Em São João da Barra, prefeita Carla Caputi inova e coloca o Porto do Açu para gerir a Secretaria de desenvolvimento econômico

Lanlamento da pedra fundamental Porto do Açu -27-12-2006 (1)

De Carla a Carla: as relações de grande sintonia entre o Porto do Açu e as prefeitas de São João da Barra

Apesar de ter passado despercebida pela maioria dos sanjoanenses que tentam sobreviver aos desafios da atual conjuntura social e econômica brasileira, este mês de janeiro está sendo marcado por uma interessante mudança nas relações políticas entre a prefeitura municipal de São João da Barra e o Porto do Açu, na medida em que a prefeita Carla Caputi acaba de colocar uma profissional com longa experiência dentro do empreendimento portuário na chefia da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico, a historiadora Gleide Terezinha Gomes, que ocupou o cargo de coordenadora de Responsabilidade Social da Porto do Açu Operações Portuárias (ver imagem abaixo).

De Carla a Carla: a relação entre o Porto do Açu e as prefeitas de São João da Barra tem sido marcada pela intensa sintonia

Apesar de nunca ter tido a chance de conversar pessoalmente com a nova secretária municipal, eu fico me perguntando como uma profissional tão ligada ao Porto do Açu poderá cumprir de forma independente o papel de formular políticas públicas voltadas para o desenvolvimento econômico municipal.

A questão aqui é que apesar de todo a propaganda auto congratulatória que emana de dentro do Porto do Açu para justificar os bilhões de dinheiro público ali enterrados, o empreendimento continua funcionando com um enclave geográfico que tem trazido pouquíssimos benefícios para o desenvolvimento econômico municipal, além de funcionar como uma espécie de aspirador de recursos financeiros que poderiam estar sendo (ou deveriam estar) utilizados, por exemplo, em políticas estruturantes voltadas para o fortalecimento da rede municipal de educação, especialmente na área tecnológica.

Por outro lado, como venho estudando as chamadas ações de responsabilidade social adotadas por empresas do Porto do Açu e pouco tenho visto de concreto, eu fico imaginando qual será o ganho que o município terá com a chegada de Gleide Terezinha para um posto tão central em qualquer prefeitura que pretenda ter alguma chance de gerar um modelo de desenvolvimento econômico que seja minimamente responsável com os seus habitantes. No caso de São João da Barra, o passivo socioambiental do Porto do Açu é gigantesco, e isto não tem sido minimamente resolvido por aquilo que eu chamo de “responsabilidade social recreativa” que a maioria das corporações utiliza para fingir que se importam com as populações afetadas por seus projetos econômicos. Basta ver a situação escandalosa em que se encontram as centenas de famílias que tiveram suas terras expropriadas para a implantação do porto e até hoje não viram a cor do dinheiro devido pelo Estado.

Mas uma coisa é certa: a partir de 18 de janeiro é bem provável que já tenha sido estabelecido uma espécie de “linha vermelha” entre o Porto do Açu e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico. Resta agora acompanhar quais projetos sairão desse novo tipo de relacionamento entre o Porto do Açu e a Prefeitura de São João da Barra

Impunidade em Brumadinho: após 4 anos desde a tragédia criminosa da Vale que tirou 272 vidas, a justiça ainda não foi feita

O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro em Brumadinho aconteceu no dia 25 de janeiro de 2019, ninguém foi responsabilizado até o momento. A ação penal está em um impasse jurídico criado por dois dos réus, incluindo o ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman

Dam Collapses in Brazil

Familiares de vítimas e afetados pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) ficam mais revoltados, doentes e ansiosos por justiça, a cada ano que ela não é realizada pela tragédia que parece ter condenado a cidade a uma dor sem fim. No entanto, a associação que os representa, a ONG AVABRUM, continua sua luta incansável por justiça, memória e pela descoberta de todas as 272 vítimas fatais (sendo duas crianças ainda não nascidas) enterradas vivas sob a lama. Há ainda três vítimas cujos corpos ainda não foram encontrados pelos bombeiros que trabalham no local desde o primeiro dia do desastroso acontecimento.

Todo dia 25 de cada mês, desde a tragédia, os associados da AVABRUM se reúnem para fazer uma manifestação em homenagem às vítimas e protestar contra a falta de justiça. No evento do quarto aniversário do desastre, eles prepararam uma série de ações para chamar a atenção da sociedade para sua luta. Haverá passeio de bicicleta de Brumadinho ao Córrego do Feijão (atual local onde ficava a mina de ferro), cortejo de carro pelas principais ruas da cidade, seminário sobre cidades impactadas pela mineração e missa seguida de manifestação com a exibição de vídeos contando histórias dos últimos 4 anos.

O caminho da injustiça

O ano de 2022 foi especial no andamento das ações criminais movidas contra a mineradora brasileira Vale e a certificadora alemã Tüv Süd. No Brasil, foram 16 executivos denunciados na Justiça por homicídio qualificado, sendo 13 da Vale e 3 da Tüv Süd.

Em janeiro de 2020, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), com base em investigações realizadas em conjunto com a polícia, fez a denúncia das duas empresas e de seus executivos, incluindo o ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, ex-diretores da da mineradora e executivos da Tüv Süd. Eles foram indiciados por 270 homicídios dolosos e duplos (a justiça nega a inclusão dos dois filhos que morreram no ventre de suas mães), além de crimes ambientais contra a fauna, a flora e a poluição. O MPMG concluiu que os réus sabiam que havia risco de transtorno e não tomaram providências, configurando o crime. A denúncia foi julgada procedente pelo Tribunal de Justiça de Brumadinho em fevereiro de 2020. Em outubro de 2021, porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu os recursos de Fabio Schvartsman e encaminhou o processo à Justiça Federal.

Essa manobra realizada pelos advogados do réu para retardar ainda mais os julgamentos foi recentemente ratificada pelo Supremo Tribunal de Justiça (STF). Mais uma derrota para as famílias, que agora têm que lidar com o fato de a ação penal estar de volta à estaca zero.

“Essa decisão do STF invalida todo o andamento que fizemos nas investigações na Justiça de Minas Gerais até agora. Serve apenas para adiar a justiça e proteger as poderosas empresas Vale e Tuv Süd. É uma verdadeira afronta às famílias daqueles que morreram pela ganância e negligência dessas corporações”, declara a diretoria da AVABRUMS.

Enquanto isso, na Alemanha, há duas ações contra a Tüv Süd movidas em Munique – cidade-sede da empresa – por escritórios brasileiros, representando famílias de vítimas e afetados pelo rompimento da barragem. Ambos os processos estão em fase de avaliação da corte alemã, após pronunciamentos da acusação e da defesa.

O legado de Brumadinho

Além do que aconteceu em Brumadinho ser totalmente inaceitável, ainda mais tendo ocorrido alguns anos após o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (outra cidade mineira), agora, o pior cenário seria sofrer o mesmo descaso na parte da justiça brasileira, como já ocorre há sete anos desde o desastre de Mariana.

Antes do tsunami de lama de rejeitos que invadiu Brumadinho, ativistas tentaram impedir que a Vale obtivesse a licença ambiental. Posteriormente, formaram-se mais grupos locais, como o AVABRUM. Em março de 2022, a ONG idealizou o Projeto Legado Brumadinho*, uma iniciativa em memória das 272 vítimas da maior tragédia humanitária do Brasil, na tentativa de estabelecer uma nova mentalidade na sociedade sobre a importância das políticas de saúde e segurança no trabalho . O projeto lança um amplo programa de ações que inclui capacitação, comunicação, divulgação e divulgação de notícias para que tragédias como essa não se percam na confusão da agenda global. Seu lema é: Hoje, você pode salvar vidas. Amanhã, pode ser tarde demais.

* Projeto realizado com recursos alocados pelo Comitê Gestor do Dano Moral Coletivo pago a título de compensação social pelo rompimento da barragem de Brumadinho em 25/01/2019, que ceifou 272 vidas.

Grandes resistências é o que pode se esperar em relação às políticas ambientais do governo Lula

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A destruição da floresta tropical na região amazônica assumiu proporções dramáticas durante o governo Bolsonaro. Foto: AFP/CARL DE SOUZA
 
Por Maria Cecília Oliveira e  Bernardo Jurema para o “Neues Deustchland” 

As questões de meio ambiente e mudanças climáticas tiveram papel central na vitoriosa campanha eleitoral de Luís Inácio “Lula” da Silva. Também foram características que marcaram uma clara diferença entre o político do Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi derrotado em outubro passado. A invasão do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do palácio presidencial em 8 de janeiro por partidários de Bolsonaro – e as forças por trás deles – destacou onde a agenda ambiental do novo governo encontrará a maior oposição: o agronegócio e os militares.

A política ambiental já era prioridade nos dois primeiros mandatos de Lula, de 2003 a 2010. Sob a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, leis melhoradas e uma moratória no cultivo de soja em terras desmatadas na floresta tropical ajudaram o Brasil a reduzir o desmatamento em 70% de 2005 a 2012 em comparação com a década anterior. Silva também garantiu a introdução de regras de transparência que deram à sociedade civil acesso aos dados sobre desmatamento.

Lidar com o legado desastroso do governo anterior de extrema-direita será uma tarefa enorme para o novo governo. A chave da agenda ambiental é conter a resistência – as políticas que apresentam o desmatamento como o preço inevitável do desenvolvimento, como foi o caso durante os anos Bolsonaro. No entanto, o domínio do agronegócio na política brasileira e o amplo envolvimento ideológico e administrativo das Forças Armadas na Amazônia não serão facilmente contidos.

No momento em que Lula entra em seu terceiro mandato como presidente do Brasil, os problemas em torno do rio Amazonas se destacam. A  savanização da floresta tropical já está em pleno andamento. Um relatório recente da Rede de Informações sobre o Desenvolvimento Socioeconômico da Amazônia (RAISG) afirma: “Se a tendência atual de desmatamento continuar, a Amazônia como a conhecemos não viverá até 2025”. O presidente Lula desenvolveu a visão do Brasil como uma “potência ambiental”.

Ele também anunciou uma série de decretos revertendo algumas das ordens do governo Bolsonaro para expandir o acesso a armas, aumentar o desmatamento e dificultar a transparência. A maioria dessas decisões foi tomada durante o primeiro ano e meio da pandemia de COVID-19, quando o governo Bolsonaro aproveitou a situação instável para encobrir o relaxamento das normas ambientais .

Sob Lula, dois ministérios serão responsáveis ​​pela política ambiental: o renomeado Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas e o novo Ministério dos Povos Indígenas. Lula e sua ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, se reaproximaram durante a campanha presidencial após anos de afastamento.

Silva, que na década de 1980 havia trabalhado de perto com Chico Mendes, o seringueiro e líder sindical dos trabalhadores rurais que foi assassinado por fazendeiros em 1988, e foi o primeira seringueiro a ser eleita para o Senado, foi encarregada do Ministério do Meio Ambiente em 2003. Ela renunciou em 2008 devido a divergências durante o segundo mandato de Lula sobre a priorização de projetos de infraestrutura e os interesses do agronegócio amazônico. Em 1º de janeiro, Silva foi nomeada como a nova ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas .

Sonia Guajajara, ativista indígena e ambientalista, foi nomeada primeira ministra dos Povos Indígenas do Brasil. Joênia Wapichana, que se tornou a primeira mulher indígena do Brasil a ser eleita para a Câmara de Deputados em 2018, vai chefiar a agência de assuntos indígenas, a FUNAI. O físico Ricardo Galvão, que Bolsonaro demitiu do cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, será o novo chefe do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq). Essas indicações reforçam o foco renovado de Lula nas questões ambientais .

O poder político do agronegócio é mais evidente no Congresso Nacional , onde o bloco latifundiário exerce enorme influência na formulação e controle da política. A fim de influenciar o processo legislativo em favor dos grandes proprietários e do setor agrícola, esta facção usa sua influência política para monopolizar as instituições estatais e implementar políticas que atacam diretamente o direito à terra, direitos trabalhistas, saúde pública, direitos indígenas e proteção ambiental.

O lobby agrário no parlamento apoiou lealmente Bolsonaro, ao qual ele respondeu com políticas extremamente amigáveis. Mas a força dos interesses extrativistas e do agronegócio dentro das instituições políticas do Brasil decorre em grande parte da confiança do Executivo na construção de uma coalizão parlamentar para impulsionar sua agenda legislativa e impedir tentativas de impeachment do primeiro-ministro. O novo ministro da Agricultura, senador Carlos Fávaro, é um ferrenho partidário do agronegócio.

Segundo o antropólogo Piero Leirner, os que participaram dos motins em Brasília no início de janeiro tinham motivações diferentes. Mas eles tinham um objetivo em comum: o apelo para que as forças armadas fossem os salvadores que restaurariam o estado de direito. Leirner aponta que muitos reservistas e suas famílias são ativos no movimento golpista. A radicalização de extrema-direita das forças de segurança reflete tendências autoritárias profundamente enraizadas na sociedade brasileira. O agronegócio e os militares – protagonistas dos eventos de 8 de janeiro em Brasília – são espinhos na carne do novo governo Lula.

A base dos contra-ativistas também inclui o agronegócio, que financiou os acampamentos de protesto de extremistas de direita em frente aos quartéis, e as forças de segurança, que os apoiaram e participaram. Não adiantará nada ao governo simplesmente desejar que eles desapareçam. Ao mesmo tempo, enfrentará pressão crescente de ativistas climáticos, comunidades indígenas e outros grupos que pedem ação climática.

A ambiciosa agenda de proteção do clima de Lula contradiz o poder estrutural do setor agrícola no Brasil e é tão inconciliável com o sucesso de sua política de desenvolvimento quanto com a crescente importância dos militares. Para dissociar o crescimento econômico do desrespeito ao meio ambiente, os interesses arraigados devem ser desafiados em vez de satisfeitos. Por seu futuro político e pelo futuro do Brasil, Lula deve abandonar sua postura conciliatória com a qual tenta aplacar ambientalistas e forças de oposição. 
Tradução: Peter Steiniger


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Este texto foi publicado em alemão pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Bayer é processada por barrar cidadãos não americanos do acordo do Glifosato

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Uma ponte é decorada com o logotipo da Bayer AG, fabricante farmacêutica e química alemã em Wuppertal, Alemanha, 9 de agosto de 2019. REUTERS/Wolfgang Ratta/Foto de arquivo

Por Jonathan Stempel para a Reuters

19 Jan (Reuters) – Um novo processo nos Estados Unidos acusou nesta quinta-feira a alemã Bayer AG (BAYGn.DE) de excluir ilegalmente uma agricultora da Virgínia de um acordo devido a alegações de que seu herbicida Roundup (Glifosato) causa câncer, porque ela não é cidadã dos Estados Unidos.

A denúncia disse que Elvira Reyes-Hernandez, que usou o Roundup enquanto trabalhava em fazendas de árvores antes de ser diagnosticada com linfoma não Hodgkin em 2019, esperava compartilhar um acordo de US$ 412,8 milhões com um pagamento médio de US$ 120.000.

Mas ela disse que seus escritórios de advocacia, que ela também está processando, a dispensaram do caso por causa de sua cidadania mexicana em julho de 2021, sete meses depois de terem assinado os papéis autorizando o pagamento.

Agora representada pelo Public Citizen, o grupo de defesa fundado por Ralph Nader, a queixosa de 47 anos disse que a Bayer, seu negócio Monsanto e os escritórios de advocacia violaram a lei federal de direitos civis ao impedi-la de se recuperar de seu câncer, agora em remissão.

O processo de Reyes-Hernandez aberto no tribunal federal em Abingdon, Virgínia, busca danos não especificados e uma exigência de que a Bayer permita que cidadãos não americanos, que compreendem mais de 70% dos trabalhadores agrícolas, participem de acordos Roundup.

“Seu status de cidadania não tem nada a ver com seu direito de ser ressarcido por danos causados ​​pelos produtos da Bayer”, disse Kathryn Youker, advogada do Comitê de Advogados para Direitos Civis Segundo a Lei que ajudou a abrir o processo.

Em um comunicado, a Bayer disse que o processo de Reyes-Hernandez não tinha mérito e que ela “não era diferente” de outros requerentes inelegíveis.

“A Bayer acredita fortemente em uma cultura inclusiva, equitativa e diversificada e não tolera racismo ou discriminação”, acrescentou.

Depois que seu pedido foi rejeitado, Reyes-Hernandez encontrou um novo advogado e, em julho, processou a Monsanto no condado de St. Louis, Missouri. Seus ex-escritórios de advocacia não responderam aos pedidos de comentários.

O preço das ações da Bayer caiu 44% desde que pagou US$ 63 bilhões pela Monsanto em junho de 2018, tornando-se a maior fornecedora mundial de sementes e pesticidas, mas também herdando a responsabilidade pelo litígio da Roundup.

Em junho de 2020, a Bayer concordou em resolver grande parte desse litígio por US$ 10,9 bilhões. Em fevereiro de 2022, cerca de 107.000 das 138.000 reivindicações enfrentadas foram resolvidas ou consideradas inelegíveis .

Em junho passado, a Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu indenizações de US$ 87 milhões e US$ 25 milhões contra a Bayer para pessoas que culparam seus herbicidas pelo câncer.

O caso é Reyes-Hernandez v Monsanto Co et al, Tribunal Distrital dos EUA, Distrito Ocidental da Virgínia, nº 23-00001.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Genocídio Yonamami: resultado do uso da floresta amazônica como um campo de concentração a céu aberto

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Quando visitei a Universidade de Helsinki logo após a eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil entre 2019-2022 disse aos presentes que a minha maior preocupação era com o destino dos povos indígenas que viviam na Amazônia, pois estes estariam na linha de frente dos projetos de destruição que haviam sido fartamente anunciados pelo presidente eleito em sua campanha vitoriosa.

Ao longo dos últimos quatro anos, tal como previ, o que vimos de forma difusa foram as informações de invasões em todas as terras indígenas amazônicas, mas com especial ênfase nas terras dos Munduruku no Pará e dos Yonamami  em Roraima, onde milhares de garimpeiros ilegais se instalaram para destruir as florestas em busca de um ouro, contaminando rios e estabelecendo o terror dentro dos territórios.

Assim, aqui e ali, reportagens espaçadas da mídia corporativa acrescidas de denúncias das organizações indígenas informaram sobre a gravidade da situação apenas para darem de enfrentar com o incentivo tácito do governo Bolsonaro às invasões e ao terror instalado nas terras indígenas.

Agora, com o novo governo instalado, imagens mais claras do que se configura em uma tentativa explícito de extermínio estão emergindo (vejam imagens abaixo), forçando o presidente Lula a ir ver pessoalmente as consequências da política arrasada que foi cometida contra o povo Yonamami em Roraima (ver imagens abaixo).

A verdade é que até agora o uso do termo genocídio para definir as ações de Jair Bolsonaro durante a crise sanitária causada pela pandemia da COVID-19 poderia ser visto como um exagero retórico, o que está surgindo sobre a situação dos  Yonamami não tem nada de retórico e assume tons de um nível de barbárie humana que não possui outra definição possível,  na medida em que houve uma ação deliberada para deixar aquele povo originário abandonado nas mãos de milhares de criminosos, sem qualquer proteção do Estado brasileiro. 

O saldo até agora é de pelo menos 500 crianças Yonamami mortas por causa de doenças e outras tantas por causa da presença de garimpeiros em um território que deveria estar sendo protegido e não estava sendo. Resta saber as consequências legais que resultarão contra os responsáveis por este genocídio em solo amazônico.

Pessoas expostas ao Glifosato têm biomarcadores de câncer na urina aponta estudo

Estudo mediu glifosato na urina e encontrou altos níveis associados a sinais de estresse oxidativo

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Os resultados do estudo vêm depois que o CDC relatou no ano passado que mais de 80% das amostras de urina coletadas de crianças e adultos continham glifosato. Fotografia: valio84sl/Getty Images/iStockphoto

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Uma nova pesquisa realizada pelos principais cientistas do governo dos EUA descobriu que as pessoas expostas ao herbicida glifosato, amplamente utilizado, têm biomarcadores em sua urina ligados ao desenvolvimento de câncer e outras doenças.

O estudo , publicado na semana passada no Journal of the National Cancer Institute, mediu os níveis de glifosato na urina de agricultores e outros participantes do estudo e determinou que altos níveis do pesticida estavam associados a sinais de uma reação no corpo chamada estresse oxidativo, um condição que causa danos ao DNA.

O estresse oxidativo é considerado por especialistas em saúde como uma característica chave dos carcinógenos.

Os autores do artigo – 10 cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde e dois dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – concluíram que seu estudo “contribui para o peso das evidências que apoiam uma associação entre a exposição ao glifosato e o estresse oxidativo em humanos ”.

Eles também observaram que “evidências acumuladas apóiam o papel do estresse oxidativo na patogênese de cânceres hematológicos ”, como linfoma, mieloma e leucemia.

“O estresse oxidativo não é algo que você queira ter”, disse Linda Birnbaum, toxicologista e ex-diretora do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental. “Este estudo aumenta nossa compreensão de que o glifosato tem potencial para causar câncer”.

Os resultados do estudo vêm depois que o CDC relatou no ano passado que mais de 80% das amostras de urina coletadas de crianças e adultos continham glifosato. O CDC informou que de 2.310 amostras de urina coletadas de um grupo de americanos que pretendiam ser representativas da população dos Estados Unidos, 1.885 continham traços detectáveis ​​de glifosato.

O glifosato é o herbicida mais aplicado na história, tanto nos Estados Unidos quanto no mundo. Um dos produtos à base de glifosato mais conhecidos é o herbicida Roundup da Monsanto. O Roundup tem sido usado por agricultores e consumidores há mais de 40 anos. Funcionários da Monsanto e de sua proprietária alemã, a Bayer AG, sempre garantiram ao público e aos reguladores que a exposição ao herbicida não representa uma ameaça à saúde humana.

Roundup da Monsanto é visto em uma loja na Califórnia em 2018.
O Roundup da Monsanto é visto em uma loja na Califórnia em 2018. Fotografia: Robyn Beck/AFP/Getty Images

A Bayer disse que o novo estudo do NIH tem muitas “limitações metodológicas significativas que afetam sua confiabilidade” e disse que os resultados conflitam com outras pesquisas do governo.

“O aumento do estresse oxidativo encontrado no estudo pode ter sido causado por qualquer número de fatores não relacionados ao glifosato ou uma combinação deles, e o estudo não suporta a conclusão de que o glifosato é a causa”, disse a Bayer em um comunicado.

As pessoas são expostas ao glifosato pelo uso de produtos feitos com o produto químico e também pela ingestão de alimentos e água potável contaminados com o pesticida. Os cientistas encontraram resíduos de glifosato em uma variedade de alimentos populares e em cursos de água nos Estados Unidos.

Notavelmente, no novo artigo, os cientistas do NIH e do CDC disseram que, embora seu estudo tenha se concentrado em agricultores expostos ao glifosato quando o pulverizaram nos campos, eles observaram resultados semelhantes em “não agricultores”.

As descobertas sugerem que “esses efeitos podem se aplicar de forma mais ampla à população em geral, exposta principalmente pela ingestão de alimentos e água contaminados ou aplicações residenciais”, escreveram os autores do estudo .

O estudo é tão significativo que merece atenção regulatória, disseram alguns cientistas independentes.

“Esta é uma equipe de investigadores de alto nível e um estudo altamente confiável ao qual os reguladores precisam prestar atenção”, disse Phil Landrigan, pediatra e epidemiologista que trabalhou durante anos no CDC e na Agência de Proteção Ambiental (EPA) e agora dirige o Programa de Saúde Pública Global e o Bem Comum no Boston College.

Michael Antoniou, cientista do departamento de genética médica e molecular do King’s College, em Londres, que pesquisa o glifosato há anos, disse que os resultados são “preocupantes” com “grandes implicações para a saúde”.

Momento crítico

O novo estudo financiado pelo governo chega em um momento em que tanto a EPA quanto os reguladores europeus estão concluindo avaliações atualizadas da segurança do glifosato, e enquanto os defensores da saúde estão pressionando por limites no uso do produto químico ou exigências de que produtos como o Roundup sejam rotulados com uma substância cancerígena. aviso.

Um porta-voz da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) disse ao Guardian que a agência estava ciente do estudo e consideraria se as descobertas adicionam ou não “novas evidências” à medida que a agência conclui sua nova avaliação do glifosato. As conclusões da EFSA estão previstas para julho. O glifosato ainda é permitido na UE, mas está sob revisão.

A EPA também disse que estava analisando o novo estudo e “revisaria cuidadosamente” as descobertas ao finalizar sua avaliação.

O estudo também surge no momento em que a Monsanto e a Bayer continuam atoladas em litígios movidos por dezenas de milhares de pacientes com câncer que alegam que a exposição ao Roundup os levou a desenvolver linfoma não-Hodgkin. A empresa já concordou em pagar mais de US$ 11 bilhões para resolver a maior parte das reivindicações – sem admitir qualquer responsabilidade – mas muitos casos não foram resolvidos e os julgamentos civis continuam.

Edwin Hareman, centro, em 2019. Um júri dos EUA concedeu-lhe milhões em indenização em um julgamento sobre sua alegação de que o Roundup causou seu câncer.

Edwin Hareman, centro, em 2019. Um júri dos EUA concedeu-lhe milhões em indenização em um julgamento sobre sua alegação de que o Roundup causou seu câncer. Fotografia: Jeff Chiu/AP

A Bayer também está enfrentando um aumento na agitação dos investidores e pede uma separação e a saída dos principais líderes depois que a empresa perdeu 40% de seu valor de mercado após a aquisição da Monsanto em 2018.

A Bayer afirma que o glifosato não causa câncer e que os produtos feitos com ele podem ser usados ​​com segurança. A empresa não respondeu a um pedido de comentário sobre o estudo do NIH, mas afirma em seu site que a EPA e outras análises regulatórias de um “extenso corpo de pesquisa” apóiam a promessa de segurança da empresa.

Embora alguns países tenham se movido para banir os produtos com glifosato, as agências reguladoras em muitos países dizem que há falta de evidências ligando os herbicidas à base de glifosato ao câncer, e que é um dos herbicidas mais seguros e eficazes disponíveis.

No ano passado, um comitê de avaliação de risco da Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) concluiu, após revisar vários estudos, que não havia justificativa para classificar o glifosato como cancerígeno.

Muitos grandes grupos agrícolas dos EUA, incluindo a American Farm Bureau Federation, American Soybean Association, National Corn Growers Association, National Association of Wheat Growers, National Cotton Council e American Sugarbeet Growers Association, também dizem que o glifosato é seguro e não causa câncer .

A EPA disse há anos que considera o glifosato “provavelmente” não cancerígeno e, em uma revisão atualizada de 2020, a agência reiterou que não viu “riscos à saúde humana” preocupantes. Mas a agência foi forçada a retirar essa determinação de segurança no ano passado, depois que um tribunal federal de apelação invalidou a avaliação da EPA.

A decisão do tribunal disse que a EPA não seguiu adequadamente as diretrizes científicas quando determinou que o glifosato não era cancerígeno, ignorando o conselho de especialistas de consultores científicos e usando “raciocínio inconsistente”.

A EPA agora está revisando sua avaliação do glifosato, mas disse publicamente que não planeja mudar sua posição sobre a segurança do produto químico para humanos.

Preocupações com a gravidez

O debate sobre a segurança do glifosato persistiu por anos e se intensificou depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), uma unidade da Organização Mundial da Saúde, declarou-o “provavelmente cancerígeno para humanos” em 2015.

As novas descobertas não são as primeiras a analisar o glifosato e o estresse oxidativo. Estudos em animais e estudos celulares também encontraram uma associação. Mas há apenas um punhado de tais estudos em humanos.

O estudo do NIH é a “maior investigação até hoje sobre a relação entre a exposição ao glifosato e os marcadores de estresse oxidativo”, disse Jonathan Hofmann, autor do estudo e cientista do National Cancer Institute do NIH.

Os cientistas dizem que é importante examinar as substâncias que podem causar estresse oxidativo porque um grande corpo de evidências científicas sugere que o estresse oxidativo a longo prazo contribui para o desenvolvimento não apenas do câncer, mas também de uma série de condições crônicas, como diabetes , doenças cardíacas e problemas reprodutivos, incluindo infertilidade masculina .

Um estudo humano anterior relacionado ao glifosato e ao estresse oxidativo foi publicado no ano passado por uma equipe de cientistas especializados em saúde pública e ambiental em várias universidades dos Estados Unidos.

Esses pesquisadores analisaram 347 amostras de urina coletadas de mulheres grávidas, descobrindo que níveis mais altos de biomarcadores de estresse oxidativo foram observados nas amostras contendo concentrações de ácido aminometil fosfônico (AMPA), uma substância criada quando o glifosato se decompõe no solo e na água.

Os autores desse artigo observaram que o glifosato e o AMPA demonstraram interromper a função hormonal e alertaram que mais pesquisas são necessárias devido à “persistência do glifosato no meio ambiente e potencial para efeitos adversos durante a gravidez”.

Saúde dos agricultores

O novo estudo do NIH é considerado parte do Agricultural Health Study (AHS), um exame de longo prazo dos impactos do uso de pesticidas na saúde de agricultores financiado pelo National Cancer Institute e pelo National Institute of Environmental Health Sciences em colaboração com a EPA.

Outros estudos da AHS forneceram resultados às vezes conflitantes sobre a questão de saber se o glifosato pode ou não causar câncer, mas os cientistas autores da pesquisa mais recente disseram que seu estudo foi distinto por vários motivos, incluindo o uso de medições de exposição urinária ao glifosato e históricos de exposição a pesticidas para os sujeitos do estudo e incluindo pessoas que não são agricultores.

Os pesquisadores disseram que, embora as associações entre o glifosato e os biomarcadores de estresse oxidativo “parecem principalmente refletir os efeitos da exposição ocupacional recente, também houve algumas evidências de associações com a exposição de longo prazo”.

Os investigadores do NIH estão explorando oportunidades potenciais para acompanhar essas descobertas e atender às necessidades de pesquisas futuras, conforme descrito acima, disse Hofmann.

Lorette Picciano, diretora executiva da aliança Rural Coalition de trabalhadores agrícolas, disse que espera que a EPA preste atenção ao estudo.

“As pessoas estão morrendo desses tipos de câncer”, disse ela. “Este estudo é muito importante.”

Esta história é co-publicada com o New Lede , um projeto de jornalismo do Environmental Working Group. Carey Gillam é editor-chefe do New Lede e autor de dois livros sobre o glifosato: Whitewash (2017); e The Monsanto Papers (2021).


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].

Na França, a rua responde

Protesto em massa contra o regime previdenciário de Emmanuel Macron. Presidente e ministros fogem para Espanha

cestnon“Trabalhe mais, isso não é possível!”: Líderes sindicais na quinta-feira na manifestação em Paris contra os planos de pensão de Macron

Por Hansgeorg Hermann, de Paris, para o JungeWelt

Os franceses deram a seu presidente de direita, Emmanuel Macron, uma demonstração impressionante de resistência unida ao seu ditame previdenciário na tarde de quinta-feira. Segundo os organizadores, pelo menos um milhão e meio de pessoas protestaram em Paris e em outras 200 cidades contra o projeto de lei apresentado pelo chefe de Estado e seu governo na semana passada, que, entre outras coisas, prevê o aumento da idade de aposentadoria de 62 a 64 anos. A raiva nas ruas, para a qual o governo enviou mais de 10.000 policiais para conter, foi acompanhada por uma greve geral meticulosamente organizada pelos oito principais sindicatos. Ativistas e altos políticos da oposição de esquerda nomearam os apoiadores de Macron em faixas e alto-falantes: “O Medef”, a poderosa associação empresarial da França,

O que os sindicalistas esperavam se concretizou: os trabalhadores do transporte público e demais prestadores de serviço do Estado, com até 70% em greve, paralisaram temporariamente o país. Enquanto nas ruas milhares de professores de escolas e universidades, médicos, ferroviários, caminhoneiros e funcionários do judiciário, da administração e até da polícia exigiam não só a revogação da prorrogação da vida profissional, que foi rejeitada por mais de dois -terços dos franceses, mas também a sua redução para 60 anos, Macron partiu para Espanha com onze ministros.

Conforme anunciado quinta-feira a partir do Palácio Presidencial do Eliseu, o chefe de Estado apenas atendeu a um convite do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, feito em outubro. Os porta-vozes do sindicato de esquerda CGT viram as coisas de maneira diferente naquela tarde na Place de la République em Paris: a viagem de Macron, que foi percebida pelos grevistas como “desrespeito grosseiro”, prova mais uma vez que o “presidente dos ultra-ricos” tinha a vontade “poderosa” do povo expressa nas ruas basicamente “não dá a mínima” (francês: “Il s’en fiche”). Para surpresa de todos, o chefe de Estado também levou consigo os chefes do Executivo diretamente afetados pela greve e protestos. Junto com ele, o Ministro da Polícia Gérard Darmanin, Ministro da Educação Pap Ndiaye,

Apesar das tentativas de explicação que o governo e o palácio presidencial vêm apresentando há meses – o que Macron e sua primeira-ministra Élisabeth Borne chamavam de “pedagogia” – a grande maioria da população não se abriu nem por um momento sequer se curvou ao “programa educacional” do presidente. No entanto, os assalariados franceses regularmente têm que pagar caro por sua resistência na “rua”, ao que o ex-banqueiro Macron mais uma vez respondeu com sua ausência: Nem empresas nem corporações compensam sequer uma única hora de trabalho perdido, e não há fundos de greve. Os sindicatos, portanto, geralmente só conseguem um alto grau de mobilização contra projetos que geralmente são considerados particularmente vergonhosos.

O chefe da CGT, Philippe Martinez, resumiu o programa de Macron para os quatro anos restantes de sua presidência diante dos jornalistas: “Esta reforma quer punir o mundo do trabalho e poupar os empresários”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Governo Lula realiza suas primeiras ações de repressão ao desmatamento ilegal na Amazônia

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Por Jake Spring para a Reuters

URUARA, Brasil, 19 Jan (Reuters) – As primeiras incursões do Brasil contra o desmatamento ilegal na floresta amazônica sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estavam em andamento na quinta-feira, após a promessa do novo líder de acabar com a destruição que aumentou sob seu antecessor Jair Bolsonaro.

A Reuters acompanhou exclusivamente as incursões lideradas pela agência ambiental Ibama no estado da floresta tropical do Pará para impedir que madeireiros e fazendeiros derrubassem ilegalmente a floresta. A agência também lançou batidas esta semana nos estados de Roraima e Acre, disse a coordenadora de fiscalização ambiental do Ibama, Tatiane Leite.

Cerca de 10 agentes do Ibama partiram em caminhonetes na quinta-feira de sua base no município de Uruara, no Pará, juntamente com uma dezena de policiais federais, em direção a uma reserva indígena onde imagens de satélite mostraram madeireiros e fazendeiros trabalhando recentemente na derrubada ilegal da floresta. A missão visa deter ou afugentar madeireiros para evitar novas incursões na floresta e multar quem for flagrado com madeira ilegal.

O governo Bolsonaro reduziu o número de funcionários e fundos para fiscalização ambiental do Ibama em seus quatro anos de mandato, enquanto o ex-presidente criticou repetidas vezes o órgão por emitir multas a fazendeiros e mineradores.

Bolsonaro deu aos militares e depois ao Ministério da Justiça autoridade sobre as operações de combate ao desmatamento, deixando de lado o Ibama , apesar da vasta experiência e sucesso da agência no combate à destruição da Amazônia.

Uma área maior que a Dinamarca foi desmatada sob Bolsonaro, um aumento de 60% em relação aos quatro anos anteriores.

Lula na campanha eleitoral do ano passado prometeu colocar o Ibama de volta no comando do combate ao desmatamento com financiamento e pessoal reforçados. Ele assumiu o cargo em 1º de janeiro, então dinheiro adicional e equipe ainda não chegaram aos policiais da linha de frente. Mas agentes do Ibama disseram à Reuters que já se sentiam mais fortalecidos por Lula anunciar a proteção ambiental como prioridade máxima.

O governo de Bolsonaro negou vários pedidos da Reuters para acompanhar as missões do Ibama durante seu governo 2019-2022. Seu governo instituiu uma liminar proibindo os agentes do Ibama de falar com a imprensa, que, segundo os agentes, já foi revogada no governo Lula.

“Divulgar batidas para dissuadir criminosos ambientais já é uma grande mudança. Isso não acontecia no governo anterior, cujo objetivo era mostrar que não estávamos fazendo nada”, disse Givanildo dos Santos Lima, agente que comanda a missão Uruara do Ibama.

Lula assumiu o cargo pela primeira vez em 2003, quando o desmatamento da Amazônia estava próximo de seu recorde histórico, e por meio da estrita aplicação das leis ambientais o reduziu em 72%, para um nível quase recorde quando deixou o cargo em 2010.

Jake Spring é  Correspondente Global de Clima e Meio Ambiente, baseado no Brasil. Os interesses incluem ciência, florestas, geoengenharia, criosfera, política/diplomacia climática, responsabilidade e reportagens investigativas. Seu trabalho sobre a destruição ambiental sob o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, recebeu prêmios da Covering Climate Now e da Society of Environmental Journalists. Anteriormente baseado na China, ele é fluente em português e chinês mandarim.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

‘Pseudociência intencional’: o método da extrema-direita para fazer você acreditar que mudanças climáticas não existem

O cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do CNPq, e outros cientistas explicam como hipóteses científicas são usadas de forma distorcida para enganar o público e avançam rapidamente nas plataformas digitais. YouTube, que não tem política sobre conteúdos negacionistas do clima, desmonetizou vídeos enviados pelo projeto Mentira Tem Preço.

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Por Eduardo Geraque/InfoAmazonia

Os Estados Unidos viviam a “pior nevasca do século” e um dos mais prestigiosos jornais do mundo, o The New York Times, publicava “Como a mudança climática pode sobrecarregar as tempestades de neve“. No Brasil, o drama dos norte-americanos virou piada e motivo para negar a existência das mudanças climáticas no YouTube, plataforma que não tem políticas de conteúdo para combater o negacionismo das mudanças climáticas.

O projeto Mentira Tem Preço mapeou dois vídeos entre os mais vistos no Brasil em canais de extrema-direita na última semana de dezembro de 2022. Foram mais de 270 mil visualizações na semana em que Marina Silva aceitou ser ministra do Meio Ambiente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e anunciou, em entrevista, que a pasta ganharia “mudanças climáticas” no nome.

Youtuber Junior Japa comenta o aquecimento global em seu canal, sem qualquer apuro científico | Reprodução Youtube

Um youtuber que se intitula Junior Japa, e que usa as redes para enaltecer o bolsonarismo, levantou dúvidas sobre as mudanças climáticas: “nunca vi um novembro e um dezembro chovendo tanto como neste ano, e eles insistem em falar de aquecimento global. Chegou a hora que até Deus está de saco cheio…”.

Outro vídeo é do jornalista Alexandre Garcia, ex-apresentador da CNN demitido por defender o uso de medicamentos sem eficácia no tratamento da Covid-19. Agora na equipe da Jovem Pan News, Garcia é um dos citados no inquérito do Ministério Público Federal sobre a disseminação de desinformação.Na live em seu canal, Garcia diz: “Vocês foram muito assustados pelo aquecimento global. Vai acabar o mundo, a temperatura vai subir. Gente, já morreram 62 nos Estados Unidos, de frio”.

“O nome disse é pseudociência intencional, e veio para ficar”, diz o cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Galvão foi demitido da presidência do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no governo de Jair Bolsonaro por divulgar dados que indicavam alta do desmatamento.

COMO FAZEMOS O MONITORAMENTO: O projeto Mentira Tem Preço, realizado desde 2021 pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA, monitora e investiga desinformação socioambiental. Nas eleições de 2022, checamos diariamente os discursos no horário eleitoral de todos os candidatos a governador na Amazônia Legal. Também monitoramos, a partir de palavras-chave relacionadas a justiça social e meio ambiente, desinformação sobre a Amazônia nas redes sociais, em grupos públicos de aplicativos de mensagem e em plataformas.

A fórmula de sucesso desse raciocínio que termina ludibriando a opinião pública, diz Galvão, é jogar uma hipótese científica, sem explicar o método ou suas conclusões, nas redes sociais de maneira que quem não seja um especialista no assunto não tenha insumos para questionar. O método é utilizado pela extrema direita em todo o mundo. Essa desinformação gera ansiedade por respostas rápidas e pouco complexas que os cientistas têm dificuldade para responder. “Nem sempre uma resposta a um pseudocientista cabe em um fio do Twitter ou nos stories do Instagram.”

“Os eventos extremos, como ondas de calor, frio, secas ou chuvas, são indicadores claros das mudanças climáticas”, afirma o climatologista José Marengo, um dos grandes especialistas mundiais no tema. Ele é coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), instituição ligada ao governo federal.

Por isso, eventos como os ciclones-bomba dos Estados Unidos —ou, no caso do Brasil, as torrenciais tempestades de verão mais concentradas— vão ficar mais frequentes, aponta Marengo. “No verão, quando vêm as ondas de calor, ninguém se lembra muito de criticar o aquecimento”, diz o especialista peruano radicado há décadas no Brasil. “Se você fizer uma média, por exemplo, das temperaturas no inverno, elas estão mais quentes.

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Para o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, “eventos extremos, como ondas de calor, frio, secas ou chuvas, são indicadores claros das mudanças climáticas” | Ascom / CEMADEN

Tanto o canal de Garcia como o de Japa são monetizados, o que significa que Garcia, Junior e o YouTube podem lucrar com o negacionismo das mudanças climáticas. Isso não deveria ter acontecido segundo as próprias políticas de monetização e anúncios sobre mudanças climáticas atualizadas em 2021. Desde então, passou a ser proibida a geração de receita com conteúdo e anúncios que contradizem o consenso científico sobre a existência e as causas das mudanças climáticas. Sobre ter conteúdos negacionistas das mudanças climáticas na plataforma, não houve avanço

“Isso inclui material que se refere às alterações no clima como se fossem mentira ou um golpe, com afirmações negando que as tendências de longo prazo mostram um aumento na temperatura global, e dizendo que as emissões de gases do efeito estufa ou as atividades humanas não contribuem para esse cenário. Após análise, os vídeos em questão tiveram a monetização suspensa por infringirem as diretrizes de conteúdo adequado para publicidade do YouTube”, afirma a empresa por meio de nota.

A reportagem não conseguiu contato com Garcia e Junior. O vídeo de Japa foi removido durante a apuração da reportagem.

unnamed (8)Em transmissão ao vivo realizada em seu canal do YouTube, Alexandre Garcia afirma, sem mostrar evidências, que seus espectadores “foram muito assustados pelo aquecimento global” | Reprodução do YouTube

Como combater a pseudociência

Galvão lembra bem de quando entrou em contato com a pseudociência intencional da extrema-direita, representado na figura do astrólogo e ideólogo Olavo de Carvalho (1947-2022). Há alguns anos, um ex-aluno o procurou para saber como responder a Carvalho, que dizia em um vídeo que a Teoria da Relatividade de Albert Einstein estava errada. “Eles [os negacionistas da extrema-direita] usam um ponto importante do método científico”, explica Galvão.

“A teoria ou o modelo científico tem que ser testada, isso faz parte do próprio processo da ciência, para sabermos se ela é falsa ou não. Se você segue o método científico, você precisa provar que algo é verdadeiro ou, então, mostrar que aquilo pode ser falseado. Mas, segundo os negacionistas, o método científico é uma hipótese como outra qualquer, e esse é um problema sério agravado pela circulação dessas desinformações nas plataformas digitais.”

A desinformação em geral, e principalmente a relacionada a ciência e meio ambiente, incluindo a agenda climática e energética, faz parte de um processo já consolidado no Brasil mostram pesquisas sobre o tema.

“A desinformação é fruto também da histórica concentração midiática do sistema de comunicações no Brasil. Por isso, um debate sério sobre reforma do sistema comunicacional e do fortalecimento da comunicação pública também é um caminho urgente para sair do labirinto da desinformação”, afirma Lori Regattieri, pesquisadora do Netlab da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), afirma que a pseudociência intencional “veio para ficar” | Cecília Bastos / USP Imagens

Para a especialista em desinformação digital, no caso específico do desmatamento, a solução também passa pelo fortalecimento do ecossistema das mídias regionais. “Principalmente na própria região do arco do desmatamento, com o objetivo de promover iniciativas de jornalismo regional comprometidas com a pluralidade de vozes da própria comunidade, promovendo informação e expondo a população a conteúdo consolidado pela ciência e pelas pesquisas desenvolvidas na agenda de clima e meio ambiente”, diz Lori.

Para ela, em termos práticos, o caminho para enfrentar a desinformação digital passa necessariamente pelo amadurecimento do PL 2630. “O chamado PL das Fake News precisa retornar a reflexões sobre a dinâmica de consumo informacional no Brasil, para que esteja conectado às demandas contemporâneas do ecossistema de notícias diante dos desafios estruturantes das redes sociais e aplicativos de mensagens. A transformação digital do ponto de vista das comunicações precisa considerar questões econômicas, pois o celular é um dos principais meios de interação com esse ecossistema de informação”, diz Lori.

Também entra nessa seara, diz a pesquisadora, a responsabilização de todos os atores envolvidos na cadeia da desinformação. “É um debate sobre a responsabilização desde as plataformas até indivíduos. Precisamos pensar que atores serão responsabilizados. Não é apenas a minha posição individual, mas as empresas também podem ser responsabilizadas ativamente no combate à desinformação.”

No caso de Galvão, mesmo com todos os desafios, ele conta que seu ex-aluno não ficou sem resposta para rebater Olavo de Carvalho em seu podcast. “Eu disse: ‘olha, diga aos seus seguidores do Instagram que, se eles usam GPS, se não fossem as correções relativísticas da teoria de Einstein, que fazem a correção do relógio do satélite com o horário do relógio que está na Terra, o erro de medição do GPS seria da ordem de 10 km’. E mandei mais três referências onde isso é explicado de forma mais detalhada e acessível para leigos. Ele fez isso e foi um sucesso de audiência.”

Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço – especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora Fala. A iniciativa é parte do Consórcio de Organizações da Sociedade Civil, Agências de Checagem e de Jornalismo Independente para o Combate à Desinformação Socioambiental. Também integram a iniciativa o Observatório do Clima (Fakebook), O Eco, A Pública, Repórter Brasil e Aos Fatos.