Nota sobre a indicação de Jean Paul Prates para a presidência da Petrobras

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Por Associação dos Engenheiros da Petrobras

A AEPET irá acompanhar as ações e as omissões do futuro presidente da Petrobrás

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva indicou Jean Paul Prates para a presidência da Petrobrás.

Antes da indicação, a Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) revelou declarações e posturas políticas do ex-senador e empresário. Prates foi entusiasta da quebra do monopólio estatal do petróleo exercido pela Petrobrás, no governo FHC, em 1997. Defendeu a privatização da Petrobrás, participou da elaboração da Lei do Petróleo (Lei No 9478/97) e foi redator do Contrato de Concessão. Desde 1991, atuou como empresário e consultor das petrolíferas que pretendiam explorar o petróleo e o mercado brasileiros, através da Expetro Consultoria. Leia o artigo e a entrevista. [1] [2]

São declarações e posições políticas que não se justificam, ou se apagam, em qualquer tempo ou contexto.

A Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) defende as seguintes iniciativas relativas ao setor energético e à Petrobrás:

1- Restauração do monopólio estatal do petróleo, exercido pela Petrobrás;
2- Reversão da privatização dos ativos da Petrobrás, destacando a BR Distribuidora, refinarias, malhas de gasodutos (NTS e TAG), distribuidoras de GLP e gás natural (Liquigás e Comgás), produção de fertilizantes nitrogenados (FAFENs), direitos de exploração e produção de petróleo e gás natural e as participações na produção de petroquímicos e biocombustíveis;
3- Reestruturação da Petrobrás como Empresa Estatal de petróleo e energia, dando conta de sua gestão, com absoluta transparência, ao controle do povo brasileiro;
4- Alteração da política de preços da Petrobrás, com o fim do Preço Paritário de Importação (PPI), que foi estabelecido em outubro de 2016, e restauração do objetivo histórico de abastecer o mercado nacional de combustíveis aos menores preços possíveis;
5- Limitação da exportação de petróleo cru, com adoção de tributos que incentivem a agregação de valor e o uso do petróleo no país;

6- Recompra das ações da Petrobrás negociadas na bolsa de Nova Iorque (ADRs);
7- Desenvolvimento da política de conteúdo nacional e de substituição de importações para o setor de petróleo, gás natural e energias potencialmente renováveis;
8- Estabelecimento de um plano nacional de pesquisa e investimentos em energias potencialmente renováveis, sob a liderança da Petrobrás.

As opiniões e a atuação histórica do senador Jean Paul Prates (PT-RN) são contraditórias e incompatíveis com as políticas defendidas pela AEPET. Vamos acompanhar suas iniciativas como presidente da Petrobrás.

A atuação política e programática da AEPET é impessoal e transparente.

A AEPET irá acompanhar as ações e as omissões do futuro presidente da Petrobrás. Nossa associação será capaz de reconhecer méritos, assim como de apontar as deficiências da futura gestão, à luz das propostas publicamente defendidas pela nossa organização.

Janeiro de 2023

*Diretoria da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)


https://aepet.org.br/w3/
 

Referências

[1] F. Coutinho, “Jean Paul Prates Revelado,” 2022.
[2] C. Lemes, “Entrevista para Viomundo: Engenheiros da Petrobrás contra senador Prates na presidência: “Petrobrás não existiria hoje, se o que ele já defendeu tivesse sido adotado”, afirma Felipe Coutinho,” 2022.

Lula pode salvar a Amazônia? Seu histórico mostra que ele pode conseguir

O novo presidente do Brasil está determinado a reverter a abordagem de terra arrasada de Bolsonaro  em relação ao meio ambiente

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‘No primeiro dia de mandato de Lula, ele assinou uma medida do Fundo Amazônia, que permite que governos estrangeiros ajudem a custear esforços de preservação.’ Fotografia: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images

Por André Plagliarini para o “The Guardian”

Esta semana, enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva se preparava para tomar posse para um terceiro mandato sem precedentes, uma das principais preocupações era se o clima permitiria que ele acenasse para apoiadores reunidos em Brasília de um conversível conversível, como é costume . Certamente marcou um afastamento das preocupações mais sérias que assombraram a transferência de poder entre ele e seu antecessor, Jair Bolsonaro, nas semanas anteriores.

Afinal, milhares de seguidores de Bolsonaro se recusaram a aceitar o resultado das eleições do ano passado. Muitos acamparam do lado de fora dos quartéis militares pedindo a intervenção das forças armadas, cometendo graves atos de vandalismo na capital do país. Felizmente, seus apelos não deram em nada – Bolsonaro partiu sem cerimônia para a Flórida no último dia do ano – e Lula está oficialmente de volta.

Nenhum presidente na maior nação da América Latina ganhou três eleições, uma prova da popularidade duradoura e relevância política do ex-metalúrgico. Lula enfrenta muitos desafios, principalmente devido à natureza de terra arrasada das políticas de Bolsonaro. Nesse contexto, suas primeiras medidas após a posse assumem especial importância simbólica, dando o tom do que os observadores do país e do exterior podem esperar deste novo governo.

Isso nos leva ao destino da floresta amazônica . Em seu discurso de posse no Congresso, Lula disse: “Nossa meta é atingir zero desmatamento na Amazônia e zero emissão de gases de efeito estufa na matriz elétrica, além de incentivar a revitalização de pastagens degradadas”. Criticando implicitamente os principais produtores agrícolas do Brasil, os maiores responsáveis ​​pela degradação ambiental, Lula insistiu: “O Brasil não precisa desmatar para manter e expandir sua estratégica fronteira agrícola”.

Entre os primeiros decretos que ele assinou estavam medidas de fortalecimento da proteção ambiental e combate ao desmatamento – um revogou uma iniciativa de Bolsonaro que efetivamente facilitou a grilagem ilegal de terras. Durante seu mandato, Bolsonaro não fez quase nada para fazer cumprir as rígidas leis de proteção ambiental do país. Isso ocorreu em parte porque ele tinha pouco incentivo para – os principais interesses agrícolas formavam uma parte fundamental de seu eleitorado político. As novas medidas de Lula também exortaram sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cujo cargo foi renomeado como Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, a apresentar novas diretrizes para o Conselho Nacional do Meio Ambiente, que havia sido prejudicado por Bolsonaro.

Um grande desafio para Lula será equilibrar o interesse econômico do Brasil em um setor agrícola vibrante, que se tornou fundamental para a carteira de comércio exterior do país nas últimas décadas, com a necessidade de conter o desmatamento que desmatou milhares de acres de floresta para criar novos pastagens para gado. Os interesses agrícolas são uma grande força política no Brasil . O fato de que tais interesses apoiaram de forma tão esmagadora Bolsonaro, um presidente que representava uma ameaça direta à ordem democrática do Brasil, tornará muito difícil para Lula enfiar essa agulha política em particular. Como cumprir as proteções ambientais sem alienar ainda mais os interesses agrícolas que já desconfiam dele?

Pelo menos por enquanto, Lula não dá sinais de ceder aos atores que tanto impulsionam o desmatamento no país. Em seu primeiro dia de mandato, ele também assinou uma medida que recria o Fundo Amazônia, que funciona como um mecanismo para governos estrangeiros ajudarem a custear esforços de preservação. Como o The Guardian relatou em novembro passado, o fundo foi efetivamente paralisado sob a administração anterior; cerca de 3,2 bilhões de reais (£ 500.000) que já haviam sido doados foram congelados .

A devastação da floresta amazônica que Bolsonaro permitiu foi talvez o desenvolvimento mais crítico que abriu caminho entre o Brasil e grande parte do mundo nos últimos anos. Enquanto os líderes da Europa Ocidental e dos Estados Unidos se preocupavam com o desrespeito de Bolsonaro pela maior floresta tropical do mundo, Bolsonaro os acusou de tentar minar a soberania brasileira. A nova ação de Lula já rendeu uma promessa do presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, que compareceu à posse de Lula, de € 35 milhões (£ 31 milhões) para o Fundo Amazônia. É provável que mais a seguir.

Os movimentos na frente ambiental representam o que provavelmente será a estratégia de Lula em seu terceiro mandato: casar o compromisso de fortalecer a democracia e diminuir a desigualdade interna com a reafirmação da relevância brasileira nos assuntos globais. Durante o mandato anterior de Lula, o Brasil emergiu como líder mundial em questões de redução da pobreza, redistribuição de riqueza e proteção ambiental. Sob Lula, por exemplo, o desmatamento caiu impressionantes 70%. A mensagem do novo governo é clara: o Brasil está de volta como um player razoável e eficaz no cenário internacional.

O retorno de Lula foi comemorado – implícita e às vezes explicitamente – por vários líderes estrangeiros ansiosos por ver um governo brasileiro comprometido com políticas públicas criativas, ousadas e eficazes e engajamento internacional. Mas não será fácil. Lula deve cumprir a imensa promessa representada por seu terceiro mandato. A posição do Brasil no cenário mundial e a contínua vitalidade da democracia brasileira podem depender apenas disso.

Andre Pagliarini é professor assistente de história no Hampden-Sydney College, na Virgínia. Ele está trabalhando em um livro sobre a política do nacionalismo na história moderna do Brasil


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Redução de biodiversidade é um dos principais impactos da criação de camarão

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Por Agência Bori

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O Brasil é o terceiro maior produtor de camarão da América Latina, sendo a região Nordeste responsável por quase toda a produção nacional. Além da pesca tradicional, o camarão também é obtido por meio de criação em viveiros, prática chamada de carcinicultura. Um estudo foi publicado no dia 28/12/2022 na revista “Arquivos de Ciências do Mar”, apontou que um dos principais impactos ambientais gerados pela carcinicultura é a redução da biodiversidade da fauna e da flora, e que há possíveis soluções para os problemas encontrados.

O artigo de pesquisadores da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE) faz uma revisão sistemática da literatura já publicada a partir de 2011, utilizando a base de dados do Portal de Periódicos da Capes, Scielo e Google Scholar, sobre os aspectos e impactos ambientais da carcinicultura e medidas de prevenção. Com o levantamento, os autores puderam identificar 28 impactos ambientais, como degradação de manguezais e  surtos de doenças, causados por 13 aspectos ambientais, como despejo de efluentes e ocupação de ambientes naturais.

Também foram encontradas mais de 20 medidas preventivas e mitigadoras nos trabalhos analisados para evitar impactos da criação de camarões, sendo as principais relativas ao tratamento de efluentes, gestão integrada da zona costeira, gestão ambiental adequada, utilização de bioflocos e boas práticas de manejo. O sistema chamado de super intensivo foi apontado pelos pesquisadores como o mais eficaz na manutenção da qualidade ambiental, qualidade econômica e sanidade dos camarões.

“É um sistema em que você produz uma quantidade alta de camarões por área, então você produz mais usando menos espaço”, explica Ana Carolina Correia de Oliveira Gomes, uma das autoras do estudo e engenheira ambiental. Dessa forma, é possível otimizar o uso da terra e da água na produção.

Segundo os autores, as principais razões para os impactos da carcinicultura são a falta de monitoramento adequado da prática, ilegalidade na criação de camarão e falta de fiscalização no setor, manejo e planejamento inadequados e falta de conhecimento científico. “É uma área difícil de conseguir dados”, relata a autora. “Existem informações soltas e isoladas entre um estudo e outro, então vimos a necessidade e importância de existir um compilado de informações e determinar as relações entre elas”, completa.

A partir da identificação dos problemas e possíveis soluções, a equipe pretende continuar investigando soluções para redução de impactos da carcinicultura. Os pesquisadores esperam que o artigo possa contribuir para tomadas de decisões referentes à criação de camarão no Brasil e fomento de políticas públicas, além de levar o conhecimento para os carcinicultores para que a produção possa ser feita de forma mais sustentável e com menos impacto ao meio-ambiente, ampliando a relação entre cientistas e produtores.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Após a posse, o desafio de Lula será cumprir promessas

Se o ex-presidente (ufa!) Jair Bolsonaro soubesse o que seria feito com base na sua decisão de não passar a faixa presidencial para o agora (e novamente) presidente Lula, talvez ele não tivesse ido curtir suas férias de forma precoce em Miami. É que ao deixar o país em uma forma de renúncia não dita, Bolsonaro propiciou a inovação de que pessoas da população entregassem a faixa presidencial a Lula, em uma inovação que possibilita ao novo governo começar com uma marca de mudança que não estava assegurada pela engenharia política que foi posta para distribuir ministérios.

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A festa da posse coloriu as ruas de Brasília com a cor vermelha e mostrou que o Brasil é definitivamente um país que hoje se encontra em transição. Já se sabe que Lula tomou várias decisões que atingirão em cheio o processo de desregulamentação imposto pelo governo anterior, o qual rendeu, entre outras coisas, números explosivos de desmatamento, invasão de terras indígenas, aumento exponencial de armas nas mãos de civis, e a aprovação recorde de agrotóxicos. 

Porém os desafios do novo governo serão imensos, na medida em que em muitas áreas não se terá sequer os dados que permitiriam a tomada de decisões básicas sobre o que fazer em áreas estratégicas, a começar pela social. Entretanto, os problemas vão muito além da desorganização estatística, pois, ao contrário de 2003, Lula assume em meio a um cenário internacional de grandes incertezas, e com uma recessão econômica global anunciada pelo Fundo Monetário Internacional. Com isso, haverá uma imensa disputa no momento da alocação de recursos orçamentários, o que poderá impedir que até promessas básicas sejam cumpridas rapidamente. 

E uma coisa que este governo não terá é tempo, pois se de um lado a base social que elegeu Lula vai querer ações rápidas para minimizar a grave crise social e econômica, por outro, a base radicalizada de Jair Bolsonaro continuará insistindo no confronto e na continuidade das ações ilegais que foram amplamente toleradas nos últimos 4 anos, especialmente nos estados da Amazônia. É em meio a essa tensão que se dá o início do novo mandato do ex-metalúrgico.

Ainda que seja notória a capacidade de Lula de agir para destravar pontos de estrangulamento e ampliar alianças, este início de governo certamente vai requerer que ele seja ágil e certeiro. Mas pelo menos uma boa notícia já está posta que é o fim do horrível cercadinho onde Jair Bolsonaro reunia seus apoiadores para disseminar sua visão distópica de governar. Parece que é pouco, mas não é. 

Lei anti-desmatamento da União Europeia abre precedente para outros países seguirem

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Por Rainforest Action Network

Gemma Tillack, Diretora de Política Florestal da Rainforest Action Network (RAN), respondeu à adoção de uma nova lei de importação da União Europeia (UE) que visa impedir que as empresas vendam commodities ligadas ao desmatamento e à degradação florestal.

“O regulamento de desmatamento da UE estabelecerá um importante precedente a ser seguido por outras nações”, disse Tillack. “Os sinais de uma emergência climática estão ao nosso redor e, para evitar o colapso climático, devemos enfrentar os dois motores da crise climática – combustíveis fósseis e desmatamento.

“O regulamento de desmatamento da UE pode levar a reformas rápidas nas cadeias de abastecimento mais responsáveis ​​pelo desmatamento – especialmente carne bovina, soja, óleo de palma, celulose e papel e café, já que os produtores dessas commodities estarão sujeitos a due diligence adicional. Os grandes comerciantes do agronegócio precisarão mostrar o local onde todas as matérias-primas foram produzidas e provar que não estavam ligadas ao desmatamento.

“As novas regulamentações nos países de compras devem funcionar de mãos dadas com mais ações de grandes bancos e marcas para acabar com o desmatamento, a degradação florestal e a conversão de ecossistemas naturais em suas cadeias de suprimentos ou portfólios de investimentos.

“Uma grande força da regulamentação da UE é sua exigência de rastreabilidade até o nível de plantação, fazenda ou rancho. As disposições que exigem dados de geolocalização para todas as matérias-primas impulsionarão a pressão necessária para alcançar a rastreabilidade das cadeias de suprimentos. A investigação recente da RAN descobriu que a falta de rastreabilidade até o nível da fazenda estava resultando em óleo de palma produzido ilegalmente em florestas de turfa densas em carbono protegidas entrando nas cadeias de suprimentos globais.

“Para limitar a mudança climática, precisamos garantir que as cadeias de suprimentos de commodities com risco florestal estejam implementando práticas de não desmatamento, não turfa e não exploração (NDPE). Todos os governos que compram commodities com risco florestal devem desenvolver e implementar leis e estruturas de aplicação que garantam que todos os produtos importados sejam fabricados em conformidade com os padrões de melhores práticas que proíbem o desmatamento, a conversão de ecossistemas naturais e os abusos dos direitos humanos.

“Os líderes mundiais estão cada vez mais reconhecendo e se comprometendo com a proteção e restauração das florestas do mundo como um componente central para lidar com as mudanças climáticas.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Rainforest Action Network [Aqui! ].

Nos seus estertores e com presidente fora do Brasil, governo Bolsonaro libera mais 98 agrotóxicos, totalizando 2.030 em 4 anos

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Enquanto o presidente cessante Jair Bolsonaro fugia para os EUA, o Ministério da Agricultura mostrava o seu potencial tóxico ao liberar em dois atos (Números 63 e 64) mais 98 agrotóxicos, com os quais se chegou ao impressionante “grande total” de 2.030 liberações desde 01 de janeiro de 2019.  Não há sombra de dúvidas que na área da liberação de venenos agrícolas, o MAPA mostrou-se um dos mais ativos e eficientes braços do governo Bolsonaro.

Uma olhada rápida nos dois atos reforça as mesmas características marcantes de toda a coleção de agrotóxicos liberados por Jair Bolsonaro, na medida em que se manteve a preponderância da origem chinesa da maioria dos produtos técnicos que entrarão em um mercado controlado por versões genéricas de agrotóxicos pós patentes. 

Essa situação de preponderância de produtos chineses que estão em parte proibidos em mercados com regras de uso e comercialização mais exigentes (como é o caso da União Europeia) acaba de ser analisada no artigo que co-autorei com meus colegas Ossi Ollinaho e Markus Kröger, o qual acaba de ser publicado pela revista Third World Quarterly.

Uma das consequências dessa quantidade de agrotóxicos altamente perigosos e que estão destinados para uso majoritário nas monoculturas de exportação (i.e., soja, cana de açúcar, algodão e milho) é a exposição cada vez maior dos brasileiros a resíduos de produtos conhecidos por causarem incontáveis tipos de doenças, a começar por vários tipos de câncer.

Essa herança trágica será, contudo, de difícil remoção, na medida em que o latifúndio agro-exportador continuará efetivamente controlando o MAPA, e certamente com isso as pressões por mais liberações de venenosa agrícolas altamente tóxicos continuarão ocorrendo.

Resta saber como reagirão as outras forças e movimentos sociais do campo que terão, de alguma forma, avançar com as propostas no sentido de uma mudança ecológica em uma agricultura que hoje se encontra com um vício muito forte no uso de agrotóxicos. Da ação dessas forças é que dependerá a diminuição do ritmo avassalador de entrada de venenos agrícolas no mercado brasileiro de agrotóxicos.

O “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski irá ao longo do mês de janeiro publicar arquivos contendo a descrição de todos os atos liberados desde setembro de 2022.

Jair Bolsonaro imita Reginaldo Faria e encena renúncia e fuga a la Vale Tudo

bolso vale tudo

Terminou em uma renúncia não dita e uma fuga explícita o trágico governo de Jair Bolsonaro. A bordo de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), cercado de privilégios de todos os tipos, o presidente cessante mostrou a quem realmente deve lealdade ao escolher o território estadunidense para tentar se proteger das eventuais acusações que o esperam em meio a uma série de evidências de que ele cometeu múltiplos crimes ao longo de suas décadas como parlamentar e depois presidente da república.

A cena do jatinho da FAB levando para os EUA um presidente que usou de todos os meios para se manter no poder me fez lembrar a cena final da novela “Vale Tudo” (levada ao ar entre 1988 e 1989) em que Reginaldo Faria, encarnando o vilão Marco Aurélio, dá uma banana e foge do Brasil na companhia de sua mulher Leila, curiosamente encarnada pela atriz Cássia Kiss, hoje transformada em mais uma das milhares de seguidoras deixadas para trás por Bolsonaro.

Mas o maior problema é que Jair Bolsonaro, com essa renúncia não dita e essa fuga explícita, deixa para trás uma montanha de problemas que agora passarão a ser uma herança maldita para o próximo presidente, Luís Inácio Lula da Silva.  E no topo dessa montanha estarão os militantes abandonados por Bolsonaro, os quais dificilmente darão um momento de paz ao ex-metalúrgico.

Além disso, há que se notar que a intrincada engenharia de montagem usada por Lula traz alguns riscos adicionais, incluindo a chegada de apoiadores do programa anti-nacional e anti-pobres de Jair Bolsonaro e seu ministro-banqueiro Paulo Guedes. O problema maior é que para iniciar qualquer processo de retomada econômica, o novo governo não terá sequer o benefício do acesso a dados estratégicos, os quais foram negados pelo governo do presidente fujão.

Mas sou forçado a dizer que a renúncia e fuga de Jair Bolsonaro possibilitam ao Brasil a não ter de tratá-lo com um mínimo de deferência ou respeito. Ao fugir covardemente, Bolsonaro deu mais uma demonstração de que que todas as encenações de valentia que ele ofereceu ao longo de quase quatro décadas só serviam para esconder sua grande covardia.

E que a grande barca brasileira que siga pelos mares agitados que o presidente fujão deixou para trás ao abandonar o posto para curtir a vida nos EUA.

A posse de Lula representa uma virada no Brasil

lulaEm 1º de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva, de 77 anos, assumirá pela terceira vez a presidência do Brasil, cargo que ocupou de 2003 a 2010. Naquela época, ele conseguiu grandes sucessos na luta contra a pobreza. Foto: AFP/Evaristo Sat

Por Martin Ling para o “Neues Deutschland”

Em termos de política externa, amanhece um momento de esperança e, em termos de política interna, um momento de tensão. Com o ano novo, um velho conhecido, Luiz Inácio “Lula” da Silva , assume a presidência do Brasil; Afinal, o dirigente de 77 anos já cumpriu dois mandatos (2003-2010). 

Na América Latina e no mundo, isso gera grandes esperanças. Na América Latina, há esperanças de mais cooperação e integração regional, depois que o ultradireitista Jair Bolsonaro cultivou seu “Brasil acima de tudo e Deus acima de tudo” e se orientou principalmente para Donald Trump nos EUA em vez de um contrapeso no subcontinente. Espera-se que Lula em todo o mundo interrompa o desmatamento acelerado da floresta amazônica, que atingiu níveis recordes sob o governo de Bolsonaro. Lula prometeu que: “O Brasil está pronto para retomar seu papel na luta contra a crise climática”.

Lula fez muitas promessas durante a campanha eleitoral – a resistência à implementação de seus planos será grande. As perspectivas econômicas estão severamente obscurecidas pelas consequências da guerra na Ucrânia e certamente não facilitarão a integração regional que Lula e os demais chefes de governo de esquerda da América Latina têm em mente. O fato de haver algum esforço de cooperação regional é um passo à frente. Juntos, podemos enfrentar melhor a crise.

Lula pode contar com vento favorável internacionalmente, mas não internamente. Os planos de ataque frustrados e os alertas de bomba antes de assumir o cargo são sinais do país polarizado e dividido que Bolsonaro deixou para trás. Trazer a paz a este país será uma tarefa hercúlea. Para isso, Lula vai precisar de toda a sua experiência e habilidade tática.


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Povo da Terra Indígena mais desmatada no Brasil se mobiliza contra invasores

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Foto: Arquivo Pessoal/Alexandre Muller

Por Alexandre Muller, especial para o Correio da Cidadania

Estamos na aldeia Apyterewa, aldeia mãe da Terra Indígena de mesmo nome, localizada na beira do rio Xingu, no sudoeste do Pará. Em um contexto de invasão de território, a assembleia anual do povo da etnia Parakanã da Terra Indígena Apyterewa, ocorreu entre os dias 27 e 29 de novembro. O evento, que foi realizado ora em português, ora em Parakanã, língua do tronco tupi-guarani, contou com a presença, além do povo Parakanã e suas lideranças, de representantes do Ministério Público Federal, de ONGs, órgãos públicos e da associação que os representa. Esse evento foi especialmente importante porque a TI Apyterewa bateu recorde de desmatamento e invasões em 2021 e o povo Parakanã espera um novo sopro de mobilização com a mudança de governo.

“A luta pela nossa terra livre é atual, mas é também milenar. Essa terra é nossa mãe, a partir dela tiramos nossa comida, fazemos nosso artesanato e tecemos nossas redes. Temos que ser prioridade do próximo governo porque somos povo de recente contato, o Lula deve isso à gente”, exclamou durante a assembleia Winatoa Parakanã, primeira mulher eleita presidente da associação Tato’a, que representa o povo e as comunidades Parakanãs da Terra Indígena (TI) Apyterewa.

Durante toda a assembleia, o presidente eleito, Lula, foi muito citado pelos participantes que demonstraram depositar uma grande expectativa sobre o seu mandato. Winatoa lembrou que Lula, que fez uma campanha muito clara em relação à defesa dos territórios indígenas e da proteção do meio ambiente, também se elegeu graças aos votos deles e que foi ele que em 2007 homologou a TI Apyterewa.

Além disso, foi lembrado por lideranças Parakanã que durante a COP27, Lula prometeu uma guerra “sem trégua” ao desmatamento, a criação do ministério dos Povos Originários e a desintrusão, ou seja, remoção e punição dos invasores das Terras Indígenas. Lula vai precisar muito do apoio dos povos indígenas para enfrentar os desafios que se avizinham já que eles são essenciais na luta pela floresta.
Representando menos de 5% da população mundial, os povos indígenas protegem 80% da biodiversidade global e, se depender do povo Parakanã, continuarão se mobilizando para proteger o seu território e a floresta Amazônica. Essa pauta é ainda mais importante num contexto de crise climática e de grande proximidade com ‘ponto de não retorno’, um estado de desequilíbrio irreversível, capaz de transformar a Amazônia em savana em apenas algumas décadas.

Para além da homologação, foi lembrado que Lula é duplamente responsável pela situação dos indígenas na Apyterewa porque foi ele que aprovou a construção de Belo Monte. O cacique Surara Parakanã explicou aos participantes que uma das condicionantes da construção da hidrelétrica era que seria feita a expulsão dos invasores da Terra Indígena. Mas ao invés disso, desde a construção da barragem, as invasões se multiplicaram e a TI Apyterewa, alvo do garimpo ilegal e de grilagem de terra, vem se destacando na lista das mais desmatadas no Brasil com um crescimento acelerado desde 2017 (INPE) e bateu recorde de desmatamento no país no ano de 2021 (Prodes). Além do desmatamento, relatórios do IBAMA atestam a presença de materiais usados para o garimpo como retroescavadeiras e outros maquinários pesados no interior da Terra Indígena.

É importante ressaltar que o desmatamento nesta TI é um problema crônico desde os anos 90, mas graças aos esforços institucionais para homologar a terra, e das políticas públicas aplicadas pelo Ministério do Meio Ambiente quando era chefiado por Marina Silva, o desmatamento caiu de forma contínua até atingir níveis praticamente nulos em 2015. A partir de 2016 o desmatamento retomou de forma vertiginosa por causa da falta de vontade política e da incapacidade das instituições responsáveis de aplicar o plano de desintrusão.

No decorrer do evento, lideranças Parakanã também cobraram das autoridades presentes que o plano de desintrusão concebido pelo MPF em 2016, durante o período de transição entre os governos de Dilma e Temer, saia finalmente do papel.

Em resposta, o procurador do MPF Rafael Martins da Silva, lamentou a demora na desintrusão: “Faltou articulação entre os órgãos. Às vezes a Funai não estava presente, às vezes o MPF não tomava a frente. Uma vez chegou-se a planejar toda a execução do plano, mas o exército desistiu da intervenção uma semana antes da operação. No fundo, tudo é uma questão de articulação, e ao que tudo indica o clima a partir de janeiro de 2023 vai ser muito mais favorável”.

Martins detalhou que antes de pensar no plano de desintrusão, o primeiro passo é o ‘congelamento’ das invasões. Ou seja, impedir novas invasões e responsabilizar com multa e prisão os novos invasores. Uma vez as invasões em patamares controlados, será possível, segundo ele, articular com todos os órgãos responsáveis a retirada dos milhares de invasores da TI.

O advogado da associação Tato’a, lembrou que as ações do governo em Terras Indígenas são sempre uma questão de vontade política. “Muitas vezes, nos últimos 6 anos, desde a chegada de Temer e depois Bolsonaro, as coisas não se organizavam porque o governo não queria. É uma questão de vontade política”. Muito aplaudido depois de sua fala, ele lembrou que, apesar da eleição do novo governo, vai ser preciso manter a mobilização. “Não é porque o Lula ganhou que vamos relaxar, pelo contrário, as coisas só acontecem se mantivermos a pressão”. O cacique Xogoa Parakanã concordou, mas também lamentou o fraco papel desempenhado pela FUNAI nos últimos anos. “A FUNAI deveria ser nossa instituição, mas ela está acabada. É muito triste ver a nossa terra desmatada e invadida sem que eles cumpram seu papel”. Vale ressaltar que a FUNAI não mandou para o evento nenhum de seus principais quadros.

Mas a retirada dos invasores é apenas o começo de longo processo como lembrou Fernando Bittencourt, da Nature Conservancy Brasil (TNC). Ele recomendou às lideranças indígenas presentes que, após a desintrusão, seja feito um plano de gestão para recuperar as áreas degradadas no território e destinar as zonas da TI para evitar que sejam invadidas novamente.

Leonardo de Moura, assessor técnico do Instituto Socioambiental (ISA), alertou às lideranças sobre o “discurso nefasto” espalhado pelos invasores, segundo o qual é melhor resolver as invasões de “maneira amigável, sem alertar o IBAMA e outros órgãos públicos”. “Eu sei que nos últimos anos o IBAMA deixou a desejar, mas temos também que reconhecer quando fazem um bom trabalho, como foi feito na TI Cachoeira Seca por exemplo”, se referindo a apreensão de mais de 1 mil bovinos e aplicação de multa de mais de R$ 2 milhões.

Depois das falas dos convidados, as lideranças indígenas se mostraram gratas pela presença dos convidados, mas reforçaram que estão em luta pelos seus territórios há mais de 500 anos e manifestaram vontade de ir até Brasília pressionar o governo para que aplique as medidas prometidas com a construção de Belo Monte.

Depois de dois dias de intensas trocas, a assembleia encerrou-se com uma apresentação de Johane – MC Parakanã, que fez rap em ambas as línguas na Tekatawa, a casa do guerreiro, onde os Parakanãs se reúnem para tomar decisões, realizar cerimônias e rituais – localizada na aldeia, na margem do rio Xingu. No dia seguinte, indígenas e convidados se uniram na cerimônia Metymonawa – dança da pena de gavião – para comemorar o encontro e a esperança de que dias melhores estão por vir.

Alexandre Muller é doutorando em antropologia na Universidade Federal do Pará, em Altamira e esteve na Assembleia dos Paracanãs na Terra Indígena Apiretewa.


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Este texto foi originalmente publicado pelo Correio da Cidadania [Aqui!].

Revisores consideram injusta retratação de artigo sobre revistas predatórias

Disorderly stack of magazines, extreme close-up on corners with barcodes, full frame

Por Pesquisa Fapesp

Os membros do conselho de revisores da revista Scientometrics, especializada em estudos quantitativos sobre a ciência, protagonizaram um desentendimento público a propósito da retratação de um artigo. Para alguns conselheiros, o trabalho foi cancelado de forma inapropriada e injusta. O paper em questão, publicado em 2021 por dois pesquisadores da República Checa, analisou a presença de revistas científicas suspeitas de práticas predatórias na base de dados Scopus, mantida pela editora Elsevier.

Para mapear a penetração desse tipo de periódico, que publica artigos em troca de dinheiro e em geral sem fazer uma genuína revisão por pares, os autores basearam-se na polêmica lista de revistas desonestas compilada entre 2008 e 2017 pelo bibliotecário Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. A lista original deixou de ser publicada depois que Beall enfrentou processos milionários movidos por editoras que discordavam de seus critérios e se diziam injustiçadas. Mas ainda é possível encontrar na internet várias listas atualizadas de revistas apontadas como predatórias que buscam alertar autores sobre títulos com práticas antiéticas.

A retratação do paper da Scientometrics foi solicitada pela Frontiers Research Foundation, que publica 187 revistas científicas revisadas por pares e foi uma das editoras que protestaram contra sua inclusão na lista de Beall, em outubro de 2015. O bibliotecário, na época, argumentou que alguns títulos da Frontiers publicaram artigos de má qualidade, por isso foram incluídos. Das 29 revistas do grupo analisadas no estudo, apenas quatro não estavam entre as 25% mais citadas em seus campos de conhecimento, em um sinal de que são respeitadas por suas comunidades. “A lista de Jeffrey Beall não é uma fonte de dados legítima para um estudo científico. Ela é tendenciosa, não confiável, não validada e atualmente indisponível”, disse um porta-voz da editora ao site Retraction Watch. Depois de analisar as alegações e submeter o artigo a um novo processo de revisão, Wolfgang Glänzel, editor-chefe da Scientometrics, determinou a retratação.

Os dois autores do artigo, Vít Macháček e Martin Srholec, da Universidade Charles e do Instituto de Economia da Academia Checa de Ciências, opuseram-se ao cancelamento, afirmando que ele foi motivado “por interesses comerciais e políticos, não acadêmicos”. Foram respaldados por 27 membros do Conselho de Revisores da revista, que publicaram um comunicado discordando da decisão. “A nota de retratação não demonstra a alegada falta de confiabilidade do artigo de Macháček e Srholec e, portanto, não fornece uma justificativa sólida para a retratação. A pressão exercida pela Frontiers sobre a Scientometrics é profundamente perturbadora, e o processo seguido pela revista para chegar à sua decisão de retratar o artigo carece de transparência”, escreveram os revisores, capitaneados por Rodrigo Costas, da Universidade de Leiden, nos Países Baixos. O trabalho foi republicado em novembro, com o mesmo título, na revista Quantitative Science Studies.


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Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP [Aqui!].