Desmatamento reduz 74% das chuvas e aumenta em 16% a temperatura na Amazônia em época de seca

Pesquisa liderada por cientistas da USP quantifica, pela primeira vez, impactos da perda da floresta e das mudanças climáticas globais no bioma 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO) e de metano (CH) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH.


Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.


Fonte: Agência Fapesp

Crise Ambiental: Breve Guia Prático

Por mais que muita gente ainda subestime ou até mesmo negue o precipício ambiental de que o mundo se aproxima cada vez mais — aceleração do aquecimento global, da extinção de espécies, da destruição de ecossistemas e biomas inteiros, do envenenamento do ar, das águas e dos solos –, os dados confiáveis sobre as “bases físicas” do problema estão aí, à nossa disposição.

O debate sobre o que e como fazer para evitar a catástrofe, porém, avançou bem menos que a discussão e a difusão das informações sobre a dinâmica climática e seus efeitos. Quanto a isso, ainda predominam as fórmulas vagas e as soluções ilusórias.

E sem saber contornar ou superar o abismo, de pouco ou nada adianta estimar com precisão o seu tamanho.

Nesta live que ocorrerá amanhã (04/9), o Professor Marcelo Lopes de Souza, do Departamento de Geografia da UFRJ, analisará de forma crítica os dilemas da crise ambiental.

Em decisão inédita, Justiça suspende uso do agrotóxico 2,4-D no RS

Caso da deriva do 2,4-D no RS pode render multa de mais de R$ 21 milhões à  empresa - Revista Globo Rural | Soja

Ação civil pública tramita há cinco anos e foi movida por associação de produtores de maçã e uvas, que tiveram suas lavouras destruídas pela deriva do agrotóxico. Governo ainda não se manifestou

Por Sílvia Lisboa e Valentina Bressan para “Matinal” 

Uma decisão da juíza Patrícia Antunes Laydner, titular da Vara do Meio Ambiente, determinou a suspensão temporária do uso de agrotóxico hormonal 2,4-D em todo o território gaúcho. De caráter urgente, a medida visa proteger culturas sensíveis ao herbicida, como a da uva, da maçã, das oliveiras e nozes-pecã, que ficam destruídas com a deriva da substância, que pode alcançar até 30 quilômetros. 

Pela decisão, a proibição deve permanecer em vigor até que sejam delimitadas zonas de exclusão ou até ser implementado um zoneamento e fiscalização efetivos da aplicação do 2,4-D. A sentença dá prazo de 120 dias para o estado tomar essas providências. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) não respondeu aos questionamentos da Matinal feitos nesta terça (2). O espaço segue aberto.

O 2,4-D é um composto do agente laranja, arma química usada pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1955-1975) para destruir a agricultura do país. A Organização Mundial de Saúde (OMS) o classifica como possivelmente cancerígeno para humanos. Um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostra que a substância está associada a problemas endócrinos, formação de câncer e malformações fetais.

Amplamente utilizado em lavouras de soja, arroz, trigo e milho, que representam mais da metade da produção agrícola do estado, o 2,4-D causa danos irreversíveis a parreirais e pomares de frutas por causa da deriva, isto é, da dispersão das gotículas da substância provocadas pelo vento durante a aplicação aérea ou por tratores. 

A ação civil pública foi movida pela Associação Gaúcha de Produtores de Maçã e Associação de Vinhos Finos da Campanha gaúcha há cinco anos. “Foi uma luta em equipe que ainda não terminou. Se continuasse como estava, só a soja iria prevalecer, nenhuma fruticultura teria condições de continuar. A decisão dá ao Rio Grande do Sul o direito de ter uma diversidade de culturas”, diz Rosana Wagner, presidente da associação de vinhos finos, criada há cinco anos. “Não temos nada contra a cultura da soja. Mas sabemos ser possível plantar soja sem usar os herbicidas hormonais. Buscamos nosso direito de não sermos atingidos pelas outras culturas.” As duas associações defendem a proibição do 2,4-D em todo o estado.

Análises recentes de safras, anexadas à ação, revelaram que os níveis de contaminação por 2,4-D estavam acima dos limites permitidos – o que, segundo a juíza, evidenciou uma falha no controle por parte do estado. Segundo a sentença, as perdas frequentes ocasionadas pelo 2,4-D levaram muitos agricultores a desistir da produção. Rosana Wagner disse que perdeu 50% do meu vinhedo ano passado. “Teve quem perdeu não só a produção, mas o vinhedo. A vitivinicultura emprega 15 mil famílias no RS”, disse.

Produtor de vinhos da Guatambu, Valter Potter disse estar emocionado e confiante de que o estado não entrará com recursos contra a decisão. “Não restam dúvidas da importante e grandiosa decisão de proibição do 2,4-D e consolida a frase ‘a justiça tarda, mas não falha’”, disse em entrevista à Matinal o ex-presidente da associação de vinhos da Campanha. “Estamos confiantes que o estado não irá contestar e anular uma decisão da justiça em prol do desenvolvimento socioeconômico. Digo mais: (o governo) deveria aproveitar a ruptura da barreira do atraso e ampliar as normas de proibição para todo o Estado e para todos os hormonais”, completou. 

Justiça pede lei para proteger a produção e o meio ambiente

A decisão da justiça, divulgada nesta terça-feira, também diz ser dever do estado a criação de uma política pública preventiva. Mesmo sem haver certeza sobre o dano futuro da aplicação do agrotóxico, a justiça entende haver riscos iminentes e comprovados para justificar a intervenção antecipada, visando a proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado e dos direitos fundamentais.

No curso da ação, o governo do estado se defendeu, alegando ter instituído o programa Deriva Zero, e diz que não é sua competência proibir o uso de 2,4-D, atribuição que caberia à União. 

Há uma semana, a Assembleia Legislativa aprovou um relatório da subcomissão criada para discutir a aplicação dos herbicidas hormonais. No novo marco regulatório proposto, há 10 medidas estruturantes que tentam melhorar as ações de fiscalização, regrar a aplicação do agrotóxico, criar um fundo para indenizar produtores atingidos e outro para premiar aqueles que conservam os biomas, entre outras ações. 

Vice-presidente da subcomissão, o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) comemorou a decisão judicial. “A decisão é importante nesse momento porque não há regulação ou zoneamento (para o uso do 2,4-D)”, afirma. “O estado precisa ser um indutor da transição agrícola. O agricultor se preocupa com a sustentabilidade, com o meio ambiente, com a saúde, mas ele coloca na ponta do lápis o que vai dar mais lucro. É importante que ele encontre financiamentos, programas subsidiados, linhas de crédito favoráveis à agroecologia. O governo fala muito em sustentabilidade, mas, na prática, tem feito pouco para avançar nessa direção”.

Pretto também disse que a subcomissão realizou diversas audiências públicas e ouviu especialistas para compor o relatório. Segundo o deputado, há uma maioria contrária à utilização desse produto em todos os encontros. 

Além do relatório, um projeto de lei será apresentado na Assembleia na mesma linha da decisão judicial, proibindo o uso de herbicidas hormonais. “É preciso criar as condições para que as pessoas possam produzir o que escolherem. Da forma como está hoje, nosso estado vai virar uma monocultura”, sustenta Pretto.


Fonte: Matinal

 Vem aí o I Encontro de Educação Ambiental Climática!

📅 12/09/2025
📍 Fundição Progresso – Arcos da Lapa, Rio de Janeiro
🔸 Programação:
☕ Credenciamento + Café
🗣 Rodas de Conversa:
• Roda de Conversa 1: Colapso Climático: desafios globais e locais
• Roda de Conversa 2: Educação Ambiental no Antropoceno
Oficinas + Carta de Intenções + Avaliação coletiva
🎯 Objetivos:
✔ Discutir o colapso climático e seus impactos
✔ Fortalecer a educação ambiental crítica
✔ Criar a Rede de Educadores Ambientais Climáticos
📌 Metodologia: rodas de conversa, oficinas, escuta ativa e construção coletiva.
📢 Um espaço de reflexão, articulação e ação frente o colapso climatizado. Realizado pela Coalizão pelo Clima e REAPOP, com apoio do Plante in Rio, Fundição Progresso, Redes Colaborativas da Região Serrana e Fiocruz.

Amazônia colombiana perde US$ 400 milhões devido ao desmatamento todos os anos

desmatamento da Amazônia colombiana

Esta é a conclusão do estudo “O valor econômico da perda anual de florestas na Amazônia colombiana”, que será publicado na edição de outubro da revista Ecosystem Services e desenvolvido por pesquisadores do Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (SINCHI).

O objetivo da pesquisa era estabelecer o custo social da perda florestal quantificando os fatores associados à degradação de seis serviços ecossistêmicos principais: armazenamento de carbono, vida selvagem para consumo, lenha, produtos florestais não madeireiros (PFNMs), recursos pesqueiros e conhecimento indígena tradicional de plantas para uso medicinal.

“O estudo buscou fornecer uma base sólida e espacialmente explícita para a tomada de decisões visando deter o desmatamento e salvaguardar os benefícios multifuncionais da Amazônia”, disse Mauro Reyes, coautor do estudo, ao SciDev.Net .

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Andrés Vargas, Diretor do Departamento de Economia da Universidad del Norte, Barranquilla, Colômbia

De acordo com a pesquisa, o serviço mais valioso em termos monetários é o armazenamento de carbono (81% do valor total perdido), com uma variação de aproximadamente US$ 1.220 a 2.650 por hectare (ha).

Outros serviços apresentaram valores menores, mas cruciais, por hectare para as comunidades: lenha (US$ 179–269/ha); PFNMs (US$ 19,5–89,2/ha); conhecimento medicinal (US$ 14,76–77,47/ha); pesca (US$ 10,60–23,40/ha); e caça (US$ 4,3–7,9/ha).

Para chegar a esses dados, os autores empregaram uma metodologia em fases sob a estrutura do Valor Econômico Total (VET), que incluiu a definição dos serviços ecossistêmicos a serem estudados e a coleta de dados , como redes de parcelas para carbono, lenha e PFNMs, etc., bem como o monitoramento da comunidade na bacia do rio Vaupés, desembarques pesqueiros e consumo de peixes para a pesca, além da consulta a bancos de dados etnobotânicos e censos nacionais para conhecimento medicinal.

Os cientistas integraram dados espaciais e ecológicos e os avaliaram economicamente, aplicando métodos de avaliação direta, como precificação de mercado e custos evitados. No caso do conhecimento medicinal, por exemplo, calcularam os custos de saúde evitados pelo uso da medicina tradicional em vez da medicina institucional.

Eles também realizaram análises probabilísticas, com 10.000 simulações, para quantificar a incerteza e obter uma faixa provável de perdas econômicas.

“Uma das descobertas mais impressionantes é a enorme disparidade entre o valor do carbono e o dos serviços locais de subsistência (caça, pesca, lenha, etc.). Enquanto o carbono vale mais de US$ 1.200/ha, a caça, essencial para a segurança alimentar e cultural das comunidades indígenas, é avaliada em menos de US$ 8/ha”, afirma Reyes.

“Isso é impressionante porque ilustra perfeitamente uma limitação fundamental da valoração econômica: os preços do mercado global (carbono) capturam valores que são altos no mercado internacional, mas podem subestimar enormemente a importância crítica dos serviços que sustentam a vida e a cultura em nível local”, reconhece o cientista.

“Outra descoberta que me chamou a atenção foi a possibilidade de monetizar o serviço sociocultural do conhecimento tradicional indígena sobre plantas medicinais, que dá valor tangível ao intangível e consegue quantificar economicamente um serviço aparentemente abstrato, como a sabedoria ancestral, transformando-o em uma métrica concreta que pode ser entendida na linguagem das políticas públicas e da economia”, acrescenta.

Contatado pelo SciDev.Net , Andrés Vargas, diretor do Departamento de Economia da Universidade do Norte em Barranquilla, Colômbia, disse que o estudo é relevante, “porque contribui para o conhecimento sobre a importância da Amazônia colombiana”.

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Na mesma linha, Reyes afirma que os resultados são relevantes porque transcendem a esfera acadêmica e se tornam uma ferramenta prática e poderosa para a gestão ambiental e a tomada de decisões . “Sua relevância”, afirma, “é demonstrada pela geração de uma base quantitativa para políticas públicas e pela evidenciação do alto custo do desmatamento”.

Em sua opinião, a pesquisa também ajuda a tornar visíveis valores ocultos ao trazer para o radar econômico serviços que muitas vezes são ignorados por não terem um mercado formal, como o conhecimento medicinal indígena ou o fornecimento de lenha, “revelando sua contribuição crucial para o bem-estar social e as finanças públicas por meio de custos evitados”.

Sobre se essa metodologia pode ser aplicada a outras florestas e ecossistemas, Reyes responde afirmativamente, mas com nuances:

Para outras florestas, por exemplo, as andinas, boreais e tropicais secas, o princípio é o mesmo: identificar os principais serviços ecossistêmicos, medir seu fluxo por unidade de área (ha) e atribuir um valor usando preços de mercado ou custos evitados. O que mudaria seriam as espécies avaliadas, os dados de biomassa, os produtos não madeireiros relevantes e o contexto cultural local.

“Para outros ecossistemas, a lógica permanece a mesma, mas os serviços e métodos de medição biofísica seriam completamente diferentes. Em um recife de coral, por exemplo, turismo, pesca e proteção contra tempestades, entre outros, seriam valorizados”, ressalta Reyes.


Fonte: SciDev

Conversa prá boi dormir

Conversa pra boi dormir | copeiros

Por José Luís Vianna da Cruz

– Que história é essa, compadre, de botar Campos e os entornos no “semiárido”?

– É que, dessa forma, compadre, 22 municípios do Norte e Noroeste vão ter direito de receber uma dinheirama barata do governo para aplicar em negócios.

– Mas nós somos semiárido, compadre?

– Veja bem, compadre; o negócio é o seguinte: é uma jogada dos graúdos para conseguir dinheiro barato para montar negócio de agricultura, indústria, etc., para, segundo eles, trazer o desenvolvimento.

– Mas, somos ou não semiárido?

– Não somos, mas parece que podemos vir a ser, se a agricultura e a pecuária de grande monta continuar envenenando as terras e secando as águas e se não recuperar as matas que foram derrubadas pela agricultura e a pecuária de séculos e séculos nessa terra de meu Deus!

– Isso não é feiquinius, compadre?

– Nananinanão! É conhecimento investigado, dito, jurado, registrado e provado pela ciência, que nossos professores estão divulgando. É muito sério, competente e verdadeiro o pessoal que diz que não é semiárido. Tem estudo que diverge, mas eu acredito na ciência que diz que não é semiárido. Está nos livros de geografia, desde o primeiro grau, compadre!

– E então, compadre, como é que fica, então?

– Fica que não é isso que está por trás dessa movimentação pra conseguir essa moleza. As assessorias e consultorias do governo já provaram que não é semiárido.

– Então, por que os graúdos da política e do dinheiro dizem que é?

– É para não perder essa grana barata, compadre! Não dá para perceber? Eles não estão nem aí para esse papo de semiárido. É conversa pra boi dormir e quando acordar eles já pegaram tudo pra eles.

– A gente não tem róialti desde há muito tempo? Por que a gente não tem desenvolvimento até hoje?

– Pois é…a gente recebeu bilhões e bilhões de róialti…evaporou…antes, a gente teve a cana, o açúcar. Sabia o compadre que recebemos tantos milhões do governo, na época das usinas, que hoje seriam bilhões? Tá tudo registrado, documentado, pesquisado, provado e publicado pelos pesquisadores das faculdades.

– Então, tem caveira de burro enterrada na encruzilhada, compadre?

– Não, compadre, porque a turma que domina a grana e a política nessas paragens quer tudo só pra eles…não bastante isso fazem de tudo para que os que têm menos, têm pouco ou não têm nada, nunca tenham condição de ter alguma coisa…pegam tudo pra eles, vigiam quem quer mudar isso, quem quer uma parte do bolo e cuidam pra que todas as atitudes para o povo ter direito a uma parte do bolo, pra modo de viver bem, satisfeito e feliz, sejam cortadas pela raiz.

– Mas, pra onde foi e vai essa dinheirama toda?

– Aí que o bicho pega, aí é que está o é da coisa, compadre! Veio pra mim, pra você, pro pobre, pro pessoal da favela, das periferias, das casinhas? Veio pro pessoal que rala em trabalho de exploração, em serviço de esgotamento sem compensação? Pros pequenos que plantam e colhem, que tem negócio miúdo? Pros que querem serviço e emprego de maior ganho, de maior respeito, de direitos, sem humilhação, sem sujeição a regime de tirar o couro e receber pouca paga? Veio pra quem quer ser bem atendido, com rapidez e bom tratamento de saúde, seja onde quer que o sujeito ou sujeita more, na hora que tiver precisão? Veio pra quem necessita de creche, de escola de dia inteiro, com boa educação, alimentação, transporte, esporte e arte? Pra todo lado é só carência, compadre, depois de séculos de abastança!

– Eles gastam em quê, compadre, se a gente continua penando?

– Deixa pra lá, compadre, isso é prosa para os que tratam da lei, compadre! O que é importante é que desde o século passado que, mesmo nadando em dinheiro, os graúdos dessas abas choram miséria, mendigam dinheiro de governo e não aplicam nos direitos de vida, de trabalho, de renda, de saúde, de transporte, de segurança, etc., pro povo, compadre! Receberam rios de dinheiro e o dinheiro não virou oportunidade nem boas condições pro povo! É tudo pra eles! É um tal de condomínio fechado de luxo, hotéis de bacana, carraria de exibição, construção nova de montão e o povo penando pra ir e vir, pra arranjar trabalho de respeito, pra desenvolver na sua produção, na sua labuta, no seu serviço.

– E, então, como ficamos?

– Não ficamos, compadre! Dinheiro novo só se for pra botar na mão dos trabalhadores, das associações, cooperativas e da gente que cata lixo, planta e colhe nos conforme da agroecologia, que pesca sem esgotar os cardumes, dos que não aguentam exploração e querem montar negócio junto e justo, que distribui e dá condições de gente, de cidadão. São esses que protegem o ambiente, que podem garantir condições de Bem Viver nas cidades e nas roças. É gente que, atualmente, trabalha e acaba produzindo pra enriquecer quem já tem tudo. É hora dos que pensam nos outros, dos que querem o do bom pra todo mundo, pros que querem uma cidade onde todos usufruam dela todinha, sem muros, sem discriminação, compadre.

– Eita, é osso, né, compadre!

– É osso, compadre, mas nós temos disposição pra roer esse osso. Nós somos iguais a erva daninha, compadre, podem cortar que nascemos de novo! Do jeito que tá, nada de meter Campos e os outros 21 municípios do Norte e Noroeste em lei de semiárido. Melhor usar esse dinheiro para quem necessita. Pra isso nós estamos juntos, compadre!

José Luis Vianna da Cruz, Campos dos Goytacazes, 2025.

Na tarde/noite deste um de setembro, de mais um dia da desgraçada e proibida fuligem que envenena os pulmões dos nossos filhos e filhas há gerações. Minha singela homenagem a todos que, antes de mim, alertaram, na fala e na escrita, sobre esse trelelê de semiárido.

Se o trânsito é a régua do caráter de uma cidade, em Campos estamos muito mal parados

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Por Douglas Barreto da Mata

Tenho acompanhado com interesse o intenso debate sobre as fiscalizações da Guarda Civil Municipal e da Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública.  Trago as cicatrizes da violência no trânsito na memória.  Em 1977, minha irmã foi atropelada e morta em frente a nossa casa, na Rua Joaquim Suma, no Parque Leopoldina. Eu, com 07 anos, vi toda a cena, e nunca mais a esqueci. O condutor não portava uma Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Não dá para descrever esse sentimento, e como esse evento impactou a vida da minha família. Mas essa pequena passagem é para me colocar em um “lugar de fala”.

Tenho muita preocupação com o trânsito da nossa cidade, e não consigo entender como há pessoas capazes de se opor a fiscalização e a tentativa do Prefeito Wladimir Garotinho em dar algum ordenamento na mobilidade da cidade. O nível de risco a que pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas se submetem todos os dias é uma marca de nossa falha como cidadãos e cidadãs.

A presença de condutores não habilitados, de veículos irregulares e em condições inadequadas de trânsito deveria provocar nas pessoas uma demanda por repressão, e não o contrário.

Imaginei, no meio desse debate torto e falso, que o argumento de que “trabalhadores” não devem ser incomodados pela fiscalização é algo parecido com defender que trabalhadores do ramo de alimentação sirvam ou vendam seus produtos podres, ou sem condições de higiene, ou que um médico dê consultas com o CRM cancelado.  Ou seja, não faz sentido.

Pense na possibilidade de você comprar uma passagem na AutoViaçãop 1001, para a cidade do Rio de Janeiro, e descobrir que o motorista está sem sua CNH.  Será que alguém pediria ao policial rodoviário para “aliviar”?

Afirmo que não sou um condutor perfeito, nunca fui, porém defendo e apoio todas as formas de fiscalização, inclusive aquelas que possam me punir. Uma comunidade que deseja exercer suas atividades econômicas de forma ilegal não tem condições morais de exigir qualquer tipo de conduta de seus governantes. 

Enfim, em Campos dos Goytacazes o combustível que enche os tanques de carros e motos ilegais é a hipocrisia.

Políticas Sociais da Uenf lança edital de seleção para ingresso em 2026 (Mestrado e Doutorado)

O Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PPGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense lançou hoje o seu edital de seleção para Mestrado e Doutorado para 2026.

O PPGPS está disponibilizando 20 vagas para Mestrado e 8 para Doutorado que estão distribuídos pelas duas linhas de pesquisa nos quais está estruturado.

Os interessados em se tornarem pós-graduandos no PPGPS poderão fazer inscrições no período que vai de 01/09/2025 a 01/10/2025.

Informações completas sobre esta seleção podem ser obtidas no Edital de Seleção que está disponível [Aqui!].

Dinamarca proibe 23 agrotóxicos fluorados causadores de poluição hídrica: como isso desafia a estrutura regulatória da União Europeia?

Por Erwin Xue para “Agropages” 

A Dinamarca retirou oficialmente a aprovação de 23 agrotóxicos contendo seis produtos químicos ligados a PFAS, enquanto outros 10 estão sob avaliação. Isso representa um desafio à intenção atual da UE de retirar certos agrotóxicos da ampla restrição de PFAS. Essa medida da Dinamarca pode servir como um forte catalisador para outros estados-membros, o que pode pressionar a Comissão Europeia a tomar medidas mais decisivas e coordenadas sobre os agrotóxicos  que contenham PFAS. Do ponto de vista científico, a justificativa por trás da regulamentação é a difusão e a persistência das contaminações por PFAS e TFA. No entanto, a regulamentação levanta preocupações sobre a produção de culturas específicas (como a batata amilácea) e os ganhos dos agricultores no curto prazo, sugerindo que a regulamentação de PFAS precisa considerar todas as questões de forma abrangente: encontrar soluções alternativas práticas; ao mesmo tempo, fornecer fortes medidas de apoio aos agricultores; mais importante ainda, adotar um método preciso de avaliação de riscos; e se esforçar para alcançar um equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento agrícola sustentável.

A política pioneira de pesticidas PFAS da Dinamarca

Detalhes da proibição

A Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental revogou oficialmente a aprovação de 23  agrotóxicos  específicos. Esses produtos contêm seis substâncias diferentes ligadas ao PFAS: fluazinam, fluopiram, diflufenican, mefentrifluconazol, tau-fluvalinato e flonicamida.

Essas substâncias ativas específicas são identificadas como contribuidores significativos que, de acordo com os dados de vendas da Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental, representam cerca de 5% do total de aplicações de agrotóxicos na Dinamarca, totalizando quase 160 toneladas desse tipo de composto usado na agricultura dinamarquesa. 

A Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental está atualmente avaliando outros 10 agrotóxicos , cuja aprovação também poderá ser revogada, com a decisão final prevista para agosto ou setembro. Caso esses agrotóxicos também sejam proibidos, um total de 33 agrotóxicos serão retirados do mercado dinamarquês devido ao seu potencial de formação de PFA.

Implementação e eliminação gradual

O cronograma para a implementação da proibição varia de acordo com a disponibilidade de alternativas. Para os sete pesticidas para os quais não há alternativas práticas disponíveis, é previsto um período transitório de eliminação gradual de até 15 meses; para os dois pesticidas restantes, para os quais há alternativas prontamente disponíveis, a retirada da aprovação será processada e concluída em um período menor, de 6 meses (2 meses para a cessação das vendas e 4 meses para a cessação do uso).

Tabela 1 Principais pesticidas PFAS proibidos na Dinamarca e cronograma de eliminação gradual

Produto

Categoria

Nome do produto

Nº de registro/tipo de arquivamento

Substância ativa

Fim da  venda

Fim de uso

Nenhuma venda

produto

Quartzo ES

1070-2

diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Lenvyor

19-237

mefentrifluconazol

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Saracen Delta Max

347-37

diflufenicano; florasulam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Ohayo

352-6

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Diflanil 500 SC

601-1

diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

JURA

613-14

prosulfocarbe; diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Hinode

352-17

flonicamida

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

DALIMO

352-15

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

PURELO

613-16

prosulfocarbe; diflufenicano

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Winby

352-11

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Franzir a testa

352-10

fluazinam

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

LFS flonicamida

318-168

flonicamida

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Valdor Expert (antigo especialista Ronstar)

Para transferência

diflufenicano; 

iodosulfurão-metil-nátrio

Pedido recusado

Pedido recusado

Alternativa

Disponível

Revyona

19-248

mefentrifluconazol

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

 

Otelo OD

18-520

diflufenicano; 

mesosulfurão-metil; iodosulfurão-metil-sódio

30 de agosto de 2025

31 de dezembro de 2025

Nenhuma alternativa

Propulse SE 250

18-597

protioconazol; fluopiram

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Vingança

11-58

fluazinam; azoxistrobina

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Kunshi

352-9

fluazinam; cimoxanil

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Zignal 500 SC (antigo Zignal)

11-35

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Banjo 500 SC

396-34

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Vamos

396-95

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Shirlan Ultra

352-13

fluazinam

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

 

Protetor

623-7

protioconazol; fluopiram

31 de dezembro de 2025

30 de setembro de 2026

Fonte: Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental

Contexto histórico das iniciativas dinamarquesas de redução de agrotóxicos

A Dinamarca lançou seu primeiro plano de ação contra agrotóxicos em 1986, com a meta inicial de reduzir o consumo em 50% até 1997. Diante do fracasso da meta inicial (o uso de agrotóxicos aumentou, na verdade, 2% em vez da redução prevista de 25%), a Dinamarca tomou novas medidas, como a certificação obrigatória de pulverização comercial a partir de 1993 e verificações pontuais regulares de equipamentos de pulverização a partir de 1994.

Os planos de ação subsequentes continuaram a estabelecer objetivos ambiciosos, incluindo a redução do Índice de Frequência de Tratamento (ITF) e o estabelecimento de zonas de proteção livres de pesticidas ao longo de cursos d’água e lagos. Entre 2001 e 2003, o IFT caiu significativamente de 3,1 em 1990-93 para 2,1; uma pesquisa na Dinamarca mostra que o IFT pode ser reduzido ainda mais para 1,4 sem perdas econômicas significativas para os agricultores e o desenvolvimento social.

Tabela 2 Planos de Ação e Objetivos de Agrotóxicos aplicado na Dinamarca

Política/objetivos

Ano de referência/início

Alvo

Progresso atual/status atual

Primeiro Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

1981-85

25% de redução até 1992; 50% até 1997 (vendas de ingredientes ativos)

Em 1992, houve um aumento de 2%, ao contrário.

Segundo Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

1990-93

TFI abaixo de 2,0 em 2003

Em 2002, o TFI caiu para 2,04.

Terceiro Plano de Ação Dinamarquês para Pesticidas

2004

TFI abaixo de 1,7 em 2009

O TFI caiu de 3,1 (1990-93) para 2,1 (2001-03).

Estratégia Dinamarquesa de Pesticidas

2011

PLI não superior a 1,96 (com base em dados de vendas), ou seja, redução de 40%.

A meta foi definida, exigindo mais esforços.

Estratégia Dinamarquesa de Pesticidas

2021

PLI definido em 1,43 para 2025 (com base em dados de vendas)

A meta foi definida, exigindo mais esforços.

Acordo Verde da UE/Do Prado ao Prato

2015-2017

O uso de agrotóxicos químicos e o risco de uso diminuirão em 50% até 2030; o uso de pesticidas de alto risco diminuirá em 50%.

Progredindo lentamente, pois a implementação está sendo criticada.

Os planos de ação dinamarqueses para agrotóxicos exibiram suas atualizações políticas ao longo da história. Como seu objetivo inicial não foi alcançado, a Dinamarca introduziu novas medidas, como certificação e inspeção, enquanto a tributação de agrotóxicos passou por uma reforma significativa, que mudou de um imposto único orientado ao preço para uma tributação baseada na carga ambiental, demonstrando a disposição da Dinamarca em aprender com as deficiências políticas do passado com a adaptação de ferramentas políticas para alcançar os resultados ambientais esperados. Esse tipo de governança adaptativa revela que a atual proibição da Dinamarca de PFAS em agrotóxicos não é um caso isolado, mas faz parte de sua estratégia abrangente de gestão química de longo prazo. A experiência da Dinamarca fornece uma referência valiosa para outros estados-membros da UE, tendo enfatizado a importância da avaliação contínua, do aprimoramento de ferramentas políticas e de uma abordagem multifacetada (combinando regulamentação, incentivo econômico e serviço de consultoria), em vez de depender apenas de políticas únicas e estáticas para enfrentar desafios ambientais complexos.

Implicações para a União Europeia (UE): Um potencial catalisador da evolução

Quadro Regulatório de Agrotóxicos da UE

A UE adota um sistema duplo de regulamentação de agrotóxicos : a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) é responsável por avaliar a segurança das substâncias ativas, enquanto cada estado-membro é responsável por avaliar e autorizar a aplicação de produtos finais para proteção de cultivos em seu território; os produtos não devem ser lançados no mercado sem autorização prévia do respectivo estado-membro.

O Regulamento (CE) n.º 1107/2009 constitui a principal estrutura que rege a aplicação de agrotóxicos. Mais importante ainda, o artigo 44.º do Regulamento autoriza explicitamente os Estados-Membros a rever e retirar agrotóxicos caso se comprove que estes já não cumprem os requisitos estabelecidos, como, por exemplo, o requisito do limiar de contaminação das águas subterrâneas.

Dinamarca serve de modelo para outros Estados-Membros

A PAN Europe, uma organização de proteção ambiental, vê a decisão da Dinamarca como ″Um modelo para todos os estados-membros″ e incentiva fortemente a Comissão Europeia a lançar uma proposta rápida para proibir todas as substâncias ativas que contêm TFA em todas as regiões da UE.

A postura positiva da Dinamarca a coloca em posição de liderança na UE no enfrentamento dos riscos agrícolas relacionados aos PFAS. Essa atitude ousada envia um forte sinal a outros Estados-Membros da UE e pode se tornar um importante catalisador para ações semelhantes entre os Estados-Membros da UE. Essa tendência dinâmica indica que o avanço da política ambiental da UE não é inteiramente um processo de cima para baixo da CE, mas também pode ser impulsionado de baixo para cima por Estados-Membros motivados. A ação da Dinamarca está, sem dúvida, “testando as águas”, o que pode levar os Estados-Membros a almejarem alto na formulação de padrões ambientais. No entanto, isso pode, naturalmente, levar à fragmentação das políticas regulatórias, tornando a operação do mercado mais complexa.

Proposta atual de PFAS em toda a UE e isenção de agrotóxicos

Como componente central do Pacto Ecológico Europeu, a UE está comprometida em eliminar gradualmente os produtos químicos PFAS para alcançar um ambiente não tóxico, em linha com sua ambiciosa meta de “poluição zero”. Para cumprir esse compromisso, no início de 2023, uma proposta para a eliminação completa dos PFAS foi apresentada à ECHA.

No entantoum ponto importante de controvérsia é a proposta inesperada das agências reguladoras da UE de retirar substâncias ativas de pesticidas da iniciativa mais ampla de restrição de PFAS . A premissa subjacente à isenção é que essas substâncias já são adequadamente regulamentadas pelas leis de pesticidas existentes. 

Pelo contrário, relatórios como o Toxic Harvest, publicados por organizações ambientais como a PAN Europe, revelam que os ativos ligados aos PFAS estão “passando por brechas no sistema falho de avaliação de agrotóxicos ” para escapar da regulamentação. As organizações ambientais argumentam que a persistência de substâncias ativas e seus metabólitos, como o TFA, e outras propriedades importantes, como o potencial de desregulamentação endócrina, impactos ambientais e toxicidade crônica, não são adequadamente regulamentados ou são subavaliados.

O objetivo de “poluição zero” da UE e o compromisso de eliminar completamente os PFAS estão em contradição direta com a proposta de excluir agrotóxicos da proibição de PFAS. Essa exclusão se baseia na suposição de que os produtos são adequadamente regulamentados pelas leis de agrotóxicos existentes, sendo uma suposição que é diretamente contestada pela proibição dinamarquesa de PFAS e pelas conclusões da PAN Europe. Agrotóxicos  formadores de TFA são aprovados e amplamente utilizados, mas estudos em nível nacional descobriram que os produtos estão excedendo os limites de águas subterrâneas, o que indica a existência de deficiências sistêmicas e inconsistências regulatórias significativas ou pontos cegos em nível da UE, onde diferentes estruturas políticas (por exemplo, REACH para produtos químicos gerais versus Regulamento 1107/2009 para agrotóxicos ) não estão totalmente harmonizadas para lidar com riscos químicos emergentes. Essa situação pode ser atribuída a vários fatores: a complexidade da avaliação de metabólitos persistentes, a dificuldade inerente no monitoramento ambiental de longo prazo ou possivelmente o esforço de lobby da indústria agroquímica. A ação da Dinamarca é uma exposição efetiva da lacuna, o que pode obrigar a UE a conduzir uma reavaliação crítica das isenções de agrotóxicos  na estratégia ampla de restrição de PFAS da UE, de modo a adotar uma abordagem mais consistente e preventiva, aplicável a todos os produtos químicos.

Países da UE afetados

O TFA, como substância de decomposição persistente de agrotóxicos contendo PFAS, foi amplamente detectado em águas superficiais, subterrâneas e potável em vários países da UE, incluindo Suécia, Holanda, Alemanha e Bélgica, sem mencionar a Dinamarca. Além disso, o TFA foi encontrado em alimentos como vinho e cereais na Europa, indicando contaminação generalizada e intersetorial . 

Por exemplo, a Suécia tem reavaliado ativamente sua aprovação de agrotóxicos contendo PFAS, mostrando que as medidas positivas da Dinamarca criaram um efeito cascata direto e prático.

Outra tendência crescente na UE é que os Estados-membros votaram em março de 2025 pela proibição permanente do flufenacete, outro agrotóxicos PFAS. Essa ação, embora direcionada a substâncias específicas, ressalta o crescente impulso na UE para resistir a esses produtos químicos.

Segurança alimentar e impacto econômico

Impacto potencial na produção agrícola

Os produtores agrícolas dinamarqueses dizem que a proibição de PFAS afetará particularmente a produção de batata amilácea, que depende de parte de substâncias proibidas; a batata amilácea é essencial para a indústria alimentícia, sendo amplamente utilizada em vários produtos.

Em termos gerais, de acordo com uma análise da meta de redução de 50% no uso de pesticidas da UE, prevista no Acordo Verde, a perda de produtividade de diversas culturas é previsível, com a produção de cereais e oleaginosas diminuindo em quase 20%, a de tomate italiano e espanhol em 20%, a de azeitona italiana em 30% e o plantio de hortaliças em estufas em 20%. Se as metas do Acordo Verde forem totalmente implementadas, a produção geral diminuirá 12%, de acordo com a previsão dos departamentos de administração agrícola. 

Um declínio tão generalizado na produção pode levar a preços mais altos de alimentos e bens de consumo, resultando em maior dependência da importação de produtos agrícolas e diminuição da exportação de commodities importantes, levantando assim uma preocupação significativa sobre a segurança alimentar de longo prazo da UE.

Embora se espere um declínio geral na produção em toda a UE, estudos mostram uma previsão clara de produção fraca de batata com amido na Dinamarca, tomate na Itália e Espanha, azeitona na Itália, bem como hortaliças cultivadas em estufas. Essa estrutura de produção sugere que o efeito da redução de pesticidas não é distribuído uniformemente entre os setores agrícolas, mas sim concentrado em culturas especializadas, de alto valor ou centralizadas que historicamente dependem fortemente de insumos químicos específicos devido ao seu método de cultivo ou suscetibilidade a pragas. Isso significa que a abordagem única da UE para a redução de agrotóxicos não é muito realista, o que pode causar danos potenciais. As intervenções políticas (proibições, metas de redução) precisam ser cuidadosamente adaptadas aos tipos específicos de culturas, às condições climáticas regionais e às pragas predominantes. Em regiões que dependem fortemente das culturas afetadas, a segurança econômica e alimentar pode ser seriamente afetada, exigindo apoio específico no fornecimento de práticas alternativas, serviço de consultoria robusto e ajuste proativo do mercado para mitigar o impacto adverso.

Impacto econômico sobre os agricultores

De acordo com um relatório, a redução agressiva de agrotóxicos , especialmente em áreas protegidas, pode levar à inviabilidade econômica da agricultura convencional, do cultivo de frutas, vegetais e viticultura, o que resultará em ″perda maciça de produtividade e redução da renda dos agricultores″.

Em relação às terras agrícolas de alto rendimento, espera-se uma redução de aproximadamente 50% na receita; enquanto que, para terras agrícolas de baixa produtividade, a agricultura pode não ser mais economicamente viável a médio prazo. Culturas com alto valor econômico, como batata, colza e diversos vegetais, podem ter que ser interrompidas em muitos casos.

De acordo com dados históricos da Dinamarca, na década de 90 do século passado, o plantio sem pesticidas pode levar a uma perda média de rendimento entre 7% e 50% para diferentes culturas, onde a requeima da batata sozinha pode levar à perda de rendimento da batata em cerca de 38%, enquanto os danos causados ​​por ervas daninhas podem reduzir pela metade o rendimento de sementes de grama.

No entanto, estudos anteriores conduzidos na Dinamarca mostraram que uma redução significativa no uso de pesticidas (por exemplo, redução de 80% na frequência do tratamento) pode gerar uma produção lucrativa de culturas especiais, com menos impacto na lucratividade de fazendas economicamente otimizadas, indicando que a gravidade do impacto econômico depende da quantidade de redução e da adoção de práticas alternativas.

Tabela 3 Impacto projetado da redução de pesticidas na produtividade e na renda do agricultor 

(para as principais culturas na Europa)

Cultura/Indústria

Redução esperada do rendimento

Diminuição esperada da renda

Grãos e oleaginosas

Quase 20%

Não especificado

Tomate na Itália e na Espanha

20%

Não especificado

Azeitona na Itália

30%

Não especificado

Hortaliças em estufa

20%

Não especificado

Programa agrícola da UE (se as metas do Acordo Verde forem amplamente adotadas)

12%

Não especificado

Batata na Dinamarca (histórico)

Aproximadamente 38% (devido à requeima)

15% (Cenário economicamente otimizado)

Sementes de grama na Dinamarca (histórico)

Para ser reduzido pela metade (devido a danos causados ​​por ervas daninhas)

Não especificado

Fazendas de alto rendimento (geral)

Não especificado

Aproximadamente 50%

Fazendas de cultivo (terras agrícolas de baixo rendimento)

Não especificado

Não é mais economicamente viável a médio prazo

Disponibilidade e eficácia de alternativas

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é destacado como a pedra angular da política da UE, que enfatiza uma abordagem holística, incluindo prevenção, monitoramento rigoroso de pragas de insetos, alta priorização do uso de métodos biológicos, físicos e outros métodos não químicos sustentáveis, com o objetivo de reduzir o uso de pesticidas a um nível economicamente viável e ecologicamente razoável.

Até o momento, soluções alternativas não químicas específicas estão disponíveis para responder a diversos desafios agrícolas, incluindo alternativas para o cultivo de batata e o controle de plantas daninhas. Essas soluções alternativas incluem rotação estratégica de culturas, uso de cobertura vegetal, preparo mecânico do solo (por exemplo, capina mecânica) e seleção criteriosa de herbicidas seletivos livres de PFAS. Além disso, tecnologias emergentes, como a capina a laser, estão sendo testadas em países como a Alemanha, a fim de eliminar plantas daninhas sem o uso de produtos químicos.

Em termos de manejo da requeima da batata, existem alternativas além do tratamento químico. Entre elas, estão o uso de cepas microbianas como Bacillus e Pseudomonas como competidores contra bactérias patogênicas, o uso de fungos Trichoderma para formar uma barreira natural, a rotação de culturas, o uso de sementes sadias e devidamente tratadas (por exemplo, tratadas com pó de mostarda ou cinzas ricas em potássio) e também novos produtos biológicos.

Soluções herbicidas não químicas, como a capina a fogo, são amplamente utilizadas em países como Dinamarca e Suécia, mas têm um custo alto e também exigem retratamento frequente para atingir um efeito de controle equivalente ao tratamento químico, o que sugere que, embora existam alternativas, a viabilidade econômica e a eficiência operacional precisam ser melhoradas ainda mais.

A estratégia da UE, do prado ao prato, visa reduzir em 50% o uso de pesticidas químicos até 2030, o que reforça a necessidade de alternativas mais ecológicas. No entanto, quando as variedades e o uso de pesticidas são reduzidos, o impacto na produtividade e na renda do agricultor precisa ser avaliado caso a caso para garantir que a redução de pesticidas não cause consequências catastróficas, mas exija uma transformação fundamental do sistema agrícola. Essa transformação deve envolver a mudança da dependência de insumos químicos para o uso de processos ecológicos e o aumento da biodiversidade para manter a saúde e a produtividade das culturas. Isso requer um maior investimento da UE em MIP e estudos agroecológicos, bem como o fornecimento de treinamento, consultoria e apoio financeiro adequados aos agricultores, a fim de promover a adoção generalizada de soluções alternativas. Isso, em última análise, contribuirá para o aumento da segurança alimentar e da resiliência da agricultura a longo prazo, protegendo, ao mesmo tempo, o meio ambiente e a saúde pública. 

Consenso e controvérsia científica

Embora a comunidade científica venha há décadas alertando sobre a persistência e a potencial toxicidade dos PFAS, a controvérsia em torno da ciência e da política ainda persiste sobre se todos os PFAS devem ser ″completamente proibidos″. 

Os críticos da proibição completa argumentam que os PFAS constituem uma classe química ampla e diversificada, com cerca de 13.000 tipos de substâncias químicas com diferentes propriedades e perfis de risco. Alguns PFAS são considerados necessários para tecnologias-chave (incluindo painéis solares, implantes médicos e componentes de sistemas de energia verde, como turbinas eólicas e sistemas de veículos elétricos), sendo menos bioacumulativos (por exemplo, PFAS de cadeia curta). Os críticos alegam que uma proibição completa, sem distinção, pode levar à adoção de alternativas potencialmente inseguras ou a consequências ambientais inesperadas, como, por exemplo, a perda dos benefícios de certas substâncias PFAS (por exemplo, redução da emissão de gases de efeito estufa ou melhoria da eficiência energética).

Os defensores de uma abordagem mais refinada enfatizam que “a dosagem importa” e “a via de exposição importa”, argumentando que os PFAS devem ser diferenciados com base nas condições reais de aplicação, em parâmetros de saúde específicos e na possibilidade de danos reais, de modo que regulamentações baseadas em risco sejam formuladas, em vez de tratar indiscriminadamente todas as moléculas como inerentemente perigosas.

A proibição na Dinamarca de agrotóxicos PFAS específicos formadores de TFA é uma forte medida preventiva. No entanto, um debate científico mais amplo ressalta a complexidade da regulamentação de toda a categoria de produtos PFAS. Espera-se, eventualmente, que uma abordagem harmonizada da UE inclua uma classificação específica de PFAS baseada em risco, uma proibição priorizada da maioria das substâncias nocivas e persistentes (como substâncias formadoras de TFA) e, ao mesmo tempo, estabeleça um período de transição apropriado ou exclusões específicas para aplicações necessárias para as quais não haja alternativas disponíveis. Enquanto isso, a formulação dessas políticas deve considerar incentivos para encorajar o desenvolvimento inovador de substitutos mais seguros e livres de PFAS, o que promoverá uma transição sustentável, em vez de simplesmente impor proibições. Em conclusão, uma avaliação científica mais refinada e a diferenciação de políticas precisam ser consideradas em nível da UE.


Fonte: Agropage

A corrida do ouro na Amazônia alimenta o comércio ilegal de mercúrio

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024.

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024. Foto: AFP/Ernesto Benavides
Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Em junho passado, autoridades aduaneiras peruanas descobriram quatro toneladas de mercúrio contrabandeado do México em um navio cargueiro com destino à Bolívia. Foi o maior carregamento do metal líquido prateado, altamente tóxico, já apreendido em uma região amazônica. E, no entanto, foi apenas uma gota no oceano. Desencadeada pelos altos preços dos metais preciosos, a região amazônica vem vivenciando uma corrida do ouro transfronteiriça há duas décadas, o que também multiplicou o comércio e o contrabando de mercúrio. Garimpeiros legais e ilegais usam o metal pesado para reter partículas finas de ouro dos sedimentos dos rios. Grandes quantidades do metal pesado, considerado uma neurotoxina, são liberadas no meio ambiente durante esse tipo de extração de ouro e poluem o ar, o solo e os cursos d’água.

Um estudo realizado por uma equipe internacional de cientistas, publicado em julho passado na revista médica Annals of Global Health, mostra concentrações alarmantemente altas de mercúrio tanto em peixes quanto na população local, com graves consequências para a saúde nas regiões amazônicas do Brasil, Colômbia e Peru afetadas pela mineração de ouro.

Os pesquisadores descrevem a contaminação por mercúrio como “cada vez mais preocupante”, especialmente para os povos indígenas. Eles encontraram os maiores níveis de exposição associados a efeitos na saúde entre os indígenas do Parque Nacional Yaigojé Apaporis, na Colômbia, na fronteira com o Brasil. Esses indígenas apresentaram níveis médios de mercúrio no cabelo de 23 µg/g, bem acima do limite de apenas 1 µg/g estabelecido pelo Conselho Nacional de Pesquisa Científica dos Estados Unidos.

Há “uma ação política urgente necessária, especialmente porque a poluição por mercúrio é impulsionada pela demanda global por ouro — um metal com uso prático limitado, cuja função principal é acumular riqueza em bancos e cofres. Ecossistemas inteiros e populações indígenas estão sendo sacrificados por uma mercadoria que não traz nenhum benefício significativo à humanidade.”

De acordo com um relatório recente da organização não governamental Agência de Investigação Ambiental (EIA), mais de 200 toneladas de mercúrio foram contrabandeadas de minas mexicanas para a Bolívia, Colômbia e Peru entre abril de 2019 e junho de 2025. A EIA estima que essa quantidade de mercúrio foi usada para extrair ouro “ilegal” no valor de pelo menos US$ 8 bilhões na Amazônia. Devido ao aumento contínuo do preço do ouro, o preço do mercúrio atingiu um novo recorde de US$ 330 por quilo este ano, desencadeando uma nova “febre do mercúrio” no México.

Grandes quantidades da neurotoxina entram no ambiente.

Segundo dados oficiais do México, entre 2009 e 2021, o país exportou um total de 740 toneladas de mercúrio, principalmente para mineração de ouro, para a Bolívia, 429 toneladas para o Peru e 466 toneladas para a Colômbia. Contrabandistas também transportam mercúrio desses países para garimpos legais e ilegais no Brasil.

O Instituto Escolas, em São Paulo, também atesta um crescente contrabando de mercúrio na região amazônica, principalmente da Bolívia para o Brasil. Segundo um estudo publicado pelo instituto em 2024, somente as minas de ouro legalizadas, ou seja, com permissão do Estado, produziram cerca de 127 toneladas do metal precioso entre 2018 e 2022. Os garimpeiros consumiram entre 165 e 254 toneladas de mercúrio. No entanto, o Brasil importou oficialmente apenas 68,7 toneladas nesse período. Isso mostra que entre 96 e 185 toneladas de mercúrio podem ter sido de origem ilegal.

A mudança para o mercúrio contrabandeado pode ser explicada pelo fato de ele custar apenas metade do preço do mercúrio comercializado legalmente. Além disso, não exige a aprovação trabalhosa do órgão ambiental.

Outro sinal claro do aumento do contrabando de mercúrio é o aumento drástico das exportações de ouro e da área de mineração no Brasil nas últimas duas décadas, aliado a um declínio simultâneo nas importações oficiais de mercúrio. Entre 2002 e 2022, as exportações “legais” de ouro brasileiro aumentaram de 35 toneladas para 96 ​​toneladas por ano, e a área total de minas de ouro legais na Amazônia aumentou de 68.000 hectares para 224.000 hectares.

Além disso, a mineração ilegal de ouro em áreas protegidas e reservas indígenas na Amazônia brasileira aumentou drasticamente. Segundo dados da rede científica MapBiomas, a área total de mineração ilegal de ouro aumentou de aproximadamente 4.000 hectares para 36.000 hectares entre 2000 e 2022. As importações oficiais de mercúrio, no entanto, caíram de 67 toneladas para 15 toneladas por ano.

Durante esse período, a Bolívia se tornou o maior importador de mercúrio da América do Sul. Entre 2018 e 2022, o vizinho do Brasil importou 723 toneladas de mercúrio, principalmente do México, Rússia e Tajiquistão, enquanto exportou apenas 196 toneladas de ouro. “A Bolívia importou cerca de dez vezes mais mercúrio do que o Brasil, mas produziu apenas 1,5 vez mais ouro”, segundo o estudo de Escolas. Portanto, é altamente provável que a maior parte do mercúrio “boliviano” tenha entrado ilegalmente no Brasil.

Convenção Internacional de Minamata de 2013 sobre a Redução do Uso de Mercúrio e Emissões Perigosas permite a produção do metal até 2032.

Em seu relatório, no entanto, a EIA pede o fechamento imediato das minas no México: “O mercúrio deve ser tratado como o que é: um catalisador altamente tóxico para crimes relacionados, como violações de direitos humanos, tráfico de armas, tráfico de drogas e mineração ilegal de ouro”. A produção contínua de mercúrio no México até 2032 terá consequências mortais a longo prazo por gerações.

Mas mesmo a proibição do mercúrio mexicano provavelmente só mudará as rotas de contrabando. O maior produtor mundial de mercúrio é a China, seguida pelo Tajiquistão, que ainda não assinou a Convenção de Minamata.


Fonte: Neues Deutschland