Em defesa de seus territórios, indígenas se posicionam contra Jair Bolsonaro

Milhares  de indígenas montaram acampamentos para protestar em Brasília.  O governo Bolsonaro quer permitir exploração de reservas por atividades de mineração

indigenasResolutamente contra o governo Bolsonaro: indígenas se manifestam em Brasília  

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Por ocasião das eleições de outubro, milhares de indígenas brasileiros montaram um acampamento de protesto de dez dias na capital Brasília na quarta-feira (horário local). A convocação da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) dizia que este ano seria o último “desse governo brasileiro genocida”. O protesto visa mostrar que os povos indígenas do país estão prontos para lutar para proteger seus territórios e ganhar maior representatividade na política brasileira.

A data do acampamento de protesto, que vai até 15 de abril, foi escolhida com base em votação prevista para esta semana na Câmara dos Deputados. A iniciativa legislativa “PL 191/2020” está sendo negociada, segundo a qual a exploração de recursos minerais e a construção de usinas hidrelétricas e outras infraestruturas destruidoras da natureza devem ser permitidas mesmo em reservas já reconhecidas pelo Estado. “Estamos diante de uma legislação política que ameaça nossas vidas e nossas tradições.” A “defesa da vida” contra o programa de destruição do governo é, portanto, uma prioridade para eles, segundo o apelo da APIB. Mesmo antes de assumir o cargo em 2019, o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro havia garantido a seus aliados no lobby agrícola e de mineração que nem uma única reserva indígena seria reconhecida sob seu governo.

O governo quer aprovar a nova lei o mais rápido possível e justifica isso com a guerra na Ucrânia. O agronegócio brasileiro voltado para a exportação de soja depende da importação de potássio e fertilizantes fosfatados. A maioria deles até agora veio da Rússia e da Bielorrússia. Por causa de uma iminente falta de potássio, segundo Bolsonaro, as jazidas de potássio conhecidas em áreas indígenas devem ser exploradas para salvar o agronegócio, que é importante para as receitas do Estado. No entanto, ambientalistas e indígenas alertam que a lei significaria o fim de muitos povos do país.

Entre os milhares de manifestantes que se reuniram em Brasília está Elvis Aroerê Tabajara, líder do Tabajara da Serra das Matas, no Sertão do Ceará. Seu povo está ameaçado pela mina de urânio e fosfato de Itataia, perto de Santa Quitéria, que foi planejada em 2008, mas a construção tem sido lenta desde então. Trata-se da produção anual de 1.600 toneladas de concentrado de urânio (“Yellow Cake”) e cerca de um milhão de toneladas de fosfato para produção de fertilizantes.

O órgão de proteção ambiental Ibama havia recusado sua licença em 2019. Mas sob pressão de Bolsonaro, o Ibama aprovou o projeto de mineração em março. A jazida de Itataia, a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, não está em uma reserva indígena demarcada, mas as consequências dessa mina, que produz milhares de toneladas de resíduos radioativos e esgoto, podem ser de longo alcance. “Estamos cientes dos vários riscos, e um deles é a contaminação radioativa do nosso país pelos ventos”, disse Aroerê Tabajara ao portal sindical ADUFC em 11 de fevereiro. Sua aldeia fica a apenas 30 a 40 quilômetros da mina, que nessa região seca também consumirá cerca de 850 mil litros de água por hora.


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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Denúncia! BrasilAgro vai desmatar mais de 10 mil hectares de cerrado no norte de Minas Gerais

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Por Chain Reaction Research

A BrasilAgro, empresa imobiliária rural brasileira e produtora de soja, tem planos de converter pelo menos 10.000 hectares (ha) de vegetação nativa do Cerrado para pecuária e produção de grãos, que incluem a perfuração de vários poços de grande capacidade.  A Chain Reaction Research já havia sinalizado anteriormente as operações de compensação da empresa no Brasil e seus riscos comerciais associados.

A BrasilAgro tem se concentrado na aquisição de “terras subutilizadas e improdutivas”. A empresa, que produz soja, cana-de-açúcar, milho e pecuária, gera receita com a limpeza e desenvolvimento de terras e, posteriormente, com a venda dessas propriedades rurais. A BrasilAgro possui 10 propriedades em seu portfólio, e a maioria de suas fazendas está localizada no Cerrado brasileiro, uma savana arborizada e uma área ambientalmente sensível que apresenta altos índices de desmatamento desde 2000 . A maior parte de sua expansão da soja ocorreu em meio ao desmatamento da vegetação nativa no bioma Cerrado, que é rico em biodiversidade com 12.070 espécies de plantas nativas . Além disso, muitas comunidades tradicionais residem no bioma, que é uma importante fonte de água para  todas as regiões do Brasil. As atividades da BrasilAgro no Cerrado expõem a empresa a riscos de negócios relacionados ao desmatamento.

Os 10.000 ha em risco estão na Fazenda Novo Buriti , localizada no município de Bonito de Minas, no norte de Minas Gerais. A área total da fazenda é de 24.212 ha. A empresa planeja remover aproximadamente 10.000 ha e deixar 14.000 ha como reserva, que é mais do que a área legalmente exigida, segundo a empresa.

Figura 1: Grandes áreas não desenvolvidas na Fazenda Novo Buriti (fevereiro de 2022)

Fonte: Aidenvironment, baseado em imagens © 2022 Planet Labs Inc.

Os planos de desocupação geraram divergências entre o Conselho Estadual de Políticas Ambientais, a Superintendência Regional do Meio Ambiente, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais de um lado e a empresa BrasilAgro de outro. Um advogado representante com assento no Conselho questionou o estudo de impacto e o relatório de impacto ambiental apresentados pela BrasilAgro, pedindo mais informações antes de abrir uma votação para aprovar ou vetar o desmatamento.

O desmatamento planejado gerou preocupações sobre a perda de biodiversidade, principalmente de espécies como onças e cachorros-do-mato que os biólogos identificaram anteriormente e não são mencionados no relatório ambiental. Há também preocupações sobre o acesso à água para as comunidades locais.

A BrasilAgro pode correr o risco de perder o acesso aos clientes e ver uma supervalorização de seu portfólio de terras devido aos impactos de sustentabilidade ligados ao desmatamento planejado à medida que o mercado de soja caminha para o desmatamento zero. Em outubro de 2017, um grupo de empresas consumidoras declarou seu apoio ao Manifesto do Cerrado , e a soja de terras recentemente desmatadas poderá em breve ser barrada das cadeias de fornecimento dessas empresas. Além disso, fazendas recentemente desmatadas podem ver menos interesse do comprador, especialmente à luz da próxima regulamentação da UE que proíbe as importações da UE de commodities vinculadas ao desmatamento de florestas após a data limite de dezembro de 2020.

As empresas que compram produtos agrícolas da BrasilAgro enfrentam riscos financeiros e de reputação. Os principais clientes da BrasilAgro para soja e milho incluem ADM do Brasil, Bunge, Louis Dreyfus, Amaggi e Cargill. Além disso, os financistas europeus podem enfrentar risco de reputação. Na publicação financeira da empresa para o trimestre encerrado em dezembro de 2021, Rabobank, Cargill e Santander estavam em uma lista de bancos/afiliados/empresas principalmente brasileiras que prestam serviços financeiros à BrasilAgro. Uma atualização sobre todos os financiadores, investidores e bancos pode ser fornecida pelo CRR mediante solicitação.


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Base de dados traz mapas de todas as Unidades de Conservação do Brasil

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Informações obtidas no portal do Ministério do Meio Ambiente foram analisadas e tratadas por pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (foto: Patrícia do Prado Oliveira/USP Imagens)

Agência FAPESP – O Centro de Estudos da Metrópole (CEM) disponibilizou o acesso gratuito a seu acervo cartográfico georreferenciado das Unidades de Conservação (UCs) de todo o Brasil.

Estruturado pela Equipe de Transferência e Difusão do CEM – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Universidade de São Paulo (USP) e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) –, o banco de dados traz o mapeamento das UCs, classificadas em 11 categorias estabelecidas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), com mapas em escala compatível com o arquivo de municípios (1:250.000).

As UCs formam o chamado Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), criado pela lei 9.985/2000. Os dados que o CEM oferece integram todo o conjunto de unidades de conservação, ou seja, as federais, estaduais e municipais.

A mais numerosa entre as 11 categorias das UCs é a Reserva Particular do Patrimônio Natural, uma área privada criada por iniciativa do proprietário, onde é permitida a pesquisa científica e a visitação turística, recreativa e educacional. Em termos de extensão predominam no Brasil as Áreas de Proteção Ambiental, constituídas por terras públicas e privadas, com atributos naturais, estéticos e culturais importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas.

Os dados primários para a elaboração do repositório foram obtidos pelos pesquisadores do CEM junto ao portal do MMA e passaram por análise e tratamento, antes de serem disponibilizados pelo CEPID.

“Trabalhamos no sentido de colocar à disposição um acervo integrado e padronizado do ponto de vista da representação cartográfica e topologicamente consistente, ou seja, sem sobreposições e vazios”, explica Daniel Waldvogel Thomé da Silva, pesquisador do CEM. A sobreposição ou recobrimento de áreas ocorre quando polígonos se interceptam ou se superpõem.

No trabalho com os dados, a Equipe de Transferência do CEM notou algumas ocorrências do tipo. Um exemplo está no Parque Nacional da Neblina, nos limites Brasil/Venezuela (Estado do Amazonas), uma UC em que mais de 60% de sua área é coberta pelas terras indígenas Yanomami, Balaio e Médio Rio Negro II, “o que resulta em evidente conflito em termos de uso”, notam os pesquisadores do CEM no documento técnico em PDF que acompanha os arquivos da base de dados.

“As terras indígenas também são consideradas como parte do acervo ambiental do Brasil, apesar das grandes diferenças conceituais e legais que as separam do sistema SNUC”, ponderam no documento.

Para resolver as sobreposições, a Equipe de Transferência do CEM adotou diversos critérios técnico-científicos, que são detalhados no documento.

Para consultar a base de dados basta ir na página “Download de Dados”, selecionar a base “Meio Ambiente”, no menu à esquerda, e procurar por “Unidades de Conservação Ambiental do Brasil”.

* Com informações da Assessoria de Imprensa do CEM.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência FAPESP [Aqui!].

Lideranças indígenas reproduzem destruição do garimpo na capital brasileira

5 mil indígenas de diversos povos marcharam pelo fim do PL da mineração e a expulsão de garimpeiros de suas terras

unnamedParticipantes do Acampamento Terra Livre participam da “Marcha contra o garimpo que mata e desmata” – Foto: Tuane Fernandes / Greenpeace Brasil

Brasília, 11 de abril de 2022 Nesta segunda-feira (11), cerca de 5 mil participantes do Acampamento Terra Livre (ATL) foram às ruas em mais um ato de resistência e denúncia. Com o nome de “Marcha contra o garimpo que mata e desmata!”, o ato pacífico teve como objetivo principal expor e pressionar o poder público contra a aprovação do Projeto de Lei 191, que visa legalizar o garimpo ilegal em terras indígenas.

Confira imagens do ato

Para evidenciar o tom urgente da denúncia contra a aprovação do PL 191, conhecido com o “PL da mineração”, lideranças indígenas e apoiadores marcharam desde o Eixo Monumental até a Esplanada dos Ministérios sujos de lama e sangue cenográfico, representando todas as mortes, violências e o sofrimento advindo desta prática ilegal. O Projeto de Lei 191/2020, além de liberar a mineração em terras indígenas, permite também atividades como construção de estradas e hidrelétricas. Trata-se de mais um absurdo do atual governo que, se aprovado, afetará diretamente 43 povos indígenas isolados na Amazônia brasileira.

“O garimpo entra nos territórios causando uma série de violências e violações dos direitos dos povos indígenas. Ele causa uma enorme desorganização social que ameaça a sobrevivência física e cultural dessas pessoas”, explicou o porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace, Danicley de Aguiar.

Em frente ao Ministério de Minas e Energia, foram posicionadas barras de ouro estampadas com a palavra “crime!”, pepitas de ouro e pessoas sujas de sangue e lama até o pescoço – os elementos que simbolizam a destruição causada pelo garimpo nos territórios. Além disso, a ação contou com a produção de um banner de 14m de altura por 9m de largura que foi produzido durante o ato pelo artista baiano Ibraim Nascimento, contando com a colaboração de diversos povos indígenas. O desenho representa a luta dos indígenas contra os malefícios do garimpo.

A intervenção é uma coprodução da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), do Greenpeace e do artista plástico Ibraim Nascimento.

Estudo revela primeiros esforços para promover desinformação climática

Estudo detalha como uma extensa campanha de relações públicas nos Estados Unidos atrasou a ação climática em nível mundial

CO2 Emissons Report United Nations, Bergheim, Germany - 04 Dec 2018

Um artigo publicado hoje (11/4) na Environmental Politics revela novos detalhes sobre os primeiros esforços organizados para tentar enfraquecer a ação climática em nível mundial. Segundo a análise, a organização Global Climate Coalition (GCC) mudou o curso da política climática dos EUA no final do século 20, influenciando todo o contexto internacional, com táticas que servem de guia para a desinformação climática até hoje.

A Global Climate Coalition, criada em 1989 e encerrada em 2001, foi a primeira e maior organização dos Estados Unidos desenhada para se opor à ação climática. O artigo publicado hoje adiciona documentos previamente ocultos. Entre eles, estão arquivos da Associação Nacional de Fabricantes dos EUA de 1990-1998 e da agência de comunicação E. Bruce Harrison Inc., que revelam a estratégia inicial da GCC: lançar dúvidas sobre a ciência do clima e advertir sobre os danos econômicos que o combate às mudanças climáticas trariam.

Os documentos também detalham esforços para pressionar os regulamentos da EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, e como a GCC se vangloriou muitas vezes por ter conseguido influenciar negociações ambientais importantes, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

“As ações empreendidas pela Global Climate Coalition nos primeiros dias da política climática provaram ser incrivelmente eficazes em atrasar as ações climáticas por décadas”, disse Robert Brulle, autor da análise e professor visitante da Brown University. “Estes documentos revelam um livro de jogadas para o enorme e eficaz esforço de relações públicas que a indústria ainda emprega hoje.”

A revisão feita por Brulle hierarquiza da seguinte forma as táticas da GCC: 1) monitorar e contestar a ciência climática; 2) encomendar estudos econômicos sob medida para ampliar e legitimar seus argumentos; 3) mudar a compreensão cultural da mudança climática com campanhas publicitárias; e 4) conduzir um lobby agressivo sobre os legisladores e outros membros das elites políticas.

A análise inclui um documento da GCC de 1995 que resume os extensos esforços de relações públicas aplicados àquela altura para mudar a política climática internacional. Este material também detalha os principais doadores industriais da coalizão e seu orçamento.

Em sua formação original, a GCC era composta principalmente por empresas de serviços públicos, como água e eletricidade, representantes do setor de carvão e uma empresa petrolífera. Em 1991, o grupo tinha 79 membros.

O artigo foi publicado sob o título “Advocating Inaction: A Historical Analysis of the Global Climate Coalition” e está disponível aqui. Os novos documentos analisados na pesquisa podem ser consultados aqui.

Por trás da conexão Azov-Brasil: como os neonazistas estão pressionando para “ucrainizar” o Brasil

Um pequeno número de bolsonaristas brasileiros se tornou celebridade nas redes sociais ao cruzar a fronteira da Ucrânia para lutar contra a Rússia, mas, como relata Brian Mier, grupos neonazistas ucranianos têm influência no Brasil há anos

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Por Brian Mier para a MPN News

Nas últimas duas semanas, um pequeno grupo de bolsonaristas brasileiros se tornou celebridade nas redes sociais ao cruzar a fronteira com a Ucrânia para lutar contra a Rússia – posando com fuzis no Instagram, recitando orações às forças especiais e compartilhando monólogos em vídeo elogiando a irmandade de pessoas de todo o mundo que se reuniram em uma base de treinamento perto da cidade ucraniana de Lviv para matar “comunistas” russos. A inexperiência do grupo foi demonstrada pelo fato de que a maioria de suas postagens nas mídias sociais incluíam informações de geolocalização.

Tudo isso mudou após um ataque com mísseis na base de treinamento perto de Lviv em 13 de março, após o qual uma série de fotos e vídeos mais humildes começaram a surgir em seus feeds do Twitter e Instagram.

Do outro lado da fronteira polonesa, Jefferson Kleidian postou uma selfie brandindo um dedo mindinho ferido e agradecendo a Deus por mais um dia na Terra.

Jefferson Kleidian Ucrânia

O ex-combatente Jefferson Kleidian agradece a Deus por mais um dia na Terra de um lugar seguro na Polônia

Andre Hack postou que havia perdido amigos na base. O instrutor de tiro ao alvo de 28 anos e fanático por Bolsonaro Tiago Rossi twittou um vídeo dizendo que ele havia fugido da base imediatamente antes do ataque com mísseis. “Nossa legião inteira foi destruída, a informação que tenho é que todos morreram. Você não entende como é ter um jato de combate disparando um míssil contra você. Não pensei que fosse uma guerra de verdade”, disse ele.

O que esses brasileiros estavam fazendo na Ucrânia em primeiro lugar? Para responder a essa pergunta, é preciso olhar para o ressurgimento da ideologia nazista no Brasil e o aprofundamento da relação entre os grupos neonazistas brasileiros, que cresceram impressionantes 270% desde que Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, e o neo-nazista ucraniano. -Organizações nazistas como Azov.

Durante a década de 1930, o Brasil foi sede do maior partido nazista alemão fora da Europa e teve um movimento fascista endógeno muito maior, chamado de integralistas , que tentou decretar um golpe em 1938. O golpe foi esmagado, mas a ideologia sobreviveu em um país que já sofria de severo racismo estrutural como o último lugar nas Américas para erradicar a escravidão negra.

O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro – que chegou ao poder apenas após uma operação conjunta do DOJ dos EUA e do Ministério Público do Brasil prendeu o principal candidato presidencial de 2018 por falsas acusações – começou sua carreira como capitão do exército durante uma ditadura militar subfascista , que empregou Táticas da Gestapo como esquadrões da morte e tortura contra líderes sindicais, intelectuais e comunistas.

Como deputado em 2004, Bolsonaro escreveu uma série de cartas para sites neonazistas , dizendo coisas como “vocês são a razão de eu estar na política”. Apoiado em uma plataforma de discurso de ódio anticomunista, sua presidência desencadeou uma enxurrada de apoio público ao fascismo, que estava latente desde o fim da ditadura. De acordo com a lei brasileira, organizações nazistas são ilegais, mas segundo a professora de antropologia e pesquisadora nazista Adriana Dias, existem atualmente 530 células neonazistas operando no BrasilDesde 2012, essas organizações tiveram interações crescentes com organizações nazistas ucranianas, o que resultou em nazistas brasileiros ganhando experiência de combate com Azov em Donbass e uma campanha para “Ucrânia Brasil” liderada por uma facção extremista de direita de apoiadores de Bolsonaro.

O papel de uma FEMENazi

Sara Fernanda Giromini era uma adolescente envolvida em gangues de skinheads nazistas em São Paulo quando abriu uma conta VK e fez amizade com neonazistas russos e ucranianos e conheceu o  FEMEN depois de ler sobre isso no Facebook. VK é uma popular plataforma de mídia social administrada pela Rússia.

Giromini visitou a Ucrânia pela primeira vez em 2011, onde conheceu e treinou com líderes do FEMEN e outros atores da extrema-direita ucraniana. Após retornar ao Brasil em 2012, passou a se chamar Sarah Winter em homenagem ao fascista inglês da década de 1920.

Depois de uma série de protestos de topless que transformaram Giromini em uma celebridade, o FEMEN Brasil implodiu em menos de um ano. Bruna Themis, número dois da organização, pediu demissão e deu uma série de entrevistas de denúncia , dizendo que os ucranianos exigiam que expulsem qualquer brasileira que não atendesse a sua aparência física sexista e padrões de peso; que o verdadeiro líder do grupo era um político menor de extrema-direita chamado Andrey Cuia, que frequentemente viajava de ida e volta para a Ucrânia; e que Cuia e Giromini estavam roubando doadores e guardando o dinheiro para si.

Sara Giromoni

Depois de posar com armas enquanto ameaçava de violência contra ministros da Suprema Corte, Giromoni foi colocado em prisão domiciliar

Pouco depois, o FEMEN Ucrânia anunciou que o FEMEN Brasil não tinha nada a ver com eles, apesar de Giromini ter sido presa durante um protesto do FEMEN em Kiev em 2012. Giromini agora diz que durante seu tempo no FEMEN, eles pagaram US$ 2.000 por protesto .

De acordo com a professora Dias, após o fechamento do FEMEN, Giromini, que continua amiga de vários líderes do Azov e do Batalhão Phoenix em sua conta VK até hoje, começou a convidar neonazistas ucranianos para o Brasil.

Em 2016, a polícia civil do estado do Rio Grande do Sul, que abriga várias ondas de imigração alemã e italiana e uma longa tradição fascista própria, realizou uma investigação contra grupos neonazistas que planejavam ataques violentos contra afro-americanos. Brasileiros, judeus e LGBT+ e descobriu que a milícia neonazista ucraniana Divisão Misantrópica estava recrutando nazistas brasileiros em sete cidades do estado para servir como combatentes voluntários com Azov na região de Donbas. A investigação, batizada de “Operação Azov ”, recebeu ampla cobertura da imprensa brasileira e  israelense na época.

Depois que o principal candidato Luiz Inácio Lula da Silva foi preso arbitrariamente durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro foi levado ao cargo em uma onda de propaganda anticomunista influenciada pelos nazistas que o levou a rotular qualquer pessoa ou organização que o criticasse como comunista. A certa altura, ele até chamou a revista conservadora mais antiga do mundo, The Economist , de “ A Comunista ”.

Giromini, a essa altura um membro ativo do movimento antiaborto, fez campanha pesada por Bolsonaro. Depois que ele assumiu o cargo em 2019, ela iniciou uma chamada pública para “Ucranizar o Brasil”. Muitas das figuras públicas mais reacionárias associadas a Bolsonaro, como o deputado abertamente fascista do Rio de Janeiro Daniel Silveira , aderiram à campanha. O professor Dias diz: “A tática de Azov sempre foi trazer um grupo de 300 pessoas para uma cidade e, por meio de atividades de treinamento com os moradores, iniciar um movimento extremista de direita”. Giromini mudou-se para Brasília e iniciou uma organização chamada “grupo dos 300” para ajudar a construir apoio à ucranização do Brasil.

Em 2020, depois que o Supremo Tribunal Federal bloqueou uma das tentativas de Bolsonaro de contornar a Constituição, o grupo de 300 de Giromini acampou na esplanada nacional, realizou uma série de protestos com tochas em frente ao prédio do tribunal e disparou fogos de artifício nele. Posando para selfies com armas, ela citou violência contra ministros da Suprema Corte; em 15 de julho de 2020, o Supremo Tribunal ordenou sua prisão . Depois de duas semanas na prisão, ela recebeu uma tornozeleira, foi transferida para prisão domiciliar e ordenada a ficar longe das redes sociais. Ela está lá desde então.

Sara Giromini

Sara Giromini AKA Winter, liderando um protesto em frente ao Supremo Tribunal

Enquanto isso, bandeiras ucranianas e símbolos da extrema direita ucraniana se tornaram cada vez mais populares nos comícios pró-Bolsonaro. Em 2020, um ex-soldado e consultor de segurança chamado Alex Silva, que vive em Kiev desde 2014 e diz ser membro de uma “força policial voluntária auxiliar” lá, desencadeou uma polêmica na mídia que levou a um aviso oficial do ucraniano. Embaixada quando içou uma bandeira vermelha e preta do Pravyi Sektor em um caminhão de som em um comício de Bolsonaro e foi fotografado andando pela multidão usando-a como uma capa. Silva, agora de volta a Kiev, tornou-se outra celebridade da internet para a extrema-direita brasileira, postando vídeos de suas patrulhas voluntárias armadas de Kiev ainda esta semana .

Ucranizando o Brasil

Leonel Radde é um vereador de Porto Alegre que passa muito tempo investigando grupos neonazistas no Rio Grande do Sul. Questionado sobre as conexões entre grupos neonazistas brasileiros e ucranianos, ele disse:

Vemos claramente que a maioria dos grupos nazistas aqui usa elementos de design ucranianos. Estão usando os mesmos símbolos – principalmente o sol negro – e todos usam esse discurso de ucranizar o Brasil. Eles também conversam entre si sobre a adaptação das táticas ucranianas para montar acampamentos e ocupar praças públicas e coisas assim. Eles estão definitivamente tentando copiar o que aconteceu na Ucrânia em 2014. Estamos tentando descobrir o quanto eles estão apenas copiando coisas que veem na internet ou se estão sendo financiados pela Ucrânia, embora Sarah Winter tenha passado um tempo perto de Porto Alegre fazendo organizando o trabalho e ela começou tudo isso.”

O influenciador de extrema-direita Alex Silva, ex-soldado e “policial auxiliar voluntário” em Kiev, envolto em uma bandeira Pravyi Sektor em um protesto de 2020 em São Paulo

Enquanto isso, influenciadores de mídia social de extrema direita como Alex Silva ainda estão enviando relatórios da Ucrânia. Na semana passada, a Embaixada da Ucrânia em Brasília disse ter recebido 100 pedidos de brasileiros pedindo para se voluntariar para o exército ucraniano, e o UOL informa que análise de grupos bolsonaristas nas redes sociais mostra que outros 500 estão planejando ir.

Se o ataque com mísseis perto de Lviv e os relatos vindos de ex-combatentes brasileiros assustados que escaparam para a Polônia mudarão isso ainda não foi visto. Independentemente disso, está claro que a doutrinação política dos nazistas ucranianos tomou conta da crescente extrema-direita do Brasil e será um fator na temporada de eleições presidenciais deste ano.

Foto de destaque | MintPress Notícias | Imprensa associada

Brian Mier (@BrianMteleSUR) é correspondente no Brasil do telejornal da TeleSur em inglês From the South, coeditor do Brasil Wire e co-apresentador do programa de WebTV em português Globalistas no Brasil 247. Ele mora no Brasil há 26 anos. 

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo MPN News [Aqui!].

Organizações alertam para impactos ambientais e socioeconômicos da concessão de blocos de petróleo e de gás natural da ANP

No edital há garantias mínimas de R$ 10 mil para exploração de petróleo por sete anos, ONGs contestam

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A Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizará, na próxima quarta-feira (13 de abril) às 9h, a sessão pública do 3º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão (OPC), licitação para concessão de contratos de blocos de exploração ou reabilitação e produção de petróleo e gás natural. O leilão oferta 379 blocos exploratórios para concessões localizados em dez estados brasileiros: Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Ceará, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo que 32 dessas áreas estão localizadas em alto mar (offshore) e 347 blocos terrestres. 

“Essa rodada é um total absurdo, pois o edital líquida blocos que podem ter garantias de ofertas a partir de 10 mil reais. Estão loteando o nosso subsolo a preço de banana, em plena crise climática,” argumenta o engenheiro Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto ARAYARA. As organizações do terceiro setor que atuam na área questionam o leilão especialmente por desconsiderar os povos tradicionais, que têm seus direitos garantidos na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), internalizada no país por meio do Decreto no 5.051/2004. 

Referente às Diretrizes Ambientais deste certame, ainda não foram concluídas pela ANP as Avaliações Ambientais de Áreas Sedimentares (AAAS), instrumento definido pelo Conselho Nacional de Politica Energética (CNPE) para o planejamento de outorga de áreas petrolíferas. Dessa forma, há blocos que estão sendo ofertados em zonas de alta sensibilidade ambiental e sem consulta às populações tradicionais destes territórios como indígenas, quilombolas e pescadores artesanais. O processo de licitação desconsiderou, inclusive, o impacto em áreas de Unidades de Conservação próximas.

Os blocos são distribuídos por 14 setores de sete bacias: dois setores de Santos, um de Pelotas, dois do Espírito Santo, três do Recôncavo, quatro do Potiguar, dois em Sergipe-Alagoas e Tucano. De acordo com as regras da Oferta Permanente, os setores definidos para um ciclo são aqueles que receberam declarações de interesse de empresas previamente inscritas, acompanhadas de garantia de oferta e aprovadas pela Comissão Especial de Licitação.

Aumento da exploração

O edital vigente da Oferta Permanente publicado em 30 de julho de 2021 contempla o total de 1068 blocos em 72 setores de 17 bacias sedimentares brasileiras: um total de 462,5 mil quilômetros quadrados (o correspondente a mais de 16 vezes o tamanho do estado de Alagoas), com 522 blocos nas bacias terrestres e 546 blocos nas bacias marítimas. Restam 1005 mil blocos que poderão receber ofertas pelas atuais 79 empresas aprovadas pela Comissão Especial de Licitação (CEL) da ANP para declararem interesse em um ou mais dos blocos e áreas ofertados no edital da Oferta Permanente. Essa modalidade licitatória da ANP permite que as empresas não esperem mais uma rodada de licitação ‘tradicional’ para ter oportunidade de arrematar um bloco ou área com acumulação marginal. 

O Brasil foi loteado pela ANP para que os blocos com risco exploratório fiquem permanentemente em oferta, ou seja, disponíveis às companhias petrolíferas no tempo que elas julgarem necessário para estudarem essas áreas antes de fazer uma oferta, sem o prazo limitado como nos editais anteriores. O Instituto ARAYARA entrará com uma representação judicial na Justiça Federal contestando a ausência da consulta a comunidades diretamente atingidas pela exploração e produção de petróleo. Entre os impactados estão colônias de pescadores artesanais, quilombolas, comunidades indígenas e outros povos tradicionais extrativistas.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) vê o assunto com muita preocupação, particularmente no que se refere à perspectiva de aumento da produção de gás natural no país e destinação do combustível para a geração de energia elétrica. “O aumento da geração de energia em termelétricas é muito grave, pois suja a matriz elétrica do país e pressiona ainda mais as tarifas da energia”, alerta o coordenador do Programa de Energia e Sustentabilidade do Idec, Anton Schwyter.

Para a 350.org, organização global de campanhas pelo clima, este ciclo da ANP destaca-se, ainda, por agravar o racismo climático, ou seja, a piora das condições de vida de comunidades formadas majoritariamente por pessoas negras e indígenas. Dos blocos ofertados, mais de 80% localizam-se no Nordeste do Brasil, região duramente afetada pelos vazamentos de óleo que atingiram o litoral de dez estados, em 2019 e 2020. À época, o desastre ambiental impediu o trabalho, durante meses, de milhares de famílias de pescadores, marisqueiras, trabalhadores informais do turismo, entre outros grupos economicamente vulneráveis.

Consequências ambientais

A oferta de blocos de petróleo acontece logo após o lançamento da última parte do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo o documento dedicado a medidas de mitigação de mudanças climáticas, apesar da redução de emissão prevista pelos países em seus compromissos nacionais, a expectativa é que a temperatura média do planeta aumente por volta de 2,7°C neste século em relação ao fim do século XIX. Neste sentido, a queima global de combustíveis fósseis nos setores de transporte, indústria e geração termelétrica comprometem o dobro do orçamento de carbono restante para evitar um aumento da temperatura global acima de 1,5°C – meta traçada no Acordo de Paris. “Além dos compromissos nacionais não apontarem uma perspectiva suficiente de emissões de gases de efeito estufa (GEEs), a expansão de investimentos e oferta de combustíveis fósseis indica uma tendência de aumento dessa atividade”, afirma Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

O setor de energia, que contabiliza GEEs provenientes da produção e do uso de combustíveis, emitiu 393,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente (MtCO2e) em 2020, o que representou 18% do total nacional, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Dentro desse setor, a maior atividade emissora é o transporte, responsável por 47% de todas as emissões. A produção de combustíveis contabiliza a emissão de 55 milhões de toneladas em 2020, tendo sido pela primeira vez a segunda atividade mais emissora do setor de energia. A exploração de petróleo e gás natural é um exemplo de atividade que tem crescido consistentemente devido aos novos empreendimentos no pré-sal brasileiro. “A recente publicação do IPCC enviou uma mensagem decisiva de que devemos agir imediatamente para evitar os impactos climáticos provocados pelas atividades de extração de petróleo e gás natural. Vários blocos disponíveis no leilão poderão causar danos em áreas protegidas e prioritárias para a conservação da biodiversidade brasileira. O risco de investir nessa atividade é enorme e tem consequências duradouras”, ressalta Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima.

A intensificação da oferta de blocos e áreas tem sido viabilizada também pelo desmonte das normas infralegais na pasta ambiental, a exemplo da PORTARIA MMA Nº 275, DE 5 DE ABRIL DE 2019. A medida destituiu o grupo de trabalho responsável por analisar a sensibilidade ambiental das bacias sedimentares antes dos leilões dos blocos de petróleo e gás. O grupo era composto por especialistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) que recomendavam quais blocos eram passíveis de ir a leilão e posteriormente adentrar um processo de licenciamento. “A portaria faz com que a decisão fique a cargo apenas do presidente do Ibama, fazendo com que seja muito mais política do que técnica. Resulta que áreas altamente sensíveis aos acidentes por vazamento, aos impactos da prospecção e ao trânsito de embarcações, como os recifes de corais, áreas de reprodução de cetáceos e ecossistemas de água doce (bacias sedimentares terrestres da Amazônia), se tornam passíveis de serem leiloadas”, ressalta Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).

Mobilização da sociedade civil

Em 13 de abril, às 9h, em frente ao Hotel Windsor, representantes de comunidades pesqueiras e quilombolas de Sergipe e da pesca artesanal do Rio de Janeiro, ativistas da 350.org, da ARAYARA.org , do Observatório do Petróleo e Gás (OPG), Observatório do Clima (OC) , CONFREM e da Coalizão Não Fracking Brasil (COESUS). farão um protesto em frente ao hotel onde o leilão será realizado, na capital fluminense. O ato visa chamar a atenção da sociedade para a emergência climática que exige o fim da extração e dos projetos de exploração de petróleo e gás. “As comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas estão na linha de frente das mobilizações contra o petróleo e o gás porque são, em geral, as mais diretamente atingidas pelos frequentes acidentes nesse setor. Ao invés de manchar de óleo o território dessas populações, o governo brasileiro deveria investir em geração de energia limpa e socialmente justa”, afirma Ilan Zugman, diretor da 350.org na América Latina.

A Oferta Permanente é a principal modalidade de licitação de áreas para exploração e produção de petróleo e gás natural no país. Nessa configuração, há ofertas contínuas localizadas em quaisquer bacias terrestres ou marítimas. Até o ano passado, ela era realizada exclusivamente em regime de contratação por concessão. Agora, será realizado o terceiro ciclo de forma diferente dos demais, onde as definições dos parâmetros poderão ser adotadas para cada campo ou bloco. O evento será híbrido (on-line e presencial) no Rio de Janeiro com transmissão ao vivo no perfil da Agência Nacional do Petróleo (ANP) no YouTube: https://www.youtube.com/user/ANPgovbr.

Saiba mais sobre o processo de licitação

Para o edital da Rodada Permanente já foram realizados dois ciclos de oferta. O primeiro deles encerrou em 29 de setembro de 2021 com a assinatura de 45 contratos para concessão de 45 áreas de exploração e produção de petróleo e gás natural que totalizam 16.878 km² nas Bacias de Parnaíba, Potiguar, Recôncavo, Sergipe-Alagoas e Espírito Santo onde o SES-T6AM da área Lagoa Parda Sul foi vendido por R$ 20.159,00 para a empresa Imetame Energia Ltda.  

Já em relação ao segundo Ciclo da Oferta Permanente, a ANP em 28 de junho de 2021 realizou a assinatura dos 18 contratos de concessão, relativos a 17 blocos exploratórios e uma área com acumulações marginais que juntos somam uma área territorial de 20.149 km² nas Bacias do Amazonas, Campos, Espírito Santo, Paraná, Potiguar, Tucano e Solimões que foram arrematadas por sete empresas: Shell Brasil Petróleo Ltda., Eneva S.A., Enauta Energia S.A., Imetame Energia Ltda., Energy Paranã Ltda., Potiguar E&P S.A. e Petroborn Óleo e Gás S.A.  

Confira os blocos da Oferta Permanente:  https://www.gov.br/anp/pt-br/rodadas-anp/oferta-permanente/opc/arquivos/mapas/blocos-oferta-ciclo-1/mapa-geral.pdf

Contatos das assessorias

350.org – Peri Dias

+351 913 201 040 – peri.dias@350.org 

Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) – Isis Nóbile Diniz

(11) 98116-4880 – isis@energiaembiente.org.br

Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) – Silvia Alvarez  

(61) 98229-3659 – comunicacao@inesc.org.br

Instituto Internacional ARAYARA – Silvia Marcuzzo

(51) 993416213 – silvia@arayara.org

Observatório do Petróleo e Gás – Grazielle Garcia e Nicole Oliveira

(41) 984450000 e (11) 970795232 – Nicole@arayara.org nicole@naofrackingbrasil.com.br

O mistério em torno dos preços das commodities

Na era do capital financeiro, os mercados de derivativos evoluíram para estabelecimentos de apostas gigantes

commoditiesOs preços nos mercados de derivativos determinam os preços à vista e não vice-versa. Foto: dpa | Arne Dedert

Por Stephen Schulmeister para o Neues Deutschland

De todos os preços de produtos, os das commodities flutuam mais. No geral, eles quadruplicaram entre 2002 e 2008, caíram pela metade após a crise financeira, dobraram em 2011 e depois caíram novamente pela metade em 2016. Com a superação da queda da pandemia da COVID-19 em 2020, os preços das matérias-primas dobraram novamente até o final de 2021 e continuaram a subir após o início da guerra contra a Ucrânia. A instabilidade dos preços das matérias-primas tem enormes consequências para o desenvolvimento global: aumenta a incerteza e, assim, amortece os investimentos reais em particular. O aumento de preços desloca a distribuição global de renda entre países produtores e consumidores de commodities e reduz a demanda no comércio mundial, porque os vencedores não aumentam suas importações tanto quanto os perdedores as limitam.

A instabilidade do dólar também desempenha um papel importante nessa luta de distribuição, pois todos os preços das commodities são cotados na moeda-chave. O abandono das taxas de câmbio fixas em 1971 foi seguido por duas desvalorizações maciças do dólar (1971/73 e 1976/79). As receitas de exportação dos produtores de petróleo foram desvalorizadas. Eles reagiram com dois “choques do preço do petróleo” (1973 e 1979), que causaram as primeiras recessões globais do pós-guerra. Nas décadas de 1950 e 1960, por outro lado, taxas de câmbio fixas, contratos de fornecimento de longo prazo e a ausência de especulação “rápida” com derivativos permitiram que os preços das commodities fossem muito mais estáveis ​​do que na era subsequente do capital financeiro.

É claro que a enorme acumulação de bens não pode prescindir de matérias-primas. Mesmo os bens de dados ocultos em códigos binários exigem uma base sólida na forma de dispositivos digitais finais, que por sua vez são operados com eletricidade, o que na melhor das hipóteses requer uma turbina eólica ou painel solar. A lógica da questão é que a fome por matérias-primas em um sistema econômico que se concentra exclusivamente no crescimento também deve crescer de forma constante. Onde isso está nos levando? E por que não podemos continuar assim para sempre?

Os preços da energia fóssil são os que mais flutuam, e isso também dificulta o combate ao aquecimento global: para que os investimentos necessários para evitar o CO2 sejam feitos, os investidores teriam que esperar que a energia fóssil se tornasse cada vez mais cara e acima da média no futuro, garantindo assim a rentabilidade de tais investimentos. Mas as flutuações dos preços do petróleo, gás e carvão impedem isso. Na Alemanha, por exemplo, os preços dos combustíveis caíram cerca de 30% três vezes nos últimos 15 anos como resultado da queda dos preços do petróleo, embora o imposto sobre o óleo mineral corresponda a um imposto de CO2 de 180 euros por tonelada de CO2.

Mas por que, de todas as coisas, os preços dos bens mais importantes para a economia real flutuam ao longo de um período de vários anos? A teoria do equilíbrio econômico ainda dominante não pode explicar esse fenômeno. Porque assume que os preços do petróleo bruto físico, trigo, cobre, etc. são determinados apenas pelos chamados fatores fundamentais, ou seja, os determinantes da oferta e da procura no correspondente “mercado à vista”. Os players dos mercados de derivativos formariam suas expectativas de preço exclusivamente com base nos »fundamentos«. Sob essas premissas, não deve haver aumentos de preços quase permanentes (“tendência”), que duram mais em uma direção do que contramovimentos e, portanto, se acumulam em mercados de alta ou baixa.

Esse padrão, que também é típico para todos os preços de ações, títulos ou taxas de câmbio, decorre da importância dos mercados de derivativos de commodities. Começa com o fato de que não existem mercados mundiais funcionais para petróleo físico, trigo, cobre, cobalto e similares. As verdadeiras matérias-primas são comercializadas em diferentes qualidades de produtos em mercados regionais descentralizados. No entanto, existem bolsas de derivativos centrais para cada tipo de mercadoria, nas quais são negociados futuros e opções relativos a determinados tipos de mercadoria. Este tipo de precificação se aplica a todas as principais commodities: Nos mercados de derivativos, um certo tipo de cobre, trigo, milho, arroz, etc. serve como um »subjacente« padronizado. Conclusão: Os preços nos mercados de derivativos determinam os preços à vista e não vice-versa.

Os mercados futuros de commodities agrícolas surgiram para que produtores e consumidores pudessem se proteger das oscilações de preços. Os agricultores prometem aos especuladores que venderão seu trigo a um determinado preço assim que o colherem no futuro. Se o preço do trigo subir até lá, o especulador terá lucro porque agora está comprando trigo abaixo do preço de mercado. Se o preço do trigo cair, o agricultor tem um comprador seguro para seu produto e não tem perdas. É uma operação de hedge.

Mediado pela bolsa de valores, no entanto, um hedger não precisa necessariamente negociar com um especulador, mas cada vez mais especuladores também podem negociar entre si: quem espera que os preços subam compra futuros (detém uma »posição comprada«). Aqueles que esperam o oposto vendem futuros (“posição vendida”). E foi isso que aconteceu com a disseminação do capitalismo financeiro desde a década de 1970 em todos os mercados de derivativos, eles se transformaram em casas de apostas gigantes. A bolsa garante que as apostas na alta e na queda dos preços sejam as mesmas. Se mais jogadores quiserem ir “long” do que “short” – como foi o caso recentemente após o início da invasão russa da Ucrânia – então o preço subirá até que ambas as posições sejam equilibradas novamente. A própria bolsa de valores não joga junto, apenas organiza o jogo.

Considere a commodity mais importante, o petróleo: a produção global diária é de cerca de 90 milhões de barris.Se todos os produtores e consumidores protegessem suas posições, seriam necessários 180 milhões de barris de papel de transações de derivativos. De fato, o volume diário de transações nas principais bolsas de derivativos de commodities digitais é de 10 a 20 vezes maior. Além disso, o hedge nunca é simétrico: se um produtor tiver maior probabilidade de esperar um aumento de preço, ele não fará um hedge ou fará um hedge menor do que se esperasse uma queda.

Como exatamente funciona a especulação de commodities? Tomemos um futuro petrolífero como exemplo. O seu valor contratual (»valor nocional«) corresponde ao preço de 1.000 barris de petróleo bruto, ou seja, 100.000 dólares americanos a um preço do petróleo de 100 dólares americanos. Se você comprar um futuro, terá que depositar um título (“margem”), atualmente em torno de 10%. Se eu esperar um aumento de preço, compro um contrato. Se o preço do petróleo realmente aumentar 5%, então eu ganhei 5.000 dólares, o valor do contrato aumenta para 105.000 dólares, que é 50% com base na minha participação de 10.000 dólares. Se, por outro lado, o preço caiu 5%, metade da garantia se foi e você terá que ganhar mais dinheiro.

Essas relações se aplicam a todos os futuros, independentemente de estarem relacionados a índices de ações, títulos do governo, taxas de câmbio ou commodities. Com a invenção de mais e mais derivativos financeiros desde o início dos anos 1980, a especulação inicialmente se concentrou mais neles. Somente no curso do gigantesco boom dos preços das commodities entre 2005 e 2008 os bancos e fundos de hedge especularam cada vez mais com derivativos de commodities de todos os tipos, evidente a partir de um aumento maciço nas transações.

A instabilidade dos preços das matérias-primas é, assim, o resultado do (ainda) “arranjo” dominante controlado pelo capitalista financeiro e só pode ser superado com este regime. Para petróleo, carvão e gás natural, no entanto, medidas regulatórias serão tomadas antecipadamente, por exemplo, através da expansão maciça das capacidades de armazenamento, contratos de fornecimento de longo prazo a preços fixos ou mesmo a determinação de trajetórias de preços confiáveis ​​como base para a redução sustentável das três principais causas das emissões de CO2. Os países industrializados serão dependentes de fontes de energia fóssil por pelo menos mais três décadas e se esforçarão para reduzir sua vulnerabilidade à chantagem, principalmente por meio da expansão acelerada das energias renováveis.

Stephan Schulmeister é pesquisador econômico e professor universitário em Viena.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Saúde alemã caiu nas garras do capital

O número de práticas médicas gerenciadas por investidores está aumentando rapidamente. Serviços adicionais mais caros. Taxas mais altas. Ministério da Saúde não vê necessidade de ação

oftalmoOs investidores financeiros internacionais têm sido particularmente bem sucedidos no campo da oftalmologia

Por Sebastian Edinger para o JungeWelt

A subordinação do sistema de saúde ao primado da impiedosa maximização do lucro avança cada vez mais rápido neste país. Isto é confirmado por uma análise atual elaborada pelo Instituto IGES de Berlim em nome da Associação da Baviera de Médicos de Seguros de Saúde Estatutários (KVB). Assim, o número de práticas médicas nas mãos de fundos de private equity aumentou 72% nos anos 2018/19 no distrito de KVB. Com consequências dramáticas para o paciente, é bom que se diga.

Os centros de assistência médica (MVZ), que se tornaram muito mais importantes com a reforma da saúde de 2003, servem como agora como a porta de entrada mais importante para o capital financeiro. Na área da oftalmologia, o MVZ já representava 28,4% dos locais de abastecimento no final de 2019. A ortopedia e cirurgia seguem com 21,6 por cento e os internistas do setor de cuidados médicos especializados com 20,2 por cento. No total, dez por cento das MVZs da Baviera já eram de propriedade de investidores financeiros no quarto trimestre de 2019.

Quanto maior a participação desses centros no sistema de saúde, mais caros se tornam os tratamentos. O estudo do IGES mostra que as taxas são 5,7% mais altas do que em consultórios individuais com a mesma estrutura de pacientes, as mesmas doenças anteriores e os mesmos motivos de tratamento. Onde os investidores financeiros estão no comando, esse retorno extra é de até 10,4%. De acordo com o estudo, as pessoas tratadas são penalizadas particularmente nas áreas de ginecologia (mais 16,6 por cento) e oftalmologia (mais 15,8 por cento).

O estudo também mostra que a estrutura MVZ é usada extensivamente para vender aos pacientes todos os tipos de extras caros. 19,1% mais serviços de co-fornecimento são faturados lá do que em práticas individuais. Mais de 60% desses serviços adicionais são prestados por médicos do mesmo centro. “O objetivo pretendido pela legislatura de limitar efetivamente o acesso de investidores financeiros a cuidados médicos ambulatoriais está claramente perdido”, resumem os autores do IGES, Hans-Dieter Nolting e Thorsten Tisch.

Em reação aos resultados do estudo, o conselho do KVB soou o alarme na semana passada: “Os políticos não podem mais ficar de braços cruzados e ver como a influência dos investidores de capital em nosso sistema de saúde solidário está crescendo constantemente”, afirmou em comunicado. A saúde das pessoas “não deve se tornar objeto de especulação”. Os MVZs administrados por investidores são obrigados a fornecer “diretrizes claras em relação à transparência da estrutura, aprovação e design dos acionistas”.  Desta forma, uma posição dominante deve ser evitada.

Pesquisas da BR e »Panorama« mostram que este não é um problema puramente bávaro. Assim, já existem pelo menos 500 consultórios oftalmológicos em todo o país nas mãos de investidores financeiros internacionais. Áreas como odontologia, radiologia, ginecologia e medicina geral também são mais afetadas. Em inúmeras entrevistas, os médicos que ali trabalham descrevem como seu trabalho está cada vez mais voltado para o retorno. Frequentemente, a ordem é oferecer aos pacientes desavisados ​​tantos serviços adicionais quanto possível, que eles mesmos têm que pagar.

As cirurgias de catarata são particularmente populares entre os investidores no campo da oftalmologia. “Devemos recrutar o maior número possível de unidades”, disse um médico. Um dentista, por outro lado, descreve como ela era regularmente presenteada com diagramas que mostravam quais vendas ela mesma conseguiu com pontes, coroas ou implantes – e quanto mais a equipe de topo traz.

Em vista desses desenvolvimentos, os ministros da saúde dos estados federais, de acordo com uma decisão de novembro, “tomaram nota da proporção cada vez maior de práticas apoiadas por investidores com crescente preocupação”. O Ministério Federal da Saúde está exigindo uma iniciativa legislativa que restrinja a compra adicional de práticas. Questionado pelo Panorama, no entanto, o departamento federal disse que o assunto era juridicamente complicado e que a mera determinação de um aumento não era de forma alguma suficiente.

No entanto, o estudo do IGES agora não apenas fornece números sobre a proporção de práticas de propriedade de investidores, mas também insights específicos sobre as consequências para o atendimento ao paciente. “Vamos analisar onde há desenvolvimentos indesejáveis ​​e depois agir”, disse o ministro da Saúde da Baviera, Klaus Holetschek (CSU), na semana passada.


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Este texto foi escrito originalmente pelo jornal “JungeWelt” e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

A degradação da educação, da ciência e do meio ambiente no Brasil

ciencia brasil

(crédito: Caio Gomez)

Por Mercedes Bustamante- Professor titular do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília, membro da Academia Brasileira de Ciências

“Cupinização silenciosa e invisível.” Assim descreveu a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, o processo de degradação sistemática dos órgãos de fiscalização e controle do meio ambiente. A destruição por dentro, conduzida nos meandros das instituições, está claramente expressa nas taxas crescentes de desmatamento e conversão agrícola em vários biomas, na violação da legislação ambiental e de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais e comprometimento de recursos naturais e da estabilidade climática.

A cupinização também é aparente no Ministério da Educação e seus órgãos associados, como Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Capes, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), afetando um componente crucial para a redução das desigualdades sociais e econômicas ainda tão agudas no Brasil e que foi extremamente prejudicado durante a pandemia de covid-19. Escolas e universidades públicas atravessaram dois anos sem uma condução efetiva do Ministério da Educação (MEC) para lidar com os desafios impostos por esse choque global. Tal realidade, aparentemente, passou desapercebida no balcão (ou púlpito) de negócios que se instalou nas entranhas no ministério.

Igualmente crucial, a área de ciência e tecnologia é vítima de outra estratégia — a destruição por inanição. A redução drástica de recursos de custeio, bolsas e investimentos mina décadas de políticas que determinaram avanços científicos importantes e a formação de recursos com competências para abrir os caminhos do país diante dos significativos desafios que nos aguardam.

Tais desafios estão, precisamente, na convergência das políticas de educação, ciência e meio ambiente. Em 4 abril, foi lançada a terceira parte do 6o ciclo de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudança do Clima (IPCC). Para nos recolocar na rota de atingir a meta de manter o aquecimento global em 1,5oC, estabelecida globalmente pelo Acordo de Paris, precisaremos reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa até 2030.

Enquanto o mundo como um todo reduziu as emissões em 2020 em função da pandemia de covid-19, o Brasil aumentava suas emissões impulsionadas pelo desmatamento que seguiu impunemente mesmo diante de grave crise sanitária. Em 2021, o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) registrou a maior taxa de desmatamento da Amazônia desde 2006. A conservação de ecossistemas naturais e sua restauração ecológica são precisamente alternativas com grande potencial de mitigação das emissões, custos acessíveis de implementação e inúmeros benefícios como conservação da biodiversidade, segurança hídrica e alimentar.

Igualmente, a mensagem clara sobre a necessidade de abandonar combustíveis fósseis, em especial o carvão, não encontrou eco no governo federal. Recentemente, foi sancionada uma lei que obriga a compra de eletricidade gerada por termelétricas a carvão mineral, localizadas em Santa Catarina. A lei determina a contratação da energia produzida a partir de fonte extremamente poluente até 2040, uma década após o prazo em que deveríamos estar contribuindo para o esforço global de redução das emissões.

O relatório destaca como ciência e tecnologia foram fundamentais para reduzir o custo de energias renováveis como solar e eólica e de baterias, e traz ainda um novo capítulo sobre inovação, desenvolvimento e transferência de tecnologia. Um sistema de inovação bem estabelecido, orientado por políticas bem projetadas, pode contribuir para a mitigação, adaptação e alcance das metas de desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, evitar consequências indesejadas. No entanto, mais uma vez, caminhamos na direção contrária. Vamos a um futuro incerto, menos preparados e mais dependentes de alternativas desenvolvidas por outros países em função do estrangulamento de nossa ciência.

A transição para economias de baixo carbono implica em profundas mudanças na estrutura econômica e consequências distributivas dentro e entre países. A equidade e justiça social continuam sendo elementos centrais para a solução da crise climática. Transições justas devem abrir oportunidades de empregos adequados a essa nova realidade, mas demandam novas habilidades e a capacitação de recursos humanos e instituições. A educação em um mundo sob aquecimento global deve contribuir para o debate da sustentabilidade e a justiça ambiental. A antecipação de novas necessidades demanda a identificação das questões certas, bons dados e estatísticas e uma visão de política pública educacional que preconize a construção desse futuro e não as cartilhas do passado.

Entre as lições da pandemia que o IPCC elencou para a mudança climática estão: o valor do gerenciamento de risco prospectivo, o papel da avaliação científica, ações preparatórias e a importância de instituições. Exatamente o oposto que os três últimos anos trouxeram para a educação, ciência e meio ambiente no Brasil.

(Artigo endossado pela Coalizão Ciência e Sociedade que reúne pesquisadores de todas as regiões brasileira)


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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Correio Braziliense [Aqui!].