Às vésperas de repetir Operação Delaware, governo Castro é proibido pelo TCE de aplicar recursos do RioPrevidência no Banco Master

TCE proibiu que governo usasse recursos do Rioprevidência para investimentos no Banco Master

TCE proibiu que governo usasse recursos do Rioprevidência para investimentos no Banco Master – Foto: Reprodução/Redes 

Por Berenice Seara para “Tempo Real”

Às vésperas da votação na Assembleia Legislativa (Alerj), nesta terça-feira (14), do projeto de lei, de autoria do governo do estado, que autoriza a utilização de recursos de royalties e participações especiais do petróleo para o pagamento da dívida pública do estado com a União – valores atualmente repassados ao Fundo Único de Previdência Social do Rio (Rioprevidência) –, o Tribunal de Contas (TCE) proibiu o executivo estadual de investir o dinheiro em fundos administrados pelo Banco Master.

A decisão foi tomada diante do que o tribunal considera uma possível gestão irresponsável dos recursos destinados a aposentados e pensionistas do estado. O Banco Master é alvo de um inquérito da Polícia Federal que apura crimes contra o sistema financeiro, como gestão fraudulenta, e foi descredenciado para operar empréstimos consignados do INSS. Deputados já haviam alertado para a “gestão temerária” dos recursos.

O fundo é formado por descontos nos salários dos servidores e por receitas oriundas dos royalties do petróleo, que estavam sendo aplicados no Banco Master. A gestão dessa verba preocupa o Tribunal de Contas, que proibiu novos investimentos do Rioprevidência em instrumentos financeiros emitidos, administrados ou geridos pelo conglomerado ou até mesmo em outras instituições financeiras que também não atendam aos princípios da segurança, proteção e prudência financeira.

Em maio, o TCE já havia solicitado esclarecimentos ao Rioprevidência e alertado para a gestão dos recursos. Desde então, o tribunal afirma que o cenário de irregularidades se agravou. Em julho, foi identificado que cerca de R$ 2,6 bilhões, equivalente a 25% de todos os recursos aplicados pelo fundo, estavam expostos a títulos emitidos ou fundos administrados pelo Master.

Um dos exemplos da má gestão citados foi o aporte de mais de R$ 1 bilhão no Arena Fundo de Investimento, administrado pela Master S.A. Corretora. O fundo iniciou as operações em 18 de dezembro de 2024. No dia seguinte, o Rioprevidência realizou o primeiro aporte de R$ 50 milhões. Desde então, a unidade gestora do Rioprevidência vem fazendo aportes sucessivos, como único cotista no fundo.

Segundo o corpo técnico do TCE, a rentabilidade média do fundo fica abaixo até a da poupança, o que configura ausência de vantagem na operação. Os técnicos identificaram ainda aportes de mais de R$ 300 milhões de reais em letras financeiras, sem informações suficientes.

Em outra operação, identificada em junho, o fundo teria investido R$ 100 milhões, mas, em um mês, o investimento caiu para R$ 75 milhões, o que reforçou, segundo o TCE, indícios de má gestão dos recursos do regime previdenciário.

TCE aciona governador Cláudio Castro e Ministério Público; Rioprevidência nega irregularidades

Diante do risco para aposentados e pensionistas, o TCE comunicou o governador Claudio Castro (PL) e o Ministério Público (MP) para que tomem as providências necessárias.

Em resposta, o Rioprevidência afirmou que não fez nenhum aporte no Banco Master após o início do processo no TCE e que a decisão do tribunal foi divulgada sem que houvesse tempo ágil para a apresentação de esclarecimentos técnicos. O instituto declarou também que investiu aproximadamente R$ 960 milhões no Banco Master e não R$ 2,6 bilhões como divulgado pelo TCE e que a operação segue regular e adimplente. O Banco Master não se manifestou.


Fonte: Tempo Real

Comissão do Ambiente da ABGF emite declaração sobre participação efetiva dos atingidos nas discussões da COP30

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Declaração da Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF)

Pela participação efetiva dos atingidos pela crise climática nas discussões da COP30

A realização da COP30, em Belém, em novembro de 2025, ocorre em um momento decisivo para a humanidade. Diante da escalada da crise climática e do esvaziamento político das últimas conferências, a Comissão do Ambiente da AGBF reafirma que não há justiça ambiental sem a presença, a voz e o protagonismo dos mais atingidos — povos originais, comunidades tradicionais, ribeirinhos e trabalhadores rurais e urbanos que enfrentam cotidianamente os impactos dos extremos climáticos e das mudanças ambientais que se avizinham.

Esses povos e comunidades não devem ser meros “participantes” do debate: são sujeitos históricos e portadores de saberes e práticas de manejo e gestão territorial/ambiental que apontam caminhos reais para uma transição justa.  O processo de participação dos atingidos não pode se restringir a espaços simbólicos ou painéis paralelos; deve ser estruturante nas decisões e compromissos assumidos durante a COP30.

A Comissão do Ambiente da AGBF alerta que o formato atual das COPs favorece corporações, interesses financeiros e governos alinhados ao capital, perpetuando as causas da própria crise climática. No Brasil, as contradições são evidentes — como a abertura de novas fronteiras petrolíferas na Margem Equatorial e os projetos de infraestrutura que ameaçam florestas e territórios indígenas e tradicionais. Não basta “comparecer”: é preciso romper com o modelo que transforma a crise climática apenas em oportunidade de negócio.

Garantir a presença efetiva dos atingidos exige recursos materiais, segurança, respeito aos protocolos próprios de participação e compromisso com a demarcação de territórios e a reparação de danos históricos. A exclusão desses sujeitos equivale a perpetuar a injustiça climática que a COP30 deveria combater.

A Comissão do Ambiente da AGBF, comprometida com a ciência crítica, a justiça ambiental e os direitos humanos, convoca seus associados e instituições parceiras a:

  • pressionar o poder público por condições reais de participação dos povos originais, comunidades tradicionais e trabalhadores;
  • articular documentos e posicionamentos junto a essas organizações;
  • ampliar a visibilidade crítica e a transparência do evento;
  • promover espaços de escuta e preparação coletiva com os sujeitos diretamente afetados.

A crise climática é também uma crise civilizatória. Enfrentá-la requer superar o modelo de exploração que a sustenta. A COP30 só terá sentido se efetivamente colocar os verdadeiros guardiões da terra e do clima no centro das decisões. Caso contrário, repetirá o fracasso das conferências anteriores.

Outubro de 2025

Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF)

O colapso climático e o dilema dos onivoros: mudar a dieta ou perecer

Por Sonia Corina Hess*

No Brasil, historicamente, as principais fontes de emissão de gases do efeito estufa (GEEs) são a mudança no uso da terra e florestas e a agropecuária, que originaram, respectivamente, 25,0% e 38,0% do total das emissões de 2023. Somadas, resultaram em 63,0% do total de GEEs emitidos no país naquele ano. As mudanças no uso da terra foram ocasionadas, principalmente, pelo desmatamento para a expansão de plantações de soja e milho e de pastagens. Além disso, 57% dos agrotóxicos aplicados no Brasil em 2021 foram utilizados em plantações de soja e 10% em plantações de milho.

Considerando que mais de 90% da soja e mais de 80% do milho produzidos no Brasil são direcionados à alimentação de animais no país ou no exterior, a pecuária é o principal fator gerador dos GEEs e do uso de agrotóxicos no país. Mas ninguém fala sobre isso. Há muitos discursos inflamados defendendo a minimização da emissão de GEEs e do uso de agrotóxicos, mas não se ouve falar na necessidade diminuir-se o consumo de produtos de origem animal para que tais metas sejam alcançadas.

A ONU enfatizou a necessidade dessa medida em documento publicado em 2015, mas não se fala mais nisso. Na COP-30, que vai acontecer em novembro em Belém-PA, certamente nenhum líder mundial tampouco vai falar sobre isso, porque seria constrangedor para um onívoro ser flagrado em contradição ao observar-se as suas refeições.

Mas quem tem a sincera intenção de ajudar a minimizar os sofrimentos ocasionados pelas mudanças climáticas e pelo uso de agrotóxicos, deve refletir sobre isso e mudar a sua dieta. Em troca, vai perceber uma acentuada melhora na sua saúde física e mental, e uma boa sensação de estar evitando muito sofrimento também para os animais.

*Sonia Corina Hess é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor

Blog do Roberto Moraes: Campos dos Goytacazes

Por José Luis Vianna da Cruz

Essa gente que sai de casa de madrugada rezando pra não cruzar com um cadáver ou um ato de violência, pra acertar o ponto de ônibus da facção do bairro pra não morrer, pro ônibus passar no horário certo, no itinerário certo, com um motorista que aceite parar no ponto. Essa gente que reza para colocarem linha de ônibus que atendam quem precisa trabalhar, socorrer alguém, passear, a um preço acessível.

Essa gente que deixa os filhos com o vizinho ou sozinhos pra ir trabalhar e trazer o dinheiro do pão magro, do café malhado, dos ultraprocessados, enlatados e ensacados e do remédio para curar o mal dos ultraprocessados, rezando pra encontrar seus filhos vivos e à salvo do crime organizado.

Essa gente que quando precisa de emergência morre, a não ser que um vizinho e que uma boa alma o socorra. E que, quando chega nos prédios de atendimento à saúde fica nos corredores, gemendo, sentindo, morrendo.

 Essa gente que foi jogada no campo de concentração do Tapera III prá morrer atropelado, pra perder o trabalho por falta de condução, pra não poder estudar, pra chegar tarde demais nos hospitais, pra ficar à mercê do crime organizado não-oficial (porque tem o crime organizado oficial, institucional, público).

Essa gente que peregrina pelos equipamentos e instituições “de atendimento” e não encontra solução nem encaminhamento para seus problemas. Essa gente humilhada e sacaneada diariamente. Que não tem alento em nada de que precisa, em nada do que tem direito, para quem existem dezenas de “instituições de atendimento”.

Essa gente humilhada diariamente pelos “representantes” dos que têm poder, que “fecham” e “cercam” os bairros e favelas, administrando a falta com a parca e humilhante doação, violenta, desumanizante, indigna. Ninguém pode entrar, são áreas fechadas por cabos eleitorais, políticos, capangas e membros do crime organizado. Os que ficam perto dos condomínios dos “privilegiados” têm que ser retirados, para evitar a desvalorização do patrimônio.

Essa gente refém, submetida aos códigos e regras “dos que mandam”, contra os quais quem se rebela se dana todo – “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Por fora, de fora e prá fora, o mando dos megaempreendimentos – porto, petróleo, gás – alheios às pessoas dessa terra. Por dentro, o mando do dinheiro, da força, da repressão, da ameaça velada das “autoridades” contra os que nada têm, contra aqueles de quem é tirada a liberdade de circular, de desejar, de ter meios para conquistar. Sem empatia, sem compaixão, tratados como inimigos da Ordem Desigual. O povo é inimigo dos que mandam, mas precisam ser mantidos precariamente vivos para elegê-los, para eleger os que lhes tiram tudo, lhes negam tudo, lhes sugam tudo, fazendo-os minguar diariamente, para que não reajam.

Atacam o trabalho de sobrevivência, no campo, de quem produz alimento saudável, e na cidade, de quem trabalha com o manejo ambiental do lixo. Em defesa do agronegócio que envenena, e do “negócio de ouro do lixo”, que não pode ser pra pobre.

Não pode, sequer, haver urbanização na favela, para não dificultar a remoção futura.

Barram, ainda, os que têm empatia, compaixão, os que são parceiros, os que lutam ao lado dos que sofrem debaixo das patas desses coronéis contemporâneos. E contam com os que impedem “o bom atendimento” nas instituições, treinados para criar dificuldades para que seus padrinhos vendam facilidades, insensíveis, gabando-se de “não precisarem trabalhar – ‘tenho padrinho’, dizem”.

 Até quando, Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor?

Campos dos Goytacazes, 12/10/2025

O plástico dentro de nós: como os microplásticos podem estar remodelando nossos corpos e mentes

As partículas estão no nosso sangue, cérebros e intestinos – e os cientistas estão apenas a começar a aprender o que elas fazem

Linda Geddes está sentada à mesa com o kit de teste de sangue para microplásticos Plastictox, entre pilhas de recipientes plásticos para alimentos.

Linda Geddes com o kit de exame de sangue Plastictox. “É difícil não olhar ao redor da minha vida revestida de plástico e me perguntar como eu poderia começar a desembrulhá-la.” Fotografia: Adrian Sherratt/The Guardian

Por Linda Geddes para o “The Guardian”

Microplásticos foram encontrados em quase todos os lugares: no sangue, na placenta, nos pulmões – até mesmo no cérebro humano . Um estudo estimou que somente nossos órgãos cerebrais podem conter 5 g dessa substância, ou aproximadamente uma colher de chá. Se for verdade, o plástico não está apenas enrolado em nossos alimentos ou tecido em nossas roupas: ele está alojado profundamente dentro de nós.

Agora, pesquisadores suspeitam que essas partículas também possam estar interferindo na microbiota intestinal. Quando o Dr. Christian Pacher-Deutsch, da Universidade de Graz, na Áustria, expôs bactérias intestinais de cinco voluntários saudáveis ​​a cinco microplásticos comuns, as populações bacterianas se alteraram – juntamente com as substâncias químicas que elas produziam. Algumas dessas mudanças refletiram padrões associados à depressão e ao câncer colorretal.

“Embora seja muito cedo para fazer alegações definitivas sobre a saúde, o microbioma desempenha um papel central em muitos aspectos do bem-estar, da digestão à saúde mental”, afirma Pacher-Deutsch, que apresentou seu trabalho na recente conferência United European Gastroenterology, em Berlim. “Reduzir a exposição ao microplástico sempre que possível é, portanto, uma precaução sensata e importante.”

Tais descobertas levantam questões inquietantes: quanto plástico cada um de nós carrega, isso realmente importa e podemos fazer algo a respeito?

Microplásticos são liberados de embalagens, roupas , tintas, cosméticos, pneus de carros e outros itens. Alguns são minúsculos o suficiente para atravessar o revestimento dos nossos pulmões e intestinos e penetrar no sangue e nos órgãos internos – até mesmo nas nossas células. O que acontece a seguir ainda é em grande parte desconhecido.

Detalhe da mão mostrando microplásticos.
Os microplásticos vêm em diferentes tipos e formatos, o que pode influenciar seus efeitos nocivos. Fotografia: Maxshoto/Alamy

“Projetar um experimento definitivo é difícil, porque estamos constantemente expostos a essas partículas”, afirma o Dr. Jaime Ross , neurocientista da Universidade de Rhode Island, nos EUA. “Mas sabemos que os microplásticos estão presentes em quase todos os tecidos analisados, e estudos recentes sugerem que estamos acumulando muito mais plástico agora do que há 20 anos.”

Ross começou a se interessar por plásticos quando era adolescente, observando os potes de molho de espaguete da mãe corroerem. “Muitos de nós presumimos que o plástico era inerte – que não se desprenderia nem reagiria – mas eu percebi que não”, diz ela.

Algumas décadas depois, ela começou a estudar o que os microplásticos poderiam estar fazendo com o cérebro dos mamíferos. Seu primeiro estudo, publicado em 2023 , ofereceu uma pista: camundongos que bebiam água contaminada com partículas de microplástico começaram a se comportar de maneira diferente.

Normalmente, se você colocar camundongos em uma caixa bem iluminada, eles se agarram às paredes defensivamente. Mas aqueles expostos a plásticos se aventuram inquietos em ambientes abertos – um comportamento mais comum com o envelhecimento e doenças neurológicas.

Quando os ratos foram dissecados, foi encontrado plástico em todos os órgãos, incluindo o cérebro, onde uma proteína essencial ligada à saúde cerebral, a GFAP, estava esgotada — refletindo um padrão observado na depressão e na demência.

Desde então, estudos em humanos aumentaram a inquietação. Microplásticos foram detectados no cérebro de pacientes com demência e em placas arteriais de pessoas com doenças cardíacas. Aqueles com placas carregadas de plástico tinham quase cinco vezes mais probabilidade de sofrer um derrame, ataque cardíaco ou morrer em três anos.

Tais descobertas me fizeram refletir. Assim como Ross, eu sempre presumi que plásticos eram inofensivos, sem muita consideração por mastigar pontas de caneta esferográfica, usar roupas sintéticas e reaquecer sobras em recipientes para viagem. Então, quando ouvi falar de um teste de £ 144 da Plastictox que prometia revelar quantos microplásticos estavam circulando no meu sangue, furei o dedo e mandei uma gota.

Alan Morrison, diretor executivo da Arrow Lab Solutions , a empresa americana responsável pelo teste, disse que o objetivo era fornecer às pessoas uma estimativa de sua exposição ao microplástico, permitindo que elas fizessem mudanças no estilo de vida, se assim o desejassem. “Às vezes, esse teste é o empurrãozinho que elas precisam para tirar um pouco desse material [plástico] de casa e reduzir sua exposição”, diz ele.

Meu teste detectou quatro partículas microscópicas – o equivalente a cerca de 40 por mililitro de sangue. Com base no tamanho, uma provavelmente chegou lá pelo meu intestino, enquanto as outras três provavelmente foram inaladas, segundo o laboratório. Embora isso me coloque no quarto mais baixo dos cerca de 4.000 testes realizados até agora, “ainda representa cerca de 200.000 partículas de plástico na sua corrente sanguínea”, diz Morrison. “Mas considerando que uma pessoa média tem mais de um milhão, você está se saindo relativamente bem.”

No entanto, como apontam outros especialistas, ninguém sabe realmente qual é o nível “seguro” de microplástico. O campo de pesquisa é extremamente jovem e os testes com consumidores são “muito prematuros”, afirma a Profa. Stephanie Wright , pesquisadora de microplásticos do Imperial College London: “Os resultados dos seus testes sugerem que você tem 40 partículas por ml de sangue – mas não sabemos se isso é bom ou ruim, que tipo de plástico, de onde vieram, o que estão fazendo ou para onde estão indo.”

Estudos científicos têm utilizado uma variedade de métodos, dificultando comparações entre eles. Algumas técnicas – incluindo a usada para quantificar microplásticos em estudos humanos sobre demência e doenças cardíacas – podem sofrer interferência de tecidos biológicos. Por isso, seus resultados estão longe de ser conclusivos e devem “ser encarados com cautela”, diz Wright.

Mesmo que seja possível quantificar com precisão as partículas no sangue ou em outros tecidos, não se sabe se todos os microplásticos representam o mesmo nível de risco.

“Os plásticos são bastante heterogêneos. Existem diferentes tipos, mas também têm formatos diferentes, o que pode influenciar seus efeitos nocivos”, afirma a Dra. Vahitha Abdul Salam, da Universidade Queen Mary de Londres. O tamanho das partículas também importa: quanto menores, maior a probabilidade de atravessarem barreiras biológicas e entrarem em órgãos ou células.

Gráfico de resultados do kit de teste de sangue microplástico Linda Geddes Plastictox.
O exame de sangue Plastictox mostrou que Linda Geddes apresentou baixa concentração de partículas plásticas, mas ainda havia cerca de 200.000 em sua corrente sanguínea. Fotografia: Adrian Sherratt/The Guardian

Há outros desafios antes de sabermos com certeza se os microplásticos estão nos prejudicando: estudos com roedores podem não ser aplicáveis ​​aos humanos; como são muito menores, as partículas de plástico do mesmo tamanho podem ser absorvidas e processadas de maneiras muito diferentes, diz Salam.

Então, onde isso nos deixa? Estamos continuamente expostos a essas partículas e, “historicamente, sabemos que a exposição a muitas partículas é ruim”, diz Wright, citando a poluição do ar como exemplo. “Só precisamos entender se há algo nessas partículas que as torna desproporcionalmente prejudiciais.”

Outra questão urgente é se alguns indivíduos podem ser mais vulneráveis ​​do que outros. Um estudo de acompanhamento recente de Ross sugeriu que camundongos portadores do gene APOE4 associado ao Alzheimer apresentaram declínio cognitivo mais grave em resposta à exposição ao microplástico do que aqueles com genes menos arriscados.

Apesar dessas lacunas, muitos pesquisadores estão mudando discretamente seus próprios hábitos. “Minimizar a exposição provavelmente trará benefícios gerais”, diz Wright.

Se há um lado positivo, é que, embora pesquisas sugiram que os níveis de microplásticos em nossos corpos parecem ter aumentado acentuadamente nos últimos anos , pessoas mais velhas não parecem conter mais do que as mais jovens. “Achei isso positivo, porque me diz que podemos ser capazes de eliminá-los de nossos corpos”, diz Ross. Identificar maneiras de acelerar esse processo natural – se ele existir – provavelmente será um foco significativo de pesquisa nos próximos anos.

Quanto a mim, não consigo deixar de ver essas 200.000 partículas. Seja esse número exato ou não, é difícil não olhar ao redor da minha vida revestida de plástico e me perguntar como eu poderia começar a desembrulhar tudo. Reaquecer sobras em vidro em vez de plástico é um bom começo. E definitivamente vou parar de mastigar canetas esferográficas.

Como reduzir sua exposição

Embora seja impossível evitar completamente os microplásticos, os cientistas dizem que existem maneiras práticas de reduzir sua exposição pessoal.

Comece pela cozinha. “O que você definitivamente deve evitar é o calor com plástico”, diz Ross. “Portanto, não cozinhe sua comida com utensílios de plástico, nem coloque bebidas ou alimentos quentes em plástico.”

Picando cebolas roxas em uma tábua de corte.
Evite que microplásticos entrem em contato com os alimentos usando uma tábua de corte de madeira em vez de plástico. Fotografia: fotostorm/Getty Images/iStockphoto

Salam diz que parou de aquecer alimentos em recipientes de plástico no micro-ondas: “Quando você expõe polímeros plásticos ao calor ou à luz solar direta, isso os transforma ou degrada em microplásticos”.

Ross sugere examinar rituais cotidianos, como preparar uma xícara de chá ou picar cebolas: “Saquinhos de chá podem liberar muitos nano e microplásticos. Mesmo que o saquinho seja de papel, ele pode ser selado com cola plástica, então talvez você possa experimentar folhas de chá soltas. Você está cortando em uma tábua de plástico? Porque isso também pode contaminar alimentos.”

Opte por recipientes, utensílios e utensílios para café de vidro ou aço inoxidável e, em vez disso, use tábuas de corte de madeira.

Embora a água da torneira contenha alguns microplásticos, a água da torneira do Reino Unido é tratada para remover quase todos eles e estudos sugerem que muitas marcas de água engarrafada contêm muito mais.

Além da cozinha, Ross recomenda pensar em roupas de cama e produtos de higiene pessoal. “Tente usar mais fibras naturais, especialmente nos itens com os quais você dorme – lençóis, cobertores e travesseiros, porque você pode inalar nano e microplásticos”, diz ela.

Verifique os rótulos de produtos de higiene pessoal e cosméticos: embora as microesferas de plástico, presentes em sabonetes faciais, por exemplo, estejam proibidas, alguns cosméticos e itens como loções, batons e sombras ainda podem conter nano ou microplásticos, com nomes como polietileno, polipropileno, poliuretano ou acrilatos. Procure também por plásticos ocultos em produtos menstruais e opte por aqueles feitos de 100% algodão ou copos de silicone.

Plásticos em suspensão no ar são outra preocupação. Embora ambientes internos geralmente apresentem níveis mais elevados devido a tecidos e móveis sintéticos, “o desgaste dos pneus em ambientes de alto tráfego é outra fonte de exposição a microplásticos”, diz Wright. “Da mesma forma que você evitaria a poluição do ar caminhando por ruas tranquilas, evitando andar próximo ao trânsito e mantendo as janelas do carro fechadas, isso teoricamente minimizaria a exposição a microplásticos.”

Por fim, pense na sua pegada ambiental. Plásticos jogados em aterros sanitários se degradam lentamente, liberando mais microplásticos. “Se você tiver itens de plástico em casa, como recipientes de plástico, reaproveite-os para armazenar materiais de costura e outros itens não alimentícios”, diz Ross. “Se você os colocar na reciclagem, eles podem não ser reciclados e você estará apenas agravando o problema.”


Fonte: The Guardian

Número de espécies de abelhas selvagens em risco de extinção na Europa duplica em 10 anos

Número de espécies de abelhas selvagens em risco de extinção na Europa duplica em 10 anos

Número de espécies de borboletas ameaçadas de extinção também está aumentando em meio à destruição de habitat e ao aquecimento global, segundo estudo

Abelhas europeias voam perto de uma colmeia selvagem em um carvalho em Monmouthshire, País de Gales.

Abelhas europeias voam perto de uma colmeia selvagem em um carvalho em Monmouthshire, País de Gales. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

Por Patrick Barkham para o “The Guardian” 

O número de espécies de abelhas selvagens na Europa em risco de extinção mais que dobrou na última década, enquanto o número de espécies de borboletas ameaçadas de extinção quase dobrou.

O perigo enfrentado por polinizadores cruciais foi revelado por estudos científicos para a lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) , que descobriram que pelo menos 172 espécies de abelhas de 1.928 estavam em risco de extinção na Europa.

O número de borboletas ameaçadas de extinção na Europa aumentou de 37 para 65 desde o último estudo, realizado há 14 anos. Uma espécie, a borboleta branca-grande-da-madeira ( Pieris wollastoni ), foi declarada extinta.

Além de sua beleza e significado cultural, polinizadores como abelhas e borboletas são vitais para nossa saúde, nossos sistemas alimentares e nossas economias – sustentando as frutas, vegetais e sementes que nos nutrem”, disse Grethel Aguilar, diretora-geral da UICN. “As últimas avaliações da Lista Vermelha Europeia revelam sérios desafios, com ameaças crescentes para borboletas e espécies cruciais de abelhas selvagens.”

As causas dos rápidos declínios recentes são a destruição ou os danos contínuos aos habitats causados ​​pela intensificação da agricultura e pelo abandono de terras, pela drenagem de áreas úmidas, pelo pastoreio excessivo pelo gado e pelo uso de fertilizantes e agrotóxicos, incluindo neonicotinoides . A fragmentação de habitats favoráveis ​​aos polinizadores aumenta consideravelmente o risco de extinções locais.

O aquecimento global também se revelou uma grande ameaça: 52% de todas as borboletas ameaçadas de extinção na Europa estão ameaçadas pela crise climática — aproximadamente o dobro de uma década atrás.

Até 90% das plantas com flores na Europa dependem da polinização animal, de acordo com o Dr. Denis Michez, coordenador principal da avaliação de abelhas selvagens. “Infelizmente, as populações de abelhas selvagens estão em declínio drástico e não podem ser facilmente substituídas por colônias manejadas”, disse ele. “Se as abelhas selvagens desaparecerem, muitas plantas selvagens também poderão estar em risco – das quais prados ricos em flores e belas espécies de orquídeas são apenas alguns exemplos.”

Quinze espécies de mamangabas, que desempenham um papel crucial na polinização de ervilhas, feijões, amendoins e trevos, e 14 espécies de abelhas-celofane, conhecidas por polinizar árvores como salgueiros e bordos vermelhos, estão agora classificadas como ameaçadas. Simpanurgus phyllopodus , uma abelha mineira exclusiva do continente e a única espécie deste gênero na Europa, está agora classificada como criticamente em perigo – a categoria científica mais próxima da extinção na natureza.

Borboletas encontradas apenas no topo das montanhas são particularmente vulneráveis ​​ao aquecimento global, pois precisam se deslocar para áreas mais altas à medida que seus habitats se tornam mais quentes, mas acabam ficando sem espaço. No sul da Espanha, o tímalo-de-nevada e a borboleta azul-anômala-da-andaluza estão entre os mais de 40% dos endemismos europeus (encontrados apenas na Europa) ameaçados de extinção.

No Mediterrâneo, espécies como o grayling de Karpathos, espécie criticamente ameaçada , estão ameaçadas pela seca extrema e pelos incêndios florestais .

Enquanto isso, no Círculo Polar Ártico, o aquecimento global está fazendo com que a linha das árvores se mova dezenas de metros para o norte a cada ano, com a vegetação rasteira invadindo pântanos e tundras. As condições mais quentes também impedem que as renas atravessem o gelo para pastar nas pastagens árticas e mantê-las abertas. Oito espécies de borboletas estão ameaçadas de extinção nesta região, incluindo a borboleta-de-freyja e a borboleta-anelada-do-ártico.

 O maior habitat para todos esses polinizadores são as pastagens ricas em flores, que estão desaparecendo muito rapidamente em toda a Europa devido a todos esses fatores”, disse Martin Warren, um dos principais coordenadores da avaliação das borboletas. “O lado positivo é que muitas pessoas se importam agora e há muito mais conscientização. De acordo com a legislação de restauração da natureza da UE , todos os estados-membros precisam reverter o declínio dos polinizadores até 2030 e terão que começar a fazer algo. Há proprietários de terras interessados. Esperemos que eles consigam os incentivos que os ajudarão em seu caminho.”

De acordo com Warren, há “frutos fáceis” em termos de ação para os polinizadores que não reduzirão a produção de alimentos — e podem aumentá-la — como agricultores criando margens ricas em flores ao redor de seus campos.

Jessika Roswall, comissária da UE para o meio ambiente, resiliência hídrica e economia circular competitiva, descreveu o estado de conservação das abelhas selvagens, borboletas e outros polinizadores como “terrível”.

 É necessária uma ação urgente e coletiva para enfrentar esta ameaça. Juntamente com os Estados-membros, a Comissão Europeia implementou um sistema de monitorização de polinizadores em toda a UE, com base no regulamento da UE para a restauração da natureza, que ajudará a acompanhar o nosso progresso. Agora, precisamos de nos concentrar na implementação e na cooperação com os Estados-membros para proteger os nossos polinizadores”, afirmou.

A publicação das avaliações sobre abelhas e borboletas ocorre após a primeira avaliação europeia sobre moscas-das-flores , outro grupo polinizador crucial. Publicada em 2022, a avaliação revelou que 37% de todas as espécies de moscas-das-flores na Europa estavam ameaçadas de extinção.


Fonte: The Guardian

Alerta aos Servidores Estaduais! Cláudio Castro quer repetir a Operação Delaware e PL 6305/2025 vai ao plenário da Alerj

Repetindo o que já foi feito com a Operação Delaware quando bilhões de reais do RioPrevidência foram entregues a fundos abutres, o governo de Cláudio Castro quer raspar novamente o caixa do fundo próprio que garante as aposentadorias e pensões dos servidores do estado do Rio de Janeiro.  Para levar isso a cabo, o governador Cláudio Castro enviou o Projeto de Lei 6035/2025 para ser aprovado por sua base partidária na Alerj na próxima 3a. feira (14/100.

O PL 6305/2025 autoriza o uso dos recursos do RioPrevidência para pagar dívidas do governo, repetindo o mesmo erro que já levou o Rio de Janeiro à beira da falência em um passaod recente.

Segundo o mandato do deputado Flávio Serafini (PSOL), apenas em 2024, R$ 4,9 bilhões em receitas do petróleo foram retidos ilegalmente do caixa do RioPrevidência, enfraquecendo ainda mais o fundo. Agora, com a queda nas receitas do petróleo, essa manobra colocará em risco imediato o pagamento de aposentados e pensionistas.

É importante lembrar que o RioPrevidência não é um cofre de onde o governador Cláudio Castro pode se servir para continuar praticando suas políticas irresponsáveis. O Rio Previdência é um patrimônio que pertence aos servidores públicos estaduais.

Por isso é fundamental e urgente defender o RioPrevidência dessa tentativa de rapinagem orquestrada pelo governador Cláudio Castro.

Todos à Alerj na 3a. feira para impedir esse verdadeiro crime contra os servidores públicos estaduais!

Por que a Sorbonne decidiu sair do ranking universitário do Times Higher Education?

A principal universidade da França se concentrará em infraestruturas participativas, abertas e gratuitas para “reivindicar a propriedade” de seus dados, diz seu presidente

Créditos da foto: Universidade Sorbonne 

Por Juliette Portala para “Science Business”

A Universidade Sorbonne, na França, planeja deixar o ranking do Times Higher Education (THE), adicionando seu nome a um número crescente de universidades que rejeitam listas que colocam uma instituição em confronto com a outra. Segundo seu presidente, a maioria desses rankings são “caixas-pretas”, cujos métodos não apenas levantam questões éticas, mas também não conseguem abranger a amplitude e a diversidade das contribuições universitárias.  

“Ao decidir parar de enviar nossos dados para a THE, estamos abandonando este ranking específico, mas nossa crítica aos principais rankings universitários internacionais é global”, disse Nathalie Drach-Temam, reitora da Universidade Sorbonne, à Science|Business. “Esses rankings, baseados em indicadores quantitativos selecionados e reunidos em uma única pontuação, não foram elaborados para avaliar pesquisas nem refletir a amplitude e a profundidade das missões das instituições de pesquisa e ensino superior.”

Do ranking Quacquarelli Symonds (QS), sediado no Reino Unido, ao US News and World Report (USWR), os rankings universitários têm como objetivo mensurar o desempenho de uma instituição de ensino superior e como seu desempenho e qualidade se comparam aos de seus pares. Estudantes em potencial recorrem a eles em busca de orientação, e governos e investidores baseiam suas decisões de financiamento de pesquisa neles.  

Mas cada vez mais instituições estão optando por não participar das tabelas de classificação universitária, como parte de um movimento mais amplo para que universidades e pesquisadores sejam julgados pela qualidade, e não pela quantidade. No final de 2022, as faculdades de direito de Yale, Harvard e Columbia abandonaram a USWR; alguns meses depois, as principais universidades de pesquisa da Coreia do Sul convocaram um boicote ao ranking QS; mais recentemente, a Universidade de Zurique decidiu abandonar o THE.

“Esses rankings são [. . .] caixas-pretas que operam em um sistema fechado”, disse Drach-Temam. “Os dados em que se baseiam não são compartilhados, a metodologia é parcialmente disseminada, o que significa que esses rankings não são reproduzíveis e não podem ser questionados pelas universidades envolvidas, que, portanto, não podem se apropriar totalmente deles.”  

A Universidade Sorbonne é membro da Coalizão para o Avanço da Avaliação em Pesquisa, criada para defender metodologias de avaliação mais sólidas. Seu Acordo sobre a Reforma da Avaliação em Pesquisa afirma que evitar o uso de rankings globais “ajudará a comunidade científica e as organizações de pesquisa a recuperar a autonomia para moldar as práticas de avaliação, em vez de terem que se submeter a critérios e metodologias definidos por empresas comerciais externas”.

Metodologias tendenciosas

Os rankings globais baseiam-se em critérios tão diversos quanto ex-alunos ilustres e renda da indústria, mas seus críticos consideram que eles ainda promovem uma visão de sucesso institucional muito limitada e injusta. Além de ignorarem muitas das contribuições de uma universidade para a sociedade, tendem a negligenciar a diversidade de seu contexto social, econômico e político.

“Eles não conseguem refletir nossas políticas de inclusão, desenvolvimento sustentável ou diálogo entre ciência e sociedade, por exemplo”, disse Drach-Temam. “Sua metodologia, ao focar em periódicos de língua inglesa, favorece certas disciplinas, enquanto as ciências sociais e humanas, cujos métodos de publicação e idiomas de disseminação são mais diversos, acabam sendo prejudicadas.” 

Ela também disse que algumas metodologias levantam preocupações científicas e éticas. 

Outro risco é que as universidades podem estar inclinadas a tomar medidas temporárias e superficiais para melhorar sua classificação em vez de se concentrarem na melhoria da qualidade a longo prazo, prejudicando o propósito principal dessas classificações.

Esses problemas levaram a Rede Internacional de Sociedades de Gestão de Pesquisa a criar a iniciativa More Than Our Rank para instituições acadêmicas, a fim de mostrar que o sucesso das universidades vai além de sua posição no ranking. 

No entanto, Drach-Temam reconheceu a importância da THE por permitir que as universidades abandonassem seu ranking, uma opção não disponível para os rankings de Xangai e QS. A Universidade Sorbonne também faz parte do CWTS Leiden Ranking, que, segundo ela, não agrupa critérios muito diferentes em uma única pontuação, tem uma metodologia aberta e permite que as universidades meçam sua taxa de acesso aberto.

Infraestruturas de dados abertos 

A Universidade Sorbonne também decidiu deixar o Web of Science, um banco de dados de citações baseado em assinatura operado pela empresa de análise Clarivate, “principalmente porque não nos parecia mais possível confiar em dados proprietários e fechados para gerenciar nossa pesquisa, muito menos para sua avaliação”, disse Drach-Temam.

Assim como os rankings, ela constata que esses bancos de dados tendem a priorizar periódicos em inglês e não fazem referências corretas a publicações de literatura e humanidades, especialmente em francês. “Uma parte considerável e particularmente rica da atividade da nossa universidade é, portanto, simplesmente ignorada nesses bancos de dados”, disse ela. 

A Universidade Sorbonne agora planeja se concentrar em infraestruturas abertas e participativas, como o OpenAlex, que oferece acesso gratuito a publicações acadêmicas. “Além das questões financeiras, apoiar essas infraestruturas também significa nos envolver em sua governança e fazer com que nossa voz seja ouvida em suas diretrizes e projetos”, destacou Drach-Temam.

A universidade francesa já está representada no conselho consultivo da OpenAlex.

A ideia, para Drach-Temam, não é substituir uma ferramenta por outra, mas “mudar o paradigma e dar às universidades e instituições de pesquisa os meios para recuperar a propriedade de seus dados [e] torná-los acessíveis à sociedade”.


Fonte: Science Business

Um trilhão de dólares em risco climático: o caso de uma reserva para riscos sistêmicos, mostra relatório da Finance Watch

Por Finance Watch 

As mudanças climáticas são agora uma fonte reconhecida de risco financeiro para os bancos. Este relatório quantifica a exposição dos bancos globais aos combustíveis fósseis e mostra como ações macroprudenciais antecipadas podem tornar os bancos mais resilientes e reduzir o acúmulo de riscos climáticos no sistema financeiro – sem prejudicar a capacidade de empréstimo.

Um ciclo de feedback perigoso de um trilhão de dólares

À medida que o caos climático se desenrola implacavelmente, novos riscos sistêmicos surgem e o setor bancário está particularmente exposto. Com mais de US$ 1,6 trilhão em empréstimos à indústria de combustíveis fósseis ( ver relatório p. 9) , os 60 maiores bancos do mundo alimentam um ciclo duplo de retroalimentação 

1) No caminho acidentado para o zero líquido, estes ativos de combustíveis fósseis sofrerão inevitavelmente desvalorizações acentuadas, expondo os bancos a riscos de transição significativos e 

2) Esses investimentos substanciais geram caos climático, o que contribui para o acúmulo de riscos climáticos físicos em todo o sistema, aos quais os bancos também estão expostos.

As abordagens prudenciais atuais são insuficientes

Conscientes da ameaça à estabilidade financeira, os supervisores estão exigindo que os bancos quantifiquem esse risco para contribuição direta à estrutura de gestão de risco existente. O problema: ferramentas quantitativas como modelos de gestão de risco, testes de estresse e requisitos de divulgação são pouco adequadas à natureza não linear e prospectiva do risco climático. Elas dependem fortemente de dados passados ​​ou de cenários climáticos que subestimam sistematicamente a escala e a complexidade dos impactos climáticos futuros, dando uma falsa sensação de segurança aos mercados financeiros. Até o momento, as ameaças macroprudenciais causadas pelo acúmulo de risco climático permanecem em grande parte ignoradas pelos reguladores, deixando o sistema financeiro cada vez mais vulnerável.

Custos e benefícios de uma reserva de risco sistémico climático

O Finance Watch apela à criação de uma reserva para o risco sistémico climático e mostra como esta poderia ser calibrada através de uma abordagem de relação empréstimo/valor. Reduziria a exposição do contribuinte, controlando a acumulação precoce de risco sistêmico e protegendo as perdas de transição dos bancos. Também eliminaria uma distorção de mercado.nos mercados de energia.  É importante ressaltar que o buffer não teria impacto na capacidade de empréstimo dos bancos europeus (ver relatório, p. 24), mas sim positivo em sua competitividade. O Finance Watch apela às autoridades financeiras para que tomem medidas regulatórias resolutas, de acordo com o mandato do Artigo 501c do Regulamento de Requisitos de Capital.

Leia o relatório do Finance Watch [Aqui!].

Em São Paulo, periquitos, maracanãs e papagaios buscam alimento em 79 espécies de plantas

Periquito-rico verde se alimenta de coquinho de jerivá em árvore no campus da USP.

Periquito-rico se alimenta de coquinho de jerivá no campus da USP.  Foto: José Carlos Motta Junior

Agência BORI

Uma pesquisa realizada no campus da Universidade de São Paulo (USP) acompanhou durante três anos a dieta de psitacídeos (aves da família dos papagaios, araras e periquitos) em vida livre e trouxe informações inéditas sobre como eles estão se adaptando ao ambiente urbano. O artigo com os resultados será publicado em breve na Revista do Instituto Florestal. 

A escolha do campus da USP não foi por acaso: trata-se de uma área extensa e heterogênea, que reúne desde prédios e estacionamentos até jardins arborizados e bordas de Mata Atlântica, funcionando como um verdadeiro laboratório vivo para estudar a biodiversidade em cidades. O levantamento registrou 2.929 eventos alimentares, envolvendo principalmente três espécies: periquito-rico (Brotogeris tirica), maracanã-pequena (Diopsittaca nobilis) e papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva).

A motivação para o estudo surgiu da grande incidência de psitacídeos observada no campus e da constatação de que havia pouca produção científica sobre sua alimentação em áreas urbanas. “Notamos que a maioria dos trabalhos era realizada em ambientes naturais. Ao registrar essas aves no campus da USP, buscamos compreender como elas estão se adaptando a um cenário bastante modificado”, explica o professor doutor sênior José Carlos Motta-Junior, mestre em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Um dos principais diferenciais do trabalho é o uso exclusivo de fotografias (e eventualmente vídeos) para registrar os hábitos alimentares. Essa metodologia, pouco explorada até mesmo em nível mundial, trouxe mais precisão aos resultados. “Ao fotografar, conseguimos analisar depois no computador e confirmar o que estava sendo consumido. Por exemplo, em alguns casos o que parecia ser extração de néctar numa primeira impressão, ao ampliar as imagens, se revelava consumo de pólen. Se dependêssemos apenas da observação direta, poderíamos registrar de forma incorreta”, comenta o pesquisador.

O levantamento identificou 83 itens alimentares, sendo 79 espécies de plantas, a maioria arbóreas. Na cidade, a dieta dos periquitos, maracanãs e papagaios se baseia em grande parte nos coquinhos do jerivá, no araçá-roxo e nas sementes da paineira. Aproximadamente 60% das plantas consumidas eram nativas, fornecendo sementes, frutos e flores, enquanto cerca de 40% eram exóticas. Essa diversidade demonstra a flexibilidade alimentar das aves, fundamental para sua permanência em áreas modificadas. “Esse jogo de cintura permite que não apenas sobrevivam, mas também se reproduzam localmente, sem necessidade de migração”, acrescenta Motta-Junior.

Apesar do grande número de registros, o estudo reconhece algumas limitações, uma vez que, muitas vezes, as aves permanecem escondidas e em silêncio nas copas das árvores, dificultando a observação. Mesmo assim, a amostragem foi considerada robusta, representando a heterogeneidade do campus, que vai de áreas com forte intervenção humana até bordas de Mata Atlântica. Outro aspecto interessante é a mudança das estações do ano (sazonalidade), com maior consumo de flores em períodos secos, mostrando a adaptação às variações na disponibilidade de alimento.

A pesquisa também se destacou por não depender de financiamento externo. Os equipamentos utilizados já estavam disponíveis e a própria dinâmica de coleta não exigiu recursos adicionais. Para o pesquisador, a colaboração de estudantes de graduação da USP foi essencial no processo de coleta e análise dos dados, resultando em um trabalho coletivo de grande impacto.

Além de ampliar o conhecimento sobre a dieta dessas aves, o estudo oferece subsídios importantes para o manejo das áreas verdes urbanas. A predominância do consumo de plantas nativas reforça a importância de priorizar essas espécies em projetos de arborização. “É fundamental valorizar a flora nativa, mas sem excluir totalmente algumas exóticas, especialmente as que fornecem alimento em épocas de escassez e que não apresentam risco de invasão”, afirma Motta-Junior.

Para o especialista, os resultados também têm um papel educativo e de sensibilização. “Há um ditado que diz: conhecer é preservar. Ao divulgar dados básicos de ecologia e história natural, aproximamos a população da biodiversidade que ainda existe nas cidades, tornando mais pessoas conscientes e dispostas a valorizar essa riqueza”, destaca.

Os próximos passos da pesquisa incluem a continuidade do monitoramento para ampliar a lista de itens alimentares registrados e o aprofundamento em estudos sobre interações ecológicas, como polinização e dispersão de sementes. Também está em andamento a produção de um fotolivro digital gratuito sobre os psitacídeos do campus e a sua relação com as plantas, a ser disponibilizado futuramente no Portal de Livros Abertos da USP.


Fonte: Agência Bori