Recalibrando o Risco Climático: Novo relatório insta governos e investidores a corrigirem o ‘radar defeituoso’ nos modelos de danos climáticos

Recalibrando o Risco Climático: Novo relatório insta governos e investidores a corrigirem o 'radar defeituoso' nos modelos de danos climáticos.

Por Green Future Solutions 

O relatório “Recalibrando o Risco Climático explica por que os modelos econômicos usados ​​por governos, bancos centrais e investidores estão subestimando cada vez mais os riscos climáticos à medida que o mundo se aproxima de 2°C. Ele mostra como isso pode criar uma falsa sensação de segurança e defende uma colaboração mais estreita entre cientistas climáticos, economistas, reguladores e investidores.

Liderado pela equipe Green Futures Solutions da Universidade de Exeter, em parceria com a Carbon Tracker , o relatório se baseia na opinião de especialistas em clima de 12 países para esclarecer onde os ‘modelos de danos’ atuais falham e o que os tomadores de decisão devem fazer para gerenciar os riscos de investimento em um cenário de crescente incerteza.

O relatório baseia-se em trabalhos anteriores que questionam a subestimação dos danos climáticos na tomada de decisões financeiras, incluindo o relatório “ Loading the DICE Against Pensions ” (2023) da Carbon Tracker e “The Emperor’s New Climate Scenarios (IFoA/Universidade de Exeter, 2023). O novo relatório descreve detalhadamente as falhas nas abordagens atuais de modelagem de danos, novas medidas para aprimorar esses modelos e as implicações para reguladores, investidores e fornecedores de cenários.

Principais conclusões

Os extremos são o que mais importa, não as médias – temperatura média global

Embora a modelagem econômica tradicionalmente tenha relacionado os danos às mudanças na temperatura média global, as sociedades e os mercados vivenciam as mudanças climáticas por meio de extremos locais e regionais, como ondas de calor, inundações e secas, que causam a maior parte dos transtornos econômicos e financeiros, embora muitas vezes mal sejam registrados nas médias globais.

Os extremos são o que mais importa, não as médias – Produto Interno Bruto (PIB)

Embora seja um indicador útil, o Produto Interno Bruto (PIB) pode mascarar os danos totais ao não levar em conta os impactos sobre a mortalidade e a morbidade, a desigualdade, a perda de ecossistemas e a desestruturação social — todos fatores que comprometem a saúde social, humana e econômica. À medida que esses riscos aumentam, confiar em avaliações baseadas no PIB pode dar aos formuladores de políticas e às instituições financeiras uma falsa sensação de resiliência, mesmo quando a vulnerabilidade subjacente aumenta (por exemplo, gastos com recuperação que impulsionam o PIB após um desastre climático, mascarando completamente as perdas de bem-estar).

A incerteza aumenta acentuadamente com o aquecimento global

Com as temperaturas caminhando para um aumento de 2°C no futuro, especialistas enfatizam que os impactos se tornam cada vez mais imprevisíveis, à medida que os pontos de inflexão e os riscos extremos aumentam. Mesmo que os modelos continuem a produzir estimativas pontuais aparentemente precisas, os riscos climáticos provavelmente minarão as premissas de crescimento contínuo, fundamentais para muitos modelos econômicos. Os formuladores de políticas devem estar atentos a cenários climáticos que ultrapassem certos níveis de temperatura e adotar uma abordagem abrangente para os riscos extremos.
Saber mais

O relatório “Recalibrando o Risco Climático”  foi escrito pelo Dr. Jesse Abrams , Dr. Sam Hu e Ben Dickenson Bampton, da equipe de Soluções para Futuros Verdes da Universidade de Exeter. Foi desenvolvido em parceria com a Carbon Tracker e com financiamento da Aurora Trust . Ele reúne a opinião de 68 cientistas climáticos de 12 países, com o objetivo de desenvolver um consenso inicial e uma agenda de pesquisa para aprimorar a modelagem de danos.


Fonte: Green Future  Solutions 

Especialistas alertam que modelos econômicos falhos podem levar a crise climática a um colapso da economia global

Estados e entidades financeiras utilizam modelos que ignoram os impactos de eventos climáticos extremos e pontos de inflexão climáticoSolo seco e rachado na barragem de Chiba, em Nabeul, Tunísia, com uma pessoa e uma pequena torre ao fundo.

Os modelos climáticos pressupõem que o futuro se comportará como o passado, apesar da queima de combustíveis fósseis estar levando a Terra a um território desconhecido. Fotografia: Mohamed Messara/EPA

Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para “The Guardian”

A recuperação seria muito mais difícil do que após a crise financeira de 2008, disseram eles, pois “não podemos resgatar o mundo como fizemos com os bancos”.

À medida que o mundo se aproxima de um aquecimento global de 2°C, os riscos de desastres climáticos extremos e pontos de inflexão climáticos estão aumentando rapidamente. No entanto, os modelos econômicos atuais usados ​​por governos e instituições financeiras ignoram completamente esses choques, afirmaram os pesquisadores, prevendo, em vez disso, que o crescimento econômico estável será desacelerado apenas pelo aumento gradual das temperaturas médias. Isso ocorre porque os modelos pressupõem que o futuro se comportará como o passado, apesar da queima de combustíveis fósseis estar levando o sistema climático a um território desconhecido.

Pontos de inflexão, como o colapso de correntes atlânticas críticas ou da camada de gelo da Groenlândia, teriam consequências globais para a sociedade. Acredita-se que alguns estejam em seus pontos de inflexão, ou muito próximos deles, mas o momento exato é difícil de prever. Desastres climáticos extremos combinados poderiam devastar economias nacionais, afirmaram os pesquisadores da Universidade de Exeter e do think tank financeiro Carbon Tracker Initiative.

O relatório conclui que governos, reguladores e gestores financeiros devem prestar muito mais atenção a esses riscos de alto impacto, mas de baixa probabilidade, porque evitar consequências irreversíveis através da redução das emissões de carbono é muito mais barato do que tentar lidar com elas.

“Não estamos lidando com ajustes econômicos administráveis”, disse o Dr. Jesse Abrams, da Universidade de Exeter . “Os cientistas climáticos que entrevistamos foram inequívocos: os modelos econômicos atuais não conseguem captar o que mais importa – as falhas em cascata e os choques cumulativos que definem o risco climático em um mundo mais quente – e podem minar os próprios fundamentos do crescimento econômico.”

“Para as instituições financeiras e os formuladores de políticas, trata-se de uma leitura fundamentalmente equivocada dos riscos que enfrentamos”, disse ele. “Estamos pensando em algo como a crise de 2008, mas da qual também não conseguiremos nos recuperar. Uma vez que ocorra um colapso do ecossistema ou uma crise climática, não poderemos resgatar a Terra como fizemos com os bancos.”

Mark Campanale, CEO da Carbon Tracker, afirmou: “O resultado líquido de conselhos econômicos falhos é a complacência generalizada entre investidores e formuladores de políticas. Há uma tendência em certos departamentos governamentais de trivializar os impactos das mudanças climáticas na economia para evitar tomar decisões difíceis hoje. Este é um grande problema – as consequências do atraso são catastróficas.”

Hetal Patel, do Phoenix Group, que administra cerca de 300 bilhões de libras em investimentos de longo prazo para seus clientes, disse: “Subestimar o risco físico não apenas distorce as decisões de investimento, como também minimiza as consequências no mundo real que, em última análise, afetarão a sociedade como um todo.”

Em 2025, os atuários previram que a economia global poderia enfrentar uma perda de 50% do PIB entre 2070 e 2090 devido a choques climáticos catastróficos, um valor muito superior às estimativas anteriores.

O novo relatório baseou-se em pareceres de 68 cientistas climáticos de instituições de pesquisa e agências governamentais do Reino Unido, Estados Unidos, China e outros nove países. Uma das principais conclusões foi que, embora a modelagem econômica tradicionalmente associe os danos climáticos às mudanças nas temperaturas médias, as sociedades e os mercados sofrem mais com eventos extremos, como ondas de calor, inundações e secas.

Outra descoberta foi que o PIB pode mascarar o custo total dos danos climáticos, ao não contabilizar mortes e doenças, perturbações sociais e ecossistemas degradados. O PIB pode, na verdade, aumentar após desastres devido aos gastos com a recuperação, acrescentaram os pesquisadores.

Eles afirmaram que, em vez de esperar por modelos perfeitos de risco, deve-se dar maior ênfase aos extremos, e não apenas às estimativas centrais, e à vulnerabilidade de todo o sistema financeiro. Os investidores também devem acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis como um dever fiduciário para evitar grandes perdas futuras, disse Campanale.

Os modelos econômicos atuais podem fornecer estimativas de perdas que parecem precisas, mas que os cientistas consideram extremamente otimistas. “Alguns dizem que teremos uma perda de 10% do PIB com um aquecimento global entre 3°C e 4°C, mas os cientistas climáticos afirmam que a economia e a sociedade deixarão de funcionar como as conhecemos. Há uma grande discrepância”, disse Abrams.

Laurie Laybourn, da Strategic Climate Risks Initiative, afirmou: “Atualmente, estamos vivenciando uma mudança paradigmática na velocidade, escala e gravidade dos riscos impulsionados pela crise climática e ambiental. No entanto, muitas regulamentações e ações governamentais estão perigosamente desconectadas da realidade.”


Fonte: The Guardian

MPF cobra cumprimento imediato de decisões judiciais para desocupar e recuperar a Praia Brava em Búzios (RJ)

Sentenças que determinaram demolição de estruturas irregulares e recuperação ambiental não foram cumpridas

Foto: divulgação Prefeitura de Buzios

O Ministério Público Federal (MPF) voltou a cobrar o cumprimento imediato de decisões judiciais que determinam a desocupação de restaurantes e pousadas, a demolição de quiosques e a recuperação ambiental da Praia Brava, em Armação dos Búzios (RJ). Em manifestação apresentada no cumprimento provisório de sentença de uma ação civil pública ajuizada ainda em 2006, o MPF aponta desrespeito às ordens judiciais e pede a aplicação imediata das multas diárias já fixadas, inclusive contra agentes públicos responsáveis pela fiscalização da área.

De acordo com o MPF, apesar de decisões definitivas e reiteradas do Judiciário – inclusive do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) –, a ocupação irregular da praia continua e vem sendo intensificada, especialmente durante a temporada de verão. Estruturas de grande porte, como palcos, tendas fixas, mesas, cadeiras e sofás, estariam sendo instaladas tanto na faixa de areia quanto em área de preservação permanente e em terrenos de marinha, que são bens pertencentes à União.

“Causa perplexidade que, mesmo após quase duas décadas de tramitação do processo e decisões claras determinando demolições, desocupações e a proibição de novas construções, o cenário seja de agravamento da degradação ambiental e de privatização indevida da praia”, afirmou o procurador da República Leandro Mitidieri.

Decisões judiciais ignoradas 

 A ação civil pública trata de construções irregulares erguidas na Praia Brava sem autorização da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e sem licenças ambientais. A sentença condenou particulares e o município de Armação dos Búzios a promoverem a demolição das estruturas dos quiosques, pousadas e restaurantes, a retirada dos entulhos, a abstenção de novas edificações e atividades comerciais na faixa de areia, além do pagamento de indenizações por danos ambientais. Também foi fixada multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento.

Em 2021, o TRF2 manteve integralmente a sentença, reconhecendo que as praias e áreas de restinga são bens públicos de uso comum do povo e áreas de preservação permanente, não sendo admitida a aplicação da teoria do fato consumado em matéria ambiental. Mais recentemente, em novembro de 2025, o Tribunal reforçou que não há qualquer impedimento processual para o cumprimento imediato da sentença e das medidas impostas.

Ainda assim, segundo o MPF, os responsáveis seguem protelando o cumprimento das decisões, aproveitando-se da alta temporada para ampliar a exploração econômica irregular da área.

Bem público

Na manifestação, o MPF destaca que a Praia Brava é bem público da União, de uso comum do povo, e que a sua ocupação irregular fere o direito constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. O órgão também aponta omissão do poder público municipal no exercício do dever de fiscalização, o que contribui para a continuidade dos danos ambientais.

“Não se trata apenas de descumprimento de uma ordem judicial, mas de uma afronta direta ao interesse público e ao direito da coletividade de acessar livremente uma praia que é bem público da União, de uso comum do povo”, ressaltou o procurador. Segundo ele, “a devolução da Praia Brava à sociedade e a recuperação do meio ambiente degradado são medidas inadiáveis”.

Pedido de medidas imediatas

 Diante do quadro, o MPF requer a aplicação imediata das multas diárias já estabelecidas, especialmente contra os agentes públicos responsáveis, como forma de assegurar a efetividade das decisões judiciais e impedir novos danos. O objetivo, segundo o órgão, é pôr fim à ocupação ilegal, garantir a recuperação ambiental da área e assegurar que a Praia Brava volte a cumprir sua função social como bem de uso comum do povo.

 

Processo nº 5006843-60.2024.4.02.5108

 


Fonte: ASCOM MPF

Julgamento de ACP sobre erosão na Praia do Açu chegou no STJ: será que agora vai?

Este blog tem abordado a situação dramática que se desenvolve sob a sombra do Porto do Açu que é o grave processo de erosão costeira que está destruindo a passos largos a Praia do Açu.  Até aqui, convenhamos, os gestores do porto iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista tem sido uma combinação entre se fingirem de mortos por um lado e, por outro, usarem sua força econômica e política para não terem que, sequer, realizar um monitoramento científico crível sobre o processo iniciado pela implantação das suas estruturas físicas na dinâmica de sedimentos nas praias do V Distrito do município de São João da Barra.

Pois bem, este blog acabou de receber uma série de documentos (Aqui!, Aqui!Aqui!, Aqui!) que se referem à Ação Civil Pública interposta em 2020 pelo Ministério Público Federal em Campos dos Goytacazes (AÇÃO CIVIL PÚBLICA Nº 5004489-19.2020.4.02.5103/RJ) para obrigar os gestores do Porto do Açu a cumprirem o que estava previsto nos estudos realizados para a obtenção das licenças ambientais emitidas com celeridade pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

Agora, graças à insistência do MPF em Campos dos Goytacazes, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) vai se debruçar sobre alegações cientificamente corroboradas (enfatizo aqui as importantes contribuições do meu colega Eduardo Bulhões, geomorfólogo marinho do Departamento de Geografia da UFF/Campos) e que colocam o dedo na ferida de forma clara e irretocável que demonstram que o Porto do Açu e suas estruturas perpendiculares à linha da costa estão genética e intrinsicamente ligados à erosão que consome a Praia do Açu sob os olhares complacentes da Prefeitura Municipal de São João da Barra e do governo do estado do Rio de Janeiro que, lembremos, são parceiros preferenciais do empreendimento.

Sei que a leitura desses documentos é cansativa e que requer paciência para que se possa entender o seu conteúdo. Mas eu garanto que o leitor não vai se arrepender de gastar seu tempo, pois o conteúdo acaba se tornando muito revelador.

Assim, é verdade que a justiça é cega e lenta, mas tem horas que as coisas ficam mais claras e as pedras se movimentam muito rapidamente. Oxalá seja esse o caso da erosão causado pelo Porto do Açu na praia que já serviu para alegrar muitos verões do povo do V Distrito.

Vereadores de direita querem acordar? Que tal acordar para a conta da água?

agua privatizada

Li notas na mídia corporativa local sobre a ação de nobres vereadores de Campos dos Goytacazes que aparentemente estariam se juntando ao movimento “Acorda Brasil” do serelepe deputado federal mineiro Nikolas Ferreira (PL). 

Pois bem, acho justo e totalmente dentro da democracia. Cada um se junta a quem bem entender, desde que não se tente rejeitar resultados eleitorais e tentar golpes de estado. É o famoso “fais parti.”

Mas, já que os vereadores de direita querem acordar, eu sugiro que acordem para problemas reais da população campista. É que acabo de receber a minha conta de água de fevereiro e ela está majorada para escorchantes R$ 140,00 que é o novo valor para consumo mínimo!

O detalhe: como estava de férias e fora da cidade, o meu consumo foi de 5 metros cúbicos de água, mas estou pagando o valor relativo a um consumo de 10 metros cúbicos, somando-se a outros 10 metros cúbicos de tratamento de um esgoto que eu sequer gerei.

Então, vereadores, vamos acordar ou não!?

Prisão de ex-presidente do RioPrevidência não alivia o fato de que o futuro dos aposentados e pensionistas está sob risco

A mídia corporativa está noticiando de forma parcimoniosa a prisão do ex-presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes, por causa da inversão temerária (e bota temerária nisso!) de cerca de R$ 1 bilhão no agora defunto Banco Master. Aparentemente, ao contrário de algumas figurinahs carimbadas que fugiram para os EUA, Deivis Marcos estava tentando evadir o território fluminense para adentrar as terras paulistas. É que, segundo o que informam diferentes veículos da mídia corporativa, Deivis Marcon foi preso na fronteira RJ-SP em aparente tentativa de fuga.

Posso parecer pessimista, mas essa prisão não deverá mudar em absolutamente nada o destino atualmente sombrio de milhares de aposentados e pensionistas do RioPrevidência já que o R$ 1 bilhão desperdiçado por Deivis Marcon não deverá retornar aos cofres do fundo próprio dos servidores estaduais do estado do Rio de Janeiro.

A situação é complexa, pois o RioPrevidência tem sido alvo de seguidas “retiradas” pelo governador Cláudio Castro que as usa para pagar a vídia pública do Rio de Janeiro. Agora, pior do que uma retirada ilegal, o que temos é o simples desaparecimento de uma fortuna que deveria estar sendo cuidadosamente gerida para dar conta das aposentadorias e pensões devidas pelo RioPrevidência.

Como futuro aposentado do RioPrevidência não posso deixar de me preocupar com o meu próprio futuro, pois se o RioPrevidência quebrar a minha possibilidade de uma aposentadoria minimanete digna irá se esvair sem muita chance de resgate. E aí é que parece residir algo que servidores e suas associações e sindicatos já deveriam estar nas ruas protestando e exigindo a cobertura imediata dos R$ 1 bilhão que Deivis Marcon e seus colegas afundaram no Banco Master sob críticas dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

Eu sinceramente espero que a apatia e a letargia frente aos contínuos ataques do governador Cláudio Castro cessem após este prisão. Do contrário o futuro de milhares de aposentado e pesionistas estará dentro de um patamar de profunda incerteza.

 

O mundo entra na era da ‘falência global da água’

UNU-INWEH report on 'Global Water Bankruptcy' | UN-Water

Durante décadas, cientistas, legisladores e a mídia alertaram para uma “crise global da água”, sugerindo um choque temporário seguido de recuperação.

O que está surgindo em muitas regiões, no entanto, é uma escassez persistente, em que os sistemas de água não conseguem mais, de forma realista, retornar aos seus níveis históricos.

“ Para grande parte do mundo, o ‘normal’ acabou ”, disse Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

 “O objetivo não é matar a esperança, mas sim incentivar a ação e o reconhecimento honesto da nossa falha hoje, para que possamos proteger e viabilizar o amanhã”, disse ele em uma coletiva de imprensa em Nova York na terça-feira.

Encargos desiguais

O Sr. Madani enfatizou que as conclusões não sugerem um colapso mundial, mas existem sistemas falidos ou quase falidos em número suficiente, interligados pelo comércio, pela migração e pelas dependências geopolíticas, de modo que o panorama global de riscos foi fundamentalmente alterado.

Os  encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos de baixa renda, as mulheres e os jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos.

Da crise à recuperação? 

O relatório apresenta a falência por dívida hídrica como uma condição definida tanto pela insolvência quanto pela irreversibilidade .

Insolvência refere-se à extração e poluição de água além dos níveis de entrada renováveis ​​e dos limites de esgotamento seguro.

Irreversibilidade refere-se aos danos a partes essenciais do capital natural relacionado à água , como zonas úmidas e lagos, que tornam inviável a restauração do sistema às suas condições iniciais.

Mas nem tudo está perdido: comparando a questão da água com as finanças, o Sr. Madani afirmou que a falência não significa o fim da luta. 

“ É o início de um plano de recuperação estruturado : estancar a sangria, proteger os serviços essenciais, reestruturar as reivindicações insustentáveis ​​e investir na reconstrução”, observou ele.

Conta cara

Segundo o estudo, o mundo está rapidamente esgotando suas “reservas naturais de água”: mais da metade dos grandes lagos do mundo diminuíram desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 35% dos pântanos naturais foram perdidos desde 1970, afirmou o Sr. Madani.

O custo humano já é significativo. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica.

Cerca de quatro bilhões de pessoas sofrem com a grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano, enquanto os impactos da seca custam cerca de US$ 307 bilhões anualmente.

“Se continuarmos a gerir estas falhas como ‘crises’ temporárias com soluções de curto prazo, apenas iremos agravar os danos ecológicos e alimentar os conflitos sociais”, alertou o Sr. Madani.

Correções de rota

O relatório defende uma transição da resposta à crise para a gestão da falência , baseada na honestidade quanto à irreversibilidade das perdas, na proteção dos recursos hídricos remanescentes e em políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.


Fonte: ONU

Porque o governo não deve concluir Angra 3

Por Heitor Scalambrini Costa**

O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocado pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social; escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor; roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo: vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ). 

Esses e outros episódios aprofundaram o crescente descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos trabalhadores da Eletronuclear, em 2025.

No caso específico de Angra 3 (construção iniciada em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas, reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura militar, e que previa a construção de 8 usinas, entre outras ações relacionadas ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.

Também havia o interesse bélico de construir a bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90.

Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES (não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 – R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina.

Os riscos da energia nuclear incluem o descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade, que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água, exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias radioativas.

Outra questão relevante é a tecnologia antiga e ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura 45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco zero em engenharia”.

Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da Eletronuclear, repetida à exaustão pelo MME.

A interrupção e construção de usinas nucleares no país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear, pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados, e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear.

Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território.

 

“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”


* Publicado no blog: https://taniamalheiros-jornalista.blogspot.com

**  Heitor Scalambrini é Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de   Energia Atômica (CEA)-França.

Janeiro tem número de focos de calor duas vezes maior que a média

Inpe indica aumento de 46% em relação a 2025
Porto Jofre (MT) 19/11/2023 – Uma boiada é vista proxima a cortina de fumaça por conta do incêndio florestal que atige o Pantanal.
Foto: Joédson Alves/Agência BrasilJoédson Alves/Agência Brasil
Por Guilherme Jeronymo para Agência Brasil 

O painel de monitoramento de focos de calor do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicou um janeiro atípico, com 4.347 focos ativos detectados pelo satélite de referência do órgão. 

O dado deste ano está atualizado até a quinta-feira (29) e corresponde ao dobro da média para o mês e a um aumento de 46% em relação a 2025.

Esse é o sexto maior resultado para um mês de janeiro desde o começo do levantamento, em 1999, e o segundo maior da década, atrás de 2024, com 4.555 focos.

O estado que mais registrou focos foi o Pará (985 focos registrados), que tem áreas consideradas em seca, segundo a última atualização do Monitor de Secas do Brasil da Agência Nacional de Águas (ANA), de dezembro.

A concentração de focos coincide com a persistência de um quadro acentuado de seca no Nordeste, onde estão três dos estados com mais focos ─ Maranhão (945), Ceará (466) e Piauí (229) ─ e com chuvas abaixo da normalidade na Região Norte.

No caso do Maranhão (945), todo o território sofre com secas. Já Ceará e Piauí têm presença de secas de maneira contínua em partes de sua extensão desde o inverno de 2023.

A situação maranhense é considerada preocupante: 2026 já é o ano com maior número de focos de calor no estado desde o começo da série histórica, superando 2019, quando foram contabilizados 712 focos.

A quantidade de focos não é a única forma de medir incêndios ou queimadas, porém é um indicador comum para políticas de prevenção e combate.

A maior incidência em janeiro não significa, necessariamente, um ano com mais queimadas do que a média. Entretanto, se considerados os anos em que janeiro teve quantidade maior de focos, apenas 2016 teve o resultado anual abaixo da média nacional, que é de 200 mil registros por ano. 

O que dizem os estados

A reportagem procurou as assessorias dos estados com mais registros. Pará e Ceará consideram o indicador com ressalvas.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) do Pará afirmou que “recortes temporais muito curtos devem ser analisados com cautela” e que “janelas reduzidas podem refletir ocorrências concentradas em poucos dias ou localidades específicas, o que não permite antecipar uma tendência anual consolidada”.

O estado afirma que segue acompanhando os registros de 2026 e adotará as medidas necessárias previstas na política estadual de enfrentamento às queimadas e aos incêndios florestais.

No Ceará, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) afirmou que o elevado quantitativo de focos de calor observado no mês de janeiro “reflete, em grande medida, o cenário registrado em dezembro de 2025”, que teve o maior número de focos em 20 anos.

De acordo com a Sema-CE, os focos de calor podem estar associados a incêndios ou queimadas, mas também podem decorrer de outras fontes de calor, não sendo possível afirmar, de forma automática, que todos os focos representem eventos de fogo em vegetação.

Segundo o Governo do Estado do Maranhão, foram intensificadas as ações de prevenção e combate às queimadas, com campanhas educativas, medidas de prevenção, doação de equipamentos de combate a incêndios florestais às brigadas municipais e ao Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão e resposta rápida às ocorrências.

“A severa estiagem que afeta o Estado cria condições extremamente favoráveis para esse aumento, apesar das ações preventivas”, explicou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente.

Também houve aumento das operações de fiscalização e inserção do uso de drones para identificação de áreas críticas. O estado tem priorizado ações de apoio às comunidades rurais e pequenas cidades e de resgate e cuidado de animais silvestres.


Fonte: Agência Brasil

Pesquisa detecta ampla contaminação por agrotóxicos das águas de Santa Catarina

Estudo na água feito a pedido do Ministério Público alerta para poluição com agrotóxicos no meio ambiente

Um estudo feito nas águas que abastecem os 295 municípios catarinenses, e apresentado ao Grupo de Trabalho da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) nesta quarta-feira (28/1), acendeu um alerta ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para a presença de agrotóxicos no meio ambiente – incluindo aqueles de uso proibido no Brasil. Com base no levantamento, elaborado a pedido do Centro de Apoio Operacional do Consumidor (CCO) do MPSC, a Instituição pretende atuar para reduzir os impactos que o excesso desses resíduos químicos pode causar na vida das pessoas, especialmente no médio e no longo prazo. 

A ideia inicial é atacar o problema de forma integrada com as áreas do consumidor, da saúde pública e do meio ambiente e em diferentes frentes: de forma regionalizada, com grupos de trabalho fixos e sugestão de instauração de procedimentos administrativos nas Promotorias das comarcas onde se identificou maior concentração de substâncias diferentes no meio ambiente (veja mais abaixo); e, no âmbito nacional, com a sensibilização do Ministério da Saúde sobre a necessidade de revisão da Portaria n. 888/2021, que define os limites aceitáveis de resíduos químicos na água potável. 

Parecer Técnico N. 01/2024

“O que nós pretendemos é, por meio da apresentação de dados, colaborar com o debate nacional sobre a definição dos parâmetros de potabilidade da água, porque entendemos que a plena proteção à vida e à saúde do consumidor está atrelada à melhora da qualidade do produto ofertado para a população”, disse a Coordenadora do CCO, Promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl. 

O levantamento ocorreu entre 2018 e 2023 dentro do Programa Alimento Sem Risco, do MPSC, que atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos, e foi custeado pelo Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).  

As análises foram realizadas em laboratórios credenciados, com coleta nas águas tratadas que abastecem todos os municípios do estado, abrangendo mananciais superficiais e subterrâneos. O objetivo foi identificar quais substâncias estão presentes, em que concentrações, e comparar com os limites da legislação brasileira. 

O estudo revelou que, embora os níveis estejam dentro dos limites permitidos pela legislação brasileira, 155 municípios (52,5%) apresentam resíduos de agrotóxicos na água potável, indicando poluição ambiental que atinge não apenas os recursos hídricos – como água tratada, poços artesianos e bicas –, mas também o solo e o ar. 

“Em uma reunião com a Secretaria de Estado da Saúde, por sua Superintendência de Vigilância em Saúde e a Diretoria de Vigilância Sanitária, a equipe técnica avaliou que a água é a última matriz por onde o agrotóxico vai passar. Sendo assim, estamos falando de todo um ambiente poluído, de resíduos que, antes de chegar à água, ocuparam o ar e o solo”, explicou Aline.  

Ao todo, 42 resíduos ativos foram encontrados nas águas analisadas. Entre os detectados, cinco estão banidos no Brasil, de acordo com a Anvisa: benomil (por ter carbendazim – este banido – como ingrediente ativo), carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato.  

Os agrotóxicos de uso proibido foram detectados em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuia, Canelinha, Itaiópolis, Ituporanga e São João do Sul. Os demais, em municípios espalhados por todo o estado.  

As concentrações identificadas estavam abaixo dos parâmetros nacionais de potabilidade, atendendo aos valores máximos permitidos (VMP) para cada substância contemplada na Portaria n. 888/2021, o que faz com que, pela legislação brasileira, essas águas não sejam consideradas impróprias para consumo (entenda mais abaixo).  

Parecer Técnico N. 01/2024

“Embora contenha resíduos de agrotóxicos, a água distribuída pela rede de abastecimento em Santa Catarina é segura ao consumo e não oferece risco imediato ao consumidor. Os processos de tratamento garantem proteção contra inúmeros contaminantes perigosos aos humanos e animais, a exemplo de bactérias e parasitas. A água não tratada, advinda de poços ou bicas, além de não estar livre da contaminação pelos resíduos de agrotóxicos, traz mais ameaças diretas ao seu consumidor do que a entregue pela rede geral de distribuição. Por isso deve ser evitada”, salientou Aline.    

A principal preocupação está na exposição crônica, ou seja, no contato constante e contínuo que a população tem com esses resíduos. Estudos científicos indicam que o contato sucessivo, seja por ar, pele ou ingestão, pode gerar efeitos cumulativos e aumentar o risco, a longo prazo, para doenças como linfoma não-Hodgkin, câncer de estômago, próstata e tireoide, além de alterações endócrinas e neurológicas. 

Municípios com maior número de resíduos 

Entre os municípios onde foram detectados resíduos de agrotóxicos na água tratada, os dados revelam diferenças significativas entre as regiões catarinenses. 

Na mesorregião Oeste, 63 dos 118 municípios apresentaram ao menos um ingrediente ativo. No Norte, foram 11 de 26 (42,3%), enquanto na Serra, 10 dos 30 (33,3%). Na Grande Florianópolis, 12 dos 21 municípios analisados (57,1%) tiveram resíduos, e no Sul do estado o índice chegou a 35 de 46 (76,1%). Já no Vale do Itajaí, 24 dos 54 municípios (44,4%) registraram algum tipo de poluição. 

O diagnóstico aponta o Vale do Itajaí como uma das regiões mais críticas. Embora a maioria dos municípios tenha apresentado um, dois ou três ingredientes ativos, casos como Ituporanga e Imbuia chamam atenção pela presença simultânea de diversos resíduos químicos.  

Em Imbuia, por exemplo, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos de agrotóxicos, incluindo dois ingredientes ativos proibidos no Brasil desde 2019, mas encontrados em amostras de 2022 e 2023. Também em Imbuia foi encontrado um fungicida em concentração superior a 12 microgramas por litro (µg/L), patamar considerado elevado por especialistas.  

Já em Ituporanga, as análises apontaram a presença simultânea de 23 ingredientes ativos de agrotóxicos, com nove substâncias acima de 1,000 micrograma por litro (µg/L). Na região, também foram encontrados resíduos de fungicidas banidos no país.  

Para a região, em especial nas cidades onde a presença simultânea de diversos resíduos foi identificada, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina, Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, pretende fomentar a criação de grupos de trabalho intersetoriais. Esses grupos envolverão equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor e atuarão com busca ativa de pacientes, além de conscientização sobre o uso e manuseio de agrotóxicos. 

O Centro de Apoio Operacional do Consumidor considera essencial que os órgãos sanitários trabalhem de forma organizada e planejada, especialmente nas regiões mais críticas do estado, para melhorar a situação e garantir mais segurança para todos. 

Legislação brasileira 

Apesar desses resultados, a Portaria n. 888/2021 do Ministério da Saúde considera essas águas próprias para consumo, porque as concentrações encontradas estão abaixo dos VMP definidos para cada substância.  

Esses parâmetros foram fixados com margem de segurança ampla, muito inferiores às doses que poderiam causar efeitos agudos, garantindo que a água seja considerada segura pela Vigilância Sanitária. 

Os VMP têm justamente essa função: assegurar que a água distribuída esteja muito abaixo das concentrações que causariam dano imediato à saúde. Isso garante que, segundo os padrões da Vigilância Sanitária, a água seja considerada segura para consumo. 

A lei brasileira, no entanto, não considera a simultaneidade das substâncias presentes para estabelecer risco. Por essa perspectiva, a Coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor foi a Brasília em busca de uma sensibilização em âmbito nacional para uma revisão legislativa.  

Em uma reunião com equipe técnica em dezembro, o MPSC apresentou o estudo. No encontro, colocou-se à disposição do governo federal e salientou a importância de uma revisão na portaria. 

Além disso, o Ministério Público continua com sua atuação no controle do uso de agrotóxicos por meio do Programa Alimento Sem Risco. Com ele, a testagem acontece nos alimentos de origem vegetal.  

Alimento Sem Risco 

Programa Alimento Sem Risco atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de resíduos de agrotóxicos, bem como no estímulo à rastreabilidade dos produtos, na fiscalização do comércio de agrotóxicos, além de impedir o uso de produtos banidos no exterior. 
 
A iniciativa também incentiva o desenvolvimento de estudos técnicos e pesquisas, bem como busca coibir irregularidades no mercado de produtos orgânicos.  

Desde 2010, quando surgiu, mais de 8.300 amostras de vegetais já foram analisadas por um laboratório especializado na pesquisa de resíduos de agrotóxicos. Nos primeiros cinco anos do Programa Alimento Sem Risco, cerca de 200 ingredientes ativos eram pesquisados em cada amostra. A partir de 2017, o total de ingredientes ativos passou para mais de 420 moléculas, possibilitando um diagnóstico mais amplo do uso de agrotóxicos. 
 
Os resultados gerais das análises indicam que houve queda do percentual de produtos fora da conformidade legal, que são aqueles nos quais foram usados agrotóxicos não autorizados para a cultura, acima do limite máximo permitido ou de uso proibido. Era de 34,4%, em 2011, e caiu para 11,4% em outubro de 2025. 
 
Até outubro de 2025, a partir da atuação das Promotorias de Justiça do Consumidor no estado, mais de 500 acordos extrajudiciais na forma de termos de compromisso de ajustamento de conduta foram firmados, visando promover medidas de adequação do cultivo e do comércio. 
 
Anualmente, são examinadas amostras de alface, abacaxi, arroz, banana, batata, berinjela, brócolis, cebola, cenoura, feijão, laranja, maçã, mamão, mandioca, manga, maracujá, morango, pepino, pêssego, pimentão, repolho, rúcula, tomate, trigo e uva, entre outros produtos. 


Fonte: Coordenadoria de Comunicação Social do MPSC