação de Kapot Nhinore, local de nascimento de Raoni e local de descanso de seus ancestrais, como território indígena. Esta notícia gerou cantos e danças espontâneas entre os Kayapó e sorrisos e lágrimas entre outros visitantes.

“Foi com isso que ele sonhou”, disse Patrick Cunningham, coautor de Spirit of the Amazon. “Minha única preocupação é que Raoni também disse que, assim que puder ir para Kapot Nhinore, poderá terminar seus dias em paz.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Entrevista ao Carbon Report: a floresta amazônica entre perdas, danos e a esquizofrenia governamental

Degradação da Floresta Amazônica é maior que desmatamento e emite tanto carbono quanto

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Por Mariza Louven para o Carbon Report

A notícia de que o Brasil perdeu 15% de suas florestas tropicais primárias, de 2021 para 2022, a maior parte na Amazônia, não surpreendeu o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Este problema, resultante do desmatamento, é a ponta mais conhecida do iceberg. Outro, menos visível e igualmente prejudicial ao meio ambiente e ao clima, é a degradação das áreas remanescentes. Ambos são agravados pelo que ele chama de “uma certa esquizofrenia” governamental.

A degradação florestal não é tão bem documentada quanto o desmatamento e nem recebe a mesma atenção do governo e da sociedade, dificultando seu combate. Isso torna ainda mais relevante a pesquisa científica sobre a extensão dos danos às florestas que ainda resistem em pé.

O fogo, a extração de madeira e outras atividades antrópicas (humanas) provocaram a degradação de 250 mil quilômetros quadrados (km2) da Floresta Amazônica, entre 2001 e 2018, segundo estudos de um pool de pesquisadores do qual Pedlowski faz parte. É uma área maior do que a do Reino Unido (243.610 km²) e equivalente a 38% do bioma.

São danos nem sempre reversíveis e que levam a emissões de carbono comparáveis às provocadas pelo desmatamento. Provocam também diminuição equivalente da biodiversidade e os mesmos impactos negativos sobre o regime de chuvas.

Dados baseados na ciência

Pedlowski é um dos que assinam textos sobre a degradação florestal da Amazônia veiculados por publicações como a Science Magazine. Um deles, Os drivers e impactos da degradação da floresta amazônica”, de janeiro deste ano, revisou trabalhos anteriores sobre os impulsionadores da mudança na Amazônia e mostrou que elas estão ocorrendo muito rapidamente. A emissão de carbono provocada pela degradação florestal é comparável à resultante do desmatamento. Varia de 50.000 a 200.000 toneladas de carbono por ano, comparável à do desmatamento, de 60.000 a 210.000 toneladas.

Os pesquisadores haviam publicado, em 2020, o texto Degradação florestal de longo prazo supera o desmatamento na Amazônia brasileira, baseado em dados de sensoriamento remoto com resolução espacial de 30 metros. Eles descobriram que a extensão e a taxa de degradação florestal eram iguais ou superiores às desmatadas, com implicações importantes sobre a quantidade de carbono estocado pela floresta, a biodiversidade, o equilíbrio energético e a política internacional.

“Esses estudos já deveriam ter gerado uma mudança de paradigma nas ações governamentais em prol do uso sustentável da Amazônia, mas no governo Bolsonaro caíram em ouvidos surdos. E, no governo Lula, não vi mudança de postura até agora. Continua a ladainha do desmatamento zero, enquanto o problema da degradação é negligenciado”, afirma Pedlowski

A degradação florestal alcança atualmente um status tão ou mais grave do que o desmatamento. Ainda assim, os esforços realizados internacionalmente para impedir o avanço da destruição das florestas tropicais mencionam apenas o desmatamento. “É como se o que ainda não foi desmatado estivesse totalmente preservado. Isso não é, absolutamente, a verdade”, acrescenta.

Marcos Pedlowski enxerga avanços no governo Lula, mas também desencontro de ações

Desencontro de ações

Os próximos meses serão decisivos para diferenciar a gestão Lula da anterior. Pedlowski reconhece que qualquer avaliação do governo, agora, será sempre parcial e que houve avanços no controle do desmatamento. Ele vê recuperação de uma certa racionalidade no processo de gestão, inclusive do ministério do Meio Ambiente, e reconhece que, dado o que estava acontecendo antes, isso não é pouco.

Há, entretanto, lentidão na formação das equipes dentro de ministérios e agências, o que prejudica a execução da agenda proposta durante a campanha eleitoral do agora presidente Lula.

Quando fala em esquizofrenia governamental, o professor não está se referindo apenas à demora para reequipar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas ao desencontro de ações.

“Por um lado, dentro do governo, fomentam o desmatamento e a degradação; e, por outro, procuram conter esses processos”, diz ele. Para reforçar esta tese, cita o atraso na formação de equipes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), enquanto no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) técnicos que atuaram no governo Bolsonaro foram promovidos.

Desmatamento legal

O pesquisador também chama a atenção para o grande peso do desmatamento legal, relacionado às políticas e projetos governamentais que apoiam o crescimento da agricultura em grande escala, extração seletiva de madeira e mineração. “Se olharmos em retrospectiva a ocupação da Amazônia, desde a década de 1970, sempre encontraremos projetos governamentais que estimularam tanto o desmatamento quanto a degradação florestal”, afirma.

Agora mesmo, no governo Lula, continua Pedlowski, existem propostas para a pavimentação da BR-319 e para a construção da chamada Ferrogrão que, se executadas, resultarão na abertura da porta de entrada para áreas ainda relativamente intactas da floresta amazônica.

Na opinião dele, estamos diante de um momento que poderá ser paradigmático para o futuro da Amazônia. Se o governo insistir em financiar projetos que poderão ter um efeito dominó em relação ao desmatamento e à degradação florestal, qualquer menção ou discurso ao desenvolvimento sustentável das florestas brasileiras, incluindo aí o Cerrado, será letra morta.

“Há que se levar a sério a necessidade de proteger as florestas brasileiras. Seguramente, elas valem mais em pé do que deitadas”, afirma. Entretanto, para isso, será necessário “superar a mentalidade de que o desmatamento e a degradação justificam uma espécie de destino manifesto do Brasil”.

Diferentes soluções

Como combater, efetivamente, as perdas florestais, que estão levando ao desaparecimento das florestas tropicais primárias? Para ele, a resposta passa por diferentes dimensões.

Uma delas é mais da alçada do governo, como restabelecer o sistema de comando e controle que foi basicamente desmantelado durante a gestão anterior. Isso envolve não apenas recuperar a capacidade de fiscalização no chão, mas também os sistemas de monitoramento que existiam e funcionavam com toda a qualidade, principalmente aqueles instalados dentro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Outra, é a desmilitarização completa de órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), “que foram asfixiados pela instalação de chefias militares”, complementa.

Na avaliação de Pedlowski, também será preciso recuperar a sinergia com os órgãos ambientais estaduais, fato que não ocorreu ao longo da administração de Jair Bolsonaro. Sem isso, o professor acredita que não será possível estabelecer processos de cooperação que fortaleçam as ações de fiscalização, o desenvolvimento de políticas positivas e ações de estímulo a setores que vivem da exploração dos recursos florestais para manterem a floresta em pé. Isso passa pela valorização dos produtos não madeireiros.

O engajamento do setor privado

Segundo Pedlowski, o setor privado também deve ter um papel relevante. Sem a participação do setor privado, reconhece, não há como resolver grande parte das dificuldades que existem em torno da proteção da biodiversidade e busca de um crescimento econômico que não potencialize esquemas deletérios para o meio ambiente: “O setor privado tem que contribuir com soluções e não apenas com ferramentas de corporate washing, mantendo o business as usual”.

No caso do desmatamento causado pela expansão das áreas cultivadas com grãos, prevê, não haverá saída se as corporações globais que controlam as cadeias de produção e comercialização não começarem a agir com seriedade. Precisam impor restrições a produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente, como começará a ser feito pela União Europeia.

Ele inclui a questão da madeira extraída ilegalmente e que tem impacto direto sobre o avanço do processo de degradação florestal em todos os países tropicais. “Sem que esses grandes atores adotem mecanismos efetivos de rastreamento ao longo da sua cadeia de produção, qualquer compromisso será inútil”, prevê.

O engajamento de governos e empresas é fundamental para impedir que as atividades clandestinas sejam premiadas com a inserção de seus produtos nos mercados nacionais e internacionais. Sem esse passo básico e fundamental, na visão de Pedlowski, as estruturas de fiscalização não resolverão o problema sozinhas.

E o mercado de carbono?

O mercado de carbono é uma das muitas ferramentas desenvolvidas para engajar o setor privado nos esforços de harmonizar demandas de crescimento com proteção ambiental. Para Pedlowski, no entanto, existem poucas evidências de que poderá alavancar essa sinergia.

Um dos principais obstáculos, na opinião dele, é a definição de quem irá efetivamente regular o funcionamento do sistema de créditos de carbono, ou ainda se isso é efetivamente viável. Um exemplo citado por Pedlowski é o episódio ocorrido no início deste ano, quando uma investigação liderada pelo jornal britânico “The Guardian” descobriu que compensações de carbono florestal aprovadas pela certificadora Verra, usadas por grandes corporações como a Disney, Shell e Gucci, são em grande parte inúteis e podem piorar o aquecimento global.

O peso do agronegócio e da geopolítica

O professor destaca a agricultura industrial, gerada pela “Revolução verde”, como uma grande emissora de carbono. Como hoje este setor domina a paisagem agrícola brasileira e cobre grandes extensões de terra, não há como pensar em soluções sem que o agronegócio seja parte integrante da equação.

Na opinião dele, o controle de emissões de gases de efeito estufa deve passar por uma combinação de mecanismos de regulação estatal com outros criados pelas relações de mercado. Entretanto, como o mercado é sempre mais pragmático, a questão seria como criar um sistema de incentivos que combine elementos positivos e negativos para, digamos, criar a dinâmica necessária e um controle mais eficiente.

Não se gera mudança em práticas de mercado só com restrições, reforça. É necessário colocar a possibilidades de ganho na equação. Caberia às lideranças multilaterais decidirem como criar um sistema de controle de emissões que combine restrição e incentivo.

“Uma coisa que se pode dizer é que as múltiplas reuniões multilaterais realizadas nas últimas décadas não geraram um sistema confiável para todos os atores envolvidos no processo”, avalia. Quando muito, complementa, produziram soluções parciais, enquanto a destruição das florestas continua avançando.

Mais recursos para a pesquisa

Pedlowski chama a atenção, ainda, para a necessidade de fortalecimento do financiamento para a pesquisa na Amazônia. Lá existem universidades e instituições de pesquisa como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) que têm um largo conhecimento sobre formas de exploração dos recursos das florestas amazônicas.

É fundamental, na avaliação dele, que essas instituições e grupos de pesquisa sejam corretamente financiadas, de modo a potencializar o desenvolvimento de estratégias e o uso sustentável dos ecossistemas amazônicos. Existem experiências e evidências científicas de que é possível explorar recursos madeireiros e não madeireiros na Amazônia, de forma eficiente e menos agressiva para as florestas.

“A questão é que, objetivamente, quando se formulam as políticas para a Amazônia, há mais dinheiro para boi e pasto e menos para sistemas agroflorestais, por exemplo. Enquanto isso não for alterado pelas diferentes esferas de governo e por instituições financeiras estatais e privadas, não há como esperar qualquer mudança prática”, completa.

“Participei de um projeto piloto de regeneração florestal em Rondônia, entre 1992 e 2008, e uma das lições que tirei dessa experiência é: muitas vezes, as soluções são geradas por quem vive na região. Posso afiançar que há muito espaço para criatividade e inovação em locais e pessoas que são normalmente invisíveis para quem formula as políticas públicas para a Amazônia”.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo CarbonReport [Aqui!]

A reforma do Arquivo Municipal merecerá ao menos uma pergunta na entrevista coletiva do reitor da Uenf?

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A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense divulgou ontem que o reitor Raul Palacio irá realizar uma coletiva de imprensa na próxima terça-feira, 01/08, às 10h, no Centro de Convenções, onde irá divulgar a programação dos 30 anos da Universidade que ocorrerá no dia 16 de agosto. 

A mesma comunicação informa que o reitor fará um balanço dos avanços, conquistas e desafios da instituição durante a sua gestão (abro um parêntesis aqui para dizer que o reitor da Uenf é mesmo ousado!).  Segundo o que também foi informado, os veículos de imprensa que desejarem participar da coletiva devem se credenciar até às 18h desta segunda-feira, dia 31/07. 

Pois bem, aí que me ocorre a sugestão de que uma pergunta chave que poderia ser feita ao reitor nessa tal coletiva de imprensa seria a seguinte:  Magnífico reitor da Uenf, quando serão iniciadas as tão esperadas obras de recuperação da estrutura física do Solar do Colégio, lar do Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes?

Vamos lá pessoal da imprensa campista e fluminense, como diria o imperador romano Júlio Cesar: alea jacta est

México mantém uso intensivo do Clorpirifós, agrotóxico proibido em partes da América Latina

plaguicida-prohibido-996x567Um estudo mostrou que a presença do agrotóxico clorpirifós está acima do permitido no solo, água e peixes em uma área com alta atividade agrícola. Crédito da imagem: Sundaram/PixaHive , imagem em domínio público

Por Daniela Lopes para a SciDev

Enquanto a União Europeia e alguns países da América Latina proíbem ou restringem o uso do agrotóxico clorpirifós diante de múltiplas evidências de efeitos nocivos à saúde humana e ambiental , no México ele ainda é aplicado sem controle.

Naquele país, um estudo recente analisou a comercialização e a presença do composto para uma área de alta atividade agrícola em Nayarit, no oeste do México.

“Foi demonstrado que é o pesticida mais vendido e sua presença está acima dos níveis permitidos tanto no solo quanto na água e nos peixes”, disse Francisco Herrera, do Laboratório de Contaminação Ambiental e Toxicologia da Universidade Autônoma de Nayarit, ao SciDev.Net e um dos autores do estudo.

Em geral, esse agrotóxico é aplicado no controle de pragas porque inibe a enzima acetilcolinesterase, que regula os impulsos nervosos dos insetos. Mas também afeta animais, incluindo humanos.

“É um composto perigoso que, por sua toxicidade, persistência, bioacumulação e deslocamento por longas distâncias, foi indicado pela União Européia para sua eliminação mundial na Convenção de Estocolmo”.

Fernando Bejarano, Rede de Ação sobre Pesticidas e suas Alternativas no México

De acordo com o relatório de 2023 da Rede de Ação Latino-Americana sobre Pesticidas e Alternativas, nos últimos 40 anos o México autorizou o uso de clorpirifós como inseticida para controlar baratas, moscas e cupins em casa; de insetos e ácaros nas lavouras; contra ectoparasitas em bovinos; em coleiras para animais domésticos, em campos de golfe e até para controlar mosquitos transmissores de doenças como a dengue.

Aponta, ainda, que a exposição a esse inseticida afeta trabalhadores agrícolas, consumidores e moradores rurais e urbanos .

“É um composto perigoso que, por sua toxicidade, persistência, bioacumulação e deslocamento por longas distâncias, foi indicado pela União Européia para sua eliminação global na Convenção de Estocolmo”, disse Fernando Bejarano, da Pesticide Action Network , ao SciDev. Net . e suas alternativas no México.

Esta convenção é um tratado global para proteger a saúde humana e os ecossistemas de substâncias químicas que permanecem no meio ambiente por muito tempo.

No trabalho realizado no México, os especialistas apontam que não existem doses seguras para evitar danos ao desenvolvimento infantil , alterações cerebrais e desenvolvimento psicomotor e cognitivo.

“Nós nos perguntamos por que não há medidas no México se em outros países foram tomadas evidências para começar a restringir ou reduzir seu uso. Somos de outro planeta?”, questiona Aurora Rojas-García, pesquisadora da Universidade Autônoma de Nayarit e uma das autoras do estudo.

No Peru, o Serviço Nacional de Saúde Agrária (Senasa) aprovou em julho uma resolução que “proíbe, a partir de 1º de agosto de 2024, o uso de agrotóxicos químicos (…) que contenham o princípio ativo clorpirifós”.

O prazo é para as empresas que ainda comercializam o produto implementarem alternativas técnicas e econômicas “com menor risco à saúde e ao meio ambiente”, detalha a resolução, que oferece informações sobre elas .

O texto também alerta que o composto é neurotóxico, desregulador endócrino, e há evidências da causa de dificuldades de aprendizagem em crianças.

Na Argentina, um decreto presidencial proibiu seu uso e comercialização a partir de 2021 e estabeleceu que até junho de 2023 o Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar deveria garantir a erradicação de toda aplicação e comercialização neste país.

No entanto, após a data, vários lugares ainda o vendem. “Também não vemos que haja um controle efetivo. Primeiro, é preciso divulgar para que as pessoas saibam que esse produto é proibido e, segundo, o Estado deve recriar as nascentes para controlá-lo” , disse Javier Souza Casadinho, agrônomo e coordenador regional da Rede de Ação de Pesticidas , à SciDev.Net .suas alternativas.

Mas além de eliminar seu uso, Souza Casadinho aponta que o armazenamento do restante é outro problema, pois quando os produtos são proibidos, ficam armazenados em galpões por anos e nas piores condições, e isso também afeta a saúde ambiental.

“O grande passo agora na Argentina é ver quanto de clorpirifós sobra, onde é armazenado e o que é feito com esses produtos”, diz.

Por isso, os que defendem a proibição desse agrotóxico pedem uma transição para a busca de estratégias ecológicas que resolvam a destinação final e, além disso, mantenham a produtividade agrícola.

“Existem produtores de trigo e soja que estão produzindo sem agrotóxicos, então isso incentiva outros a fazerem também”, acrescenta Souza Casadinho, também professor da Universidade de Buenos Aires.

“As alternativas existem e é preciso pensar que não há nada mais importante do que o corpo e a saúde de todos os seres vivos”, conclui.

Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Mais da metade da população da Amazônia Legal e Centro-Oeste sofre com poluição causada por queimadas, aponta estudo

Pesquisadores calcularam exposição da população da região da Amazônia Legal e do Centro-Oeste à poluição do ar gerada por queimadas entre 2010 e 2019. Mais de 20 milhões de brasileiros são expostos a ar de má qualidade por até seis meses ao ano. Exposição à poluição pode causar doenças respiratórias e cardiovasculares e gerar impacto no SUS nas regiões afetadas

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Mais de 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal e do Centro-Oeste do Brasil convivem por mais de seis meses ao ano com poluição do ar constante gerada por queimadas na Floresta Amazônica. O levantamento foi feito por pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) com dados de satélite do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo analisados entre 2010 e 2019. Os resultados estão publicados na edição de sexta (28) da revista “Cadernos de Saúde Pública”.

Os incêndios, segundo observação dos cientistas, são provocados no processo de produção agropecuária. Esse tipo de queima de biomassa é uma das etapas para derrubada da floresta e gera partículas poluentes chamadas de material particulado fino. O estudo classifica a qualidade do ar de acordo com a Organização Mundial da Saúde, que determina que a concentração máxima aceitável desse material no ar é de 15 microgramas por metro cúbico em uma média diária. Acima disso, a concentração passa a ser de risco para a saúde humana.

Para efeitos de comparação, algumas áreas da região metropolitana da cidade de São Paulo convivem com níveis altos de poluição por até 80% dos dias do ano. Já a área estudada, que compreende as regiões Norte e Centro-Oeste mais o estado do Maranhão, conviveu quase inteiramente com níveis preocupantes de poluição por, pelo menos, metade do ano durante uma década. A área equivale a 68% do território brasileiro e conta com mais de 40 milhões de habitantes no total.

“É consolidado que a poluição faz mal à saúde. Sabemos que tem consequências cardiovasculares importantes e efeitos respiratórios”, afirma Eliane Ignotti, epidemiologista, professora da UNEMAT e uma das autoras do artigo. “Essa poluição por queima de biomassa interfere na qualidade de vida das pessoas”, avalia. Longe de ser esporádica, a exposição sofrida pela população amazônida, tanto de cidades pequenas, quanto grandes acontece todos os anos no período da seca. Por isso, os efeitos sobre a saúde e qualidade de vida da população também são sentidos ao longo do tempo.

Consequentemente, diz Ignotti, estes efeitos terão impacto sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) nas regiões afetadas. “Em termos de custo, serão milhões de reais, que poderiam ser usados para outras finalidades”, avalia a pesquisadora. Para os cientistas, a poluição na área monitorada piorou nos últimos cinco anos com a redução de políticas públicas voltadas para a preservação do meio ambiente. O artigo alerta que os municípios mais impactados pela má qualidade do ar estão na região conhecida como arco do desmatamento, que envolve Acre, Rondônia, sul do Amazonas e do Pará e norte do Mato Grosso.

O próximo passo da equipe é medir os impactos econômicos e sociais da elevada exposição da população brasileira à poluição do ar. “Os riscos de desenvolver problemas de saúde não são iguais para todos os indivíduos. Eles são maiores para os mais vulneráveis, ou seja, crianças, idosos e pessoas em vulnerabilidade social e econômica”, afirma Ignotti. “Mas é importante frisar que toda a população está exposta, e os tomadores de decisão precisam ficar atentos”, conclui.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Ainda sobre o imbróglio dos R$ 20 milhões para a reforma do prédio do Arquivo Municipal

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Acabo der ler um longo arrazoado emitido pelo blogueiro Edmundo Siqueira sobre o imbróglio envolvendo a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes envolvendo o (não) uso de R$ 20 milhões disponibilizados pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para realizar obras de recuperação no prédio do Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes.

Já abordei esse assunto diversas vezes aqui neste espaço quando instei ao reitor da Uenf, Raúl Palácio, a devolver essa fortuna para a Alerj e também ao prefeito Wladimir Garotinho para que solicitasse o retorno do dinheiro para os cofres do legislativo estadual.  Até onde ouvi, ambos ignoraram minha sugestão, sabe-se lá por quais razões.

Agora que noto o contínuo e justificado interesse de Edmundo Siqueira nessa querela interminável, aproveito para sugerir o mesmo a ele. É que, meu caro Edmundo, como já disse antes, desse mato não sai coelho.  Se tivesse que ter saído, já teria. E não vai ser agora que o reitor da Uenf vai estar ocupado com a tentativa de manter seu grupo político dirigindo a universidade entre 2024 e 2027 que ele vai gastar tempo com algo que já deveria ter sido resolvido há muito tempo.

Que esse dinheiro volte para a Alerj e que se ache outra via para fazer esses milhões chegarem para pagar a reforma do prédio do Arquivo Municipal. A comunidade universitária da Uenf agradecerá imensamente já que nunca foi ouvida sobre esse espinhoso assunto.

Grandes bancos são responsáveis pela maioria dos US$ 20 bilhões em financiamento destinados a empresas de petróleo e gás que estão destruindo a Amazônia, mostra estudo

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Belém, Brasil, 25 de julho de 2023. Oito grandes bancos norte-americanos, europeus e brasileiros estão contribuindo para a destruição da Amazônia e do clima, sendo responsáveis pela maior parte do financiamento do setor de petróleo e gás em acordos diretamente ligados a atividades no Peru, Colômbia, Brasil e Equador, de acordo com uma pesquisa divulgada hoje pela Stand.earth e pela Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), antecedendo a Cúpula da Amazônia, que será realizada em Belém no próximo mês.

O relatório Capitalizing on Collapse (“Os lucros do colapso”), elaborado por pesquisadores premiados do Stand.earth Research Group, detalha como o JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Citibank, HSBC, Banco Santander, Bank of America, Banco Bradesco e Goldman Sachs concederam mais de US$ 11 bilhões em financiamento às atividades de exploração de petróleo e gás na Amazônia nos últimos 15 anos, de 2009 a 2023. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, eles são responsáveis por 55% do total estimado de US$ 20 bilhões diretamente direcionados para a região. Dos oito bancos, seis têm sede nos EUA ou atuam por meio de suas subsidiárias norte-americanas e operam acordos na região, enquanto dois bancos brasileiros – Itaú Unibanco e Banco Bradesco – estão fortemente ligados a projetos específicos do setor de petróleo e gás no país.

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Figura 1. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, esses 8 grandes bancos representam 55% do financiamento direto estimado nos últimos 15 anos. O JPMorgan Chase encabeça a lista da destruição na Amazônia com 10% do financiamento direto, ou US$ 1,9 bilhão.

Bancos como o JPMorgan Chase, que encabeça a lista com 10% do financiamento direto (US$ 1,9 bilhão), lucraram com o setor de petróleo e gás nos últimos 15 anos, apesar de a ameaça de um colapso na Amazônia ter aumentado drasticamente no mesmo período. A floresta tem sofrido com a fragmentação, o desmatamento e as queimadas, a tal ponto que os cientistas alertam que ela pode estar chegando a um ponto de não retorno ecológico desastroso. Décadas de queima e vazamentos associados ao setor de petróleo e gás poluíram os cursos d’água e o solo na Amazônia, deixando as comunidades Indígenas doentes, reduzindo seus meios de subsistência e violando seus direitos. E, como o financiamento criou novas oportunidades de expansão, o setor impulsionou as emissões de carbono na atmosfera à custa de um futuro seguro para o clima.

Os estudos de caso incluídos no relatório Capitalizing on Collapse ilustram como cada um desses grandes bancos esteve envolvido em acordos que expandiram a produção de petróleo e gás na Amazônia, incluindo seu envolvimento no projeto da maior bomba de carbono da Amazônia, o Complexo Parnaíba, capaz de liberar duas gigatoneladas de carbono ao longo de sua vida útil. De acordo com a Agência Internacional de Energia, essa expansão não é compatível com a meta de manter o aquecimento global sob controle, apesar de os compromissos climáticos dos bancos afirmarem que estão alinhados com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.

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O relatório Capitalizing on Collapse também revela os bancos que financiam empresas envolvidas na exploração de petróleo e gás na Amazônia, o que é conhecido como financiamento indireto, dificultando o rastreamento do dinheiro. O relatório explora como a falta de transparência nos dados financeiros e a fragilidade das políticas bancárias de risco socioambiental (ESR) podem criar condições para que o financiamento seja destinado à produção de combustíveis fósseis, mesmo quando os bancos assumem compromissos explícitos com o clima, os direitos humanos e a biodiversidade.

Com a reunião dos líderes governamentais em Belém, na Cúpula da Amazônia, a ser promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 8 e 9 de agosto, para discutir como proteger a região, fortalecer as lideranças Indígenas e proteger os valores ambientais, o relatório Capitalizing on Collapse demonstra que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar no futuro, que não incluem a destruição da Amazônia. A iniciativa de proteção regional liderada pelos Povos Indígenas, Amazônia para a Vida: Proteger 80% até 2025, também menciona a necessidade de abandonar os investimentos em combustíveis fósseis como uma das principais medidas para o sucesso da empreitada.

Alguns bancos se mobilizaram para lidar com sua cumplicidade na destruição da Amazônia. Em maio de 2022, o BNP Paribas se comprometeu a não mais financiar ou investir em empresas que produzem a partir de reservas de petróleo e gás na Amazônia ou que desenvolvem infraestruturas relacionadas, tornando-se o primeiro grande banco a adotar a exclusão geográfica do petróleo e gás na floresta amazônica. Em dezembro de 2022, o HSBC alterou suas políticas para excluir todos os novos serviços de financiamento e assessoria a qualquer cliente para a exploração, avaliação, desenvolvimento e produção de projetos envolvendo petróleo e gás no Bioma Amazônico. Esses dois bancos, juntamente com alguns outros, estão dando sinais importantes de que precisam estar dispostos a rever sua relação com a destruição da Amazônia e tomar medidas para gerenciar esse risco.

O relatório é acompanhado pela primeira base de dados pública em que se pode pesquisar todos os bancos envolvidos com o setor de petróleo e gás na Amazônia por meio de financiamentos diretos e indiretos. A base de dados Amazon Banks Database baseia-se em pesquisas anteriores realizadas pelo Stand Research Group sobre financiamento ao comércio e políticas de ESR dos bancos. A base de dados é uma lista abrangente dos bancos envolvidos em acordos de subscrição de empréstimos e títulos para empresas envolvidas na exploração e produção (upstream) e no armazenamento, comércio e transporte (midstream) de petróleo e gás na Amazônia. Essa base de dados estará disponível publicamente a partir de 25 de julho em Exit Amazon Oil and Gas.

O Stand Research Group ganhou recentemente o Prêmio Keeling Curve na categoria de finanças, em reconhecimento à sua liderança e inovação em pesquisas financeiras, políticas e sobre a cadeia de fornecimento na Amazônia. Essa base de dados e o relatório fazem parte desse esforço. A pesquisa na base de dados também embasou a análise sobre o financiamento na Amazônia incluída no relatório Banking on Climate Chaos (“Financiando o caos climático”), de 2023.

Angeline Robertson, Pesquisadora Líder do Stand Research Group:

“Essa pesquisa premiada destaca que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar na mudança da economia energética por trás da crise climática. A Amazônia é uma região fundamental para que os bancos apresentem políticas globais ousadas que possam cumprir a intenção de defender os direitos humanos, proteger a biodiversidade e manter o aquecimento global em 1,5 °C. De acordo com a orientação da Agência Internacional de Energia, não deveria haver nenhuma nova produção de petróleo e gás se quisermos ficar abaixo de 1,5 °C, mas continuamos a ver financiamentos bancários para a expansão da exploração de petróleo e gás na maior floresta tropical do mundo.”

Fany Kuiru, Coordenadora Geral da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA):

“A expansão do petróleo na Amazônia é uma ameaça latente aos territórios Indígenas e aos ecossistemas vitais no Peru, Equador, Brasil e Colômbia, mas também coloca em risco dezenas de Povos Indígenas isolados, cuja existência depende da integridade de seus territórios. A degradação e o desmatamento combinados nos colocam diante de um iminente ponto de não retorno que, para nossos povos, se traduz em doenças crônicas como consequência da contaminação, na perda de nossa soberania alimentar devido a metais pesados encontrados nos peixes e na água que bebemos e na violência sistemática contra aqueles que defendem nosso lar. Os bancos, financeiras e outras empresas que investem na região e cujos lucros são derivados da exploração de petróleo são cúmplices da morte de nossas lideranças, de nossas culturas e de nossos modos de vida. Pedimos que os maiores investidores bancários deixem a Amazônia imediatamente.”

Todd Paglia, Diretor Executivo da Stand.earth:

“O relatório Capitalizing on Collapse mostra claramente que os bancos precisam parar de financiar projetos envolvendo petróleo e gás na Amazônia. A plataforma pela exclusão geográfica para abandonar a exploração de petróleo e gás amazônicos (Exit Amazon Oil and Gas) aponta para um dos pilares da iniciativa Amazônia para a Vida: 80 X 2025 e é um caminho claro para os bancos enviarem o sinal de que querem investir no futuro da Amazônia, não em seu colapso. Ao implementar a exclusão de investimentos problemáticos em petróleo e gás em toda a Amazônia, abandonando acordos e relacionamentos que causam destruição e investindo no desenvolvimento econômico ecológico, apoiado pelos Povos Indígenas na região, bancos como JPMorgan Chase, Itaú Unibanco e Citi têm a chance de estar do lado certo da história.”

April Merleaux, Gerente de Pesquisa, Equipe de Clima e Energia, Rainforest Action Network:

“O relatório Capitalizing on Collapse destaca uma importante pesquisa sobre o financiamento bancário destinado à extração de petróleo e gás no bioma amazônico. O caminho mais seguro para manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 ˚C é promulgar os princípios do CLPI (Consentimento Livre, Prévio e Informado) para os Povos Indígenas. A proteção dos direitos humanos e a manutenção dos combustíveis fósseis no solo nos afastarão do Caos Climático. Mas esse relatório mostra que os bancos – inclusive os grandes bancos dos EUA, como o Bank of America e o JPMorgan Chase – estão indo na direção oposta, financiando a destruição nessa região vital. Capitalizing on Collapse lança dúvidas sobre as promessas de zerar as emissões de carbono feitas pelos bancos.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Stand.Earth [Aqui!].

ABC e Ianas reúnem comunidade científica das Américas para debater futuro sustentável da Amazônia

Encontro em Manaus visa apoiar o desenvolvimento de soluções de longo prazo e ancoradas na ciência

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Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Rede Interamericana de Academias de Ciências(Ianas) reúnem em Manaus as Academias de Ciências das Américas para discutir o desenvolvimento de soluções sustentáveis para a região amazônica. O evento Ciência por e para a Amazônia acontece nos dias 2 e 3 de agosto, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“Um encontro como este para promover a ciência feita na Amazônia e pela Amazônia é central neste momento que estamos vivendo de preparação para a COP30, daqui a dois anos. Sem ciência, não é possível construir a sustentabilidade que buscamos para o planeta como um todo, mas especialmente para o bioma amazônico, tão estratégico para as metas que queremos atingir até 2030”, afirma Helena Nader, presidente da ABC e copresidente da Ianas.

Um dos objetivos da reunião intercontinental é gerar contribuições da comunidade científica para a Cúpula dos Países Amazônicos, que será realizada em Belém na semana seguinte, em 8 e 9 de agosto.

Durante o encontro no Inpa, haverá palestras de atores regionais relevantes, como André Baniwa, diretor do departamento de Territórios na Secretaria de Direitos Ambientais do Ministério dos Povos Indígenas, e María Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado da Cooperação Amazônica (OTCA).

Representantes do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) falarão sobre a construção de um futuro sustentável para a Amazônia. E acadêmicos de todos os países com território amazônico apresentarão suas visões sobre como aliar ciência e políticas públicas para levar mais sustentabilidade à floresta. O vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val, participará deste debate.

No dia 3, as copresidentes da Ianas, Helena Nader e Karen Strier, vão apresentar a Carta de Manaus, na qual as Academias de Ciências e outras organizações científicas do continente se comprometerão a fortalecer parcerias entre países amazônicos e não amazônicos para desenvolver políticas para restauração e conservação da floresta. A versão final do documento será encaminhada às delegações dos países participantes da Cúpula Amazônica, em Belém.

Credenciamento para a imprensa

Clique aqui para acessar a programação completa do evento, que será fechado para convidados. Jornalistas credenciados poderão participar presencialmente. Para se credenciar, o jornalista deve enviar nome, CPF, veículo de imprensa e contato para o endereço carlacamargo@corcovadoestrategica.com.br até às 18h de terça-feira, 1° de agosto. Haverá ainda transmissão ao vivo no canal da ABC no Youtube.

“Science for and by the Amazon”

Data: 2 e 3 de agosto

Local: Bosque da Ciência – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

End.: R. Bem-Ti-VI, s/n – Petrópolis, Manaus – AM, 69060-001

Horário: de 9h às 17h40

Xico Graziano e sua insustentável defesa dos agrotóxicos

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O ex-tucano Xico Graziano vem atuando há algum tempo como um defensor das causas impossíveis, o que ficou claro com sua adesão ao ex-presidente Jair Bolsonaro.  Agora, enquanto articulista do site Poder360, Graziano saiu-se com um texto bastante confuso para tentar desmentir algo que já está bem estabelecido na literatura científica, qual seja, a ligação entre agrotóxicos e o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.

Para tentar levar essa empreitada adiante, Graziano usou de um estratagema aparentemente inteligente. Ele acessou a lista de analisou todas as substâncias químicas, processos e fatores supostamente perigosos à saúde humana e propositalmente concentrou sua atenção no chamado grupo 1 que são os agentes considerados como carcinogênicos, com evidências comprovadas. Espertamente Graziano desprezou os grupos 2a e 2b que incluem 822 agentes que ainda não tiveram uma conclusão definitiva, mas que onde estão listados 25 agrotóxicos como potencialmente carcinogênicos em humanos apenas no período compreendido entre 1971 e 2014 (seja provável ou possivelmente).

Se isso não fosse o suficiente, Graziano deixou de acessar o sítio oficial da própria International Agency for Research on Cancer (IARC) onde existem múltiplos estudos associando diferentes agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer.  Bastaria ter ido ao site do IARC que Graziano teria encontrado a negação da sua afirmação sobre a inexistência de agrotóxicos no mercado brasileiro com potencial para o desenvolvimento de câncer.  Mas como a intenção dele nunca foi informar, mas confundir, Graziano resolveu brindar os leitores do Poder360 com sua variante de negacionismo científico.

Os agrotóxicos na Europa que abundam no Brasil

Um das principais marcas da onda gigantesca de aprovações de agrotóxicos que começou no governo Bolsonaro e continua mais leve no governo Lula é de que em torno de 30% das substâncias liberadas estão proibidas na Europa por serem danosas ao meio ambiente e à saúde humana.  Entre as razões para tal banimento são justamente as evidências de que parte destas substâncias são potencialmente causadoras de diferentes formas de câncer.

Mas se é assim, por que a IARC não a lista no chamado grupo 1? A razão para isso é que boa parte das evidências clínicas está baseada em experimentos de laboratório que usam ratos como cobaias.  Esses experimentos apesarem de serem aceitos como geradores de evidência para o potencial carcinogênico das substâncias não tem evidentemente o mesmo impacto de terem sido testados em seres humanos, o que sabemos é praticamente impedido pelas normas éticas de realização de pesquisas.

Por outro lado, aqui mesmo no Brasil já temos estudos relacionando a alta exposição a agrotóxicos com o surgimento de taxas mais altas de câncer em determinadas regiões. Um estudo que foi citado por mim foi desenvolvido por um grupo binacional de pesquisadores que estabeleceram uma relação direta entre o alto nível de uso de agrotóxicos, a contaminação de água usada para consumo humano com a incidência de câncer em municípios produtores de grãos na região Oeste do Paraná.

Mas como evidência científica não é o que importa para Xico Graziano, ele tem que lançar mão de seu pequeno estratagema negacionista. Mas que fique claro: agrotóxicos causam câncer.

Mudança climática: recorde de temperaturas sob a cúpula de calor

Eventos climáticos extremos também estão se tornando mais fortes, mais frequentes e mais longos no hemisfério norte

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Ed Hawkins, um cientista climático da Universidade Britânica de Reading, usa tiras de aquecimento para ilustrar o drama da mudança climática no período de 1850 a 2022. O branco representa o centro da temperatura média global anual durante este período, o azul está abaixo, o vermelho está acima. Em comparação com os tempos pré-industriais, aqueceu cerca de 1,1 a 1,2 graus Celsius até o momento – e a tendência é aumentar. Foto: http://www.showyourstripes.info

Por Kurt Stenger para o Neues Deutschland

Julho de 2023 entrará para a história do clima. Ondas de calor extremo vêm ocorrendo em várias regiões do mundo há semanas, inclusive no sudoeste dos EUA e no México, no sul da Europa e na China. As máximas históricas foram alcançadas em muitas estações meteorológicas na República Popular da China, e o recorde nacional de calor foi quebrado em 16 de julho em Sanbao, uma comunidade remota no noroeste, com 52,2 graus Celsius. Um pouco mais tarde, a Catalunha registrou o dia mais quente desde o início dos registros meteorológicos, as temperaturas noturnas mais altas até o momento foram registradas nas Ilhas Cayman, no oeste do Caribe, e o maior tempo em que o termômetro não caiu abaixo de 32 graus em Phoenix (EUA estado do Arizona).

Em muitos lugares, não há dúvida de um verão normal no hemisfério norte este ano. Grandes regiões inteiras estão sob o chamado domo de calor há semanas – isso ocorre quando uma área de alta pressão se instala sobre uma região e retém o calor ali. Como sempre acontece com um evento climático extremo, muitos querem saber se ele é causado pela mudança climática. Essa é a pergunta errada, escreve o meteorologista Karsten Haustein, da Universidade de Leipzig, em uma análise da Helmholtz Climate Initiative. “A correta é: que papel a mudança climática desempenha na frequência de tais eventos?”

É exatamente disso que trata a World Weather Attribution Initiative (WWA). A associação internacional de pesquisadores chegou a uma conclusão clara em um estudo apresentado na terça-feira: um evento como o atual na região dos EUA/México pode ser esperado atualmente a cada 15 anos, no sul da Europa a cada dez anos e na China a cada cinco anos. “Sem a mudança climática causada pelo homem, esses eventos de calor teriam sido extremamente raros”, escrevem os pesquisadores. Na China, tal evento teria ocorrido cerca de uma vez a cada 250 anos, enquanto o pico de calor como julho de 2023 na região dos EUA/México e no sul da Europa seria praticamente impossível. “O resultado deste estudo não é surpreendente”, diz Friederike Otto, cientista do clima do Imperial College London: “O mundo não parou de queimar combustíveis fósseis, o clima continua a aquecer e as ondas de calor estão a tornar-se mais extremas. Tão simples como isso.”

As outras descobertas do trabalho: nem todas as ondas de calor são iguais. Os autores da WWA calcularam que as ondas de calor extremas no clima de hoje são 2,5 graus mais quentes no sul da Europa, 2 graus na América do Norte e cerca de 1 grau na China do que seriam sem as mudanças climáticas causadas pelo homem. E em um mundo 2 graus mais quente que o clima pré-industrial, ondas de calor como a atual ocorreriam a cada dois a cinco anos.

O estudo da WWA usa os insights da pesquisa de atribuição, que avalia as contribuições relativas de vários fatores causais para uma mudança ou evento climático e fornece confiança estatística. As probabilidades de alterar o risco de eventos climáticos extremos são determinadas no computador com base em séries de dados meteorológicos e inúmeras simulações de modelos climáticos. Os pesquisadores de atribuição agora podem fornecer suas análises apenas alguns dias após um evento. Inevitavelmente, esses estudos ainda não foram verificados de forma independente. Isso às vezes causa críticas entre os cientistas, que dizem que o rigor é sacrificado ao ritmo da mídia. No entanto, a metodologia agora é amplamente aceita e estudos importantes foram posteriormente revisados ​​por pares em periódicos revisados ​​por pares.

No entanto, os modelos meteorológicos têm dificuldades com a atribuição das cúpulas de calor. Normalmente, eles estão associados ao comportamento da corrente de jato, uma faixa de ventos rápidos na atmosfera que geralmente serpenteia de oeste para leste. À medida que esses loops ficam maiores, eles se movem mais lentamente e podem parar. O calor pode então se acumular, como é o caso atualmente com as atuais ondas de calor extremo. Uma conexão com a mudança climática é suspeita por alguns, mas não há confirmação até agora.

Os pesquisadores de atribuição se fazem menos perguntas técnicas. De qualquer forma, a WWA não faz apenas uma análise científica, os autores também querem alertar e apontar as consequências para os grupos vulneráveis: “O calor extremo é mortal e está aumentando rapidamente”, diz Julie Arrighi, diretora do centro climático da Cruz Vermelha . É crucial fortalecer os sistemas de alerta, planos de ação contra o calor e investimentos em medidas de adaptação de longo prazo. “Para salvar vidas em calor extremo, devemos cuidar dos mais vulneráveis ​​– incluindo idosos, pessoas com condições médicas subjacentes, sem-teto e comunidades com acesso limitado a espaços frescos”.

No entanto, em 2023 não só os eventos extremos atuais vão se destacar, mas também no que diz respeito à temperatura média global. Avaliações da autoridade de apostas dos EUA, NOAA, e do serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, mostraram que este ano teve o mês de junho mais quente até agora. Segundo a última estimativa do climatologista-chefe da agência espacial norte-americana Nasa, Gavin Schmidt, julho de 2023 será, inclusive, o mês mais quente do mundo por “centenas, senão milhares de anos”. O ano como um todo também deve ser um dos mais quentes até o momento. E em meados de maio, a Organização Meteorológica Mundial WMO calculou uma probabilidade de dois terços de que pelo menos um dos anos de 2023 a 2027 quebrará o limite de 1,5 grau do acordo climático de Paris. Este ano, em relação ao período pré-industrial, um estará entre mais 1,

Especialmente porque existem outras ondas de calor que estão tendo um grande impacto no clima global: temperaturas anormalmente altas foram registradas no Pacífico e no Atlântico Norte por vários meses. Até o Mar do Norte estava temporariamente cinco graus acima do normal. Ao mesmo tempo, pela primeira vez em sete anos, é muito provável que se desenvolva a anomalia climática do El Niño, que fará com que o Pacífico tropical aqueça significativamente, o que deve ser perceptível nas temperaturas globais e eventos climáticos extremos pelo final deste ano, o mais tardar. Eric Achterberg, do Geomar Helmholtz Center for Ocean Research Kiel, vê uma conexão direta entre as ondas de calor no mar e na terra. “Parece que as ondas de calor marinhas locais são causadas por temperaturas atmosféricas muito aumentadas”, explica ao “nd”. As ondas de calor marinhas ocorrem na superfície ou em águas costeiras rasas. Para ele, também, os efeitos do El Niño são “óbvios”, pelo menos no oeste da América e no leste da Ásia. Apesar dos extremos, o investigador marinho assume que o oceano “continuará a funcionar como um enorme amortecedor de calor”.

Também é importante para Friederike Otto ressaltar que, apesar das atuais ondas de calor, não há evidências de aquecimento descontrolado ou mesmo de colapso climático. “Ainda temos tempo para garantir um futuro seguro e saudável, mas precisamos urgentemente parar de queimar combustíveis fósseis e investir na redução da vulnerabilidade”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].