Com “esquerdistas” como Randolfe Rodrigues, quem precisa de extrema-direita?

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Após rigorsa avaliação técnica, o Ibama negou o pedido de licença ambiental feito pela Petrobras para explorar petróleo na área do foz do Amazonas, região de extremo valor social e ecológico. Essa decisão protege, entre outras coisas, o sistema de recifes de corais de extrema singularidade que foi descoberto faz poucos anos com a participação de membros do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sob a liderança do professor Carlos Eduardo de Rezende.

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Pois bem, quem já leu alguma matéria sobre este assunto sabe que a rejeição do Ibama se deveu à baixa qualidade dos documentos técnicos apresentados pela Petrobras, como está estabelecido na legislação que (ainda) rege o processo de licenciamento ambiental no Brasil. De toda forma, essa decisão poupa o Brasil de perdas econômicas graves que decorreriam de uma exploração de petróleo que iria de encontro com todas as promessas feitas pelo presidente Lula em suas múltiplas viagens internacionais em que ele garante aos parceiros internacionais que irá proteger os ambientes amazônicos.

Obviamente já se esperava que essa decisão gerasse oposição já que contraria fortes interesses econômicos das elites regionais e também das corporações multinacionais que junto com a Petrobras querem explorar petróleo naquela região. Mas o que a maioria das pessoas esperava é que um dos primeiros a pisar fortemente nas tamancas fosse o senador amapaense Randolfe Rodrigues,  membro do partido conhecido como Rede cuja plataforma é voltada, em tese, para o uso sustentável dos recursos naturais. Aliás, era da Rede, pois Rodrigues acaba de anunciar que está se retirando do partido muito em função do apoio da ministra Marina Silva à decisão técnica do Ibama. Ao que tudo indica, Rodrigues será mais um que voltará ao ninho que o abrigou inicialmente, isto é o PT.

Inconformado com a decisão do Ibama, Rodrigues (que já foi do PT e do PSOL, antes de ser da Rede e agora deixando o partido em que está abrigado desde 2015), usou sua conta no Twitter para atacar a agência ambiental por uma decisão que é tecnicamente correta (ver imagem abaixo).

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Confesso que nunca me emocionei muito com as idas e vindas de Randolfe Rodrigues, mas não esperava que ele saisse a campo para se comportar como um político bolsonarista. É que essa postura de alegar desrespeito ao povo do Amapá reflete uma completa ignorância do processo de licenciamento, na medida em que a consulta popular consta efetivamente do processo de licenciamento, mas não ocorrerá neste caso por culpa da pobreza técnica dos documentos apresentados pela Petrobras.

Mas uma coisa é certa: com essa postura em prol de uma atividade que iria causar graves danos socioambientais, Randolfe Rodrigues nos ajuda a entender como certas leis passam lisas e leves pelo Senado Federal. É que tudo indica que, em que pesem os acalourados pronunciamentos de palanque, na hora fatal a visão de desenvolvimento econômico que a esquerda que Randolfe Rodrigues representa não é assim tão diferente da extrema-direita. 

Por último, há que se saudar e apoiar os técnicos do Ibama que emitiram o parecer que impediu (ao menos por enquanto) a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. As populações tradicionais e o meio ambiente daquele região estão em completo débito com esses profissionais.

Na cidade do Porto do Açu, 43% dos habitantes dependem do “Bolsa Família” para ter (alguma) renda

Beneficiários do Bolsa Família x Percentual de Habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra de março de 2023 

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Por José Alves Neto

O gráfico abaixo apresenta os dados dos beneficiários do programa federal de transferência direta e indireta de renda, denominado de Bolsa Família, e o percentual em relação ao número de habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra, que hoje, fazem parte desse relevante instrumento de inclusão social, segundo a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (SENARC), do mês de março de 2023.

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No caso de Campos, por exemplo, estão no programa 31,60% dos seus 514.643 habitantes.

Em Macaé, os beneficiários chegam a 20,10% de 266.136 habitantes.

E em Rio das Ostras e em São João da Barra, os percentuais, são respectivamente, de 23, 97% de 159.529 habitantes e de 43,02% de 36.731 habitantes.

Diante desses números vergonhosos, observa-se, todavia,  São João da Barra, exibiu no mês de março de 2023, o pior índice. Logo, o município que tem no seu território, um dos maiores investimentos do mundo, o Porto do Açu, que se orgulha de ter investido desde 2014 o total de R$ 20 bilhões, conforme o site (https://portodoacu.com.br/o-porto/)

É um verdadeiro paradoxo. Em face desse cenário, uma pergunta não quer calar: cadê o desenvolvimento econômico e social do município sanjoanense? 


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Este texto foi inicialmente publicado no “Blog do Zé Alves Neto” [Aqui!].

‘Downwind’ abre Uranium Festival, denunciando os efeitos dos testes atômicos dos EUA sobre os indígenas Shoshone

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Chuva radioativa em terra indígena: Novo filme ‘Downwind’, que explora as trágicas consequências dos testes de bombas atômicas dos EUA, estreia na Cinemateca do MAM Rio nesta quinta-feira, 18 de maio

Por Uranium Film Festival

Japão, Hiroshima, Nagasaki, Atol de Bikini, Ilhas Marshall, Mururoa, …? As pessoas mais bombardeadas com armas atômicas na terra são os indígenas Shoshone. Mais de 900 testes nucleares foram realizados em seu território em Nevada, a oeste de Las Vegas.

“Em 27 de janeiro de 1951, o primeiro teste nuclear ocorreu em nossa terra, quando uma bomba atômica de um quilotonelada foi lançada de um avião sobre nós”, disse o líder e ativista do Shoshone, Ian Zaparte. “Nos 40 anos seguintes, nosso território se tornou o principal local de teste para armas nucleares americanas.“

Ao todo, 928 bombas nucleares explodiram no território Shoshone – 100 na atmosfera e mais de 800 no subsolo.

Zaparte: “Quando os EUA lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima, em 1945, 13 quilotoneladas de precipitação nuclear (denominada de “fallout“) choveram sobre a cidade japonesa. De acordo com um estudo de 2009, publicado no Nevada Law Journal, entre 1951 e 1992, os testes realizados em nossa terra causaram 620 quilotoneladas de “fallout“ nuclear.“

A precipitação radioativa desses testes cobriu uma ampla área nos EUA, mas foram as comunidades indígenas que vivem na direção a favor do vento (“downwind)“ que foram mais expostas.

“Porque consumimos animais selvagens contaminados, bebemos leite contaminado, vivemos em terras contaminadas com radioatividade”, explica o líder Shoshone. “Os pinheiros que usamos para alimentação e aquecimento foram contaminados radioativamente, as plantas que usamos para alimentação e remédios foram expostas, os animais que usamos para alimentação foram expostos. Fomos expostos à radioatividade.“

Durante décadas, essa história foi mantida em segredo pelo governo dos Estados Unidos. Agora, o novo documentário “Downwind”, com Ian Zaparte, traz isso à tona. Em janeiro deste ano, “Downwind”, de Mark Shapiro e Douglas Brian Miller, estreou no Slamdance Film Festival, nos Estados Unidos. E nesta quinta-feira, 18 de maio, tem sua estreia na América Latina, no 12º International Uranium Film Festival no Rio de Janeiro, na Cinemateca do MAM Rio. Até 28 de maio, este festival de cinema único no mundo sobre a era atômica exibirá 16 filmes de 15 países sobre energia nuclear e riscos radioativos.

“Downwind“, um exame arrepiante da história dos testes nucleares da América e o efeito que esses testes tiveram sobre as pessoas, comumente conhecidas como downwinders, é o filme de abertura deste festival carioca.

“O governo deliberadamente expôs pessoas, identificadas como segmentos da população de ‘baixa significância’ – nativos americanos e famílias mórmons – em documentos do governo”, disse o diretor Mark Shapiro. Entre os vítimas do “fallout“ das bombas atômicas, também estavam estrelas de Hollywood, como o legendário John Wayne.

Um dos lugares mais radioativos contaminados foi St. George, o local de filmagem do filme “O Conquistador”, um épico de guerra estrelado por John Wayne, como o imperador mongol Genghis Khan, produzido em 1954. Um ano antes das filmagens, uma bomba nuclear de 32 quilotons — que mais tarde ficou conhecido como “Dirty Harry” – detonou sobre Yucca Flats, Nevada. Em 1980, foi relatado que cerca da metade do elenco e da equipe de “O Conquistador” foram diagnosticados com algum tipo de câncer, incluindo John Wayne, as co-estrelas Susan Hayward e Agnes Moorehead e o diretor Dick Powell.

“Downwind” destaca um capítulo incrivelmente trágico e esquecido da história americana. “As pessoas têm que saber, porque, como não repetir os erros do passado se não os reconhecemos?” diz Mark Shapiro. O narrador do filme é o ator e ativista Martin Sheen, que tem protestado contra armas nucleares por décadas. Entre os entrevistados estão também o famoso ator, produtor e ativista contra armas nucleares Michael Douglas e o filho de John Wayne, Patrick.

Convidamos a todos para a abertura do festival, MAM Rio, dia 18 de maio, às 18h30.

Sobre o Festival: O International Uranium Film Festival foi fundado, em 2010, no Rio de Janeiro, e aconteceu pela primeira vez em 2011, em Santa Teresa.  Ele é dedicado a todas as questões nucleares e toda a cadeia do combustível nuclear, da mineração de urânio ao lixo nuclear, da guerra atômica aos acidentes nucleares. Uranium Film Festival foi criado para nos mantermos a salvo dos riscos da radioatividade da Era Atômica. É um festival pela vida! Desde 2012, o festival é realizado na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM Rio). Além disso, viaja todos os anos com uma seleção de filmes para outros países. Até hoje, mais de 70 mostras do Uranium Film Festival aconteceram em mais de 40 cidades, em nove países: Brasil, EUA, Canadá, Alemanha, Índia, Jordânia, Portugal, Dinamarca e Noruega.  Em 2016, quando aconteceu pela primeira vez em Hollywood, o International Uranium Film Festival ganhou o nome “Atomic Age Film Festival“ – Festival de Cinema da Era Atômica.

Site e Programa do Festival

https://uraniumfilmfestival.org
https://uraniumfilmfestival.org/pt-br/rio-2023-programacao

Foto: Liderança Shoshone Ian Zabarte


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Este texto foi inicialmente publicado no site “Racismo Ambiental” [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia cai 36% de janeiro a abril, mas é o 3º maior desde 2008

Devastação no primeiro quadrimestre chegou aos 1.203 km², ficando atrás apenas de 2021 e 2022

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A derrubada da floresta amazônica teve uma queda de 36% no primeiro quadrimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2022. Porém, isso ainda não foi suficiente para tirar 2023 do pódio das maiores áreas desmatadas de janeiro a abril em 16 anos.

Conforme o monitoramento por satélites do Imazon, a destruição acumulada no período chegou aos 1.203 km², a terceira maior desde 2008, quando a medição foi implantada. Este ano só não teve os piores primeiros quadrimestres do que 2021 e 2022, quando a devastação aumentou expressivamente na região.

Apenas em abril, a queda no desmatamento chegou aos 72%, passando de 1.197 km² em 2022 para 336 km² em 2023. Diminuição que precisa seguir durante o chamado “verão amazônico”, época de seca na região, que inicia entre maio e junho, quando a derrubada costuma ser maior.

“Essa redução observada em abril é positiva, porém a área desmatada ainda foi a quarta maior desde 2008 para o mês. Isso indica que precisamos implantar ações emergenciais de fiscalização, identificação e punição aos desmatadores ilegais nos territórios mais pressionados, focando nas florestas públicas que ainda não possuem uso definido e nas áreas protegidas, principalmente com a chegada do verão amazônico, onde historicamente o desmatamento tende a aumentar”, afirma Larissa Amorim, pesquisadora do Imazon.
 

Roraima e Tocantins apresentaram aumento na devastação

Embora o desmatamento acumulado tenha apresentado queda na Amazônia, Roraima e Tocantins tiveram alta em seus territórios. E a situação mais crítica ocorreu em Roraima, onde a devastação passou de 63 km² de janeiro a abril de 2022 para 107 km² no mesmo período deste ano, uma alta de 73%.

Pressão que tem afetado tanto terras indígenas, como a Yanomami e a Manoá/Pium, como assentamentos roraimenses, como o Paredão, o Caxias e o Taboca, todos territórios entre os 10 mais desmatados em suas categorias em abril. Já Tocantins apresentou um crescimento de 25% no desmatamento, passando de 4 km² de janeiro a abril de 2022 para 5 km² no mesmo período deste ano.

Mato Grosso, Amazonas e Pará seguem com as maiores áreas derrubadas

Apesar de terem registrado queda no desmatamento, Mato Grosso, Amazonas e Pará seguem como os estados com as maiores áreas derrubadas na Amazônia. De janeiro a abril deste ano, Mato Grosso devastou 400 km² de floresta, Amazonas 272 km² e Pará 258 km², o que representa 33%, 23% e 21% do total na região. Ou seja: juntos, esses estados foram os responsáveis por 77% da floresta destruída no primeiro quadrimestre de 2023.

Desmatamento por estado no primeiro quadrimestre de 2023

Estado Janeiro Fevereiro Março Abril Soma % em relação ao total
Mato Grosso 85 157 86 72 400 33%
Amazonas 21 55 104 92 272 23%
Pará 23 63 91 81 258 21%
Rondônia 18 21 22 52 113 9%
Roraima 41 19 28 19 107 9%
Maranhão 5 2 9 13 29 3%
Acre 3 7 3 5 18 2%
Tocantins 1 1 1 2 5 0%
Amapá 1 0 0 0 1 0%
Amazônia 198 325 344 336 1203 100%

Fonte: Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Imazon

Em abril, o estado que liderou a destruição foi o Amazonas, com 92 km². Desse total, 77 km² (84%) foram desmatados somente em cinco municípios da região sul: Canutama, Lábrea, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã. Além disso, o estado teve a terra indígena mais desmatada da Amazônia, a Tenharim Marmelos (Gleba B), que fica nos municípios de Humaitá e Manicoré.

“Estamos reiteradamente alertando sobre o avanço do desmatamento no sul do Amazonas, na região de divisa com os estados do Acre e Rondônia, conhecida como Amacro, onde atualmente existe uma forte pressão pela expansão agropecuária. São necessárias medidas urgentes de fiscalização e destinação de terras públicas no local para evitar novas derrubadas, como infelizmente estamos vendo todos os meses”, alerta Bianca Santos, pesquisadora do Imazon.

Segundo estado que mais desmatou a Amazônia em abril, com 81 km², o Pará vem sendo destaque negativo na defesa de suas áreas protegidas. Sob cuidado do governo do estado, a APA Triunfo do Xingu foi a unidade de conservação mais desmatada em toda a região, com a perda do equivalente a 500 campos de futebol de floresta (5 km²) apenas em abril. No mês anterior, em março, o território também teve uma área do mesmo tamanho derrubada, somando 10 km² de devastação em apenas dois meses.

“Outra unidade de conservação estadual onde o desmatamento avançou em abril foi a APA do Tapajós, onde 2 km² foram derrubados, o equivalente a 200 campos de futebol. Juntas, essas duas APAs paraenses concentraram 58% de toda a derrubada ocorrida em unidades de conservação na Amazônia em abril. Ou seja, são territórios que necessitam de ações urgentes de retirada dos invasores ilegais”, informa Raíssa Ferreira, pesquisadora do Imazon.

Já em Mato Grosso, onde 72 km² de floresta foram derrubados em abril, o desmatamento está avançando por diferentes pontos da região norte. Entre os municípios, o que mais desmatou foi Peixoto de Azevedo, com 15 km², o correspondente a 21% de toda a destruição registrada no estado.

“Outro ponto negativo é o avanço na devastação dentro de áreas protegidas de Mato Grosso, como as unidades de conservação Resex Guariba-Roosevelt e Esec do Rio Roosevelt, e as terras indígenas Sete de Setembro, Sararé e Kayabi”, comenta Larissa.

Rondônia tem 4 das 10 UCs mais desmatadas

Quarto estado que mais destruiu a Amazônia tanto no primeiro quadrimestre deste ano (113 km²) como apenas em abril (52 km²), Rondônia também tem tido destaque negativo em relação às áreas protegidas. Em abril, o estado teve quatro das 10 unidades de conservação mais desmatadas na Amazônia: PES de Guajará-Mirim, Resex Jaci Paraná, Resex Rio Preto-Jacundá e Resex Angelim.
 

Em Rondônia, 46% da devastação ocorrida em abril se concentrou dentro da capital, Porto Velho, que ficou como o segundo município mais desmatado da Amazônia. Além disso, o estado também teve a terceira terra indígena mais destruída da região, a Igarapé Lage.
 

Confira os dados completos aqui
Entenda o monitoramento do Imazon aqui

IAgora: inteligência artificial e alienação

Aquilo que a IA acessa em seu banco de dados não é a inteligência artificial, mas o conjunto de saberes e experiências humanas objetivadas, distanciadas de seus criadores e que voltam a ele como uma força hostil que os ameaça. Em outras palavras, aliena-se

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Por Mauro Iasi para o Blog da Boitempo

“O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda”

Gilberto Gil (Cérebro eletrônico, 1969)

Em uma brilhante charge, que infelizmente não sei quem é o autor, vemos uma pessoa perguntado a outra se ela se preocupa com o avanço da inteligência artificial e o outro responde que não, que se preocupa mais com o retrocesso da inteligência natural.

Não foram poucas as reações diante de aplicativos que prometem textos sobre qualquer assunto, desenhos criativos, fotos forjadas, debates sobre o sentido da vida ou da filosofia ou da sociologia ou da arte culinária, poemas e letras de música, tudo isso diante de um mero comando e certos indicativos daquilo que se deseja. Expoentes das empresas lançaram uma carta manifesto contra os perigos da IA e pediram um tempo, não se sabe se para poder entrar na concorrência ou pensar nas dimensões supostamente éticas de tal desenvolvimento tecnológico.

Outros mais pragmáticos lançaram livros, como por exemplo um que apresenta um manual de como escrever romances de sucesso usando o famoso aplicativo, não sabemos se escrito por aquele que se denomina autor ou pelo aplicativo. De qualquer maneira, estranhamente apresentado na forma impressa, naquilo que os mais antigos chamariam de “livro”. Neste pequeno manual se afirma que o pretendente a autor deve oferecer ao aplicativo um tema, protagonistas e personagens, uma linha de desenvolvimento da trama e outras dicas para que a inteligência artificial escreva por ele o romance.

Duas coisas nos chamam a atenção de pronto. Em primeiro lugar, o fato de as buscas e pesquisas sobre inteligência artificial já terem uma história bastante antiga, provavelmente nos anos 1950, despertando eufóricas esperanças e dúvidas éticas desde sempre. Aristóteles, desde a longínqua Antiguidade, já ironizava que se os instrumentos pudessem se mover sozinhos não seriam necessários escravos, evidentemente para, diante do absurdo de tal premissa, justificar a escravidão como necessária e natural. Hannah Arendt, diante dos avanços tecnológicos presenciados nos anos 1950, atualiza a premissa de seu mestre, agora não como ironia, mas como base para a sombria previsão que em poucos anos as fábricas se esvaziariam e a condição humana se veria diante do dilema catastrófico de uma sociedade fundada no trabalho que elimina o emprego.

A segunda ordem de reflexão nos remete a um mito ainda mais antigo, que marca a sociedade moderna. Refiro-me aqui ao receio de que as obras humanas fujam ao controle e se voltem contra seus criadores. Este medo atávico se apresenta de forma recorrente, tal como se expressa no clássico Frankenstein: o Prometeu moderno (1818) de Mary Shelley, no também clássico desespero de Mickey Mouse tentando controlar vassouras que colocou em movimento para evitar seu trabalho no filme da Disney, Fantasia (1940), sem nos esquecermos da premissa fundamental da saga Matrix (1999, 2003 e 2021), em que as máquinas substituíram os seres humanos (Animatrix, 2003).

No caso de Mary Shelley, não por acaso filha da filósofa feminista Mary Wollstonecraft, quando de uma estadia chuvosa com seus amigos divertindo-se no Lago de Genebra, contando histórias de terror e discutindo os estudos de Eramus Darwin (cientista e poeta do século XVIII, avô de Charles Darwin), que afirmava ter movido matéria morta por meio da eletricidade, teve a ideia de um conto que acabou tornando-se o famoso romance sobre Frankenstein. Sobre a ideia, a autora afirmou um tempo depois que seria “terrível, extremamente assustador o efeito de qualquer esforço humano na simulação do estupendo mecanismo do Criador do mundo”.

No entanto, tudo que a humanidade tem feito até hoje no desenvolvimento da tecnologia pode ser descrito como a sina de Prometeu, o subtítulo da obra de Shelley. Ele, diz a lenda, ficou encarregado pelos deuses de criar o homem a partir do barro (no qual observamos que a terceirização e o plágio são coisas antigas), mas acabou roubando o fogo dos deuses para oferecer aos homens e por tal crime foi condenado a ficar preso em um rochedo tendo seu fígado devorado e recriado para ser devorado novamente por abutres.

O ser humano é um ser que faz instrumentos para complementar sua anatomia natural precária, compensando seus dentes retos, a falta de garras e força, com machados de pedra, flechas e lanças. Para tanto, lança mão de duas características naturais da espécie: os polegares opositores e um telencéfalo altamente desenvolvido. Com isso desenvolveu, como afirma Marx, uma atividade exclusiva do gênero humano: o trabalho. Para o pensador alemão, o trabalho exige a capacidade teleológica, isto é, a incrível capacidade de antever o resultado desejado em seu cérebro, interessantemente a raiz do nome Prometeu (aquele que vê antes).

O cérebro humano tem a capacidade armazenar informações e associá-las, quando necessário, por isso pode responder às necessidades usando sua experiência anterior e sua habilidade com as mãos criando instrumentos e técnicas diversas.

O que faz a chamada Inteligência Artificial? Em princípio, ela busca informações e as associa de acordo com a necessidade de responder a algo ou alguém. Este seria o aspecto da inteligência, o caráter artificial é que ela não busca isso usando um cérebro que armazena pessoalmente experiências, ela busca em um banco de dados previamente alimentado de informações por meio de circuitos e algoritmos.

O grande salto desta ferramenta, dizem os especialistas, é que em comparação com as formas computacionais anteriores, que também buscavam dados e os associavam para executar tarefas,  elas podem (ou mais precisamente estão se desenvolvendo para tanto) aprender. Em outras palavras, acumular “experiências” que possam ser usadas em outras situações. A grande dificuldade neste campo, segundo ainda aqueles que entendem do assunto e que diferem de uma malta de palpitadores, é que os computadores não erram e o erro é um caminho importante da inteligência.

Existe uma sintonia muito fina na ação humana, que faz com que pela experiência a ação seja corrigida e assim aperfeiçoada, guardando-a na memória e aplicando quando exigida. Um cientista pesquisador da IA fez um teste interessante. Ele jogava uma bola para uma pessoa. Alterando aleatoriamente e com movimentos pequenos a trajetória da bola, a pessoa rapidamente conseguia pegá-la, corrigindo a posição das mãos e do seu corpo. Já para a máquina, isto implica em uma série de comandos pré-programados e a capacidade ver que a bola está vindo alguns milímetros para um lado ou outro, que não podem ser antecipados, isto é, a maquina tinha que aprender. Bom, é isso que o desenvolvimento da IA busca. Interessante notar que todo desenvolvimento da técnica foi para fazer o que nós como humanos não poderíamos fazer, mas agora seria para fazer aquilo que só nós como humanos fazemos. Estranho.

Mas, por que isto deveria nos assustar? Certamente existe uma série de funções muito úteis para este desenvolvimento tecnológico, desde controle de tráfego aéreo até pedir para a caixinha de som tocar sua música predileta.

Em sua bela cnação da década de 1960, Gilberto Gil procura destacar o que o distingue do cérebro eletrônico. Já no início da música, diz o querido Gil que o cérebro eletrônico “faz quase tudo, mas ele é mudo” e logo depois, em outra parte da letra, afirma que ele “comanda, manda e desmanda”, mas ele “ não anda”. Ora, hoje podemos dizer que a Alexa e alguns robôs estão aí para provar que falam e andam. Parece que alguns aplicativos podem estabelecer até uma interessante conversa sobre se deus existe ou juntar todas as informações disponíveis sobre o tema da morte e talvez oferecer reflexões pertinentes ou simulações de conforto espiritual para avançarmos em nosso caminho inevitável para a morte.

O receio atualizado, fiel à premissa de Arendt, é que tal capacidade venha a substituir os seres humanos. Já aparecem listas de profissões que estarão extintas com a generalização da IA, que incluem atendentes de telemarketing e de atendimento ao cliente, sociólogos, fotógrafos, jornalistas, tradutores, pesquisadores, analistas de dados, assistentes jurídicos, terapeutas e psicólogos, educadores físicos, nutricionistas, entre outras. A previsão, no caso de pesquisadores, é de um ano. Achei interessante que os filósofos não constam na lista, talvez por já serem considerados extintos.

Vamos com calma. Algumas chamadas profissões devem ser mesmo extintas, primeiro pelo fato de que não são profissões, como telemarketing ou serviços de atendimento ao cliente (previsão para desaparecerem de seis meses a um ano – acho muito), trabalhos extremamente precarizados que não oferecem nenhuma perspectiva profissional. Em segundo lugar, pelo fato de que algumas atividades são degradantes e emburrecedoras, por isso seria melhor que fossem relegadas a instrumentos ou algoritmos (que, diga-se logo, precisam melhorar muito – só quem sofreu com os autoatendimentos burros sabe do que se trata).

O que me chama a atenção é que o temor se fundamenta em uma total incompreensão do trabalho humano, reduzido a uma mera tarefa. Seria demais pedir que lessem Marx, mas já ajudaria ver a distinção realizada pela conservadora Hannah Arendt em seu livro sobre a condição humana entre labor e trabalho. O temor é uma expressão de nossos tempos de decadência, mas como tal é uma expressão fidedigna da materialidade miserável em que nos encontramos.

Se os instrumentos, além da mecanização de tarefas, desenvolverem a capacidade de guardar dados, relacioná-los para responder questões, aprenderem e serem capazes de simular experiência e memória, resta algo que parece ser desconsiderado: a intencionalidade. Em outras palavras o porquê de fazer tudo isso.

A resposta é que vivemos em tempos de subordinação real da vida e, portanto, do humano ao capital e ao processo de valorização do valor. Como tal, no auge da reificação na qual o humano se coisifica e as coisas se fetichizam. O lugar do ser humano na atividade do trabalho não se reduz a coisa na qual objetiva seu ser, nela está a intencionalidade e o fim último da coisa no consumo da substância última do  ser objeto, que é a satisfação de uma necessidade do corpo ou do espírito.

Pensando na perspectiva humana, nós seriamos o início e o fim de tal processo, mas subsumidos ao domínio do capital e do valor, nos tornamos meios do processo de valorização no qual a intencionalidade e o fim último é o capital e seu movimento de valorização. O capital é o sujeito e nós os meios de sua realização.

Aquilo que a IA acessa em seu banco de dados não é a inteligência artificial, mas o conjunto de saberes e experiências humanas objetivadas, distanciadas de seus criadores e que voltam a ele como uma força hostil que os ameaça. Em outras palavras, aliena-se. Aquilo que acessa não é mais que um instrumento que foi feito por seres humanos que nele se objetivaram e igualmente se alienaram. Tanto o instrumento tecnológico como o conjunto de dados é produto da inteligência humana que fica escondida em seu produto estranhado. Por precisão terminológica, a sigla IA deveria significar Inteligência Alienada.

O cérebro eletrônico agora fala e anda, pode discutir se deus existe ou o sentido da morte, pode até sistematizar um texto coerente sobre a teoria social marxiana e a possibilidade de uma revolução social, pode até assumir o comando e nos considerar obsoletos, inúteis e nos destruir como em O Exterminador do Futuro (1984) ou em 2001: uma odisseia no espaço (1968), quem sabe. No entanto, o sujeito desta ameaça não é a tecnologia, mas uma classe que transformou os meios necessários à vida em mercadorias e estas em veículos de valor e mais valor. O capital é a força estranhada que pode decidir se vivemos ou morremos, se produziremos vida ou morte. Por trás do capital existe uma classe que tem por interesse manter o processo de acumulação: a grande burguesia monopolista.

Há, ainda, um último elemento neste processo de alienação, aquilo que Marx e depois Lukács chamaram de “decadência ideológica”. Se a tecnologia é uma objetivação da inteligência humana, foi também um meio de desenvolvê-la. Agora, sob o invólucro das relações que constituem a sociedade do capital no máximo de seu desenvolvimento, ela se transforma em seu contrário, passa a constituir uma barreira para o desenvolvimento do saber humano. A ingenuidade decadente imagina um conjunto de dados e um instrumentos de busca, ambos isentos de interesses e valores, mas o simples uso de uma ferramenta de busca demonstra a falácia de tal neutralidade objetiva.

Um aplicativo pode fazer um texto adequado sobre os fundamentos da sociologia e seus três autores fundantes – Marx, Durkheim e Weber –, mas o preguiçoso aluno apreenderá algo ao pedir que a máquina faça seu trabalho? Graças ao aplicativo, até um imbecil pode escrever um romance, mas continuará um imbecil. Há uma diferença entre associar palavras dispersas e dar a isto um formato de um texto ou uma imitação de produção intelectual, porque esta implica a intencionalidade e a subjetividade do autor que ao contribuir com o saber coletivo engrandece a si mesmo. Subsumido à ordem da mercadoria e do capital, como dizia Marx, quanto mais o trabalhador realiza a mercadoria, mais se desrrealiza.

No caso sobre o qual nos debruçamos, o preguiçoso e suposto autor que só pede que a máquina reúna os dados existentes e previamente armazenados, sem acrescentar nada nem ao conhecimento coletivo nem a ele próprio: um algoritmo pode escrever um texto, mas nunca escrevera O Capital, pode escrever um romance, mas nunca escreverá As vinhas da ira. Pode. Pode juntar palavras belas em uma métrica perfeita, mas nunca será Maiakóvski, pode fazer uma música mas nunca poderá ser Caetano Veloso. E se um dia, por uma hipótese absurda o fizer, será para que enquanto máquina possa ser aquilo que nós, enquanto humanos, abdicamos de ser.

Sabe Gil… permita-me mexer em seus versos:

Nosso caminho não precisa ser para a morte
Porque somos vivos
Somos muito vivos e sabemos
Que cérebro eletrônico nenhum nos dá socorro
Com seus botões de plástico e seus olhos de vidro


Quais são os impactos das tecnologias em nossa sociedade? Que consequências enfrentamos com a concentração das principais ferramentas tecnológicas que regem a vida de milhões de pessoas no domínio de um punhado de empresas estadunidenses? De que maneira é possível relacionar algoritmos a racismo, misoginia e outras formas de violência e opressão?

Em Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana, Deivison Faustino e Walter Lippold entrelaçam tecnologia e ciências humanas, apresentando um debate provocador sobre diferentes assuntos de nossa era. Inteligência artificial, internet das coisas, soberania digital, racismo algorítmico, big data, indústrias 4.0 e 5.0, segurança digital, software livre e valor da informação são alguns dos temas abordados.

A obra se inicia com um debate histórico e conceitual sobre o dilema das redes e a atualidade do colonialismo para, em seguida, discutir as expressões “colonialismo digital” e “racismo algorítmico”. Ao fim, apresenta uma reflexão sobre os possíveis caminhos a seguir, partindo das encruzilhadas teóricas e políticas entre o hacktivismo anticapitalista e o pensamento antirracista radical. Para discutir a relação dialética entre tecnologia, dominação e desigualdade e propor pautas fundamentais a movimentos sociais, os autores dispõem, ao longo da obra, da contribuição de intelectuais como Frantz Fanon, Karl Marx, Julian Assange, Shoshana Zuboff, Byung-Chul Han, Marcos Dantas, entre outros.

A edição conta, ainda, com a colaboração de referências no debate nacional: a apresentação é de Sergio Amadeu, especialista em software livre e inclusão digital no Brasil; e o texto de orelha é deTarcízio Silva, pesquisador e um dos maiores nomes do hacktivismo brasileiro.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB.


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Este texto foi originalmente publicado pelo Blog da Boitempo [Aqui!].

Amazônia tem alta de 65% na área queimada de janeiro a abril

La Niña mais ameno pode ter contribuído para aumento, avaliam pesquisadores; acumulado foi divulgado pelo Monitor do Fogo nesta terça-feira (16)

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A Amazônia registrou alta de 65% na área queimada de janeiro a abril de 2023 em comparação com os quatro primeiros meses do ano anterior. O bioma teve 1,3 milhões de hectares atingidos pelo fogo, ou 91% de tudo o que queimou no Brasil no período. Divulgados nesta terça-feira, 16, os dados são do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Acesse o boletim mensal com os destaques de abril e do quadrimestre.

Pesquisadores avaliam que uma fase mais amena do evento climático La Niña, direcionada para o fim do fenômeno neste ano, seria, ao menos em parte, a explicação para os números elevados.

“Um dos fatores que pode ter contribuído para o aumento está relacionado à transição do La Niña, que durou três anos, para uma condição de neutralidade. O La Niña traz mais umidade para a Amazônia, o que dificulta a propagação do fogo. No entanto, é importante ressaltar que a relação entre esse fenômeno e a ocorrência de queimadas também pode ser influenciada por atividades humanas, práticas agrícolas, e políticas de prevenção e controle de incêndios, por exemplo”, diz Felipe Martenexen, pesquisador no IPAM.

Foco em Roraima

O fogo se concentrou em Roraima: o estado teve 72% de tudo o que queimou no país de janeiro a abril. Foram 1 milhão de hectares atingidos, 95% a mais que o registrado no mesmo período do ano passado. Mato Grosso e Pará vêm na sequência, com 113 mil hectares e 81 mil hectares queimados. Os três estados somaram 85% da área queimada no Brasil nos quatro meses.

Os municípios Normandia, Pacaraima e Boa Vista, todos em Roraima, tiveram a maior área queimada: 331 mil hectares, 245 mil hectares e 140 mil hectares, respectivamente.

“Em particular, a região do lavrado de Roraima representou cerca de 93% da área queimada no estado nesse período. O lavrado é caracterizado por campos abertos e vegetação rasteira, composta principalmente por gramíneas e arbustos, sendo mais adaptado ao uso do fogo. Nessa região, muitas plantas dependem do fogo para a liberação de sementes e remoção de competidores”, explica o pesquisador.

Brasil e Cerrado

O Brasil teve 1,4 milhões de hectares queimados de janeiro a abril, uma área 48% maior do que a registrada no mesmo período de 2022. De tudo o que queimou, 71% era vegetação nativa e 7,5% eram pastagens de uso agropecuário.

Segundo bioma mais queimado, o Cerrado teve 86 mil hectares atingidos pelo fogo, ou 7% da área queimada do país no período. É um aumento de 10% em relação a 2022. Metade do fogo, 43 mil hectares, ocorreu em abril.

“O bioma Cerrado apresenta os maiores índices de chuva nos primeiros meses do ano, o que resulta em menor área queimada. As queimas prescritas são realizadas durante esse período como parte da estratégia de prevenção de incêndios florestais do MIF, o Manejo Integrado do Fogo”, acrescenta Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM.

UFRJ promove evento sobre “produção intelectual na universidade e ChatGPT”

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A Câmara Técnica de Ética em Pesquisa (CTEP), instância consultiva do Conselho de Ensino para Graduados (CEPG) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), associada à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), convida a comunidade universitária para uma discussão sobre “Produção intelectual na universidade e Chat GPT: Novos tempos para a integridade acadêmica”.

O evento será realizado no dia 25 de maio de 2023, das 15:30 às 18h, em formato virtual (link para inscrição ao final desta mensagem). Haverá interpretação de libras.

Detalhes de acesso serão disponibilizados por e-mail no dia 24 de maio, um dia antes do evento.

O tema é de amplo interesse público e, no âmbito da produção intelectual na universidade, são inúmeras as oportunidades e desafios que incluem questões de natureza autoral e de integridade acadêmica de amplo interesse na comunidade universitária. Este evento explorará algumas dessas oportunidades e desafios nas atividades de ensino e pesquisa na graduação e na pós-graduação.

A PR-2 e a PR-1 estimulam a participação, especialmente de docentes e discentes.

Segue a programação:

  • “Produção intelectual na universidade e Chat GPT: Novos tempos para a integridade acadêmica” [25 de maio 2023 – 15:30-18h]
    Abertura (15 min) – Profa. Denise Freire (IQ/CCMN) – Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2); Prof. Marcelo de Pádula (FF/CCS) – Pró-Reitor de Graduação (PR-1); Profa. Sonia Vasconcelos (IBqM/CCS) – Coordenadora da CTEP
    Apresentação dos palestrantes (5 min)
  • Apresentação 1 (30 min) – Prof. Jesús Mena-Chalco – Centro de Matemática Computação e Cognição (CMCC); Escritório de Integridade em Pesquisa da UFABC – Universidade Federal do ABC (UFABC)
  • Apresentação 2 (30 min) – Prof. Renan Almeida – Programa de Engenharia Biomédica da COPPE/UFRJ; Membro da Subcâmara de Integridade em Pesquisa da CTEP/UFRJ (Vice-Coordenador)
  • Sessão de Debates com a Audiência (60 min) – Moderadores: Profa. Sandra Becker (Instituto de Relações Internacionais e Defesa/CCJE); Profa. Bianca Ortiz (Decania/CCS/UFRJ); Profa. Mariana Boechat (Decania/CCS/UFRJ); Ariane Roder (COPPEAD) – Superintendente Acadêmica de Pesquisa (PR-2)
  • Considerações Finais (10 min) – Prof. Edson Watanabe (PEE/COPPE)

Inscrições: (15 a 23 de maio de 2023): Aqui

Haverá Certificado de Participação – que deverá ser solicitado pelos participantes no final do evento. 

Petrobras muda política de preços dos combustíveis e FUP diz que o “pesadelo chegou ao fim”

Em quase sete anos de PPI, o gás de cozinha aumentou 223,8%, na refinaria, custando R$ 108, em média, no Brasil, para o consumidor. Antes do PPI, o botijão era R$ 55

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Rio de Janeiro, 16 de maio de 2023 – “Depois de quase sete anos assombrando o povo brasileiro, o pesadelo chega ao fim. Um dia para ser comemorado”, disse o coordenador- geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, aplaudindo o anúncio feito nesta terça-feira, 16, pelo presidente da Petrobrás, Jean Paul Prates, de nova estratégia comercial de preços dos combustíveis, em substituição ao mecanismo de preço de paridade de importação (PPI), implementado em 2016 por Michel Temer e mantido por Jair Bolsonaro.

“O governo Lula abrasileirando o preço dos combustíveis, conforme promessa de campanha. Com a nova política, o Brasil terá gás de cozinha, gasolina e diesel mais baratos, pois os custos nacionais de produção, em reais, entrarão na composição dos preços”, destaca Bacelar.

Ele explica que, com a nova política, o brasileiro deixa de pagar pelos combustíveis como se fossem importados, pois a Petrobrás, agora, não considera, apenas, a cotação do petróleo no mercado internacional e do dólar, e nem os custos de importação. “Afinal, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo, a Petrobrás tem grande parque de refino e utiliza majoritariamente petróleo nacional que ela mesma produz. Assim, com a nova política, reduz-se também a volatilidade de preços ao consumidor”, diz o dirigente da FUP.

A FUP e seus sindicatos lutam desde 2016 para derrubar o PPI, que promoveu no mercado interno repasses automáticos de aumentos de preços internacionais do petróleo, variação cambial e de custos de importação. Uma política que garantiu mega lucros à Petrobras e dividendos recordes a acionistas, em detrimento de investimentos.

Durante a vigência do PPI, de 15 de outubro de 2016 até hoje, 16 de maio, o preço do botijão de gás de cozinha de 13 quilos (GLP), na refinaria (produto mais demandado pela população de baixa renda), variou 223,8%, registrando 34 altas e 14 baixas. Enquanto isso, o barril do petróleo (em R$) subiu 61,9% no período e a inflação medida pelo IPCA/IBGE acumulou 36,6%. No mesmo período, a gasolina variou 112,7%, e o diesel, 121,5%, segundo cálculos do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese/subseção FUP), com base em dados da Petrobrás.

Antes da existência do PPI, entre janeiro de 2003 e 14 de outubro de 2016, o preço do GLP acumulou alta de 15,5%, com dois reajustes em treze anos – período no qual o barril do petróleo no mercado internacional, também convertido em Reais (R$), variou 95,2%.

“O gás de cozinha, para o consumidor, custava em média R$ 55,35 no Brasil, um dia antes da implantação do PPI, em outubro de 2016. O litro da gasolina era vendido a R$ 3,65. O diesel custava R$ 3,00”, lembra Bacelar. Hoje, segundo pesquisa da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o gás está em R$ 108,13, a gasolina em R$ 5,52 e o diesel em R$ 5,65.

Aluna da Unisinos faz descoberta rara na micropaleontologia

Novo gênero de microcrinóide foi descoberto durante triagem no ittt Oceaneon

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Bruna Poatskievick tem 27 anos e é estudante da graduação em Geologia da Unisinos Crédito: Arquivo pessoal

Uma aluna do curso de graduação em Geologia da Unisinos descobriu um novo gênero de microcrinóide, espécie que é parente dos atuais lírios-do-mar, mas em miniatura. O achado pode não chamar atenção da população em geral, mas é um fato marcante para a micropaleontologia. Estima-se que o Sergipecrinus reticulatus tenha vivido há cerca de 114 a 112 milhões de anos. A nova espécie recebeu esse nome por ter sido encontrada em uma rocha vinda do estado de Sergipe e ser a primeira deste gênero biológico.

A estudante da Graduação em Geologia, Bruna Poatskievick, de 27 anos, também triadora do itt Oceaneon, descobriu o fóssil durante a triagem — processo de separação dos microfósseis do restante do sedimento. Feito de forma manual, com um pincel, o método é feito com muita delicadeza, para não danificar nem perder o fóssil. O achado foi publicado no volume 145 da revista Cretaceous Research, especializada em pesquisas sobre o período Cretáceo.

Lírios-do-mar são crinóides e pertencem à classe Crinoidea do filo Echinodermata. Exclusivamente marinhos, esses animais podem viver em diversas profundidades nos oceanos de todo o planeta. Embora exista, no registro geológico, uma grande biodiversidade neste grupo, hoje, apenas algumas centenas de espécies são conhecidas.

Ao encontrar o Sergipecrinus, Bruna relata que, imediatamente, o microfóssil chamou a atenção pelo formato de estrela. “Esse fóssil contém muitas partes que podem ser desarticuladas — quando isso acontece, ele pode se perder e quebrar. Para entender, uma das pecinhas corresponde a um indivíduo — é como se encontrássemos várias ossadas humanas com crânios, assim, saberíamos que cada um corresponde a um indivíduo diferente. Dei a sorte de encontrá-los em uma preservação muito boa e de conseguir recuperar muitos indivíduos iguais. Assim, conseguimos classificar um novo gênero e espécie”, destaca a estudante.

O animal foi encontrado na Bacia de Sergipe-Alagoas, pioneira na produção de petróleo no Brasil. “A bioestratigrafia é um método de datação de rochas a partir dos microfósseis encontrados nelas — e isso contribui para identificar as idades das camadas de petróleo do ponto de vista geológico, uma vez que cada microfóssil existe em um período específico. No momento da perfuração de poços, isso faz toda a diferença porque, como o maquinário é muito caro, quanto mais rápido for o processo, melhor, e saber em qual idade geológica estamos é fundamental”, destaca Bruna.

Para identificar e nomear o bichinho, a estudante contou com o auxílio de Andy Gale, professor britânico de Geologia da Universidade de Portsmouth.

Os microcrinóides do tipo Roveacrinidae são originários do período Albiano (113 milhões de anos atrás). O Sergipecrinus data do período anterior, o Aptiano — de 125 até cerca de 113 milhões de anos –, mostrando que os Roveacrinidae são mais antigos do que se esperava.

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Alerta ao vice-prefeito: sonhos de reeleição poderão esbarrar no avanço da miséria extrema em Campos dos Goytacazes

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O normalmente pragmático vice-prefeito de Campos dos Goytacazes, Frederico Paes, parece ter sido picado pela mosca azul

Li em algum lugar uma previsão do vice-prefeito Frederico Paes de que o seu chefe (ou seria o contrário?), Wladimir Garotinho se encaminha para uma vitória em primeiro turno nas eleições municipais de 2024.

Pois bem, esse tipo de avaliação precoce já levou a muitos erros e tropeços na política, inclusive aqui mesmo em Campos dos Goytacazes. Basta lembrar quando o então candidato situacionista Geraldo Pudim perdeu uma eleição que o seu grupo político considerava ganha para Carlos Alberto Campista.

A verdade é que em política há sempre ter muito cuidado para que o otimismo exagerado não seja considerado soberba. Mas isso é só uma observação básica, pois existem outras considerações a serem feitas, especialmente um município em que a extrema miséria não para de crescer (aliás, cresce em ritmo exponencial).

É que o crescimento da miséria extrema sinaliza de forma enfática que, apesar de toda a propaganda oficial, o atual governo não age para elevar a condição de vida dos mais pobres. E, pior, com suas políticas que servem para a continuidade de um padrão que contribui para o avanço da miséria extrema serve como uma luva para os interesses daqueles que sempre beneficiaram dos ciclos virtuosos das finanças municipais.

Por outro lado, o atual deserto de candidatos viáveis para serem uma oposição eleitoral ao prefeito Wladimir Garotinho me parece meramente circunstancial, pois na guerra e na paz há sempre que se combinar antes com os russos. E eu vejo pelo menos uma possível candidatura que tem todo o potencial de mobilizar a juventude e segmentos populares campistas que é a da jovem professora Natália Soares do PSOL.  Para enxergar este potencial asta verificar o crescimento consistente da sua capacidade de angariar votos nas últimas eleições e mque participou com orçamentos bastante modestos. Se o PSOL não cair na besteira de lançá-la candidata a vereadora, ela tem tudo para exercer uma pressão real sobre as chances de reeleição de Wladimir Garotinho. E isso ssrá fato, mesmo se levando em conta a deficiente estrutura partidária e de cabos eleitorais que caracterizou as últimas participações eleitorais do partido em todo o Brasil.

Assim, alguém precisa avisar ao vice-prefeito Frederico Paes que há que se tomar muito cuidado com avaliações hiper otimistas para não se acabar no colo com mais um vexame como o que destruiu a carreira política de Geraldo Pudim (isto sem falar da surra implacável que Chicão Oliveira levou de Rafael Diniz).

Falo isso porque como ando mais pelas ruas do que em gabinetes refrigerados como faz Frederico Paz, e posso garantir que há mais razões para cuidado do que para certeza de vitória. Finalmente, como Frederico Paes parece entusiasmado com repetidas visitas de delegações chinesas, há que se lembrar do velho ditado que diz que “quem tem olho grande não entra na China”. Simples assim!