Justiça holandesa barra fungicida com fludioxonil; no Brasil, substância continua presente no Maxim e Maxim XL

Decisão da Justiça holandesa determina retirada de produto contendo o fungicida após reconhecimento de suas propriedades de desregulação endócrina; no Brasil, o princípio ativo está presente em produtos como Maxim e Maxim XL

Uma decisão recente da mais alta corte administrativa dos Países Baixos deveria chamar a atenção das autoridades sanitárias brasileiras. O tribunal determinou que o fungicida Pitcher seja retirado do mercado o mais rapidamente possível porque contém fludioxonil, princípio ativo reconhecido como desregulador endócrino. O caso, divulgado pela Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), coloca novamente no centro do debate uma questão recorrente na regulação dos agrotóxicos: o que fazer quando novas evidências científicas indicam riscos que não foram devidamente considerados no momento da autorização de um produto?

A importância da decisão vai muito além dos Países Baixos. Em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que o fludioxonil atende aos critérios europeus para identificação de substâncias com propriedades de desregulação endócrina nas modalidades relacionadas a estrogênio, androgênio e esteroidogênese, tanto para seres humanos como para organismos não alvo. A legislação europeia estabelece restrições severas para substâncias com essas características, razão pela qual o tribunal concluiu que uma formulação que permita exposição humana não deveria ter sido autorizada.

A questão interessa diretamente ao Brasil porque o fludioxonil continua autorizado pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura. Um dos produtos mais conhecidos é o Maxim, fungicida para tratamento de sementes registrado pela Syngenta, contendo 25 g/L de fludioxonil. Existe ainda o Maxim XL, também da Syngenta, que combina 25 g/L de fludioxonil com 10 g/L de metalaxil-M. O Maxim está registrado no MAPA sob o nº 05397, enquanto o Maxim XL possui registro nº 09499. Portanto, não estamos falando de uma molécula distante da realidade agrícola brasileira, mas de um princípio ativo efetivamente autorizado e comercializado no país.

E há aqui uma contradição que merece atenção. No sistema brasileiro de classificação, tanto o Maxim quanto o Maxim XL aparecem na Categoria 5 — “Produto Improvável de Causar Dano Agudo”. Essa classificação, entretanto, refere-se essencialmente à toxicidade aguda e não significa ausência de efeitos associados à exposição crônica. Esse ponto torna-se particularmente importante quando estamos diante de uma substância que a avaliação europeia passou a considerar desreguladora endócrina. Aliás, a própria bula brasileira do Maxim XL informa que, em estudos crônicos com animais, fígado e rins foram identificados como órgãos-alvo do fludioxonil, com alterações hepáticas, renais e hematológicas observadas nas doses mais elevadas.

Há também uma dimensão ambiental que não deveria ser esquecida. Enquanto o Maxim é classificado como “Produto Perigoso ao Meio Ambiente”, o Maxim XL é classificado como “Produto Muito Perigoso ao Meio Ambiente”. Assim, a confortável expressão “improvável de causar dano agudo”, quando lida isoladamente, pode transmitir ao usuário uma percepção de segurança que não corresponde ao conjunto das informações toxicológicas e ambientais disponíveis.

O caso holandês levanta ainda uma questão institucional particularmente relevante para o Brasil. O tribunal europeu reafirmou que as autoridades responsáveis pelo registro de agrotóxicos não podem simplesmente permanecer presas às avaliações realizadas no momento inicial da autorização quando surgem novas evidências científicas relevantes. A própria controvérsia começou porque a autoridade holandesa continuava autorizando determinados produtos sem incorporar adequadamente conhecimentos científicos mais recentes. O princípio é elementar: a autorização de um agrotóxico não pode funcionar como um salvo-conduto permanente diante do avanço do conhecimento científico.

É justamente aí que a situação brasileira merece acompanhamento. O fludioxonil permanece na lista de ingredientes ativos autorizados pela Anvisa e integra diferentes formulações comercializadas no país. Além do Maxim e Maxim XL, aparecem no mercado brasileiro produtos como Maxim XL Professional, Apron RFC e Celest XL, todos registrados pela Syngenta e contendo fludioxonil em diferentes combinações com outros fungicidas.

Até o momento, não consegui confirmar nos bancos públicos consultados quais produtos registrados por outras empresas poderiam ser rigorosamente classificados como genéricos do Maxim ou do Maxim XL no mercado brasileiro. Essa informação merece investigação adicional, inclusive porque a existência de registros por equivalência pode ampliar significativamente o universo de produtos e marcas comerciais associados ao mesmo princípio ativo.

O ponto central, entretanto, independe disso. Se uma autoridade científica europeia identificou o fludioxonil como desregulador endócrino e uma corte determinou a retirada de uma formulação do mercado justamente por causa desse risco, Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura deveriam explicar se essas novas evidências já foram incorporadas à avaliação brasileira do ingrediente ativo. Não se trata de importar automaticamente uma decisão europeia, mas de aplicar um princípio básico de proteção à saúde pública: diante de novas evidências sobre efeitos crônicos potencialmente graves, registros concedidos no passado precisam ser reavaliados à luz do conhecimento científico disponível no presente.

O caso do fludioxonil mostra mais uma vez por que classificar um agrotóxico apenas pelo risco de intoxicação aguda oferece uma imagem incompleta de sua segurança. Um produto pode não provocar facilmente uma intoxicação imediata e, ainda assim, apresentar riscos associados à exposição repetida, à interferência no sistema endócrino ou aos efeitos sobre organismos e ecossistemas. E é justamente nesse intervalo entre aquilo que mata rapidamente e aquilo que pode produzir danos silenciosos ao longo do tempo que muitas vezes se instala o problema dos agrotóxicos.

Trabalho escravo no Mato Grosso do Sul: quando a reforma agrária se torna também uma questão de direitos humanos

Casos em duas grandes fazendas de Mato Grosso do Sul mostram que o trabalho escravo contemporâneo não é uma aberração isolada do agronegócio brasileiro, mas parte de um problema estrutural que continua aparecendo nas fiscalizações realizadas no campo

Uma notícia publicada nesta segunda-feira (31) pelo Campo Grande News merece atenção não apenas pelo que revela sobre duas propriedades rurais de Mato Grosso do Sul, mas pelo que diz sobre uma realidade que o discurso triunfalista em torno do agronegócio brasileiro frequentemente prefere deixar fora da fotografia. Duas fazendas, que juntas somam 5.341 hectares, estão sendo objeto de ações para expropriação e posterior destinação à reforma agrária depois que fiscalizações encontraram trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão.

Uma delas é a Fazenda Carandazal, com 2.091 hectares, localizada em Corumbá, na região de fronteira com a Bolívia. Ali, quatro trabalhadores foram resgatados em fevereiro de 2025, e a ação movida pelo Ministério Público do Trabalho aponta inclusive histórico de reincidência em infrações trabalhistas. O MPT pede a destinação da propriedade à reforma agrária e R$ 25 milhões em reparação pelos danos causados à sociedade. A outra é a Fazenda Bahia dos Carneiros, de 3.250 hectares, em Porto Murtinho, onde sete trabalhadores foram resgatados em abril de 2025. O dado é particularmente grave: entre eles havia dois adolescentes e três indígenas. Nesse caso, as indenizações requeridas chegam a R$ 8,9 milhões.

Esses casos não deveriam ser tratados como episódios excepcionais protagonizados por alguns poucos proprietários rurais que teriam se desviado das práticas predominantes no campo brasileiro. Os números disponíveis mostram algo bem mais incômodo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), somente em 2025 foram registrados 159 casos de trabalho escravo rural no Brasil, envolvendo 1.991 trabalhadores resgatados. Entre as atividades nas quais ocorreram resgates aparecem lavouras, cana-de-açúcar, mineração e pecuária, ou seja, setores diretamente relacionados às cadeias produtivas rurais e ao agronegócio. A pecuária, sozinha, respondeu por 154 trabalhadores resgatados naquele ano.

O Mato Grosso do Sul oferece uma demonstração especialmente clara desse padrão. Em 2025, foram registrados no estado 12 casos e 92 trabalhadores resgatados, com a pecuária concentrando a maior parcela das ocorrências. Mais significativo ainda é observar a série histórica: desde 1995, o estado acumulou 165 casos e 3.335 trabalhadores resgatados. Em 2024, nada menos que 13 propriedades rurais sul-mato-grossenses apareciam na chamada “lista suja” do trabalho escravo do governo federal.

E o problema está longe de ser exclusivamente sul-mato-grossense. A atualização de abril de 2026 da lista nacional acrescentou 169 empregadores ao cadastro, e a criação de bovinos para corte apareceu como a segunda atividade econômica com maior número de novas inclusões, atrás apenas do trabalho doméstico. Portanto, quando casos de trabalho escravo são encontrados em fazendas dedicadas às atividades típicas do agronegócio, estamos diante de manifestações locais de um problema de dimensão nacional.

É justamente por isso que a possível expropriação das duas fazendas de Mato Grosso do Sul possui uma importância que ultrapassa os 5.341 hectares envolvidos. A Constituição brasileira estabelece que propriedades rurais nas quais seja constatada a exploração de trabalho escravo podem ser expropriadas e destinadas à reforma agrária, sem indenização ao proprietário, além das demais sanções cabíveis. O acordo firmado entre Ministério Público do Trabalho, Superintendência Regional do Trabalho e Incra procura finalmente dar maior efetividade a esse mecanismo. Há ainda uma dimensão particularmente interessante: os trabalhadores resgatados terão prioridade na distribuição dos lotes provenientes das terras expropriadas.

Há uma lógica poderosa nessa medida. Uma propriedade rural não cumpre sua função social simplesmente porque produz soja, carne, cana ou qualquer outra mercadoria capaz de gerar receitas de exportação. A função social da propriedade envolve também o respeito aos direitos trabalhistas e à dignidade humana. Quando uma grande propriedade produz riqueza utilizando trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão, é difícil imaginar demonstração mais evidente do descumprimento dessa função.

Talvez esteja justamente aí uma das discussões que deveriam acompanhar o debate brasileiro sobre reforma agrária. Não se trata apenas de perguntar quem possui a terra e quanto ela produz, mas como essa riqueza é produzida e sob quais relações sociais de trabalho. Afinal, em pleno século XXI, encontrar adolescentes, indígenas e trabalhadores adultos vivendo e trabalhando em condições análogas à escravidão dentro de grandes propriedades rurais não combina muito bem com a imagem de modernidade tecnológica e eficiência que o chamado “agro” construiu para si.

E se uma propriedade somente consegue produzir riqueza violando direitos humanos elementares, talvez a questão não seja saber se ela deve ser destinada à reforma agrária. A pergunta mais apropriada é por que demoramos tanto para fazer cumprir aquilo que a Constituição brasileira já determina.

Revistas predatórias abrem as porteiras para artigos feitos por ChatGPT

Um artigo recém-publicado por Daniel Stockemer e Farah Fakri, da University of Ottawa, na revista científica PS: Political Science & Politics, publicada pela Cambridge University Press em nome da American Political Science Association, oferece evidências bastante incômodas sobre algo que há muito tempo se suspeita no mundo acadêmico: em muitas revistas predatórias, o que determina a publicação de um artigo parece ter muito menos relação com sua qualidade científica do que com a disposição do autor em participar do negócio editorial.

O mérito do trabalho de Stockemer e Fakri está justamente em ter colocado essa suspeita à prova. Os autores selecionaram 144 revistas identificadas como potencialmente predatórias a partir de mensagens de spam, da Lista de Beall e de uma base especializada. Em seguida, submeteram dois tipos de material que dificilmente deveriam atravessar uma avaliação científica minimamente rigorosa: trabalhos produzidos por estudantes de graduação e pequenos artigos de engenharia integralmente gerados pelo ChatGPT.

Os resultados são impressionantes. Entre as 76 revistas às quais foram enviados trabalhos de graduação, 51 chegaram a uma decisão editorial. Dessas, 39 aceitaram os manuscritos, uma chegou a publicá-lo imediatamente e apenas 11 os rejeitaram. Isso significa uma taxa de aceitação de 78,4% entre aquelas que efetivamente responderam. E não estamos falando de artigos científicos produzidos por jovens pesquisadores, mas de trabalhos acadêmicos escritos originalmente para disciplinas de graduação, principalmente dos primeiros anos, sem contribuição original para a literatura.

Com os textos produzidos por inteligência artificial, o resultado foi ainda mais revelador. Foram submetidos 10 pequenos estudos de caso de engenharia, totalmente gerados pelo ChatGPT, a 68 revistas. Quarenta e seis aceitaram os manuscritos, apenas quatro os rejeitaram e 18 simplesmente não responderam. Os textos tinham cerca de 800 palavras e continham problemas que uma revisão minimamente cuidadosa poderia identificar, incluindo inconsistências técnicas e referências bibliográficas inexistentes.

Há episódios quase caricatos. Um trabalho de graduação sobre a crise da dívida no Sul Global foi aceito e publicado por uma revista dedicada a imagens clínicas e médicas, apesar de o artigo tratar de economia política e não possuir qualquer relação com a área médica. Em outro caso, uma revista aceitou um artigo de engenharia totalmente produzido pelo ChatGPT depois de os autores declararem deliberadamente que não haviam utilizado inteligência artificial. A resposta editorial informou simplesmente que o trabalho havia passado pelo teste de plágio. As referências falsas produzidas pela própria IA aparentemente não despertaram qualquer preocupação.

Mas há aqui uma questão que considero particularmente importante. O artigo de Stockemer e Fakri não demonstra que a inteligência artificial seja incompatível com a produção científica. Demonstra algo diferente e talvez mais grave: a existência de um sistema editorial capaz de transformar textos sem qualquer pesquisa original — inclusive aqueles produzidos automaticamente e contendo informações falsas — em aparentes artigos científicos. A diferença é fundamental. Ferramentas de IA podem auxiliar pesquisadores na organização de informações, revisão de textos, programação, exploração preliminar de dados e inúmeras outras tarefas. Nada disso elimina a responsabilidade intelectual do pesquisador nem substitui método, dados, análise, verificabilidade ou revisão crítica. O problema começa quando um texto sintético passa a ocupar o lugar da pesquisa e encontra, do outro lado, uma revista cuja preocupação principal aparentemente não é verificar se existe ciência no manuscrito.

É aí que as revistas predatórias representam um problema que ultrapassa os autores que pagam para publicar nelas. Ao imitarem a aparência de periódicos científicos legítimos — com DOI, volume, número, conselho editorial e páginas cuidadosamente diagramadas — elas podem introduzir conteúdos sem validade científica no próprio ecossistema de circulação do conhecimento. Uma vez publicado, um artigo ruim pode ser encontrado por mecanismos de busca, incorporado a revisões bibliográficas e eventualmente citado por outros pesquisadores. Stockemer e Fakri alertam justamente para o risco de conteúdos fabricados ingressarem dessa maneira no registro científico e contaminarem trabalhos posteriores.

Por isso, talvez a conclusão mais importante desse experimento seja que o problema das revistas predatórias não está apenas na cobrança de taxas de publicação. Existem excelentes revistas de acesso aberto que cobram APCs e realizam revisão por pares rigorosa. A característica essencial da predação está na transformação da publicação científica em uma relação essencialmente comercial, na qual os mecanismos que deveriam separar conhecimento cientificamente defensável de simples aparência de ciência deixam de funcionar.

E a chegada da inteligência artificial generativa torna esse problema ainda mais perigoso. Se antes produzir dezenas ou centenas de artigos fraudulentos exigia algum esforço humano, hoje é tecnicamente possível produzir textos com aparência acadêmica em escala industrial. Se existirem revistas igualmente dispostas a publicá-los sem revisão efetiva, estarão dadas as condições para uma verdadeira linha de montagem de pseudociência.

O trabalho de Daniel Stockemer e Farah Fakri, portanto, deveria servir também de alerta para universidades e agências de fomento. Em um sistema acadêmico que continua premiando quantidade de publicações, número de artigos e determinados indicadores bibliométricos, combater revistas predatórias exige mais do que elaborar listas de periódicos suspeitos. Exige modificar os próprios incentivos que alimentam esse mercado e recolocar no centro da avaliação aquilo que deveria importar: a qualidade da pesquisa e a contribuição efetiva que ela oferece ao conhecimento científico.

O paradoxo Couto: quando dirigentes universitários apostam na estabilidade de um governo passageiro

Com mandato contado em meses e sem garantias de continuidade após as eleições, o governo Couto oferece uma conjuntura passageira que não deveria ser confundida com uma política de Estado

Tenho ouvido com alguma frequência avaliações bastante positivas sobre a relação das universidades estaduais com o governo de Ricardo Couto. Em alguns casos, chega-se a afirmar que o desembargador estaria realizando um excelente trabalho à frente do governo do Rio de Janeiro. Não tenho dificuldade em reconhecer que determinadas medidas tomadas por Couto parecem apontar para uma tentativa de reorganização administrativa e financeira de um Estado que há muito convive com graves problemas de planejamento, aparelhamento político e deterioração de sua capacidade institucional. O problema começa quando uma avaliação positiva sobre medidas tomadas pelo atual governador passa a ser confundida com a existência de condições estáveis para planejar o futuro das universidades fluminenses.

Há nessa leitura um paradoxo que não deveria passar despercebido. O governo Ricardo Couto é produto direto de uma das mais graves crises institucionais recentes do estado do Rio de Janeiro. Cláudio Castro renunciou ao cargo, o posto de vice-governador já estava vago, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, que deveria ocupar posição central na linha sucessória, havia sido preso preventivamente e posteriormente teve seu mandato cassado, enquanto o STF impediu que o novo presidente da Assembleia Legislativa assumisse interinamente o governo.  Esse cenário extraordinário permitiu que Ricardo Couto, então presidente do Tribunal de Justiça, chegou ao Palácio Guanabara.

Portanto, é no mínimo curioso que justamente um governo nascido de tamanha instabilidade esteja sendo apresentado como uma espécie de porto seguro para o planejamento das universidades fluminenses, especialmente as estaduais. Isso se torna ainda mais contraditório quando o próprio Ricardo Couto reconhece a profundidade da crise que encontrou e fala publicamente na existência de uma espécie de “captura” do Executivo pelo Legislativo. Se esse diagnóstico estiver correto,  e eu considero que está, estamos falando de algo muito mais grave do que simples problemas administrativos, pois o que está em questão é a própria deterioração das fronteiras institucionais entre os poderes e a apropriação de partes da máquina pública por grupos políticos.

É verdade que Couto tomou medidas que procuram enfrentar alguns desses problemas e seu governo promoveu auditorias em contratos, restringiu despesas, alterou postos importantes da administração e anunciou mecanismos destinados a reforçar o planejamento fiscal. Mas reconhecer esses aspectos não nos obriga a transformar Ricardo Couto em garantia de estabilidade institucional, até porque ele não será o governador do Rio de Janeiro depois de 31 de dezembro. Estamos em plena campanha eleitoral e não vi, até agora, compromissos inequívocos dos principais candidatos de preservar o conjunto das mudanças que estão sendo realizadas pela atual administração.

Mas existe uma segunda questão que considero ainda mais preocupante para quem dirige uma universidade pública: o dinheiro. O estado do Rio de Janeiro aderiu ao PROPAG e isso vem sendo apresentado como uma possibilidade importante de obtenção de novos recursos para áreas como educação e para as próprias universidades estaduais. A possibilidade existe, mas daí a tratar esses recursos como base segura para uma estratégia de expansão institucional existe uma distância considerável. O PROPAG não é simplesmente um programa de distribuição de dinheiro novo. Ele é, antes de tudo, um mecanismo de renegociação da gigantesca dívida estadual e vem acompanhado de contrapartidas fiscais, entre elas a limitação do crescimento das despesas primárias.

Isso significa que o mesmo programa que pode abrir uma janela para investimentos também impõe disciplina sobre a expansão futura dos gastos. Além disso, universidades estaduais são apenas uma das destinações possíveis dos recursos, enquanto a educação profissional técnica de nível médio possui prioridade específica dentro das regras do programa. Portanto, afirmar que o PROPAG permite investimentos nas universidades é correto; concluir daí que UERJ e UENF terão garantido um fluxo crescente e permanente de recursos é algo completamente diferente.

A situação fica ainda mais delicada quando se observa o cenário fiscal mais amplo. O governo estadual trabalha para reduzir drasticamente o déficit e chegar ao equilíbrio das contas, enquanto no plano federal a política fiscal aponta para metas de superávit e contenção do crescimento das despesas. Ou seja, estamos entrando em 2027 sob sinais bastante claros de maior restrição fiscal tanto no governo federal quanto no estadual. Planejar grandes expansões universitárias supondo disponibilidade crescente de recursos nesse contexto exige, no mínimo, uma boa dose de cautela.

Há ainda uma distinção que qualquer gestor universitário deveria conhecer muito bem: recurso para investimento não é a mesma coisa que recurso para custeio permanente. Com dinheiro extraordinário pode-se construir um prédio, comprar equipamentos, reformar laboratórios ou implantar uma nova unidade. Mas depois será necessário pagar professores, técnicos, terceirizados, energia, manutenção, segurança, bolsas e uma longa lista de despesas que se repetirão todos os anos.  Desta forma, criar estruturas permanentes com recursos temporários é uma das maneiras mais eficientes de produzir déficits permanentes.

É por isso que, quando ouço dirigentes universitários celebrarem que “a relação com o governo está excelente” ou manifestarem grandes expectativas sobre recursos provenientes do PROPAG, fico me perguntando se não estamos confundindo uma janela conjuntural de oportunidade com uma mudança estrutural nas condições de financiamento das universidades estaduais.

A pergunta que deveria orientar qualquer planejamento responsável é muito simples: qual será a fonte permanente de financiamento das despesas permanentes que estão sendo criadas agora? Se essa resposta depender de Ricardo Couto continuar organizando as finanças estaduais, de o próximo governador manter suas políticas, de o PROPAG gerar recursos suficientes e de futuros orçamentos estaduais preservarem as universidades em meio a um cenário de ajuste fiscal, então não temos propriamente um planejamento. Temos uma sequência de apostas.

Universidades como UENF e UERJ trabalham com horizontes de décadas, enquanto o governo Couto, por definição, possui um horizonte de meses. Questões como financiamento, concursos públicos, recomposição dos quadros, planos de carreira, infraestrutura e expansão acadêmica precisam estar sustentadas por orçamento, legislação e compromissos institucionais capazes de sobreviver à troca do ocupante do Palácio Guanabara. Por isso, talvez seja necessário substituir a pergunta “Ricardo Couto está tratando bem as universidades?” por duas outras muito mais importantes: o que o governo Couto está deixando institucionalizado para impedir que seu sucessor simplesmente aperte o botão de reset em janeiro de 2027? E quem pagará, nos anos seguintes, pelas estruturas permanentes que as universidades eventualmente criarem aproveitando recursos extraordinários disponíveis hoje?

Se não houver respostas convincentes para essas duas perguntas, podemos estar vivendo uma conjuntura favorável de relacionamento com o governo e até uma oportunidade momentânea de investimentos, mas certamente não estaremos diante de uma política de Estado.  E dirigentes universitários deveriam ser justamente aqueles mais capazes de compreender a diferença entre oportunidade e sustentabilidade. Afinal, talvez não exista aposta mais perigosa para uma universidade pública do que criar despesas para décadas contando com dinheiro disponível por alguns anos e com a boa vontade de um governo que tem data marcada para terminar.

O clima não espera: Rio Grande do Sul terá de esperar até 2031 pela proteção contra as cheias

Grandes obras de proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre deverão ficar prontas apenas sete anos depois da catástrofe de 2024, enquanto eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes

Uma reportagem publicada pelo Matinal traz uma informação que deveria provocar preocupação muito além do Rio Grande do Sul: as principais obras destinadas a reforçar a proteção contra cheias na Região Metropolitana de Porto Alegre deverão estar concluídas apenas em 2031. O governo gaúcho argumenta que não existe atraso e que cinco anos constituem um prazo razoável para obras dessa magnitude. Do ponto de vista dos procedimentos convencionais da administração pública e da engenharia, isso pode até parecer razoável. O problema é que a crise climática não obedece ao cronograma das licitações e das obras.

A contradição fica ainda mais evidente porque estudos realizados por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS indicam que as mudanças climáticas deverão reduzir significativamente o intervalo entre grandes cheias. Eventos que historicamente seriam considerados excepcionais poderão se tornar muito mais frequentes. Isso significa que o período entre agora e 2031 não pode ser tratado simplesmente como uma etapa de espera até que diques, comportas e sistemas de bombeamento estejam finalmente concluídos.

Há ainda um aspecto particularmente incômodo nessa história. Segundo a Matinal, cerca de R$ 6,5 bilhões disponibilizados pelo governo federal para essas obras ainda não haviam sido utilizados pelo governo estadual. Portanto, o problema não parece estar apenas na disponibilidade de dinheiro, mas também na capacidade do poder público de transformar recursos financeiros em redução efetiva e rápida da vulnerabilidade da população.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma mudança radical na maneira como o poder público compreende a adaptação climática. Não basta reconstruir diques ou instalar novas bombas. É necessário combinar grandes obras com manutenção permanente da infraestrutura existente, fortalecimento dos órgãos técnicos, monitoramento hidrometeorológico, sistemas de alerta, planos de contingência, controle rigoroso da ocupação de áreas inundáveis e recuperação de áreas naturais capazes de amortecer as cheias.

É justamente aí que aparece outra contradição preocupante. Enquanto bilhões são anunciados para proteger áreas urbanas contra futuras inundações, continuam existindo pressões para ampliar a ocupação de áreas vulneráveis e de espaços naturais que poderiam funcionar como zonas de amortecimento das águas. Construir diques enquanto se continua produzindo vulnerabilidade territorial é uma maneira bastante cara de correr atrás do próprio prejuízo.

Ninguém deveria ignorar que grandes obras de engenharia exigem projetos, licenciamento, licitações e tempo de execução. Mas reconhecer isso não responde à pergunta essencial: o que protegerá a população entre agora e 2031? A adaptação climática precisa ocorrer simultaneamente no curto, médio e longo prazo. Grandes obras podem levar cinco anos, mas manutenção, fiscalização, sistemas de alerta, planejamento territorial e preparação da Defesa Civil não podem esperar cinco anos.

Depois de uma catástrofe como a de maio de 2024, que matou 185 pessoas e atingiu praticamente todo o território gaúcho, tratar 2031 simplesmente como um prazo normal significa continuar raciocinando com a temporalidade administrativa do século XX diante de um clima que já mudou no século XXI.

A questão, portanto, não é saber se cinco anos representam um prazo tecnicamente aceitável para construir grandes sistemas de proteção. A questão é saber quantos eventos extremos poderão ocorrer enquanto essas obras não ficam prontas.

E há uma certeza que deveria orientar toda a política de adaptação climática brasileira daqui para frente: a próxima chuva extrema não vai consultar o cronograma das obras antes de cair.

A face verde da desterritorialização no Porto do Açu

Artigo publicado na Geografares mostra como uma ação apresentada como proteção da natureza pode transferir para comunidades tradicionais os custos socioambientais de um grande empreendimento portuário

Acaba de ser publicado pela revista Geografares o artigo “O papel das intervenções ambientais no deslocamento de pescadores artesanais por grandes empreendimentos portuários: o caso do Porto do Açu, em São João da Barra, Brasil”, de Jayson Freitas Gomes, Carlos Abraão Moura Valpassos e eu. O trabalho parte de uma questão que deveria interessar profundamente a quem discute desenvolvimento econômico, conservação ambiental e justiça social: o que acontece quando medidas apresentadas como destinadas à proteção da natureza acabam retirando de populações tradicionais o acesso aos territórios dos quais dependem para produzir renda, alimento e reproduzir seus modos de vida?

O caso analisado é particularmente revelador. A pesquisa mostra que a criação e a gestão da RPPN Fazenda Caruara, vinculada ao Porto do Açu, modificaram profundamente as condições de acesso dos pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari. O artigo sustenta que programas corporativos de proteção ambiental podem funcionar não apenas como instrumentos de conservação, mas também como mecanismos de mercantilização da natureza e de desterritorialização de comunidades tradicionais.

Não se trata, evidentemente, de negar a necessidade de conservar ecossistemas de restinga ou lagoas costeiras. O problema aparece quando a conservação é realizada sem aqueles que historicamente utilizam esses territórios e, pior ainda, contra eles. No caso da Caruara, as unidades de conservação atingiram áreas historicamente utilizadas por cerca de 33 comunidades rurais, enquanto a Lagoa de Iquipari constituía importante fonte de renda e alimentação para os pescadores artesanais. O estudo aponta ainda a ausência de diálogo adequado com as populações afetadas durante esse processo.

A dimensão territorial do problema é bastante concreta. Foram instalados 32 quilômetros de cercas, portarias, sistemas de vigilância, cadastros e autorizações, enquanto antigos acessos à Lagoa de Iquipari foram progressivamente restringidos. Com o fechamento das entradas pelo V Distrito, os pescadores passaram a depender de um acesso localizado em Grussaí, o que pode representar um deslocamento adicional de aproximadamente 40 quilômetros para chegar à área de pesca.

Os resultados da pesquisa são ainda mais eloquentes: dos 19 pescadores entrevistados, dez deixaram de pescar na Lagoa de Iquipari e os outros nove reduziram consideravelmente a atividade naquele ambiente. Isso ocorreu justamente em uma lagoa reconhecida pela elevada produtividade e diversidade de espécies de interesse comercial. Há inclusive uma consequência ambiental contraditória: impedidos de alternar a pesca entre Iquipari e outros ambientes, os pescadores passaram a concentrar maior esforço sobre a Lagoa do Açu, aumentando potencialmente a pressão sobre seus estoques.

É nesse ponto que o artigo discute aquilo que denomina “economia de reparação” e “ambientalismo de resultados”. A proteção de uma parcela do território pode funcionar como compensação e como elemento de legitimação para impactos produzidos em outras áreas. A natureza passa então a ser administrada como ativo ambiental corporativo, enquanto as relações sociais historicamente estabelecidas naquele território ficam em segundo plano.

As conclusões são contundentes: a implantação do Porto do Açu produziu processos de desterritorialização e injustiça socioambiental no V Distrito ao transformar recursos naturais historicamente utilizados pelas comunidades em ativos submetidos ao controle corporativo. Nesse arranjo, parte dos custos sociais da conservação foi transferida justamente para populações dependentes daqueles recursos para a pesca, a agricultura e o extrativismo. Por isso, políticas de conservação não podem ser avaliadas apenas pelo número de hectares protegidos, mudas plantadas ou espécies catalogadas. É preciso perguntar quem passou a controlar o território, quem perdeu acesso a ele e quem está pagando a conta da proteção ambiental.

Talvez seja justamente esse tipo de pesquisa que não se encaixe confortavelmente numa concepção de ciência excessivamente subordinada às demandas imediatas do mercado, como aquela que vem sendo defendida pelo desembargador Ricardo Couto e por outros atores envolvidos na discussão sobre os rumos da ciência fluminense. Uma comunidade de pescadores artesanais dificilmente aparecerá como grande “demandante de inovação” numa planilha empresarial. Da mesma forma, a perda de acesso a uma lagoa, a ruptura de redes comunitárias ou o desaparecimento progressivo de um modo de vida dificilmente aparecem nos indicadores utilizados para medir retorno econômico de investimentos em ciência e tecnologia.

Mas é precisamente aí que reside a importância da universidade pública e de um sistema público de ciência. Desenvolvimento não pode ser confundido com aumento da rentabilidade das corporações instaladas num território. Ele precisa envolver distribuição de benefícios e custos, reprodução social das populações existentes, participação nas decisões sobre o território e preservação das bases naturais das quais essas populações dependem. Uma ciência que só pergunta aquilo que interessa ao mercado corre o risco de oferecer respostas tecnicamente sofisticadas para perguntas excessivamente estreitas.

Outro aspecto importante é que este trabalho foi produzido no âmbito das pesquisas associadas ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, demonstrando a contribuição das Ciências Humanas e Sociais para a compreensão dos grandes processos de transformação territorial. A pesquisa envolveu revisão bibliográfica, análise documental, entrevistas e questionários aplicados a 19 dos 105 pescadores cadastrados no V Distrito.  Esta é, portanto,  uma investigação empírica destinada justamente a revelar dimensões do desenvolvimento que indicadores como PIB, volume de investimentos ou toneladas movimentadas pelos portos simplesmente não captam.

Finalmente, seria um erro considerar Iquipari uma excepcionalidade. O artigo demonstra empiricamente o caso do Porto do Açu e não permite afirmar automaticamente que os mesmos mecanismos estejam operando em todos os portos brasileiros. Entretanto, seus resultados oferecem uma hipótese de pesquisa poderosa para complexos como Suape, Pecém e Porto Sudeste, igualmente inseridos em territórios historicamente utilizados por pescadores e outras comunidades tradicionais. Investigar comparativamente quem ganhou e quem perdeu acesso aos territórios costeiros, quais compensações ambientais foram implementadas e de que maneira elas reorganizaram as relações de poder constitui uma agenda científica que merece ser ampliada.

Talvez esteja justamente aí uma boa resposta à pergunta sobre para que serve a ciência produzida numa universidade pública. Ela não deve servir apenas para ajudar empresas a produzir mais, transportar mais cargas ou ampliar sua competitividade. A ciência deve também permitir enxergar aqueles que costumam desaparecer das fotografias oficiais do “desenvolvimento”. No caso da Lagoa de Iquipari, quando se olha para além das cercas da RPPN Caruara e das narrativas corporativas de sustentabilidade, aparecem os pescadores. E aquilo que eles têm a dizer muda substancialmente a história normalmente contada sobre o Porto do Açu.

Quem desejar baixar o artigo, basta clicar [Aqui!].

A cadeia alimentar das revistas predatórias

Por Theo Ruprecht para “Revista Pesquisa Fapesp”

Na  hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema QUALIS). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.

Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo.

A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.

Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.

Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.

Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.

Cardápio de tramoias

Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.

Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.

O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmicaUma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do The Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”.

Um escândalo anacrônico
Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.

Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?


Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

Flávio Bolsonaro e o negacionismo climático tosco em versão eleitoral

Ao tratar o aquecimento global como resultado de supostos ciclos naturais, candidato ignora uma das conclusões mais sólidas da ciência contemporânea

A resposta dada por Flávio Bolsonaro na sua entrevista ao Jornal Nacional sobre o aquecimento global merece atenção não apenas porque revela o que o candidato pensa sobre a crise climática, mas principalmente porque mostra como uma velha estratégia do negacionismo climático continua sendo utilizada no debate político brasileiro. Questionado diretamente sobre o tema, Flávio afirmou que existem eventos climáticos extremos e que há épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, acrescentando que não acredita que o aquecimento global tenha relação direta apenas com a influência humana. O problema é que, apresentada dessa maneira, a afirmação mistura uma verdade elementar com uma conclusão cientificamente equivocada.

É evidente que o clima da Terra possui variabilidade natural e que ao longo da história do planeta ocorreram períodos mais quentes e mais frios. A ciência climática nunca negou isso. Existem oscilações relacionadas à atividade solar, erupções vulcânicas, circulação oceânica e atmosférica e, em escalas muito mais longas, alterações orbitais. O que Flávio Bolsonaro deixa de explicar é justamente o ponto decisivo: esses mecanismos naturais não explicam o rápido aquecimento observado desde a Revolução Industrial, especialmente aquele ocorrido nas últimas décadas.

Sobre isso, o IPCC utiliza uma linguagem incomumente categórica para documentos científicos: é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os continentes. A melhor estimativa do aquecimento provocado pelas atividades humanas entre 1850–1900 e 2010–2019 é de aproximadamente 1,07 °C, enquanto a contribuição estimada dos fatores naturais, como variações solares e vulcanismo, ficou próxima de ±0,1 °C. Em outras palavras, reconhecer que existem ciclos naturais não constitui argumento contra a origem antropogênica do aquecimento atual. Os cientistas conhecem esses ciclos, medem seus efeitos e justamente por isso conseguem demonstrar que eles são insuficientes para explicar o que está acontecendo.

Há ainda outro problema na resposta do candidato. Flávio Bolsonaro reconhece a existência de eventos extremos — calor, chuva e seca —, mas procura separá-los do processo de aquecimento global. Essa separação também não encontra respaldo na literatura científica. O IPCC conclui que a mudança climática provocada pelas atividades humanas já está afetando eventos meteorológicos e climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas na maior parte das áreas continentais desde a década de 1950, enquanto há evidências crescentes da influência humana sobre chuvas extremas e determinados tipos de seca. Isso não significa, evidentemente, que cada enchente, seca ou onda de calor tenha como causa exclusiva o aquecimento global, mas significa que estamos alterando as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos acontecem, modificando sua probabilidade e, em muitos casos, sua intensidade.

Esse detalhe é particularmente importante quando quem oferece esse tipo de resposta pretende ocupar a Presidência da República de um país como o Brasil. Estamos falando de uma nação altamente vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, ao mesmo tempo em que possui cidades pouco preparadas para enfrentar esses fenômenos. Um presidente que parte de um diagnóstico errado sobre as causas da crise climática dificilmente terá condições de formular políticas adequadas de mitigação e adaptação.

Por isso, a resposta de Flávio Bolsonaro não deveria ser tratada simplesmente como uma opinião pessoal sobre um assunto em que cientistas ainda estariam divididos. Essa divisão praticamente não existe sobre a questão fundamental. Podemos e devemos discutir quais políticas adotar, quem deve pagar pela transição energética, como proteger populações vulneráveis, qual deve ser o papel dos combustíveis fósseis e como compatibilizar desenvolvimento econômico e redução das emissões. Mas continuar discutindo em 2026 se a humanidade é ou não responsável pelo atual aquecimento global equivale a deslocar o debate político para uma questão que a ciência já respondeu.

E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante da declaração. Diante de uma crise que exigirá do próximo governo brasileiro investimentos pesados em adaptação climática, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, proteção das florestas e transformação da matriz energética, um candidato à Presidência da República oferece como diagnóstico a velha explicação de que o clima sempre mudou. Sim, sempre mudou. A diferença é que agora sabemos muito bem por que ele está mudando tão rapidamente — e também sabemos quem está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera.

Para quem quiser entender melhor sobre o assunto que o candidato Flávio Bolsonaro preferiu negar de forma tosca, sugiro assistir a live que foi realizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física com os pesquisadores Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Roberto Verdum e que está disponível no canal do Youtube do GENAT/UFPB (Aqui!)

 

Será que o impacto ambiental dos centros de dados está finalmente sendo compreendido?

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA – e o público só agora está descobrindo os potenciais efeitos em suas contas de energia

O centro de dados Meta El Paso, agosto de 2026. Fotografia: Brandon Bell/Getty Images

Por Dharna Noor para “The Guardian”

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA.

Mais de uma dúzia de estados consideraram moratórias para centros de dados. Nova York tornou-se o primeiro estado americano a promulgar uma proibição temporária no mês passado. Os progressistas senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez propuseram uma moratória nacional . E até mesmo Greg Abbott, o governador de extrema-direita do Texas, defendeu a proibição do desenvolvimento de centros de dados em áreas rurais de seu estado.

A preocupação com os centros de dados é alimentada por questões ambientais relacionadas ao uso da água e à contaminação tóxica, bem como por receios sobre o tipo de sociedade que as tecnologias de inteligência artificial impulsionadas pelos novos centros de dados estão criando.

Outra das objeções mais relevantes politicamente atinge um ponto diretamente relacionado ao bolso: os centros de dados exigem quantidades enormes de eletricidade, e esse aumento na demanda pode elevar as contas de energia.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026. Fotografia: Evelyn Hockstein/Grupo de moradores de Larbert.

O compromisso exige que desenvolvedores de data centers e empresas de inteligência artificial concordem em cobrir os custos da eletricidade que consomem e da nova infraestrutura necessária para conectar suas instalações à rede elétrica. O problema, segundo os críticos, é que o compromisso não tem força legal. Não é juridicamente vinculativo e não há consequências claras para as empresas que não o cumprirem.

Os grupos ambientalistas não ficaram particularmente impressionados : Patrick Drupp, diretor de políticas climáticas do Sierra Club, chamou a medida, no mês passado, de um “compromisso superficial” para famílias com dificuldades para pagar as contas, e Lena Moffitt, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Evergreen Action, descreveu o anúncio como uma mera “oportunidade para fotos com as grandes empresas de tecnologia”.

Os legisladores e os desenvolvedores apresentaram outras ideias sobre como garantir que os consumidores não arquem com o peso do crescimento da inteligência artificial em suas contas de serviços públicos, desde a implementação de tarifas para centros de dados até a simples proibição da construção dessas instalações até que novas regulamentações – inclusive sobre o consumo de energia – possam ser implementadas.

Em junho, os preços dos serviços públicos nos EUA subiram 4% em relação ao ano anterior, segundo dados federais, superando a inflação. A preocupação não mostra sinais de arrefecimento.


Fonte: The Guardian

Recriar a Secretaria de Ciência e Tecnologia é positivo, mas o RJ precisa fazer muito mais do que isso

Governo corrige o erro de extinguir a pasta, mas os números mostram que a segunda maior economia do país destina proporcionalmente menos recursos à sua fundação de pesquisa do que estados economicamente menores

A decisão do governador em exercício Ricardo Couto de recriar a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), tendo à frente Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, atual reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF), deve ser recebida como uma notícia positiva, mas sem qualquer euforia. Afinal, o governo estadual está essencialmente corrigindo um erro que ele próprio havia cometido poucas semanas antes, quando extinguiu a SECTI e incorporou suas atribuições à estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A reação da comunidade científica fluminense foi rápida e suficientemente forte para obrigar o governo a recuar, o que mostra, aliás, que a mobilização das universidades e instituições de pesquisa teve um papel importante na reversão de uma decisão que jamais deveria ter sido tomada.

A recriação da SECTI devolve à Ciência, Tecnologia e Inovação um espaço próprio dentro da estrutura administrativa estadual, mas criar ou recriar uma secretaria é certamente a parte mais fácil do problema. A questão realmente importante será saber se a nova pasta terá condições políticas e, principalmente, orçamentárias para formular uma política de CT&I compatível com a importância econômica e científica do Rio de Janeiro. É justamente nesse ponto que os números disponíveis permitem colocar o anúncio de Ricardo Couto em uma perspectiva menos celebratória e mais realista.

Tomando os orçamentos aprovados das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa em 2024 e relacionando-os ao último PIB estadual oficial disponível nas Contas Regionais do IBGE, referente a 2023, encontramos diferenças importantes. A FAPESP dispôs de aproximadamente R$ 2,83 bilhões, enquanto a FAPERJ contou com R$ 647,7 milhões. Entre os demais estados selecionados para comparação aparecem a FAPERGS, com R$ 591,5 milhões, a FAPEMIG, com R$ 552,1 milhões, a FAPESC, com R$ 305,9 milhões, e a FUNCAP cearense, com cerca de R$ 49,9 milhões. Em termos absolutos, portanto, o Rio de Janeiro ocupa uma posição importante, já que entre esses seis estados apenas São Paulo possui uma fundação com orçamento superior ao da FAPERJ.

Entretanto, o quadro muda de forma bastante significativa quando relacionamos esses recursos ao tamanho das respectivas economias estaduais. O Rio Grande do Sul, cujo PIB de R$ 650,1 bilhões corresponde a pouco mais da metade do PIB fluminense, apresenta uma relação entre orçamento da FAPERGS e PIB de aproximadamente 0,091%. Em São Paulo essa relação é de 0,082%, em Santa Catarina chega a 0,060% e em Minas Gerais fica em 0,057%. Já no Rio de Janeiro o orçamento da FAPERJ corresponde a apenas 0,055% do PIB estadual, ficando, entre os seis estados analisados, à frente apenas do Ceará, onde a relação é de aproximadamente 0,021%.

É justamente aí que aparece uma das principais contradições da situação fluminense. Segundo os dados oficiais do IBGE, o Rio de Janeiro possui um PIB de aproximadamente R$ 1,173 trilhão, sendo a segunda maior economia estadual brasileira, atrás apenas de São Paulo. Minas Gerais ocupa a terceira posição, o Rio Grande do Sul a quinta, Santa Catarina a sexta e o Ceará a décima terceira. Apesar disso, quando relacionamos os recursos disponíveis para a principal agência estadual de financiamento à pesquisa ao tamanho da economia, o Rio aparece apenas na quinta posição entre os seis estados comparados, ficando proporcionalmente atrás não apenas de São Paulo, mas também de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais, cujas economias são menores.

A comparação com o Rio Grande do Sul talvez seja a que melhor explicita o problema. A economia gaúcha equivale a aproximadamente 55% do tamanho da economia fluminense, enquanto o orçamento da FAPERGS alcança mais de 90% daquele destinado à FAPERJ. Como resultado, quando relacionado ao PIB, o orçamento da fundação gaúcha representa cerca de 0,091%, contra apenas 0,055% no Rio de Janeiro. Em outras palavras, proporcionalmente ao tamanho das respectivas economias, a relação observada no Rio Grande do Sul é aproximadamente 65% superior à fluminense, algo que deveria servir pelo menos para iniciar uma discussão séria sobre qual importância estratégica o governo do Rio pretende efetivamente atribuir à produção científica.

Essa discussão se torna ainda mais necessária quando consideramos a extraordinária capacidade científica instalada no território fluminense. Estamos falando de um estado que abriga UFRJ, UFF, UFRRJ, UERJ, UENF, Fiocruz, CBPF, IMPA e diversas outras instituições de ensino e pesquisa, além de uma forte concentração de programas de pós-graduação, laboratórios e pesquisadores altamente qualificados. Poucos estados brasileiros dispõem de uma estrutura científica semelhante, razão pela qual o problema do Rio de Janeiro certamente não está na falta de capacidade para produzir ciência, mas na dificuldade histórica de transformar essa capacidade instalada em elemento estratégico de uma política estadual de desenvolvimento de longo prazo.

É nesse contexto que também considero preocupante a insistência de Ricardo Couto em apresentar a aproximação entre a produção científica e as demandas do setor produtivo como um dos elementos centrais da nova estrutura. Não há nada de errado em aproximar universidades, institutos de pesquisa, governo e empresas, pois essa articulação pode ser extremamente importante para resolver problemas tecnológicos, ambientais, sanitários e econômicos. O problema começa quando essa aproximação é apresentada de uma forma que sugere que a relevância da pesquisa científica deveria ser medida principalmente pela sua capacidade de responder às demandas imediatas do mercado, como se existisse uma relação simples e linear entre pesquisa, inovação e crescimento econômico.

A história da ciência demonstra exatamente o contrário, já que boa parte das tecnologias que hoje movimentam a economia mundial surgiu de pesquisas que, no momento em que foram realizadas, não possuíam qualquer aplicação comercial imediatamente previsível. A física quântica não nasceu para produzir semicondutores, da mesma forma que as pesquisas fundamentais em biologia molecular não começaram porque alguma empresa pretendia comercializar determinado medicamento. Entre uma descoberta científica e sua transformação em inovação tecnológica podem transcorrer décadas, envolvendo caminhos inesperados, fracassos, novas perguntas e descobertas que não estavam sequer imaginadas quando a investigação original começou. Por isso foi particularmente importante que Antonio Claudio da Nóbrega tenha lembrado, ao ser anunciado como futuro secretário, uma verdade elementar que muitas vezes desaparece no discurso empresarial sobre inovação: não existe ciência aplicada sem ciência básica.

Se essa ideia prevalecer, a nova SECTI poderá ter um papel muito mais interessante do que simplesmente funcionar como uma espécie de ponte entre universidades e empresas. O Rio de Janeiro precisa de uma política capaz de articular ciência básica, pesquisa aplicada, inovação tecnológica, formação de pesquisadores, políticas públicas e desenvolvimento econômico e social, o que implica fortalecer a FAPERJ, assegurar financiamento adequado às universidades estaduais, recuperar e ampliar laboratórios e infraestrutura científica, formar novos pesquisadores e técnicos e criar mecanismos inteligentes de cooperação com o setor produtivo. Tudo isso pode e deve ser feito sem transformar universidades públicas em departamentos terceirizados de pesquisa e desenvolvimento de empresas privadas.

Por isso, a recriação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação merece ser saudada, mas não deveria ser confundida com a solução do problema. Ricardo Couto está, antes de tudo, corrigindo parcialmente o erro de ter extinguido uma estrutura que jamais deveria ter sido extinta, e a mobilização da comunidade científica certamente teve papel decisivo nessa mudança de rumo. A questão agora é saber se teremos simplesmente uma nova placa colocada na porta e mais uma secretaria no organograma estadual ou se o governo pretende construir uma verdadeira política de Estado para Ciência, Tecnologia e Inovação, algo que inevitavelmente terá de aparecer de forma concreta nos próximos orçamentos.

Afinal, ciência não se faz apenas com discursos sobre inovação, reuniões com empresários ou solenidades para anunciar secretarias. Ela exige universidades fortes, pesquisadores qualificados, liberdade de investigação, laboratórios bem equipados, planejamento de longo prazo e financiamento público estável. O Rio de Janeiro já possui uma extraordinária capacidade de produzir conhecimento e continua sendo um dos principais centros científicos brasileiros; o que o governo estadual ainda precisa demonstrar é se está disposto a investir nessa capacidade à altura da grandeza de sua própria economia, pois recriar a secretaria para depois deixar o cofre vazio significará apenas substituir um erro por outro.